no site na web Voltar ao inícioHomePesquisarPesquisarMapa do siteMapa do Site

OS CEGOS EM SÃO PAULO 1922-1954

J O S É  G A V R O N S K I

 
OS CEGOS EM SÃO PAULO
1922-1954

HOMENAGEM AO I CENTENÁRIO DO MOVIMENTO EM FAVOR DO CEGO NO BRASIL - 1854 - 1954

CONTRIBUIÇÃO  DA  ASSOCIAÇÃO PROMOTORA DE INSTRUÇÃO E TRABALHO PARA CEGOS AO IV CENTENÁRIO DA FUNDAÇÃO DE SÃO PAULO

GRÁFICA EDITORA PRELÚDIO
São Paulo
1954

MOTIVOS DA PRESENTE PUBLICAÇÃO

Em Reunião Extraordinária de 19 de Novembro Ge 1953 da Diretoria da Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, o seu 1,° Secretário pronunciou as seguintes palavras:
- "Muitas vezes tem sido lembrada, em nossas reuniões, a conveniência de se escrever o histórico das nossas atividades em favor do cego em São Paulo, o que vale dizer, da Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos.
E agora que transcorre o 4º Centenário da fundação da cidade, achei que poderíamos concorrer, ou melhor, lançar, com o pretexto dessa comemoração, como tantos outros o farão sobre outras atividades e iniciativas dos paulistas, a história do movimento em prol do cego em S. Paulo. Penso, pois, que não devemos perder a oportunidade desse lançamento no próximo ano, concorrendo assim a Associação para o arquivo histórico das comemorações do 4º Centenário da fundação de S. Paulo".
A idéia obteve aprovação plena, sendo anunciada a sua execução em Assembléia Geral realizada a 24 de Janeiro de 1954 Iniciados os serviços de pesquisa e concatenação de dados e documentos, mais um .motivo veio se juntar ao já exposto: é que se comemora em Í954 o 1º Centenário do inicio do movimento em prol do cego no Brasil. E fatos tais, como que se entrelaçam em trabalho desta natureza, em sucessões de acontecimentos que se acharia interligados.
Uma homenagem, pois, justifica-se no transcurso de data tão memorável, E nenhuma forma comemorativa marca mais indelevelmente um acontecimento do que a publicação do seu histórico.

 
'

ASSOCIAÇÃO PROMOTORA DE INSTRUÇÃO E TRABALHO PARA CEGOS

SUA HISTÓRIA


-
JUSTIFICAÇÃO

É sempre interessante o histórico de qualquer acontecimento, a descrição de um fato sempre desperta uma certa curiosidade e as suas enunciações quando feitas com honestidade sempre servem para documentar para a posteridade as realizações dos homens.
E na comemoração do 4,° Centenário da fundação de S. Paulo todos os cometimentos dos paulistanos deveriam, se possível, ser relatados, como contribuição a essa grande efeméride.
Eis os motivos da publicação da história da fundação da A-P-1-T- para Cegos. E tanto é mais importante um relato sobre a fundação e a atuação da A-P-1-T- para Cegos, porquanto ela envolve a história em geral do movimento em prol dos cegos em S- Paulo, com indiscutível influência sobre o mesmo movimento noutros Estados do país, o que vale dizer: não se poderia descrever esse movimento sem enunciar com destaque a luta da A-P-1,T, para Cegas em S. Paulo. De outra forma seria desvirtuar a história.
Á Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos cabe, pois, o principal galardão se considerarmos tal esforço aliado ao fato de ter sido a pioneira no movimento que visa integrar o cego na sociedade como elemento útil, libertando-o assim da mendicidade.
Em suma, falar em prol do cego no Brasil é falar na A-P-1-T- para Cegas de S. Paulo, e descrever o histórico desta, significa relatar a vida do prof.- Mamede Francisco Freire seu inspirador, Essas descrições estão interligadas, são questões, por assim dizer, axiomáticas, tão intimamente ligadas entre si, que, contadas em separado - movimento dos cegos, A-P-1-T-C- e prof. Mamede - implicaria numa segunda intenção do seu autor, pois com se verá, foi o prof. Mamede a alma viva de tudo, graças á sua rara inteligência, á sua grande cultura e o seu amor á causa, dela fazendo um verdadeiro apostolado. As associações pró cegos no Brasil ou a causa das cegos em sua pátria tornaram-se como que um corolário de sua própria existência- O seu lema "Dos cegos, pelos cegos, para os cegos" tornou-se o slogan dos invisuais que vislumbraram algo através da alfabetização.
Aqueles que não tiveram a felicidade de se alfabetizar mas que compreenderam a doutrina do prof. Mamede, entreviram aí a sua salvação.
Discorrer, porém, sobre uma parte da sociedade que vivia tão á margem parecerá um desperdício aos que não atinam o seu alcance. Entretanto, só a comprovação de que até os cegos podem trabalhar constitui uma elevada função social da A-P-1-T- para Cegos, de vez que isso representa um golpe contra a ociosidade representada por elementos menos deficitários, que, com tal pretexto vivem parasitariamente a sugar o esforço alheio.
Esse inestimável serviço que ela presta á sociedade é o suficiente para justificar todas as atenções e a maior dedicação por parte dos espíritos bem formadas e pelas autoridades públicas á causa que ela encarna, razão bastante ponderável, portanto, para a publicação do presente trabalho.
Uma advertência: - Pede-se relevar os erros de ortografia, e os cochilos de revisão, pois o objetivo do autor é fazer um documentário e não uma obra de literatura.
Justificada, pois, a publicação do presente histórico, entremos, sem mais preâmbulos, na descrição dos primeiros passos conhecidos sobre o assunto.
Eis a ordem cronológica de fundações pró cegos no Brasil:

INSTITUTO BENJAMIM CONSTANT

Precisamente ha um século, a 17 de Setembro de 1854, fundava-se em nosso país a primeira escola para cegos, ainda sob o governo imperial, que mais tarde, na República, veio a denominar-se Instituto Benjamim Constant em homenagem àquele inolvidável positivista que foi um das precursores do novo regime.
E como se trata da primeira manifestação de efeito concreto no Brasil em favor do cego, não deixa de ser interessante uma ligeira digressão em torno do caso:
A um jovem cego brasileiro se deve a idéia da fundação de um estabelecimento onde fosse convenientemente educada a juventude cega em nossa pátria. José Alvares de Azevedo, natural do Rio de Janeiro, cego, educado na Instituition lmperiale des Jeunes Aveugles, de Paris, foi quem teve essa idéia, que se originou do fato seguinte:
Em 1853, achando-se ele no Rio de Janeiro, de volta de Paris, soube que o Dr. José Francisco Xavier Sigaud, médico do Paço Imperial, tinha uma filha cega, e prontamente ofereceu-se para ministrar-lhe a necessária instrução pelos processos especiais por que fora educado em Paris.
Era então ministro do Império o Dr. Luiz Pedreira do Couto Ferraz, depois Visconde de Bom Retiro, que, obtendo aquiescência do Imperador D - Pedro 11, criou o "Imperial Instituto dos Meninos Cegos".
O respetivo decreto tem a data de 12 de setembro de 1854, e a inauguração do estabelecimento efetuou-se a 17 desse mesmo mês e ano.
São estes os seus dizeres:
'"crea nesta Côrte hum Instituto denominado Imperial Instituto dos Meninas Cegos.
Hei por bem, em virtude da autorização concedida no parágrafo segundo do decreto n.° 781 de dez do corrente mez, crear nesta Côrte hurn Instituto denominado Imperial Instituto dos Meninos Cegos, o qual se regerá provisoriamente pelo Regulamento que com este baixa, assinado por Luiz Pedreira do Couto Ferraz, do Meu Conselho, Ministro e secretário d'Estado dos Negócios do Império, que assim o tenha entendido e faça executar.
Palácio do Rio de Janeiro em doze de setembro de mil oitocentos e cincoenta e quatro, trigésimo terceiro da Independência e do Império.
Com a Rubrica de Sua Majestade o Imperador.

Luiz Pedreira do Couto Ferraz


Tendo sido proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil e cessando por isso a razão de ser da antiga denominação - Imperial Instituto de Meninos Cegos - resolveu o Governo Provisório, por decreto de 30 de Janeiro de 1890 dar-lhe a denominação de "Instituto Nacional dos Cegos", que, depois, Dor decreto de 24 de Janeiro de 1891 foi mudado para o de "Instituto Benjamim Constant", em homenagem á memória do ilustre diretor Dr. Benjamim Constant Botelho de Magalhães, que tantos serviços prestou a este estabelecimento ao qual ligou assim o seu nome glorioso.
Outros dados que mais esclarecem o fato, dizem o seguinte: Criado por decreto imperial de 12 de Setembro de 1854, o Instituto inaugurou-se solenemente a 17 de Setembro do mesmo ano, no velho casarão da chácara dos Coqueiros, no Morro da Saúde, na Gamboa, onde se encontra hoje o hospital deste nome. Foi seu primeiro diretor o Dr. José Francisco Xavier Sigaud e capelão o cônego Joaquim Caetano Fernandes Pinheiro. José Alvares de Azevedo morreu antes da sua inauguração, doando-lhe todas os seus utensílios escolares, livros, aparelhos de escrever e calcular. Falecendo Sigaud em 1856, sucedeu-lhe na Diretoria, seu colega Dr. Cláudio Luiz da Costa, sob cuja gestão, muito se desenvolveu o estabelecimento e transferiu-se em 1864 para o vasto prédio velho da Praça da Aclamação, (antigo Campo de Santana) então n.° 17, onde se processou a Revolução de 89 que deu em resultado a fundação da 1ª República. Por morte do Dr. Cláudio, em 1869, assumiu a direção do Instituto seu genro Dr. Benjamim Constant Botelho de Magalhães, do qual já era antes professor. Benjamim Constant exerceu o cargo durante 20 anos, pois o deixou em 89. Já em 1862 a Princesa Imperial, autorizada por seu augusto pai, doara aos cegos, vasto terreno de sua propriedade na Praia Vermelha, para que aí se fundasse o Instituto próprio para uso e gozo dos cegos e suas famílias, tendo sido lançada a 29 de Junho desse mesmo ano a pedra fundamental do futuro estabelecimento. Foi tão morosa a sua construção que só em 1890 foi possível a transferência daquele instituto do antigo quartel do Corpo de Bombeiros, do Campo de Santana para o atual edifício da Praia Vermelha, cuja conclusão só pôde ser efetuada - é incrível - 60 anos depois.

OUTRAS INSTITUIÇÕES

Como se fora uma questão semimorta, por assim dizer, pois ela sofreu uma estagnação de 58 anos, no ano de 1912 fundava-se, por iniciativa da ilustre cego Mauro Montagna, também no Rio de Janeiro, a Escola e Asilo para Cegos Adultos.
A 17 de Outubro de 1920 aparecia, ainda na Capital da República a Liga de Auxílios Mútuos de Cegos no Brasil, mais tarde passando a chamar-se Liga de Proteção aos Cegos no Brasil.
Outra fundação verificava-se logo mais, a União dos Cegos no Brasil, em 1924 e em 1925 a Sociedade Aliança dos Cegos, todas no Rio de Janeiro.
Em 1926 fundava-se o 2.° Instituto oficial para cegos no país, iniciativa do governo mineiro denominado Instituto São Rafael,
A 30 de Abril de 1933 dava-se a fundação do Instituto de Cegos da Bahia.
Após, vieram outras organizações congêneres no Rio Grande do Sul, no Paraná e em Pernambuco.

EM SÃO PAULO

Em S. Paulo, o que se sabe a respeito do assunto é que por volta do ano de 1922 uma comissão de cegos educados no Instituto Benjamim Constant, da Capital Federal, residentes em S. Paulo, composta pelos jovens Amadeu Moretti, Paulo Salvagnini e João Salvagnini procurou uma organização maçônica e na pessoa de seu grão mestre, o prof. Dr. Antônio Piccarolo, pediu apoio ao intento de se dotar o nosso Estado de um instituto de amparo aos cegos.
O já extinto prof. Dr. Antônio Piccarolo, que então regia uma cadeira no Ginásio Estadual, solidarizou-se com os cegos que o procuravam e prometeu auxilia-los em tão humano empreendimento. Para isso procurou interessar no assunto o senador estadual Dr. Freitas Valle que levou ao conhecimento do então presidente do Estado, o saudoso Dr. Carlos de Campos, o ideal dos cegos paulistas.
Foi nessa tentativa que a comissão de cegos integrada por Amadeu Moretti, Paulo e João Salvagnini, nesta altura, já com sua sede de trabalho sita á rua Visconde de Parnaíba, 288, dirigiu carta ao Ex.mo, Sr. Dr. Carlos de Campos, pedindo a s. Ex.a, se dignasse conceder-lhe uma audiência especial no Palácio do Governo, a esse tempo, no Pátio do Colégio.
O Dr. Carlos de Campos respondeu aos cegos, designando dia e hora Para uma audiência particular em que eles seriam recebidos.
Uma vez em presença do Ex.mo. Sr. Presidente do Estado, a comissão de cegos expôs o seu nobre desiderato, tendo o Dr. Carlos de Campos se detido com os componentes dessa comissão em cordial palestra, em que se aventou a idéia de se dar ao Instituto em cogitação o nome do Dr. Bernardino de Campos, seu ilustre progenitor e também ex-presidente do Estado, que sofrera a provação da cegueira no último quartel de sua existência. Por essa ocasião escolheram até a data para o lançamento da fundação que seria a 20 de Maio, por marcar o calendário o dia de São Bernardino
Como se vê, nessa reunião trocaram-se sentimentos afetivos, o Sr, Presidente do Estado e os cegos, e ao terminar tão carinhosa audiência, o cego Paulo Salvagnini executou ao piano nos aposentos privados do palácio uma musica de sua lavra e dedicada ao Dr. Carlos de Campos que se intitulava "ternura", oferecendo-lhe um exemplar da mesma.
Como resultado dessa memorável acolhida dos cegos em palácio, apareceu na sede que os mesmos haviam instalado, o Ex.mo, Sr. Dr. Pedro Voss, então Diretor Geral do Ensino, que em nome do Governo oferecia para a instalação do Instituto uma casa na cidade de Jacareí.
O destino, porém, desta vez, não favoreceu a pretensão dos cegos. A revolução de S. Paulo, chefiada pelo .general Isidoro Dias Lopes, em 1924, interrompeu esses primeiros passos que já enchiam os cegos de esperança. Tal acontecimento muito influiu em várias iniciativas, desde que os revolucionários chegaram a empunhar as rédeas do governo e as forças legais castigaram rudemente a cidade, bombardeando-a durante cerca de vinte dias.
Tais esforços dos cegos sofreram, assim, um duro golpe, de vez que. retirando-se, embora, as forças revolucionarias e reposto o governo legal. este se encontrou a braços com problemas de mais urgente necessidade ou de maior interesse para a população, além dos gastos extraordinários com as depredações verificadas e o movimento militar. Algum tempo depois falecia o Ex.mo. Sr. Dr. Carlos de Campos, em quem os cegos depositavam tantas esperanças, sofrendo estes assim, um verdadeiro colapso nas suas intenções, E como sempre soe acontecer em tais circunstâncias, um certo desânimo se apoderou daqueles que alimentavam a idéia de algo realizar pela sorte dos cegos em 5. Paulo.
Por esse tempo, entretanto, felizmente, já se interessavam pela causa vários elementos de vista, afim de auxiliarem os cegos nas suas pretensões.


Como fruto dessas primeiras tentativas, reuniões e trabalhos, assinalemos o seguinte episódio que marca talvez a primeira conquista do cego em S. Paulo. Estes endereçaram uma carta ao então diretor do Conservatório Dramático e Musical de S. Paulo Dr. Pedro Augusto Gomes Cardim, pedindo-lhe a criação de uma cadeira de ensino de música para os cegos, dando-se a regência dessa cadeira a um professor cego. O Dr. Gomes Cardim, espírito de escol, atendeu á solicitação, nomeando o professor cego Alfredo Sangiorgi para reger o ensino da música aos seus companheiras de infortúnio no referido estabelecimento..

Neste ponto do histórico não seria justo deixar de enaltecer a dedicação das pessoas videntes que se aliaram na obra de emancipação dos cegos Não tendo outro interesse que o de servir os seus semelhantes mais infelizes ou de prestar um beneficio á comunidade social em que vivemos, só provam elevação de sentimentos. Sem estes, não seria, talvez, possível, a consecução de qualquer empreendimento, pois eram, no momento, muito débeis as possibilidades de qualquer sucesso, bastante reduzido o número de cegos capazes de alguma iniciativa e a mentalidade em vigor entre todas as classes sociais era a de que o cego não passava de um infeliz, sujeito a viver para sempre como indigente ou como peso morto no seio de suas famílias.
É verdade que, talvez em virtude de nada usufruírem essas pessoas videntes, além da satisfação da pratica de um bem, verificou-se grande inconstância no inicio dos trabalhos, sendo continuas os pedidos de demissão aos cargos para que eram designadas, o que tornava sobremaneira difícil a tarefa daqueles que estavam dispostos a tudo arrostar para tornar realidade um sonho que se ia aos poucos concretizando, a despeito de todos os óbices. Houve membros eleitos para a Diretoria que não chegaram a comparecer a uma só reunião, pessoas que fizeram promessas em favor da causa e jamais cumpriram e outras que não se pejaram de causar-lhe enormes prejuízos e até alcance nas suas parcas economias.

Por essa época contavam-se cerca de sete mil cegos no Estado de S. Paulo e trinta mil em todo o país. Ora, no Estado de S. Paulo, o mais adiantado e mais rico da Federação, os cegos mourejavam no mais completo abandono á cata de esmolas e vivendo na mais humilhante dependência, uma vez que necessitando de guias, estes é que solapavam quase todas as suas economias angariadas, como é fácil de se depreender, na maioria dos casos.
Analfabetismo, miséria e abandono completo por parte dos poderes oficiais, esse era o verdadeiro aspecto do setor social em S. Paulo, cuja história traçamos. A presença de um cego só despertava piedade e não se tinha para ele mais do que a simples expressão - coitado! E nem o mais leve prurido de qualquer ação em seu favor. E a não ser os intelectuais que estudam a evolução social da humanidade, era a mais completa a ignorância de que o cego pôde produzir como fator econômico. Alguns cegos, menos infelizes, logrando uma recomendação de influência política, conseguiam matricula no único estabelecimento especializado existente no país, onde se alfabetizavam e aprendiam um oficio, mas dali saindo, embora educados, continuavam quase na mesma situação anterior, por não encontrarem ambiente propicio aos seus conhecimentos. O caso dos irmãos Salvagnini era típico: estes, quando meninos tiveram a proteção do Dr. Júlio de Mesquita, pai, senador e diretor do grande órgão de imprensa '"O Estado de S. Paulo". Cegos de nascença e havendo ficado órfãos de pai, que morreu vitima de acidente, foram recolhidos com sua progenitora d. Mariana Salvagnini, a uma propriedade agrícola daquela prestigiosa personalidade que por essa formo amparou a família composta de viuva e sete filhos menores, internando os dois ceguinhos no referido instituto oficial no Rio de Janeiro.
O número desses cegos menos infelizes, porém, era tão diminuto que não se tinha conhecimento de sua existência. Que poderia fazer um único estabelecimento de instrução especializada num imenso país como é o nosso, com uma verba limitada e um reduzido número de vagas?
Foi, entretanto, com alguns elementos egressos desse instituto oficial de cegos, existente já desde o período imperial que se fundaram a "Liga dos Cegos" e a "União dos Cegos no Brasil", ambas no Rio de Janeiro, como já ficou dito, e organizava-se na capital de Minas Gerais, sob os auspícios do seu presidente Dr. Ferrando de Mello Vianna, o Instituto de Cegos São Rafael.
De todas essas iniciativas surgia um nome, como se fora um farol a iluminar as trevas do mundo cego. Com esse nome, novas esperanças a animarem as cegos de S. Paulo, agora já coadjuvados par alguns elementos de vista. É que fazia falta um elemento capaz em nosso meio. O nome que pairava como uma grande esperança estava longe. Nessa pessoa consubstanciava-se a capacidade de organização e o ideal admirável que era o de ministrar instrução e trabalho aos cegos, proporcionando-lhes os meias de subsistência em atividades remuneradas, afim de liberta-los da mendicidade, Que mais poderiam eles querer? Resolveram, então, entrar em contato com essa pessoa, o prof. Mamede Francisco Freire, a esse tempo exercendo o cargo de vice-diretor do Instituto São Rafael, de Belo Horizonte.
E com a adesão desse importantíssimo elemento, agora constituídos em numerosa agrupação, bateram em todas as portas que eles julgaram possível lhes serem abertas e buscaram o auxilio da intelectualidade paulista, de quem receberam animador apoio. E dos que mourejavam na imprensa a promessa de escrever sobre a causa, para, desse modo, agitar a opinião pública em favor do ideal em marcha.
Nessa caminhada, obtiveram assim, os cegos o apoio dos seguintes órgãos de imprensa: "O Estado de S. Paulo", "A Gazeta", o "O Correio Paulistano", o "O Diário da Noite", o '"Diário Popular", o "Fanfulla", o "Diário de 5. Paulo", o "Combate", e outros de menos projeção, mas que contribuíram eficazmente para a grande peleja da sua redenção.
Entre os intelectuais e jornalistas dignos de menção na História dos Cegos de 5. Paulo e que nos ocorrem á memória, podemos mencionar: Afonso Schmidt, Miguel de Arco e Flecha, Gumercindo Fleury, Arsênio Palácios, Albino Chiodi, Basíleo Garcia e finalmente o Dr. Afonso de Freitas, historiador e presidente do Instituto Histórico e Geográfico. Prestou valioso concurso o saudoso poeta cirurgião dentista Raymundo Reis, colaborando também a grande escritora Patrícia d. Maria Lacerda de Moura e o jornalista Dr. Casper Líbero.
Um nome, entretanto, avulta entre todos esses colaboradores da causa: a Ex.ma. Sra. d. lzabel Cerruti em todos esses passos era a animadora entusiasta, em cuja residência se consertavam todos os planos para a luta. O seu nome aparece continuamente ao lado dos cegos que acorreram para a consecução do ideal. D. lzabel lutou e sofreu muitos dissabores até ele se tornar realidade, o que se deu no ano de 1927. Até aí, não obstante as desinteligências e incompreensões no seio do grupo que já era desenvolvido, d, lzabel Cerruti não desanimara ainda, sempre buscando novos elementos para prosseguimento da luta. E assim é que, ainda em sua residência, afinal, no dia 20 de Maio de 1927, reuniram-se em assembléia os cegos e os amigos da obra em apreço para a instalação da sociedade que veio a denominar-se Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos.
Cinco longos anos de ensaio, de preparos, de propaganda, de trabalho e de dispêndio de energias, como se viu, foram necessários para se tornar realidade o primeiro organismo social de cegos ou para cegos no mais próspero centro de atividade do país.
Eis a sua ata de fundação:
"Aos vinte dias do mês de Maio de mil novecentos e vinte e sete, nesta Capital, no prédio sito á rua Visconde de Parnaíba número duzentos e oitenta e oito, reuniram-se, ás vinte horas, as pessoas abaixo mencionadas (cegos e videntes) para o fim de fundarem na referida capital deste Estado, uma associação promotora de instrução e trabalhos para os cegos desvalidos, por idéia aventada pelo ilustre jornalista Sr. Albino Chiodi. Para dirigir os trabalhos da sessão de fundação e instalação da aludida associação, foi aclamado presidente o Sr. Americo Cerruti, o qual convidou para secretariar á Ex.ma, Sra., d. Raphaela Palácios e o Sr. Hermenegildo de Aquino. Organizada a Mesa, o Sr, presidente expôs os fins da reunião, dando a palavra ao Sr, Albino Chiodi que apresentou a idéia da fundação de uma saciedade que amparasse as aspirações dos cegos. O Sr. presidente pôs  proposta em discussão e a submeteu em seguida á aprovação, a qual (ai aceita sem debate. D. lzabel Cerruti achando que a nascente sociedade deve amparar os cegos sem lhes restringir a liberdade, propõe que se dê á nova agremiação o nome de Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, ficando assim definido em síntese, o objetivo da referida sociedade. O Sr. presidente pós em discussão e submeteu logo á votação essa proposta que é aceita e aprovada unanimemente. Em seguida o Sr. Alfredo Sangiorgi (cego) salienta a urgência de elaboração dos estatutos que devem reger os destinos da sociedade, a qual deve vazar-se nos moldes da "União dos Cegos no Brasil" do Rio de Janeiro e confederar-se com a mesma, para maior eficiência dos benefícios a que se propõe, por isso considera imprescindível que figure entre a comissão de elaboração da lei social o prof. Mamede Freire, Diretor Técnico da referida "União" e propõe para compor a comissão de elaboração dos estatutos da sociedade os Srs. Mamede Freire, Amadeu Moretti e Hermenegildo de Aquino. Essa proposta foi aprovada sem debates. O Sr. presidente fazendo uso da palavra declarou aos presentes a necessidade de eleger uma diretoria provisória para dirigir os destinos da Associação até o momento de serem apresentados os estatutos elaborados pela comissão que foi eleita. Por isso suspendeu por alguns minutos a sessão para o fim de organizar a chapa da referida diretoria. Reabrindo a sessão o Sr. Amadeu Moretti (cego), para facilitar os trabalhos, devido ao adiantado da hora, propõe que seja eleita por aclamação a seguinte diretoria: Presidente, prof. Albino Chiodi; vice-presidente, Alfredo Sangiorgi (cego); 1.° Secretaria, D. lzabel Cerruti; 2.° Secretaria, d. Manoela Palacios Soares; Tesoureiro, Júlio Cosi; Vice-Tesoureiro, Alpheu  Tomasini; Procurador, Manoel Miranda Cruz; Diretor Técnico, Prof. Mamede Freire; Comissão de Sindicância e Contas, Amadeu Moretti, Humberto Vetillo, João Sangiorgi, Hermeneaildo de Aquino. A proposta do Sr, Moretti foi aceita e aprovada unanimemente. O Sr. presidente convida os Srs., diretores presentes a tomarem posse dos seus cargos. Estiveram presentes a reunião as seguintes pessoas: Prof. Alfredo Sangiorgi, Amadeu Moretti, Prof.a. Maria de Abreu, lzabel Cerruti, Mariana Salvagnini, Miguel Salvagnini, Antônio Bertolucci, Alpheu Tomasini, Arsênio Palacios, Afonso Schmidt, Prof. Albino Chiodi, Americo Cerruti, José Cerruti, Fábio Bernoldi, José de Abreu, Itália Moretti, Humberto Vetillo, Josephina Vetillo, Maria Ferreira da Silva, Manuel Miranda Cruz, Júlio Cosi, Hermenegildo de Aquino João dos Santos e Raymundo Reis. Não havendo nada mais a tratar, o Sr. presidente encerrou a sessão ás vinte e duas horas. Americo Cerruti, Hermenegildo de Aquino, José Cerruti, Raymundo Reis, Manoel Miranda Cruz, - secretário".
A presente ata teve a aprovação da Assembléia realizada a 24 de Agosto do mesmo ano.
Nesta segunda Assembléia foram apresentados e aprovados os Estatutos.
Os trabalhos foram abertos pelo prof. Mamede Freire, previamente convocado pela Diretoria, que convidou para assumir a presidência da Mesa o Sr. José Cerruti, sendo a mesma secretariada pelos Srs. Raymundo Reis, e Manoel de Miranda Cruz.
A terceira Assembléia Geral efetuou-se a 5 de Setembro desse mesmo ano e foi convocada para a eleição da diretoria efetiva. Esteve a presidi-la o Sr. José de Freitas, funcionando como secretários a Sra. d. lzabel Cerruii e Sr. Manoel de Miranda Cruz.
A primeira diretoria efetiva eleita nessa Assembléia ficou assim constituída: Afonso A. de Freitas, Presidente; d, lzabel Cerruti, 1.° Secretaria; d. Manoela Soares Palacios, 2.° Secretaria; Júlio Cosi, Tesoureiro; Manoel de Miranda Cruz, Procurador; Prof. Mamede Freire, Diretor Técnico; e as comissões: de Contas, José A. de Freitas, José Cerruti e Antônio Ximenes Filho; de Sindicância, Hermenegildo de Aquino, Sétimo Salvagnini e Raymundo Reis. A Técnica ficou a cargo dos cegos Alfredo Sangiorgi Amadeu Moretti e José de Abreu. Achavam-se todos presentes e foram empossados nos respectivos cargos.
Esta Assembléia que realizou-se á Praça João Mendes n.° 3 deliberou também instalar a sede social nesse mesmo prédio, alugando-se para esse fim a sala n.° 5.
A l0 de Outubro de 1927, resolvia-se contratar um prédio em Guaiaúna (subúrbio) para a instalação do 1º Núcleo Profissional de Cegos. Efetuada a transação, começaram as demarches para a sua inauguração e funcionamento, de tudo dando-se larga publicidade, pois constituía isso uma novidade para S. Paulo pelo que fazia-se intensa nesses dias a propaganda em favor da causa dos cegos. Assim, a "Promotora" logo a seguir abria as portas do seu 1º Núcleo Profissional de Cegos em Guaiaúna, em cuja inauguração compareceu o ajudante de ordens do Sr. Presidente do Estado e grande massa de povo; jornais havia que publicavam um manifesto dos cegos.
As dissensões, porém, ainda não estavam superadas por alguns desentendimentos surgidos entre os diretores.,. Os esforços ainda não estavam consolidados, mas tudo marchava para o sucesso, quando rumores começaram a se fazer ouvir sobre a fundação de uma outra instituição para cegos em S. Paulo.
As entrevistas concedidas á imprensa pelo prof. Mamede Freire em suas vindas a esta cidade, a conferência por s, s, pronunciada no Instituto Histórico e a publicação do manifesto tiveram grande repercussão. Esse manifesto exprimia todos os anseios dos cegos e os seus termos traduziam os sentimentos do mais belo ideal, como se verá:

MANIFESTO PROGRAMA DOS CEGOS AO POVO DE S. PAULO

Os cegos professores, músicos e operários educados no Brasil ou no estrangeiro, que ora vivem na sociedade à mercê de seus próprios merecimentos, convencidos de que só poderão melhorar as condições de sua existência por meio de uma grande e forte união entre eles e seus co-irmãos de infortúnio, não educados, sob a proteção do povo liberal deste Estado, que certo os coadjuvará nessa útil e necessária aproximação, dirigem a todos os cegos paulistas, aos homens de coração bem formados e aos poderes públicos o seguinte manifesto:
O grande número dos que não vêem, em S. Paulo, é dos que ainda podem figurar no quadro dos valores econômicos e morais de uma ordem social em que o trabalho é a sua lei suprema, á cuja sombra bem pode o cego gozar, como qualquer outro indivíduo, o direito de viver também pelo coração e pela inteligência. Cremos firmemente que o progresso moral da humanidade já não permite que viva de esmola um só daqueles que já trabalharam ou que ainda por qualquer forma podem trabalhar. Pois quem já trabalhou tem direito a um repouso digno na sua invalidez merecedora de toda simpatia. Dir-se-ia a sociedade amparando o seu servidor com o rendimento dos serviços que ele já prestou. Porém, o que não é de todo inválido, que nunca trabalhou, ou não lhe faltam energias e capacidade para qualquer função produtiva, não lhe é licito repousar, nem viver do esforço alheio. Vergonhoso seria, pois, para tal indivíduo e a sociedade manter carinhosamente uma existência que mais proveitosa se tornaria para ambos, se fosse mantida por atos econômicos, os quais só o decrépito ou a demente não podem efetuar.
Os cegos viris devem repelir com indignação, a vida de mendicância em família, ou em sociedade como uma grande ofensa á sua dignidade e aos seus merecimentos cada vez mais aumentados com o progresso da ciência econômica e da pedagogia tiflológica, que os habilitam a viver a vida que todos vivem nas grandes como nas pequenas coletividades.
Com efeito, a simplificação do trabalho, a divisão profunda das tarefas, a complexidade crescente das técnicas econômicas do aproveitamento humano, a invenção do alfabeto, dos aparelhos de escrever e calcular, a imprensa e a aparelhagem de varias artes e ofícios ao serviço da educação e conseqüente aproveitamento dos cegos na economia social, são recursos infalíveis de que dispõem os deserdados da vista para assegurarem, numa sociedade culta, os elementos de uma existência independente.
Tais são as grandes construções morais dos homens de coração que meditaram realmente, com afeição na sorte dos fracos e infelizes, arrastando-os da miséria e ignorância, para os amparar sob os tectos da escola e da oficina. Transformando-os aí, em elementos sociais de valor.
Muito devem os cegos aos providenciais autores dessas maravilhosas descobertas, sem as quais os órfãos da luz permaneceriam sob o exclusivo amparo dessa caridade antiga que apenas produz, entre nós, ignorância e parasitismo, tristeza e isolamento. E' que o pão da caridade, não é o pão da vida; não é o pão que basta aos nossos anseios e satisfaz os nossos ideais, Não será com ele, nem com o miserabilíssimo subsidio das nossas atividades isoladas, nem tão pouco com o esforço formidável de um Sansão que havemos de remover empecilhos e males que nos afligem. Bastas provas disso ressaltam dos fatos experimentais da nossa história da organização educacional, social e econômica que não passou ainda de tentativas malogradas ou de ensaios pouco felizes. E' sob essa magna questão que se agrupam problemas de natureza, moral e econômica, cuja solução depende da ação conjunta do governo, da sociedade e dos próprios cegos educados. Pois ha a cuidar simultaneamente dos cegos menores, abandonados ou não, e dos adultos analfabetos ou educados.
Aos menores impende ao governo a obrigação de assisti-los, de ampara-los por uma educação inteligente e adequada; enquanto aos adultos embora carecentes do auxilio dos poderes públicos, cabe a eles e á sociedade em geral, a solução definitiva da sua situação econômica de que depende tudo o mais. A esse respeito tudo parece destinado a falhar, enquanto se não cogitar de uma grande união de cegos, sem distinção de categorias, sexo, crença, ou nacionalidade, sob a proteção geral do povo e dos próprios cegos, devidamente aparelhados para o provimento direto das suas necessidades individuais e coletivas. Somente após uma vasta coordenação dos. valores positivos existentes entre os nossos companheiros de infortúnio, será possível a formação de uma elite que constituirá a base definitiva da associação de resistência aos nossos males, a qual denominamos Associação Promotora de instrução e Trabalho para Cegos. Esse instituto de cooperação livre e expontânea de todos os cegos de boa vontade, operará imediatamente nesta capital e logo após nos diversos municípios ou nos grandes centros do Estado, uma grande concentração de cegos educados para efetuar entre todos uma larga mercancia de instrução e trabalho, uma comunhão espiritual e econômica. A nova associação com as sucursais que fundar, levantará nos centros de atividade agrícola, industrial e comercial, os meios necessários á consecução das seus elevados fins, adaptando praticas adequadas de que se instruirão previamente os agentes de sua inteira confiança.
Aproximação, solidariedade, assistência e resistência econômica, em suma, são os propósitos dessa associação, que, no momento presente, assume a forma e a função que mais convém á reabilitação moral do homem cego. Para que atinja a sua finalidade, basta que cada um de seus membros se convença de que tudo pode e deve fazer em prol de tão subido ideal, e de que deve aceitar com simpatia e confiança, o compromisso moral de acionar-se firme e resolutamente, no sentido em que a associação houver por bem determinar. Em cumprimento desse nobilitaste "desideratum" a Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos dirige um fervoroso apelo ao povo, na universidade de seus elementos, ás classes laboriosas e liberais, produtoras e distribuidoras de S. Paulo, no sentido de lhe enviarem qualquer auxilio, quanto pôde permitir a possibilidade de cada concidadão ou corporação civil e militar política e religioso.- Toda a espécie de auxilio poderá ser enviado à sede da Associação á rua Santa Teresa n. 19, 2.° andar, sala 12.
Os recursos assim adquiridos com os que já dispõe a recente sociedade, senso imediatamente empregados na constituição de seu aparelho distribuidor de instrução e trabalho para cegos o qual terá a seguinte organização:
1.° - Escolas, oficinas e abrigos que funcionarão em núcleos. dispersos pela Capital ou por diversos pontos do Estado; e constarão de instalações modestas para um pequeno numero de cegos conforme a zona em que a Associação os for adquirindo. A direção desses núcleos será confiada á agentes técnicos, dentre os cegos, por cujo intermédio terá a Associação ciência das ocorrências e necessidades a prover. "
Os núcleos serão autônomos logo que possam ter vida própria, obtendo os seus membros vantagens proporcionais aos serviços que prestarem
Em cada núcleo haverá professores, mestres, operários e aprendizes, que residirão dentro ou fora do núcleo, consoante os recursos e a vontade de cada um. Os que habitarem nos núcleos viverão em família a cujo regimen de ordem moral e higiênica devem submeter-se; pois caberá á família dos cegos o dever de conservar a ordem e o asseio do estabelecimento. Livres entre si, mas confederados para fins comuns, os núcleos estarão sempre subordinados á Associação que os cria e ampara.
2.° - Escola de aperfeiçoamento para professores e aspirantes á docência dos núcleos, a qual terá um curso anexo de estudos gerais para todos, sob a forma de conferencias.
3.° - Uma casa publicadora de obras úteis - literárias e musicais - na qual haverá uma biblioteca, uma revista em '"Braille" para propaganda e defesa das idéias sociais e informação do que se passa, sobre cegos, pelo mundo e especialmente entre nós e a nossa Associação.
Os professores e mestres dos pré-citados núcleos só poderão ser os cegos que além de educados em estabelecimentos públicos ou privados, nacionais ou estrangeiros, possam oferecer prova publica de sua competência. E sejam antes de tudo membros da associação por cuja conta trabalham e hão de receber uma justa recompensa. Cada membro da associação que exercer uma industria ou profissão mantida ou angariada por ela. concorrerá para a caixa social com o decimo da sua renda liquida, a fim de ampara-lo quando impossibilitado de trabalhar por qualquer motivo.
A Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, recentemente fundada nesta capital, pelos cegos abaixo assinados, tem cerca de setecentos sócios e muito mais do dobro necessita ainda, para estabelecer o primeiro núcleo de cegos que será o protótipo modelar de outros que tanto urge criar para salvação de cinco mil paulistas imersos na cegueira, anulados pela ignorância. Há em São Paulo, espaço para vinte institutos de cegos; mas bastariam dois que fossem calcados no molde europeu ou norte americano, para reduzirem em dez anos á unidades econômicas 80% dos cegos inativos. E' para essa obra de elevado alcance social compatível com a evolução moral dos grandes povos, que pedimos ao generoso povo paulista o seu valiosíssimo concurso.
Prof. Mamede Freire.
Prof., Levino Albano da Conceição
Eng. Teodoro Bagnani
Amadeu Moretti
Itália Moretti
Arthur Campos Filho
Dante Egreggio
Fabio Bernoldi
José de Abreu
Maria de Abreu
Catharina Wermes
Elisa Grutter
Manha Staffen. _
Oswaldo Borelli.

Eis um superior programa de assistência aos cegos, elaborado pelos próprios cegos sob a admirável inspiração do insigne prof. Mamede Freire.
Muitos deles ainda vivem e têm a grata satisfação de constatar o realização quase plena do seu ideal aí tão bem exposto.


O INSTITUTO PROFISSIONAL DE CÉGOS PADRE CHICO

Enquanto assim se agitavam os elementos interessados em consolidar os alicerces já lançados da primeira instituição de cegos fundada no Estado de S. Paulo, já se ia também tornando realidade a outra fundação para amparar os cegos, esta agora com caráter religioso. Com a grande propaganda já realizada pela "Promotora" e contando com o apoio geral da população, estava vencedora a iniciativa que tomou o nome de Instituto de Cegos Padre Chico, em homenagem a um ilustre sacerdote do Cabido Metropolitano de S. Paulo dotado de grandes virtudes e já falecido. Em beneficio desta fundação o jornal de mais prestigio no Estado abriu uma subscrição pública, tendo angariado em curto espaço de tempo quantia superior a seiscentos contos de reis, muito vultuosa para a época e suficiente para a construção de um grande edifício. Ofereceram-lhe terreno para a edificação do prédio e em breve estava a segunda instituição de cegos fundada no Estado, magnífica e confortavelmente instalada na colina do Ipiranga, hoje mantendo para mais de 200 crianças cegas de ambos os sexos, as quais ministra ensino primário, secundário e profissional, sob a direção de irmãs de caridade. É um educandárío que faz jus, mais do que qualquer outro, á simpatia pública, pois que evidentemente necessita mais de amparo a criança anormal.
A Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, sem tão ponderável ajuda e sem qualquer auxilio dos poderes públicos, só contando com as pequenas contribuições de seus associados, prosseguia a sua rota ainda eivada de óbices e dificuldades. Estas também se evidenciavam no terreno administrativo. Nem poderia deixar de ser assim ao se levar em conta tanto trabalho sem remuneração por pessoas já sobrecarregadas de afazeres, todas proletárias ou de profissões liberais. Assim, na Assembléia Geral de 3 de Janeiro de 1928 solicitavam demissão o presidente Sr. Afonço A, de Freitas, o tesoureiro Sr. Júlio Cosi, a 2.° secretaria Sr.a, d. Manoela Palácios, os sindicantes Sétimo Salvagnini e Raymundo Reis, e o procurador Sr Manoel M, Cruz, quatro meses apenas após haverem tomado posse. Nessa mesma Assembléia eram eleitos os substitutos, cabendo a presidência ao Sr. Raymundo Reis. Já na Assembléia seguinte a 27 de Maio do mesmo ano, a mesma crise verificava-se, sendo eleita uma nova diretoria, em que coube a presidência ao Sr. Dante Ravagnani.
Após o primeiro ano de existência, essas substituições de diretorias revelam quão difícil foi a consolidação da administração da "Promotora". E a luta continuou. A 14 de Abril de 1929 realizava-se no prédio do 1º Núcleo Profissional da Associação em Guaiaúna, presidida eventualmente pelo autor do presente histórico, uma outra Assembléia Geral em que se demite o Sr. Dante Ravagnani da presidência efetiva, sendo eleito o Sr. Antônio Borrego para substitui-lo. Tomando parte nos trabalhos desta Assembléia achava-se presente o Sr. prof. Mamede Freire.
Logo após esta última Assembléia, que foi, aliás, um tanto agitada, perdia a Associação o valioso quão abnegado concurso da Ex.ma, Sr.a, d. lzabel Cerruti, que se demitiu do cargo de 1.° Secretaria, sendo convocado a substituir-lhe o Sr. José Gavronski.
Nesta fase da existência da "Promotora" o que o autor do presente relato observou e também experimentou foi a necessidade de grandes esforços pela sua sobrevivência, menos em virtude de recursos econômicos do que pela incompreensão dos elementos mais interessados. É que nem todos eles entreviam a concepção do ideal pelo mesmo prisma. E quando mais agudas se tornavam as crises eram as missivas e instruções enviadas pelo prof. Mamede, do Rio de Janeiro ou de Belo Horizonte, que faziam os reajustes e conseqüentes harmonizações. As suas cartas constituíam verdadeiros faróis a nortearem e iluminarem os caminhos como se estes ainda não fossem bastante claros e evidentes para alguns. Si algum elemento se desviava, essas missivas o colocavam novamente no rumo certo e seguro. É que os seus dizeres primavam em sabedoria e os seus conceitos eram ditados pelo mais nobre ideal subordinado aos sentimentos da mais pura moral coletiva, como se inspirados pelo mais equilibrado e reto pensamento. Mais do que qualquer outro fator, graças a isso é que a "Promotora" venceu galhardamente e com ela a grande causa dos cegos em nosso país que marcha proporcionalmente ao nosso engrandecimento no terreno da assistência social, não sem uma tenaz porfia por parte daquele que encarna o ideal dos cegos no Brasil coadjuvado por um grupo de pessoas abnegadas.
Estávamos no ano de ]930. Um certo conservantismo dominava as esferas governamentais, pairando no seio do povo uma certa ânsia por radicais reformas. Predominava o espirito revolucionário. E a revolução que se propunha modificar o ambiente político-social da Nação veio, afinal. Ela deitou por terra o governo legal, julgando o povo brasileiro que iria ter uma situação mais suave e mais propicia ás suas aspirações. Sonhando com essenciais reformas também o autor destas recordações, saiu a campo. Era preciso aproveitar o ensejo de fazer ver aos novos dirigentes que existia uma causa no Brasil - a dos cegos - Que também deveria ser Lembrada. Um jovem havia que se fazia arauto dos novos postulado e se tornara paladino do movimento revolucionário - o "Diário Nacional" Este contava, portanto, com grande prestígio no momento e a fim de tirar proveito em favor da causa z autor da presente narrativa procurou a redação desse órgão e fez publicar entre outros tópicos o seguinte, que logrou sair em grande destaque,

UMA ASSOCIAÇÃO DIGNA DO APOIO DOS PODERES PÚBLICOS

A CAMPANHA NOBILITANTE EM PROL DA EMANCIPAÇÃO ECONÔMICA DOS CEGOS NO BRASIL

Não são muitas as pessoas que, no nosso meio social, estão ao par do trabalho elevado e profícuo que está prestando á sociedade uma associação modesta, cuja fundação é devida a um grupo de esforçados cavalheiros e a dedicação da Sr.a, d. lzabel Cerruti Dia a dia a Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos aumenta o seu raio de ação, adquire novos cooperadores. Mas isso nada representa em proporção ao que se devia fazer para que a Associação conseguisse realizar o seu programa utilíssimo e de elevada moral
O fim da Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos é libertar os seres privados de vidência da objeção em que têm até agora vivido, sendo pesados á sua família ou tendo que recorrer á caridade pública, á mendicância, Quando poderiam como os demais indivíduos, atender livremente á sua própria subsistência, tornando-se de peso morto e parasitário em fatores econômicos, contribuindo deste modo para o enriquecimento do país.
Trinta e cinco mil cegos existem no Brasil. 'Quantos deles representam, peio seu trabalho, uma parcela de utilidade latente para a sociedade? E no entanto se as associações de cegos, moldadas no programa da que existe em 5. Paulo, estivessem espalhadas pelo território nacional e cantassem, acima de tudo, com o apoio dos poderes públicos, todo esse núcleo até hoje á parte da coletividade, educado, instruído elevado moralmente, estaria em condições de não continuar como peso morto e parasitário e sim incorporado á parte nobre que trabalha e produz.

A CAUSA COS CÉGOS NO BRASIL E A REVOLUÇÃO

No momento em que tudo se remodela e se reconstroe em nome da Revolução e sob o critério do moral púbica, todos nós que nos sentimos animados de idealismo, temos o dever de dizer algo em torno da causa dos cegos no Brasil, desprezada sempre pelo governo que caiu, em discordância de atitude com os governos dos povos civilizados de além mar.
Bem sabemos que inúmeros outros problemas devem ter a primazia no momento atual Estes, porém, solucionados, não deve o governo esquecer o do cego, cujo número em nosso país atinge á cerca de trinta e cinco mil,

ATÉ HOJE A REPÚBLICA NADA FEZ PELOS CÉGOS

No passado regime, o governo de Pedro 11 criou um instituto oficial para a educação desses anormais.
A República nada fez pelos cegos, nem mesmo uma reorganização eficiente na escola existente, que tem hoje o nome de Instituto Benjamim Constant. Na República, coube ao Estado de Minas Gerais a glória de criar um instituto oficial para a educação dos cegos. No Estado de S. Paulo c falecido presidente Dr. Carlos de Campos pretendeu fazê-lo, mas com o seu desaparecimento esquecida foi a idéia.
A presente sugestão vem, pois, a propósito, afim de que restabelecida a normalidade em todos os ramos da atividade pública, não seja olvidado o problema da mendicidade e com ele o dos cegos, que, instruídos convenientemente, não necessitam estender a mão á caridade pública.

O LIDER DOS CEGOS NO BRASIL
E já que penetramos o assunto, permita-se-nos dizer sobre a personalidade de um cego ilustre e que ha vários anos vem labutando em favor dos seus irmãos de infortúnio, numa verdadeira obra de fraternidade e do mais são patriotismo. Quero me referir ao já célebre prof. Mamede Freire. Como ].° Secretário da Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, desta Capital, tem-nos sido proporcionada a agradabilíssima tarefa de privar com o espirito lúcido desse professor cego, pelas circunstâncias oriundas de nosso cargo, pois o prof. Mamede Freire é o Diretor Técnico dessa Instituição. E, pois, nas atribuições de nosso cargo, tem-nos sido dado analisar a espiritualidade elevada de Mamede Freire em suas manifestações morais e intelectuais. Quando esse professor cego vem a esta Capital, a sua individualidade notável por todos os títulos, desperta a curiosidade pública e especiais atenções. Mas quando a imprensa lhe publica o retrato acompanhado dos adjetivos mais desvanecedores, o publico talvez julgue haver nisso uma certa dose de exagero por se tratar de um indivíduo cego, em cuja condição física uma inteligência pouco acima do vulgar basta para provocar admirações, como verificamos entre os cegos educados que mourejam sob nossa bandeira, Em nossa labuta no seio dessas infortunadas vitimas nos é dado observar que de exclamações admirativas vão por aí ao verificarem que um cego lê, que um cego escreve, que um cego trabalha e que conta o dinheiro. . . O mais que se sabe e que o cego pode tocar um instrumento musical. E que mais do que isso. ele é um prodígio, uma exceção á regra.

O TRABALHO NOTÁVEL DO NUCLEO PROFISSIONAL

Entretanto, cegos .ingressados no 1º Núcleo Profissional de nossa Associação, após trinta dias de aprendizado já lêem e escrevem e já fabricam escovas e vassouras, não obstante as deficiências de nossas instalações e carência de aparelhamento para o ensino, pois só contamos com os contribuições dos associados, sem o menor incentivo dos governos, sem o mais pequeno auxilio dos cofres públicos.
Mas, como ia dizendo, não ha a mais leve sombra de exagero nas referências elogiosas da imprensa á individualidade de Mamede Freire. Não fosse o prof. Mamede cego e dotado da mais requintada modéstia e a sua personalidade se evidenciaria como estrela de primeira grandeza a refulgir a rara inteligência ~u~ lhe orna o espirito e a sua vasta cultura intelectual na constelação dos que sabem honrar a nossa Pátria.

O TEMPERAMENTO APOSTOLICO DO PROF. MAMEDE

Ainda não há muito expendeu o prof. Mamede estas palavras, referindo-se ao problema que nos ocupa no presente momento:
"Nós, os cegos, estamos convencidos de que, se não nos reunirmos, se não se verificar a ação conjunta dos nossos esforços, continuaremos a pedir esmolas..." Essa humildade e desapego é que o inibem de brilhar, como poderia faze-lo, aproveitando o seu extraordinário talento e conhecimentos para fins menos grandiosos E' que. como soe acontecer em todas as épocas e em todos os países, parece  ser uma dessas figuras apostólicas que surgem e que tudo fazem pelo seu idealismo. que tudo sacrificam pela sua causa, uma dessas figuras que empolgam pela renuncia aos bens terrenos e pelo amor aos seus irmãos. Mamede Freire, ainda agora, usufruindo regular remuneração do governo de Minas Gerais pelos seus servias como professor de um instituto oficial, pensa abdicar dessa vantagem para se dedicar exclusivamente á causa dos cegos, que ele trata como se fora a sua própria causa. Entretanto, não obstante esse desprendimento e o seu labor incessante e profícuo, a sua tenacidade e a sua ativa atuação cm prol dos infortunados companheiros de classe, conforme nos diz a história sabre todos os apóstolos das grandes causas, sem escapar á regra, não lhe tem faltado detratores de sua ação e de sua obra e entre os próprios cegas existem os que não lhe assimilam a grandiosidade de seu idealismo todo ele calcado na superior beleza moral daquele que o concebeu e no conjunto dos seus extraordinários conhecimentos,
A sua figura de apóstolo, entretanto, se vai impondo e a sua causa vai marchando a passos lentos mas firmes, até que os governos queiram encampar a sua obra de abolir a mendicância entre cegos, cometimento gigantesco para um cego pobre de recursos financeiros, ainda que um verdadeiro gênio, mas de fácil execução para o Estado, que poderia contar em Mamede Freire com um orientador e um técnico com capacidade e conhecimentos inigualáveis do assunto.
Se são sensatos os presentes conceitos ou si eles deveriam ser tomados em consideração pelos novos senhores do poder não nos cabe dizer, O que se pode afirmar é que os negócios públicos continuaram no mesmo pé, só granjeando proteção as inovações que vinham eivadas de cunho político. Contudo, constatou-se um sinal de que as novas autoridades públicas já conheciam do assunto. Logo a seguir houve um festival promovido pelas Ex.as. Sr.as. d. Pérola Biyngthon, d. Olímpia Passos de Carvalho e d. Amélia Azzi Leal, distintas damas da sociedade, no grande salão do Circulo Esotérico da Comunhão do Pensamento, no Largo S. Paulo, como complemento ao Natal dos Cegos, assistido por mais de mil pessoas, em que fez interessante conferência sobre o assunto o Sr, Dr. Loureço Filho, então Diretor Geral da Instrução Pública do Estado. Era a primeira vez que uma autoridade pública comparecia demonstrando interesse e não por simples formalidade.
Na comemoração do 3.° aniversário a "Promotora" convidara a abrilhantar o seu festival o Jazz-Band de cegos da União dos Cegos no Brasil, do Rio de Janeiro. Este conjunto musical, por nímia gentileza do presidente daquela "União", o Sr. Agostinho Dias Nunes de Almeida, um grande amigo da causa dos cegos na Capital da República, além de sua missão especial em S. Paulo, fez um programa na Radio Record e tocou em praça pública, no Braz, conquistando grande simpatia da população e extraordinários aplausos. '
De todos esses meios se valia a "Promotora" para chamar a atenção
pública sobre o seu programa de ação.
Sobre a vinda do Prof. Mamede Freire a S. Paulo em caráter definitivo apresentaram-se vários alvitres em diversas reuniões de diretoria. A 9 de Novembro de ]928, d. lzabel Cerruti lembrava a idéia de sugerir o seu afastamento por licença do Instituto mineiro São Rafael, onde s. s. ocupava o lugar de vice-diretor. Os recursos financeiros da Associação eram, porém, muito deficientes, para arcar com tal responsabilidade. A primeira proposta baseada nas possibilidades da ainda minguada receita social foi apresentada pelo Sr. José Gavronsky nos seguintes termos: s. s. era Diretor Técnico na União dos Cegos do Brasil e na Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos. Ficaria três meses no Rio de Janeiro e três meses em S. Paulo com as despesas divididas entre ambas as entidades. Esta proposta foi feita em reunião de 30 de Junho de ]930. A ].° de Setembro o autor da proposta pedia solução para o caso, apresentando a Comissão Técnica um alvitre baseado nos saldos verificados na Tesouraria, ficando deliberado levar a decisão ao conhecimento de s. s. Na reunião de 30 de Setembro desse mesmo ano o prof. Mamede estava presente, declarando que examinaria o caso de sua permanência em S. Paulo na reunião seguinte. E ausentando-se novamente, em Abril de 193], o Sr, prof. Mamede, em carta comunica a sua próxima vinda para S. Paulo, o que teve não só a aprovação mas o regozijo de toda a Diretoria.
Nessa mesma ocasião, uma Assembléia reunida no Rio de Janeiro proclamava o prof. Mamede Freire Presidente do Movimento Geral em prol do  cego no Brasil.
A 18 de Abril, em Reunião Ordinária da Diretoria o Sr, prof. Mamede já se achava presente, dando solução a inúmeros problemas que surgiam na vida associativa, já em franco desenvolvimento.
E assim, com a sua vinda para S, Paulo, aplainadas foram muitas dificuldades, passando os membros da Diretoria de fautores a meros auxiliares, pois, o prof. Mamede, não obstante a sua mutilação visual tudo via e tudo provia, grandemente auxiliado nos atos internos por sua esposa a. Honorina Freire, já traquejada nesses misteres.
Aludindo-se a este nome não podemos deixar de fazer uma menção especial; d, Honorina, com a sua dedicação, o seu zelo e a sua energia tem sido até os dias presentes quem mais tem emprestado a luz das olhos á associação; a sua experiência é a de quem acompanha a elaboração de uma obra desde o seu .início, colaborando sem cessar
Complemente transformado então o ambiente associativo, até a administração geral pescou a ter estabilidade. Eleito presidente da Diretoria o prof., João Penteado, na Assembléia Geral de 8 de Fevereiro de ]931 com a demissão do Sr Antônio Borrego a 20 do mês transato, foi sucessivamente reeleito ate a presente data, não se verificando mais os contínuos pedidos de demissão que tanto perturbavam o desenvolvimento da sociedade comprometendo os seus destinos E que aqueles que se agrupavam daí por diante na administração da "Promotora", como que atraídos pela nova forca centralizadora, já vinham com aquela afinidade de ideais que gera energias unindo-as, E a Diretoria passou a ser uma autentica família, estreitando-se vigorosamente os laços de todos os seus membros, Dissenções, discrepância e más interpretações se findaram, tornando-se quase modelar a sua administração.
Graças a tão elevado conceito administrativo aliado ao notável espirito prático e de iniciativa dg seu Diretor Técnico, a  A. P. I, T, paro Cegos logrou iniciar uma fase de interessantes experiências para os cegos, experiências que vieram depois a ser imitadas por todas as instituições congêneres que posteriormente vieram a surgir no território nacional, Que lhe seja perdoada o pretensão de paternidade si por acaso alguma dessas iniciativas antes tivesse aparecido sem registro público.
Além da fabricação de escovas, vassouras e objetos de vime e respectiva negociação na praça pelos próprios cegos, estes passaram a ter colocação nas feiras e nos mercados oficiais em igualdade de condições com os demais negociantes, conquistas essas devidas aos esforços da Diretoria junto ao então Prefeito da Capital Sr. Dr., Luiz de Anhaia Mello, pelo que a Associação concedeu-lhe o titulo de "Sócio Honorário e Benemérito",
A primeira barraca dos cegos nas feiras de S. Paulo foi inaugurada a 25 de Abril de 1931 A Associação colocou nesse serviço primorosamente iniciado os cegos Dante Egrégio, Cvpriano Dias, Pantaleão di Giorgi e Ponciano Mathias.
Hoje são muitas as barracas e inúmeros os cegos que vendem em todas as feiras da Capital
Só a "Promotora" chegou a ter ]0 barracas, com caminhão próprio para a condução das suas mercadorias
Em todos os mercados, onde é possível, a Associação mantém um stand para a venda dos seus produtos e para a colocação dos cegos que a ela estão vinculados.
Uma conquista desta ordem, em que já se davam provas cabais da integração do cego como elemento útil e econômico, sem embargo de que pareça hoje um ato de trivial importância, numa ocasião em que a Associação tanto beneficio prestava á sociedade por essa valiosa contribuição no trabalho de extinguir a pústula da mendicidade, não deveriam acorrer em seu auxilio pecuniariamente as cofres públicos? E entretanto assim não sucedia. A "Promotora" por várias vezes já recorrera aos governos municipal. estadual e federal, sem resultado algum. Com insano trabalho apenas conseguia isenção de impostos governativos.
Por essa época já no seu 4.° ano de existência, a Associação funcionava ainda em prédio de aluguel, a rua Cajurú, 1]5. Fazia esforços para a aquisição deste, porém eram escassos os seus recursos econômicos para tanto.
Contudo, aumentava o trabalho dos cegos nas oficinas, nas feiras e mercados porque crescia o número de trabalhadores, assim como o de contribuintes e com esse aumento cresciam também as possibilidades financeiras, de maneira esperançosa.
É assim que, reunindo todos os recursos, num grande esforço, a Associação adquiria com  bastante ônus os prédios 722-730 da rua Cajurú, ônus que só lhe foi possível desfazer-se no ano de 1939
Essa operação ela o fez premida pela necessidade de abandonar o prédio n.º 115. que havia sido vendido a uma congregação religiosa da paróquia do Belém.
Na sessão Extraordinária da Diretoria a 26 de Agosto de ]93i, o Sr. prof. Mamede, após várias considerações de ordem técnica, proclama a conveniência de se estender o ensino profissional a outros centros adiantados das vizinhanças e propõe a aquisição de livros de leitura e aparelhos de escrita. Em seguida declarou que estava devidamente aparelhado para iniciar a criação na cidade de santos de uma pequena sucursal, afim de atender ás necessidades dos cegos da localidade, pela mesma forma com que a Associação estava atendendo aos de 5. Paulo. Esta proposição foi recebida pela Diretoria conjunta com grande satisfação, nomeando-se uma comissão de cegos para iniciarem uma propaganda naquela cidade.
Em 5. Paulo, por esses dias, verificava-se um apreciável desenvolvimento nas atividades associativas, isto é, a instrução e o trabalho dos cegos, dilatando-se a produção e as vendas, o que evidenciava prosperidade.

O NUCLEO DE SANTOS

A 3 de setembro de 1931 a Diretoria era cientificada de que se achava alugado o prédio da rua João Guerra, em santos, para ai ser instalado o 2 ° Núcleo Profissional de Cegos, congratulando-se o Sr. Presidente com os demais companheiros pelo auspicioso cometimento. E o prof. Mamede Freire comunica aos demais diretores que, em obediência ao programa de utilização dos cegos por meio de instrução e trabalhos adequados, são palavras suas, a Associação acabava de instalar na cidade de santos o seu 2.° Núcleo Profissional, tendo já sido indicados os primeiros funcionários administrativos e subalternos, cabendo á Diretoria designar o dia de sua inauguração oficial. Que o novo Núcleo já conta com grande número de contribuintes, tendo a iniciativa recebido por parte da população santista provas de solidariedade e simpatia. Eis a sua ata de fundação:
"A cinco de setembro de mil novecentos e trinta e um, nesta cidade de Santos, á rua João Guerra número duzentos e cinqüenta e oito, às dezesseis horas, devidamente autorizados pela Diretoria da Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, com sede na capital do Estado, e confederada á União dos Cegos, do Rio de Janeiro, presentes com o fim de instalarem o Segundo Núcleo Profissional desta instituição, os Srs. Dr. José Gavronski, 1° secretário, representando o Sr. professor João Penteado, presidente; professor Mamede Freire diretor técnico; professor Alfredo Chatagnier e Amadeu Moretti, membros da Comissão Técnica; Carlos Costa, professora d. Brasília Trigo Barrocas, senhor Antônio Duarte Barrocas, dona Honorina Freire e mais pessoas, é declarada instituída esta dependência da Associação, a qual se destina de acordo com o programa social, a dar aos cegos de Santos e adjacências do litoral do Estado, assistência técnica, profissional e amparo morai e material, aproveitando-lhes as aptidões produtivas, na forma por que vem procedendo a referida Associação com os cegos da Capital paulista. Este Núcleo que terá economia própria, por isso que será mantido pela contribuição de um corpo social a instituir-se nesta cidade, se desenvolverá de acordo com o seu ambiente protetor e será dirigido técnica e administrativamente por funcionários nomeados pela Diretoria da Associação. E eu, Antônio Duarte Barrocas, que lavrei a presente ata, assino com o senhor J. Gavronski, representando o senhor presidente e com a senhora dona Honorina dos Santas Freire. Santos, cinco de Setembro de mil novecentos e trinta e um. Antônio Duarte Barrocas, J. Gavronski, Honorina dos Santos Freire.
 Reportando-se ás demarches para a instalação do Núcleo em apreço convém recordar em traços ligeiros alguns incidentes que então se passaram: ás ]5 horas achava-se no prédio da rua João Guerra a comissão encarregada de instalar o 2.° Núcleo. Não havia um só móvel a guarnece-lo, sequer uma cadeira. O Sr. Gavronski e a prof. Mamede saíram a fazer algumas compras enquanto d. Honorina cuidava do preparo da alimentação e tomava outras providências de ordem interna. Pois bem, ás 18 horas, como por encanto, alguns móveis doados, os mais necessários, guarneciam a casa e o jantar estava posto sobre a mesa. Esforços de alguns dias ali estavam realizados em algumas horas, si se considerar os insignificantes recursos de que dispunha a referida Comissão e o desconhecimento quase completo do meio ambiente, por todos os seus componentes.
À noite visitaram as redações dos jornais locais paru comunicar a nova fundação santense e pedir o apoio da imprensa os cegos prof. Mamede Freire, Amadeu Moretti, Altredo Chatagnier, Carlos Costa e o 1º Secretário, José Gavronski, relator destas memórias, que testemunhou o seguinte curioso fato na redação de "A Tribuna": o prof. Mamede expunha, de pé os motivos daquela visita ante o diretor daquele órgão, sem que este, na sua escrivaninha de trabalho, de caneta em punho, se dignasse levantar os olhos para a pessoa que lhe falava (não se costumava dar muita atenção a uma caravana de cegos): o prof. Mamede sem se aperceber, começou a discorrer, sempre de pé. (não foram oferecidas cadeiras)  sobre a causa dos cegos á luz de sua magnifica ideologia. Daí a minutos, não só o diretor mas quase todos os redatores ali presentes se agrupavam em volta dessa escrivaninha para ouvir a palavra clara e convincente do prof. Mamede, A sua facilidade de expor, os seus vastos conhecimentos e o seu português castiço têm o condão de atrair e prender a atenção das pessoas inteligentes
E os resultados para os interesses da incipiente fundação não se fizeram esperar. A imprensa de Santos passou a dar o mais franco apoio ao novo Núcleo. A seguir uma boa reportagem de "A Tribuna" levava a todo o município a grata nova e o seu fotografo ao tirar uma chapa do frontispício declarou que tinha direito a uma importância da redação, a qual deixava em beneficio da obra.
Fatos como este são aqui citados simplesmente para demonstrar que não obstante a geral incompreensão dominante, sempre surgem casos de superior elevação de sentimentos sem os quais nada de nobre seria viável.
No dia seguinte, toda a comissão da "Promotora" que se achava em Santos, munida de um "Livro de Ouro" para angariar recursos em favor do 2.° Núcleo Profissional, foi á chácara do Sr. Júlio Conceição, personalidade prestigiada, muito benquista na sociedade local e possuidora de largos haveres, a fim de que s. s. abrisse o aludido Livro com a sua subscrição. S. s., entretanto talvez por não confiar no que se lhe expunha ou porque já tivesse muitas vezes sido ludibriado com semelhantes solicitações, não se dignou auxiliar a nova fundação santista. Entretanto, mais tarde, fazendo parte do Conselho Consultivo do Estado de S. Paulo, foi ali s s. o baluarte para qualquer vindicação em favor dos cegos. Contudo, a sua recusa em subscrever no "Livro de Ouro" não deixou de abater o ânimo da Comissão. Mas ela prosseguiu no seu afã e tão bem recebida foi na praça de Santos, que, ainda sem inaugurar oficialmente a Casa, esta já se bastava a si própria, isto é, a sua economia era declarada independente dos cofres do 1º Núcleo.
Colaboraram eficazmente para este sucesso o Sr. Dr. José de Freitas Guimarães que fez conferência no Rádio Clube de Santos, na qual salientou os préstimos da Associação, pedindo ao povo que atendesse ao apelo e que cooperasse na fundação do Núcleo de cegos saneasses, onde eles poderiam aprender a ganhai a vida sem humilhações; professora d. Júlia de Campos Caldas, que foi presidente do corpo de senhoras cooperadoras; Srs. Godofredo de Faria e Júlio Caldas; Sr.as. Zulmira Campos, Antonieta Riera e S.ta, Maria Monte Lima.
Na cidade de Santos existia por essa ocasião um modelar Asilo de Mendicidade. A esse estabelecimento dirigiu-se a Comissão encarregada da instalação do 2.° Núcleo e com a aquiescência da diretoria daquela casa de caridade, dali retirou os cinco cegos existentes, com os quais foram iniciadas as atividades da nova fundação da Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos. E na reunião de Diretoria do dia 17 de outubro do mesmo ano era designada a data de 1° de Novembro para a inauguração oficial da Casa que, conforme dissera o Sr Presidente, não foram gastos sessenta dias de trabalho para a sua concretização e organização, graças aos predicados do povo santista, sempre propenso a auxiliar as boas causas.
Nos primeiros meses do ano de 1932 a Associação apresentava em seu stand na grande exposição da Água Branca em S. Paulo o seu progresso obtido com os trabalhos dos cegos em vivo, onde os mesmos se mostravam na leitura e escrita, na confecção de vários artefatos e na música tocando instrumentos, o que causou magnifica e indelével impressão aos visitantes, granjeando essa mostra uma grande propaganda em favor da causa ao mesmo tempo que apresentava uma apreciável receita monetária e um extraordinário número de sócios contribuintes que ali se inscreveram, impressionados com o que viam, espetáculo ainda quase desconhecido em nosso meio, onde o cego só era visto como pedinte.
Enquanto a Associação dava essa pública demonstração de seu labor, de sua organização e de seus resultados práticos consoante o seu programa de recuperação dos cegos para a sociedade, um outro passo mais se verificava com a organização de seu jaz-band de cegos, outra novidade para S. Paulo. Este foi organizado pelo cego José Gonçalves de Oliveira e fez a sua apresentação em público por ocasião da festividade do 5.° aniversário da Associação, no salão de festas da Associação Auxiliadora das Classes Laboriosas, á rua do Carmo.
Ao mencionar esta passagem de aniversário aqui vai um registro insuspeito da obra da Associação, apenas no seu S.° ano "d. Alice de Toledo Ribas Tibiriçá, presidente da Sociedade de Assistência aos Lázaros e Defesa contra a Lepra felicita aos Srs. Diretores da Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos no 5.° aniversário de tão útil organização, de cujos trabalhos S. Paulo tanto se tem beneficiado. Um grande louvor pela obra realizada".
A diretoria da Associação que nos seus primórdios não tinha estabilidade em vista das continuas deserções, passou a firmar-se pela aquisição de elementos mais constantes e com mais afinidade de ideais, como foi dito anteriormente. Assim, a Assembléia Geral Ordinária do dia 19 de Fevereiro de 1933 elegia os seguintes membros: Prof. João Penteado, Dr. José Gavronsky, Manoel Cavalheiro de Faria, contador Francisco Grisolia, Antônio Cândido de Oliveira, prof. cego À4amede Freire, Henrique Maia Ramos, Reinero Vicentini, Arthur Campos Filho (cego) Marino Espagnolc, Antônio Ferreira Neto, Pantaleão di Giorgi (cego), Amadeu Moretti (cego), Alfredo Chatagnier (cego), Osvaldo Borelli (cego). De todos estes, continua a prestar serviços na Diretoria a maior parte, exceto os que partiram para o Além, que são as cegos Amadeu Moretti, Alfredo Chatagnier e Arthur Campos Filho os quais muito fizeram no inicio pela vitória da causa. E já que se faz história, necessário é que se diga: tem permanecido como "esteios mestres até a presente data, sem contar a figura central e principal que é a prof. Mamede Freire, os Srs. Antônio Cândido  de Oliveira, prof. João Penteado, Francisco Grisolia e o autor do presente relato, os quais, por isso, já foram homenageados com os seus retratos solenemente inaugurados na sede social; e o Sr. Marino Espagnolo que também faz jus a igual homenagem. Todos estes têm sido assíduos e dedicados amigos e servidores da grande obra pela emancipação dos cegos, sem outro prêmio do que a satisfação intima de contribuírem por um ideal incontestavelmente grandioso
Nos primeiros dias de Janeiro de ]934 a Associação promovia a "Semana do Cego" que teve encerramento no dia 20, á rua 15 de Novembro, ângulo da rua Anchieta, Dizia a "A Gazeta" a propósito: "Milhares de pessoas foram ver, comovidas e interessadas a demonstração animada dos diversos trabalhos a que se entregam quotidianamente os privados da vista filiados àquela Associação. Foi um brilhante êxito para A.P,1.T, para Cegos. O esplendido certame dos cegos marca um novo acontecimento comprovante da finalidade da Associação, do valor da utilização dos invisuais em nossos meios econômicos,
"A Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos é uma das mais beneméritas instituições do Estado. As suas finalidades são nobilíssimas e dizem bem do altruísmo dos seus fundadores".
Reproduzimos linhas atrás uma opinião particular de pessoa de renome e entendida no assunto assistencial e aqui outra de um órgão de imprensa dos mais acatados.
Onde elogios mais desvanecedores e dignificastes, para que qualificativos mais honrosos dedicados a uma instituição filantrópica?
E entretanto, digamos de passagem, custa a crer, a imprensa elevando em tão alto conceito a "Promotora" quando os poderes públicos nem se apercebiam de sua_ existência, não lhe concedendo até aí o mais insignificante auxílio pecuniário.
A Associação Promotora tinha a intenção de criar na cidade de Campinas o seu primeiro Núcleo do Interior do Estado que seria o 3º Núcleo Profissional. Em ]933, porém, um dos seus cegos mais ativos e trabalhadores, o Sr. Dante Egrégio, que no inicio muito fizera em S, Paulo, demitiu-se e fundou naquela cidade a "Liga Campineira dos Cegos Trabalhadores.
Em Niterói, pouco antes também já se fundara por iniciativa de um idealista, o Sr. Eduardo Leite de Araújo, a "Associação Fluminense de Amparo aos Cegos".
As imitações então não tardaram. Como se a "Promotora" estivesse perfilhando, todo o cego descontente ou com mais ambição de ganhar, tentava a criação de uma sociedade em S, Paulo e mesmo em cidades do interior. A primeira, resultado de dois elementos que não se conformaram com a disciplina reinante na "Promotora", os cegos Braz Pinto e Fúlvio del Moro e que se denominou "Federação dos Cegos Laboriosos", teve a sorte de cair mais tarde em boas mãos, prosperou e ainda existe sob a direção da Associação Cívica Feminina, prestando grande beneficio aos cegos e á São Paulo.
Outras, porém, tomando nomes dos santos da igreja mais conhecidos para impressionar e explorar melhor os sentimentos religiosos e de piedade do povo, não se têm recomendado muito nos seus processos de angariar recursos, em constante ameaça de desvirtuamento do primitivo ideal que o é unicamente o de solidariedade humana e de justiça social, esses arremedos ajambrados de conformidade com a mentalidade de seus instituidores mal concorrem para desviar o cego da simples mendicidade que ele disfarça como ajuda para uma organização que talvez nem o seja e sim um agregado sem norma e sem lei. E' provável que não consigam larga duração mas enquanto vivem vão se beneficiando com os memoriais, as moções e requerimentos feitos pela "Promotora" aos poderes públicos, que visa, acima de tudo, como advogado e protetor do cego, procurar facilitar a sua existência onde quer que ele esteja. E' que os benefícios não são solicitadas apenas para a "Promotora" que se constituiu um autêntico paradigma, mas para os cegos em geral. Muitas, porém, assim não compreendem, devido ao seu limitado alcance e até movem uma certa hostilidade contra a autêntica redentora dos cegos e ao seu idealizador, sem se aperceberem que assim o fazendo, agem contra os seus próprios interesses. São os maus elementos que os há em todas os campos de atividade. Uma das finalidades da "Promotora" é dignificar o cego. Ora, isto só é possível subtraindo-o da situação humilhante de mendigar. Todavia o que se tem observado na ação desses pequenos agrupamentos de cegos em torno de uma suposta sociedade é, em última análise, uma velada mendicância, pois, ao mesmo tempo que oferecem á venda uma qualquer mercadoria, pedem um auxílio, auxilio este que reverte quase sempre em benefício do pedinte ou de seu guia.
O seguinte fato é uma prova do que aqui se diz. Os jornais do dia 7 de Dezembro de 1939 publicavam o seguinte: "Cassada a matricula do "Instituto Profissional Bom Jesus, Instrução e Trabalho aos Cegos". Â vista, assim, do parecer da Assistência Técnica deste Departamento, como do inquérito policial procedido na Delegacia de Vigilância e Capturas, resolvo cassar matricula do Instituto Profissional Bom Jesus, Instrução e Trabalho aos Cegos, desta Capital, sem prejuízo de, reorganizado devidamente, requerer, nos termos da lei, nova matricula. Pelo que ficou apurado, ferem não só a técnica de serviço social, como até, parece, a legítimos interesses da economia popular, as atividades do referido Instituto que não poderá mais coletar donativos públicos.
Tome á Assistência Técnica competente as providências que melhor sirvam aos cegos necessitados que façam parte da instituição questionada. Devolvam-se as autos do inquérito policial, ficando translado.
Ao diretor geral do Departamento de Educação, ao Superintendente do Ensino Profissional, ao Chefe de Policia do Estado e ao delegado de Vigilância e Capturas, comuniquem-se esse despacho".
Com a presente providência do poder público não precisamos mais esclarecer o assunto. O que se pode, contudo, consignar aqui é a nossa mais sensível lástima pela necessidade de providências de tal quilate.
Das instituições de cegos que temos ouvido falar no Estado de São Paulo, citaremos as seguintes, além daquelas que mereceram destacada menção:
Associação Organizadora de Trabalho para Cegos, na Capital; Abrigo dos Cegos Santa Cruz, no bairro do Tatuapé, Capital; Associação de Cegos São Judas Tadeu, em Vila Mariana, S. Paulo; Instituto de Cegos Coração de Jesus, na Vila Prudente, Capital; Instituto de Cegos São Geraldo, bairro de Casa Verde, em S. Paulo; Instituto de Cegos Santa Terezinha, também nesse bairro; Instituto de Cegos N. S. Aparecida, na Penha, em S. Paulo; Sociedade Aliança dos Cegos, também na Capital; Abrigo de Cegos Joana d'Arc, na cidade de Santos; Instituto de Cegos Santa Luzia, na mesma cidade; Instituto de Cegos São Rafael, em Taubaté. Sociedade Filantrópica para Cegos, em Presidente Prudente; Instituto de Cegos Riopretense, em Rio Preto; Instituto de Cegas Sacra Família, em Campinas; Instituto Louis Braille, em Marília; Instituto Louis Braille, em Santo André; Instituto Louis Braille, em Botucatú; Instituto Linense para Cegos, em Lins; Instituto de Cegos Trabalhadores, em Assis; Instituto de Cegos Trabalhadores, em Jaboticabal; Instituto Federação dos Cegos Trabalhadores, em Ribeirão Preto.
No que se refere ás cidades do Interior nada temos a comentar, porém, na Capital o numero já está demasiado. fazendo-se necessária uma ação fiscalizadora pela repartição pública competente, que neste caso é a Assistência Social.
Uma união de esforços talvez produzisse melhores frutos, si considerarmos o velho adágio - a união faz a força - pelo menos a luta seria mais homogênea e com menos probabilidades de deturpação.

O NUCLEO DE SOROCABA

Nos últimos dias do ano de 1933 o jornal sorocabano "O Cruzeiro do sul" iniciava uma subscrição para o fim de ser instalado naquela importante cidade do interior o 3.° Núcleo Profissional de Cegos desta Associação, c que teve sucesso em vista da propaganda já anteriormente realizada pelos cegos da "Promotora" na mesma cidade
A sua inaugurarão oficial deu-se a 24 de Fevereiro de 1934, funcionando durante largo espaço de tempo á rua Souza Pereira 156, de inicio sob a direção do jovem cego Alfredo Chatagnier, Este prosperou a princípio, havendo estacionado durante vários anos. Presentemente se acha instalado em próprio pertencente ao Patrimônio Nacional, não pagando aluguel. Entretanto, o seu progresso econômico não se tem verificado como seria de esperar numa tão importante cidade como é Sorocaba, cognominada a Manchester paulista. Na Câmara Federal foi apresentada pelo deputado Romeu de Campos Vergal um projeto para a doação desse prédio á Associação, cuja solução muito se tem feito esperar, para que sejam executadas obras ali necessárias.
Nos primeiros dias do ano de 193S a Associação inaugurou um Entreposto Comercial na cidade de Jundiaí, mais tarde transformou em 4º Núcleo Profissional de Cegos, sob a gerência do cego Arthur Campos Filho.
Consolidados os alicerces da Associação, a sua Diretoria preocupava-se com um outro setor - o das moças cegas. Algumas se interessavam vivamente pelo progresso da "Promotora". Uma delas, a senhorinha Martha Stafem resolveu agrupa-las numa nova organização que veio a denominar-se Instituto Profissional Paulista para Cegas. A sua fundação data de 29 de Outubro de 1935. Elas se instalaram em casa de aluguel á rua da Moóca, 2931, e vêm se mantendo á custa de contribuições mensais de um corpo de associados.
A 28 de Outubro de 1953 conseguiram adquirir esse prédio por escritura publica, fazendo esforços para angariar recursos a fim de ampliar as acomodações para dar espaço a maior número de cegas.
A finalidade da instituição é moldada no programa da "Promotora", isto é, amparar, instruir e educar a mulher cega, tornando-a um elemento útil á sociedade e capaz de enfrentar a vida.
A 18 de Abril de 1943 foi fundado em Santos, como dependência do Instituto Profissional Paulista para Cegas, o Lar das Moças Cegas de Santos. A 17 de Julho de 1944 foi ele totalmente desligado do Instituto, passando, então, a ter vida própria.
Tem a mesma finalidade, isto é, dar instrução, trabalho manual e domestico compatível com a inteligência de cada cega,
A principio ele se localizara á Av. Presidente .Wilson, 118, porém, vendido esse prédio, urgia uma providência. E presidindo o Lar das Moças Cegas o Sr. Nelson Serra, este enfrentou audaciosamente um grande compromisso, fazendo a aquisição de um prédio magnifico á Av. Ana Costa para ser pago no prazo de quatro anos. E ali se encontra o sodalício das cegas santista.
É assim que no Estado de S. Paulo, também o elemento feminino cego se agita e como o masculino, vem resolvendo o seu problema, não sem as mais duras dificuldades.

O NUCLEO DE BAURU

Em sessão de Diretoria de 8 de Agosto de 1937 era comunicada haver sido contratada, por aluguel, uma casa na cidade de Bauru, a fim de se instalar o 5º Núcleo Profissional de Cegos, iniciando-se logo os trabalhos para a sua concretização. E na reunião de 22 de Setembro do mesmo ano o Diretor Técnico participava aos demais diretores a sua inauguração oficial com a presença  do Sr. Prefeito Municipal, demais autoridades e grande número de pessoas de destaque daquele importante e progressista centro comercial. Este fato deu-se a 1º de Setembro com uma bela demonstração de trabalhos e do jazz-band de cegos, o que causou á população da referida cidade a mais lisonjeira impressão.
Todos estes cometimentos da "Promotora" constituíam reunião de esforços da Diretoria, dos cegos e de parte mais compreensiva das populações das varias cidades em que ela procurava desenvolver as suas atividades, sem quase auxilio oficial, ou melhor, apenas com um simples apoio dos poderes públicos, não obstante as suas reiteradas solicitações para obter ajuda, que a muito custo já o vinha conseguindo. Um mal sensível apoio, aliás, era legitimamente conquistado porque merecido, graças á grande finalidade de seus propósitos aliada á retidão e lisura de suas transações e de seu procedimento, sempre subordinado aos ditames da justiça e da moral pública.
Assim, na Reunião de Diretoria de 17 de Novembro de 1939 era examinado o auxilio pecuniário anual dos poderes públicos á instituição que fazia registrar em ata o seguinte:
Governo do Estado ao 1º Núcleo, na Capital - seis mil trezentos noventa e quatro mil reis; .
Prefeitura de Bauru, ao 5º Núcleo, dois contos de reis,
Governo Municipal de Sorocaba, ao 3.° Núcleo, um conto e oitocentos mil réis;
Prefeitura de Santos, ao 2º Núcleo - doze contos de réis;
Governo Federal, ao mesmo 2,° Núcleo - oito contos de réis,

Ao todo, após mais de dez anos de labor a Associação conseguia o auxilio total de trinta contos de réis dos poderes públicos, sendo vinte só para o 2 ° Núcleo, que por isso e com a ajuda de toda a população da cidade de Santos, este chegou a suplantar o Núcleo da Capital como aparência, conforto e localização,
Por essa época, isto é, em Janeiro de ]940, um fato importante para a vida associativa se passava: a Associação adquiria, para o funcionamento do 2.° t4úcleo Profissional de Cegos o magnifico prédio da Av. Conselheiro Nébias, 649, onde hoje se encontra instalada, Estavam, portanto, já em prédios próprios o ].° e o 2.° Núcleos Profissionais, constituindo isso um apreciável patrimônio a concorrer para a estabilidade da instituição.
Ao novo prédio do 2.° t4úcleo, com ser bastante amplo e de belas linhas arquitetónicas, foram-lhe acrescidas amplas acomodações adequadas para refeitório, oficina e almoxarifado, superando assim, como foi dito, as instalações do t4úcleo-séde
A inauguração oficial das novas instalações do t4úcleo de Santos efetuou-se festivamente a 7 de Dezembro de ]940 com a presença do representante do governador da cidade, do Sr. bispo da diocese e outras autoridades, tendo a imprensa noticiado o fato com amplos informes e elogiosas referências.
Em Reunião Ordinária de 15 de Março de ] 94] a Diretoria propunha. em vista de persistir deficitária a sua situação, extinguir o 4º Núcleo Profissional instalado em Judiai, transferindo dali os cegos para o Núcleo de Sorocaba. O fechamento deu-se precisamente a 15 de Abri' desse ano propondo o Sr. Diretor Técnico a conveniência de instalar-se oportunamente o 4º Núcleo na cidade de Piracicaba.
Em Agosto de 1942 conjuntamente com a festa do 15.° aniversário da Associação inaugurou-se solenemente o complemento do 1º Núcleo Profissional constante de dormitórios e oficina construído no terreno dos fundos da sede social. Esta inauguração que também foi muito festiva e concorrida esteve abrilhantada pela Banda Musical da Força Pública do Estado.
Em sessão de 19 de Novembro de 1942 a Diretoria tomou conhecimento de uma iniciativa que visa a organização de uma biblioteca adequada aos cegos, na qual é parte ativa a Ex.ma. Srta. d. Lelia Velini e elementos do corpo docente do Instituto de Ciências e Letras. Na sessão de inauguração de mais esse cometimento pela instrução do homem privado da visto realizada a 4 de Abril de 1943 no Auditório da Escola Caetano de Campos foi orador principal da solenidade o Diretor Técnico da "Promotora". O primeiro presidente da nova fundação era o ex-secretário também da "Promotora", o poeta Sr José Bento de Oliveira
D. Lelia Velini tem perdido a vista gradativamente. porém, isso não a tem impedido de ser bastante ativa, pelo que a sua organização tem sempre prosperado, estando hoje montada em edifício próprio á Alameda Sarutaiá n.º 350, com uma escola anexa para cegos.

O NUCLEO DE PIRACICABA

Na reunião de 7 de Outubro de ]943 foi discutida a conveniência de se instalar o 4º Núcleo Profissional de Cegos da Associação na cidade de Piracicaba, incumbindo-se de irem sondar as possibilidades os Srs. prof. João Penteado e José Gavronski, respectivamente Presidente e 1º Secretário.
Na reunião seguinte, isto é, a 2i do mesmo mês e ano o Sr. Diretor Técnico propunha um voto de louvor aos Srs. Presidente e 1,° Secretário em virtude do trabalho pelos mesmos desempenhado naquela cidade, onde já se podia contar definitivamente fundada mais uma ramificação do "Promotora".
Esses membros da Diretoria. nos dias 16 e 17 do mesmo mês haviam visitado o Sr, Prefeito Municipal e outras pessoas gradas, alugando uma casa á rua S. José, para aÌí ser instalado provisoriamente o aludido Núcleo
A propósito, publicavam os jornais de Piracicaba o seguinte: "a finalidade da instituição é das mais nobres, de vez que visa eliminar da sociedade a mendicância. e das mais filantrópicas porque empresta toda a assistência ao elemento cego de boa vontade, quer dizer, abrigo, socorros de toda a espécie e ministrando-lhe ainda instrução intelectual, profissional e artística".
"A Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, de S. Paulo, mantenedora de 4 ° Núcleo Profissional de Cegos, com sede provisória á rua S. José, 304, nesta cidade, dando cumprimento ao que anteriormente anunciamos, realizará 6.° feira próxima 14 do corrente, ás 20 horas, na sede da Legião Brasileira de Assistência á rua D. Pedro I, 78i, gentilmente cedida pela sua diretoria, um bem cuidado festival dramático, literário e musical , a cargo exclusivo de seus cegos".
Esta solenidade efetuou-se com pleno sucesso, realizando-se durante três dias consecutivos num salão da praça principal da cidade uma demonstração das atividades dos cegos. isto é, no desempenho de certos traba1hos manuais, no exercício da música, da leitura, cálculo, e escrita pelo sistema "Braille", afim de ser posta em relevo a capacidade produtiva do cego quando educado de modo conveniente.
O salão de demonstrações permaneceu sempre repleto de curiosos que experimentaram a mais favorável impressão em favor do que se propunha realizar em Piracicaba a "Promotora", o que ficou sobejamente provado quando após um ano de atividade ali, a Associação já cogitava da aquisição de um prédio para a instalação definitiva do t4úcleo em apreço, o que efetivamente se concretizou, situando-se á rua do Vergueiro, 576, onde se encontra,
O primeiro gerente técnico do 4,° t4úcleo, em caráter interino foi o jovem cego Alberone Furtado de Mendonça, substituindo-lhe o cego Maximino Alves da Silva.
O inicio dos trabalhos da "Promotora em Piracicaba ficou indelevelmente assinalado com a colaboração da Legião Brasileira de Assistência local sob a presidência da Ex.ma. Sr.a, d. Branca de Azevedo, o que constituiu grande auxilio.
No dia 14 de Março de ]946 foi o prof. Mamede Freire solenemente homenageado com a inauguração do seu retrato na respectiva sede, pela União dos Cegos no Brasil, na Capital Federal, fazendo-se a "Promotora" representar nesse ato pelo seu 1.° Secretário por delegação de sua Diretoria
Em substanciosa peroração, o representante da A.P.I,T, para Cegos discorreu por essa ocasião sabre o frutuoso labor do seu Diretor Técnico durante a sua permanência em S. Paulo, deixando no auditório que enchia o salão a impressão bem patente da justeza daquela homenagem e a gratidão dos paulistas pelo benefício recebido com a aplicação dos seus postulados, agradecendo a dignidade conferida a seu ilustre membro.

No mês de Abril de Ì946 a "Promotora" apresentava á Assembléia Nacional Constituinte um memorial dos Cegos Brasileiros" em que se solicitava a criação de ~m instituto legal para a proteção dos cegos no exercício amplo de seus direitos sem a intervenção de terceiros, visto que a cegueira não os priva de viverem a vida que todos vivem.
No inicio do ano de Ì947 era assinalada uma certa prosperidade nos negócios associativos, havendo o Sr. Diretor Técnico, em Reunião de Diretoria de 20 de Janeiro desse ano declarado ser insuficiente a produção dos cegos para as necessidades da procura.
Por esse tempo o governo do Dr. Ademar de Barros decretava a criação do Estabelecimento Industrial para Cegos, do Estado, que, aliás, não foi posto em execução.
Em Outubro de 1949 a Associação enviava ao Legislativo Municipal e á Assembléia Legislativa um memorial preconizando medidas a serem tomadas pelos poderes públicos, a fim de retirar os cegos da mendicância, alfabetizando-os e encaminhando-os para o trabalho reabilitador por meio do aprendizado da técnica de ofícios ao seu alcance, tecla em que, aliás, vem batendo sem esmorecimento desde a sua fundação.
 A imprensa Braille de S. Paulo foi fundada em 1949 como departamento da Fundação para o Livro do Cego no Brasil. Esta Fundação que tem os seus estatutos desde 1946 com uma dotação de Cr$ 100.000,00 feita pela Ex.ma. Sra. d. Adelaide Reis de Magalhães, sua instituidora, tem como objetivo principal a divulgação do livro em sistema Braille.

A Imprensa Braille é mantida com verbas do Governo estadual e da Prefeitura da Capital, sob a superintendência da Ex.ma Sra.  D. Regina Pirajá da Silva e consultoria  técnica do cego  Sr. Joaquim Lima de Moraes.
Está preenchendo a sua finalidade na publicação de livros e revistas para os cegos de todo o país.
A Fundação para o Livro do Cego no Brasil tem atualmente a presidi-la uma cega inteligente, a professora d. Dorina de Monteiro Gouvéa Nowill e que perdeu a vista aos 17 anos, matriculando-se já privada da visão na Escola Normal Caetano de Campos, por onde se diplomou constituindo esse o primeiro caso, pois fez o curso regulamente como as demais professoras O seu caso é digno de uma nota especial por solicitação do Dr. Jorge Americano a "American Foundation of Blinds" concedeu-lhe uma Bolsa de Estudos. tendo ela com isso se especializado nos Estados Unidos sobre a educação dos cegos  Ultimamente essa mesmo organização norte-americana promoveu a realização de um Congresso Pan-Americano de Assistência aos Cegos e Prevenção da Cegueira em S. Paulo, designando-a para a presidência.
Esse congresso deverá realizar-se no mês de Junho, reunindo representantes de vários países.
A vice-presidência do mesmo caberá ao prof. Mamede Freire, Diretor: Técnico da A. P. I . T. C.
A Fundação para o Livro do Cego com a imprensa Braille constituem por hora os elementos complementares para a educação dos cegos no Brasil  Se têm as pessoas cultas como amigo o livro, o que se dirá desse grande entretimento para o cego alfabetizado? Pode-se, portanto, considerar esta Fundação como a segunda etapa da redenção do cego em nosso pais.
Com o livro e a biblioteca é claro que se poderá algo esperar para o futuro no desenvolvimento intelectual do cego

AINDA O NUCLEO DE BAURU

Em Marco de 1950 o Núcleo de Bauru, em vista da pressão exercida pelo proprietário do prédio por este ocupado, se instalava num edifício inacabado do "Lar dos Desempregados" afastado do centro urbano, cedido em caráter precário por uma organização espirita, edifício que a direção da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, na pessoa do Sr. Coronel Lima Figueiredo, gentilmente mandou fazer obras que ali eram imprescindíveis á sua habitabilidade.
Nesse mesmo mês a Associação adquiria um terreno no perímetro
central da cidade, á rua Gustavo Maciel, onde se propunha construir a sede definitiva do 5.° Núcleo.
Por iniciativa de um prestante amigo da causa em Bauru o Sr. Heitor Pimenta, foi angariada a quantia de Cr. S 27. 900,00 para a construção da mesma sede.

E AINDA O NUCLEO DE SOROCABA

Enquanto isso ocorria, outro problema semelhante se passava em Sorocaba com o 3.° Núcleo da Associação. O prédio ocupado por este não oferecia muita segurança e o seu proprietário também desejava a entrega do mesmo. Ainda que pagando pontualmente os seus alugueis e sendo rigorosa no cumprimento de suas obrigações contratuais, a Associação se via também a braços com problemas desta ordem. '
Resolveu então oficiar ao Ex.mo, Sr. Presidente da República, General Eurico Gaspar Dutra, solicitando a cessão do prédio da rua 7 de Setembro n.° 334, naquela cidade, pertencente ao Patrimônio Nacional, para ai ser instalado o 3.° Núcleo Profissional de Cegos.
Em março de 1951, por entendimento com a diretoria do "Abrigo Pensionato de Menores" de Sorocaba, este desocupa o prédio em questão, cedendo-o a A. P 1.T, para Cegos, para o uso do seu 3 ° t4ucleo, embora precariamente até uma solução definitiva, que, conforme foi dito anteriormente no presente retrospecto, ficou dependendo do Poder Legislativo, por propositura apresentada em plenário pelo nobre deputado Romeu de Campos Vergal.
Para receber o prédio em nome da Associação foram á Sorocaba comissionados pela Diretoria os Srs. José Gavronski, Francisco Grizolia, Marino Spagnolo e José de Paula e Silva, os quais assinaram um termo de posse, e que se evidenciavam de maneira inconfundível em obras de benemerência. de heroísmo, de fraternidade ou de amor á humanidade o que veio mais urna vez patentear z grandeza do ideal encarnado pela Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, fruto máximo oriundo da capacidade cerebral daquele ilustre cego patrício.
E foi motivo de júbilo, tanto pela justiça que se fazia á pessoa do homenageado, como pela sua enorme divulgação em proveito da causa.
Se no inicio do ano de 1947 a Associação assinalava uma situação de franca prosperidade, o mesmo não se poderia dizer no segundo semestre de 195l, o que muito preocupava a sua Diretoria. Constatava-se uma retração na munificência, um certo decréscimo da contribuição social, um grande atraso no pagamento das subvenções e dos auxílios oficiais e ate a negação da isenção de certos impostos governativos, revezes esses que a obrigaram a adaptar medidas restritivas na economia geral das casas mantidas pela Associação .
Enquanto esforços extraordinários eram postos em prática paro a Continuidade do ritmo até aqui seguido, um outro fato importante vinha de Se assinalar, que é o seguinte:


UTILIDADE  PÚBLICA  Parecer n.° 2071, de 19S1, da Comissão de Constituição e Justiça, sobre o projeto de Lei n.° 1106 de 195l,
Os nobres deputados Salgado Sobrinho e Augusto do Amaral vêm de submeter a apreciação desta Assembléia o projeto de Lei n.° 1106 de 1951, objetivando declarar de utilidade pública a Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, com sede nesta Capital.
A matéria pode ter caráter legislativo sendo quanto á iniciativa de competência cumulativa.
Não havendo lei Estadual normativa deve a matéria ser regida por analogia pela Lei Federal n.° 91 de 28 de Agosto de 1935, cujo artigo 1.° assim dispõe:
"As sociedades civis, as associações e as fundações constituídas no país com o fim exclusivo de servir desinteressadamente a coletividade podem ser declaradas de utilidade pública, provados os seguintes requisitos:
a) que adquiriram personalidade jurídica;
b) que estão em efetivo funcionamento e servem desinteressadamente a coletividade;
c) que os cargos da diretoria não são remunerados".

instruindo a proposição juntaram-se os documentos de fls. 3 e seguintes do processo que comprovam as exigências da lei citada.
Nessas condições, sob o aspeto legal e constitucional, nada ha que opor ao projeto.
È o nosso Parecer.
Sala das Comissões, em 13 de t4ovembro de 1951,

a) LincoIn Feliciano - relator, Aprovado quanto á constitucionalidade. 13-11-51.

a) LinccIn Feliciano, Presidente - Camilo Ashcar - Ruy de Almeida Barbosa - Luciano Nogueira Filho - Cassio Ciampolini - Derville Allegretti Narciso Pieroni - José Miraglia - Cid Franco - Aldo Lupo - Jânio Quadros - Valentim Amaral - Scalamandre Sobrinho - Leônidas Camarinha e Augusto Amaral.

O projeto de lei publicado no "Diário Oficial" de 20 de Outubro de 1951 diz o seguinte:
Artigo 1,° - É declarada de utilidade pública a Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos com sede nesta Capital.
Antigo 2.° - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação revogadas as disposições em contrário.
Sala das Sessões, 19 de Outubro de 1951.

Ass. João Salgado Sobrinho
Augusto do Amaral

JUSTIFICATIVA

Tem por fim este projeto dar ao reconhecimento oficial a uma entidade que visa as seguintes altas finalidades:
a) Criar junto ou separadamente, escolas para o ensino primário, secundário e profissional, oficina de trabalho e abrigo para os cegos de ambos os sexos na Capital e diferentes pontos do Estado conforme os recursos permitidos. Criar jardim da infância.
b) b) Oferecer assim, aos cegos adultos e á infância desvalida instrução, colocação e assistência;
c) Proporcionar-lhes direta ou indiretamente, ocupação remunerada em que possam aplicar economicamente, em proveito próprio ou da família, as suas aptidões produtivas;
d) Facilitar-lhes domicilio, assistência médica e judiciária e subsistência quando impossibilitados de trabalhar por doença ou por carência de serviço;
e) Fomentar qualquer iniciativa que vise o desenvolvimento moral e intelectual e econômico dos cegos;
f) Promover por todos os meios ao seu alcance, a integração dos cegos na sociedade como elemento econômico, subtraindo-os á vida de mendicância e de abandono.

Sendo evidentes os intuitos de cooperação com a administração do Estado nas atividades da Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, nada mais justo que os Poderes Públicos lhe outorguem o reconhecimento oficial - que é ó que prevê este projeto.
A 25 de Dezembro do mesmo ano o "Diário Oficial" publicava a seguinte:

LEI t4.° 1420 - DE 24 DE DEZEMBRO DE 1951

Declara de utilidade pública a Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, com sede nesta Capital.
Lucas Nogueira Garcez, Governador do Estado de S. Paulo, usando das atribuições que lhe são conferidas por lei, '
 Faço saber que a Assembléia Legislativa decreta e eu promulgo a seguinte lei:
Artigo 1.° - É declarada de utilidade pública a Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos com sede nesta Capital.
Artigo 2.° - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.

Palácio do Governo do Estado de S. Paulo aos 24 de Dezembro de 1951

Lucas Nogueira Garcez
 José Loureiro Júnior

Publicada na Diretoria Geral da Secretaria do Estado dos Negócios do Governo aos 24 de Dezembro de 19Sl.
Carlos de Albuquerque Seifarth Diretor Geral, subst.

inserimos neste ligeiro histórico o parecer, o projeto e o decreto do Governo considerando a "Promotora" como instituição de utilidade pública, mais para registro do fato e reconhecimento aqueles que se dignaram votar e aprovar tão alto conceito; registramos o fato para demonstrar quão tardios são os favores governativos á uma instituição que ha 25 anos vem prestando os mais assinalados serviços á comunidade social e aos cegos, se considerarmos que durante a sua existência mais de mil cegos por ela passaram se alfabetizando, aprendendo ofícios e mais do que isso, conhecendo os meios de ganhar o pão de cada dia sem o único recurso até a sua fundação conhecido de pedir para viver,
Como resultado prático, desconhecemo-lhe as vantagens, desde que não obstante tal reconhecimento por parte dos poderes públicos, a Secretaria da Associação continua assoberbada com os pedidos de isenção de impostos de toda a espécie.
Até o presente momento o fisco não lhe dá trégua, sem embargo dás constantes solicitações e moções enviadas no sentido de facilitar ao cego a luta pela existência.
No mês de Maio de 1952, a Associação, premida pelas circunstâncias constantes do pedido da entrega do prédio ocupado pelo Núcleo de Bauru, resolveu adquirir uma casa, indo aquela cidade, por incumbência da Diretoria, os Srs. l.° Secretário e Diretor Técnico, que efetuaram a aquisição do prédio sito á rua Gerson França, 11-61, mandando que para aí se transferisse o aludido Núcleo, onde se acha atualmente instalado.
Meses após, a Diretoria recebia a grata nova de que o fazendeiro e pecuarista naquele município, Sr. Plínio Ferraz, oferecia a quantia de cem mil cruzeiros e que procuraria outros amigos que também concorressem para a edificação da casa dos cegos naquela cidade.
Para tratar do assunto, foram convidados representantes da Associação cuja Diretoria nomeava os seguintes membros: prof. Mamede Freire, Diretor Técnico; prof. João Penteado, Presidente; José Gavronsky, 1.° Secretário Nelson Gonçalves de Oliveira, 2.° Secretário e José de Paula e Silva, Diretor Social.
Essa comissão da "Promotora", a convite, compareceu á reunião do Rotary Club de Bauru na noite de 20 de Maio de 19S3 onde após todos os atos protocolares, foi efetuada uma quotização entre os sócios presentes, alcançando, com a importância oferecida pelo Sr, Plínio Ferraz, a quantia de Cr$ 368.000,00.
Assim, está para ser construída em Bauru, a sede definitiva do 5.° Núcleo, em terreno da rua Gustavo Maciel, de propriedade da Associação, cuja pedra fundamental está para ser lançada. "
Será das casas da Associação, a primeira a ser construída especialmente para o fim a que e destinada, já tendo o engenheiro Sr. Dr. Guilherme Ferraz executado a respectiva planta e dependendo apenas do pronunciamento do Rotary Club de Bauru o inicio das obras.
A Associação, em vista do interesse revelado pelo Sr. Plínio Ferraz, nomeou o patrono deste empreendimento e como representante e procurador desta, naquela cidade, o Sr Heitor Pimenta, a quem estão afetos os negócios referentes à obra.

Cinco núcleos de cegos que em conjunto constituem um grande agregado, todos com a sua economia independente e cada qual com o seu gerente o seu professor (cegos) e o seu contador e demais auxiliares, apresentando mensalmente os seus balancetes ó administração geral, pelos quais esta verifica o andamento das suas atividades, só interferindo quando se faz necessária uma providência extraordinária. Esta providência quase sempre è resolvida pelo Diretor Técnico, que superintende todos os núcleos. e quando necessário, um outro membro da Diretoria, por determinação desta, em conjunto, visita as casas onde haja qualquer dificuldade a sanar.
Os maiores obstáculos que têm surgido para a boa administração e regular funcionamento desses núcleos têm sido os referentes aos prédios em que se têm localizado e á substituição dos gerentes técnicos, alguns por incapacidade administrativa e outros por deslizes que a Diretoria absolutamente não tolera.

E aí vai, descrita singelamente, o que foi uma idéia posta em pratica por um pequeno grupo de cegos num bairro operário da Paulicéia, com a sua primeira escola e oficina de trabalho modestíssimas num pobre subúrbio, hoje representada peia maior organização de cegos de iniciativa particular do país, o que se comprova com o seu largo âmbito de atividade, com o vulto dos seus negócios. com o seu já respeitável patrimônio e com a sua repercussão já transpondo os limites do Estado e até do país,
Todas as fundações congêneres que vêm aparecendo nos diversos pontos do país procuram a "Promotora", onde vêm buscar regulamentos e diretrizes e até pessoas interessadas no assunto têm vindo a S. Paulo para estudar a sua organização.
E assim que, graças a tão modelar entidade, S. Paulo, com ser já a cidade mais populosa do Brasil não mais vê nas suas ruas o espetáculo deprimente de cegos esmolando, mas sim trabalhando, porque outras organizações vêm aparecendo e procurando seguir-lhe o rastro.
Já em 1935 o Dr. Alberto de Assis, da capital da Bahia, publicava "O Cego", onde desenvolvia o problema social do cego, referindo-se destacadamente á A.P,1.T, para Cegos, de S. Paulo.
Nesse mesmo ano a Associação era convidada a se fazer representar na Primeira Reunião Brasileira de Oftalmologia.
Também participou, a convite num seminário. no Rio de Janeiro, para a unificação estenográfica da escrita Braille comum aos dois idiomas - castelhano e português - de 13 a 20 de Julho de 1953
Em Maio de 1952 a Associação era também convidada a se fazer representar na trasladação dos restos mortais do grande cego Louis Braille para o Panteon t4acional, em Paris.

A Associação tem comemorado quase tidos os anos, desde a sua fundação, festivamente, os seus aniversários, procurando mostrar ao público a capacidade artística dos cegos, prestando quase sempre o seu valioso concurso a essas solenidades o poeta José Bento de Oliveira, autor da letra do hino oficial, que tem a música do saudoso cego José Gonçalves de Oliveira
A essas festividades têm acorrido grande número de espectadores, associados e sua Ex.mas famílias. A última, efetuada no Teatro S. Paulo, por ocasião do 25.° aniversário da Associação foi a maior demonstração e a mais perfeita de quantas se tem realizado em S. Paulo por cegos: constou de declamações, conferencia, representação de. comedia, números de musica fina, jazz-band, canto e hino, tudo exclusivamente pelos cegos vinculados á Associação.

HINO DA ASSOCIAÇÃO

Da escuridão cruel que o cego oprime
Como noite infinita e sem aurora,
O trabalho é um clarão quente e sublime
Que as angustias da vida nos minora.

Braille quis que o saber também viesse
Aliviar do cego o coração;
E por isso ao trabalho que engrandece
Aliamos felizes a instrução.

instrução e trabalho eis o lema,
Refulgente ideal que nos guia,
Como um sol de grandeza suprema,
Que de seda e de luz veste o dia.

Das sarjetas a esmola não pedimos,
A indigência humilhante combatemos;
Com virtudes e bênçãos construímos,
Uma tenda, uma escola onde aprendemos.

Libertando os irmãos de desventura,
Que miséria lançará nos tristes pegos,
Defendemos a causa santa e pura,
Dos cegos, para os cegos, pelos cegos..

A Associação tem realizado com toda a regularidade as suas sessões ordinárias e extraordinárias, que são quinzenais, conforme preceituam os seus Estatutos, assim como as suas Assembléias Gerais Ordinárias, que são anuais. E nus Assembléias Gerais têm sido apresentados os Relatórios Presidenciais, onde são relacionados todos os acontecimentos que interessam os associados, assim como o seu Tesouraria tem apresentado sempre os seus Balanços Anuais.
Também com a possível regularidade a Associação tem mantido como locais de trabalho para os cegos, as suas oficinas, os mercados e as feiras livres, além de um corpo de corretores, cobradores e professores, todos cegos.
 Muitos destes revelam aptidões apreciáveis, sendo que alguns conseguem até acumular um certo cabedal, resultado de suas próprias economias
 Vários deles, após se sentirem em condições de enfrentar a vida independentemente, saem da instituição para viverem por conta própria ou agregados em pequenos grupas que apresentam ao público como associações
Há amblíopes que tendo encontrado dificuldades insuperáveis na vida ordinária dos videntes, em virtude da sua insuficiência de visão, encontram vantagem na competição entre os que são complemente cegos, recuperando-se para a vida econômica que antes lhes era inteiramente adversa.
 Há também os casos de fracasso, em que eles solicitam o reimpresso na Associação.
Ha casos admiráveis de recuperação para a vida normal, de cegos que se viram na mais dura contingência como marginais. Citaremos alguns:
Na Assembléia Geral Ordinária de 28 de Fevereiro de 1944 foi lida a seguinte carta do amblíope Cipriano Dias: "Sr. Presidente e demais membros da Diretoria, prezadíssimos consócios da A.P.I.T, para Cegos. Respeitosas saudações, não me sendo possível estar presente a mais essa solene e útil Assembléia Geral onde serão ventilados com carinho e zelo as necessidades e aspirações dos cegos da nossa Associação, valho-me da presente para transmitir aos Srs. Diretores e á digna Assembléia Geral os meus votos de pleno e feliz êxito para mais essa reunião em beneficio dos anormais da visão. Senhores Diretores, egresso dessa casa de reeducação onde aprendi e reagrupei forças para a luta pela vida como homem consciente e independente, resolvi por em prática os nobres ensinamentos aí aprendidos, na certeza elevada de que na sua viabilidade prática só advirão benefícios em favor dos cegos em geral; iniciei-me num comércio independente nas feiras livres, contando tão somente com a minha força de vontade - aliás retemperada pelos ensinamentos dessa benemérita Associação - a certeza de que de meu sucesso muito lucraria a causa dos cegos em geral. Como de minha atividade tenho conseguido viver e manter com dignidade minha família e com a nobre convicção de que, sendo mais independente, mais útil possa ser a todos os demais colegas que queiram também praticar os nobres ensinamentos da "Promotora" no sentido de viverem independentes e honestamente, resolvi solicitar de V.S.as a minha demissão do quadro de funcionários dessa Associação, e como faço tardiamente por motivos imperiosos e alheios á minha vontade, peço-lhes desculpas. Colocando-me, nesta minha nova situação ao inteiro dispor dessa digna Diretoria para tudo que de mm precisarem em beneficio da nossa nobre causa, e agradecendo eternamente tudo que por mim fizeram, subscrevo-me humildemente, formulando votos de prosperidade".
Outro testemunho é dado pelo amblíope José de Paula e Silva, hoje Diretor Social da Associação.
O vespertino "A Gazeta" de 21 de Dezembro de 1943 publicava o seguinte: "o Sr. José de Paula e Silva era tabelião em Cafelândia, sendo ainda farmacêutico diplomado pela antiga Escola de Farmácia e Odontologia de Pindamonhangaba. Pedimos-lhe que nos desse alguma coisa de sua vida ao que ele acedeu, contando. Exerci o cargo de tabelião até 1942 quando tive de deixar o emprego por sofrer atrofia do nervo óptico, ficando uma das vistas inteiramente cega, enquanto a outra tem pouquíssima visão. Obtendo um sucessor, afastei-me do cargo, a fim de poder tratar-me e conseguir outro emprego.
- Conseguiu alguma coisa com o tratamento?
- Embora tivesse gasto muito dinheiro, nada consegui, pois todos os médicos estavam acordes em considerar o meu caso incurável.
Como se arranjou nessa situação?
Procurei o Instituto Padre Chico, onde esperava conseguir um lugar. Aí, porém, informaram-me que a Associação Promotora era a única que podia solucionar o caso, em vista de ser eu casado e maior de 18 anos.
- Obteve a assistência que pretendia nessa Associação?
Felizmente fui esplendidamente recebido pelo prof. Mamede Freire que me prodigalizou todas as facilidades. Foi para mim uma felicidade ter encontrado essa Casa onde, além de assistência material, podem, aqueles a quem o destino tirou-lhes a visão, encontrar o auxilio material de que tanto carecem, por vezes. Não se trata de um asilo, onde a caridade pudesse provocar um sentimento de humilhação ou rebaixamento. Trata-se antes de uma instituição de solidariedade, cujos membros se auxiliam mutuamente, exercendo as funções que maiores probabilidades têm de bem executar. Todos trabalham, cada um na sua especialidade, quer na oficina, onde manufaturam os artigos que aqui se vêm, quer como corretores, quer como fereiros, etc.
Na Associação Promotora, como já disse, fui gentilmente recebido pelo Prof. Mamede Freire, diretor geral, passando a ser considerado como associado, e vindo logo trabalhar neste stand do mercado.
- Está satisfeito com essa situação?
- Evidentemente sim. Para o cego é uma felicidade encontrar um meio como este, onde pode trabalhar e estudar com o necessário conforto. Aqui não nos falta a assistência médica e material, boa alimentação e tratamento carinhoso. A diretoria da Casa não poupa esforços para melhorar a nossa situação.
- Quantos cegos aí vivem?
- - Somos ao todo cerca de noventa, divididos em várias funções, como já disse.
- - Aqui no mercado é satisfatório o movimento de vendas?
- - Antes de tudo devo dizer que as vendas duplicaram desde que para cá vim, Atualmente vendemos cerca de Cr$ 3.500,00-por mês.
- - E este o único local com que a Associação conta para vender as suas mercadorias?
- - Absolutamente não. Vendemos também nas feiras livres, além das vendas por atacado, feitas diretamente pelos corretores ás casas de negócio,
- Finalizando quero agradecer ao prof. Mamede Freire a bondade com que me acolheu e o tratamento que tenho recebido na Associação, tanto da gerência como da Diretoria, favorecendo os meios para que eu pudesse reagir contra esse infortúnio, permitindo-me obter os meios necessários para educar os meus filhos".

- Após alguns anos, o Instituto de Previdência do Estado, reconhecendo-lhe direitos, concedeu-lhe uma pensão pela sua invalidez no exercício de tabelionato, não precisando mais o Sr. José de Paula e Silva dos préstimos da Associação. Ele, porém, é quem, agora, dá os seus préstimos como Diretor Social e membro da Comissão de Sindicância. É quem age junto ás repartições públicas para a obtenção dos despachos que interessam a Associação, no que se tem mostrado bastante eficiente e dedicado, provando assim a sua gratidão e alta compreensão dos seus deveres.
- - Ainda outro caso, para atestar os resultados que a "Promotora vem obtendo, passamos a narrar, este agora, ditado por pessoa de vista: "Com a finalidade única e exclusiva de cumprir um dever de humana gratidão, sirvo-me deste para agradecer ao benemérito espirito de escol que é o prof. Mamede Freire, fundador desta notabilíssima e filantrópica instituição.
- Ao seu criador e á sua obra - deve ao deixar esta casa, depois de quase seis anos que foram úteis e aproveitados, o meu cunhado Vicente Bento Freire, que agora se retira como um homem útil e recuperado para  a sociedade.
- Quando por mim fora aí entregue aos cuidados e á dedicação quase paternal do prof. Mamede, era apenas um homem como tantos outros, egresso dos cafezais paulistas, cheio de endemias, sem entusiasmo para a vida e sem instrução alguma e, a despeito de tudo isso - complemente cego das duas vistas.
- Somente lhe restava o caridade pública se lhe faltasse o pouco de conforto material e moral que lhe poderiam oferecer eu e mais alguns parentes, pobres e batalhadores pelo pão de cada dia.
- Vicente Bento Freire retira-se agora por sua livre vontade da A.P,I.T.C alfabetizado pelo método Braille e com regular pecúlio ganho honestamente com o produto do seu trabalho quotidiano nesta instituição, e o que vale mais que tudo ainda - cheio de ânimo e coragem para, por si mesmo, lutar pela sua própria subsistência
- De um homem condenado a ser mais um pária na sociedade, transforma-se agora ele num elemento útil á coletividade em que vive.
Eis o que, silenciosamente vem fazendo, sem os alaridos da publicidade cabotina para os cegos que a procuram, a Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos - guia e farol seguro a iluminar a nova rota a todos os homens de boa vontade e que tiveram um dia o infortúnio de se acharem sem a luz de seus olhos.
  Aos seus diretores, como parente que sou de Vicente Bento Freire, e particularmente ao abnegado prof. Mamede dirijo os meus votos pela sua felicidade pessoal e á prosperidade sempre crescente de tão nobre e filantrópica instituição.
  Com a minha gratidão e elevada estima, autorizo a A.P,1,T,C, a fazer desta o uso que melhor lhe convier e parecer".
Este importante testemunho foi publicado na "A Tribuna" de Santos, a 27 de Abril de 1950.
  Também queremos citar aqui um outro fato: o cego Neoptolemo Maciel Soares exercia o cargo de gerente do 3.° Núcleo Profissional. Ultimamente, graças á sua exemplar conduta e esplêndido aproveitamento, conseguiu ser nomeado mestre de empalação no Instituto Benjamim Constant, do Rio de Janeiro, fornecendo-lhe a Associação os atestados de proficiência e idoneidade a que fez jus em 15 anos de aprendizado e experiência nos diversos cargos assumidos no Núcleo sede e filiais.
  São inúmeros as casos de reeducação e recuperação de cegos, porém, já citamos esses como atestados do que afirmamos.


A DIRETORIA DA A,P.I,T. PARA CEGOS

A diretoria da Associação é eleita de três em três anos em Assembléia Geral Ordinária e os seus membros são escolhidos entre os sócios que mais se interessam pelos seus destinos, excetuando o seu Diretor Técnico que tem caráter permanente por ser esse cargo equivalente ao de superintendente e é o único remunerado.
  Os demais diretores nada percebem pelo seu trabalho.
  A atual Diretoria, eleita na Assembléia Geral do dia 24 de Janeiro de Ì954 é a seguinte:

  Presidente, Prof. Jalão Penteado;
  1.° Secretário Dr. José Gavronski;
  2 ~ Secretário Nelson Gonçalves de Oliveira;
  Tesoureiro, Contador Francisco Grisolia
  Procurador, Contador Laurindo Chaves.

  Comissão de Finanças
Marino Spagnolo, Antônio Cândido de Oliveira, João Fuccio.

  Comissão de Sindicância
Hermelindo Gonçalves de Oliveira, Carlos Fabbri, José de Paula e Silva (amblíope)

  Comissão Técnica
Maximino Alves da Silva (cego), Sebastião Roque (cego), Antônio Nicazio Ferreira (cego).
  Nem todos os membros da direção residem na Capital. Como a Associação se irradia para várias cidades, alguns deles têm residência longe da sede, acorrendo a esta sempre que necessária a sua presença, como nos casos de reunião, que obedecem rigorosamente ás determinações dos seus Estatutos. (Não podem funcionar com menos de 8 elementos. Da atual Diretoria um membro reside na cidade de Santos, outro em S. Vicente, um terceiro em Sorocaba e mais um outro ainda em Bauru, o que não é entretanto muito conveniente ao bom desempenho dos seus mandatos. Para os diretores cegos a Estrada de Ferro Sorocaba tem fornecido passes gratuitamente, o que denota a superior compreensão dos seus dirigentes.

PATRIMONIO SOCIAL

 O seu patrimônio conta com as seguintes propriedades desembaraçadas de quaisquer ônus:
Prédios em que funciona a Sede Social e 1.° Núcleo Profissional, á rua Cajurú 722 - 730 - Belém;
 Prédio em que funciona o 2.° Núcleo Profissional, na cidade de Santos, á Avenida Conselheiro Nébias n.° 649, com terreno anexo fazendo frente para a rua Osvaldo Cruz;
Prédio em que funciona o 4.° Núcleo Profissional na cidade de Piracicaba, á rua do Vergueiro n.° 576;
Prédio em que funciona o S.° Núcleo Profissional, em Bauru, á rua Gerson França, 11 - 61;
Uma área de terreno nesta mesma cidade, onde será construída a Casa do Cego, à rua Gustavo Maciel;
Uma área de 1.400 metros quadrados, muito bem situada no alto do Jabaquara, em S. Paulo, doação da Ex.ma. Sra. d. Elvira Botura da Silva Caiafa, onde se pretende construir um gerocômio-nosocômio para cegos velhos valetudinários;
Quatro lotes de terreno na vila Curuçá, bairro de S. Miguel Paulista, doados pelas Ex.as. profas. Maria Agnella Airosa de Azevedo e Georgina Airosa Azevedo.

SOCIOS HONORÁRIOS, BENEMÉRITOS E BENFEITORES
A Associação tem deparado de quando em quando com grandes amigos que não podem deixar de ser aqui lembrados, os quais muito hão contribuído pela vitória da causa.
  No seu quadro figuram como Beneméritos, por donativos valiosos, de acordo com o art. 7º §º dos Estatutos, os seguintes: Dr. W. Gordon Speers, d. Georgina Airosa de Azevedo, Dr. Rafael Lassalvia, Sr. Ernesto Sebastião do Nascimento, d. Elvira Botura Caiaffa, Comendador Antônio Pereira Ignácio, Dr. Jarbas Tupinambá de Oliveira e d. Guilhermina A. S. Ferreira.
  Como Beneméritos, por serviços prestados, estão registrados os seguintes, de conformidade com o art. 7º §7º, d, lzabel Cerruti, Amadeu Moretti (cego), prof. Mamede Freire (cego), Marino Spagnolo, Manoel Cavalheiro de Faria, Dr. José Gavronski, Antônio Cândido de Oliveira. Rodolfo Faccio, d. Pérola Byington, d. Mariana Valente, Orlando de Freitas, Alberto Ribeiro, Cypriano Dias Pires, (cego) d. Ada Campanili Augusto de Carvalho, Oscar Lopes, Carlos Morandi. Osvaldo Leite de Araújo, Antenor C.  Tolentino, maestro Marcelo Paranaguá, Ari Dias Bicalho, Belmiro Dias Bicalho, lsaac Gonçalves, Dr. Augusto de Queiroz. d. t4azcreth de Castilho, prof. Delfino C. de Lima, Francisco Grisolia. Manoel de Carvalho, Severino Gonçalves Antunã, O. Ribeiro & Cia., Flavio Lara de Faria Heitor Pimenta, João Jorge Pieroni, Dr. Luiz de Anhaia Mello.
  Constam ainda como honorários de acordo com o art. 7. § 4.° os seguintes: Américo Chave, Dr. Aristides Bastos Machado, Dr. Paulo Stipp, maestro Ferrucio Arivabene, Dr. Ângelo Cândia, Horacio Brandão, Dr. Edmundo Scala, Dr. Carlos Barreto, Antônio de Castro Novo, Dr. Milton Tavares, Francisco de Paula Camargo.
Muitos dos amigos da causa aqui enunciados já são falecidos, mais uma razão para evocar-lhes os nomes, rendendo-lhes o presente histórico a homenagem merecida e para que os cegos saibam quais foram os seus benfeitores
Os cegos já tiveram a recompensa de seus esforços; os demais, porém, merecem uma homenagem especial do autor das presentes memórias pelos sentimentos de solidariedade de que deram provas na colaboração pela causa em apreço.
Paginas atras, falou-se em vulto de negócios Queremos comprovar a referencia com alguns algarismos: o balanço da Tesouraria da Associação demonstrou ter havido no ano findo de 1953 um lucro sobre as vendas no valor de Cr$ 492.387,60. Os sócios contribuíram com a quantia de Cr$ 189.026,00 e foram pagos só de ordenados Cr$ 176.492,60; de comissões sobre vendas Cr. S 127. 615,90 e comissões sobre cobranças Cr$ 56.365,70. Só em manutenção, isto é gêneros alimentícios, a Associação despendeu no último ano a quantia de Cr. S 290. 821,30. Estes algarismos referem-se unicamente ao 1° t4úcíeo Profissional,  na capital
 A sua receita total englobada dos cinco núcleos alcança a quantia de quatro milhões e quinhentos mil cruzeiros, com uma despesa que ultrapassa a de quatro milhões e trezentos mil cruzeiros.
 Os presentes números crescem continuamente.
Ha uma disposição nos Estatutos sociais que revela o rigor e a precaução com que a Associação procura defender os seus haveres: não pode haver retirada bancária sem a assinatura do Presidente, do 1.° Secretário. e do Tesoureiro. Só a falta de uma destas três assinaturas implica na negativa por parte do Banco depositário. E todas as ordens de pagamento são assinadas pelas dois primeiros.
 A Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos tem cunho completamente liberal no que concerne ás questões religiosas, raciais ou político-partidárias, mantendo as melhores relações com todas as organizações de quaisquer espécies ou tendências e com todas as suas congêneres, quer de S. Paulo ou de outros pontos do território nacional, corno atesta a sua correspondência arquivada. E com a sua grande co-irmã de S. Paulo, o Instituto de Cegos Padre Chico, em virtude de ser a "Promotora" destinada só para adultos, esta envia as crianças cegas àquele. Havendo dele recebido muitos adultos, na mais perfeita congruência, de conformidade com os seus postulados.
 Ela não interfere nas crenças religiosas ou políticas de seus agregados, somente deles esperando cooperação e disciplina. E nem mesmo exige, pois que ha elementos que só recebem benefícios e nada colaboram, em virtude de sua incompreensão dos próprios deveres.
 São inúmeros os cegos que já passaram pela "Promotora", onde se alfabetizaram, aprenderam ofícios e ganharam orientação para a luta pela existência. Alguns ficaram na Capital, outros seguiram diversas direções onde os aguardavam outros interesses, especialmente a aproximação de seus familiares e a esperança de maior prosperidade.
 Todavia, como em todos os setores da atividade humana, existem os espíritos constantes também entre os cegos: d. Ema Martinelli, educada num instituto de cegos da Itália, faz os serviços de cobrança da "Promotora", desde o ano de 1930; o amblíope José Koatz é corretor na praça de S. Paulo desde 1931; o cego Balduino do Amaral Mello, professor de alfabetização do 1.° t4úcleo Profissional, desde esse tempo, como se fora um elemento de reserva, já contando 75 anos de idade, tem prestado serviços em tidos os núcleos da Associação, quer como professor quer como gerente técnico; o cego Osvaldo Borelli professor do 2.° Núcleo Profissional, que também tem servido em várias filiais, está agregado desde o ano de 1932; o cego João Kanitz, retirado do Asilo de Inválidos de Santos, trabalha na oficina do 2.° Núcleo Profissional da Associação desce 1931, isto é, desde a sua criação, embora por conveniência de serviço já tenha servido noutros Núcleos. Este último caso atesta sobremaneira a excelência dos métodos adotados pela "Promotora" para a recuperação das invisuais. Quando asilado era um ser complemente inútil, mal podendo se locomover. Com quatro anos de asilo e apenas vinte de idade eqüivalia-se a um homem decrépito. Hoje, com 43 é um moço ativo, trabalhador e com uma pequena economia própria, ganha na fabricação de vassouras e outros artefatos.
 Não é este um caso contado, mas presenciado em todos os pormenores por quem escreve estas linhas.

PROF. MAMEDE FREIRE
TRAÇOS DE SUA EXISTÉNCIA

 Uma personalidade tão marcante na história de um setor da vida nacional, uma figura tantas vezes citada no decorrer da agitação do elemento cego em S. Paulo, não poderia passar sem um registro todo especial nesta narração. A curiosidade do leitor terá que ser satisfeita com a publicação de sua biografia.
 O prof. Mamede Freire, nascido no Estado do Ceará, aos quinze anos estava matriculado na Escola de Máquinas da Marinha, na Capital Federal. Diz uma outra publicação sobre a sua pessoa: "uma explosão no Arsenal de Marinha modificou complemente, pelo menos um destino, o do aspirante a oficial Mamede Freire. submeteu-se ele, consecutivamente, a 15 intervenções nos olhos e acabou por se convencer que perdera a vista irremediavelmente.
Iingressou então no Instituto Benjamim Constant para cegos e durante nove anos freqüentou suas aulas formando-se professor.
 Só depois, porém, de terminado o curso, ingressando na vida pratica, na luta real de todos os dias. Mamede Freire que sonhara com os horizontes infinitos do mar e o embate rude dos marujos, teve que se enrijar para não soçobrar. Raros são aqueles que, na sua situação, conseguem permanecer dispostos a afrontar o destino.
 Ao verificar que nas escolas comuns não aceitam cegos como professores, fundou o Instituto Herbert Spencer. Mas em pouco iria se convencer de que os cegos, mais, muito mais do que cultura, precisam de profissões, precisam de meios práticos com que vencer na vida, independentemente da caridade alheia.
 Foi a sua experiência no Instituto Herbert Spencer que o levou a fundar a Liga de Proteção aos Cegos do Brasil, que não é uma escola, mas um centro de defesa do cego. Na realidade, é a mais importante idéia de recuperação social do cego no Brasil, que já ensinou métodos de trabalho a milhares de cegos.
 Tal repercussão teve sua obra que o Governo de Minas o convidou para levar ao estado montanhês a sua cooperação no grande problema. Organizou, então em Belo Horizonte, o Instituto são Rafael e, retornando ao Rio, criou a primeira escola de datilografia para cegos.
 Fundou, também, a União dos Cegos no Brasil, com sede na Capital da República.
 Em 1927 veio a S. Paulo, convidado por uma idealista, a Sr.a, d. lzabel Cerruti e seus companheiros, onde efetuou conferências e deu entrevistas a jornais, iniciando uma campanha de propaganda em favor dos seus ideais e da Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos. que iniciava as suas atividades, tornando-se desde então o seu orientador, mesmo quando ausente, em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro.
 Na Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos passou a ser o seu Diretor Técnico, sendo-o também na União dos Cegos no Brasil. da Capital Federal, simultaneamente. E de quando em quando vinha a S. Paulo para imprimir á fundação de cegos paulista a sua soberba ideologia e emprestar a luz dos seus conhecimentos especializados, como conhecedor que é de tudo quanto se faz no mundo em favor de sua causa
 Em 1931, convocado pela instituição de cegos paulista, s. s. transportou-se para a Capital de S. Paulo, fixando aqui residência, de onde tem feito irradiar um movimento notável em beneficio dos cegos de sua pátria. Não obstante os seus 68 anos de idade, ainda tem ânimo para prosseguir na luta que se impôs.
 Hoje a "Promotora" como a denominam, já tem outras filiais em várias cidades do Estado, em Santos, Sorocaba, Piracicaba e Bauru, estendendo assim a sua rede de benefícios, onde os cegos sentem-se mais felizes, pois aprendem uma profissão, ganham a vida como qualquer ser humano em trabalho honesto e interessante alfabetizando-se ao mesmo tempo.
 Líder autêntico, Mamede Freire é um libertador de seus irmãos, aqueles que devem ao seu trabalho a razão de ser da própria vida.
 Mamede Freire não é apenas um cego ilustre, mas um verdadeiro cidadão benemérito de sua pátria, em virtude de seu labor constante para libertar a sociedade do ônus constituído pelos invisuais, que, pela sua doutrina, são transformados em elementos produtivos, obra, sem duvida, de extraordinário conteúdo social.
 Com tão avançada idade, acha-se ainda o professor Mamede na plenitude de suas faculdades para continuar a sua trajetória, de tanta eficácia para os interesses das cegos e da saciedade.
 Que a sua saúde se conserve para que tão grande obra não venha a perder tão seguro mestre e que a bandeira desfraldada pela Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos seja por S.S.. empunhada por longos anos ainda a fim de que á sua sombra benfazeja se acolham todos os cegos do Brasil, desde que, fugindo aos estreitos limites do regionalismo, as suas concepções filosóficas bebidas em doutrina de humanidade, abrangem os mais dilatados horizontes da pátria comum.

EM CONCLUSÃO'

 Poucas obras têm sido publicadas em nosso país, sobre assuntos tiflológicos, o que não admira, pois que não vai muito além de cinco ou seis lustros a agitação em torno do elemento cego
 Antes, pouco ou nada se fazia no Brasil como ficou dito, e portanto nada se escrevia a respeito
Desenvolvendo-se agora a obra em São Paulo no terreno prático com as diversas fundações aqui descritas, despertará certamente algum interesse o presente trabalho, lançado sem pretensões intelectuais para preencher uma lacuna, que aliás já se fazia sentir para que futuramente não se atribuíssem a ourem, o que lamentavelmente soe acontecer em narrações históricas. aquilo que legitimamente cabe á Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos e aos três jovens cegos educados que já no ano de 1922, por conseguinte, há trinta e dois anos iniciaram a campanha hoje tão bem sucedida.
 Pelo menos, como resenha de um setor social cremos ser a única, servindo como complemento á história de São Paulo. Sempre, não deixa de ser um documento para as gerações futuras, escrito por quem, excetuando-se os que se realizaram anteriormente fora de São Paulo, viveu todos os fatos aqui narrados.

 São Palio, em Abril de 1954

JOSÉ GAVRONSKI
1.° Secretário da  A. P. I. T. para Cegos
S Ã O P A U L O

 
 
Voltar Topo Indicar a um amigo Imprimir
 

CMDV - Comércio de Materiais para Deficientes Visuais Ltda-ME
CNPJ 65.666.315/0001-18 - Insc.Est. 113.397.712.111 ME
Fone: (11) 3768-2595
cmdv@cmdv.com.br

  Nipotech