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CEGUEIRA: O QUE ELA É, O QUE ELA FAZ, COMO VIVER COM ELA.

REVERENDO THOMAS J. CARROLL

CEGUEIRA: O QUE ELA É, O QUE ELA FAZ, COMO VIVER COM ELA.

TRADUÇÃO E EDIÇÃO PATROCINADA PELA CAMPANHA NACINAL DE EDUCAÇÃO DOS CEGOS DO MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E CULTURA. (PROIBIDA A REPRODUÇÃO SOB QUALQUER FORMA).

Revisão técnica da tradução por: Jurema Lucy Venturini e Ana Amélia da Silva

Dezembro de 1968 – São Paulo (SP), Brasil

Título do Original em inglês:
BLINDNESS: What it is, what it does and how to live whit it
Edição de 1961


Edição de 1000 exemplares em forma mimeografada conforme autorização concedida à Fundação para o Livro do Cego no Brasil pela:

Little, Brown and Company Publishers
34 Beacon Street
Boston, Massachusets 02106


Digitalização gratuita: Prof. Dr. Sylas Fernandes Maciel – Departamento de Oftalmologia e Otorrinolaringologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo – para leitura de deficientes visuais com softerware de voz..

PREFÁCIO

Os inúmeros indivíduos cegos e os dotados de visão que conhecem e amam o padre Carroll estão cônscios da profundidade psicológica do seu trabalho, de sua dedicação à sua fé e ao cego, e de sua influência inspiradora sobre tantos indivíduos. Muitos de nós, talvez, não valori¬zem totalmente a extensão da influencia de suas idéias criadoras sobre o trabalho com os cegos, por anos afora, por serem elas tão revolucionárias. O padre Carroll escreveu este livro como um guia pratico para os que ficaram cegos e para aqueles que pretendem ajudá-los. Mas esse livro não se destina a fazer o leitor cego feliz com sua cegueira ou confortar-se com a boa vontade dos dotados de visão. É preciso coragem para se viver como cego, e esforço extenuante para alcançar uma adaptação compensadora.
Apesar de sua limitação, o individuo que ficou cego não pode fazer menos do que o provido de visão, pro¬curando viver realizado, como pessoa independente e socialmente responsável.
A presente obra fornece a qualquer pessoa que possua tais ambições, os métodos e meios necessários para alcançar este objetivo.
Como alguém que já fez trabalhos e observações sobre problemas do ponto de vista psicológico, posso dar testemunho da validade destas idéias.
Certamente, a cegueira não é apenas uma das ma¬is graves deficiências, mas é também diferente das demais. Porem, isto não significa que os problemas de reajustamento que se apresentam às pessoas recém-privadas da visão sejam fundamentalmente diferentes dos de qualquer outro individuo portador de deficiência ou não.
Baseando-se nisto, o padre Carroll dissipa muitas noções supersticiosas e falsas sobre a cegueira e o cego. Devido ao fato destes conceitos terem sido provados como empecilhos no caminho do cego é que suas palavras parecem duras.
Sua fé na bondade e na força próprias do homem portador de deficiência ou não, nos é transmitida através deste livro. Isto não pode ser senão uma inspiração para todos nós.
Jacob Levine,
Doutor em Filosofia

AGRADECIMENTO

Tantas foram as pessoas que contribuíram na preparação deste livro que seria impossível agradece-las particularmente.
Em várias edições manuscritas, desde 1953, este livro foi lido por inúmeras pessoas cegas e autoridades no campo da reabilitação que sugeriram mudanças e melhorias; tem sido usado como manual didático, por mais de duzentos adultos que perderam a visão; tem servido como livro básico de ensino para muitos profissionais.
De tudo isto surgiu uma reação que levou à inclusão de novos materiais ou à modificação de material obsoleto. Tipógrafos, revisores muitos voluntários deram horas de trabalho pessoal na transcrição desta obra.
Embora pareça injusto destacar pessoas, gratamente reconheço a colaboração de todos aqueles citados a cima; assim como de todas as pessoas que transmitiram os conhecimentos refletidos nestas páginas.
Thomas J. Carroll

INTRODUÇÃO

Para quem este livro foi escrito

Para os que trabalham com cegos -profissionais pagos ou não.
Para aquelas pessoas cegas que têm procurado uma resposta mais completa para os problemas da sua cegueira.
Para as famílias das pessoas cegas. Para os que trabalham no campo da reabilitação.
Para os assistente sociais.
Para professores de escolas públicas e particu¬lares que, em escala crescente, recebem crianças cegas em suas classes.
Para médicos - especialmente clínicos em geral, oftalmologistas e psiquiatras.
Para funcionários de hospitais, proprietários de creches, e para o grupo que trabalha com pacientes geriátricos.

Suas finalidades

Este é um livro sobre a cegueira, não no seu aspecto médico, não como preveni-la, mas, sobre o que ela causa às pessoas quando ocorre. E, principalmente, sobre uma certa espécie de cegueira - a que atingiu o adulto que outrora possuía visão.
Aqui procuramos analisar a cegueira, o efeito que causa na pessoa normal atingida na fase adulta, e o que poderia e deveria ser feito a respeito.
Outros autores fizeram a distinção entre “cego congênito” e o “que ficou cego”, entre os que nunca tive¬ram visão e aqueles que a possuíram por um certo tempo e a perderam. Usaram termos como “cegueira congênita” e “cegueira adquirida”, “cegueira de nascença” e “cegueira re¬cente”. Quaisquer que sejam os termos usados, eles não definiram claramente a diferença essencial entre “ter visto e ter perdido a visão” e “nunca ter visto”. E, frequente¬mente, falam como se acreditassem haver pequena diferença entre alguém que nasce ou que tenha ficado cego na ten¬ra idade, na juventude ou quando adulto. Seria muito fácil para o leitor desatento concluir que a única diferen¬ça entre pessoas cegas consiste na idade em que a cegueira ocorreu ou a quanto tempo ela existe. “Afinal são to¬dos cegos”.
Mas, este livro procura demonstrar que a dife¬rença qualitativa entre a cegueira congênita e a adquirida é requisito essencial para que esforços inteligentes sejam aplicados na reabilitação do cego. Esta diferença e imensamente mais importante do que qualquer diferença en¬tre os que perderam a visão, relativamente ao tempo em que a cegueira existe ou à idade em que ela ocorreu. Uma diferença na própria natureza da cegueira e seus efeitos sobre a pessoa humana.
Aqueles, entre nós, que possuem visão podem apenas compreender vagamente a cegueira congênita, através de experiências das pessoas que eram dotadas deste sentido e o perderam.
Para que se possa ao menos começar a imaginar o que isto representa, nem o simples fechar de olhos nos ensinará o que significa nunca ter conhecido as cores; mas, fechando os olhos podemos ter alguma noção do que seja não ver a cor. Imaginar o que seria nossa vida sem qualquer forma visual é impossível. As imagens estão demasiadamen¬te entrelaçadas com toda a nossa maneira de pensar; entretanto, não é impossível imaginar o que seria ficar apenas com as memórias visuais.
Neste livro tratamos não tanto da brutalidade da “falta”, mas sobretudo, com a “dor” da perda. Preocupamo-nos essencialmente com os problemas concernentes a reabilitação daqueles que se tornaram cegos. Mas obtendo maior discernimento destes problemas poderemos nos aprofundar no conhecimento das dificuldades dos que nunca enxergaram.
Esta é a única maneira que dispomos para alcançar tal meta.
No momento em que escrevemos, as estatísticas nos dizem que mais ou menos 350.000 1 americanos são cegos e que a grande maioria tornou-se cega quando adulta. E um aumento de cegueira adventícia está previsto.
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1 - O Centro Nacional de Saúde nos Estados Unidos (julho de 1957 - junho de 1958) incluiu uma pergunta sobre se o recenseado podia ler normalmente, com óculos, o tipo im¬presso comum de jornal. O censo acusou uma estimativa de 960.000 pessoas cegas nos Estados Unidos.

Mesmo que a cegueira não aumentasse, seria im¬portante para aqueles que já são cegos e para todos nós, seus semelhantes e companheiros, compreender o significado da mesma e conhecer as possibilidades de reabilitação dos que se tornaram cegos. Se isto acontecer, o medo e a emoção que cercam o assunto se dissiparão.
Devemos estu¬dar a cegueira objetiva e analiticamente antes de tentarmos fazer a pessoa que ficou cega sentir o calor subjeti¬vo do nosso amor.
É tentador tratar com a cegueira cercando-a nu¬ma aura de brilho emocional. Mas, frequentemente este ar¬dor significa que à pessoa cega está sendo dado algo mas¬carado com o amor - até mesmo para a pessoa que dá - mas que contém sementes de ódio e rejeição. Muitas vezes sim¬patias neuróticas, rejeições estremecidas, identificações possessivas e uma forma de piedade não distante de um fa¬natismo anti-vivisseccionista são impostos ao cego.
Não existe um caminho fácil para a verdadeira simpatia, ajuda e amor. Mas, a abordagem que procura ver o real significado da cegueira e de alguns dos nossos sentimentos em relação a ela, já é um começo. Se não leva necessariamente e de per si, ao amor, pode ao menos remover dificuldades que se erguem no caminho do amor.
Este livro não pretende tratar de outras deficiências que não a cegueira, salvo, na medida em que as mesmas afetem as pessoas cegas. Mas todas as deficiências têm muito em comum. A compreensão do significado da cegueira e do que pode ser feito a seu respeito, poderá ajudar ao leitor a melhor conhecer a própria incapacidade. E, se o método de “análise-síntese” usado neste livro, produzir êxito quanto à abordagem da cegueira, poderá também tornar-se útil ao estudo de outras dificuldades maiores.
Inicialmente, entretanto, este livro é destina¬do a uma perspectiva introdutória para milhares de pesso¬as que penetram neste campo de trabalho todos os anos; quer seja como profissional, quer seja como voluntário,
Desejo que este livro os ajude através dos pri¬meiros dias, quando estiverem cheios de dúvidas, emaranhados nas próprias emoções ao enfrentarem o trauma da ce¬gueira; iludidos ao mesmo tempo pela complexidade deste novo campo e pelas contraditórias trivialidades que ouvem ao seu redor, em relação à “normalidade” da cegueira, à grande necessidade que tem de ajuda e à desconcertante habilidade de passar sem a visão.
Como mostrara a leitura do índice, o método usado neste livro é o da análise seguida da síntese. A pri¬meira parte analisa as perdas que resultam nas inúmeras limitações da cegueira. A segunda parte trata dos problemas de recuperação e substituição do que foi perdido, construindo a total reabilitação daquele que perdeu a visão. O restante do livro trata de vários aspectos referentes ao próprio cego e àqueles que procuram ajuda-lo.
Estudando os vários efeitos, traumas e golpes causados ou desferidos pela cegueira, o leitor deve inicialmente ter em mente o fato de que nenhuma análise pode sepa¬rar e distinguir completamente os mesmos. Eles são golpes numa vida humana, na vida de um organismo, de uma pessoa; e são portanto, necessariamente entrelaçados. A análise feita aqui é resultado de mais de vinte anos de experiência neste campo e de muitos anos de consultas e discussões com pessoas que perderam a visão e com especialistas no trabalho com cegos. Existirão, naturalmente, outros métodos de analisar e classificar os vários efeitos causados pela cegueira. Este, de qualquer forma, já tem provado sua utilidade há um certo período de tempo.
O segundo fato a ser lembrado é que estas per¬das, severas em si mesmas, são sentidas de modo diferente e em graus diversos pelos indivíduos.
Aqui iremos discutir em primeiro lugar o homem que ficou cego na fase adulta; como a psicologia feminina difere da masculina, assim as várias perdas afetam de maneira diversa o homem e a mulher. Portanto, a perda que para uma pessoa poderá parecer a mais pungente de todas será para outra uma pequena inconveniência trazida pela cegueira. É o ser completo e isolado que recebe os múltiplos golpes e ele os recebe de acordo com a sua estrutura pessoal seu modo próprio de viver, seus interesses e circunstâncias. Qualquer análise das perdas causadas pela cegueira deve ser aplicada a cada um individualmente - como exige o programa de reabilitação.

Como ler este livro

Os efeitos ocasionados pela cegueira a uma pes¬soa, as perdas que ela sofre, não chegam a ela um a um para serem tratados isoladamente, mas, todos juntos - quer a cegueira ocorra lenta ou repentinamente. Para se ter qualquer compreensão válida da cegueira é necessário formar-se uma idéia completa destas perdas na medida em que se somam e resultam na cegueira total. Esta é a razão pela qual a primeira parte deste livro enumera e analisa estas perdas tão exaustivamente quanto possível, antes de passar para os meios de reabilitação.
Mas, o leitor poderá ser incapaz de enfrentar este quadro completo de uma só vez se não tiver certa moderação. Quer seja ele um profissional ou parente próximo da pessoa que recentemente perdeu a visão, talvez ache que estudar sucessivamente as vinte perdas que perfazem o total das limitações da cegueira, seja quase insuportável. Este leitor é convidado, no fim da análise de duas ou três per¬das, a consultar o estudo correspondente às possibilidades de restauração, antes de :reiniciar o estudo das demais perdas em si mesmas.
O leitor dotado de visão, que estuda este livro para aprender como ajudar ao cego; o ajudará melhor se, enquanto caminha através da longa lista das perdas que for¬mam o quadro completo, puder ver concretamente o que pode fazer para alcançar seu objetivo.


PRIMEIRA PARTE
ANÁLISE DO QUE É PERDA


CAPÍTULO 1
O HOMEM DE VISÃO MORRE

A perda da visão é um morrer. Quando, em plena correnteza da sua vida normal, a cegueira se apodera de um homem, é o fim, é a morte desta vida. Esta morte pode ser o rápido resultado de um acidente ou de uma doença fulmi¬nante. Ou pode ser lenta, prolongada morte para uma vida de visão que geralmente vem com glaucoma, com uveíte ou como acontece frequentemente em nossos dias com a diabete. A morte pode chegar sem aviso; seu assalto pode estar dis¬farçado sob falsas esperanças e falsas promessas, pode vir com uma lentidão aterradora, inevitavelmente.
Seja como for é o fim de uma certa maneira de viver que era parte do homem. É o término de métodos adquiridos de realizações, a perda de relações humanas estabe¬lecidas e inerentes ao meio ambiente.
É superficial, senão fútil, considerar a cegueira como um golpe que atinge somente os olhos, apenas a visão. Ela é um golpe destrutivo para a própria auto-imagem que o homem cuidadosamente, apesar de inconscientemente, construiu através de sua vida, e que atinge o ser em si mesmo.
Será, então, tão incompreensível que muitas pessoas incapazes de enfrentar esta espécie de morte exprimam o sentimento: “Eu preferiria morrer a ficar cego”?
Espero, no decorrer deste livro, demonstrar como é injustificável este pensamento.
Apesar do ataque da cegueira ser uma tragédia, com múltiplos efeitos sobre a pessoa que perdeu a visão, sobre sua família e nos seus círculos de relações e vizi¬nhanças, a vida apresenta piores tragédias do que esta.
A primeira coisa a ser feita é admitir sua rea¬lidade e saber encara-la.
O falecido Dr. Louis Cholden 1 do corpo médico da Clínica Menninger analisou as condições da pessoa que perdeu a visão na idade adulta como consistindo de uma primeira fase de choque seguida de urna segunda de pesar e privações. A primeira é um estágio de tolhida imobilidade para agir, até mesmo para compreender; a segunda, um período de lamentações pela vida que se foi, pela própria perda. O Dr. Cholden previne os médicos, energicamente, do perigo que pode acarretar aos pacientes o alimentar falsas esperanças. De sua experiência pessoal com os que perderam a visão ele conclui que a tragédia da cegueira adquirida se aprofunda e prolonga quando se encoraja o pacien¬te a fugir da aceitação da realidade que pesa sobre ele.
Demonstra que é falsa bondade procurar poupar a pessoa do choque e do pesar. Isto tem que ser antes aceito, para que possa haver uma reabilitação, praticamente, todos os pa-cientes devem chegar ao fundo do problema antes de iniciarem a longa subida.
Portanto, tratando com quem recentemente perdeu a visão, nosso primeiro trabalho não é dizer-lhe que isto não é mal e certamente esconder-lhe o estado de cegueira. Ao contrário é incutir-lhe a sensação de que é simpático e amado e até na sua dor ele não está sozinho. Então, gradualmente, levá-lo a compreender que “a vida modifi¬cou-se, mas não terminou”.
Mas, as expressões com as quais nós dizemos isto não devem trazer o tom otimista de Pollyana, que procura fugir a realidade, Não devem brotar de uma maneira de pensar que tenta explorar o auxílio do Braille, do cão guia, da bengala, do livro falado ou até mesmo da possibilidade de emprego. A “morte” pela cegueira destrói o padrão inteiro de uma existência, Devemos estar preparados para oferecer coisas concretas em substituição, por que há uma nova vida à frente. Mas, este é o paradoxo: a pessoa dotada de visão está morta, a cega que surge poderá tornar-se a mesma pessoa somente se estiver disposta a suportar a dor da perda da visão.
Num certo sentido, nós morreremos varias mortes durante nossa existência; a vida é uma série de mortes: doenças emocionais são frequentemente resultado da incapacidade de conformação e aceitação dessas mortes. Frequentemente os distúrbios próprios de várias fases da vida são causados pelos conflitos entre a necessidade biológica de crescer e a tendência psicológica de agarrar-se à vida segura de até então 2. Um reflexo disto é encontrado na “nova doença escolar” quer surja no curso primário, superior, acampamentos de verão ou nas universidades. É encontrada na nostalgia do recruta. É a pausa no umbral da porta an¬tes de entrar numa situação nova.
As perdas impostas ao que perdeu a visão são múltiplas. Elas se interrelacionam, elas se sobrepõem umas as outras. Qualquer uma delas é por si mesma grave, juntas formam as múltiplas limitações que é a cegueira. Cada perda inclui um adeus doloroso, (uma “morte”). Mas com a morte do homem de visão, o homem cego nascerá. E a sua vida poderá ser boa.
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1 - Consultar seus artigos: “Some Psychiatric Problems in the Rehabilitation of the Blind”, Bulletin of the Menninger Clinic, vol, 18, nº 3, maio de 1954; “Psychiatric Aspects of Information the Patient of Blindness”, American Academy of Ophthalmology and Otolaryngology, 1953, Instruction Section, Course nº 221; e suas anotações: “A Psychia¬tric Works with Blindness” publicado pela American Foundation for the Blind, junho de 1958.

2 - Ver Holiness is Wholiness, por Josef Goldbrunner, Pantheon Books, Nova Iorque, 1955.

CAPÍTULO 2
PERDAS BÁSICAS EM RELAÇÃO À SEGURANÇA PSICOLÓGICA

1 - Perda da integridade física

O primeiro sopro amargo, nas múltiplas limitações da cegueira é a perda da integridade física, do to¬do. O individuo que cresceu e edificou sua vida, como um ser inteiro, global, é agora somente uma parte do mesmo, está fragmentado.
Agora, aplicam-se a ele as palavras cruéis que marcam o individuo que não é inteiro: “mutilado” — “aleijado” — e a palavra que em si mesma está carregada de horror — “cego”.
Seu medo tem a qualidade de um pesadelo. Com a perda de visão, aconteceu algo extenso e profundamente temido. Está diferente do que era antes e, o que é ainda pior, está diferente daqueles que o cercam, Ele é um homem cego, num mundo que enxerga. Esta diferença física, em relação ao individuo “normal”, é algo que se situa acima e além de todos os problemas da existência que ele terá que enfrentar.
Ele vinha lutando toda sua existência (de um modo ou de outro) para ser um membro de “dentro do grupo”, ou, pelo menos, para ser respeitado; agora, ele se encon¬tra empurrado para dentro de “fora do grupo”, do que jamais escapará.
Seus sentimentos não se apresentam assim, de maneira tão clara, tão evidente. Frequentemente eles surgem como terrores sem formas, como uma ansiedade que não pode ser descrita como uma depressão sem base lógica.
Até onde seu pensamento consciente alcança, o individuo cego pode ter a certeza que a cegueira não o tor¬nou essencialmente diferente, que as incapacidades físicas não significam o pior que poderia acontecer e assim por diante. Porém, seus sentimentos vêm das profundezas da sua inconsciência e recusam-se a abrigar-se, ante a lógica consciente.
E, emaranhados aos sentimentos do homem que perdeu a visão, encontram-se os sentimentos que ele abrigava em relação as pessoas cegas, quando ainda possuía sua visão. Se, durante sua vida de ser que enxergava, ele enca¬rava os cegos como um grupo de criaturas misteriosas, se os julgava possuidores de certos poderes fantásticos e super-sensoriais, se sentia-se vagamente abalado na presença deles, - como se sentirá agora?
Se ele pensava em criaturas cegas em termos dos vários estereótipos: o mendigo cego, o gênio cego, o músico cego - como serão seus sentimentos agora?
E, se uma parte de seus sentimentos era devido à própria presença física de criaturas cegas, como se sentirá ele agora, com respeito à sua própria presença?
Se a cegueira física de um homem o levava à rejeição, à piedade ou a um estremecimento de repulsão, o que acontecerá com todos estes sentimentos, agora que ele também é um cego?
Muitas vezes a pessoa que acaba de perder a visão pode estar carregada de sentimentos especiais de amargura e ódio, devido ao tratamento que costumava dispensar as pessoas cegas, no passado, mesmo no que se referia as esmolas que dava ao mendigo cego, já que agora ele conhece os sentimentos que eles próprios nutriam.
Se, entre seus sentimentos de outrora, em face à cegueira, havia o de um profundo e oculto medo, agora ele tem razões de sobra para se perturbar. O medo da cegueira é um aspecto importante do instinto normal de auto-conservação — indícios disto são os reflexos que protegem os olhos e o antigo ditado: “proteger como a menina dos olhos”. Em relação à maioria das pessoas, tal medo é, em geral, desconhecido; algo do que devem envergonhar-se, é, portanto, profundamente sedimentado no inconsciente — já que dá origem à revolta e àquilo que comumente se denomina “piedade”. (veja capítulo 7 - Perda da adequação social).
A pessoa que ficou cega pode também estar pas¬sando por uma experiência de sentimentos de culpa em face às atitudes tomadas em relação a indivíduos outrora cegos — ele os rejeitava; sua piedade era fraca e não levava a uma ajuda real; e pelas reações de repulsa com as quais ele se omitia dos problemas dos outros.
Estes sentimentos de “diferença”, de medo e de culpa, estão presos a muitos outros aspectos da cegueira, além, da perda da integridade física; porém, e aqui muito especialmente, eles vêm para confundir e aumentar o impacto da “realidade” da perda. Contudo, deve-se recordar que sentimentos de depressão, confusão e diferença, não estão claramente liga¬dos com uma única perda apenas; nem tão pouco tais senti¬mentos ocorrem exatamente da mesma maneira em todos os indivíduos que perderam a visão. Cada ser humano é único, pois tem sua própria auto-imagem verdadeira ou distorcida, seu retrato pessoal de “o que sou realmente”. Parte desta é o que comumente se chama de “esquema corporal”. Para a imagem corporal a perda da integridade fí¬sica, a morte da visão pode ser um golpe devastador.
O adulto levou alguns anos para construir uma espécie de equilíbrio, tornando-se-lhe, então, possível vi¬ver com sua imagem corporal, Aceita-la é acreditar nela. Agora ele precisa, drasticamente, reestudar essa imagem. Seu corpo é um corpo cego e mutilado — um corpo sem janelas, anormal. Que acontecerá a todo seu equilíbrio, a to¬do seu método de ação?
Para tornar as coisas ainda piores à pessoa que perdeu a visão, nossa civilização tende a por ênfase mui¬to especial no que concerne à perfeição física. A ênfase espiritual do velho judaísmo tinha a tendência de colocar a Perfeição física num nível inferior. A expansão da civilização cristã levou a mesma ênfase espiritual a um setor mais extenso do mundo ocidental e, para esta amplificação, diminuiu a ênfase quanto às qualidades físicas e, com isto, o significado da privação física.
Nos nossos dias, dois fatores levaram, a refor¬çar a importância das qualidades físicas, aumentando assim a força do trauma das perdas físicas.
O primeiro destes foi o declínio da influência em nossa cultura da filosofia judaico-cristã. Com a filo¬sofia materialista que a substituiu em nossa literatura, sobreveio uma ênfase natural no ambiente humano — as coisas que nos cercam no decorrer da vida humana: saúde física, perfeição física, ausência de dor, vigor do corpo, conforto, etc.
O segundo fator é a propaganda, com análises cuidadosas dos desejos humanos, com o propósito confesso de explorá-los e seu emprego no meio das massas a fim de despertar nos seres toda espécie de ansiedade latente em relação a si próprios, suas características físicas e sua aceitabilidade social.
Nosso recém-cego cresceu nesta atmosfera — respirou tudo isso nas conversas em sua casa, sentiu na ansiedade dos pais e mestres com respeito a sua saúde e aparência física que constituía um assunto dos bancos pré-escolares e das refeições a base de vitaminas e cereais. Ou viu em milhares de “slogans”; leu milhares de revistas e em anúncios de histórias em quadrinhos. Tudo girava em torno da importância do seu aperfeiçoamento físico. E agora, não importam quais tenham sido as perfeições ou imperfeições físicas anteriores — o seu, é um corpo cego.
Outro fator de suma importância nesta perda de integridade física é a possibilidade da criatura que ficou cega recentemente poder sentir certa insegurança, quanto â virilidade. Assim sendo, teremos uma outra espécie de morte,
Existe algo de feminino no mais forte e viril dos homens e algo de masculino na mais delicada e doce das mulheres. As crianças, porém, nada entendem disso. E a falta de conhecimentos traz insegurança a muitos meninos que descobrem em si algumas características “femininas” e em muitas meninas que percebem algo em si que é “masculino”.
Se nosso recém-cego é uma destas pessoas (não obstante a insegurança estar bem longe na infância que ele julga ter esquecido, e sendo mais viril dos homens), ele pode ter, neste setor, um grande choque emocional, Muitos psicólogos capazes e profundos nos advertem que (sendo que tais teorias podem ser aceitas ou rejeitadas sem com isto destruir a importância da perda da integridade física), qualquer perda física é encarada pelo inconsciente como um ataque na distinção entre os sexos, Observam, outrossim, que a vista, por alguma razão, se encontra relacionada mais intimamente, do que qualquer um dos outros órgãos dos sen¬tidos, aos sentimentos que se relacionam com a virilidade ou feminilidade. À perda de uma vista, ou a perda do uso de uma vista, é consequentemente, e de modo especial, um impacto na distinção que nos faz homens ou mulheres e, portanto, um grave choque na nossa segurança em relação ao próprio eu. O recém-cego, a criatura que sofreu a mudança, pode, no ápice de seus próprios sentidos, tornar-se um impotente. Esta teoria talvez esclareça aquele vago sentimento de inquietação que a cegueira causa em qua¬se todas as pessoas, os temores que a invadem, quando relacionamos a cegueira com nossas próprias pessoas.
Mais duas outras observações, de grandes psicó¬logos, profundos conhecedores do assunto, podem nos aju¬dar a melhor focalizar a importância deste capítulo. Con¬tam-nos eles que, no inconsciente, alguém que perde a visão (e, por extensão, aquele que perde o uso da vista), está relacionado com a própria morte — que muitas vezes pesadelos em torno da cegueira são, na verdade, sonhos ori¬ginados do medo da morte. Parece existir uma dificuldade ainda maior para com os indivíduos de língua inglesa. Neles, o inconsciente muitas vezes faz um ataque ao “eye” (olho), num ataque ao “I” (eu - pronome pessoal) que ele simboliza. Por conseguinte, dentro dos sentimentos, a perda da integridade física pode também ser a perda, a morte, de si mesmo.
Concluindo, é importante frisar que a compreensão da perda da integridade física raramente, ou se tanto, aparece ao individuo cego em toda a sua extensão. Se assim fosse, seria muito mais fácil trata-lo e, na maioria das vezes, a própria pessoa cega poderia enfrentá-la, rejeitando-a. Em lugar disso, ela pode surgir como temores vagos e em forma de sintomas que não têm uma ligação aparente com os sentimentos abaixo mencionados. E, a não ser que algo seja feito em relação a esses sentimentos não reconhe¬cidos, toda espécie de sintomas físicos, morais e sociais podem transformar-se em outros padrões de mal-ajustamento ou pseudo-ajustamento.


2. Perda da confiança nos sentidos remanescentes

Talvez mais do que qualquer outra das perdas que compilamos, a perda da confiança nos sentidos remanescentes seja uma cuja existência o público jamais suspei¬tou. Pelo contrário, o público está convencido de que, na ocorrência da cegueira, acontece um fenômeno geralmente chamado “compensação”. Alguns o julgam “natural”, outros, “divino”. Raramente seu verdadeiro mecanismo é flagrante; porém, supõe-se que resulte numa agudeza maior dos demais sentidos, de uma maneira tal que os que enxergam não po¬dem se aperceber. Assim, pois, já ouvimos falar no “sentido agudo da audição” dos cegos; do seu “extraordinário sentido do tato”; do seu “precioso sentido do olfato ou paladar”,
Se pretendemos compreender a cegueira e seus efeitos nas criaturas humanas, é importante que nos despo¬jemos, imediatamente, destas noções (reconhecendo, entretanto, que ocorre um aumento de eficiência dos sentidos em algumas pessoas cegas e compreender qual o motivo de tal ocorr6ncia).
Não somente os sentidos das pessoas cegas não são mais agudos do que os daqueles que enxergam, como também, em alguns casos, são até mesmo deficientes.
Foram feitos testes sabre o tato, em número suficiente, em pessoas cegas e providas de visão, para po¬der provar que o sentido do tato de indivíduos do primeiro grupo (cegos) não é mais agudo do que os dos segundo grupo. Além disso, em nossos dias, muitos casos de cegueira são causados pela retinopatia diabética, encontrando-se em muitos destes pacientes, certas áreas táteis “anes¬tesiadas” pelo progresso do próprio diabete — daí se de¬duzindo que o cego diabético pode ter o sentido do tato mais pobre do que muitos indivíduos do mesmo grupo de idade.
Audiogramas feitos em grupos de pessoas cegas e não cegas provam que tanto umas como outras estão sujeitas às mesmas áreas de perda de audição. Acontece, porem, que algumas causas da cegueira também afetam a audição a tal ponto que a pessoa cega pode ter deficiências no sentido da audição ou ser totalmente surda. Nesta categoria encontramos algumas doenças da meninge e aparentemente algumas das formas familiares das retinites pigmentosas 1.
Além disso, em nossos dias, quando predomina a cegueira nos grupos geriátricos, a mesma perda do sentido da audição existe tanto entre as pessoas cegas como entre as privadas de visão, dentro do mesmo grupo de idade (por conseguinte, há mais perda de audição no grupo geral de pessoas cegas do que no grupo geral de indivíduos provi¬dos de visão, sem se considerar a idade).
Não há razão para crer que os testes feitos quanto aos sentidos do olfato e do paladar nos mostrariam al¬go de diferente. O fato é que um grupo de pessoas que ficaram cegas devido a certas causas neurológicas ou a cer¬to tipo de moléstias, carecem de todo sentido de olfato e de paladar. De maneira geral, os sentidos do olfato e do paladar do cego não são mais agudos do que os das pessoas que enxergam.
Além disso, o emprego de indivíduos usando vendas nos olhos, como grupos de controle em algumas experiências com pessoas cegas, experiências estas executadas pelos psicólogos C. E. Seashore, Karl M. Dallenbach e Philip Vorchel parecem querer demonstrar que alguns indivíduos com visão apresentam maior habilidade no reconhecimento tátil e na localização de sons do que seus parceiros cegos.
A distinção entre a agudeza dos sentidos e a e¬ficiência dos mesmos é muito importante aqui, tanto para o individuo cego como no campo da sua reabilitação,
É verdade que muitos cegos parecem ouvir coisas que nós não ouvimos, sentir odores que não sentimos, notar diferenças de paladar que não notamos e percebem coisas através do tato que não são percebidas por nós. Contudo, isto não e prova de que possuem sentidos mais “aguçados”, nem compensações “naturais” divinas ou mágicas.
O aumento na eficiência dos sentidos, onde pode ser encontrado, tem uma explicação dupla. É, em parte o resultado da concentração (daí a razão pela qual muitas pessoas fecham os olhos a fim de melhor ouvirem uma sinfonia e o motivo pelo qual muitos de nós “ouvimos” mais sons quando apagamos as luzes à noite), Tudo isto resulta de treinamento (freqüentemente de um auto-treinamento) e da experiência (como nos é demonstrado pela habilidade de certas pessoas que degustando um vinho são capazes de dizer sua casta e o buquê, ou através do tato, determinar a qualidade de um tecido).
Os exércitos modernos treinam especialistas que podem interpretar áreas fotografadas. Seu treinamento permite-lhes determinar coisas nestas fotografias que nós não conseguiríamos ver -, os armazéns, zonas de abastecimento, construções que indicam um exército em atividade, etc. - Nada há de especial quanto à agudeza do seu sentido de visão. Não atribuímos a tais especialistas quaisquer poderes mágicos; é simplesmente uma questão de treino da observação.
Da mesma forma, depois de algum tempo, muitos cegos aprendem a interpretar sons; odores, gostos, e tatos, de maneira mais eficiente do que o comum das pessoas. Isto porém, não é fato geral entre os cegos e, se nos apegarmos teimosamente a tal idéia, e à idéia da “compensação” então estaremos colocando o cego numa área à parte, vaga e super-sensorial. À medida que o trabalho em relação ao cego for influenciado por tais conceitos errôneos nós estaremos negligenciando o importante desenvolvimento do treinamento dos sentidos da pessoa cega e permitindo que esses conceitos se processem “naturalmente”.
Não é pois de se admirar que o público em geral, imbuído destas falsas noções de “compensação” fique surpreso quando constatar que a cegueira recente pode ocasionar uma perda de confiança nos sentidos remanescentes. Esta perda de confiança não é o resultado da destruição atual do sentido da visão ou da função do sentido da visão, que, como já foi mencionado, é causada por certas moléstias ou acidentes. Entretanto, há uma condição encontrada em maior ou menor grau em muitos cegos recentes (cuja du¬ração pode ser maior ou menor), que dificulta ou torna impossível para os desprovidos de visão, acreditarem naquilo que os sentidos remanescentes lhes podem transmitir. O impacto decorrente de tal perda não é igual para todas às pessoas; para algumas, misericordiosamente, é breve. Dependendo, porém, da sua duração, o indivíduo que recente¬mente perdeu a visão, fica, também, privado dos outros sentidos.
Para melhor compreendermos a razão desta perda, precisamos reconhecer a que ponto dependemos da visão, como censor ou testador das informações captadas pelos ou¬tros sentidos para adicionarmos as informações que nos são trazidas por um dos sentidos a fim de testar e validar esta informação. Mais do que com qualquer outro sentido, fazemos isso através da visão.
Quando não é mais possível ver, então, para muitas pessoas, acreditar tornar-se difícil, se não impossível - adquirem uma tendência a desconfiar das informações colhidas através de outros sentidos e suspeitam da sua validade. Isto não deve ser considerado como uma dúvida intelectual, e sim, como um “sentido de desconfiança”, provavelmente devido a algum distúrbio dentro do padrão do “sentido central” que permanece, enquanto uma espécie de reorganização dos sentidos é realizada. Este distúrbio assume maiores proporções quando escapa ao controle do intelecto e a insegurança que desperta, origina então um estado de pânico.
Consideremos a maneira pela qual nos utilizamos da visão para testar informações obtidas através de um ou outro dos sentidos.
O sentido da audição - traz-nos uma grande parte de nossas informações a respeito do mundo que nos cerca. Não obstante, testamos tal informação através do censor - a visão, O rápido girar da cabeça - o gesto automático que faz com que voltemos os olhos em direção à fonte do ruído, - e a pergunta que acompanha o gesto: “Que foi isto?” - tudo indica como é automática esta tendência para testar, Mesmo os sons mais familiares nos compelem a olhar, para nos “certificarmos” da sua causa e da sua importância.
O sentido do tato - Nosso bolso ou carteira contém algumas moedas. Pelo tato podemos identificá-las, sem dificuldade. No entanto, automaticamente, inconscientemente (até mesmo compulsivamente) lançamos-lhes um olhar “pa¬ra ter certeza”. Acontece também tocarmos com os dedos o lado de uma panela com água fervendo; retiramos a mão quando sentimos o calor e em seguida levantamos a tampa e ve¬mos as bolhas familiares da fervura que ajudarão a “confirmar a verdade”.
O sentido do olfato - “Feche os olhos e sinta que perfume” alguém nos diz e obedecemos, “Violetas”, estamos mais do que certos. Abrimos os olhos e “realmente” são violetas,
O sentido do paladar - Nem todos os fumantes seriam bem sucedidos com uma venda nos olhos, Podemos, no entanto dizer, e com certeza., o gosto da fumaça, o gosto do ar. Então, qual a razão do reflexo automático que, após uma inalação profunda, nos leva a olhar, para ver se o cigarro está aceso? Simplesmente porque a visão é o censor nas informações positivas e negativas que nos foram trazidas pelo sentido do paladar.
Ao lado dos assim chamados “sentidos principais” há uma longa lista de outros sentidos muito discutidos nos nossos dias. Dois deles parecem exigir uma atenção toda especial.
O sentido do equilíbrio - Caso a sensibilidade vestibular seja normal, nosso equilíbrio não necessitará de depender da visão, Entretanto, num quarto completamente às escuras, num dado momento a maioria das pessoas é capaz de imaginar que talvez não esteja em posição ereta e a única confirmação consiste em acender as luzes, Ora, fechando os olhos durante algum tempo, é possível começar a perder o equilíbrio e para recuperá-lo, precisamos abrir os olhos e nos orientarmos com o emprego da visão. Também este sentido passa pela censura da visão.
O sentido da memória-motora (ou “memória muscular”) — Seu papel è importante; usando-o em lugar da visão quase qualquer pessoa pode subir e descer escadas em sua casa, sem necessidade de olhar o primeiro ou o último degrau. Entretanto, apague a luz e apresse-a a subir ou a descer a escada — ela se sente perdida — a memória motora fica completamente esgotada. Afastado o uso da visão nossa confiança na memória motora desaparece.
De tais exemplos nos é fácil deduzir que algo é de se esperar que aconteça à confiança nos sentidos remanescentes, quando desaparecer o sentido da visão.
O que realmente acontece difere de pessoa para pessoa e difere grandetnente, de acordo com os motivos que levaram à perda da visão. Aquele que a perde aos poucos, durante um longo período de tempo, pode efetivamente, atravessar um longo período de tempo de reorientação no caminho que leva à censura da informação dos sentidos. Contudo, durante este período podem surgir dificuldades ocasionais com esta perda e elas são tão difíceis de serem reconhecidas pelo que são, que o indivíduo pode sentir graves suspeitas a seu respeito e à sua sanida¬de mental, necessitando por isso uma explicação clara.
No caso de cegueira recente, repentina, tal perda pode se constituir num fator grave, causando estado de choque, contribuindo durante muito tempo para a insegurança da pessoa, com respeito a si mesma. Para alguns, a experiência será traumatizante, causando experiências alucinatórias que se tornarão mais compreensíveis à medida que formos estudando as novas perdas. De qualquer maneira, a depreciação da verdade na informação trazida diretamente através dos sentidos remanescentes, pode ser um fator muito grave. Arremessa o recém-cego contra duas fontes de informações dignas de crédito: o que ele aprendeu antes da perda da visão e as coisas que aprende por intermédio de outros, ou seja, a tnemória e a confiança humana. Aqui re¬side pois uma área séria de dependência e nesta mesma dependência ele é de certa forma despojado das pessoas das quais depende.
Esta perda, principalmente durante o estado de choque da cegueira recente, é uma perda arrasadora, porque deixa o atingido completamente sem apoio. Remove-o para além de um mundo que fica em volta dele e torna mais remota as possibilidades de uma reabiltlação.

3 - Perda do contato real com o meio ambiente

A perda do contato com a realidade, da “realidade do contato” com o mundo tangível no qual vivemos. É algo que facilmente leva ao pânico, ou que agrava ainda ma¬is o entorpecimento do estado de choque. É uma “morte” remota para o mundo das coisas que estão a nossa volta.
Para aqueles que sabem que o contato com a realidade é uma medida de sanidade mental, isto pode parecer que o cego perde essa sanidade. Não. Antes diríamos que o mundo da sanidade mental está mais difícil de se agarrar a ele. O contato com a realidade é um dos pontos de diferenciação entre a neurose e a psicose. E nesta perda, parte-se um importante vinculo com a realidade.
É possível que o significado deste aspecto se torne mais claro, se atentarmos às perguntas que, normal¬mente, um psiquiatra faz às pessoas suspeitas de “desorientação”: “Quem é voce?” “Quem sou eu?” “Onde você se en¬contra?” “Quem são essas pessoas que a rodeiam?” “Que faz você aqui?” “Há quanto tempo se encontra aqui?”.
Não nos detendo na primeira pergunta (recordan¬do os choques ao “eu” sofridos pela criatura que recentemente perdeu a visão) procure você mesmo qual o sentido que seria mais importante na resposta que daria as outras perguntas. Para poder responder com segurança, a pelo menos quatro ou cinco das perguntas, a média das pessoas que enxergam teria que depender grandemente da visão.
Quanto a orientação no meio ambiente, tanto as cinestesias como a sensação vestibular são importantes; mas a visão, acima de tudo, é que me fixa quanto às minhas relações com o que me cerca. É ela que me relaciona com o que está à minha direita e à minha esquerda, com o que está acima e abaixo, em frente e atrás. A visão não apenas identifica estas coisas; ela me centraliza no seu meio.
O sentido da audição é um auxílio. Os sons são coisas sem corpo. Eles mudam, movem-se, escoam; eles se filtram sem um foco. Não possuem a agudeza da localização da visão. Tanto o olfato como o paladar são de pequena valia para a criatura que enxerga; não possuem a agudeza de localização, eles penetram, tornam-se confusos. Já o tato é mais concreto; é o sentido do “tangível”. Não obstante, o tato pode falhar, O tato nos prende somente a uma pequena fração da realidade — uma fração, facilmente mal identificada. É tao fácil que as coisas “tocadas” se “movam”, que o mundo tão sólido pareça flutuar, basta apenas que por um momento eu afrouxe o meu “agarrar-me” à reali¬dade.
Assim pois, para aqueles que cresceram com o uso da visão, ela é o grande sentido de contato com o mundo concreto das coisas e como elas se apresentam. Porque a visão tamuém “toca” — alcança prende; agarra; fixa, açambarca. A visão ao alcance do que me cerca e que meu corpo não consegue tocar — ela amplia meu sentido do tato; ela  “me amplia” e, assim fazendo, me proporciona um lugar estável e fixo, já que percebe todas as coisas em relação a minha posição central. Os demais sentidos são, por vezes, nebulosos. A visão é “real”, a visão é concreta.
Agora podemos avaliar o que a visão significa para a orientação no meio ambiente 2.
A estabilidade da orientação é de muita importância para a segurança. Ao lado dos fatores somáticos, isto pode ser a principal na desorientação que envolve a “ps cose da catarata senil” (também chamada de “psicose da máscara negra”) 3. Sob condições operatórias dos nossos dias esta condição é menos encontrada do que nas últimas décadas e é rapidamente curada 4. É bastante o médico mandar remover as bandagens dos olhos e o contato com o meio ambiente é restaurado. O mesmo porém não se dá com a cegueira recente, com a mesma facilidade. Aqui reside, pois, a terrificante natureza desta perda do contrato real com o meio ambiente. Este sério e dos mais importantes laços com a realidade do mundo é uma espécie de morrer para as coisas em nosso derredor — é um dos mais apavorantes aspectos dos vários traumas da cegueira.

4 - Perda do campo visual

A perda discutida nos parágrafos anteriores foi a do objeto; agora trataremos da perda do campo onde esse objeto se encontra. Consideramos até então o horror de olhar para algo que “não se encontra mais ali” — este parágrafo se relaciona com o vazio e solidão daquilo que poderia ser chamado de “silêncio visual”. A fim de que possamos compreender tal perda, é mister que se considere o papel importante que o campo visual tem, constantemente, em nossas vidas, como um fundo de mudanças plácidas e ca¬leidoscópicas, como que uma espécie de um “acompanhamento de orquestra” visual, em relação aos acontecimentos ou à monotonia da nossa rotina diária. É comparável a um recinto de auditório de nossas vidas, e sua perda, relega o homem surdo a uma monotonia de calma, na qual somente as coisas silentes são vistas.
Andamos por uma rua; tomamos um ônibus; estamos sentados na nossa sala de estar; encontramo-nos conversando no saguão de um hotel repleto de gente. Supostamente não vemos nada além daquilo em que nos concentramos. Entretanto, subconscientemente, nossos olhos e nosso pensamento estão “vendo”; eles fotografam e rejeitam; fotogra¬fam para memorizar; fotografam para um uso imediato, absorvendo todo um mundo de cores e de contrastes, de movimento e repouso, de luz e sombra, de criaturas e coisas, de formas, texturas, figuras que se encontram ao redor de nós.
Conversamos com alguém e assim fazendo “concentramos” todo fundo panorâmico, no qual o estamos vendo. E, todavia, dentro de nós mesmos, nós estamos vendo esse alguém dentro daquele ambiente, daquele fundo panorâmico.
Ainda que se trate de um reflexo inconsciente, como o bater das pestanas, esta atividade fotográfica tem a função de nos proteger contra o perigo. Até mesmo o passar de uma sombra pode, rapidamente, nos alertar, colocando-nos em posição de guarda contra acidentes reais ou imaginários.
Tem também a função, mencionada em conexão com a perda anterior, porém aqui conduzida menos conscientemente, de nos conservar em contato com o mundo que nos cerca.
Estamos sempre agindo, não somente pondo os ou¬tros num certo fundo panorâmico, mas também nos colocamos em cena — nós nos orientamos dentro do nosso meio ambiente, porem “totalmente despercebidos” do nosso papel. En¬tretanto, se chegarmos ao ponto desta desatenção se tornar realmente total, depois do nosso “chegar a”, nosso “escapar da cena” seria acompanhado de um pânico real, pois tal forma de orientação visual é parte de nos mesmos.
Do mesmo modo, enquanto estamos atentos a outras coisas, esta percepção do campo visual é uma forma de recreação para nós, quase que de recreação inconsciente.
No caso, por exemplo, de ter havido uma mudança visual no ambiente do meu escritório, durante o dia. Quando comecei a trabalhar, a luz direta do sol não se mostrava de um lado - agora ela cai sobre a metade da minha me¬sa, No decorrer da manhã, o calor subindo da calefação atrás de mim, fêz surgirem delicados movimentos ascendentes dos raios do sol que convergem sobre o assoalho e a mesa. Uma árvore projetou sua sombra movediça, ondulante, na sala, até que uma rajada de vento a imobilizou por algum tempo. As sombras e as luzes da sala, seu mobiliário, seus quadros — todas estas forma e cores adquiriram incontáveis e novas relações entre si. Formas e texturas ganharam novas sutilezas. que vieram e se foram; as cores receberam inúmeras nuances que duraram por momentos. Eu “vi” tudo isso, embora não as tivesse “visto” ativamente.
Tal é o mundo visual, mutável, no qual vivemos. Distrações, divertimentos, mudanças, tudo isso nos prote¬ge contra a monotonia (como também a recreação) refrescando nosso espírito e nossas forças, não somente depois, mas também durante as ocupações e o trabalho.
Esta percepção do campo visual pode, outrossim, auxiliar-nos na experimentação de um certo prazer cinestésico — embora sem ser uma atividade plenamente consciente — o prazer não somente de movimentos musculares e movimentação no espaço, mas de movimentação reconhecida visualmente, movimentação vista contra um fundo de não-movimentação.
Há também aquela maravilha que os físicos deno¬minam friamente de “paralax” e através do qual nós emprestamos movimentos a um aspecto do mundo feito de objetos sem vida, proporcionando vida ao inanimado. Observadas atra¬vés de um trem em movimento, muitas coisas se movem na mesma direção que você segue e os objetos, que estão mais próximos, movem-se atrás de você e em díreção oposta e ocor¬rem milhares de combinações de velocidade e rapidez, ani¬mando objetos sem vida, entrelaçando-se com eles. Mas voce não precisa de um trem, pois o processo está sempre se repetindo. Segure um objeto — um cigarro, um lápis — trinta centímetros diante de seus olhos. Em seguida, olhe para a parede distante e movimente sua cabeça primeiro para a direita e depois para a esquerda; o objeto move-se para fora de seu movimento e a parede distante move-se com você. Tal fato sempre acontece quando você se desloca e você sempre o interpreta como parte da percepção do campo visual.
Estes são alguns dos valores que a percepção do campo visual nos proporciona. Sua perda deixa a pessoa que perde a visão num vazio visual, um vácuo no qual ela está morta para as mudanças, cores, formas que se movem e para o campo visual onde existe o mundo das criaturas hu¬manas.

5 - Perda da segurança luminosa

Falar da cegueira como da “perda da luz” é incorreto e prejudicial para a pessoa cega. Não obstante, muitas são as razões que levam a crer que há uma perda da “segurança luminosa”, que em muitos casos faz parte do impacto da cegueira. A fim de se avaliar esta perda precisamos em primeiro lugar compreender o horror que existe em se pensar na cegueira como perda de luz e o mal que tal conceito produziu e ainda produz no cego.
De uma maneira ou de outra, o público em geral aplica (ou é encorajado a aplicar) analogias de luz e escuridão às condições de visão e cegueira. Refere-se continuamente às “vidas escuras” das criaturas cegas; fala-se em levar a “luz” aos cegos; mencionam-se os cegos “sentados na escuridão”. As associaçoes para cegos são denominadas “faróis de Luz”, Entretanto, tais analogias podem constituir-se em graves barreiras, tanto para a compreensão da cegueira como para a aceitação do cego na sociedade.
É fácil de se compreender que as criaturas dotadas de visão podem apresentar tais analogias. Quando a luz está ausente, não somos capazes de ver; de certa forma estamos cegos. Tal espécie de “cegueira” está dentro da nossa experiência e assim, a partir daí, generalizamos a experiência desconhecida da verdadeira cegueira. Tivemos a experiencia oposta de, por instantes, nos termos “cegado” pela profusão da luz. Entretanto, jamais fazemos tal analogia. Nunca pensamos na cegueira em termos de saturação da luz e sim, por falta da mesma. E por que?
A luz é o meio da visão. Não é a própria visão. O meio está ausente ou se está presente numa quantidade¬ exagerada, não nos podemos utilizar dele. Não conseguimos ver. O meio não é o sentido; a luz não é a visão.
Do ponto de vista da ciência óptica, a analogia entre a escuridão e a cegueira nao seria tão má, já que ninguém consegue ver sem luz, Entretanto, do ponto de vista, mais amplo, da oftalmologia e na opinião de psicólogos e sociólogos, tal comparação só pode agravar a compreensão do significado da cegueira.
Vejamos, inicialmente, porque a analogia e .incorreta. A maior parte das pessoas “cegas”, de acordo com a definição de cegueira, agora aceita nos Estados Unidos 5, vê bastante claramente a luz; alguns podem até mesmo ler tanchetes dos jornais, sendo que outros conseguem identificar objetos à distancia. Portanto, a grande parte daqueles que são clientes das nossas associações de “luz para os cegos”, podem ver a luz. Alguns chegam a ver tanta luz que não sabem o que fazer com ela; estão saturados de luz. Não existem estatísticas que nos dêem o número exato, mas nós nos surpreenderíamos ao saber que mais de uma pessoa entre trinta da nossa população de cegos não chega a ser tão cega que não possa distinguir a luz (dez mil em mais de trezentos mil).
Além disso, de acordo com a mais restrita e popular definição de cego, isto é, aquele que “não pode ver”, muitos dos que são cegos ainda poderiam distinguir entre luz e escuridão. Tais indivíduos são legalmente, cegos, porém não são desprovidos de luz. O indivíduo que tem a percepção da luz ou mesmo a projeção da luz e, é obvio, aquele que pode distinguir, embora vagamente, formas que se movem, não é desprovido da luz. Não obstante, qualquer um destes é “cego”, na definição comum do sentido do termo.
Outrossim, individuos que não possuem a percepção de luz, têm, apesar disso, uma visão extensa das co¬res — não a percepção de cores do lado de fora do olho (o que também é possivel para alguns “cegos”), mas as cores flutuantes que se originam de mudanças dentro do olho ou do sistema ocular. Tal fenômeno não e tão raro a ponto de ser constderado como caso excepcional. Pois, muitas pessoas que não podem receber qualquer luz, seja ela qual for, através do sistema ocular (como no caso de pessoas cujos olhos foram removidos), frequentemente veem cores, até cores caleidoscópicas, durante um longo período em que estão acordadas. Não se trata de um sistema alucinatório mas de algo muito real que é vis¬to. Para se compreender tal fenômeno precisamos recordar o fato de que o estímulo do nervo óptico, como por exemplo, uma pancada na cabeça, pode nos fazer “ver estrelas”. Em algumas formas de cegueira, este estímulo ocorre de maneira freqüente e permite que o cego viva num mundo de luz e de cores.
Certamente não estamos procurando dar a impres¬são de que tais experiências de cor e luz sejam constantes e totalmente agradáveis. Pelo contrário, podem ser perturbadoras, especialmente se o indivíduo cego não as compreender. Porém, em todo caso, proporciona a muitos indivíduos cegos um mundo de cor e de luz bastante diferente da noção popular do “mundo sem luz” em que se supõe que o cego vive.
Isto, porém. não inclui aquele número de pessoas cegas totalmente desprovidos da penetração da luz e que não possuem experiência alguma quanto a sensações de cor e luz, das quais falamos até agora. Seria. então a condição destes cegos aquela que poderia ser descrita como desprovidos da luz? Além disso, podemos dizer que “vivem na escuridão?” Para ambas as pergunt a resposta é não.
Eles estão desprovidos da visão e nisto consiste sua cegueira. Estão também desprovidos da luz, mas não se encontram na escuridão, no sentido popular da paIavra, significando algo com qualidades positivas “A noite era negra!” “A escuridão era tão densa que poderia ser cortada com uma faca”, etc.
Cutsforth 6  e Chevigny 7, os dois escritores cegos que mais contribuiram neste setor, insistem no fato de que a ausência da luz não signifca uma advertência à escuridão. Apontam o erro de muitos escritores que tratam da cegueira em suas obras e que fazem da escuridão algo de positivo, uma realidade tangível. Ambos chamam a atenção ao fenômeno conhecido pelos físicos como “adaptação ao escuro”. Com a visão, ou sem ela, podemos chegar a esta “adaptação ao escuro”. Depois de ficarmos por um certo tempo no escuro, a escuridão não é totalmente negra, como acontece quando apagamos as luzes de repente; e sim, teremos um ambiente cinza neutro, Geldard 8 diz: “... a experiência de se olhar para o “negro” físico não é negro, nem tão pouco é negra a falta de sensação. Talvez devido a processos autônomos, que se processam no cérebro, uma pessoa dentro de um quarto escuro não fica negra e sim cinza ou cinza-purpúreo. Algumas vezes isto é chamado de “cérebro cinzento” ou “auto-luminosidade da retina” Parece que o cinza pode ser um processo constante no panorama e que todo estímulo precisa “atravessá-lo” ou talvez “modulá-lo” para que se processe uma experiência da qualidade visual”.
Todos nos já passamos pela experiência de acordar no meio da noite num quarto cujas luzes foram completamente apagadas. Gradualmente temos a sensação de que pode¬mos ver sombras naquela escuridão cinzenta, Experiências executadas em cavernas sem luz demonstraram que com a “adaptação ao escuro” há uma perda do sentido de uma escuridão positiva com a qual iniciamos a experiência. Cutsforth fala de “um campo visual tão livre de uma experiência escu¬ra, que parecia que os objetos podiam ser distinguíveis”.
Cabe-nos até mesmo dizer que após a adaptação ao escuro, a experiência não é tanto da “escuridão” mas do reconhecimento na falta de luz, sendo a primeira uma qualidade da obscuridade que penetra e a segunda uma realidade física.
Então, é obvio que a analogia que coloca a visão e a luz no mesmo plano, ou de outro lado, a cegueira e a escuridão, é positivamente errada e mais do que isso, gra¬vemente prejudicial ao cego e uma barreira para sua aceita¬ção na sociedade. Usam-se como símbolos da visão e da cegueira dois fatores que são básicos para a humanidade e, assim agindo, dá-se à cegueira um significado simbólico que não deveria ter (e que os técnicos especializados seriam os últimos a aceitar).
A luz, tanto na opinião da humanidade primitiva como da civilizada, esta ligada às idéias de verdade, beleza e bondade, “realidade física transcendental”. É sabedoria, esperança e amor. A teologia e a piedade cristãs, particularmente entre os grandes teólogos orientais, mas também no Ocidente, possuem uma vasta “literatura da luz” usando o termo analogamente, não somente em relação à bondade, graça e céu, mas também para a gloria do próprio Deus.
A escuridão por outro lado, a negação da luz, tornou-se o símbolo da ignorância, do erro, da feiúra, do mal, do desespero e do ódio. A escuridão torna-se obscuridade, negrume, noite sem fim, a “sombra da morte” e até mesmo a própria morte. A hora da escuridão, o período da noite, foi tradicionalmente concebido e aceito como propício às conspirações, ódio, crimes, pecado A escuridão é misteriosa e horrenda, e o poder de Satanás é conhecido como o “poder das trevas”.
Tais são os significados de luz e escuridão em relação às emoções humanas, não somente as dos homens primitivos como também dos civilizados, mas variando em graus, tons, formatos e compreensão da própria humanidade. Não apenas do homem que ve; mas também daquele que é cego. Consequentemente, enquanto relacionarmos cegueira com a escuridão relacionamo-la com a escuridão física (a ausência ou negação da luz fisica) e com as conotações da escuridão. Assim fazendo, não impedimos que se erga uma barreira intransponível quanto à total aceitação do cego dentro de sua própria posição na sociedade daqueles que são providos da visão Sendo esta analogia tão prejudicial à compreensão da cegueira e dos cegos, não é paradoxal e até mesmo irônico, ter sido ela imposta na consciência do público, tanto por aqueles que dão suas vidas pelo trabalho para os cegos como pelas próprias pessoas cegas? Cutsforth e Chevigny mostram até que ponto as associações para cegos, direta ou indiretamente fazem uso destes conceitos. Eles apontam para o número de associações que incluem nos seus nomes as palavras “luz” ou “luz solar”, ou qualquer outro derivado; e empregam nos seus anúncios termos ou expressões similares; dão às suas publicações nomes que têm referência a mesmas idéias, sugerem nos seus avisos ou em contato com a média do público, uma ou outra expressão do mesmo pensamento, e direta ou indiretamente fazem ou dizem coisas que propagam a noção da cegueira como a de um “escuro”, de temores e desespro.
Pessoalmente eu me recordo e me penitencio, pois logo que comecei a trabalhar com pessoas cegas prontifiquei-me em difundir essas idéias com toda a minha boa von¬tade, até que outras pessoas me mostraram a falsidade delas. Neste campo, a idéia ainda prevalece, fortemente.
Há pouco tempo, dois graves fatos se deram, quando de uma campanha para angariar fundos: um deles partiu de uma importante associação particular para cegos e a outra de uma não menos importante organização também de pessoas cegas. O primeiro premio consistia de um “livro colorido”, supostamente pertencente a uma criança cega; a capa do livro apresentava-se ricamente coberta de cores e desenhos apropriados para crianças. No momento em que o ganhador o abrisse, encontraria uma página completamente negra, mostrando assim como seria esse livro para uma criança cega.
O segundo prêmio, semelhante ao já descrito, apresentan¬do também uma página negra que seria o mundo para o adulto cego. Ambos devem ter concorrido para o sucesso da campanha que angariava fundos, porém, nem todo o dinheiro obtido pagaria o mal que causaram aos cegos.
No entanto, esta divulgação do conceito da escuridão não é trabalho privativo de associações e organizações. Cutsforth e Chevigny, ambos cegos, apontam o grau de responsabilidade que cabe a individuos cegos que, com insistência, relacionam a cegueira com a escuridão. Notam particularmente os titulos dos livros escritos por cegos que se reterem à entrada ou permanência na “escuridão”.
E, todos aqueles que presenciaram indivíduos cegos (com percepção de luz ou não) falarem a um grupo de pessoas providas de visão, ouviram mais de uma vez como eles se referem à noção de que “vivem nas trevas”. Não é pois de se admirar que a grande massa do público em geral conti¬nue a relacionar a cegueira com a escuridão, com as tre¬vas e com todas as idéias tristes e sensações de mau cheiro que a “escuridão” tem para eles.
Já que não existe uma escuridão positiva, nem perda de luz no sentido comum da palavra, o que significa então esta “perda da segurança luminosa” a que nos referi¬mos acima?
Consideramos, anteriormente, algo muito pare¬cido com isso, no que se referia à perda do campo visual — de luz e de mudanças. A perda da segurança luminosa, porém é distinta da anterior. Desde que e tão penosa para os cegos, ocorre a necessidade de um esclarecimento a fim de que seja devidamente entendida e cuidada.
Uma pequena porcentagem de pessoas cegas, como já foi dito, não percebe nenhuma luz; “falta de luz” descreve melhor suas condiçoes do que “escuridao”. Tais pessoas sofrem de duas maneiras a perda da “segurança luminosa”.
Em primeiro lugar, muitos são afetados e prejudicados pelo conceito generalizado de que “vivem na escuridão”, Caso você tenha sido muito lastimado por ter vivido nela durante bastante tempo, forçosamente você será compelido a acreditar nisso, a não ser que você reavalie a situação. Se por acaso você nasceu cego, não tem conhecimento de luz e escuridão. Então, você precisa acreditar naqueles que dizem que você vive na escuridão. Acontece que tantas pessoas temeram tanto tempo durante a perda final da visão, em termos de escuridão, que quando chega a ce¬gueira, elas jamais reavaliam a sua experiência de ver, se é que realmente se encontram na escuridão. O significado pleno do conceito, com todas as suas conotações obscuras, muitas vezes pode e chega a oprimi-los.
Em segundo lugar, mesmo para aquele grupo que rejeita o conceito do público, a falta de luz pode ter sig¬nificados que perturbam. Em geral, tais significados são resultantes de associações pessoais que a a “falta de luz” tem para o individuo. Talvez, frequentemente, na sua infância, e de modo muito especial na sua primeira infância, o cair da noite se associava com a separação daqueles que amava. Portanto “luzes apagadas” significavam solidão, o ser colocado num quarto sozinho com sua própria insegurança, isto é, afastado da mãe e do pai e de todos que poderiam lhe prodigalizar um pouco de amor. O período de tempo sem luz, era também sem amor. E o amor estava no andar de baixo junto com os adultos e ele era excluído e posto num quarto fechado, incapaz de senti-lo ou conhece-lo. Tais temores e sentimentos de insegurança podem ter sido reprimidos, com sucesso, através dos anos, mas o período de tempo sem luz pode ter significado, para ele, uma época em que ele se achava suscetível a acelerar as origens da ansiedade. Agora ele se encontra num período de constante falta de luz e caso esta tenha o significado de falta de amor, então a natureza irreversível da cegueira permanente pode originar sentimentos de solidão particularmente fortes e os sentimentos parecem não ter fim. A insegurança que daí resulta é difícil de ser tratada. Novamente encontramos em uma das perdas que constituem a ceguei¬ra não somente o importante fator da realidade como também abrange todos os significados e associações que con¬tribuem para a própria perda.
Resumindo: embora a perda atual da luz não afete toda a pessoa que é cega, embora não deva ser considerada como o máximo da cegueira, embora, além disso, nunca deva ser tomada no mais amplo sentido textualmente emocional que o público em geral lhe atribui, contudo alguns perdem a luz e as conseqüências se fazem sentir na perda da segurança luminosa.

Pausa para respirar

Aqui está o momento em que o leitor pode encontrar necessidade de uma pausa para respirar.
Desde seus primeiros parágrafos, este livro mergulhou em profundezas de emoção e moveu-se em pontos obscuros da psicologia humana. Morte. Cegueira. Mutilação. Receios da imagem corporal. Enucleações. Pânico. Desorientação. Psicoses. Neuroses. Choque. Luto. Trevas. Insegurança. Magia. Horror. O olho e o Ego (The Eye and the I).
Mesmo em nossos dias psicologicamente sofisticados, não são muitos os que se dão ao trabalho de ler esta espécie de leitura. Os leitores que sentem dentro de si uma vaga inquietação, como resultado da leitura destes capítulos, estão experimentando uma reação muito normal. Se nos propusemos a compreender a cegueira como algo diferente de uma simples perda mecânica, então precisaremos estudar a cegueira nos seus efeitos sobre a natureza humana. E, talvez, prosseguindo nesta leitura, alguns leitores poderào ter penetrado, mais do que nunca, nas profundezas da natureza humana, que é a nossa própria natureza e cada vez que olharmos nas suas profundezas estaremos descobrindo segredos em nós mesmos. É isto, mais do que a cegueira, é a causa do nosso desconforto.
Alguns leitores podem sentir maiores inquietações devido às suas próprias identificações com a cegueira: sua vista está enfraquecendo; alguém que conheceu durante a infância era um cego; alguém que conheceu há pouco ficou cego; trabalhou durante algum tempo com pessoas cegas. Estes leitores podem agora achar que a tendência deste livro é a de mostrar que o cego é um individuo “diferente” ou mesmo “anormal”. A verdadeira razão pela qual estes leitores se sentem mais perturbados do que o normal, motivados pe¬la análise do que a cegueira ocasiona nas criaturas, é o fato de que o cego está na sua psicologia, na sua natureza humana, como todos nós. Assim sendo, absorvemos o que foi dito a seu respeito e aplicamos, intimamente, a nós. Daí a perturbação e o medo.
Para o primeiro grupo de leitores repito a sugestão dada na introdução. Ao invés de continuar diretamente por esta primeira parte que analisa as perdas sofridas pela pessoa que ficou cega, passe para os capítulos da reabilitação; leia primeiro um parágrafo relacionado com uma perda em particular e depois mude para aquela parte do livro que diz o que deve ser feito com respeito à citada perda.
Por outro lado, para se obter um conhecimento mais profundo do impacto total da perda da visão, é bom continuar lendo mais para frente as perdas remanescentes, vendo e sentindo, o que elas fazem ao individuo cego, àqueles que estão ao seu lado e às tantas coisas que tinham um significado tão importante na sua vida.

Notas de rodapé
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1 - Ver “Audiometric and Vestibular Examinations in Retinitis Pigmentosa”, por J. Landau e M. Feinmesser, British Journal of Ophthalmology, Janeiro, 1956,

2 - Pessoas que já estão cegas o tempo suficiente para já se terem recobrado, parcialmente, desta perda, podem sentir um novo pânico quando sobem numa balança para se pesarem, caso não se lhes tenha dado alguma coisa para segu¬rar. A insegurança da plataforma tira-lhes o contato com a realidade recentemente conquistada, através de seus pés e a ansiedade se estabelece rapidamente. Em geral, é suficiente a explicação do motivo que causa esta ansiedade, para remove-la.

3 - “Mental Disturbances Following Operation for Cataract”, por Alan Greewood, M. D. Transactions of the Section on Ophthalmology of the American Medical Association, 1928; “Psychosis Following Cataract operations”, por Ethel C. Russel. M. D., Annals of Surgery; e “Complications of Cataract Operations”, por Conrad Berens M, D. e Donald Bogart, M. D. 5 Tr. Sect. Ophth. A. M. A., 1938, pags. 238-283.

4 - A operação de catarata em pessoas idosas é hoje considerada de rotina. Há, é óbvio, casos mais complicados, mas os técnicos especializados devem recomendar com insistência, caso o oftalmologista pretenda fazer a operação, que sua orientação deve ser seguida. A Operação é relativamente simples e seus resultados são tão espetaculares que milhares de octogenários, entusiasticamente, a recomendam, satisfeitos, baseados na sua própria experiência.

5 - As definições de cegueira variam através do mundo. A definição mais comumente aceita nos Estados Unidos equivale ao seguinte: uma pessoa deve ser considerada cega se sua acuidade visual central não exceder de 20/200 no melhor olho, com o uso de lentes corretivas ou, cuja acuidade visual, seja maior de 20/200 mas acompanhada de uma limitação no campo visual, de tal maneira que o diâmetro mais amplo subentenda um angulo não maior que 20 graus.

6 - The Blind in School and Society, por Thomas D. Cutsforth, Ph. D., American Foundation for the Blind, 1951.

7 - The Adjustment of the Blind, Hector Chevigny and Sydell Braverman, Yale University Press, 1950,

8 - The Human Senses, por Frank A. Geldard, Hohn Wiley & Sons, 1953, pag. 52.


CAPÍTULO 3
PERDAS NAS HABILIDADES BÁSICAS

6 - Perda da mobilidade

A pessoa que subitamente é privada da visão (e considerando-se somente a perda repentina e total, podere¬mos imaginar o que representa este golpe) fica imobiliza¬da. Está fixada, enraizada, confinada ao lugar em que se encontra. Perdeu uma das principais caracteristicas do seu desenvolvimento da primeira infância, a capacidade de an¬dar, E permanece preso pelo pânico e medo — ansiando por brechas à sua volta e temendo protuberâncias. Sozinho, está sendo observado. Rodeado, está isolado. Não tem segu¬rança, não tem maturidade, não tem habilidade — é um ser terrivelmente dependente.
Isto é uma imagem exagerada, considerando-se o pior. Contudo, mesmo que a chegada da cegueira seja gra¬dual, mesmo que seus resultados não sejam tão intensos ou tão aterradores, algo deste sentimento se apodera dos que perdem a visão. Em alguns casos, estes temores adquiridos aparecem somente após as primeiras tentativas de locomoçao; em outros, o pânico poderá ser insignificante. Mas, para to¬do adulto normalmente ativo que perde a visão, a perda da mobilidade é uma perda essencial. Porque mobilidade significa mais que andar. Significa ir de um lugar para outro, através de todos os meios que geralmente a criatura se utiliza, quer seja no pequeno espaço de uma sala ou de uma casa na qual trabalhamos ou vivemos, quer seja em áreas geográficas locais ou extensas. Significa ir-se a algum lu¬gar pelo prazer de lá chegar, com propósito de nos afastarmo¬s de onde estamos, ou então simplesmente com a finalida de de “ir”. Todos nós já presenciamos pessoas cegas movimentando-se de um lugar para outro, utilizando-se de vá¬rios métodos. Sabemos que a completa imobilidade do cego, como foi acima descrita, não é um fato contínuo. Efetivamente, espaços nem sempre se interrompem, como os obstáculos nem sempre bloqueiam o caminho. Na verdade, um cego andando dentro de sua casa, logo após a perda da visão, enfrenta a mesma situação que nós, quando, como frequentemente acontece, andamos dentre de nossa própria casa depois de apagadas as luzes.
Contudo, há uma grande diferença. Para o que perdeu a visão existe a terrível imutabilidade da sua condição ou a repentina compreensão da possibilidade deste terrível destino. Ou sabe que nuca mais verá, ou vive sob o temor de que este seja o veredictum do medico, Quem pos¬sui visão tem a certeza que mais cedo ou mais tarde a escuridão se dissipará e, portanto, será capaz de controlar os elementos neuróticos desse medo. Mesmo assim, quando estamos na escuridão, circunstâncias estranha podem fazer vir à tona todas as espécies de pânico neurótico.
Esta espócie de medo também aflige a pessoa que perdeu a visão, mas seria um grave erro julgar que seus únicos receios sejam neuróticos. Muitos destes receios têm uma base bastante real, E seu temor de locomover-se, in¬cluindo andar (mesmo em sua própria casa) poderá ser tan¬to normal como neurotico.
Quando ele imagina (ou sente) que o chão de sua própria sala de visita repentinamente mudou de forma, quando pensa que talvez haja uma falha — provavelmente o assoalho não esteja mais perfeito —, quando receia que alguém tenha retirado o corrimão da escada —, estas são reações neuróticas. Mas, ao contrário, quando acredita que talvez uma cadeira esteja em seu caminho e que poderá fe¬rir suas canelas ou quebrar seus artelhos, quando sabe que poderá bater na ponta de uma mesa e perder o fôlego e, por tanto, sofrer danos físicos, quando se preocupa com a pos¬sibilidade de alguóm ter deixado a porta parcialmente aberta com a aresta virada em sua direção e que possa colidir com ela e cortar o rosto e sangrar — estes são medos reais e muito normais em qualquer indivíduo.
Esta distinção é extremamente importante; alguns exemplos: Uma multidão comprando numa loja, como regra não envolve nenhum perigo; a pessoa que, no meio dela, sente um medo injustificável está à beira de receios neuróticos. Ao passo que uma multidão descontrolada, prestes a trans¬formar-se numa turba, representa uma ameaça reaL A multidão que nos empurra inevitavelmente para os trilhos do metrô é ameaça real à nossa segurança e à nossa vida.
Em tais circunstâncias o medo é real e normal. Além disso, a pessoa que teme as alturas, tem medo de sentar em balcões ou de subir a um segundo andar de um edifício, está possuída de receios neuróticos. Mas, o que se acha num lugar elevado, à beira de um precipício, por exemplo, — com perigo real de queda mortal quer seja por pressão vinda detrás ou por insegurança, no andar – tem motivos reais para temer por sua vida.
Neste plano real – sem inclusão do neurótico – o cego tem muito a temer quando pretende caminhar ou viajar. Um capítulo mais adiante tratará dos vários treinamentos em mobilidade que eliminarão muitos perigos; a experiência e os erros ajudarão a diminuí-los. Mas haverá sempre mais perigos para o cego locomover-se do que para nós. Haverá sempre escadas, carrinhos de bebês, animais, objetos sem valor, pequenos buracos, beiras pontiagudas de sinais pendurados em baixa altura, e os imprevisíveis pedestres ao longo das calçadas. Haverá gelo e neve, óleo, escavações e guaritas. E haverá os automóveis com os motoristas obedecendo aos sinais e à velocidade legal e com motoristas desobedecendo a ambos. Motoristas com quebra-luz e motoristas com o sol nos olhos, motoristas surgindo de becos e cruzando esquinas. E com todos estes haverá o perigo – perigo real – de pequenos acidentes físicos, de acidentes graves, da própria morte ou simplesmente, de embaraços.
Estas perspectivas obrigam a pessoa cega a necessitar de maior motivação para sair do que o restante da humanidade. Exercícios e prazeres são razões suficientes para muitas pessoas andarem, mas isto raramente sucede com a pessoa cega não treinada. A motivação não é suficientemente forte para superar as inconveniências. Ela não alivia o forte empecilho das tensões e dos perigos dos danos corporais. O aborrecimento do lugar em que estamos, a monotonia, o cansaço, o nervosismo, a necessidade de mudar de ambiente são motivações que nos levam a ir a algum lugar ou, simplesmente, andar de um lugar para outro. Mas, a monotonia e a necessidade de mudar de lugar têm que ser mais prementes na pessoa cega para anular as dificuldades que envolvem seu ato de andar.
Os lugares que queremos visitar – nossos negócios, um clube, um cinema, uma festa, igreja, conferência, casa de um amigo, são para nós razões que justificam por si sós, passeios e andanças pela cidade. Em qualquer circunstância, para a pessoa cega, o grau de motivação deverá ser maior em proporção ao grau de dificuldade que lhe é causado pela locomoção.
E se, além de todas estas dificuldades reais surgirem os receios neuróticos anteriormente estudados, então, somente motivações fortíssimas de caráter essencial levarão o cego a mobilizar-se. Nestas circunstâncias ele estará realmente imobilizado. Este tipo neurótico de imobilidade poderá ser negado pelo indivíduo atingido. Seu inconsciente poderá racionalizar seu medo fazendo-o acreditar que ele não está interessado em ir, que “aquelas coisas não têm mais importância”, ou que ele é “perfeitamente feliz e contente” em sentar-se calma e relaxadamente ouvindo seu rádio. Mas as tensões interiores poderão estar causando conflitos terríveis e infelicidade.
Em capítulos posteriores discutiremos outros fatores que devem ser levados em consideração relativamente à perda da mobilidade; sua relação com a profissão, a recreação, a adequação social, etc.. Até o presente, apenas mencionamos os importantes fatores de embaraço causado pelo simples fato de ser diferente, pelos erros na presença de estranhos, pelo fato de ser observado enquanto vai de encontro a um poste, de ser lastimado e todas as terríveis deficiências da dependência. Mas, mesmo que nada disto ocorra, a perda da mobilidade é, obviamente, uma perda essencial – uma das mais reais que se seguem à perda da visão. É o fim da independência adulta – a volta à imobilidade ou à dependência do engatinhar da infância, ou à entrada forçada na lenta e confusa dependência da velhice.

7 – Perda das técnicas da vida diária.

Nada há de sutil sobre esta perda. É o resultado de centenas de repetidas frustrações na vida diária da pessoa que se tornou cega e que a relembram deste fato – e nunca a deixam esquecer de que é cega. As pequenas coisas – enlouquecedoras em suas inconveniências, embaraçosas, dolorosas – resultam na incapacidade e na dependência da cegueira.
“Ele é surpreendente. Ele riu destas coisas. Eu o vi, outro dia, realmente embraçado com o erro que havia feito, mas ele fez piada disto”. Ficamos a imaginar se as pessoas que fazem estas observações sobre a pessoa cega têm alguma compreensão da natureza humana. Terão alguma idéia de quão sem graça foi a situação para a pessoa que riu? Que o rir foi apenas uma maneira de enfrentar a situação?
Comendo e bebendo, cuidando das funções intestinais e renais, conservando-se limpo e arrumado, despindo-se â noite e vestindo-se pela manhã, mesmo nestas funções, mais simples, a pessoa que ficou cega sente-se tolhida. No seu processo de crescimento estas foram as primeiras lições, Estavam entre as ações primárias cuja realização bem sucedida lhe proporcionava elogios e demonstrações de afeição: — “ELe está realmente se tornando um rapaz!”. E, de repente, mesmo nestas coisas, ele está frustrado, está res¬trito. A tanto ele desceu. A tanto ele regrediu.
Catalogar todas as dificuldades incluídas nesta perda preencheria um livro. E, na verdade, muitos livros escritos por pessoas cegas relatam inúmeras anedotas sobre estas pequenas frustraçoes e humoristicamente contam como os individuos as enfrentaram.
Comer causa tantas dificuldades que alguns cegos desistem de fazê-lo de uma maneira normal e voltam á mamadeira e à colher. Tente você mesmo uma vez a técnica de jantar de olhos vendados, Não lhe esclarecerá sobre a cegueira em si, mas lhe dará idéia sobre uma das fases da cegueira. Sua mão vagueia à procura do primeiro prato à sua frente, procura-o às apalpadelas, explora-o, tentando descobrir o que é, para você saber, então, como maneja-lo, Será uma taça de frutas, coquetel de camarão, suco de tomate num copo alto, ou num copo baixo, suco de tomate num copo enterrado em vazilha com gelo. Sopa gelada ou quente? O que? Você a mastiga, chupa ou bebe? Que talheres tomam parte nisto? Aonde estão eles? Que copos estão perto quando começamos a explorar? Isto é apenas o primeiro passo. Mais adiante haverá as pequenas e tolas ciladas, talvez as minúsculas taças de molho ou os acompanhamentos que você deverá fisgar com o garfo e tentar comer. Cada nova etapa será um desconforto para você. Não mais escolher uma gar¬fada disto e depois daquilo; você desce o garfo sempre se resignando a aceitar o que vier, desejando apenas que não volte vazio ou com todo o alimento dependurado nele. Não se preocupará em passar manteiga no pão, porque se você fôr como a maioria das pessoas cegas, terá decidido, nes¬te momento, que não vale o sacrificio, que você realmente não gostava de manteiga, e que além disso engorda.
O adulto que perde a visão, certamente, não precisará de um curso de “Higiene Pessoal” no sentido comumente aceito da expressão. Mas se ele acrescenta à sua cegueira a mesma sensação de embaraço a respeito das funções intestinais e renais que a geração anterior nos legou e que foi fortificada pelo aparecimento dos banheiros americanos, se ele tem a mesma preocupação com germes e sujeiras, se a limpeza não for meramente um acessório, mas al¬guma coisa de essencial, então, especialmente num banheiro estranho, e mais particularmente em lavatórios públicos, sua falta de visão causar-lhe-á graves distúrbios, Para o homem acrescenta-se a humilhação de ser compelido a aga¬char-se todas as vezes que necessita esvaziar sua bexiga. Tanto para o homem como para a mulher haverá geralmente problemas na higiene pessoal. Não somente a limpeza mas a ordem trivial traz problemas para o cego. Ocasiões de manchar as roupas. quer seja derramando, quer indo de encontro a algo sujo, aumentam consideravelmente, ao passo que a capacidade de notar manchas ou sujeira das roupas desapareceu. Roupas amassadas e geralmente com uma aparência relaxada podem ser resultado não só de um desinteresse neurótico, como pode acontecer também com os dotados de visão, mas da incapacidade de perceber o fato. Despir-se certamente não é das maiores dificuidades, é somente uma no¬va ocasião de lembrar ao homem a sua cegueira quando ele procura pendurar suas coisas de tal modo que na manha se¬guinte poderá encontra-las e reconhece-las. Vestir-se já é um problema: escolher a gravata que combine com a camisa, o par de meias, e para as mulheres cegas naturalmente, haverá um grau maior de escolhas quanto à combinação¬ de roupas e acessórios a serem usados diariamente ou em ocasiões especiais.
A escolha de novas roupas também está incluída nesta dificuldade. A capacidade de escolher as próprias roupas de acordo com o seu gosto particular é de muita ímportância para a maioria das pessoas. A mulher cega privada da oportunidade de sair e comprar um novo chapeu de acordo com seu gosto poderá ser vítima de forte frustração —conjuntamente, com a perda do efeito psicológico que um novo chapéu traz para muitas. Considere os efeitos dos rituais de barbear-se ou maquiar-se. Mesmo que escolha um instrumento de barbear que não apresente perigo de cortar o rosto, você tem o problema de certificar-se se todos os lugares estão regularmente barbeados e a preocpação de manter a linha do cabelo igual. Escolher os potes de creme certos, o sabão e a ordem de aplicação dos mesmos são dificuldades que já se apresentam à mulher dotada de visão, sem a complicação de ver e diferenciar os mesmos A maquiagem pode resultar numa feia mancha e o baton ficar feio como uma cicatriz. Se você for incapaz de observar sua aplicação e seu resultadp. E mesmo que se tenha certificado que o tubo que está segurando é de dentifrício e não de creme de barbear ou do novo shampoo, você agora enfrentará um problema de menor importância, qual seja o de colocá-lo na escova e não em você ou no chão ou na pia.
Isto demonstra suficientemente porque a perda das técnicas diárias de vida comum é uma perda essencial, devido à multiplicação de centenas de pequenas inconveniências e aborrecimentos. Imagine-se tentando, sem o uso da vista, correr para casa, controlar suas contas, assinar cheques, contar o dinheiro em sua carteira, achar o telefone, disca-lo, localizar a chave que deixou cair no chão, achar o chapéu que pensou ter deixado na prateleira, conservar seu ambiente atraente, acender seu cigarro, esvaziar o cinzeiro, limpar os cantos, fazer compras para o lar ou necessidades próprias, comer num restaurante onde você tenha que se servir, preparar um jantar, almaço, ou seja, o que for? Escolher uma lata de comida numa dispensa de grande estoque etc., etc.
A perda de técnicas da vida diária obriga a uma dependência e essa dependência e os embaraços que ela ocasiona, assim como a constante lembrança da cegueira em si, encerram uma grande dor, Com esta perda a pessoa que fi¬cou cega morre para a auto-suficiência e responsabilidade adulta.


CAPÍTULO 4
PERDAS NA COMUNICAÇÃO

8 - Perda na facilidade da comunicação escrita

Esta perda — uma das mais amplamente conhecidas conseqüentes da cegueira — abrange principalmente, como é natural, os símbolos da linguagem escrita e falada, mas inclui também os sinais, cartões, fotografias, etc.; e por tanto pode ser classificada como a perda da comunicação gráfica.
Se a perda da capacidade de ler se restringisse apenas à de ler livros, esta não seria uma perda tão ex¬tensa e não afetaria seriamente a grande maioria dos que ficam cegos, A porcentagem dos que passam considerável parte do tempo lendo é menor do que geralmente se pensa e, por tanto, a privação desta capacidade em particular, é importante para um número reduzido de pessoas. Mas isto não significa que não seja angustiosa para muitos.
Apesar de não nos considerarmos intelectuais, a leitura ocupa um importante lugar em nossas vidas. Quando a cegueira nos priva desse poder, a perda é pungente. Contudo, para quem não lê, esta incapacidade representa apenas, uma frase sem sentido.
Mas, existem inúmeros leitores que nunca abrem as páginas de um livro. Entre estes, os que passam a maior parte do seu tempo livre lendo revistas. Qualquer que seja o valor da leitura, a perda da habilidade para ler é de grande importância para eles.
Existe ainda os leitores de jornais, publicações comerciais, revistas especializadas, boletins econômicos e trabalhistas, sendo tudo isto muito importante para a atividade normal do individuo. A perda da habilidade para este tipo específico de material pode ter influência direta na sua capacidade de ganhar a vida ou de manter sua posição dentro da profissão. Aqui, então, a perda será severa.
Muitos outros lêem apenas os jornais do dia. En¬tre estes estão os ávidos leitores, cujas manhãs estão estragadas sem o jornal matutino e os que não terminam o dia sem a última edição. Tire a capacidade de ler destes indivíduos e terá infligido a eles rude golpe.
O mesmo acontecerá, com qualquer que seja o tipo de leitura. Poderá ser um livro cômico ou de anedotas (e incidentalmente muitas pessoas cegas inteligentes per¬dem a paciência com adultos que têm tempo para ler a Pequena Órfã Annie, Dick Tracy e etc.), Poderão ser anúncios, talvez extrato de contas; ou a leitura do boletim meteorológico. Seja o que for, a perda será maior ou menor, dependendo do valor que lhe atribua a pessoa. Assistir televisão é outra forma de leitura gráfica que deverá ser considerada, mas em conexão com as perdas de re¬creação. E, naturalmente, existem as formas mais simples de leitura, como procurar o número de telefone numa lista. Porém, a maior destas perdas da capacidade de ler é a que diz respeito à incapadidade para ler a própria correspondência e a correspondente perda para escrevê-la sem o auxílio de outrem. Esta perda é muito dolorosa porque envolve não só a independência mas, a privacidade pessoal.
E temos aqui a grave perda da habilidade de assinar o próprio nome. É legalmente válido assinar um X, mas isto é um golpe definitivo no orgulho e amor-próprio.
E assim, a habilidade para preencher um cheque e, em grau menor, garatujar a lista de compras, o numero do telefone da namorada, a anotação pessoal de lembretes, notas sociais, mensagens num cartão de Natal.
Apenas os autores, editores, repórteres e ou¬tros em ocupações similares sentirão profundamente a perda na habilidade de trabalhos manuscritos, Mas, existem também os contadores, os desenhistas, os datilógrafos, os impressores, cuja atividade diária está ligada à comunicação escrita.
A perda total na facilidade desta comunicação é muito mais séria em nossos dias, do que no passado. Na somente a cultura é largamente difundida mas, a inabilidade para ler e escrever é geralmente (embora falsamente) equacionada com a ignorância e insensatez.
O cego, incapaz de ler e escrever, torna-se num certo sentido “iletrado”, (analfabeto).
Desta maneira, em mais uma esfera de atividade importante e normal, ele é não somente inútil, mas colo¬cado de lado, como os ignorantes e néscios.
Visto que, ler e escrever é um dever em nosso país, e inclui todas as pessoas normais, acima de 7 ou 8 anos, a perda da comunicação escrita é mais grave do que parece à primeira vista.
Muitos progressos técnicos em nossos dias procuram amenizar esta perda (apesar do avanço da televisão parecer acentuá-la).
No entanto, esta perda persiste como uma das maiores limitações — o término da nossa habilidade para transmitir e receber comunicações através da palavra escrita.

9 - Perda na facilidade da comunicação falada

Esta perda afeta não somente o próprio ato de ouvir e falar, mas também gestos, posturas, maneirismos, mímicas e expressões faciais — todos os elementos não falados da comunicação oral. No entanto, ao contrário da precedente, esta perda é raramente analisada e reconhecida.
A distinção fluente feita em geral, é de que a surdez separa a vitima do mundo das pessoas, ao passo que a cegueira separa-a do mundo das coisas. Mas, a perda do desembaraço na comunicação falada é um aspecto da ceguei¬ra que (à parte da barreira psicológica que levanta) igualmente tende a separar o cego do mundo das pessoas.
Até mesmo no elemento vocal da fala a pessoa ce¬ga sofre uma deficiência. Todos nós — conscientemente ou não — somos, em certo grau, leitores “labiais”.quando ouvimos, percebemos algumas palavras com nossos ouvidos; outras palavras nós “vemos” parcialmente. Se os lábios do orador estão escondidos, nós precisamos nos concentrar muito a fim de captar as palavras.
Mas as palavras são apenas um elemento do falar. A expressão facial que acompanha qualquer declaração é capaz de mudar todo o seu sentido. Um sorriso pode transformar um insulto grosseiro em cumprimento, um escárnio con¬verte uma observação em exprobação. A pessoa que não pode ver as mudanças das expressões faciais pode perder completamente a intenção do interlocutor; e então, a comunicação comum, comunicação “vocal”, a engana. Torna-se ineficiente. Os gestos que acompanham “lá” ou “assim grande”, “deste tamanho”, frequentemente usados diariamente na conversação comum. A saliência do queixo com o qual o narrador acompanha sua descrição do individuo agressivo, não é parte essencial da estória, mas importante na conversação, e disto o cego é privado.
Também, importante é o encolher dos ombros, o arquear das sobrancelhas, o balançar da cabeça que são, por si sós, palavras, frases e sentenças — e algumas vezes mais importantes que muitas palavras faladas.
A incerteza sobre a proveniência de uma voz —sobre o lugar em que está aquele que fala, pode tornar difícil a identificação do orador e consequentemente, im¬pedir a conversação. Mais difícil ainda é a incerteza da direção para a qual a voz se dirige. “Ele está falando co-migo?” é uma pergunta constante no pensamento do cego, por que não tem meios de saber se e a ele que se dirigem.
Ou ainda, a conversação, especialmente entre amigos, é frequentemente intercalada de silêncios, Mas, ao cego falta a capacidade de julgar o significado destes silêncios; não pode ver as disposições e expressões que os acompanham. Em lugar da calma e relaxante meditação que indica, o cego imagina nervosamente se esperam que diga algo. Ele embaraçou ou insultou alguém com o seu silêncio? E há sempre a possibilidade do silêncio indicar que os outros partici¬pantes da conversação tenham mansamente deixado a sala, sem nenhuma indicação, além da visual, da sua retirada,
Pior do que tudo é a terrível e imperdoável possibilidade de que haja outra conversação à sua volta, na qual ele não deve tomar parte —, que por sinais e gestos, os que vêem estejam conversando sobre sua cegueira. Isto é raramente feito, a não ser por simpatia, feito às vezes, mesmo por familiares e pior ainda, pelos que traba¬lham com as pessoas cegas. Qualquer que seja o motivo, implica numa total falta de confiança na pessoa cega e des¬ta, na sinceridade dos que a rodeiam.
A sua própria conversação sofre similar altera¬ção, apesar de nada ter acontecido com sua voz, Muitos dos elementos acima referidos obviamente têm influência nisto. O cego nem sempre tem certeza de que a pessoa à qual se dirige está presente ou exatamente onde ela está. A pessoa cega, por conseguinte, pode adquirir o que Cutsforth classifica como “voz radiofônica” a voz que em vez de se dirigir a uma pessoa em particular, procura (como a voz do locutor) encher a sala com o som a fim de alcançar a mesma, a onde ela estiver.
Um importante elemento na nossa conversação é a reação provocada pelo que estamos dizendo.
Normalmente, nunca sabemos, ao iniciar um tópico, que palavras empregaremos e muito menos a ênfase vocal ou facial que poderemos usar. A conversação se desenvolve de acordo com as reações que percebemos. Se nos é impossível vê-las nossa conversação sofre alterações.
Além disso, os gestos são partes da conversação (mesmo nas nações que acham que somente os estrangeiros gesticulam) e as pessoas cegas, mesmo os que ficaram cegos quando adultos, frequentemente falham, não só na percepção dos movimentos naturais das mãos e do corpo que acompanham o falar comum, mas também no uso dos mesmos. Usa-los pode significar o embaraço de se chocar com uma mesa próxima ou uma lâmpada. Por isso o cego põe maior ênfase no aspecto verbal da fala do que no visual. Por conseguinte. os gestos que as pessoas cegas fazem tendem a se tornar auto-conscientes e isto, mais do que a falta de gestos interfere na comunicação falada.
Esta perda de gestos é algo em que a pessoa dotada de visão não repara especificamente. O que ela nota é a existência de alguma coisa intangivelmente “diferente” na maneira da pessoa cega falar. Afastar-se-á com a sensação de que “falta algo” inexplicável que dificultará a comunicação normal agravando assim esta perda.
A falta de expressão facial e a sua substituição pelo olhar vazio e riso fixo perturbam ainda mais a comunicação. Esta mudança resulta, em parte, da impossibilidade de ver as expressões faciais dos outros, causando uma falha na memória visual quanto ás nuances de expressão.
Parece que muito da nossa expressão facial é um reflexo daquelas dos que nos cercam e portanto, não é de surpreender que faltando o “espelho” não haja imagem.
Talvez, esta mudança seja devida, em parte, ao fato de que nossas expressões faciais variam de acordo com as reações dos outros ao que dizemos. Sendo o cego incapaz de perceber estas reações enquanto fala, ele poderá inconscientemente manter uma “expressão morta”, até perceber se a tendência é para a aceitação ou rejeição.
Existem razões para se acreditar que esse sorriso fixo seja uma mascara - a “fisionomia de um jogador de poker”, inconscientemente adotada para esconder os verdadeiros sentimentos. Quem já viu a mudança na expressão facial e na postura da pessoa cega quando ela chega ao íntimo de algumas sensações, por exemplo, no curso de uma análise, deve dar credito a esta possibilidade.
Uma espécie de mascara é sempre necessária para aquele tipo de pessoa cega que geralmente está ausente de uma conversação, sonhando com seus problemas íntimos.
Estas e outras expressões e hábitos classificados como “maneirismos”, interferem nas relações sociais normais e causam uma verdadeira barreira à comunicação. A incapacidade de focalizar a vista, ou, então a tendência do globo ocular em mover-se constantemente, realçando o branco dos olhos, causa em muita gente uma impressão desagradável.
Estas dificuldades podem aumentar para a pessoa cega que se dirige a uma audiência, Ela pode, por exemplo, virar-se um pouco quando se dirige aos ouvintes sem saber exatamente, onde se encontram e com isso partir o vínculo que os une, fazendo surgir um obstáculo intransponível á transmissão da sua mensagem.
Outro problema para o orador da plataforma é a dificuldade de falar enquanto lê as anotações. Relativa¬mente, poucas pessoas cegas lêem tão fluentemente Braille que as permitam ler rápida e desembaraçadamente um discurso.
O problema foi resolvido em parte, por um ora¬dor cego canadense, num encontro internacional, em Paris. A esposa permaneceu fora do palco, lendo suas anotações datilografadas num microfone ligado por um fio, a um aparelho de escuta colocado em seu ouvido.
Mas, qualquer humor da assistência interfere na concentração do orador nas reações da mesma em relação a sua palestra. Por tanto, a perda na facilidade de comunicação falada é uma das perdas da cegueira que se assemelha à da comunicação pessoal resultante da surdez. De fato, a pessoa cega falando é, em certo sentido, muda à sua própria voz, desde que seja surda à reação dos outros para com ela.
Mais sério ainda e sublinhando todos os outros problemas, é a perda irreparável na comunicação do “afeto”, isto é, daquele algo, além das palavras usadas que une as pessoas e as almas.
Palavras são ouvidas e pronunciadas pelas pessoas cegas, mas frequentemente a personalidade que lhes dá vida e “materialização” das palavras perdeu-se. Teremos aqui, novamente, uma perda essencial dentro das múltiplas limitações da cegueira. É a morte adicional para o mundo no qual a pessoa que ficou cega vi¬via; é a perda fatal dos amigos e conhecidos.

10 - Perda do Progresso Informativo

Vários nomes podem ser dados a esta perda - perda da percepção da cena social, perda na aquisição de informações, perda na habilidade de se manter atualizada ou perda do contato com o dia presente.
É a perda do progresso quando as outras coisas se movem; é uma parada enquanto o mundo caminha. Na verdade, é um retrocesso, pois, coloca a pessoa cega em posição inferior à posição anterior.
Esta perda é o resultado do fato da pessoa que perdeu a vista, ser grandemente tolhida na obtenção do grau de informação exigido dela antes de perder a visão na aquisição de conhecimentos gerais que a ajudavam a se manter num certo plano dentro do círculo de amigos, vizi¬nhos, associados que formavam seu “ambiente intelectual”.
O conteúdo desta perda varia de acordo com os indivíduos, Num grupo estará relacionado com os comentários rotineiros sobre a atitude social de um compositor recém-descoberto ou sobre os maneirismos de um filósofo de salão. Em outro, poderá ser a biografia jornalística de uma proeminente figura dos esportes ou o resultado de uma competição nacional.
Profissionalmente, pode dizer respeito às novas descobertas sobre energia atômica, à posiçào das cotações da Bolsa, à pesquisa sobre algum vírus infiltrável, ou, refere-se a salários mais altos, e maior segurança através de uma nova associação, ou à vantagem de empregos numa indústria recém-construída.
A aquisição de informações pode estar relacionada com tais assuntos como história em quadrinhos, a atividade de artistas cinematográficos, a média de atuação dos jogadores de bola, os personagens de um assassinato em um caminhão, escândalos na vida publica e privada, o valor relativo de vários cosméticos, o traçado da última auto-estrada ou os novos carros.
Para cada grupo, o conteúdo é diferente, mas para o que ficou cego, os meios e oportunidades de progres¬so e de manter-se em dia com os acontecimentos, dentro de cada grupo, foram definitivamente cortados. Significa um retrocesso, É ficar parado, enquanto o mundo avança.
Aquele que ficou cego poderá obter novas informações, mas seu progresso visual está cerceado e como resultado, sua capacidade de informações é terrivelmente limi¬tada. Porque o progresso aqui depende em grande parte de duas coisas: da leitura e da observação de pessoas e coisas.
A espécie de leitura poderá ser qualquer uma das variedades analisadas no capítulo sobre comunicação escrita, em todo caso, é óbvio a dificuldade e até mesmo a im¬possibilidade de qualquer espécie de leitura, A observação das pessoas não é necessariamente “só” visual; entre¬tanto, aqueles entre nós que cresceram dotados da visão compreendem a parte importante que o “ver” tem na nossa observação dos indivíduos. A ênfase visual é ainda mais pronunciada na observação das coisas. E com a perda da mobilidade, as chances de observar estão restritas a uma pequena área geográfica.
Aquele que perdeu a visão que ainda usa as roupas de antigamente, aquele que corta o cabelo a 1911, po¬dem assim agir devido à falta de conhecimentos atuais, ou pela mesma razão a pessoa cega pode não estar a par de toda a vizinhança, da demolição da casa do quarteirão seguinte, tão penetrante é a dificuldade do cego em observar pessoas e coisas, comuns da vida diária.
Ela sofre também uma redução nas oportunidades de obter novas experiências e informações sobre acontecimentos programados ou prenunciados, tais como a escalação do próximo jogo, o anúncio de uma conferência, o peso dos lutadores de boxe no jogo do dia, o programa de um concerto ou ópera, o chamado para o teste de incursão aérea, ou a eminência de uma tempestade. A falta dessas informações pode causar à pessoa cega prejuízos em várias áreas de sua vida,
Mas a dificuldade para obter informações atuais afeta mais diretamente a sua posição perante sua própria mente e no círculo de amigos e conhecidos. O que acontece para a sua posição dentro da sociedade quando ele tem (ou sente que tem) cada vez menos para dar? As informações são o estofo do qual o conhecimento é formado e, gerai mente, confunde-se a falta deste com a falta de inteligência. Os amigos começam logo a pensar que a falta de atualização nos conhecimentos por parte daquele que perdeu a visão é fruto da estupidez. E não estará longe o dia em que ele próprio se considerará um ignorante.
É fácil observar os efeitos na pessoa que se tornou cega, quando ela começa a perceber o que resulta deste “morrer para o mundo em que vive”. Ela pode render-se e viver no passado, tornar-se um “técnico” em algum assunto e dominá-lo todas as vezes que alguém o ouça; tomar a palavra e falar sobre coisas, das quais nada sabe; parar completamente o seu desenvolvimento intelectual, fechar sua mente a todas as opiniões novas e apegar-se somente às coisas que já conhecia — a não ser que, algo seja feito pa¬ra restaurar esta perda, nesta área vital de manter-se em dia com o mundo em desenvolvimento.


CAPITULO 5
PERDAS NA APRECIAÇÃO

11 - Perda da percepção visual do agradável

No estudo dessa perda devemos notar a chocante diferença entre a atitude, pelo menos a atitude verbal, da pessoa dotada de visão quando encara estes aspectos da cegueira e aquela das pessoas que se tornaram cegas. Aquelas quando falam e escrevem sobre o problema frequentemente mencionam algo como: “Nunca mais contemplar as faces maternas, nunca mais ver o próprio lar aninhado entre árvores”. No entanto a pessoa que perdeu a visão raramente faz menções desta natureza.
Várias são as possíveis interpretações da incapacidade que tem a pessoa que ficou cega em discutir minuciosamente esta perda. Mas, se formos tentados a pensar que isto acontece por não ser esta perda considerada vital, basta consultarmos depoimentos de pessoas que recuperaram a vista após anos de cegueira. De um modo ou de outro, várias vezes declararam: “A coisa mais maravilhosa foi ver minha esposa e meus filhos novamente”; ou “A maior de to-das as impressões foi ao virar a esquina da minha rua, pela primeira vez em anos, ver a casa na qual vivo há tanto tempo”. Isto sugerirá uma perda insignificante? Ao contrário, sugere uma perda tão grande que tem sido impossível traduzi-la em palavras.
O que analisamos aqui é a perda da recepção visual (do abranger) de um objeto, no qual quem perdeu a visão, anteriormente encontrava prazer. Este objeto pode ser um quadro na sala de visita o qual, nem num esforço de imaginação, alguém classificaria de lindo, ou uma peça de arte religiosa completamente desgraciosa, completamente disforme que, no entanto, simboliza algo para ela. Poderá ser ainda o “sorriso materno”, apesar de ser o de um ros¬to comum ou do mais delicado de todos, ou então “seu lar aninhado entre arvores”, mesmo que seja uma monstruosidade arquitetônica. Para ela será o mais acolhedor de toda a redondeza. O valor intrínseco existente nestas coisas e que a encanta é este prazer especial que está agora perdido.
Neste sentido, também poderão ser objetos agradáveis, por exemplo, o tráfego de uma cidade, a velocida¬de dos novos carros, pessoas circulando numa estrada pró¬xima, carneiros pastando, as cores de uma vitrina, a corrida de um coelho, ou o galope de um belo cavalo., Em qualquer caso, a perda é proporcional ao prazer que o indiví¬duo encontrava ao olhar estas coisas.
Esta perda poderá ser de aspecto normal dentro do prazer “sensível” e “espiritual” 1, a visão de um homem elegante para uma mulher e a de uma linda mulher para o homem; ou poderá estar no campo de prazeres pecaminosos e anormais aonde as satisfações eróticas se desencadeiam? 2
Ou, voltando para o normal e isento de pecado, o objeto de prazer pode ser o próprio eu, O prazer inocente de algo fútil que muitos sentem ao se olharem no espelho, está terminado. O ulterior prazer - e mesmo sem o espelho -da visão consciente do próprio corpo. uma percepção que na maior parte das vezes é inconsciente e que provavelmente existe em nós desde o dia em que fizemos a pri¬meira grande descoberta: de que aqueles dedos, ao pé do berço, nos pertenciam, - tudo isto está perdido e pode ser incluído nesta perda da percepção visual de um objeto agradável.
Alguns incluiriam tamb6m aqui a perda do prazer na visão receptiva, mas eu não creio que tal prazer exista nos sentidos da visão e audição.
Não obstante, devemos considerar a perda imediata do prazer que sentimos em certas ocasiões na presença da cor, forma ou movimento, Este aspecto particular diz respeito não só às reações múltiplas: emoções associadas aos dias de nossas primeiras impressões com a forma, cor e movimento, mas especialmente, com as ligadas ao nosso treino em avaliar e aprecia-las, ou com o nosso “condicionamento” para evitá-las e fugir delas.

12 - Perda da percepção visual do belo

Esta é a perda da capacidade de abranger visualmente um objeto que é belo; a perda da percepção visual e do “embeber-se visualmente” no que é belo.
Nem todos que perderam a visão sentem esta perda. Algumas pessoas não podem “morrer” para esta visão do be¬lo pois nunca viveram com ela, Mas, para aqueles que a sentem, isto será uma das mais graves conseqüências da cegueira.
Agora., toda a beleza experimentada através da visão, todo prazer que os inflamava e os fazia vibrar a simples presença do verdadeiramente belo, foi afastado. Defrontar-se com a beleza delicada ou majestosa de um obje¬to, saber que ele está ali na nossa frente, e todavia ser incapaz de contemplá-lo, produz uma sensação diferente, uma dor sem prazer, somente com terrível frustração. Permane¬cer impotente enquanto outro ineptamente procura descrever com palavras inexpressivas algo belo, poderá realmente, ser fonte de sofrimento.
Os que têm visão fazem menção a esta perda mais frequentemente do que a anterior, “Nunca mais ver o colo¬rido de uma rosa, o esplendor do por do sol”. O que se tornou cego raramente se refere a isto.
Esta è uma diferença de atitude difícil de avaliar. Talvez os que enxergam achem mais fácil falar sobre esta perda do que sobre as outras. Talvez os impeça de considerar outros aspectos da cegueira sobre os quais não querem pensar. Ou possivelmente esta perda tenha sido tão ex¬plorada na literatura que os que possuem visão se. consideram na obrigação de fazer referencias ao fato. Mas por que a pessoa cega a menciona tão raramente? Será uma perda sem importância? Talvez a considerem tão óbvia que não há necessidade de lembrá-la. Talvez seja tão sobrepujada por outras, que desapareça. Possivelmente será uma perda insuportável. Entretanto, será mais provável que a verdadeira amargura desta perda seja sentida apenas por pessoas que possuem uma forte noção do belo que o sentirão menos ou mais, conforme a ocasião. Ou então, que represente uma impressão tão íntima e ligada ao coração que o fato de abordá-la em termos errados, com a pessoa errada, deprecie e macule seu significado, o que seria ainda mais doloroso.
Mas, seja qual for à razão, não há dúvida que representa uma perda grave à percepção individual e à apreciação visual do belo que existia anteriormente. Para muitos isto constituirá uma enorme limitação.


NOTAS DE RODAPÉ
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1 – “Erótico” e “artístico” poderão ser outros termos para o que nos referimos aqui; mas estas palavras levam a uma dificuldade de semântica muito grande. Há o prazer que todo homem tem em encontrar e ver outro ser humano; prazer, em parte material e em parte espiritual: é um prazer “humano”. Deve ser bem distinguido do prazer pecaminoso no qual um aspecto do ser humano predomina, é o prazer sensual e carnal, O jovem e a jovem normais terão o prazer normal de se encontrarem com pessoas do sexo oposto. Parte deste prazer reside no simples fato de ver esta pessoa. A perda deste prazer normal juntamente com o da visão são suficientemente importantes para formar um “stress”. Sem este esclarecimento é possível que haja falsa interpreta¬ção do texto.

2 - Obviamente não estou sugerindo que a perda da aptidão para pecar seja algo deplorável. A perda de um sentido não impede a tendência para o pecado. A perda da percepção visual não fará o cego menos pecador ou mais normal em seus prazeres. O pecado será possível. Este tipo de pecado através da fantasia visual permanece na imaginação. Neste caso, a perda de um objeto agradável é a perda de um objeto pecaminoso. Resulta em sofrimento. Nosso trabalho é afastar a dor sem restaurar o pecado.


CAPÍTULO 6
PERDAS RELACIONADAS À OCUPAÇÃO E À SITUAÇÃO FINANCEIRA

13 - Perda da recreação

Recreação é arejamento, reanimação, dádiva de uma vida nova, especialmente, após trabalho estafante, ou ansiedade. De uma forma ou de outra, é importante para todos e em especial para aqueles sob séria tensão. Todavia, no decorrer de uma cegueira recente, com todas as tensões e pressões que acarreta, a pessoa cega também perde a recreação. Sob qualquer aspecto, trata-se de uma perda grave.
A recreação varia muito, de acordo com as necessidades de cada individuo — temperamento, hábitos — que seria impossível catalogar todas as suas formas, Entretanto, já ajudaria bastante se nos ocupássemos das mais comuns, dentro de nossa cultura, a fim de termos a noção de quantos são os seriamente prejudicados com a perda da visão.
A recreação, para a maioria das pessoas é intelectual ou física, ou mesmo, uma combinação de ambas, Para alguns, a leitura recreativa vem em primeiro lugar. Há também os que gostam de trocar idéias com outros, a respeito do que leram, Já outros preferem o cinema, teatro, jogar cartas, ou mesmo, encontram estímulo no jogo de damas ou de xadrez. Muitos se divertem dentro do ilimitado campo da conversação e contato com pessoas, A recreação pode também consistir em assistir televisão, ou praticar um ou outro tipo de esporte, comer fora, novas amizades, ter prazer em dirigir um carro, cavalgar, os “hobbies” — colecionar selos ou coisas inúteis. A oficina de trabalho no fundo do porão, a tela do pintor amador.
Há, outrossim, a recreação que existe em esforço físico maior: o “constitucional”; as longas caminhadas através das florestas, o jogo de bola, o boxe, tênis, as partidas de golfe, caçar, pescar, velejar, praticar equitação e toda aquela serie de atividades que fazem com que o indivíduo se sinta como “novo”. De repente, a cegueira interrompe tudo; tira todo o prazer, colocando um ponto final a tudo isto.
Geralmente, se pensa na música como uma forma de recreação universal para a pessoa cega. Contudo, o músico-cego — pianista, trompetista, aquele que se dedica aos ins¬trumentos de corda —, encontra agora seu prazer bastante diminuído, ou mesmo acabado, se ele até então, dependia, em parte, ou totalmente de música impressa. É certo que o indivíduo que encontrava prazer em apenas ouvir música, pode continuar sua recreação da mesma maneira que antes, Porém, se para tanto ele necessitava sair de casa para se dirigir a locais onde agora não pode ir, ou se fica pouco à vontade, então, isto também irá prejudicá-lo.
Sejam quais forem os tipos de recreação, formais ou informais, que tenham ocupado uma parte importante na sua vida, ou somente nos fins de semana, ou nas férias anuais, sua perda pode acarretar uma completa confusão dentro dos moldes do seu padrão de vida, incluindo o campo emocional e seu bem-estar físico.
Se a participação de um determinado esporte é importante para um homem da sua idade, então, sua própria presença ali, cego, incapaz de participar, pode acarretar-lhe sentimentos de frustração, até mesmo, despertar sentimentos de suspeitas em relação a sua masculinidade. É lhe negado até mesmo aquilo que é tão importante para os que tomam parte em competições de esportes e que lhes é devido – a recompensa dos aplausos por algo bem executado.
A recreação pode ter tido diferentes significados para o cego: uma fuga das vicissitudes e labutas da vida e agora, com toda a certeza, as vicissitudes se não a fadiga da vida aumentaram tremendamente e não há escapatória. Poderia ter sido seu único meio de afastar senti¬mentos (quem sabe, de hostilidade e agressão) e agora, nada resta a fazer em relação a estes sentimentos, exceto mantê-los dentro de si mesmo.
Poderia ter sido seu único meio de proteção contra divagações, sonhos e fantasias eróticas e, agora, es¬ta proteção desapareceu. Poderia ter sido sua única oportunidade, para competições de igual para igual, a fim de se sentir autêntico, completo e adequado e agora quando ele mais necessita de tais coisas, elas desaparecem.
A perda da recreação é uma perda grave uma “morte” na qual não há oportunidade para “arejamento” para uma vida “nova”.

14 - Perda da carreira, do objetivo vocacional, da oportunidade de emprego

Todos aqueles que perdem a visão não devem achar que necessariamente sua carreira está terminada. Mais ou menos 50% deles conta com mais de sessenta e cinco anos de idade, no momento em que ficaram cegos e sua carreira ou já está no fim, ou já estão de tal forma estabelecidos que possam continuar, Alguns dos que ficam cegos mais cedo ou em pleno apogeu da sua carreira estão aptos devido à natureza de suas ocupações, a voltar para a mesma com pequena ou nenhuma interrupção da carreira, por exemplo, os advogados, juizes, funcionários executivos, etc.
Contudo, a perda da carreira, de um objetivo vocacional, de uma oportunidade de emprego é uma perda im¬portante para a maioria das pessoas e assume aspectos graves para outras. Em nossos dias, reconhece-se, pelo menos um pouco, tal fato, embora a questão de emprego seja mui¬tas vezes confundida com a questão do salário e segurança pecuniária, ou com a noção de “trabalho ativo”.
Perder o emprego e, muito especialmente, aquele emprego onde se deu o melhor de si mesmo, ou do qual a carreira parece depender, pode se tornar uma verdadeira tragédia em si mesmo sem cegueira. Os jornais publicam notícias de pessoas que pularam de uma ponte ou de uma janela, atestando, muitas vezes, que a perda de um emprego, o fracasso de um negócio, ou da carreira profissional respondiam pela tragédia. Certamente, a perda de um emprego, o insucesso de uma carreira, o bloqueio de um objetivo vocacional podem constituir um golpe muito sério, sendo que a natureza e gravidade dos mesmos dependem do significado da carreira ou da fínalidade da mesma para o individuo.
Acima e além dos proveitos financeiros de um emprego, acima e além da necessidade de se manter ocupado, a carreira, a própria vocação e as oportunidades de um emprego, possuem profundo significado e se revestem de grande importância 1. Estão ligadas à dignidade do indivíduo, à dignidade do emprego, ou posição envolvida, à dignidade do trabalho em si, às necessidades sociais, à necessidade externa e interna de fazer aquilo que é esperado ou exigido de nós, de acordo com nossa idade, habilidade, instrução e ambiente.
O mais importante para nós, aqui, é que o impacto desta perda no indivíduo varia de acordo com todos esses fatores. Porém, para cada pessoa que normalmente deveria trabalhar, a perda de uma oportunidade de emprego, de um objetivo vocacional, o término total de uma carreira, é em si mesmo uma grave perda e deveria ser reconhecida como tal. Aqui, trata-se de “morte” do que é útil, de uma vida de produção e de merecimentos.

15 - Perda da segurança financeira

Embora a perda de um emprego e a perda da segurança financeira não sejam necessariamente a mesma coisa. para o indivíduo mèdio, a perda do emprego significa a perda de seus rendimentos e bem poucos possuem economias para fazer face às necessidades e obrigações financeiras 2.
Além disso, ao lado da perda dos rendimentos, a cegueira pode através da perda do emprego, causar dificuldades financeiras, com o aumento das despesas. Este aumento pode ser considerado de duas maneiras: despesas com a doença e despesas decorrentes da própria cegueira.
As despesas da cegueira são óbvias: o preço dos hospitais, remédios, cirurgia, enfermagem. Mesmo depois de um veredicto final de cegueira incurável, tais despesas continuam além do tempo previsto. Aos boatos de um médico, em algum lugar, que já curou “justamente o seu tipo de cegueira”. Segue-se a tão almejada viagem (às vezes, bem distante) em busca da cura. A volta cheia de desespero. Ou quem sabe, a estória de um novo tratamento, semanas meses de despesas e novo fracasso. Tais coisas não acontecem com todas as pessoas cegas, mas ocorrem com bastante freqüência.
As despesas decorrentes da cegueira provêm da perda da mobilidade, da comunicação escrita e de técnicas da vida diária. O individuo, cuja mobilidade foi interrompida, ou perdida rapidamente. vê-se envolvido em novas despesas, quando há necessidade de se locomover de um lugar para outro. Antes andava, agora acha que precisa tomar condução. Antes, podia tomar um bonde, ônibus ou o metrô. Agora acha que há necessidade de um táxi. Onde outrora, podia ir só, agora julga necessária a presença de um guia, (e então, surge o ordenado do guia ou sua manutenção; as despesas “voam”).
A perda da comunicação escrita acarreta a possibilidade de pagar um leitor; novas despesas.
O mesmo acontece com as técnicas da vida diária: a pessoa cega precisa comprar serviços. Ela “compra a visão” e quanto maior a compra, mais pesados serão os gastos. O indivíduo habituado a fazer as refeições em restaurantes onde cada um se serve, é agora obrigado a procurar restaurantes caros onde será servido (pagando para isso). O comprador que procurava suas pechinchas e fazia suas compras em lojas, servindo-se sozinho, agora as encomenda pelo telefone, recebe-as em casa, pagando por isso. As contas do tintureiro subiram pois. a pessoa cega, inadvertidamente, mancha mais suas roupas, pelo menos precisa mandar lava-las com mais freqüência, a fim de se assegurar de que estão limpas. O indivíduo que morava sozinho, agora precisa de uma governante. O serviço de mensageiro torna-se uma imposição, quando outrora pareceria um luxo.
Caso a pessoa cega tenha meios e se existe oportunidade para tanto, ela pode pagar pela sua visão, a fim de compensar as perdas. Ser-lhe-á possível, por exemplo. tentar recuperar seu emprego ou cargo, contratando alguém e pagando pela visão do “chauffeur”, do observador, do ledor ou da secretária que necessita. Naturalmente, nestes casos a despesa será enorme.
Em verdade, há as pessoas cujas despesas diminuiram com a cegueira. Trata-se dos não remunerados cuja cegueira transformou-os em “sentados”, Nunca saem de casa, não necessitam de muitas roupas novas, cessaram de se in¬teressar por coisas que representam gastos. No momento em que a reabilitação os alcança, tirando-os de suas cadeiras, suas despesas atingirão o limite “normal”, indo até mesmo além; tomarão condução para sair, começarão a se interessar em fazer algo e assim, inevitavelmente, começarão a comprar e a gastar.
Sejam estas despesas grandes ou pequenas, muitas delas decorrem da cegueira. Juntando-as aos gastos da moléstia, as despesas aumentam, enquanto que os rendimentos diminuem ou cessam por completo. Assim, pois, para muitas pessoas, esta perda de segurança financeira implica numa morte da liberdade.


NOTAS DE RODAPÉ
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1 - O tipo de afastamento que estamos discutindo deve ser distinguido daquele ocasionado pela idade, quando se dá por finda uma carreira, é de conhecimento geral, o efeito causado em alguns indivíduos mais idosos que devido à idade precisam ser afastados de seus cargos. Contudo, estudos científicos mais recentes mostram que o afastamento devido à idade, pode se constituir em benefício, quando o indivíduo em questão foi preparado para isso, trazendo-lhe, então, maior e não menor margem de vida.

2 - Com tudo isso, nos Estados Unidos, o indivíduo cego não precisa recorrer à mendicância como meio de subsistência. A presença de mendigos cegos é amargamente sentida pela maioria dos cegos. Em diversas partes do país existem organizações de cegos e outros indivíduos que procuram proscrever tal prática e já está sendo mesmo proibido em muitas cidades e Estados.


CAPITULO 7
PERDAS QUE IMPLICAM NA PERSONALIDADE COMO UM TODO

16 - Perda da independência pessoal

Poucas situações reais podem acarretar golpe tão duro à independência pessoal como a cegueira. Para o público em geral, o “cego desamparado” é o símbolo da extrema dependência. Todas as perdas estudadas até agora envolvem a perda da independência — até mesmo da integridade física — porque uma das primeiras sensações que produzem é a da dependência, e o fato em si mesmo de ser “diferente”, no sentido já descrito torna a dependência mais difícil de ser aceita. (ver cap. 2 — Perda da integridade física).
Mas os indivíduos reagem diferentemente a esta dependência forçada. Se pretendermos ajudar aos que perderam a visão, em todas as suas necessidades, precisamos compreender que desde a nossa infância dependente, através da crescente independência da juventude e vida adulta até novamente à dependência da velhice, duas forças estão em choque: o desejo de independência com sua liberdade e o de dependência com conseqüente proteção.
Raramente estamos cônscios da grande influência dessas duas tendências divergentes sobre nossas vidas, mas o fato delas existirem resulta em certos paradoxos reais e inesperados. Falando de um modo geral, as pessoas que são classificadas como “muito independentes” são criaturas extremamente dependentes e, quanto maiores os sintomas daquilo que parece ser independência, maior a dependência oculta nelas. Ao contrário, todos que possuem a independência verdadeira, íntima, não têm dificuldades de, em certas ocasiões — doenças e calamidades imprevistas, que todos enfrentam - se mostrarem dependentes.
Quando ouvimos o comentário “ele é muito independente”, “não aceita ajuda”, possivelmente descobriremos que “ele” é essencialmente uma criatura dependente — tão amargamente ansiosa para se livrar desta dependência, que se torna incapaz de aceitar ajuda, Qualquer auxilio aumentará esta sensação de dependência — e isto ele não tolerará. Vemos isto em pessoas que pretendem dominar os outros, procurando deste modo impedir que a própria dependência surja à tona.
Constatamos a mesma atitude nos que se rebelam contra as autoridades, contra os costumes, protocolos, moral, inibições e tabus.
Quando um motivo ponderável permite a uma pessoa justificar esta dependência ela se “extravasa”. Se esti¬ver doente, pode ser dependente — aberta, infantil e completamente dependente. Se estiver realmente doente agirá assim e encontrará prazer nesta atitude.
Ninguém poderá criticá-lo, Naturalmente ele é dependente, mas está seguro que o é somente em virtude da gravidade da sua doença.
Nestes seres excessivamente dependentes surge, geralmente, no plano do subconsciente, uma forte amargura.
Esta é dirigida não só contra si mesmo ou contra circunstancias, mas, frequentemente, contra a pessoa ou as pes¬soas das quais depende. E, muitas vezes, curiosamente, mascara-se com a aparência de lealdade ou amor.
Mas, o grau de verdadeira maturidade e independência mede-se pela capacidade de aceitarmos a dependência quando a isto somos forçados. A pessoa que alcançou maturidade e independência reais aceita as situações de dependência que aparecem em toda a vida, Ela pode lutar contra regras, costumes e proibições mas o fará com bases razoáveis,, Poderá concordar com as autoridades ou discordar delas, mas sua discordância não será aquela de uma criança rebelde, tentando provar que não é criança. Poderá caminhar só ou aceitar o auxílio de amigos e em nenhum caso isto a perturbará. Não sente a necessidade de forçar outros a dependerem dela, porque não precisa provar a si mesma nada de especial.
Entretanto, as pessoas não estão divididas em dois grupos — as dependentes e as independentes. Existem áreas de dependência emocional. Isto significa que não po¬demos depender de certas pessoas pois delas poderão sur¬gir todas as sensações de dependência contra as quais lutamos; na sua presença, nossa excessiva dependência torna-se patente. Algumas vezes aparece na forma de um apoio e em outras como uma raivosa independência. Algumas coisas e algumas situações causam a mesma reação. Mas, a extensão da nossa verdadeira independência é que determina o grau de pressão adicional que podemos suportar no campo de uma dependência forçada.
Desta maneira, as pessoas que antes de se tornarem cegas eram capazes de aceitar o grau normal de dependência própria de viver, são agora testadas de modo espe¬cial.
A dependência realmente oprime e embaraça. Dis¬to as pessoas não fogem. Para aquelas que possuem uma noção íntima muito forte de dependência, existem somente duas possibilidades: ou entregar-se completa e totalmente a ela ou lutar amargamente para escapar. Isto vem expresso em duas atitudes extremas (ou verbalizações): “Ceguei¬ra é uma deficiência insuperável e desesperadora” ou “A cegueira não passa de uma inconveniência secundária”.
A reação normal de uma pessoa emocionalmente madura, em contraste, é baseada no reconhecimento da dependência imposta a ela, num enorme desejo de que assim não fosse e na habilidade de aceita-la quando necessário não a procurando no caso contrário. Mas, poucos entre nós são inteiramente maduros emocionalmente e as reações da maio¬ria das pessoas cegas também variam, Estas possíveis reações forçadas de dependências da cegueira explicarão as diferentes respostas: guia ou não, bengala ou não, cão ou não, Braille ou não, ledor ou não, trabalho ou não, reabilitação ou não.
A dependência que ela acarreta é suficientemente nociva. Mas, quando aquele que perdeu a visão compreende sua dependência e descobre em si sentimentos de amargura para com aqueles dos quais depende, pode encobrir esta sensação tornando-se mais dependente do que realmente é. Ou, então, não a pessoa cega por si mesma, mas os que a rodeiam, aqueles aos quais está ligada por laços de afeição, podem inconscientemente aumentar sua dependência. Podem apreciar esta nova posição estabelecida entre eles. Sem perceber, a esposa pode sentir prazer em ter o marido, repentinamente, dependendo dela, Uma criança pode comprazer-se em ter um dos progenitores dependendo de¬la. Vizinhos e amigos podem achar que ter uma pessoa cega dependendo deles traz uma nova e agradável sensação de poder e assim, inconscientemente procuram conservar esta situação.
A terrível perda da independência pessoal, é por tanto, una das mais expressivas entre as múltiplas limitações vinculadas á cegueira, desde que a morte da vida independente significa o fim da vida adulta.

17 - Perda da adequação social

A perda que vamos analisar agora é um dos golpes mais graves que podem atingir a maioria das pessoas (com poucas, mas distintas exceções): a perda da aceitação pessoal da dignidade humana, quase da individualidade e personalidade. E, entretanto, esta perda, como a próxima a ser analisada, é supérflua. É imposta à pessoa cega, não pela cegueira, mas por pessoas supostamente bondosas e simpáticas que a cercam.
Nós, os que enxergamos, adicionamos esta perda às múltiplas limitações da cegueira porque a tememos; tememos tudo que é relacionado com a cegueira: toda a escuridão, o mal, a ignorância e mistério envolvidos em som¬bras e melancolia.
Tememos todos os efeitos da cegueira; da perda de contato com a realidade, de sermos afastados das pessoas, do desemprego, da insegurança financeira, da privação do nosso modo normal de adaptação à vida. Tememos a nós mesmos e às nossas fraquezas. Receamos a imobilidade e a dependência. Sobretudo, nos atemoriza a mutilação e o desconhecido. E odiamos ter de enfrentar e admitir nossos temores. Em conseqüência, nós (a grande maioria dos que vêem) não consideramos nossa atitude para com a cegueira e não a enfrentamos racionalmente. Muitos se aproximam da ceguei¬ra e das pessoas cegas com a razão tão influenciada por conflitos emocionais que é quase impossível que ela funcione.
O medo traz a repulsa — e isto não gostamos de admitir. Enquanto admitimos repulsa para com a deficiência — nada há de errado nisto — entretanto achamos que a mesma repulsa a respeito de uma pessoa que possua a deficiência é muito errada, assim como qualquer intenção de afastá-la da nossa presença ou do nosso pensamento. Se existe em nós algum desses sentimentos, então, devemos impedi-lo de vir à luz. Em lugar disso, nós os encobrimos, nos “apiedando” do indivíduo defeituoso — separando-o assim da nossa intimidade e ao mesmo tempo aliviando nossa consciência. Nossos sentimentos poderão ser ainda mais abrandados se dermos a ele algo, dinheiro talvez, ou insistindo para que a organização que mantemos o auxilie. Podemos ir mais além, prestando-lhe algum serviço, mas novamente, motivados pela piedade. E esta “piedade” está enraizada no nosso medo e temor.
Possivelmente, as emoções provocadas pela cegueira estejam acima das nossas fôrças. Então, nós nos com¬padecemos do cego de longe. Estremecemos de emoção e admiramos as pessoas que trabalham com “eles”. Ou, ao contrário, nos associamos intimamente à pessoa cega e passamos a “possuí-la”. Forçamo-la a uma certa dependência e depois nos irritamos com uma suposta ingratidão, se elas procuram exercer a própria vontade.
E, quer seja de perto ou de longe, fazemos a elas o mesmo que à todos os grupos minoritários — as segregamos da sociedade. Esta é a fonte de todas as falsas generalizações, cada uma sendo uma caricatura: o mendigo cego, o músico cego, o cego que sorri, mas no íntimo odeia a sociedade, o cego feliz. (“É admirável como são felizes”).
Esta é a razão pela qual as pessoas atribuem aos cegos virtudes extraordinárias ou poderes sobrenaturais — (“Eles são todos ótimos”), ou (“Não é impressionante como podem distinguir as cores pelo tato?”), e começam a privá-los da razão, até mesmo do bom senso comum (“Não se pode esperar que tome sozinho esta decisão, você compreende”), ou (“Como ele poderá ter certeza que é a sua esposa?”). Em muitas ocasiões pessoas normalmente inteligentes confundem surdez com cegueira, dizendo por exemplo: “Se você lida com cegos, deve conhecer a linguagem dos sinais” ou diri¬gem-se à pessoa cega através de uma terceira pessoa: (“Pergunte a ela se quer açúcar”), ou conversam em voz alta para terem certeza de serem ouvidos.
Nem os dotados de visão que trabalham com as pessoas cegas, estão livres destes erros. Comumente não pen¬sam, como faz o público, que a pessoa cega seja uma criatura amarga e ingrata. Mas, poderão considera-la “dócil e gentil”. Estes são os dotados de visão que se arvoram em “donos dos cegos”, os trabalhadores de associações que discutem e fazem relatórios sobre os “nossos cegos”, o que fazem e como pensam. “Nossos cegos” são iguais aos demais, sempre digo; mas, aqui entre nós, você não os acha diferentes?”
É neste contexto social que emerge aquele que recentemente perdeu a visão; dela ele traz todas as atitudes e sentimentos de compaixão pré-adquiridos. Agora cego, é dentro desta sociedade que ele se move. E, como se os outros problemas da cegueira não fossem suficientes, ele percebe que já não é aceito por si mesmo.
Na comunidade em geral ele está marcado como pessoa cega. Os que nunca se aperceberam dela e não pensavam nela em termos de adjetivo especial, têm agora uma nova concepção a seu respeito; ela é o advogado cego, o alfaiate “cego”, e a ênfase está na sua cegueira, Possivelmente um estranho pode se dirigir a ele na rua, para perguntar se cursou o “Oshkosh College” — “Sentei-me ao lado de um cego durante todo o curso de Oshkosh e pensei que fosse você. Era um ótimo sujeito”. Talvez tivesse sido um ótimo sujeito, mas, aparentemente, a única nota importante nele era sua cegueira. O nosso cego compreende que está assinalado. Está colocado numa categoria na qual se espera que ele se enquadre. Seus amigos permanecem leais - “Afinal, não nos afastamos de um amigo porque tornou-se cego”. Mas logo ele percebe que alguma coisa está forçada. Eles vêem e são gentis; mas quando eles comentam entre si: “Pobre José! Está certamente aceitando de modo admirável. Não obstante, é penoso vê-lo daquele jeito, apesar dele estar confiante”. E José, geralmente, compreende que não é mais José, mas “José, o cego”.
Aos poucos ele perdeu seu lugar na sociedade (entretanto, é possível que tenha assumido um novo lugar e goste do papel de “José otimista, o pobre cego”. No círculo mais amplo da comunidade ou num mais restrito dos seus amigos e vizinhos, ele perdeu seu lugar original que, pela sua própria personalidade, caráter, hábitos e realizações, seu próprio ser, tinha conquistado. Ele per¬deu sua adequação social. Se encontra estranhos, move-se num novo círculo, não como homem, mas como um cego que deve seguir seu caminho.
Mais grave ainda, ele perdeu sua posição dentro do próprio círculo familiar. Não é mais o sustentáculo. Agora é um indivíduo inferiorizado.
Os pensamentos e sentimentos da sociedade penetram no lar. E aqui, ou a piedade não sobreviverá, ou o lar será destruído. O cego é dependente e, nestas condições ele se considera uma carga. Os que assim pensam, se apressam em encobrir e enterrar de um modo ou de outro este sentimento. Frequentemente, a sua dependência é aumentada porque outras pessoas dentro da sua própria casa, inconscientemente, apreciam a sensação de poder e superioridade que resulta desta situação. Cada vez mais as decisões familiares são entregues a outros, e mais e mais ele se torna dependente no seu círculo familiar. E a sua revolta con¬tra isto baseia-se no novo caráter que lhe é dado pela ce¬gueira (“Pobre coitado, tenho a impressao que todos os cegos são assim”).
Nós que enxergamos, tememos a cegueira, e não podemos enfrentar as emoções e sentimentos que ela faz nas¬cer em nós de uma maneira tal que nos permita dar à pessoa cega, seu lugar “pessoal” entre nos. Isto é, não podemos a¬té que estejamos dispostos a enfrentar-nos e aos nossos sentimentos, e tratar a pessoa cega como uma criatura nor¬mal, de acordo com seu valor individual e sua integridade humana. Esta perda é uma faca de dois gumes. Não é só a atitude do público em geral, mas a atitude do próprio homem que ficou cego que importa. Se ele sentir que não se “adaptou” após a cegueira, se ele guardou ressentimentos e concentra-se em sua dor, ha razões suficientes para não conseguir sua adequação social, Se no íntimo ele não estiver apto e pronto a assumir sua posição anterior para viver no seu “status-quo”, então e1e, com todas estas atitudes, aumentará a dificuldade e a importância desta perda. Qualquer que seja a causa, a perda da adequação social, a perda da aceitação pelos amigos e parentes, a perda da individualidade provará ser uma das mais severas, provavelmente a mais severa entre as múltiplas deficiências porque o homem é um ser social e isto é a morte para a sociedade.

18 - Perda da obscuridade

A perda anterior era, num certo sentido, aquela da capacidade de ser “importante”, de manter-se dentro do próprio padrão que ocupava previamente na comunidade.
A que vamos analisar agora é a da perda da habilidade de ser “pequeno”, de perder-se na multidão, de ser obscuro, anônimo, de ser simplesmente mais um homem na rua. É, essencialmente, a perda da capacidade de ajustar-se en¬tre os companheiros sem ser apontado como estranhamente diferente.
A pessoa que ficou cega perdeu sua privacidade, seu retraimento; torna-se uma figura pública. “Cego bate na mulher”. “Cego gradua-se”, transforma~se em manchete, ao passo que o fato de um homem normal fazer o mesmo, dificilmente o colocaria na coluna policial ou social. A psicologia social está nos mostrando os problemas resultantes do fazer parte de um “fora do grupo” e principalmente, o de ser marcado com o sinal de “fora do grupo”. Esta é exata¬mente a posição a qual a pessoa cega fica forçada. Ela está sujeita à fulgurante luz sob a qual devem viver as personalidades públicas, mas, ao contrário destas, ela não a procurou. Ela foi forçada a aceita-la como consequência de sua cegueira. Não só está vivendo numa vitrine (como um vidro que permite ser visto mas que ela nâo pode ver) mas espera-se dela um grau de conformação que não exigimos das pessoas comuns. Algumas deficiências não marcam tão evidentemente os que as possuem, por exemplo, um surdo ou alguém com problemas cardíacos passam desapercebidos numa multidão, Outras deficiências, como defeito físico pronunciado, marcam suas vítimas de tal maneira que elas são notadas ao se locomoverem. O mesmo é válido na cegueira e para muitos isto se constitue no maior problema da cegueira.
Com este estigma surgem todas as questões de co¬mo melhor disfarça-la — tentar “passar”. Esta é uma das razões que leva muitas pessoas cegas a nunca usarem óculos escuros, bengala, ou cão-guia. E algumas vezes a pessoa que cai nos mais grosseiros maneirismos e nos sinais ób¬vios de cegueira, tais como arrastar os pés, insegurança e as que passam pelas experiências mais embaraçosas são aquelas que não conseguem usar bengala ou cães porque temem a idéia de qualquer insígnia que os marcará como per¬tencentes a um “grupo de fora”.
Estas pressões externas e internas podem refletir-se no íntimo da pessoa cega e leva-la a uma situação de segregação, onde ela, por algum tempo ao menos, faz parte de um grupo. Pode tornar-se tão premente que ela deseje afastar-se das ruas, das multidões, para algum lugar onde por alguns momentos, as atenções não se focalizem nela. E noite após noite, ela se lembrará e sentirá saudade dos dias em que tinha liberdade social, quando podia misturar-se com seus companheiros.
Esta perda da obscuridade, na qual está entrela¬çada a perda da individualidade, constitui um trauma gra¬ve e contínuo para o indivíduo que perdeu a visão. Um trauma no qual sua “privacidade” morre.

19 - A perda da auto-estima

A perda da auto-estima compreende duas fases distintas: perda da auto-estima objetiva e perda da auto- estima subjetiva (auto-imagem).
O ideal seria que estas duas estimas coincidissem numa auto- avaliação que levaria em consideração todas as nossas habilidades naturais dadas por Deus, nosso presen¬te grau de desenvolvimento, nosso potencial para contribuições futuras e aceitação na sociedade. Tal auto-estima não seria nem auto-depreciativa, nem auto-elogiável; seria de completa auto-análise. Mas, poucos entre nós são suficientemente honestos consigo mesmos para evitar uma superavaliação ou uma depreciação. Poucos têm a devida humil¬dade para admitir a si mesmos, os dons que Deus deu e as lacunas com as quais ele nos deixou. Dentro de nós,então, existem duas diferentes estimativas do eu: a avaliação intelectual ou auto-estima objetiva que se aproxima da rea¬lidade; e a reflexão sobre todos os pensamentos e sentimentos que temos de nós mesmos desde criança e durante o subseqüente desenvolvimento: “Nosso sentimento de auto-valorização”, ou auto-imagem.
A existência dessas duas diferentes estimativas é claramente visivel em pessoas levemente neuróticas, pa¬ra as quais a constante e real sensação da própria insignificância faz parte da sua auto-imagem. Quando as pessoas se valorizam, elas se perturbam. Sentem-se hipócritas por aceitarem a boa opinião que delas faz o público. Entretanto, feito um auto-exame, por escrito e analiticamente objetivo, as mesmas são capazes de classificarem-se com alto número de pontos. Terminado o exame acham que o resultado erroneamente exagerou o seu real valor e, entretanto, não podem, honestamente, mudar uma única resposta. Tal experiência pode ser constrangedora para a pessoa analisada, desde que sua auto-imagem objetiva, e subjetiva surgem abertamente em conflito. Isto não significa que a auto-imagem é sempre mais baixa que a avaliação atual; poderá ser igualmente exagerada na outra direção).
A auto-estima objetiva é como uma fita de “vídeo-tape” mostrando á pessoa seu próprio valor. Com o ataque da cegueira, a fita reflete una súbita e terrível queda na valorização. Ela era um ser completo, agora é um mutilado. Estava seguro da sua masculinidade, agora tem dúvidas atrozes. Não só perdeu a visão, mas também não pode confiar nos outros sentidos. Seguro de sua orientação através da vida, agora não possui nenhum contato realmente seguro. Está sem o alivio, sem a “cor” do campo visual. Numa vida sem luz, ele está sozinho e sem confiança no amor. Não pode mais ver as coisas belas e nem as que lhe proporcionavam prazer. Antes livre para ir e vir, agora encontra-se imobilizado, retrocedeu à infáncia. Não pode sequer ler ou escrever, e sua comunicação face-a-face com os semelhantes, está dificultada, É tão difícil estar a par dos acontecimentos que o mundo passa por ele, As oportunidades de re¬creação, das quais precisa agora mais do que antes, desapareceram. Milhares de coisas que normalmente podia fazer com facilidade, até de um modo inconsciente, agora lhe causam transtornos, frustraçõs e dores, Seu emprego perdido e também uma carreira bem planejada. Sua subsistência é mais dispendiosa e, no entanto, suas rendas diminuíram. Em tudo que fazia mostra-se agora cada vez mais dependente e incapaz. Ele desceu na escala de valores da comunidade, e dentro da família lhe é imposto um papel secundário; praticamente perdeu sua individualidade e não é mais aceito por si mesmo. Sua auto-avaliação objetiva recebeu um golpe arrasador. Para aceitar este golpe ele deverá recomeçar sua vida do principio.
O que acontecerá à sua auto-imagem — sua auto- avaliação subjetiva? Muitos estudos precisarão ainda ser feitos sobre os efeitos de uma deficiência grave sobre a auto-imagem.
Nas suas origens, na nossa infância, a auto-imagem era o produto do nosso conhecimento limitado do eu e das coisas que as pessoas (nossos pais, irmãos, irmãs etc) diziam a nosso respeito, ou do que pensávamos que diziam. Nossos sucessos e fracassos quando adolescentes e adultos também produziram efeitos, mas quando eles surgiram já estava formado, na nossa auto-imagem, um básico e “duro nu¬cleo”, um cerne que na maioria das vezes é impenetrável às mudanças.
Mas, podemos dizer com segurança que num certo sentido o contrapeso de todos na vida consiste em estabelecer um equilíbrio com sua auto-imagem. Sob a série de golpes traumáticos que a cegueira desfere, aquele equilí¬brio pode ser facilmente atingido. As novas cargas pode¬rão ser pesadas demais para o cego suportar e o resultado é uma enorme desordem na formação total da personalidade: é a morte da auto-imagem.

20 - Perda da organização total da personalidade

Em conclusão, vamos considerar o que acontece à personalidade como um todo, sob estes vários golpes. Cada um leva para sua cegueira um conjunto diferente de sentimentos assim como uma personalidade diferente; certamente a cegueira em si cataloga as pessoas em moldes diferentes. Entretanto, ela tem o poder comum de transtornar e des¬truir uma vida inteira de organização da personalidade. Tem esta capacidade não por alguma peculiaridade da cegueira, mas porque, como todas as deficiências graves, é um golpe constituído, como já vimos, de uma série de golpes, todos de per si, bastante graves, que atinge um padrão de vida completo.
Vivemos numa civilização na qual, aparentemente, poucos têm fortes defesas contra os traumas e choques. A Medicina está estudando sobre choques físicos, e as misteriosas rcações do nosso aparelho físico aos traumas físi¬cos; a psiquiatria estuda os choques psíquicos para com¬preender melhor os traumas psíquicos. Indivíduos aparentemente sadios e ajustados à vida, subitamente, perdem o ajustamento psíquico, tornam-se desorganizados em sua per-sonalidade e o motivo (se não a causa) é somente um simples e único golpe — tai como a perda de um emprego. Os indivíduos podem sucumbir sem uma razão aparentemente importante e nos exames surgem uma serie de insignificantes traumas responsaveis pelo choque.
Qualquer que seja a explicação, em geral, concorda-se em que todos somos material potencial para alguma espécie de transtorno, ou de dificuldade emocional. Talvez nunca nas nossas vidas soframos estas dificuldades, entretanto, somos sempre vulneráveis a alguns golpes graves –(possivelmente insignificantes em si, mas para nos, graves) que nos causarão problemas. Muitas vezes discernimos nas pessoas que nos rodeiam sinais de tensão que nunca suspeitamos e dos quais eles próprios não estavam conscientes; sinais que nos lembram quantas pessoas, em nossa época, vivem como um feixe de nervos, irreconhecíveis e ainda debaixo de controle, mas dependendo apenas de uma centelha estática para lança-los fora da ordem e realçar alguns problemas reais da personalidade.
É com este fundo de tensões e insegurança que a pessoa cega enfrenta sua cegueira. A personalidade que ele traz, suas fôrças e fraquezas são agora muito importantes. Sua filosofia e suas metas na vida farão diferença na natureza e na força dos golpes que ele recebe. Mas é sua personalidade, seu ego, que sofre estes múltiplos golpes.
Para muitas pessoas, se não para a maioria, a cegueira é, consequentemente, capaz de disparar algumas respostas neuroticas. Praticamente para todos há um período de severa “depressão real” com no mínimo, alguns reflexos neuróticos. E quando o período de depressão termina, a personalidade se reorganiza ou se organiza dentro de no¬vos padrões.
Alguns evitam, rapida ou gradualmente, enfrentar os problemas que a cegueira acarreta, dizendo a si mesmos e ao mundo que estes problemas são inconseqüentes e que a cegueira é “não tanto uma deficência, mas uma inconveniência secundária de menor valor”. Alguns fogem ao problema por anos ou por uma vtda inteira dizendo que, apesar do constante diagnóstico médico em contrário, sua cegueira não é permanente, a situação vai melhorar, natu¬ralmente, ou que novas pesquisas vão encontrar a resposta, ou que Deus lhes concederá um milagre (não com a certeza dada pela fé, mas com a presunção de que Deus deve a eles um milagre).
Ainda outros escapam de encarar a fraqueza que existe neles mesmos, e que foi revelada pela cegueira, pondo a culpa na própria cegueira. Para eles, a cegueira é uma tragédia insuperável e é inútil continuar a tentar.
Outros procuram na cegueira uma fuga, por exemplo: o tipo de pessoa que precisa apenas de uma desculpa para finalmente poder viver no luxo da dependência, A oportunidade de ser servida e talvez gradualmente escravi¬zar numa dependência aqueles que a cercam é, frequentemente, uma oportunidade longamente procurada por estas pessoas, Discutem sobre as dificuldades que atravessam, tal¬vez façam até uma heróica demonstração da tentativa de sobrepuja-las (uma exibição suficientemente convincente pa¬ra elas). Mas, na realidade, é muito mais fácil para elas serem dependentes, apoiadas numa boa desculpa do que era sentir-se dependente mas sem ter uma razão plausível além de sua própria natureza.
Neste caso, a cegueira não deu a ela nenhuma nova estrutura de personalidade, mas, simplesmente, deu ênfase àquela que já existia. O mesmo parece acontecer em muitos casos (embora não em todos).
Isto não quer dizer que a personalidade necessariamente parecerá a mesma depois da cegueira. Correntes que há muito fluíam nas profundezas podem vir à tona. A pessoa que durante muito tempo manteve sua hostilidade submersa pode não controla-la mais; sua hostilidade e ódio tornam-se aparentes aos outros. O radical, que levado por necessidades íntimas, se revolta contra os pais, socieda¬de, moral, Igreja ou qualquer coisa, sem razões conscien¬tes, continuará a mostrar estes sintomas particulares, mas agora mais claramente, como um grito de revolta.
Ansiedade poderá surgir na pessoa que recentemente perdeu a visão; poderá permanecer com ela até a morte, a não ser que com ajuda psiquiátrica possa controlá-la. Esta ansiedade pode, em qualquer cego como na pessoa que possui visão, manifestar-se com sintomas diferentes: úlceras gástricas, fortes dores de cabeça sem nenhuma relação com a cegueira física em si, palpitações, suor nas mãos, in¬fecções duradouras, reumatismos, artrite, perda da voz e (pior de todos para um cego,) perda da audição. Outras funções sensoriais poderão ser atingidas. A pessoa cega pode tornar-se incapaz de ler, aprender braille, porque não o “sente”, quando de fato a perda da sensibilidade nos de¬dos poderá ser apenas um resultado direto das dificuldades psicológicas. Poderá desenvolver um desajeitamente no an¬dar que a impedirá de fazer o que ela pensa mais desejar — mover-se livremente. Estas e centenas de outras espécies de sintomas físicos poderão aparecer, todos como resultado de sua cegueira, e todos eles como um grande desafio à medicina psicossomática.
A hostilidade poderá surgir aonde nunca existiu antes, assim como uma aparente aceitação de sofrimento, um falso martírio que não procura submeter, mas punir. Vangloriar-se e procurar elogios, podem ser sinais de insegurança interior e uma necessidade de amor. O cego que duvida da sua virilidade (ou feminilidade) pode torná-la mais patente quando procura prová-la, por atos sexuais e demonstrar sua “independéncía” num casamento desaconselhável ou mesmo numa série deles.
A explicação para a desorganização interna da pessoa cega pode estar na sua atitude e nas suas relações para com outros cegos. Poderá escolher suas companhias entre os que têm alguma deficiência ou afastar-se completamente de outras pessoas cegas e até mesmo demonstrar ciúme e sentimentos de desconfiança.
Novamente, podemos chegar a certas  conclusões (mas devemos ser cuidadosos em nossa racionalização) le¬vando em consideração a atitude da pessoa cega para com as organizações especiais. Certificar-nos-emos se eles procuram dependência na organização ou se, ao contrário, que¬rem ajuda dos que as auxiliarão a se tornarem independen¬tes. Podemos notar sinais ocasionais de ressentimento e hostilidade contra organizações de ambas especies, e dos sentimentos e das circunstâncias que as cercam chegando a relação a sua cegueira. (Aqui precisamos ser muito cuidadosos para não racionalizarmos e não defendermos nossos interesses procurando explicar as críticas da pessoa cega como resultado de sua hostilidade e de sua dependência).
O último grande golpe da cegueira é aquele que as múltiplas experiências traumáticas exercem sobre a organização total da personalidade. Reunir todos os fragmentos, é o grande desafio às associações para cegos, porque aqui a própria personalidade foi ferida mortalmente.


NOTAS DC RODAPÉ
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1 - Cutsforth observa que todas as pessoas que mostram sintomas somáticos de ansiedade antes da cegueira, frequentemente os perdem quando a cegueira sobrevém. Aparentemente
a necessidade inconsciente de masoquismo satisfaz-se com a cegueira. Cutsforth, mais além, cita a possibilidade de que, quando a reabilitação torna a cegueira uma carga menos pesada, os sintomas somáticos da ansiedade poderão retornar. Em conexão, pensa-se nas tentativas de suicidio dos que ficaram cegos. O autor desconhece qualquer estudo mais profundo do assunto, mas oferece a sugestão de que a cegueira total talvez satisfaça completamente o aspecto masoquista da incitação ao suicídio e, daí o fato de raramente uma segunda tentativa ser feita. Nasce a questão da possivel volta dessa necessidade nos casos em que a reabilitação total reduz a carga, e assim o “castigo” da ceguei¬ra.


CAPÍTULO 8
CONSIDERAÇÕES ADICIONA1S

1 - Perdas concomitantes


Como já foi dito na introdução, não obstante analisarmos as perdas da cegueira, elas se sobressaem e se misturam umas às outras. Dando por terminada nossa análi¬se, é bem possível que um ou outro leitor julgue que outras perdas não tenham sido discutidas. Deveríamos, pelo menos, embora rapidamente, mencionar três delas que são muitas vezes citadas.) com muita ênfase, por indivíduos cegos recentes e que necessitam de uma explicação: a perda da decisão, a perda do sono (do sono nas horas certas) e a perda do tonus (tendo como resultado uma constante sensação de fadiga).
Aqueles que falam da perda da decisão, parecem encara-la sob dois aspectos: o fato de que outrora, as decisões tomadas por eles em relação à sua família serem agora resolvidas por outros e também o fato deles próprios encon¬trarem dificuldades em tomar decisões.
Esta condição parece ser bastante divulgada entre as pessoas cegas recentes. A razão do seu primeiro aspecto foi em parte discutida na perda de adequação social. Um ou mais membros da família da pessoa cega podem gostar do seu novo papel de líder no seio da família — daquele que toma decisões. Em grande parte, isso significa, então uma perda de posição e encontra um campo favorável nas famílias, nas quais são aceitos os vários estereótipos em relação à cegueira. A fim de que tal fato não aconteça, é de grande importância que um trabalho direto de natureza adequada seja feito junto á família. Outrossim, deve-se re¬conhecer, também, que uma das razões pela qual a família se prontifica a aceitar o novo papel, é porque o indivíduo cego está inconscientemente desejoso de renunciar ao mesmo.
O segundo aspecto desta perda, falta de habilidade de tomar decisões, não é algo peculiar a Cegueira. A indecisão é um sintoma. Muitas vezes é um sintoma de insegurança, ou de um período neurótico na vida de uma pessoa.
Desde que a cegueira é um trauma múltiplo, que se repete, ela quase necessariamente situa a pessoa num estado emocional, extremamente inseguro, durante certo tempo.
Se o indivíduo cego é suficientemente organizado a ponto de querer tomar as decisões, como costumava fazer, pode surgir, então, uma dificuldade real, se a pessoa que assumiu o papel de tomar as decisões se compraz da sua posição e não está completamente disposta a renunciar à mesma, No momento em que a pessoa cega deveria, aos poucos, ir se “integrando” novamente na sua posição de tomar decisões, ela pode achar que, pelo contrário, está indo ao en¬contro de resistências declaradamente abertas ou inconscientes. Obviamente, teremos então um problema que exige um tratamento familiar altamente eficiente.
A segunda perda mencionada por pessoas que ficaram cegas é a perda do sono. Outros modificam o modo de dizer, para “Perda de sono na hora certa”. O fator principaI aqui, parece ser o da tensão emocional. Qualquer um que tenha se ocupado por muito tempo com problemas emo¬cionais, ou com pessoas “nervosas”, está ciente das diver¬sas maneiras de como os problemas do sono se tornam difí¬ceis, seja na impossibilidade de dormir, ou na impossibilidade de encontrar repouso durante o sono.
Sob o grande peso emocional da cegueira recente, muitas pessoas encontram dificuldades no seu hábito de dormir. Inúmeras vezes, a tensão é tão grande que ao irem se deitar não conseguem conciliar o sono e na hora em que deveriam acordar, sentem-se de tal maneira fatigadas que se tornam preguiçosas, sonolentas. Junta-se a isso um rompimento total nos planos, de pessoas que obedeciam a um programa de trabalho e de atividades antes de se tornarem cegas, para após a cegueira se sujeitarem a longos períodos de desocupação e, ser-nos-á facil compreender como seus hábitos de sono devem ter-se alterado completamente e o dormir se tenha tornado um problema, em particular, o dormir nas horas certas.
Além disso tudo, para o individuo totalmente cego, há a perda da distinção entre a luz do dia e a escuridão. Isto não constitui um fator primordial quanto ao problema de dormir, pois, a natureza humana está sempre pronta a mudar os hábitos do sono, do sono normal, à noite. Entretanto, para aqueles, desorientados quanto as horas do dia, isto representa um fator contribuinte.
Este problema particular em relação ao sono, é facilmente sanado, através de um bom programa de reabilitação. Se a pessoa cega estiver completamente reorganizada, não há razão dos seus hábitos de sono não poderem ser reorganizados também.
A terceira perda adicional sugerida, a perda do tonus físico 1 é, como as duas precedentes, sintomática da tensão sob a qual a pessoa cega recentemente se encontra. Parte da expltcação, também, em muitos casos, reside na perda normal da quantidade de exercícios, ao qual o indivíduo foi acostumado. Contudo, isto não parece ser a causa principal. Não somente os psiquiatras, como também os que praticam a medicina em geral, sabem que poucos fato¬res causam uma fadiga geral, mais rápida e completa ou uma perda do tônus físico, do que a tensão emocional.
É ôbvío. pois, que tal perda constitui um dos mais significativos sintomas da ansiedade. Por isso mesmo, a pessoa com cegueira adquirida, oprimida pelos problemas emocionais do ajustamento as condições, sofrendo sob os repetidos e múltiplos traumas que já discutimos, está su¬jeita a apresentar perda do tonus fisico.
Passando pelas fases da reabilitação, ainda encontra outras tensões de natureza diversa, no momento em que se torna necessário para ela estar constantemente alerta aos milhares de estímulos que vão ao seu encontro, oriundos do meio que a cerca, Tal fato é particularmente evidente no período de seu aprendizado, durante o qual, toda atividade dos seus sentidos precisa ser colocada definitivamente num nível consciente, interpretada conscientemente e influenciada conscientemente. Quando uma parte desta atividade se tornou habitual, muito desta tensão da vigilância consciente se dissipa, embora haja um grau, ao qual a pessoa cega deve sempre se conservar mais alerta do que o individuo com visão, particularmente em circunstâncias estranhas. Porém, a perda temporária e sintomática do tônus físico deveria, geralmente falando, confinar-se quase inteiramente ao período antes de se completar a reabilitação. O processo de reabilitação seria elaborado nele, de maneira dupla. Teria que tratar tão direta e eficazmente com os problemas emocionais do indivíduo, para aliviar o peso que o oprime e deveria diminuir a tensão da vigilância necessária, fazendo da atividade sensorial total, uma parte da sua “segunda natureza”.
Sem dúvida alguma, existem outras perdas sofridas por indivíduos que perdem a visão. Contudo, a experiência mostra que a maioria destas pode ser compreendida à luz das vinte perdas consideradas como sendo mais ou menos comuns à maioria das pessoas que ficaram cegas.

2 – Supostos benefícios resultantes da cegueira

Entre as muitas pessoas que estudaram a analise das perdas resultantes da cegueira apresentadas neste livro, não poucas, sugeriram que há também os benefícios. a par das perdas oriundas da cegueira, e que estes também deveriam ser mencionados.
Estou convencido que os supostos proveitos ou benefícios são acidentais, que eles mão são de forma alguma universais e que quando existem, são ocasionados mais pela cegueira do que causados por ela. Mas, já que algumas pessoas crêem que certos proveitos podem existir, seria então acertado examina-los.
Não são pouco freqüentes o que poderíamos chamar benefícios vocacionais entre pessoas que perderam a visão. Entre indivíduos que, ern patiicular, ficaram cegos, em serviço militar, muitos há que supostamente haviam en¬cerrado sua educação, talvez, em nível de escola secundária e cuja finalidade vocacional tinha sido planejada em termos de graus de habilidade menor ou média e que após a cegueira, reavaliaram suas pretensões e foram freqüentar escolas de nível superior ou trabalhar em áreas profissionais ou semi-profissionais. Também. na vida civil, no seio das famílias cujas crianças abandonam a escola cedo, por um emprego, muitas vezes, o indivíduo cego desta família prossegue sua educação, num nível mais alto e encontra sua vocação acima da escola profissional.
Isto poderia ser certamente considerado como um “benefício” da cegueira, dentro do nível vocacional. Entretanto, na minha experiência, isto significaria mais do que um contraste dentro do número de casos onde se evidencia um completo rompimento do objetivo vocacional proposto. Uma das razões pelas quais as famílias educam a pessoa cega é porque muitas oportunidades de nível inferior ou médio no campo de trabalho estão fechadas para ela. Porém, muitas vezes, o cego instruído confronta-se com novas frustrações quando ainda se depara com menores oportunidades no nível mais alto. Aquilo que poderia ser chamado de “benefício do pensamento” também existe. É certo que a cegueira concede a muitos a oportunidade de um pensamento mais abstrato. A própria liberdade de objetos visualizados e concretos das muitas distrações que são visuais, concede a algumas pes¬soas a oportunidade de dar origem a uma forma de pensamento, para o qual, de outra maneira não teriam a energia ou inclinação suficientes. Por outro lado, existem muitas distrações na cegueira em si mesma, e a própria confusão dos graves problemas emocionais podem manter o indivíduo somente com pensamentos introvertidos e bloquear qualquer pensamento abstrato.
Pude ver, tanto pessoas que não obtiveram benefícios quaisquer que fossem nesse setor, como muitas que ti¬nham maior tendência para falar e menor para pensar; e sendo assim, não posso considerar isto um proveito em geral.
Repetindo, devemos apresentar o que pode ser considerado como “benefícios para auto-imagem”; pessoas que tinham pouca estima por si mesmas e por sua posição na so¬ciedade, parecem subir no próprio conceito pessoal como resultante da sua cegueira. Aparentemente tomam partido disto, assumindo o papel de heróis ou de mártires. Estes casos não são raros. Aquele que nunca se distinguiu, é agora, como indivíduo cego, pelo menos alguém diferente na sua comunidade, Possui algumas habilidades, certas capacidades sensitivas que outros não desenvolveram e como resultado pode encontrar quem lhe dispense admiração, e isto é novo para ele.
É possível que isto conte como benefício para alguns, mas é difícil de se dizer até onde vai este proveito e até onde é aceito e usado como um substitutivo na manei¬ra de encarar as realidades da situação. De qualquer forma, não se trata de um proveito geral e que poderia ser considerado como parte do padrão de resultado da cegueira.
Proveitos de compreensão também devem ser mencionados aqui, porém constituem mais o resultado da reabilitação do que o da cegueira, Chegando ao conhecimento das suas próprias reações aos múltiplos traumas da cegueira, o individuo cego pode ter uma compreensão mais clara da sua reação a outras coisas da sua vida e de todo seu ajustamento. Isto pode ser de grande valia para ele nas suas relações com outras pessoas e quanto a sua total segurança interna, podendo torna-lo apto a auxiliar outros indivíduos por estes meios, coisa que não faria de outra forma,
Aqui, também os proveitos obviamente não resultam da cegueira em si, mas dos díscernimentos adquiridos du¬rante o processo de reabilitação.
Muitos falam de benefícios que poderiam ser cha¬mados de reconhecimento daquilo quc é bom no mundo. Dizem que a cegueira leva certos indivíduos, pela primeira vez, a reconhecer quanta coisa boa há no mundo: a percepção do número de pessoas dispostas a ajudar, a sair de seu próprio caminho a fim de auxiliar os outros, etc. Sem dúvida alguma, muitos que levam uma vida tão em torno de si mesmos que comumente não se apercebem dos atos bons e generosos do próximo e somente despertam quando se encontram amparados pelo amor e carinho dos outros. Porém, esta experiência não é universal. Muitas pessoas já estão alertas ante a bondade e ajuda e muitos que não se apercebem disto antes da cegueira, continuam na mesma, após a cegueira.
Muitas pessoas cegas que afirmam que somente agora reconhecem e apreciam a bondade do mundo, fazem-no com uma certa subserviência, mostrando que, enquanto pensam que deveriam proclamar estes sentimentos, estão, realmenta, se sentindo culpados porque estão mais repletos de ressentimentos do que de gratidão, Tal benefício, onde quer que exista, não pode, portanto, ser considerado como um proveito intrínseco à cegueira.
Falam outros do benefício da amizade que não é inteiramente distinta do precedente, porém, bem mais par¬ticularizado. Há os que afirmam que não fosse pela sua cegueira jamais teriam conhecido este ou aquele bom amigo.
Além disso há muitos casos em que a cegueira foi uma oportunidade para se travar conhecimento com o futuro cônjuge. Muitos indivíduos cegos do serviço militar, por exemplo, conheceram moças encantadoras que mais tarde se tornaram suas esposas e que, provavelmente, jamais teriam conhecido se sua cegueira não os tivesse levado a um determinado hospital. Também, na vida civil, a cegueira não poucas vezes foi causa de um homem cego encontrar sua futura esposa e a mulher cega encontrar seu futuro marido.
Ninguém poderá negar que fazer um bom casamento e fazer bons amigos não seja um benefício, um proveito. Há porém casos, nos quais a cegueira e as tensões que dela advêm, ocasionaram graves pressões nas relações conjugais existentes, onde chegou-se a ter motivo para a ruptura de um casamento e também muitos casos em que até bons amigos sumiram. Aqui também se torna difícil encontrar qualquer padrão que apresente algo como sendo um beneficio ou ganho universal.
Muitas pessoas mencionam um proveito no esquecimento da feiúra do mundo, Será este suposto benefício um benefício real? Não seria mais, como se diz comumente, uma fuga à verdade? Se a realidade da cegueira leva um mdivíduo a um reconhecimento maior de “como ainda existe a bondade mesmo entre os piores” — então, isto será louvável para equilibrar sua escala de valores. Contudo, frequentemente, as circunstâncias pretendem indicar satisfação no fato do indivíduo não precisar mais ver o que há de feio — tanto a feiúra física, como a feiúra moral. No entanto o mundo como ele é contém o mal e a feiúra, tanto moral como física, O fato do indivíduo não mais poder ver a feiúra física não lhe dá o direito de fechar seus outros sentidos e seu espírito à reali¬dade e de se refugiar num mundo de sonhos que não existe. Enquanto o mundo existir como ele é, faremos bem em viver nele, dando o melhor de nos para meihorá-lo, sem contu¬do negar a verdade a nos mesmos ou a quem quer que seja, não tentando inventar um mundo só para nós.
Este benefício, portanto, não é um “proveito”, Outrossim, é perigoso por causa dos prejuízos que pode ocasionar no ajustamento psicológico do individuo e tam¬bém porque pode parecer uma permissão para escapar às su¬as responsabilidades.
Por outro lado, há também o benefício da descoberta de energias até então ignoradas. Acredito que algu¬mas pessoas, realmente, têm experiência deste proveito no final do processo de reabilitação. Não é coisa diversa do que acontece com muitos individuos em combate em tempo de guerra. Durante toda sua vida de adultos, eles temeram sucumbir sob um colapso diante de um evento grave. Experimentando tal dificuldade e julgando-se capazes de enfrenta-la, encontram pela primeira vez, uma confiança verdadeira em si mesmos. Isto não acontece para todos aqueles que precisam de novas forças, como também, nem todos precisam enfrentar desgraças para passar por tais experiên¬cias, No entanto, para aqueles a quem tais coisas aconteceram, isto poderá ser considerado como um proveito, embora resultante da recuperação de golpe da cegueira, e não do próprio golpe.
Finalmente, pode haver um beneficio possível, na reorientação dos valores temporais e eternos. Algumas pessoas que perdem a visão ganham um reconhecimento de que as finalidades temporais, nas quais toda sua vida se baseava, não têm o valor que se lhes atribuíam. Vêem, pela primeira vez, alguma coisa da necessidade de trabalhar e lutar por valores que perduram.
Sem dúvida alguma, trata-se de um beneficio, quando acontece esta nova visão de valores, embora não alcançando todos os que perdem a vista, sendo que muitos já se haviam enriquecido com estas verdades, mesmo antes de ficarem cegos. Todavia, sendo de proveito para alguns, não pode ser considerado um benefício geral. e como tal, não fazem parte de nenhum molde de proveitos resultantes da perda da visão.
Ninguém deseja negar a fita de prata que há atrás de muitas nuvens escuras, mas é uma atitude desastrada, daqueles que teimam em procurar a fita de prata, ao invés de providenciar uma capa de chuva. A cegueira é grave, devastadora, até mesmo desastrosa. A atitude de Pollyanna per¬mite que se negue o fato, mas não que se o conquiste.
Muitos individuos aproveitam as circunstâncias as mais dificieis, até mesmo a cegueira, para se aperfeiçoarem. Para a maioria das pessoas nada há na natureza da cegueira em si mesma, da qual possam tirar proveitos. Pa¬ra a maioria delas, não passa de uma série de perdas graves.

3 - A tomada de posiçao no trabalho com o cego

Através da primeira parte deste livro, nós nos esforçamos em analisar a deficiência da cegueira. Tendo como finalidade constante a objetividade estudamos o significado da cegueira e o que ela faz aos seres humanos.
Agora, antes de passarmos a considerar o que deveria ser feito, o leitor precisa saber que, tanto no passado, como no presente, houve e há dois grupos de princípios operantes, no campo de trabalho para cegos. Tais princípios nem sempre foram definidos com clareza, sendo que algumas vezes, ambos são, aparentemente eficientes ao mesmo tempo, na mesma associação ou até, quem sabe, com o mesmo técnico especializado.
Quaisquer que sejam as verbalizações neste trabaiho (e as trivialidades são muitas), todo o terreno parece ter-se dividido entre a esperança da pessoa cega poder trabalhar normalmente e o desespero de que qualquer coisa pode fazer isto possível. Além disso, tal conflito atua sob a superfície e não é percebido por aqueles que o abrigam. Criaturas sinceras afirmam que as pessoas cegas são pessoas “perfeitamente normais”, etc., ao mesmo tempo que, colaborando em programas que aceitam indivíduos cegos, como dependentes vitalícios, contribuem para que eles assim sejam.
Isto não significa que qualquer uma das atitudes seja impraticável, como base de trabalho. Acredito que é possível para alguns trabalharem baseando-se numa falta total de esperança quanto ao ajustamento da cegueira 2. É de importância vital para o campo de trabalho com os cegos que cada técnico especializado chegue a uma realização explícita daquilo que ele crê e que deve ser executado abertamente, procurando ser honesto, consigo próprio e com o mundo.
Se a análise da cegueira apresentada nos capítulos precedentes é correta, ou se esforçou por ser correta, é óbvio que pelo menos devemos concordar com uma conclusão: a cegueira, é sem dúvida alguma, uma deficiência grave. É temida nos seus múltiplos efeitos — ela afeta, prâticameute todas as atividades normais externas. Ela alcança de perto o ponto mais interior da essência da personalidade, É devastadora e quase catastrófica.
Se chegamos a concordar em relação ao que foi dito, chegou o momento de começarmos a discordar.
Tendo completado uma análise da cegueira, é mui¬to provável que se chegue à conclusão de que ela representa uma tragédia tão completa, que não pode ser superada, que abala tanto a personalidade, a ponto desta não poder ser recuperada; que suas perdas são tantas e tão graves que de nada adiantaria tentar uma reabilitação séria; que diferencia de tal maneira a pessoa afetada dos que são providos de visão que nenhum esforço se deveria fazr para trazer de volta a pessoa cega ao seu lugar na sociedade dos que enxergam.
Todos aqueles ligados ao trabalho com pessoas ccgas devem examinar cuidadosamente, tais proposições, porque, se forem exatas aquelas associações que trabalham paternalisticamente com o cego, o fazem de maneira certa e aqueles que criticam tal paternalismo são culpados de erro, o que acarreta grande prejuízo para as pessoas cegas.
Se tal proposição é verdadeira, então, a segregação do cego é uma conseqüência lógica e inevitável. Festa, recreações, bailes para as pessoas cegas, divertimentos simples — todos combinam e fazem sentido.
Condições segregadas de trabalho, lojas fechadas com privilégios especiais não extensivos àqueles providos de visão e um ambiente de bondade que não ée encontrado em condições normais de trabalho —tudo isso é visto como simplesmente fazendo parte dos atributos da decadência humana comum.
Ao lado disso tudo, teríamos lares para as pessoas cegas onde receberiam atenções especiais que não são prodigalizadas, ordinàriamente, aos outros, nos seus programas de vida. E dentro destes lares acorreriam necessariamente, aquelas almas bondosas, que fazem parte da sua comunidade, pressurosas para aliviar a sorte do cego.
Se esta proposição estiver certa, então, nada teremos a censurar quanto a legislação de classes para os cegos, dando-lhes condução gratuita nos ônibus e nos bondes e licença gratuita para pescar e direitos grauitos para vadiar.
Se esta proposição for correta, as associações para cegos deveriam tratar de todos os problemas dos cegos, sejam eles concernentes à cegueira ou não. Deveriam tra¬tar destes problemas porque são problemas de criaturas cegas e seria um absurdo esperar que elas mesmas pudessem resolver seus próprios problemas ou que associações gerais pudessem faze-lo com conhecimento e empatia.
Se indivíduos cegos não possuem a capacidade de exercer suas obrigações como cidadãos adultos, então, ninguém tem o direito de criticar a maneira pela qual essas associações os mimam, os adulam e, ocasionalmente os punem com brandura, tratando-os quase sempre como crianças.
Se os jardins perfumados proporcionam um pouco de prazer a estes pobres coitados, somente as criaturas muito muito rudes é que poderiam criticá-los.
Se esta proposição da falta de esperança na procura da reabilitação do cego é verdadeira, seria realmen¬te necessário, não uma aproximação profissional em relação ao trabalho com o cego e sim o emprego certo das pessoas simpáticas que lhe dariam o apoio amigo e compreenderiam seus problemas, como se fossem seus próprios.
Se o cego nao pode ser um adulto responsável, torna-se evidente que a tão criticada “propriedade do cego”, por alguém supostamente “superprotetor” é nada mais que uma produção bondosa e firme, chamada dcvido às circunstâncias.
Resumindo: se de fato você acredita nestas proposições, então, é porque não espera uma verdadeira felici¬dade para a pessoa cega nesta vida e você age de forma a protege-la contra uma competição com o mundo que enxerga, agüenta-la de toda maneira possível, tornando-a assim a mais “feliz” possível, debaixo das circunstâncias.
Estou mais do que convencido, tendo por base as experiências, de que esta proposição é total e completamente errada e é nesta base que eu critico as conclusões, que logicamente delas se formam. Concordo que cegueira seja uma deficiência devastadora, com muitas e complexas conseqüências. Acredito que o outro caminho é que deve ser escolhido o de nós nos de dicarmos para fazer com que a pessoa cega retome seu lu¬gar na sociedade.
É este o caminho que discutiremos na segunda parte deste livro, quando consideraremos: “o que fazer em relação a isto.

NOTAS DE RODAPE
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1 - Tônus, no seu significado fisiológico moderno — A tensão normal ou resposta aos estímulos — não é o que pretendemos discutir aqui e sim, o tonus no sentido médico: o estado do corpo ou de quaisquer dos seus órgâos, nos quais as funções animais se encontram saudáveis e em pleno vigor.

2 - É óbvio que, a não ser que os técnicos especializados se identifiquem com as associações que seguem a mesma filosofia, as próprias associações tornar-se-ão “esquizofrênicas.

SEGUNDA PARTE
REABILITAÇÃO E RESTAURAÇÃO


CAPÍTULO 9
AUXILIANDO O HOMEM QUE FICOU CEGO A GANHAR UMA NOVA VIDA


Esta parte se preocupa em ajudar as pessoas que perderam a visão na fase adulta, mas que, fora disto, são normalmente capazes.
O processo de reabilitação deveria começar no próprio hospital durante o período de “choque” que resulta da primeira compreensão do estado de cegueira permanente. Nenhuma tentativa deve ser feita com a finalidade de encurtar este periodo ou para impedir a profundidade de desolação do período de “privação” que se segue 1. Ao contrário, a esperança de funcionamento normal como ser humano, deve substituir a esperança de visão normal e a pessoa que ficou cega deverá ser auxiliada a recuperar as habilídades primárias: comer, vestir-se, acender o cigarro,
É de mâxima importância aqui que, nem a pessoa que ajuda, nem qualquer outra, proporcione à pessoa cega falsas esperanças de recuperação visual 2. De qualquer maneira, ela se apegará a estas esperanças; é humano agir assim e ela aceitará como verdade total qualquer palavra que as alimente. Mas, estas esperanças podem não somente retardar sua decisão de iniciar uma reabilitação, como também prejttdicar todo seu ajustamento psicológico. O verdadeiro amigo daquele que perdeu a visão, não é aquele que lhe esconde a verdade, mas ajuele que (médico ou leigo) livre de temor, no momento propício, diz a verdade. Do mes¬mo modo, o êxito da reabilitação não deve ser exagerado, mas apresentado realisticamente.
O duplo processo de incutir esperanças reais de reabilitação e de ajudar àquele que perdeu a visão a recuperar as habilidades perdidas, deve ser levado a efeito no lar, durante as primeiras semanas do periodo de privação.
Nestes estágios iniciais, o auxílio para a reabilitação esta nas mãos de parentes e amigos próximos, médicos assistentes e qualquer tecnico que possa auxiliar. É importantIssimo que estas pessoas ou qualquer outra, intimamente, ligadas ao paciente, neste período, estejam convencidas ao mesmo tempo da seriedade da sua deficiência e das reais possibilidades da reabilitação.
Antigamente, esperava-se que o professor particular quando havia disponivel, se incumbisse de trabalho de reabilitação mais espectfica, ensinando habilidades e o uso de instrumentos, com a ajuda financeira os outros auxílios, que pudessem ser dados por associações locais, estaduais ou particulares. Estes professores que, comumente trabalhavam sozinhos e contra tremendas dificuldades, fizeram um trabalho admirável nas circunstâncias as mais difíceis.
Agora o trabalho deles pode se concentrar cada vez mais naquele grupo geriátrico para o qual a reabilitação total é impossível, desde que, para o grupo que estamos considerando aqui, existe outra possibi1idade: o treinamento ministrado em um centro de reabiliitação “total”.
Muitas pessoas ainda se prendem à idéia de uma ou outra recuperação particular da segurança financeira, do emprego, da mobilidade, da capacidade de ler, da recreação — como a resposta completa aos problemas das pessoas que perderam a visão.
Certamente, braille é uma ajuda, um cão-guia é uma ajuda, assim como um emprego e conselhos psiquiátri¬cos. Qualquer recuperação é apreciáve. Obviamente, a compensação de uma, duas ou três perdas não será uma solução satisfatória para os problemas de uma deficiência que envolve vinte perdas. A cegueira é uma deficiência múltipla; a verdadeira reabilitação deve ser múltipla em suas fases e ao mesmo tempo formar um conjunto completo.
Um centro de reabilitação “total, consequente¬mente, oferece não somente a melhor, mas a única resposta razoavelmente adequada. Pessoas que ficaram cegas tiveram é verdade, ajustamentos excepcionais no passado, sem o auxílio de treinamentos de reabilitação total. Mas, a remota possibilidade de um verdadeiro ajustamento à cegueira sem ajuda, não deveria deter aquele que ficou cego de se inscrever num centro de reabilitação “total” que lhe proverá os meios mais efetivos e eficientes, atualmente, disponlveis.
A Administração dos Veteranos (Veterans Administration) dirige um centro para veteranos recém-cegos em Hines — Illinois. O Centro de Reabilitação St. Paul em Newton, Massachusetts, igualmente, serve ao público em geral e outro centro está sendo montado pelo “Greater Pittsburgh Guild for the Blind” (inúmeros centros foram organizados em várias partes dos EE.UU, alguns dos quais de excepcional categoria; mas estes não são dedicados exclusivamente à satisfação das necessidades das pessoas com cegueira adquirida. Muitas casas e outras facilidades estão começando a serem chamadas de centros de reabilitação, mas este livro considera centro de reabilitação, no sentido da palavra e se dirige a estes, os que foram destinados exclusivamente à finalidade de ajudar aos que perderam re¬centemente a visão.
Um centro dessa natureza recebe do centro fisiátrico de reabilitação a idéia da aproximação multidisci¬plinar; de reunir a experiência de vários ramos do conhe¬cimento para focalizar nos múltiplos problemas de cada indivíduo. Mas, o centro fisiátrico tem uma orientação básica médica; sua principal finalidade é restaurar os muscu¬los atrofiados. A orientacão do centro de reabilitação “to tal” para, os que ficaram cegos, é basicamente psico-social. Sua meta é o ajustamento total da pessoa à sua nova si¬tuação, incluindo-se as necessárias atitudes e  habilidades para a sua reintegracão na sociedade.
Esta necessidade de orientação psico-social não implica em que a pessoa cega seja anormal, que haja “qualquer coisa de errado” mentalmente com ela. Ao contrário, signifi¬ca que são (citando a frase usada num contexto ligeiramente diferente pelo Dr. William Menninger) “pessoas normais em circunstâncias anormais”. Porque sao pessoas normais acostumadas a circunstancias mais ou menos normais é que reagem fortemente de acordo com seu temperamento individual, à estranha situação da cegueira. Estas reações, de natureza emocional, têm amplo e profundo efeito nas rela¬ções para com outras pessoas, na sua atitude em face a reabilitação, nas atitudes para consigo mesma. Um centro de reabilitação que se propõe a ir de encontro às necessida¬des da pessoa cega, consequentemente, precisa de pessoal cônscio de todos estes fatores emocionais e capaz de auxiliar a pessoa cega no processo de reorganização da personalidade.
Reabilitação “total”, portanto, consiste no processo pelo qual o adulto em diferentes estágios de desam¬paro, distúrbios emocionais e dependência, ganha novos conhecimentos de si mesmo e da sua deficiência, novas habilidades necessárias ao seu novo estado e um controle de suas emoçoes e de seu ambiente. Este não é um processo de simples aprendizagem, mas doloroso e de frequentes crises; é um processo de acei¬tar as implicações de muitas “mortest’ à vida da visão, a fim de continuar e ganhar uma nova vida. Precisa, conse-quentemente, ser um processo que faça uso completo da força e do esteio de um grupo, mas é, em última análise, ta¬lhado especialmente para a personalidade de cada individio em treinamento, No Centro St. Paul, por exemplo, dezesseis destes indivíduos participam, em grupo, de um programa de dezesseis se¬manas. Mas visto que o grupo de trabalho inclui 25 especialistas em várias disciplinas, as diversas fases do programa podem ser ajustadas às necessidades especiais de cada um.
Tal processo exige grandes esforços dos especia¬listas. É, ao mesmo tempo, uma ciência e uma arte, exigindo um punhado de conhecimentos, e experiências, assim como a habilidade para dar compreensão madura. Requer a capacidade para dar ajuda e para retirá-la no tempo certo e de maneira certa; devendo ser uma “ajuda visando a independência”. O programa de reabilitação total é uma síntese de habilidades e atitudes em benefício do todo individual, A reabilitação, neste sentido moderno, é muito recente. Nossos conhecimentos sobre todas as regras e elementos pertinentes, é ainda muito pequeno em comparação à vastidão do problema. Entretanto, a moderna concepção de reabilitação já foi aplicada por número grande de pessoas e por um tempo suficiente a permitir que tenhamos a certeza, que é a resposta verdadeira e compossibilidades ilimitadas de desenvolvimento.
Nesta parte do livro consideraremos, uma a uma as vinte recuperações correspondentes às vinte perdas analisadas, construindo a reabilitação total que restitui aquele que ficou cego à sociedade. O centro das nossas discussões, em cada caso, será o trabalho a ser feito nos centros de reabilitação. De qualquer maneira, todos aqueles ligados intimamente à pessoa que perdeu a vísao, desempe¬nham importante papel na tentativa de recolocá-la em seu lugar própri, em suas funções dentro do lar e da sociedade, Este papel — tanto antes como depois do período de treinamento de reabilitação — será apontado em conexão com algumas restaurações.
Restauração tem implicações mais amplas que rea¬bilitação. O indivíduo completamente reabilitado precisará sempre de serviços especiais em alguns setores para restaurar o que perdeu. Ele poderá precisar de “olhos substitutos”, por exemplo, para continuar seu tipo especial de trabalho. Precisará sempre de dispositivos especiais como o relógio braille, ou ajuda para ler e escrever, enquanto, posteriores pesquisas e o aparecimento de novos dispositivos tornarão a completa restauração possível em certos setores. Discussões destas necessidades e possibilidades entram em muitas questões que abordaremos aqui, ape¬sar de estarem fora do campo de trabalho do centro de reabilitação como tal.
Finalmente, a reintegração daquele que ficou cego na sua sociedade — a meta do treinamento de reabilitação — envolve não só suas atitudes e capacidades mas tambéem a sua aceitação pela sociedade. O trabalho do centro aqui é ajudá-lo a compreender e não indevidamente ressentir-se de atitudes ainda prevalecentes, enquanto o guia, na direção de um ajustamento total que mais do que qualquer outra coisa mudará sua atitude. Mas, o trabalho de educar o público é responsabilidade de tadas as associações e instituições para os cegos, de todos os interessa¬dos em alguma pessoa cega e nos problemas dos deficientes.
Em resumo, é responsabilidade de todos nós que formamos uma sociedade, Estes problemas mais amplos devem ser discutidos em conexão com várias das restaurações.
É verdade, também, que muitas pessoas que fica¬ram cegas não receberão treinamento em centros de reabilitação. Isto náo significa que nada possa ser feito para ajudá-las; qualquer restauração é uma vitoria. Mas signi¬fica que aqueles que trabalham com a pessoa cega e outros especialistas que desejam assisti-las numa fase particu¬lar da restauraçao, assim como parentes e amigos, devem estar atentos ao quadro completo, para tornarem sua ajuda a mais efetiva possível e ao mesmo tempo, não oferecê-la como uma resposta integral.
Esta parte do livro destina-se, portanto, a es¬clarecer o leitor, seja qual for o seu interesse na ceguera, as reais possibilidades e as múltiplas tarefas da reabilitação total.
A reabilitaçao compõe-se de quatro fases principais participando em proporções variáveis, em cada uma das vinte restaurações que precisamos considerar: treinamento dos outros sentidos que irão substituir a visão; o treinamento da habilidade e uso de equipamentos; a recuperação da segurança psicológica; a influência da atitude de sua sociedade para com ele e a ajuda para enfrentar a atitude predominante.
A primeira é a básica “restauração da realidade” que substitui a perda dos meios essenciais da percepção. Sendo vital para todas as recuperações particulares e desde que toda pessoa inteligente pode ajudar neste treinamento quando o tratamento completo não está disponível, será discutida separadamente no próximo capítulo. Treinamento das habilidades e uso de equipamentos serão considerados, em conexão com as várias restaurações, assim como, as atitudes da sociedade.
Mas os problemas da restauração psicológica, no que concerne à assistencia ativa, devem ser deixados ao cuidado de especialistas — de psiquiatras treinados, psicólogos e assistentes sociais que estão profissionalmente equipados para resolvê-los. Nenhum “conhecimento das pessoas, nenhuma “compreensão do cego” pode substituir, aqui os conhecimentos e habilidades profissionais. É importam¬tissimo que aquele que lida com o cego — o parente e amigo que conhece um pouco de psicologia e quer ajudar — leve em consideração a necessidade de “manter-se afastado” e as razões disto. Ao contrário, com a melhor das intenções, ele causará dano grave e irreparável.
Fator integral da teoria de reabilitação exposta neste livro é a crença de que ninguém pode superar os problemas da cegueira sem uma confrontação honesta dos mes¬mos. Aquela pessoa que ficou cega deve ser auxiliada na aceitação de sua cegueira em sua totalidade e finalidade, na aceitação da “morte” para a vida com visão, se pretende alcançar uma nova vida. Se compreendermos o significado total desta necessidade a perspectiva é aterradora — um temor que é mais sentido do que compreendido por um vasto número de pessoas que procuram convencer aquele que ficou cego que sua condição náo é assim tão má.
O perigo está na possível destruição do que cha¬mamos “defesas delicadas”e com elas a personalidade. No desenvolvimento da personalidade humana, o indivíduo constrói vários meios de proteção contra problemas internos e externos que podem atingir o eu. Basicamente a mais poderosa forma de auto-proteção é o fortalecimento do ego; quanto mais forte o ego, menos necessidade de proteção, (isto não quer dizer que o egocentrico seja o mais forte, mas sim a pessoa “segura”).
Mas poucas personalidades são tão fortes que não sintam a necessidade de outros meios de defesa e inconscientemente os tenham desenvolvido durante certo periodo.
Estas “defesas delicadas” variam na sua natureza, de acordo com o indivíduo. Às vazes, tornam-se tão ligadas a es¬trutura da personalidade que formam o que se tem denominado de um “complexo”. Formas várias de super-compensação, super-atividade podem ser consideradas como formas de de¬fesa. Mas, especialmente importante do nosso ponto de vista, é a defesa pela fuga da negação, a mais comum entre pessoas que ficaram cegas.
Em psicose esta defesa transforma-se na negação da própria realidade: mas aqui significa apenas algum grau de fracasso em aceitar-se a realidade do insulto (usando o termo no sentido médico) dirigido a personalidade que é a taçada pela cegueira.
Esta negação ou falha de aceitação não é um ato consciente ou destinado a enganar outras pessoas; é uma reação inconsciente pela qual a pessoa tenta enganar a si própria.
A negação, neste sentido, pode se manifestar na recusa em admitir como permanente uma situação que obviamente o é; em admitir que uma situação dolorosa incomoda; ou pode procurar exagerar valores menos compensadores. O que realmente acontece é que o ego está face à face com um problema cujo peso o esmaga, e, de um modo ou de outro, recusa-se a enfrentá-lo honestamente. A gravidade da situa¬ção está na possibilidade da personalidade ser esmagada ao confrontar-se com o problema. A questão básica na reabilitação é, então, como auxiliar àquele que ficou cego (e note-se que é “auxiliá-lo”) a encarar a sua cegueira sem o-primir sua personalidade.
A resposta não consiste num assalto ás defesas delicadas. Envolve muitos fatores, e nenhum deles pode ser descrito como uma ponte de amor e confiança entre uma personalidade e outra. Não deve haver destruição sem que ha¬ja antes ou concomitantemente um esteio para o ego. Enquanto o problema está sendo apresentado de maneira aceitável e compreensivel, o ego deve ser fortalecido.
O uso controlado da dinâmica de grupo será de grande valia aqui; o indivíduo encontra no grupo, energia que não achava em si mesmo. Entrementes1 devem ser feitas por profissionais as interpretações de algumas das reações que assustam a pessoa cega e que são de grande importância na remoção do receio que ela possui de estar perdendo o juizo ou de estar agindo de maneira anormal.
O problema das defesas delicadas é uma das razões pelas quais deve-se iniciar a reabilitação imediatamente, após a perda da visão, antes que um conjunto de negações tenha se formado. Depois que um mau ajustamento ou um ajustamento aparente tornou-se hábito, o problema é enormemente ampliado.
Com a pessoa cega de nascença ou da primeira infância, não há somente o problema do tempo que levou o mecanismo da negação para fixar-se, mas o problema maior de ter-se formado durante o período de desenvolvimento da estrutura da personalidade. Mas com aquela que ficou cega em idade adulta, nós devemos distinguir atentamente entre as necessidades de alguém que sempre reagiu aos problemas da vida com a fuga, e as dos que têm capacidade normal para resolver honestamente seus problemas, mas sente que a cegueira é pesada demais para se suportar, Esse caso é de solução mais fácil, mas o anterior deve receber toda a assistência possível.
O profissional competente saberá. instintivamente, até que ponto poderá levar cada indivíduo a encarar a complexidade e a imutabilidade da sua cegueira. Em alguns casos, ele reconhecerá que a “operação” é demasiadamente perigosa para ser levada avante; em outras, ele verifica¬rá que as defesas são tão fortes que se tornam impenetráveis. Mas sempre levará em consideração o fato de que os problemas das defesas delicadas são muito reais e a solução exige máxima habilidade.
Esta é a razao pela qual a necessidade do profissionalismo deve ser categoricamente exigida. A ninguem é dado o direito de comprometer a personalidade aiheia, forçando suas defesas, sem os conhecimentos e assistência profissionais adequados. O que o leigo pode e deve é aperfeiçoar sua atitude em relação à cegueira e à pessoa que ficou cega, com quem mantém contato. É de se desejar que as seguintes discussões das restauraçoes reais e psicológicas, que devem acompanhar a verdadeira reabilitação,o ajudem nesta tarefa.

NOTAS DE RODAPÉ
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1 - Veja “Psychoanalysis and Blindness” por H. Robert Blank, M.D. Psychoanalytic Quarterly, Janeiro 1957.

2 - Consideramos aqui as pessoas cuja visão, de acordo com competente autoridade médica, está irremediavelmente perdida. Mas entre a população geral de pessoas cegas, existem algumas que podem receber ajuda médica, seja por novas tecnicas médicas ou cirúrgicas aperfeiçoadas desde a última visita médica, ou porque erroneamente se julgavam muito velhas para operar, ou porque novas descobertas ópticas as possam beneficiar em grau menor mas sempre importante. A pessoa interessada na cegueira deve cuidar para nunca alimentar falsas esperanças, mas se certificará de que todas as pessoas cegas sejam encorajadas e capacitadas para ter os melhores cuidados e tnformaçoes oftalmológicas.


CAPiTULO 10
TREINANDO OS OUTROS SENTIDOS

Para nossos objetivos, os sentidos do ser humano podem ser comparados a canais, ou cabos de comunicação, sendo que os sentidos externos enviam várias espécies de informação a respeito do mundo exterior e os internos as enviam sobre as condições e operações do corpo em si. Todas estas informações se dirigem a uma espécie de estação central de inteligência (situada de acordo com algumas autoridades, no cortex central do cerebro) que correlatam tudo isto para o uso no pensamento e na ação.
Entre estes múltiplos canais, a visão é unica. Anatomicamente, o receptor olho é capaz de captar e trans¬mitir um número grande de informações ao mesmo tempo. Todos os outros canais são mais seletivos e menos capazes de transportar muitas informações ao mesmo tempo. Como resultado, a visão envia sem comparação, a maior parte da car¬ga de todas as informações recebidas pelos sentidos9 especialmente durante os primeiros anos de aprendizado e em novas situações. Por isso, toda a criança provida do sentido da visão, instintivamente, organiza a informação fornecida pelos outros sentidos, principalmente em referência às enviadas pela visão. Por conseguinte o sentido da visão, é, não somente a prtncipal fonte de informação como também o principal censor ou testador do conhecimento do sentido.
Consequentemente, a pessoa cega necessita desen¬volver muito mais do que apenas um simples substituto pa¬ra a visão. Precisa desenvolver o uso de todos os “cabos”  remanescentes e organizar de tal maneira o sentido cen¬tral para que, sem o uso da visão, ela possa captar e ordenar estas múltiplas pistas dentro de um padrão aproveitável. Deverá aprender como fazê-lo, a princípio muito conscientemente, e depois sob circunstâncias normais, um tanto abaixo do nível dos pressentimentos e esforços conscientes.
Esta tarefa não é fácil. Entretanto, enquanto nenhum sentido pode tomar o lugar da visão, todos eles juntos podem enviar uma grande carga de informações variadas contribuindo para um conhecimento adequado e racional do seu próprio meio ambiente, para fins comuns. Quanto aos adultos, estes podem, baseados nas experiências de toda uma vida, de sua bagagem de memórias e particularmente nas da memória visual, completar e interpretar as informações fornecidas pelos outros sentidos.
O primeiro passo neste treinamento é tornar a pessoa ciente de alguns destes conhecimentos que ela já esta recebendo através dos outros sentidos e das fontes das quais recebe este conhecimento.
Tal finalidade de “estar ciente” é de importância primordial para seu desenvolvi¬mento subsequente. Significa que ela pode perguntar a si mesma e responder às quest8es: “Corno soube eu disto?” “Como descobri isto?” “Que espécie de pistas dos sentidos contribuem para isto?” “O que foi significativo, o que era diferente nesta experiência?” “Qual dos sentidos contou-me isto?”.
Pessoas que são cegas durante muitos anos, assim também como as que perderam a visão recentemente, tornaram-se capazes de aumentar consideiavelmente sua habilidade na orientação em contato com o mundo que as rodeia, pelo simples método de começar a responder perguntas como essas, analisando o significado das suas experiências do mundo e tornando-se atentas às sugestões que estas lhe oferecem, pois, apesar de todos os ataques furiosos que a civilização moderna exerce contra o uso do nosso sentido do conhecimento, nossos sentidos ainda têm muito o que nos dizer. EIes não foram atrofiados pelas nossas casas hermeticamente fechadas, à prova de som, pelos nossos produtos químicos que matam e deturpam o olfato; pelo ar condicio¬nado ou qualquer outro destes “redutores do sentido”. Eles simplesmente dificultam para nós o uso dos nossos sentidos quanto à sua eficiência total 1. A idade não constitui uma barreira para o desenvolvimento dos sentidos, a menos que, já tenha ocorrido certo grau de diminuição da acuidade dos sentidos ou que a senilidade tenha começado a destruir o poder do raciocínio.
Poder-se-ia pensar que a “natureza”, automaticamente, se incumbe da tarefa do desenvolvimento do sentido no indivíduo cego; porém ela não o faz. Poucas pessoas estão cientes da completa disposição do equipamento dos se¬us sentidos, ou alertas às informações que eles lhes dão, e a ocorrência da cegueira não manifesta de per si tais possibilidades.
Além disso, a pessoa cega sem ajuda não pode se prevenir contra algo como a carga de restrições ou de “obstáculos” necessários para desenvolver o uso completo dos seus sentidos. Ela pode ir e tocar o tronco de uma árvore a fim de testar a exatidão daquilo que ela percebeu a seu respeito através da audição e do olfato por exemplo: exatamente onde ela está localizada, e seu tamanho aproxi¬mado. Porém, encontrando obstáculos semelhantes, isto se¬ria impossível e extremamente arriscado em outros. Quando muito, o treinamento que ela poderia dar a si mesma e através dos seus próprios meios, sem ajuda de outros, é ar¬riscado, incompleto e redundaría em perda de tempo.
O cego pode ser grandemente auxiliado por qual¬quer pessoa inteligente que o ajudará a tomar consciência das diversas forças dos seus sentidos e poderá prová-lo, outrossim, com os obstaculos, à medida que ele começa a exercitá-los. Mas, o auxílio mais acertado lhe será dado através de um programa completo que forneça os obstáculos eficiente e cientificamente e que seja orientado para a co-relação final e o “uso na açao” de todas suas forças em desenvolvimento.
Tal programa, em relação à mobilidade, por exemplo, gradualmente leva aquele que está sendo treinado a um reconhecimento de todas as tnformações que seus sentidos transmitem, quanto ao terreno que ele percorre. Dão-lhe a devida prática com os obstáculos nos testes de exatidão das suas interpretações, desta informação. Quando ele conseguir obter uma razoável soma de exatidão, usando seus diferentes sentidos, a princípio separadamente e depois juntos, ele adquirirá práica no trânsito, no começo com a proteçao de alguém. Após um treinamento completo, ele podederá caminhar sozinho, com segurança através de ruas de trânsito intenso — o que ele jamais deveria tentar sem este verdadeiro preparo profissional.
O treinamento sensorial relaciona-se com o aumento do conhecimento de várias espécies de informações, a princIpio sem aviso prévio, e com correlação e interpretação correta. Isto inclui o pressentimento do ausente: não cheirar fumaça; não ouvir som algum, pode ser bastante significativo numa dada situação. Nenhuma espécie de infor¬mação é importante por si só. Somente o quadro inteiro e o correto preenchimento e interpretação do quadro é que mantém o indivíduo cego num contato completo com o meio ambiente.
Estudos científicos do último século provam que o número dos sentidos humanos vai muito além dos clássicos cinco. Não seria possível enumerá-los agora, o que aliás seria interessante para cada ramo de estudo; o número em cada caso dependeria da importância e finalidade de cada estudo. No momento9 estamos interessados não tanto com os sentidos separados, do ponto de vista fisiológico, mas com as atividades dos sentidos que parecem ter uma importância tão especial quando a visão desaparece. Discutiremos o seu uso quanto à orientação no meio ambiente e quanto à mobilidade e os meios habituais através dos quais podem ser desenvolvidos.

Atividades do sentido da audição

Seis são as atividades da audição que parecem ser particularmente importantes quando se perde a visão: três se relacionam com os sons que vêm diretamente dos objetos e as outras três, com os sons refletidos dos objetos.

Reconhecimento e identificação dos sons

Todos nós podemos reconhecer e identificar o som de uma torneira que está pingando, de uma cadeira rangem¬do ou de vozes diferentes. A pessoa cega, mais do que qualquer um de nós necessita desenvolver em grau maior esta habilidade de tal maneira a poder se informar a respeito do meio ambiente e, quando está se locomovendo, saber identificar lugares pelos sons característicos que eles apresentam: o riscar do cascalho num caminho, o barulho da tampa do boeiro quando se pisa em cima, o ranger de uma porta, o gorgolejar da água, o coaxar do sapo.
O treinamento é efetuado quando, repetidamente, se pergunta à pessoa cega: “Que som era esse?” apresentando-lhe os obstáculos a fim de confirmar suas identificações e ajudá-la, com eficiência, a corrigir seus erros. Nos centros de reabilitação atravós de uma vasta série de exercícios plancjados, nos quais são usados não somente os sons mais comuns do seu meio ambiente, como também uma escala maior de sons, tornados viaveis graças a discos de alta-fidelidade, pode-se obter um desenvolvimento mais rápido das habilidades.
A descriminaçao dos sons é um passo mais adiante muito importante. Todos nós, por exemplo, destacamos o som do apito de um policial dos outros ruídos do tráfego; já a pessoa cega precisa desenvolver esta habilidade de maneira a poder destacar um ou mais sons importantes de entre muitos e reconhecer os sons particulares que vão formar uma confuso de ruidos. Alguns sons, como o feito pelo martelo pneumático, geralmente encobre outros sons, tornando impossível sua identificação. Porém, em muitas ocasiões não há precisamente uma dissimulação dos sons no nosso mundo barulhento e é extremamente utíl ser capaz de saber destacar um ou dois sons significativos de entre muitos outros.
Aqui novamente, os discos de alta-fidelidade com reprodução de sons de situações reais como: muita gente falando, várias combinações de ruidos do tráfego — aliados a um constante fornecimento de obstáculos, podem ser usados para dar àquele que esta sendo treinado, experiencias a fim de poder distinguir os sons, sem os efeitos inibidores da perturbação e do medo, antes dele ser levado a enfrentar situações reais, tanto sociais como na rua, na aquisição de uma prática posterior.
Localização do som - A habilidade de determinar a procedência do som é útil para o indivíduo poder se localizar mesmo num quarto pequeno ou apartamento; é de importância vital em relação à mobilidade. Muitas autoridades recomendam que seja colocado um relógio como integrante do mobiliário de uma casa onde reside uma criança ou mesmo qualquer indivíduo cego, e cujo tique-taque sirva para fornecer uma fonte fixa e constante de som pelo qual ele possa sempre se orientar. O ruído da geladeira, o ranger de uma tábua do assoalho, o o ruído da estufa ou de um rádio numa determinada posição pode servir para a mesma finalidade. Da mesma forma, tendo que se movimentar fora de casa, a pessoa cega pode aprender a se orientar, reconhecendo os sons característicos — o farfaihar dos ramos de uma determinada árvore, o roncar do tráfego na estrada principal — vindos de uma ou de outra direção.Esta habilidade é também muito útil para ínformar sobre o seu ambaiente: qual a procedência de um veículo ou pessoas que se aproxima e muito mais ainda. Por exemplo: acompanhando a localização dos sons que alguém faz entrando ou atravessando uma sala, pode ser determinado o trajeto desta pessoa e, como resultado pode-se determinar alguma coisa a respeito dos elementos da própria sala — a localizaço das portas e de algumas das mobílias; onde se encontram os tapetes e onde o assoalho, etc. Tanto a informação negativa como a positiva estão envolvidas: aqui deve haver uma peça de mobília, pois forçou a pessoa a desviar-se e ali já não deve ter nada impedindo, pois que ela seguiu reto.
O treinamento desta habilidade é dado primeiro — por meio de sons sintéticos (zunidos e outros congêneres); por exercícios tais como os de localizar moedas caídas, e mais tarde, pela prática sempre com obstaculos, para localizar sons costumeiros em situações sociais e de tráfe¬go.
Em conexao com esta habilidade especial, o treinador precisa lembrar a imporância da audição bi-auricular. O formato de taça da orelha humana ajuda de alguma forma a determinar a direção do som, embora não o sufici¬ente para determinar se o som vem por trás ou pela frente. O fato de termos duas orelhas com um poder de audição quase igual, é de importância primária para se determinar a direção e a distância dos sons: reconhecemos a diferença en¬tre aquilo que ouvimos com a orelha que está mais próxima¬ do som e o que ouvimos com a orelha que está mais longe dele.
Os que estão sendo treinados deveriam, por conseguinte, ser encorajados para acompanhar a tendência normal de virar a cabeça de um lado para outro a fim de ajudar a determinar a distância da qual provém um ruído fraco, no plano horizontal. Deve-se-lhes mostrar também que para determinar a direção e a distância no plano vertical, é útil virar-se a cabeça de tal maneira que uma orelha fique mais alta que a outra, embora isto signifique quase deitar no chão.
Também se deve observar que muitos de nós pensamos que estamos localizando sons quando já sabemos de antemão da natureza do som, de onde ele deve estar vindo. Olhamos um avião no alto não porque localizamos o som com precisão, mas porque o reconhecemos como sendo o som de um avião. A pessoa cega precisa desenvolver o poder da localização por si mesmo como também este poder de inferência
Cabe também ao treinador lembrar que a orelha humana parece ter dois mecanismos independentes: um para alcance de altas frequências e um para baixas frequências (com o maior erro na ordem de 3.000 ciclos por segundo). Assim seodo, uma pessoa com uma perda de audição que afete um destes mecanismos ainda pode ser treinada para se tornar altamente hábil com a outra.
Averíguaçao do reflexo (Reflexoauditivo) 2, tipo A - É a habilidade de determinar a distância e a direção de um objeto e alguma coisa de sua natureza; ouvindo um som e seu eco daquele objeto, com um intervalo distin¬to entre dois sons.
Um método dramático de convencer um individuo cego de que ele possui esta habilidade, e o de conduzi-lo a um grande espaço aberto, com uma única construção, a qual ele deve localizar; ali instruí-lo no sentido de bater palmas e ob servar que o som volta de novo para ele, da construção com a agudeza e força de um tiro de revólver; e assim ele imediatamente, sabe qual a direção em que deve se achar a construçao. Com a prática ele poderá começar a saber qual a distância que vai da sua pessoa, e talvez até um pouco da sua natureza: tamanho, material empregado etc.
Esta hab habilidade pode servir para outros sons menos claros e causados pela própria pessoa cega; tais como os que ela emite quando anda com saltos de metal ou de couro, ou estalando os dedos (o que parece ser um hábito nervoso em muitos cegos - o de estalar os dedos è geralmente feito de propósito para produzir eco).
Sons emitidos de outras fontes que não sejam a própria pessoa cega também podem ser utilizados. Do lado de fora, por exemplo, o eco dos sons do tráfego indica onde se localizam as construções; a ausencia destes ecos indicam espaço livre. Dentro de casa, o barulho que as pessoas emitem quando entram num hall vazio, produz um eco nas paredes que transmite à pessoa cega treinada, algo a respeito do tamanho e formato do hall. Quando o conferen¬cista começa a falar, a reverberação de sua voz indcaca com maior exatidão o tamanho, altura, formato da sala, caso esteja lotada, parcialmente cheia ou quase vazia.
O treinainento neste setor é dado através da prática com os obstaculos, tanto com os sons de origem própria, como com outros.
A averiguação do reflexo (reflexoauditivo)  tipo B - É a habilidade de reunir as informações através de percepção da mudança da qualidade quando um som é refletido de um objeto. Aqui não há um intervalo de reconhecimento entre o som original e sua reflexão. Por exemplo: uma pessoa que fala enquanto atravessa uma sala em direção a uma parede lisa; ela poderá, embora sem o uso da visão, pres¬sentir a parede, sem bater nela, somente ouvindo a mudança do som da sua voz refletida da parede. Até mesmo uma pessoa completamente sem treino e usando sapatos com salto de metal ou de couro pode, andando na calçada de uma rua de comércio, sem movimento, e não tendo ruídos estranhos, dizer de acordo com os sons refletidos, a distância das portas em relação à rua, se estão abertas ou fechadas, em que ponto se encontram as vitrines nos cantos da calçada.
Com o treinamento, a pessoa que perdeu a visao pode tirar as mesmas deduções não importando o barulho do tráfego. Deve-se também mostrar-lhe como ficar atenta aos sinais de sons emitidos por ela; quando anda, com saltos de metal ou de couro, ouvindo-os como se difundem rapidamente quando não há objetos por perto e refletidos quando os há, diferenciando o tom e o tímbre de acordo com a proxi¬midade, tamanho e textura dos objetos. Também deve-se-lhes ensinar outras possibilidades de obter informações por outros meios, como por exemplo, derrubar um pacote pesado ou uma moeda ao entrar num escritório ou sala de conferências para que as repercussões lhe possam fornecer dados relativos ao tamanho formato e mobiliário do recinto onde se en contra.
Este é o tipo de averiguação dos reflexos mais usados pelas pessoas cegas, quanto à mobilidade. Como os outros podares, este também pode ser treinado através de exercícios e ser praticado com os obstáculos. Nos estágios menos avançados, pode-se usar os sons sintéticos, feitos pelo “Autofalante, de Twersky” — um copo metálico com o formato de um sino e que foi aperfeiçoado pelo Professor Victor Twersky e que emite um sinal de tom agudo quando se aperta uma bolinha de borracha presa ao pescoço do ob¬jeto. Mais tarde ensina-se aos cegos que estão sendo treinados como utilizar-se dos sons mais comuns, como os descritos acima.
Averiguação do reflexo (reflexoauditivo) tipo C. - Distingue-se dos outros dois tipos já que não pode ser reconhecível como uma forma da audição. É a habilidade denominada “visão facial”, que não é, de forma alguma peculiar aos cegos, e que pode ser desenvolvida em qualquer um que possua uma audição normal. É um meio de perceber obstácu¬los próximos, naquilo que foi descrito como “al¬go como uma nuvem no meu rosto”, ou “sentindo uma pressão em meus ossos da face e da fronte”. Porém, pesquisas provam que esta habilidade está ligada á audição e não ao sentido do tato; individuos surdos ou que tenham os ouvidos obstruídos não a possuem. A explicação parece ser a de que alguma mudança é perceptivel quando o fundo emite sons; o “nível de ruido” do meio ambiente mais próximo fica refletido do obstáculo, porém estes sons não são rcconhecidos como sons, ou as mudanças no ambiente soam tão leves para estarem no limiar da perceptibilidade auditiva, dando de imediato uma resposta mais instintiva do que cons¬ciente.
O mètodo de demonstração da existência desta ha¬bilidade consiste em segurar um livro grande e chato junto ao rosto de uma pessoa cega ou de uma pessoa dotada de vlsão, cujos olhos estão fechados de maneira a vedar a luz. Primeiro segura-se o livro num ângulo da face; depois com o lado chato virado para ela. Quase todos podem dizer imediatamente quando o livro se aproxima do seu rosto; se vem de canto ou do lado chato. Caso a experiência seja repetida várias vezes, com o obstáculo quando ocorre um erro, desenvolve-se a habilidade.
Mais tarde, pode-se treinar apresentando objetos de vários tamanhos e formas em diferentes ângulos e dis¬tâncias do corpo, em situações em que o conjunto de ruídos é controlado. Provou também ser muito útil o artifício semelhante a um cabide de roupas, em cujos braços podem ser pendurados objetos em cordas que correm sobre roldanas.
Esta habilidade é um elemento importante para a orientação geral e para a mobilidade. Pesquisas consideráveis já foram feitas a este respeito e deveriam ser utilizadas no trabalho para o cego; aqui está uma nova fonte de informações e o uso de cada fonte é importante para a pessoa cega. Neste interim, o técnico de mobilidade, em particular deveria insistentemente chamar a atenção sobre a existêncta desta habilidade e proporcionar àqueles que estão sendo treinados, uma prática informal no seu uso.

Olfato

Quando a visão está perdida, o sentido do olfato situa-se em segundo lugar depois da audição sendo particularmente importante para a pessoa cega. Pode contribuir muito para o interesse e quebrar a rotina da vida sendo extremamente útil na transmissão de informações a respeito de lugares e coisas e também de pessoas. O cheiro do sabào de barbear, do fumo, do perfume, pode ajudar a identificar e caracterizar diferentes pessoas e, embora nossa cultura se esforce por afastar os odores naturais da criatura humana, eles existem.
Este sentido é consequetemente útil na orientação e mais ainda útil na mobilidade. Lugares podem ser i¬dentificados através dos seus odores característicos, por exemplo: praias de rios e lagos, florestas de pinheiros, campos de feno. Uma farmácia, uma mercearia, uma loja de artigos de couro, um depósito de gás, um restaurante — cada um tem seu cheiro peculiar, ou uma combinação de cheiros pelos quais a pessoa cega pode identiflcá-los, caminhando por uma rua. Repetindo, se a pessoa cega treinada capta o aro¬ma do café de um distrito cafeeito de uma cidade, nota sua intensidade e a direção do vento podendo se orientar também no espaço ambiente.
O treinamento do desenvolvimento do uso deste sentido é dado no mesmo plano da audição através de exercícios dando prática com os obstácnlos, a fim de identificar vários odores: sua intensidade e a direção de onde eles provêm; saber distingui-los entre si e aprender a se previnir quando as conclusões que deles possam ser tiradas o exigir.

Paladar

O paladar está tão ligado ao olfato que se pode, por exemplo, sentir o gosto e o cheiro da brisa do mar. Desenvolvendo-se um destes sentidos estamos até certo ponto desenvolvendo o outro, O sentido do paladar é importante para a pessoa cega no que poderia ser chamado de “contato com a realidade do mundo, da comida e da bebida”. A não ser que ele esteja previnido e saiba distinguir entre elas e apreciar os gostos, o comer pode se tornar simplesmente um passatempo tedioso que ele tende a negligenciar, sendo aparentemente a razão da maioria das pessoas da nossa época apreciarem aquilo que comem, mais pela aparência do que pelo gosto que tem. Este sentido, consequentemente, embora não sendo útil quanto à mobilidade, pode ser importante para a saúde e para a alegria em muitas situações sociais como também para aumentar o prazer e a que¬bra de rotina da vida.
O treinamento pode ser efetuado através da prática com os obstáculos no sentido de reconhecer e identificar as sensações do paladar (doce, ácido, salgado e amargo) separadamente e em combinação com vários alimentos e bebidas.

ATIVIDADES DO LABIRINTO OU SENTIDO VESTIBULAR (“EQUILIBRIUM”)

Este órgão está localizado nos canais do labirinto, ou vestíbulo da orelha.
Muitas pesquisas têm sido feitas neste setor com respeito a este sentido pelas forças armadas, pela aviação civil e por todas as agências interessadas no espaço externo. Repetimos que estas pesquisas necessitam serem empregadas a favor do cego.
A primeira atividade deste sentido é a percepção do equilibrio  que está intimamente ligada a um sentimento geral de segurança - “À estabilidade da orientação é geralmente considerada como necessária aos sentimentos de segurança, e distúrbios vestibulares ou estímulos vestibuiares levam a sentimentos de insegurança, ansiedade, medo ou pânico” 3.
No início do programa, cada treinando deveria ser testado para se verificar até que ponto, se é que existe algum, este poder foi prejudicado. As causas comuns da perda de visão não provocam dano do labirinto, porém experiências feitas em laboratórios atestam que a vísão pode inibir ou reforçar as respostas deste sentido aos estítnulos. Por conseguinte, a perda da visão não pode afetar a uso deste poder. A principal tarefa a ser cumprida neste setor é a de assegurar à pessoa cega que o sentido em si não está destruido e erguer a confiança nas informações obtidas, a confIança que crescerá à medida que ela for recuperando a segurança movimentando-se e confiando nas suas reaçoes musculares. Muitas pessoas que começam um curso de reabilitação com um deficit aparente neste sentido, estão aptas, no fim de dez ou doze semanas a produzir sem perda aparente no labirinto ou diminuição da função do mesmo. O quanto isto deve ser atribuido à melhora do tônus físico geral e à quanto à apresentação de métodos de testes não pode ser calculado, porém não há dúvida que o uso deste poder afeta o sentido geral da segurança e vice-versa.
O sentido da volta, a segunda atividade do sentido do labirinto opera com a cinestesia, a fim de nos di¬zer quando e até onde viramos numa direção e na outra num plano horizontal. Sabemos porém, pouco a respeito desta operação, mas é inegável de que se trata de um fator comumente chamado de “sentido de direção”. Tudo que pode ser feito no presente é testar este poder em cada indivíduo que está sendo treinado, correlacionando os resultados com sua habilidade na mobilidade. Depois podemos empreender algum treinamento experimental e testar novamente a fim de constatar quais os resultados que foram conseguidos.

Atividades do sentido do tato

Um dos enganos mais corriqueiros a respeito da cegueira é atribuir-se à pessoa cega um sentido do tato excepcionalmente agudo ou “sobre-humano”. Feliz ou infeliz¬mente, medidas comparativas não confirmam tal crença; nem o sentido do tato sem qualquer outro dos sentidos são automaticamente aguçados pela cegueira. Porém, estes senti¬dos, da mesma forma que os outros, pode ser desenvolvi¬do através do treinamento. A importância que estes sentidos têm para o individuo cego na informação, orientação, mobilidade é inferior somente ao sentido da audição.
No uso atual, os sentidos externos e cutâneos do tato misturam-se e operam juntos com o sentido interno e cinestésico do tato (e, em muitos casos, também com o sentido do labirinto). O treinamento é dado, por conseguinte, tendo-se em vista principalmente a conexão com as várias habilidades — nos cursos de compras e cozinha, modelagem, braille, datilografia e mobilidade. Porém, aquele que es¬tá sendo treinado precisa em primeiro lugar ser alertado da existência e trabalho destes vários tipos de tato e deve aprender a prática do uso de cada um, como uma manei¬ra diferente de sentir. Para tanto, se faz mister discuti-los separadamente e depois em combinação.
Percepção de pressão e dor - Aqui estão em jogo duas ordens de nervos, porém as duas espécies de sensação podem ser tratadas juntamente para nossos fins, Deve-se mostrar à pessoa cega que ela pode perceber pressões nos pelos delicados da pele sem um contato direto com a própria pele. Cada pelo age como uma alavanca espalhando na área da pele que o circunda, a sensação excitada pela mais leve pressão.
O uso destes meios de percepção pode impedir que a pessoa cega derrube pequenos objetos quando os quer alcançar. É usado por aqueles que trabalham com máquinas motrizes. Ajuda a perceber a direção de uma brisa suave, que por sua vez indica a porta ou janela pela qual a brisa se insinua ou uma abertura entre dois prédios. Também é útil para se obter informação ao roçar por um objeto — uma cadeira, uma porta, sem contudo parecer toca-los. Além disso, a informação também pode ser obtida não somente pela pressão das superfícies expostas do corpo, como também da que é exercida pelas roupas quando a pessoa se movimenta.
Estas atividades do sentido devem ser testadas no início do programa e o sentido da pressão treinado através de exercícios dados em condições de laboratório que desenvolvem um pressentimento de pressões cada vez mais leves, e por meio de vários cursos sobre a habilidade, citada acima.

Percepção de calor e frio (“Sentido da temperatura”)

É obviamente necessário para todos os que trabalham com objetos quentes e frios, por exemplo, nos diversos tipos de consertos, e na cozinha. O seu uso na orientação e na mobilidade deve ser especialmente indicado e desenvolvido. O calor vindo de um cano ou radiador pode servir como um marco para orientar, sem que com isso haja a necessidade de se tocar o objeto. O pressentimento do calor do sol atravessando uma vidraça ou uma janela aberta ajuda localizar a janela, o mesmo acontecendo com a percepção de uma área no assoalho aquecida pelo sol, embora o sol não mais incida ali diretamente. Da mesma maneira, outros indícios de orientação podem ser dados através do pressenti¬mento do frio da geladeira e ou atravessando uma vidraça, uma parede fina, uma abertura ou uma janela.
O uso deste sentido ajuda na mobilidade. Num dia de sol, ficar atento ao calor e ao frio, pode ajudar a pessoa cega a se certificar se está passando sob uma sombra de árvores ou de prédios e se já está saindo, ou mesmo quando está passando sob um toldo. Da diferença entre uma brisa quente e outra fresca, ela pode dizer quando chegou ao canto de um edifício e quando está passando por uma área entre prédios. As mudanças nas correntes de ar contam-lhe quando ela passa por uma rajada de vento quente vindo do limiar de uma porta ou um golpe de ar frio vindo de outro, ou se passou pela entrada da estrutura de um metro.
Repetindo, estas atividades do sentido deveriam ser testadas e ao treinamento deveria ser ministrado principalmente com respeito a levantar o seu interesse quanto às informações que elas lhe dão, como também para encorajar o seu uso nos trabalhos da cozinha e compras e acima de tudo, na mobilidade. Não apresentarão descriminações excelentes, mas é bem possível que ajudem o indivíduo a reconhecer a proximidade de um objeto de 98,6° num quarto de 60°.

Cinestesia - foi definida como “uma serie de sensações contendo a massa do sentimento produzido pelos movimentos do corpo em si”, 4 isto é, sentimentos excitados pelos músculos, tendões e articulações 5. Este é o sentido que nos torna cientes da nossa própria posição e movimentos dizendo-nos quando estamos de pé, andando ou correndo, sentados bem retos, ou encurvados, a que distância estamos do alcance de um objeto; qual o seu peso quando o seguramos (exceto aqueles objetos leves cuja “ausência de peso” é determinada pelo sentido da pressão). A Cinestesia opera com o sentido do labirinto e com os sentidos externos para nos dizer se estamos subindo ou descendo um degrau derrapante, apoiando-nos à direita ou à esquerda etc., E, quando ampliamos o alcance do nosso sentido do tato com o auxílio de uma bengala ou outro instrumento, é a cinestesia que vai trazer as informações da outra extremidade do instrumento.
Uma vida e atividades normais seriam impossíveis sem este sentido e não obstante inúmeras pessoas não sabem que o possuem. A pessoa cega precisa, por isso, ser informada a respeito do seu funcionamento e também da confian¬ça que pode depositar nele. Propondo-lhe certas pergun¬tas como “Onde está sua perna esquerda?” “Qual a posição da articulação do joelho, e a do tornozelo?”. Isto mostra que ela não necessita da visão para saber a posição de seu próprio corpo; este vai dizer-lhe; e descobrindo que ele o faz, da-lhe uma grande segurança.
O treinamento é ministrado através de um curso especial de “conhecimento cinestésico” que inclui exercícios para a postura, equilíbrio, locomoção, direção e acomodação do movimento, o relaxamento, a liberdade de movimento e uma coordenação geral. O conhecimento cinestésico é também desenvolvido em conexão com os cursos de habilidade em par¬ticular, o de mobilidade.
Estereognose (conhecimento da forma tridimensional) é uma atividade do tato, usando-se os sentidos externos do tato e a cinestesia para a discriminação tátil da figura e da forma. O treinamento se efetua através de exercícios com obstáculos para o reconhecimento e discriminação de objetos, segurando-os e sentindo-os, e também através de muitos cursos já assinalados acima.
Um termo que encerra um significado mais amplo foi colocado em uso, especialmente entre os veteranos cegos da 2ª Guerra Mundial: o verbo é usado, não no sentido usual de “transcrever para o Braille”, mas sim de “manejar, segurar, sentir, explorar tatilmente, obter todas as informações que possam ser obtidas de algo através do tato”. Este termo dá margem a muitas opiniões entre técnicos especializados; afirmam alguns que “ver” ou “sentir” são termos apropriados e que usando “braillar” significa estabelecer um “vocabulário cego” especial. Outros já insistem que o termo preenche uma necessidade real e que se um verbo pudesse ser formado de “estereognose” não completaria a atividade complexa. De qualquer maneira, a adoção espontânea deste termo acentua para a pessoa cega a importância dos meios táteis para obter informações 6. Somestesia - é um termo que inclui o uso de todas estas sensibilidades do corpo: os sentidos externos do tato, o sentido cinestésico e o sentido do labirinto. São necessários não apenas um sentido do tato, mas diversos que, operando juntos determinam se os objetos são molhados secos, duros, ásperos, lisos, macios, sem fio, polidos ou gordurosos. A habilidade para determinar estas várias qualida¬des é, repetimos, treinada pela prática com os obstáculos tanto com objetos delicados para colher informações a respeito do meio ambiente mais próximo, como também com outros maiores para a mobilidade.
O treinador deve ter em mente a importância do movimento no exercício dos sentidos do tato, por exemplo, para determinar a aspereza. Para ler o Braille não so¬mente é necessária a pressão como também o movimento dos dedos sobre o objeto; um exemplar de marcador de espaço deve entrar na determinação, caso os pontos devam ser reconhecidos.
Outrossim, o treinador deve lembrar que não é somente o tato das mãos que deve ser desenvolvido partindo-se de um simples tatear até se tornar uma receptividade segura e treinada. O toque dos pés envolvendo os sentidos cinestésico e do labirinto como também o sentido da pressão deve ser desenvolvido a fim de, através do característico “tato do pé” das pessoas cegas, os tapetes, passadeiras, defeitos no assoalho, calçadas inclinadas, obstáculos, areal etc., serem reconhecíveis.

Atividades Coordenadoras do Sentido

Memória motora (memória muscular) é “a memória do corpo vivo, em movimento. Quando certos movimentos foram repetidos bastante vezes numa seqüência fixa, eles se tornam automáticos; são executados sem a volição e com um mínimo de atenção. A memória motora acumula e conserva as muitas habilidades que todo homem ou animal necessita para a vida diária — andar, falar, escrever, ler, usar instrumentos — são manifestações diferentes da memória motora”. 7 Sem ela não poderíamos desenvolver nenhuma habilidade, seríamos obrigados a dar uma completa atenção às atividades habituais da vida diária. A pessoa cega necessita ser capaz de confiar nela mais ainda do que os dotados de visão, de tal maneira que, por exemplo, ela não precise contar os degraus que a levam até à porta, ou até o canto; de tal maneira que o homem cego possa se locomover com segurança no escritório ou a mulher cega, na sua cozinha (É esta a ha¬bilidade que incidentalmente responde àquela pergunta ridiculamente estúpida: “Como é que a pessoa cega consegue levar a colher a boca?”).
Não se pode dizer que é possível o treino mais direto desta habilidade, de maneira que quando o treinando procura usar um conjunto aprendido de ações dentro de um novo padrão, isto funcionará eficientemente com menor necessidade de repetição consciente do que a usada anteriormente. A pessoa cega deve ser informada do seu poder nes¬ta faculdade e da confiança que pode depositar nela. Deve também ser alertada de que uma vez que um padrão de movimento foi fixado pelo esforço consciente, a memória motora trabalhará melhor quando não for advertida. Pessoas dotadas de visão usam esta faculdade confiantes, para su-bir e descer escadas que lhe são familiares; porém, se apagarmos as luzes podem entrar em pânico e caso experimentem forçar a memória motora a operar, inibem completamen¬te seu trabalho. Isto se dá com a pessoa cega em situações diversas: ela precisa aprender a afastar sua atenção deste poder para permitir que este se opere. Acrescentando, o centro de reabilitação deve providenciar um exercício mais intenso destas atividades que os treinandos irão precisar para repetir na vida diária a fim de confirmar que tais padrões se fixarão, fundamente, na memória motora.
O sentido (ou “percepção”, ou “faculdade de julgamento” das relações espaciais - é o sentido de discriminação dos padrões e discriminação do espaço que nos rodeia e onde nos encontramos dentro de um mapa mental do meio que nos cerca). Isto parece envolver muitas atividades sensoriais, incluindo o sentido do labirinto, da cinestesia e da memória motora.
Um número significativo de testes indica uma correlação entre os padrões que uma pessoa cega desenha e os que ela anda. As que estão sendo treinadas e que desenham círculos no quadro-negro com um rombo no segmento das nove horas, têm a tendência de andar em circulo com a mesma interrupção; os treinandos cujo desenho de triângulo no quadro-negro é incompleto, deixando uma abertura, sem minar esta figura, repetem o desenho quando caminham, chegando longe do ponto de partida.
O fato de se dar uma atenção especial em fazer um mapa mental e situar seu lugar no mesmo, enquanto se locomove é, certamente muito importante. Acreditava-se outrora que as mulheres praticamente não possuíam senso de direção, sendo que hoje em dia, sabe-se que elas o possuem. A razão é que as mulheres testadas no passado estavam habituadas a serem acompanhadas ou conduzidas. Agora que elas estão acostumadas a andar desacompanhadas acham necessário saber “onde estão” e para “onde vão” e assim sendo, habituaram-se a dar a devida espécie de atenção ao seu ambiente e aos movimentos exigidos pelo sentido de direção.
Enquanto os trabalhos em relação a este sentido não se apresentam de alguma forma claros, pode-se recorrer a um treinamento como uma espécie de curso de navegação. Da-se ao treinando uma série de exercícios graduados, nos quais a informação dos vários sentidos é coordenada e verificada em conexão com uma técnica de rápida orientação mental, de tal maneira a poder ele responder, a qualquer momento: “Onde estou? Para que direção estou voltado, em que direção estou me dirigindo?”.
O sentido central - quartel-general de todo o sistema sensorial - torna o animal (e o homem em nível do sentido) ciente da atividade e dos objetos dos sentidos exteriores; 2 capacita o animal para saber distinguir as diferentes sensações originadas pelos vários sentidos... e (5)... integra os dados dos sentidos externos referindo-os ao seu objeto comum”. 8 Deve-se recordar que no homem está o grande poder da razão e que este po¬der de reflexão também ajuda os “sentidos interiores” a formar um juízo numa dada situação.
A não ser que este sentido opere com eficiência, não será possível uma vida normal. Nada conseguiremos realizar se a todo instante fosse necessário atender a todos os vários tipos de dados transmitidos pelos nossos sentidos e, conscientemente classifica-los. Para a pessoa cega que está sendo treinada, e cujas atividades do sentido estão sendo desenvolvidas, a vida é por este motivo muito difícil e confusa até que seu sentido central seja reorganizado de maneira a poder correlacionar todas estas novas informações dentro de um padrão inteligível e conseguir executa-lo, sob circunstâncias comuns, abaixo do nível do esforço consciente.
Um treinamento separado para cada atividade de sentido, impele o sentido central a manejar um tipo especial de informação e o uso destas atividades nos cursos de habilidades e na mobilidade ajudam o sentido central a se reajustar. Porem, sua reorganização final para a operação eficiente nas novas condições de cegueira não pode ser precipitada ou forçada. O treinando necessita de uma explicação repetida durante o programa que seu sentido central esta elaborando extraordinariamente a fim de absorver e coordenar conscientemente a informação que foi ou rejeitada ou cuidada inconscientemente no passado. É imprescindível que, repetidas vezes, se assegure à pessoa cega que chegará o momento em que ela não mais necessitará de dar uma atenção consciente a tantos detalhes e poderá continuar vivendo dando um mínimo de atenção às operações dos seus vários sentidos. O treinamento do sentido precisa ser ministrado com todo apoio e compreensão e na medida em que cada indivíduo pode dele usufruir,
Visualização - Entretanto, podemos fazer mais ainda. Como já foi dito anteriormente, já que a visão transmite uma parte tão grande do conhecimento, a pessoa que cresceu com o uso da visão, instintivamente, correlaciona todos os dados fornecidos pelos outros sentidos, com referência àquele. Seu sentido do conhecimento está ordenado dentro de uma estrutura originalmente visual; suas experiências do sentido são calculadas principalmente nos termos de experiência visual. O adulto cego é, conseqüentemente, uma pessoa dotada de visão, no seu modo de ser psicológico total e sofrerá completa ruptura do seu modo arraigado de aprendizagem e de experimentação da realidade, a menos que possa continuar a funcionar de acordo com tal padrão visual. A pessoa cega congênita sem nenhuma experiên¬cia visual coordena seu aprendizado. suas experiências dos sentidos por algum método substitutivo, cuja natureza é bem conhecida, podendo ser desenvolvido algum sentido de relações espaciais. A pessoa que cresceu dotada da visão não pode encontrar seu reajustamento através deste outro método.
Entretanto, aquela que outrora era provida de visão ainda possui este poder da visualização, Sendo assim, ela pode ser treinada para usar este poder de tal maneira que todas suas atividades sensoriais possam continuar sen¬do visualmente orientadas. Pessoas que cresceram com o uso da visão possuem um grande estoque de imagens visuais; uma coleção de “fotos” de coisas que viram. Estas podem, não somente ser relembradas, como também combinadas a fim de formar novas imagens. Aquela que outrora viu um Ford mode¬lo T, pode trazer de volta o quadro daquele modelo T, sen¬do que o que ela vira outrora talvez tivesse a combinação familiar de cobre e negro e disto ela pode se lembrar. En¬tretanto, se ela também viu um verde e prateado, poderá combinar todas estas imagens e visualizar o modelo T com o chassis verde e os acessórios prateados.
Nossas imagens visuais variam quanto à sua força, sua concreticidade. A mais forte das imagens é a imagem visual daquilo que vemos agora na nossa frente, a “imagem da visão”, quase que a imagem da retina. Não mencionaremos a imagem alucinatória, quando embora se estando acordado, a coisa é “vista” como existindo fora da pessoa. Em seguida aparecem as imagens visuais do estado de sonho, as quais podem ter uma “concreticidade” colorida. Em seguida, vem as imagens relembradas como as vimos antes, entre as qua¬is as cenas e objetos da nossa vida — ou cenas de um significado emocional muito grande parecem ter maior verossimilhança e maior “realidade”. E, finalmente há as imagens compostas, colocadas juntas através de um esforço da imaginação e da memória, como as imagens simplesmente relembradas “vistas” no olho da mente, visualizadas.
É a visualização deste último tipo de imagem que nos interessa aqui e do qual trataremos a seguir.
Os indivíduos certamente variam quanto ao seu poder de visualização, entretanto, cada um que tenha tido o uso da visão o possui até certo grau e este pode ser estimulado e desenvolvido. Assim, em cada uso dos seus sen¬tidos remanescentes, a pessoa cega deveria ser encorajada a fazer um esforço, não somente para saber aquilo que se torna aparente para ela através destes sentidos, como também para “vê-lo” no olho da sua mente. Tal esforço “jamais” deve ser sugerido e muito menos ainda forçado nos cegos de nascença, é lógico. Assim, pois, o canto de um pintarroxo não deve ser um som sem corpo na mente da pessoa cega; com o canto deve entrar no olho de sua mente o qua¬dro do pintarroxo e não somente do pássaro em si, mas no chão ou no galho de uma arvore.
Além disso, ela deveria tentar visualizar aqui¬lo que estaria dentro do seu campo normal de visão, caso ela pudesse ver, Quando entra numa sala desconhecida, to¬do pedaço de informação vindo até ela através de seus diversos sentidos, deveriam juntar-se, para compor um quadro da sala como ela a veria de outro ângulo após ter atravessado a sala e se sentado. Com treinamento e prática ela poderá desta forma aprender a usar todas as informações fornecidas pelos seus outros sentidos, para relembrar as imagens apropriadas (as reais embora não sendo completamente atuais), tornando-a constantemente cônscia de como as coisas se apresentam a sua volta, centralizando-a num mundo já visto. Caso não faça uso deste seu poder de visualização, após algum tempo ela viverá dentro de um vácuo visu¬al; o poder se atrofiará aos poucos até ela não mais po¬der fácil ou exatamente evocar as imagens visuais, especialmente as coloridas, mesmo tendo em vista as memórias agradáveis. Porém, se ela a pratica e desenvolve, continuará vivendo visualmente no mundo colorido tridimensional que ela sempre conheceu, enchendo os espaços interiores com suas mobílias e pessoas; as áreas exteriores com suas colinas, vales, construções, árvores, nuvens e distâncias. Está claro que tal consciência visual do seu meio ambiente não está somente em harmonia com as exigências da sua constituição psicológica, mas possui um valor imediato e prático, quanto à orientação e mobilidade.
O treinamento da visualização pode ser dado em todos os cursos no centro de reabi1itação insistindo-se constantemente no seu uso. O centro St. Paul também dá dois cursos especiais: o da “imagem” - destina-se a manter a memória visual sempre viva, a fim de que esta fique ativa e acomodada à vontade. “A arte da visualização” — treina a imaginação a responder visualmente à absorção dos sentidos e para focalizar o fluxo das imagens naquela parte do meio ambiente para qual o treinando está voltado, de tal forma que suas respostas físicas sejam normais e apropriadas ao que quer que seja que ele esteja imaginativamente olhando. Ele não está sendo treinado, é lógico, de forma alguma, para fantasiar que ele possa estar vendo o que está na sua frente. A finalidade do treinamento é de simplesmente restaurar, na medida do possível, seu padrão visual de experiências e reações face ao meio ambiente.
Medidas cuidadosas dos efeitos deste treinamento parecem estar, até este momento, fora de questão, porém certas idéias de pesquisas estão sendo hoje em dia tomadas em consideração, o que pode tornar isto numa possibilidade real. De qualquer maneira, os resultados práticos. parecem indicar que este treinamento está sendo ministrado dentro de uma linha certa e que o desenvolvimento do poder da visualização é a pedra de toque no treinamento dos sentidos da pessoa cega, para ocupar o papel da visão.
Coordenação através da esgrima — Já indicamos vários cursos especiais e cursos de habilidades para o desenvolvimento dos sentidos remanescentes da pessoa que ficou cega. Porém, sem dúvida, o curso mais importante é o da esgrima, no clássico estilo francês. Este curso é inestimável para o desenvolvimento geral do sentido e educação física, aperfeiçoando a postura, equilíbrio, a rápida resposta da memória motora e discriminação e vigilância, enquanto que a flexibilidade do pulso e a esperteza da informação enviada pelo florete como uma extensão dos sentidos do tato, são particularmente aplicáveis ao uso da bengala longa, na mobilidade. Nenhum curso de reabilitação pode ser considerado adequado sem tal curso.

NOTAS DE RODAPÉ

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1 - Entretanto, o fato de tais artifícios tornarem o sentido da percepção mais difícil para a pessoa cega deve ser levado em consideração quando tiver que planejar sua casa, centros de reabilitação etc.

2 - Este termo é usado a fim de evitar mal-entendidos e distorções causadas pelos termos tais como “percepção de obstáculo”, “percepção do eco”, “visão facial”. Para mais informações a respeito de pesquisas neste setor, consultar “Books about lhe Blind”, por Helga Lende, Americam Founda¬tion for the Blind, 1953.

3 - Capitulo sobre “Vestibular Functions” por G. R. Wendt no “Handbook of Experimental Psychology” editado por S. S Stevens, John Wiley & Sons. Nova York, 1951.

4 - Geldard, op. cit.

5 - É essencial que o técnico especializado esteja ciente de que muitas vezes as pessoas cegas (cegos adultos e especialmente o cego congênito) não são capazes de apontar com o dedo ou com o braço para um determinado ponto, embora já o tenha localizado corretamente através dos outros sentidos. A falha no apontar é o resultado dos ângulos estruturais do corpo. Feche os olhos; aponte para um lugar convencionado; abra os olhos e verifique. Repetindo isto, você poderá descobrir um ângulo considerável de erros.

6 - Ver T. K. G. “Studies in lhe Art and Skill and Form and a Space Perception”, n°1, por Robert Amendola, American Foundation for the Blind, 1961.

7 - Philosophical Psychology por M. F. Douceel, S. J., Sheed ¬& Ward, Nova York 1955.

8 - Douceel, op. cit. Nesta terminologia “sentidos externos” referem-se não somente aos exteroceptores como também aos proprioceptores e interceptores; os “sentidos interiores” são o sentido central, imaginação, memória e os poderes estimativos.


CAPÍTULO 11
RESTAURAÇÃO DA SEGURANÇA PSICOLÓGICA.

1 - O sentido de integridade física

A perda do sentido de integridade física, como vimos antes (Cap. 2) é resultado, principalmente, de fatores psicológicos. Aquele que ficou cego, apesar de ter perdido a visão e talvez o próprio órgão da visão, ainda é um ser completo e sadio. Ele precisa compreender, profunda e sinceramente, que isto é verdade, ser enormemente ajudado pelo programa de reabilitação total, particularmente, recuperando a mobilidade e as técnicas da vida diária. O fato de funcionar novamente como um ser normal e saudável o convence de que o é.
Parte do trabalho dos psiquiatras, dos psicólogos clínicos e dos assistentes sociais nos centros de reabili¬tação é de tratar diretamente os sentimentos da pessoa cega em relação à essência desta perda. Estes sentimentos estão ligados à estrutura da personalidade daquela pessoa que ficou cega; interpretá-los e modifica-los exige uma reconstrução da imagem física e do auto-conceito (ver cap. 2). Psicoterapia de grupo será de grande ajuda, mas, em qualquer caso, deverá ser sempre feita por técnicos.
Os que se dedicam ao trabalho neste campo precisam ter a compreensão total do significado desta perda e saber que ela pode ser superada. E que, se não o for, impedi¬ra o completo ajustamento à cegueira.
Em adição, muito se pode fazer para dar à pessoa que ficou cega a certeza de que apresenta uma aparência normal e saudável para os outros. E se ela realmente tem tal aparência, os outros mais facilmente a aceitarão como normal e isto reforçará seu próprio sentido de integridade física. Será um fator na prevenção do aparecimento de “maneirismos”, peculiaridades de gestos, postura e expressões.
Outro fator poderá ser o uso de cosméticos que dão uma aparência mais normal aos olhos desfigurados, que poderão causar repulsa aos dotados de visão.
Esta ajuda através de cosméticos não é necessária ou possível em todos os casos, mas em alguns se torna ex¬tremamente eficaz. Este fato pode ser facilmente descuidado pelos técnicos que tão acostumados aos olhos sem visão, não percebem como isto afeta violentamente as pessoas que cercam a pessoa cega e através desta sensação, à própria pessoa cega. Em muitos casos, tal condição pode ser sanada pela substituição por um olho artificial (de vidro ou plástico) ou pelo uso de uma proteção plástica que cubra o olho.
Aqui, novamente, são o técnico psiquiatra, ou psi¬cólogo, juntamente com o oftalmologista, que poderão seguramente, decidir a mencionar a possibilidade de restauração cosmética a uma determinada pessoa cega e em nenhuma hipótese pressioná-la a uma decisão. Inúmeros danos podem re¬sultar até de conselhos certos dados erroneamente, ou de conselhos dados a pessoas que não estão em condições de recebe-los. O olho sem visão, que o técnico bem intencionado deseja cobrir com uma proteção plástica poderá estar recebendo uma pequena quantidade de luz, o que muito significa para aquele que ficou cego. Ou ainda, um olho desfigurado ou o globo ocular podem estar em condições que impossibilitem o uso da proteção plástica. Em ambos os casos por mais delicadamente que seja tratado o assunto, apenas conseguirá fazer brotar receios e sensações de inseguran¬ça, onde antes estas não existiam, ou acordar as sensações adormecidas. E é impossível prever-se o alcance dos danos resultantes.
Mais difícil ainda de ser propriamente tratado é o caso em que a enucleação parece ser indicada, não pe¬las condições médicas ou cirúrgicas do paciente, mas devido ao olho remanescente estar inútil, não há esperança de recuperação e o órgão está tão disforme que causa repulsa às outras pessoas. Um conselheiro bem intencionado pode facilmente esquecer de levar em consideração, quanta esperança aquela pessoa que ficou cega depositava naquele olho, e quanta proteção lhe era proporcionada por esta es¬perança ao encarar a terrível imutabilidade da cegueira.
Ou ainda o conselheiro poderá não considerar a possibilidade que a idéia da enucleação possa ter significados ma¬is profundos para a pessoa cega e que ele seja incapaz de enfrenta-los.
Tais situações exigem especialistas treinados, trabalhando em cooperação com o oftalmologista e os fabricantes de olhos artificiais. O efeito deste trabalho em conjunto poderá ser extremamente benéfico para a aceitação de si mesma, por parte da pessoa que ficou cega e pa¬ra sua aceitação pelos outros. Citamos o exemplo de uma jovem inteligente que por muitos anos, suportou um olho cego e inútil que arruinava sua aparência. Pessoas bem intencionadas a pressionaram a fazer a enucleação do olho, mas este conselho criou uma ansiedade genuinamente neurótica, que se ligando a muitas situações, dificultou sua vida de várias maneiras. Eventualmente, procurou a ajuda psiquiátrica e dentro de dois meses, por si só, tomou a decisão de operar-se, depois que enfrentou as razões que tornavam a idéia insuportável a principio. Pressões sociais, da família, ou dos que trabalham com cegos talvez tivessem conseguido forçá-la a uma operação, sem uma prévia ajuda psiquiátrica, mas isto resultaria numa perturbação prolongada com conseqüências pós-operatórias duvidosas. Em vez disso, acha-se ela completamente satisfeita com sua decisão e com os efeitos benéficos que a operação trouxe à sua aparência.
Resumindo: reabilitação em outras áreas, a anulação ou cura dos maneirismos e a ajuda dos cosméticos em alguns casos, são fatores de restauração do sentido da integridade física. O trabalho direto sobre os sentimentos envolvidos é tarefa de pessoal especializado dos cen-tros de reabilitação.

2 - Confiança nos sentidos remanescentes

Esta perda é resultado, como explicamos antes¬ (cap. 2), da perda da visão considerada como o controla¬dor principal de todos os sentidos de informação e causando distúrbios no funcionamento do sentido central. A con¬fiança recupera-se quando este trabalho de controle ou teste é exercido pelos outros sentidos, processo que na maioria dos casos, não em todos, acontece naturalmente dentro de certo período de tempo: A visão era anteriormente o principal controlador, mas não o único, pois cada senti¬do, dentro de certa extensão, é chamado a testar o trabalho dos outros. A intervenção dos outros sentidos remanescentes neste trabalho, portanto, não requer nenhuma mudança essencial na personalidade da pessoa que ficou cega.
Na verdade, a falta inicial da confiança apressa este processo de redistribuição. Quanto mais a pessoa du¬vida do que ouve, mais é levada a conferir as informações, através dos demais sentidos, até convencer-se da validade do que cada sentido lhe transmite e confiar no trabalho do seu equipamento sensorial, como fazia antes da cegueira.
Na maioria dos casos, esta recuperação começa nos primeiros dias do período de choque e comumente é completa antes da pessoa cega entrar em contato com uma associação para cegos, de tal maneira que os que aí trabalham têm parca experiência desta perda. Ocasionalmente, entretanto, a pessoa está tão tomada pelo pânico que não dá aos outros sentidos a oportunidade para agirem. Ela permanece em estado de choque, seu único meio de contato com a realidade se resume nos sentidos dos outros, de modo que ela necessita sempre de confiança e assistência dos que a rodeiam. Tal pessoa precisará, certamente, da ajuda de um psiquiatra. Mas, mesmo contando com tal ajuda, é importante para ela ter perto de si alguém que possa reconhecer e confiar, que lhe dará apoio constante até seus sentidos recomeçarem a trabalhar, E é essencial que esta pessoa a assista, gradualmente, na interpretação dos princípios sensoriais e a ajude a confiar cada vez mais nas informações que re¬cebe através dos outros sentidos. Reconquistar as habilidades básicas e aprender novas, também a ajudará consideravelmente.
Entre os que não são afetados severamente por esta perda existem algumas pessoas, cujo processo de recuperação da confiança nos demais sentidos é apresentada pelo domínio de várias habilidades manuais; fazer cintos, amarrar sacolas, etc. Mas, dominar tais habilidades pode tornar-se um obstáculo efetivo, para algumas pessoas, em lugar de ajuda-las. Atividades desta natureza, infelizmente, tornaram-se relacionadas ao desagradável estereótipo do homem cego que faz apenas cintos e sacolas. E triste é o dia em que um homem acostumado a dirigir uma empresa antes de ficar cego, recebe cumprimentos por ter manufaturado um objeto de lã (mais triste ainda, quando fica infantilmente grato a estes cumprimentos). lnstruções para estes ti¬pos de ofício deveriam ser dadas apenas com a finalidade de exercícios manuais, um meio para reabilitação futura e oferecidos somente àquelas pessoas que ficaram cegas e que são capazes de aceitá-los como um meio, e nunca como um fim em si.
Pela mesma razão, os que ajudam aos que recente¬mente perderam a visão a treinar seus sentidos e readqui¬rir confiança em si, devem evitar criar situações infantis, como jogos de adivinhação, para identificar cheiros, sons e toques. Apenas crianças muito pequenas não se ressentem desta natureza de jogos didáticos e a dignidade do adulto que ficou cego, que está sob uma tensão severa demais para se sujeitar ainda à indignidade de ser colocado numa situação de entretenimento infantil.
Mas a pessoa cega necessita, não só, recuperar a confiança existente antes da cegueira, mas aumentar cada vez mais a confiança nos sentidos remanescentes. No centro de reabilitação, portanto, os exercícios dos vários sentido dos que estão sendo treinados, devem concentrar-se, preliminarmente, em construir uma confiança no fato de que eles não foram essencialmente danificados pela perda da visão. Esta confiança é formada através do programa de treinamento descrito no capitulo 9 incluindo o domínio de tais destrezas como Braille, escrever à máquina, mobilidade e em particular a habilidade que leva a pessoa cega treinada a vencer progressivamente situações mais perigosas. Por exemplo, na marcenaria, ela começa aprendendo como martelar um prego sem o perigo de machucar-se e antes de terminar o curso aprende o uso de instrumentos elétricos. Este curso é oferecido tanto aos treinandos masculinos como aos femininos, desde que seu objetivo não seja o de fazer daquela pessoa que ficou cega um indivíduo habilidoso, mas possibilita-la a criar confiança nos seus sentidos e reações físicas, com completa segurança, provando do que é ca¬paz.

3 - Contato real com o ambiente

O problema aqui é restituir o contato seguro e direto do meio ambiente àquela pessoa que o perdeu, parcial ou totalmente, devido à cegueira. Resolver este problema não é fácil, mas importantíssimo desde que em sua solução reside a segurança de muitos indivíduos que ficaram cegos.
Para algumas pessoas o impacto da perda do contato com a realidade do ambiente é muito severo. Em tais casos, recomenda-se com insistência que algum membro da família permaneça com a pessoa que ficou cega e repetidamente lhe dê uma segurança que servirá de ligação com a realidade. Oftalmologistas, frequentemente recomendam is¬to nos casos de pacientes idosos, para os quais existem ¬razões de temer-se a possibilidade de “psicose de catara”. É igualmente necessária, nos casos de cegueira recente e principalmente quando a perda do contato com a realida¬de é inusitadamente severa e prolongada.
Outros precisam continuar a “lutar pela realida¬de” durante um período indefinido. Outros ainda, ocasio¬nalmente, sofrem de um repentino pânico que refaz o problema, especialmente em viagens que, embora momentaneamente, os desorientam fisicamente.
Sofrimentos contínuos e prolongados produzidos por esta perda indicam graves distúrbios emocionais. Aqui novamente, a necessidade da ajuda de um profissional se faz sentir. Mas, ao longo do tratamento psiquiátrico e como parte dele, o psiquiatra insistirá na necessidade de estabelecer-se um vínculo pessoal durante o tratamento que manterá com a pessoa que ficou cega em contato com um ser humano que ele ame e confie.
Mas, a maioria dos que perderam a visão sofrem, apenas durante certo tempo, o impacto desta perda. O contato com a realidade é, na maioria dos casos, restau¬rado conjuntamente com a confiança nos sentidos remanescentes. Como dissemos anteriormente (ver cap. 10) a pessoa deveria ser encorajada a dar os primeiros passos no caminho desta dupla reabilitação, nos primeiros dias da cegueira, de perguntar a si mesma “como eu sabia disto?”, ou “como adivinhei isto?”, “que pistas sensoriais entraram aqui?”, “o que havia de diferente e importante nes¬ta experiência?”. Assim surge um laço, entre ela e a rea¬lidade, criado por informações conscientemente recebi¬das e corretamente interpretadas.
Continua a existir o problema de estabelecer entre a pessoa cega e a realidade um vínculo cada vez maior. A solução está no exercício dos sentidos e na reorganização emocional proporcionados pelo programa de reabilitação total. O treino completo de todos os sentidos o orientará seguramente no mundo da realidade externa; reorganização emocional reconstituirá a segurança emocio¬nal complementar; ambos são indispensáveis para que haja uma completa recuperação.

4 - Fundamentos Básicos: Campo Visual

Com a perda do campo visual, como já vimos, aquela pessoa que ficou cega facilmente perde a percepção do mundo vivo, tridimensional e perde também a contínua fonte de informações que funciona no plano do subconsciente e que contribui como uma constante “visão panorâmica” da vida diária. Enquanto esta visão não puder ser restaurada, aquela pessoa que a perdeu, pode aprender a substituí-la, primeiro por um campo auditivo, depois, como um passo a frente, por um omnisensorial e finalmente por um campo visualizado, que finalmente substituiria o visual dentro de certa extensão.
O grau em que um campo auditivo pode se desenvolver, naturalmente, sem treinamento, e algumas das suas qualidades, pode ser deduzido da nossa experiência. À noite, quando a última luz se apaga, ficamos mais conscientes dos ruídos que nos cercam do que durante o dia — não só aos “ruídos noturnos”, mas a qualquer tipo. Reconhecemos alguns, mas outros podem nos perturbar porque somos incapa¬zes de identificá-los e perceber o que significam. Da mesma maneira, aquela pessoa que recentemente perdeu a visão torna-se mais sensível aos ruídos. Mas devido à tensão emocional que a atinge, muitos sons são por perturbadores e mais assustadores do que para uma pessoa normal, á noite, especialmente, se for incapaz de identifica-los. Nesta fase o campo auditivo torna-se um primeiro plano carregado de ansiedade.
Além disso, muitos ruídos soarão roucos, mecânicos e monótonos — tornar-se-ão enervantes. Isto, em parte, porque eles não tem nenhum significado, e nenhuma associação agradável; apenas o relembram de sua cegueira. Quando possuía visão, nem todos os quadros que formavam seu campo visual eram necessariamente agradáveis e belos de se contemplar. Mas porque estavam cheios de sig¬nificados e associados à experiência, eles contribuíam para formar um campo visual completo que comumente era agradável.
Por isso o desenvolvimento de um fundo auditivo verdadeiro requer treino sistemático do sentido da audição já descrito. Deve-se mostrar que, às vezes, a diferença entre “sons” e “ruídos” é algo subjetivo; que a razão porque alguns sons o incomodam está nele mesmo e não nos sons em si. E, por conseguinte “ruídos” tornar-se-ão “sons” e formarão um campo auditivo quando se produzirem associações inelegíveis e significativas para ela.
O tique-taque dos relógios, o gotejar da torneira, o gorgolejo dos canos, o ranger do assoalho, o arranque dos motores não formam uma melodia, mas criam um campo auditivo essencial à vida. Os sons humanos, sons de atividades, de animais, cidades e campos, sons próximos ou longínquos, altos ou baixos, agudos ou suaves, rancorosos ou amigos. Tudo isto compõe um campo auditivo, desde que aquele que ficou cego esteja treinado para identifica-lo, aprecia-los, e construir com eles associações; mas, isto não significa uma “compensação mágica”; significa treino e estudo.
Do mesmo modo, e mais acentuadamente no desenvolvimento de um campo omnisensorial, exercícios e esforços são indispensáveis. O som não é suficiente para substituir a perda do campo visual; todas as experiências sensori¬ais devem cooperar para proporcionar à pessoa cega, a totalidade do ambiente no qual ela vive, Não só imagens auditivas, mas também olfativas, táteis e cinestésicas são necessárias.
Juntamente com o treino dos sentidos, a pessoa cega precisa que lhe expliquem o significado da perda do campo visual; precisa que lhe mostrem como o desenvolvimento das energias de todos os outros sentidos substituirá a visão. Precisa também, ser assegurada que seu sentido central será capaz de lidar com todas essas informações no plano do subconsciente e transforma-las numa base para sua vida e não num primeiro plano importuno.
Já discutimos o desenvolvimento da capacidade de visualização, como chave para o processo de treino dos sentidos remanescentes daquele que ficou cego, É também a chave no processo de substituição do campo visual. Quando a capacidade de visualizar estiver suficientemente cultivada e praticada, tomará seu lugar no nível do subconsciente - sons, cheiros, gostos provenientes do ambiente irão e¬lucidar as imagens visuais apropriadas formando, desta maneira, um campo visualizado para a vida diária.
Naturalmente nunca deveria dar-se a impressão de que a substituição de um campo omnissensorial e visualiza¬do irá substituir completamente aquilo que foi perdido. No entanto, poderá ser, pelo menos em grande parte, uma substituição real para a perda do campo visual e suas implicações.

5 - Segurança luminosa

O significado da perda da segurança luminosa, como vimos antes, consiste na aceitação do falso, mas difundido conceito da escuridão da cegueira, envolvendo, em alguns casos, o fator de “falta de amor” inconscientemente associado por muitos à “falta de luz”.
O primeiro passo na restauração da segurança da luz é incutir naquela pessoa que ficou cega as idéias de¬senvolvidas por Cutsforth e Chevigny (Cap. 5). Ela começará a admitir a possibilidade de talvez ter simplesmente aceito uma noção comum sem fundamentos em fatos, assim ser levada a reexaminar sua situação e compenetrar-se de que na realidade ela não está “vivendo na escuridão”.
Além disso, o trabalho não é tão simples nem tão direto. Frequentemente, a pessoa que ficou cega, sendo equilibrada e com um bom grau de percepção, poderá ser ajudada simplesmente com o reconhecimento do fato de que pa¬ra muitos a perda da iluminação está ligada à perda do amor ou com os sentimentos sobre a perda do amor. Aqui a verdadeira psicoterapia de grupo pode ser de valor, encontrando sua profundidade, sem uma interpretação demasiada¬mente direta, que poderia prejudicar o indivíduo, dando-lhe ao mesmo tempo o conhecimento confortador da “habitualidade” do sentimento.
Mas apenas o profissional conhecedor de psicologia e psicoterapia poderá julgar se tal psicoterapia de grupo é indicada para um determinado individuo, quer seja dando uma ajuda benéfica na compreensão de seus sentimentos sabre falta de luz e falta de amor e sobre a própria cegueira, quer seja decidindo se vale a pena trazer estes sentimentos ao plano consciente, ou se é mais seguro não perturbá-los. Em qualquer caso, a sensação aguda produzida pela perda da segurança luminosa não é universal, entre aqueles que ficaram cegos, apesar de muito comum, e nem a interpretação de sua conexão com os sentimentos da falta de luz e falta de amor é necessariamente verídica em todos os casos. Aquele que lida com o cego, se levado por esta i¬déia, procurar interpreta-la como a resposta para todas as dificuldades do mesmo, poderá aprofundar-se muito e causar sérios danos Os sentimentos do adulto sobre a cegueira e os sentimentos infantis em relação à luz e à ausência do amor não devem ser depreciados. E quando há um significa¬do profundo e perturbador nesta perda, é o momento para a ajuda profissional.
Todas as associações e todos os técnicos que se dedicam a trabalhar com o cego precisam exercer uma atividade de relações públicas para afastarem o falso conceito da escuridão da cegueira, que ergue uma séria barreira à compreensão da mesma e à aceitação da pessoa cega pela sociedade daqueles que possuem visão. Quanto mais cedo destruirmos este falso conceito, mas depressa chegará o tempo em que as pessoas cegas do futuro não sofrerão desta perda.
Um aspecto desta tarefa consiste em evitarmos qualquer ação que se refira a analogia da escuridão (seria uma boa idéia se as escrivaninhas de todos os funcionários que lidam com cegos fossem equipadas com o seguinte aviso: “a cegueira não é a escuridão, mas a falta de visão”). Isto significa uma revisão de toda a nossa literatura para nos certificarmos de que, NADA do tema luz—escuridão está incluído nela. Significa desistir de toda publicidade e arreca¬dação de fundos feitas em nome deste tema. Para alguns, significa a mudança do próprio nome da associação e quaisquer referências àquela palavra. The Industrial Home for Blind, em Brooklyn, uma das maiores e das mais conhecidas associações dos EE. UU, recentemente, abandonou o uso dos símbolos “luz flamejante”, porque compreendeu que o tema “luz-escuridão” prejudica os interesses dos cegos.
O abandono deste tema afetará ainda mais a atitude do público se enquanto estivermos providenciando estas mudanças lhe explicarmos, por todos os meios disponíveis, o que estamos fazendo e por que. Mas, precisamos estar em guarda contra sentimentalismos; do contrário nossa tenta¬tiva para educar resultará apenas em falsa-sentimentalidade, expressa em cabeçalhos como~ “o cego vive num mundo iluminado”, diz uma organização.
O grande trabalho a ser feito é o de iniciar um programa de educação pública. Temos os meios para começar agora. Organizações para cegos alcançam milhões de pessoas através de correspondências diretas e outras publicações. Algumas das maiores organizações possuem também um corpo de “relações públicas” com rápido acesso às fontes de educação pública dada as massas. Se ambos os meios fossem usados, muito poderia ser feito para educar o público quanto à real situação do cego e acabar com este conceito de luz-visão, escuridão-cegueira.
Esforços individuais e de instituições particulares podem ser de grande valia. Mas um trabalho completo só poderá ser efetuado quando esta matéria for convenientemente discutida pelos técnicos que trabalham com as pessoas cegas e for traçado um plano comum de ação.


CAPÍTULO 12
RESTAURAÇÃO DAS HABILIDADES BÁSICAS

6 - Mobilidade

A perda da mobilidade é, talvez, a maior de todas as perdas da realidade na cegueira; ela intensifica o que poderia ser considerada como a outra perda maior, a da adequação social; ambas dentro da sua realidade e de seus aspectos emocionais. Restaurar a mobilidade na medida exigida para uma vida e trabalho normais, é necessariamente um dos mais importantes objetivos do programa da reabilitação e os desenvolvimentos modernos tornaram, finalmente, tal coisa possível, na consecução destes objetivos.
O uso de cães-guias introduzidos neste país, em 1929, pelo “The Seeing Eye Incorporated” foi o primeiro passo. O seguinte foi o programa do exército na reabilitação de soldados cegos, passando mais tarde para a “Veterans Administration” que se desenvolveu sob a liderança de Richard E. Hoover; a bengala de Hoover e a técnica para o seu uso apropriado. Estas contribuíram com uma parte de valor inestimável na consecução do trabalho de teoria e prática da terapêutica da mobilidade, em união com todo o processo de reabilitação.
Aqui, mais uma vez se deve insistir na necessidade do treinamento profissional, porque o técnico de mobi¬lidade tem a vida e a segurança de seus treinandos em suas mãos. O campo desenvolveu-se tão rapidamente que não nos surpreendemos em encontrar muitas pessoas parcialmen¬te treinadas ou mesmo sem treinamento algum, como volun¬tários ensinando as pessoas cegas. Querer transmitir confiança ao indivíduo cego, sem um treinamento sério e apropriado é pior do que nada. Devemos esperar que um dia se¬ja exigido alguma forma de licença para se dar o treinamento da mobilidade. Neste meio tempo, as pessoas que se tornaram cegas e suas famílias devem tomar conhecimento do fato de que nem todos os cursos de mobilidade oferecidos por associações para cegos são orientados por técnicos treinados para esse fim, até pelo contrário, muitos cursos são ministrados por amadores completa ou parcialmente treinados. Um começo, no sentido da profissionalização necessária neste campo, foi feito, quando se estabeleceu um curso em técnica de mobilidade na “Graduate School of Education of Boston College” obtendo-se o grau de Doutor¬ em Educação de Peripatologia (com concessão de bolsas de estudos para treinamento de estudantes, outorgada pelo U.S. Office of Vocational Rehabilitation).
Para se compreender a complexidade do problema da restauração da mobilidade perdida, ajudaria bastante revisar-se o que a pessoa necessita perceber a fim de andar à vontade. Precisa perceber sua posição no momento (renovando em cada passo esta distinção). Deve perceber qual o seu destino, não precisamente o destino final, mas pelo menos algo da direção de onde se encontra, portanto, um destino que está dentro do seu alcance e a meta seguinte que deve ser alcançada no próximo passo.
Deve também perceber os obstáculos do caminho: os que estão debaixo de seus pés e nos quais pode cair ou tropeçar; as arvores, as casas, carrinhos de entrega estacionados, carrinhos de bebê, que ela precisa passar ao lado; cantos ásperos ou galhos que o podem ferir; coisas caindo ou que ameaçam cair na sua cabeça.
Ela deve perceber o próprio caminho em si e suas mudanças nos planos horizontais ou verticais — degraus que sobem ou descem, ladeiras, buracos, curvas menores ou maiores, para a direita ou esquerda, mudanças repentinas ou graduais de desnível e ainda se a calçada em frente é segura, áspera ou derrapante.
Deve, também estar prevenida quanto à possibilidade de um obstáculo iminente, móvel, que pode estar se aproximando de algum ponto no seu caminho; precisa também, perceber algo a respeito das cercanias de onde se encontra.
O problema da restauração da mobilidade é, por¬tanto, primariamente, o de treinar a pessoa cega no uso dos sentidos remanescentes e no uso dos instrumentos de locomoção que ampliam o alcance dos seus sentidos para per¬ceber todas estas coisas. Já falamos a respeito do treinamento dos sentidos, por conseguinte, a maior parte deste capítulo pode ser reservada aos diversos instrumentos de locomoção. Devemos acentuar com firmeza que os instrumen¬tos de locomoção, incluindo o guia humano bem treinado são extensões dos próprios sentidos da pessoa cega, e não seus substitutos. Seja qual for o instrumento de locomoção a ser usado, o treinamento é absolutamente indispensável para restaurar a mobilidade de maneira correta e adequada. Porém, os sentidos da pessoa cega embora bem treinados, não possuem o necessário alcance para a mobilidade normal, necessitam de uma ampliação, através do uso de um ou mais destes instrumentos. Em conseqüência, um treinamento completo exige estes dois aspectos da questão.
Este treinamento em si afastará uma grande parte dos temores da realidade que a pessoa cega sofre, locomovendo-se. Não obstante, ela poderá necessitar de uma aju¬da adicional para cuidar dos seus temores neuróticos. Muitos destes fazem parte do primeiro pânico com que se de¬fronta a cegueira recente e podem ser tratados simplesmente, quando se lhes dá o devido apoio. Muitos constituem o efeito do golpe total e opressivo da cegueira — o sentimento de que tudo está irremediavelmente perdido. Estes temores são, em parte, aliviados quando se dá à pessoa atingida, esperanças reais de uma vida normal e quando ela começa a descobrir por si mesma algumas das possibilidades de recuperação da sua mobilidade. A pessoa cega, porém não deve ser abandonada a si mesma e arquitetar temores desnecessários, ou falsas esperanças. Deverá ser assitida a fim de fazer uma avaliação realística do que se perdeu aqui e das possibilidades da restauração da mobilidade.
Outros temores neuróticos aparentemente ligados diretamente ao medo de se locomover, são formas de ansiedade deslocada; alguns estão ligados ao sobre-trauma da cegueira, alguns a uma ou outra perda específica. Estes temores podem ser diminuídos ou dissipados com o treinamento da reabilitação; porém, estas pessoas terão provavelmente alguma necessidade de ajuda psicoterapêutica. O técnico especializado deveria reconhecer a existência da necessidade da ajuda de um especialista. Em outros casos, o programa da reabilitação, particularmente do treinamento da mobilidade, cuidará dos temores da realidade e dos temores neuróticos.
Os quatro instrumentos de locomoção agora adota¬dos em geral, podem ser classificados como os de uso para a locomoção dependente: a bengala ortopédica e o guia - humano; e os de locomoção independente: o cão-guia e a bengala de Hoover usada com a técnica apropriada. Nos centros de reabilitação e nos cursos de mobilidade orientados por profissionais, o treinamento é dado sobre o devi¬do uso do guia-humano e o uso da bengala de Hoover, embora se forneça todas as informações a respeito dos cães-guias.
A bengala ortopédica: ela é grossa e forte. Ela é feita com o intuito de suportar peso e tem o comprimento certo para ser segurada confortavelmente na mão. É o tipo que logo nos ocorre quando mencionamos a palavra “bengala”. Quase toda família tem um membro que já usou tal bengala, quan¬do quebrou a perna ou luxou o tornozelo, quando ficou manco devido à artrite ou enfraquecimento pela idade. É bas¬tante estranho que tal tipo de bengala, que hoje em dia, é uma espécie de muleta, tenha sido tradicionalmente associado com a cegueira sendo ainda usada por muitas pessoas cegas. Na verdade, sempre se pensa na pessoa cega, como alguém que está batendo com a ponta da bengala e explorando o terreno por onde se aventura e não usando-a como um apoio. Entretanto, ela está usando um instrumento dese¬nhado para substituir pernas fortes, e não algo desenhado para suas necessidades, para ampliar o alcance dos seus sentidos do tato.
Não é de se admirar, pois, que a bengala da pessoa cega e suas batidinhas tornaram-se, para muitos, o símbolo daquele que anda às apalpadelas, do desamparo, do de pendente em último grau e que muitas pessoas cegas e em especial as mulheres opõem grande resistência quanto ao uso de qualquer tipo de bengala. A bengala ortopédica que é melhor do que não usar nenhum instrumento de locomoção, certamente, não tem lugar no moderno processo de reabilitação.
A bengala branca, geralmente, com a ponta vermelha que tem se tornado familiar nos últimos anos, é um pouco mais longa que a ortopédica sendo assim, mais útil. Trata-se, sobretudo, de um meio de se fazer notar; um sinaleiro de trânsito pessoal, e que muitas pessoas cegas concordaram em usar e que de outra forma não o fariam. Tornou-se uma espécie de distintivo da cegueira; e assim sendo, algumas pessoas cegas se opõem, terminantemente, ao seu uso,
A bengala que responde às necessidades da pessoa cega é, atualmente, uma bengala que foge ao sentido tradicional: é uma espécie de antena, uma vara. Esta é a bengala de Hoover que será descrita mais adiante, neste capítulo.
O guia-humano: - o treinamento eficiente do guia-humano é básico em qualquer curso de mobilidade. Tal guia é necessário quando a pessoa cega está aprendendo a usar os meios para locomoção independente e mais tarde, ocasionalmente, em muitas situações, ela poderá necessitar dele.
O guia-humano deveria ser considerado e ele mes¬mo deveria se considerar, uma extensão dos sentidos do tato da pessoa cega (incluindo as cinestesias). O guia anda meio passo a sua frente (nunca atrás) enquanto que a pessoa cega ligeira, porém, firmemente “agarra” o antebraço de seu guia, logo acima do cotovelo. Através dste ligeiro contato, ela poderá sentir todos os movimentos do guia — muitas vezes, pressentindo que ele vai andar ou subir e em que direção, mesmo antes que ele o faça. Uma pessoa cega com experiência e inteligente, pode até concluir com firmeza a atitude tensa ou relaxada do seu guia.
Em adição ao seu papel de instrumento de locomoção, o guia poderá ir descrevendo algumas paisagens interessantes do caminho e em muitas circunstâncias, quando ele o fizer, tanto melhor.
Entretanto, ele deverá ter em mente que sua primeira obrigação não é a de bancar o cicerone de uma agência de turismo, mas sim o instrumento que amplia o sentido de tato e com isso, a mobilidade e a independência da pessoa cega.
As agencias e organizações para cegos deveriam, certamente, treinar seus próprios voluntários ou técnicos especializados pagos, nos métodos e usos para conduzir as pessoas cegas. Não podemos, porém, treinar todos os indi¬víduos dotados de visão que mais cedo ou mais tarde servirão de guia para a pessoa cega. Por conseguinte, é duplamente necessário que treinemos cada pessoa cega no sentido dela saber se valer dos guias que lhes darão. Tal treinamento deveria incluir o “Mines break” (Quebra de Mines), frequentemente, empregado por pessoas cegas que recuperaram a mobilidade, método de se livrar do contato da pessoa que enxerga e que tenta conduzi-la em pleno tráfego — um risco.
Sendo assim, deduz-se que quando possível o guia-humano deveria ser ou um assalariado ou um voluntário impessoal, fornecido por alguma organização. É natural que a pessoa cega seja conduzida por alguém de sua família, em ocasiões em que o acompanhariam se ainda tivesse o uso da visão. Porém, ter sua família e até mesmo a esposa constantemente ao seu alcance e ao mesmo tempo contratar os serviços de um guia, traz para os membros da família que se julgam responsáveis quanto ao cumprimento deste dever, inevitavelmente, um rompimento nas relações normais. A esposa que conduz o marido para onde quer que ele deseje ir, pode estar praticando uma ação muito altruística; mas altruística ou não, pode levar a uma tensão (tal vez desnecessária) nas relações conjugais. Muito embora a esposa ou os filhos não sintam nenhum ressentimento quan¬to a esta pseudo-escravidão em que estão envolvidos, é possível que a pessoa cega sinta um forte ressentimento de culpa. Sua independência será mais preservada, caso ela possa pagar um guia e outra solução mais indicada seria também a de um voluntário.
O cão-guia: - é um instrumento de locomoção independente, de utilidade para alguns. Para tanto, a pessoa cega precisa estar em condições físicas relativamente boas, ter senti¬do de equilíbrio, sentido de direção e fatores de personalidade para permitir um controle contínuo do cão. Necessita ter um ambiente no lar e no trabalho útil para o uso de tal guia (O “Seeing Eye, Incorporated calcula que me¬nos de 10% das pessoas cegas deste país poderiam, eventualmente habilitar-se a serem guiados por um cão).
Muitos indivíduos cegos que poderiam se habilitar não desejam um cão-guia. Alguns acham que um cão pode¬ria interferir com sua vida social ou profissional. Alguns não gostam de cães, ou um membro da família não gosta de¬les. Outros se queixam da tendência com que muitos cães se envolvem em brigas com outros cães. Alguns acham que é aborrecimento muito grande substituir o cão quando ele morre. Outros acham que é tão ruim depender de um cão, quanto de um ser humano. Alguns têm razões realmente fortes para não se utilizarem de um cão, outros têm fortes prevenções contra eles. Porem, as pessoas cegas que possuem as devidas qualificações e que querem um cão-guia, saberão o quanto ele pode ser útil. Da mesma maneira que o guia-humano ou a bengala, o cão é um abrigo e uma proteção contra coisas que poderiam prejudicar o seu dono. Mas, diferente da bengala, ele é uma proteção animada, um animal cuja direção instintiva total, foi orientada no sentido de proteger seu dono e a si mesmo. Assim, pois, eles estão aptos a oferecer proteção, não somente no momento presente, mas também em ocasiões de um perigo em potencial, como a aproximação de veículos em velocidade e que seu instinto acusa serem prejudiciais ao seu dono.
Tal guia, também, deveria ser considerado como uma ampliação, um prolongamento do sentido do tato do seu dono, como uma bengala canina. Através do sólido punho da correia que segura o cão, seu dono sente e aprende muito a respeito do terreno; quando o cão sobe e desce, à direita e à esquerda, diminuindo ou apressando sua marcha.
Deve ser, contudo, lembrado que o cão age de acordo com as ordens de seu dono; sendo que o sentido da direção é dado pelo dono. A ordem não será “para casa Rex” e sim “Direita” ou “Esquerda” ou “Avante”. A idéia geral de que basta o dono dizer ao cão que o leve a uma determinada esquina de uma determinada rua e confiar no animal é por assim dizer, muito exagerada.
Obviamente, por tanto, o treinamento dos sentidos da pessoa cega deve preceder ao treinamento do uso do cão- guia. Não se deve esperar que os centros de cães-guias sejam centros de um treinamento completo de reabilitação, mas deve-se registrar que a famosa escola “Seeing Eye” em Morristown inclui no seu curso, idéias gerais de treinamento dos sentidos da pessoa cega num breve período em que ela lá se encontra para adquirir seu cão. Porém, a maioria dos centros que fornecem os cães não chega, nem mesmo a fazer isso. Caíram no erro muito natural de formar suas instituições em torno de treinadores de cães ao invés de “treinadores de pessoas”.
De qualquer forma a pessoa cega reabilitada e interessada num cão-guia, deveria primeira passar por um curso regular num centro de reabilitação. Depois, com seus sentidos treinados e seu ajustamento completo a sua cegueira, encaminhado, ela estaria nas melhores condições de aproveitar ao máximo de seu treinamento no centro de cães-guias para poder tirar as maiores vantagens do seu cão-guia.
Existem muitas agências de cães-guias (seu número está aumentando) e elas fazem pedidos freqüentes no sentido de angariar fundos. Ao passo que a maioria destas organizações é respeitável e bem intencionada, outras já não o são. Na Califórnia elaboraram uma lei que permite que tais agências possam operar. Por conseguinte, tanto a pessoa cega como sua família precisa estar vigilantes e escolher criteriosamente a organização onde pretendem adquirir seu cão.
Até mesmo entre as agências bem intencionadas, algumas advertem em seus anúncios que todas as pessoas cegas são indigentes e desamparadas, sugerindo que elas próprias é que doam seus cães às pessoas cegas (não importando o fato delas poderem pagar ou não). Está claro que tal atitude em nada beneficia a pessoa cega, em geral ou aquele que deseja adquirir o cão. Dai a razão pela qual o “Seeing Eye Incorporated” torna bem claro que as pessoas cegas podem se permitir a dignidade de pagar pelo seu cão. O recibo é nominal (um indivíduo de poucas posses pode pagar em prestações), porém a dignidade de todos aqueles que adquirem cães no “Seeing Eye” e a de todas as pessoas cegas, em geral, é preservada e favorecida. Alguns poucos, de outras agências, estão adotando um sistema similar, mas de maneira alguma estão incluídas a maioria delas.
É necessário mencionar e enfatizar energicamente o fato de que ninguém jamais recebeu um cão como resulta¬do de ela ou qualquer outra pessoa, haver colecionado rótulos de carteira de cigarros, embora o boato de que os colecionando, você poderá ajudar a pessoa cega a receber um cão, tenha sido divulgado amplamente, não obstante todos os esforços por exterminá-lo. Caso o leitor ouça algo a res¬peito de estarem fazendo tal coleta, envie a informação com o nome do seu jornal local, ao “Seeing Eye, Incorporated”, Morristown (New Jersey), que já tem uma resposta pronta a ser enviada ao jornal.
A bengala de Hoover usada com a técnica da bengala de Hoover é o moderno instrumento de locomoção independente com o qual qualquer pessoa cega convenientemente reabilitada deveria estar familiarizada. Mesmo que ela queira um cão-¬guia, vão surgir situações nas quais não poderá usá-lo e ocasiões em que lhe será impossível contar com ele quando o cão adoecer, ou caso morra e tenha que ser substituído. O treinamento no uso da bengala de Hoover, o que pressupõe o treinamento de todos os sentidos, significa que é uma “necessidade” para qualquer pessoa cega que deseje recuperar e conservar sua mobilidade.
Esta bengala, como já foi dito acima, não é uma bengala no sentido usual, mas uma espécie de antena ou varinha; desenhada especialmente para ser uma continuação, uma ampliação dos sentidos de tato de quem a utiliza. É geralmente feita de um tubo fino de alumínio, não excedendo seu diâmetro a meia polegada, tendo na extremidade que toca o chão, uma cavilha de madeira ou plástico, sendo a outra ponta curva como o bastão de um pastor ou o báculo de um bispo. A haste é geralmente recoberta de um material branco que refletirá as luzes dos faróis altos de carros, à noite, enquanto que a parte de cima é enrolada com tiras de couro, como os usados em campos de golfe.
Já que o intuito da bengala é aumentar o alcance da perna e do braço do indivíduo, seu comprimento é determinado pelo comprimento normal da passada do indivíduo. As bengalas obedecem às determinações de cada um e alcançam, aproximadamente, a altura do osso externo.
O uso adequado desta bengala deve ser ensinado por um instrutor treinado especialmente na técnica da bengala de Hoover, pois sem uma devida orientação, seu uso se tornará mais nocivo do que a falta da mesma. Porém, com ela a pessoa cega poderá aprender a se locomover com facilidade e até mesmo com certa graça. Poderá inclusive aprender a se 1ocomover dentro de uma velocidade normal. E desde que haja uma razão para se acreditar que o pedestre que anda mais depressa pode obter melhores informações que os de marcha mais lenta, o portador da bengala estará mais seguro e andará mais depressa do que faria de outra maneira.
Se uma pessoa cega reabilitada resolve usar uma bengala Hoover ou o cão-guia com a bengala, caso esteja impedido de usar o cão, é um aspecto que só poderá ser decidido pela própria pessoa, de acordo com suas próprias circunstâncias e preferências. O cão-guia pode fazer, certas coisas que a bengala não pode e vice-versa; somente o indivíduo pode decidir qual deles deverá usar como instrumento de locomoção comum. Não obstante, o centro de reabilitação deveria, certamente, providenciar para que a informação completa fosse dada aos que estão sendo treinados em relação aos cães-guias (Saint Paul tem um representante do “Seeing Eye” que trata plenamente do assunto, resolvendo todas as questões) e que nada seja feito a fim de prejudicá-lo, de uma forma ou de outra, quanto a escolha final do instrumento. É essencial que o treinando chegue a compreender que necessita tanto de um treinamento da reabilitação, quanto do instrumento de locomoção se ele realmente deseja recuperar e conservar sua mobilidade.
Muitas tentativas têm sido feitas para reunir pesquisadores interessados no desenvolvimento de um dispositivo de orientação para pessoas cegas. O dispositivo ideal teria que ser um dispositivo de averiguação de obstácu¬los e um dispositivo de reconhecimento, reunidos em um só. A maioria dos observadores concorda que o dispositivo perfeito está longe de ser obtido se não houver maior inte¬resse nas pesquisas do que está havendo atualmente em relação ao problema; não obstante, é viável uma conquista em qualquer um dos aspectos, a qualquer momento.
É essencial que a pessoa cega se convença de que hoje em dia qualquer indício serve para mostrar que tal dispositivo, caso venha a se concretizar, ainda exigirá um completo treinamento sensorial. Isto parece ser a conclusão de todos os pesquisadores: acreditam, outrossim, que nenhum dispositivo seria satisfatório se de alguma maneira interferisse na aquisição dos conhecimentos através de um dos sentidos principais.

7 - Técnicas da vida diária

A perda das técnicas da vida diária é, como foi dito antes (Cap. 3), uma das perdas constantes mais humilhantes e frustradoras da cegueira. A restauração destas técnicas ao mais alto grau possível é um dos aspectos mais importantes do programa da reabilitação. Porém, mesmo nas primeiras semanas da cegueira alguma coisa já pode ter inicio: ajudar a pessoa cega a voltar aos seus hábitos normais na mesa, mostrando-lhe o lugar de cada tipo de alimento no seu prato, ajudando-a a por em ordem suas roupas a fim de facilitar a tarefa de se vestir sozinha etc. Uma outra ajuda inestimável é o chamado relógio - Braille. Trata-se de um relógio comum, de pulso ou de bolso, com ponteiros grossos e firmes, números salientes em algumas horas e uma tampa fácil de abrir Equipado com este relógio, praticamente qualquer pessoa cega inteligente pode saber as horas. Este expediente significa levantar a moral das pessoas recentemente cegas, removen¬do sua dependência em uma área importante, reorientando-as quanto ao tempo e dando-lhes um estimulo de esperança de poder aprender outras coisas. Pode, também, ser um fa¬tor considerável na restauração do contato com a realida¬de.
No programa de reabilitação, o completo problema da restauração das técnicas da vida diária envolve o treinamento dos sentidos. Trabalha-se indiretamente nos diversos cursos de comunicação, na mobilidade, nas atividades de compras e outras, através de trabalho terapêutico e psicossocial dos técnicos.
Além disso, quatro cursos parecem ser necessários: a conservação do lar, consertos caseiros, higiene pessoal e técnicas gerais.
O curso de conservação do lar inclui as técnicas que cada qual necessita para conservar seus aposentos e objetos pessoais limpos e arrumados. Isto também ajuda na restauração da confiança nos sentidos. Não tem por finalidade transformar em patrões eficientes aqueles que jamais dirigiram uma casa quando ainda possuíam o sentido da visão, mas sim ensinar pessoas cegas, quanto às técnicas especiais de que necessitam para fazer o que seriam capazes de fazer anteriormente: dirigir uma casa, passar e lavar roupas, costurar e remendar, saber o que está nas latas, garrafas e pacotes, num sistema de fazer compras, cozinhar e limpar a casa. Milhares de pessoas cegas treinadas dirigem suas próprias casas com eficiência e a pessoa cega que antes tinha essa habilidade e que ainda não a recuperou não pode ser considerada reabilitada.
Igualmente, o curso de pequenos reparos no lar não exige que elas sejam especialistas no “faça-você mesmo”, já que anteriormente não o eram, porém, para ampliar sua confiança nos sentidos e tornar os treinados capazes de executar pequenos trabalhos de carpintaria, de solda, elétricos e outros que já estavam acostumados a fazer antes da cegueira. (A intenção do curso de “loja” pode ser apresentada aqui e é precisamente no sentido de restaurar a confiança. Eis o que uma senhora formada escreveu para o St Paul: “Depois que me acostumei com o tremendo barulho daquela poderosa serra, na rua, não entro mais em pânico quando um caminhão dos grandes passa por mim na calçada”).
O curso de higiene pessoal ensina as técnicas especiais que os cegos precisam para suas funções do intestino e bexiga. Orienta tanto homens como mulheres nos seus problemas e também inclui as técnicas necessárias no atendimento caseiro a pequenos socorros de urgência. Este curso pede incluir, outrossim, o grande e sempre crescente número de diabéticos cegos, nas técnicas recentemente desenvolvidas, da auto-ministração da insulina por meio de seringas especiais com ampolas compradas nas drogarias e previamente preparadas. O sentido da segurança e independência conquistados pelo treinando através deste expediente é espantoso.
O curso das técnicas em geral dá um treinamento quanto percepção e conhecimentos dos elementos envolvidos nas atividades diárias e da vida de todo dia com o intuito de aperfeiçoar o treinando mais efetivamente para que possa substituir com o uso dos seus outros sentidos aquele da visão. Também informa a respeito de técnicos eficientes e se ocupa com as atitudes necessárias para competir com os problemas originados pela cegueira em tais atividades diárias. Por exemplo, no que concerne ao problema de servir líquidos, a pessoa cega necessita ser prevenidas das diversas maneiras de servi-los, das suas diversas consistências e das técnicas de medi-los; precisa também, expor e discutir o medo que porventura tenha de queimar-se com líquidos quentes.
Acima de tudo, é necessário que se lhes mostre a necessidade e a atitude necessária para desenvolver a ordem além daquela exigida pelos dotados de visão, de ter um lugar para cada coisa e cada coisa em seu lugar, se é que ela deseja encontrar tudo aquilo que guardou. Entretanto, não deve fazer disso uma mania, porque em muitas casas onde moram pessoas cegas, sua cegueira domina o andamento da casa a ponto de ninguém, nem mesmo ousar uma mudança nos móveis.
O curso inclui instrução cuidadosa em técnicas importantes, treinamentos no uso de instrumentos diversos que não estão incluídos em outros cursos, informações quanto ao grande número de instrumentos, expedientes para necessidades especiais e onde podem ser obtidos, como tam¬bém, informações a respeito de novos instrumentos que possam vir a ser desenvolvidos 1.
Proporciona, também, um campo para a instrução de técnicas especiais ministradas nos diversos cursos de habilidades, como fazer escrituração no método Braille, preencher um cheque no curso de caligrafia, resolver problemas de compras nos cursos de mobilidade e visualização. Trata, em particular, com técnicas que tratam dos problemas que em geral uma pessoa cega enfrenta quando se alimenta, de maneira que, quando ocasionalmente surgem certas difi¬culdades elas se tornam menos importantes e o treinando poderá comer normalmente em casa, ou em restaurantes, com o mesmo comportamento que tinha antes da cegueira.
Este curso, também proporciona as técnicas necessárias para que a pessoa cega se apresente limpa, arrumada e atraente, para que saiba distinguir uma roupa manchada ou amarrotada, para que saiba arruma-la e marcá-la separando-a e combinando suas cores, barbear-se ou fazer a maquilagem e penteados. Uma aparência em desalinho, uma maquilagem espalhafatosa ou uma combinação de cores exagerada não são sinais de cegueira: indicam antes uma falta de treinamento ou da existência de problemas emo¬cionais no indivíduo.
Finalmente, este curso trata dos problemas da vida diária que não são ventilados em outros cursos: como dobrar as notas de diferentes denominações, de tal forma ¬que as distinga facilmente na carteira ou na bolsa, como usar o disco do telefone, como procurar sistematicamente objeto perdido, como cumprimentar apertando a mão, como se familiarizar com um quarto estranho ou um quarto de hotel.
No final de tal programa de treinamento, a pessoa cega deverá ter a certeza de que embora as dificuldades relativas às técnicas da vida diária ainda vão surgir, ela poderá ter atitude equilibrada, os princípios gerais e principais técnicas necessárias para tratar destes problemas ou conseguir meios para resolvê-los, à medida que forem surgindo.


NOTAS DE RODAPÉ
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1 - “American Foundation for the Blind”, na 15 West 16 Street, na cidade de Nova York, tem um departamento especial para recolher e disseminar informações sobre tais instrumentos e projetar novos. O catálogo, incluindo informações sobre cronõmetros, termômetros, ferramentas adaptadas para o uso de carpinteiros cegos, agulha de costura, etc., podem ser adquiridos nesse instituto.


CAPÍTULO 13
RESTAURAÇÃO DA FACILIDADE DE COMUNICAÇÃO

8 - Comunicação escrita

Como indica o quadro A, muitos são os meios disponíveis para restaurar vários aspectos da comunicação daquele que ficou cego. A função do centro de reabilitação é de ensinar quais as habilidades necessárias ao uso de instrumentos, de familiarizar aquele que esta treinando com os recursos existentes, quer sejam aparelhos ou de materiais para leitura, e dar-lhes uma visão real dos progressos atuais no campo da pesquisa.
Existem boas razões para se crer que, num futuro muito próximo, livros e revistas em Braille sejam produzidas por máquinas, em velocidade e em quantidade desconhecidas até o momento. A solução mais adequada seria uma máquina que pudesse “ler” em voz alta impressos comuns e ma¬nuscritos. Tais máquinas já foram inventadas, mas nenhuma foi considerada suficientemente prática para ser fabrica¬da. Cientistas que estudaram o problema sentem que há boas possibilidades para a invenção desta máquina, mas isto não será conseguido ainda por algum tempo devido à atual falta de esforços nesse sentido.
Nenhum dos esquemas disponíveis, ou a combinação deles, e tanto quanto se possa prever, nenhuma invenção futura pode restituir completamente ao que ficou cego sua anterior facilidade para ler e escrever. Entretanto, com esforços inteligentes de sua parte e da parte dos que o ajudam, e com instrumentos adequados, muito pode ser feito para satisfazer às necessidades comuns de ler e escre¬ver e algumas especiais. O quadro A enumera estes meios, suas vantagens e desvantagens, e as habilidades necessárias para usá-los, mas outros comentários serão feitos a respeito de alguns deles.

QUADRO A
INSTRUMENTOS DISPONÍVEIS PARA LEITURA E ESCRITA PARA CEGOS
Instrumentos Habilidades necessárias para usá-los Vantagens Desvantagens
1 – Substituto humano Ver texto Ver texto Ver texto
2 - Braille para leitura impressa (transcrita à máquina). Para leitura escrita, (transcrita à mão):  Habilidade para ler e escrever facilmente dominada pela pessoa normal (ver texto).  Reserva e independência, tato profissional. Uso de ambos os lados do papel pelo processo “entre pontos”, menos volumosa.  Quanto à escrita: poucas pessoas dotadas de visão podem lê-la; quanto à leitura: material volumoso, difícil e limado.  Muito custosa, exceto quando centenas de cópias são necessárias.
A – com reglete e punção, uma moldura de metal ajustável ao papel com abertura guiando o punção.  Boa para fins especiais.
 Cópias feitas uma por vez, principalmente por voluntários (1).
B – Máquina Braille, instrumento de seis teclas, como máquina de escrever.  Mais rápida que a anterior.
Mais igual e facilmente lido. Como acima.
Menos portátil.
Novo processo de “mimeógrafo”  Produção de muitas cópias Discordâncias quanto à legibilidade, uso ainda não muito freqüente nos EUA.
Para escrever: A – Reglete e punção (equivalentes ao papel e lápis ou caneta).  Portátil. Pode ser desigual
B – Máquina Braille (equivalente à máquina de escrever).  Mais igual e facilmente lido. Menos portátil.
3 – Livro Falado – Oficial (atividade do governo federal, profissionalmente gravados em discos de 33 rpm). Habilidade para tocar discos; conhecimentos dos recursos, especialmente “Talking Book Topics”, publicados pela American Foundation for the Blind. A maior contribuição do nosso século neste setor. Máquinas colocadas gratuitamente a serviço das pessoas cegas; discos disponíveis através de bibliotecas circulantes designadas regionalmente (não subvencionadas); privilégios de tarifa postal gratuita.  Poucas revistas (exceto Newsweek e Reader’s Digest). Nenhum jornal, exceto “News of the Week”, Times de New York. Maquinário (2) e fitas volumosos. Falta de fidelidade na reprodução. Remessa pelo Correio leva à deterioração. Serviço de conservação das máquinas, inadequado; relativamente poucos títulos, mais em constante aumento.
Livro Falado (não oficial), gravados profissionalmente ou não; todas as velocidades; multicópias em fio, etc. Como o anterior. Para setores especializados, textos e livros profissionais, etc. (3). Algumas vezes extremo amadorismo, com erros e falta de clareza.
4 – Gravadores e outros dispositivos de gravação para leitura e escrita (considerados tão importantes quanto a máquina de ditar, são dados gratuitamente a todas as instituições ligadas ao Veterano Cego). Simples habilidade exigida para operar. Permite ao cego ditar e depois ouvir; de valor particular para estudantes gravarem assuntos lidos para posterior consulta; também úteis em composições, anotações e para correspondência com pessoas proprietárias de máquinas iguais. Máquinas frequentemente muitocaras; tornam-se rapidamente ultrapassadas.
5 – Rádio (leitura) Modelo de seletor de botão – melhor para as pessoas idosas. Conhecimento dos programas precisa ser facilitado. Uma necessidade vital para o cego, tão importante que a Ametican Foundation fornece gratuitamente (através de agências locais) a qualquer cego incapaz de adquiri-lo. Não oferece resposta total. O conceito das notícias não é igual ao do jornal dominical, ou jornais diários; poucos clássicos lidos, etc.

Ondas curtas ou freqüência modulada.  Estende o alcance do programa. Raramente há anúncios de programas futuros.
Rádio amador – leitura e escrita Habilidades comuns para operar. Permite vasto campo de atividade e comunicação passiva 
Máquina de escrever (não um instrumento especial para cegos). – escrita. Tato para datilografar; alguns profissionais colocam marcas nas teclas, mas não é necessário. Meio muito vantajoso de restaurar a comunicação escrita. Se a pessoa não possui a habilidade, deverá aprender no centro de reabilitação, com professores particulares, ou através de instruções gravadas. Não poder ler o que escreveu, ver os erros, etc.
7 – Auxílios para escrita manual – guias para a escrita. Guia para as mãos ou instrumentos para escrever uma letra sobre outra, etc. (Marks Writing Guides, parece ser o melhor).  Importante para que a pessoa cega continue a usar sua caligrafia. Absolutamente necessário aprender a escrever sua assinatura: a marca “X” a reduz ao plano de analfabeto. Estes instrumentos a capacitam a escrever firme e claramente. 
8 – Mesa de desenho com linhas em relevo (lançada pela American Foundation); desenhando uma linha com lápis ou caneta esta é identificada pelo tato.  Faz mapas, guias de direção, possibilita novos meios de descrição. 
Esquemas matemáticos, réguas de cálculo e para escrita de música, também são disponíveis para o uso dos cegos.   

NOTAS DE RODAPÉ
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1 - Talvez a maior necessidade aqui seja a de uma coordenação no trabalho dos voluntários para que não haja o desperdício de duplicatas. Esforços são feitos para que os documentos sejam transcritos de acordo com as reais necessidades da pessoa cega, em vez de, como no passado, de acordo com o que as pessoas bem intencionadas julgavam impor¬tante.

2 - Esforços de pesquisa são feitos no campo dos minúsculos aparelhos transistorizados que funcionam com bateria e usam pequenos discos plásticos. Mas, obviamente, qualquer mudança será complicada e prejudicial, e além do mais, dispendiosa. Mais dispendiosa ainda será a tentativa provável (já iniciada na Inglaterra) para gravar todos os livros oficiais em fita que seriam facilmente terminados e de fácil transporte.

3 - Mais do que no campo de transcrições manuscritas dos livros Braille, há atualmente uma necessidade de coordenação nacional deste serviço a fim de possibilitar aos estu¬dantes e professores maior quantidade de livros, e para evitar desperdício de esforços.

O substituto humano, que lê e escreve para a pessoa cega é o mais antigo meio de comunicação. É o mais versátil deles, mas poderá ter, mais do que os outros, sérias desvantagens. Cansa-se, é disponível por apenas limitado período (normalmente de sua própria escolha); muitas vezes, quando necessário, nega-se a trabalhar. Torna-se seletivo (decidindo que o ouvinte cego “ não está interessado” nisto ou naquilo). Necessariamente invade a vida particular da pessoa cega. Aonde outros dispositivos conduzem à independência, este pode aumenta-la. E muitas vezes o faz sentir-se ingrato (o que talvez ele seja), quando não quer ouvir certas coisas, ou não está satisfeito com a leitura. Estas observações não têm a fina¬lidade de diminuir o valor de muitos ledores que fazem excelente e generosamente este trabalho; mas é importante que os ledores e as instituições encarem esta atividade dentro de um foco apropriado.
O ponto principal aqui é o de que o leitor se considere e seja considerado como um instrumento. Seu trabalho se resume em ler o que o cego quer, e não o que ele pensa que o cego precisaria, ou deveria gostar de ler ou não.
Para muitos, poderia parecer solução ideal que os membros da família daquele que ficou cego servissem como ledores. O uso de alguns membros durante um breve período poderá dar bons resultados. Mas, como no uso dos familiares para guiar, se isto for aceito como solução básica, frequentemente estabelece uma relação de trabalho penoso, de dependência e de escravidão totalmente alheia ao amor.
Há muitas vezes necessidade de “interpretar” para a família esta verdade para que ela aceite este ponto de vista. Interpretação é um processo levado a cabo por profissional, de assistir o indivíduo diretamente ou mais frequentemente levando-o a deduzir a informação, para compreender algumas das forças psicológicas envolvidas nesta situação. Aquele que ficou cego provavelmente também precisará desta interpretação (a menos que tenha sido preparado durante seu treino de reabilitação), já que poderá ter sérios sentimentos de culpa sobre a escravidão que impõe à família (quer ela sinta ou não), sobre sua insatisfação com ela por negar-lhe mais leitura (especialmente quando sabe que suas exigências são desarrazoadas), sobre o nervosismo que lhe causam certas vozes.
A utilização de vizinhos muitas vezes (nem sempre) oferece uma solução satisfatória para parte deste problema da leitura. Existem muitos casos de indivíduos que, na volta do trabalho, a caminho do lar, deixam sua marmita á porta de um vizinho cego enquanto entram para meia hora “de papo”, sobre as notícias do dia não difundidas pelas emissoras, Muitas pessoas gostariam de, diariamente, ofere¬cer uma parte do seu tempo para ajudar uma pessoa cega e deveria dizer-se a estes possíveis ledores que seus serviços seriam bem recebidos. Aqui, necessitaríamos novamente de “interpretação” tanto para o voluntário como para a família do cego, para que ninguém pense que ele está interferindo numa responsabilidade que é própria da família.
A melhor solução, como no caso dos guias, é o pagamento pelos serviços de ledor que assim é claramente um empregado trabalhando sob a direção do seu empregador. Antigamente eram freqüentes e mais vantajosos os serviços prestados por crianças; atualmente é mais fácil dispor-se da ajuda de pessoas idosas, aposentadas com pequenas pensões, que assim têm oportunidade de ganho extra e de trabalho útil.
A segunda melhor solução (falando de modo geral) é o ledor voluntário provido por uma instituição — se treinado, emocionalmente estável, devidamente motivado e cônscio da sua função como “olhos substitutos” e nada ma¬is.
Mais ledores são necessários (e a maioria deve ser voluntária) para ler assuntos que de outro modo não seriam conhecidos pelas pessoas cegas: especialistas para ler textos para estudantes e material profissional para os profissionais. Um exército de ledores prontos e desejosos de ler as coisas essenciais e as não essenciais que a pessoa cega gostaria de ouvir.
A combinação de família, vizinho, ledores pagos ou voluntários deve ser feita pela própria pessoa que ficou cega, levando em consideração suas necessidades e circunstâncias. Mas muitos aspectos deste problema deverão ser objetos de instrução durante o período de treinamento.
BRAILLE é naturalmente o grande instrumento à disposição do que ficou cego, que lhe dará independência no ler e escrever. Nenhuma pessoa instruída pode conside¬rar-se reabilitada a não ser que aceite a idéia de usar Braille e aprender a ler e escrever de acordo com suas necessidades e habilidades.
Braille é uma espécie de código formado de “pontos” em relevo que devem ser lidos pelo tato. O número e a posição dos pontos determinam diferentes símbolos. Na sua forma mais simples (1º grau), cada símbolo representa uma letra do alfabeto. No 2º grau, aquele em que são escritos a maioria dos livros e revistas, cer¬tos símbolos significam uma palavra, como na taquigrafia.
Aprender Braille representa o domínio de uma ha¬bilidade muito simples. Não requer nenhuma inteligência fora do comum, e é viável mesmo para a pessoa que possua pequeno grau de sensibilidade tátil. Dedos cheios de calosi¬dade adquiridas em anos de trabalhos pesados podem ler Braille, assim como dedos parcialmente dessensibilizados por doenças. O que se necessita não é uma extrema sensibilidade mas a aquisição da habilidade para diferenciar um pon¬to de outro em suas diversas posições. Lembra certas habilidades cuja aprendizagem parece muito vagarosa, mas cu¬jos resultados finais surgem repentinamente. Servirá de auxílio ao que ficou cego para comparar, no meio das frustrações e fracassos da cegueira, o processo de aprender Braille com o de aprender a nadar. Dia após dia faz-se tudo como foi ensinado e mesmo assim afunda-se; de repente, num lindo dia “faz-se as mesmas coisas” e, para grande surpresa nossa, estamos boiando e nadando.
Com o Braille, como para outras destrezas, o grande empecilho não é tanto físico ou intelectual, mas emocional: falta de autoconfiança e o fato do Braille ser o símbolo da cegueira. O processo de reabilitação total será de valia aqui. Mas a solução destes problemas que, normalmen¬te, estão escondidos no subconsciente, requer mais do que simples capacidade de ensino. O grande sucesso obtido pelo aluno é frequentemente proporcional não tanto à aptidão do mesmo, mas ao grau de confiança do professor no método Braille e na possibilidade do adulto, que ficou cego aprende-lo e usá-lo. O tempo necessário para domínio do Braille varia de indivíduo para indivíduo; depende da sua atitude emocional, sua motivação e aptidão, bem como da habilidade do mestre e da freqüência às aulas. Em St. Paul, os que estão sendo treinados usam o 1º grau de Braille, para anota¬ções em lojas e cozinhas, no fim de duas semanas, enquanto que no fim de seis semanas de treino, a maioria está sufi¬cientemente familiarizada com o 2º grau, podendo usá-lo regularmente. Quando um professor particular sobrecarregado, mesmo de grande capacidade, pode dar somente uma ou duas aulas por mês, naturalmente o processo será muito mais longo do que no centro de reabilitação, onde são dadas semanalmente cinco aulas.
Uma vez aprendido Braille, como outras habilida¬des, raramente é esquecido. Mas a rapidez em usá-lo é o resultado de prática e diminuirá se não for exercitada regularmente. Os mais rápidos leitores pelo Braille podem alcançar a mesma velocidade de um médio leitor de visão, sendo que a possibilidade de aumentá-la é limitada pelo fato de que apesar de certa espécie de relance inicial ser pra¬ticado por todos os leitores de Braille já adiantados. Este relance não pode ser tão rápido quanto o de um leitor dotado de visão. Um fenômeno interessante ocorre com muitas pessoas que tendo perdido a visão já adultos sentem, depois de lerem Braille durante prolongado período, que os olhos “estão cansados” e têm “dor de cabeça proveniente dos olhos”, como acontece com os de visão após leitura exaustiva.
Muitos trabalhos padrões são encontrados em Braille e muitos técnicos devotados estão transcrevendo mais material, usando os mais variados métodos especificados no Quadro A. Mas, relativamente poucas das novas publicações, de ficção ou não, são impressas em Braille. Existem poucas revistas e nenhum jornal.
Os volumes em Braille são necessariamente volumosos e de difícil manejo, principalmente comparados com os impressos. Quanto ás despesas de correspondência, existe uma lei postal concedendo aos livros em Braille livre circulação entre as bibliotecas e as pessoas cegas, sendo apenas necessário escrever no pacote “material grátis de leitura para cegos”. Uma regulamentação similar para assinatura de revistas seria de grande utilidade porque assim, por exemplo, uma edição em Braille da Newsweek, poderia circular ao mesmo prazo da edição normalmente impressa que é muito mais leve. Deste modo, o particular poderia pagar pela assinatura da revista e não ser forçado, como atualmente, a aceitá-la gratuitamente.
Outra desvantagem do Braille é a de ser conhecido por poucas pessoas dotadas de visão e desconhecido por algumas pessoas cegas (menos de 25%), principalmente en¬tre os que perderam a visão na maturidade. Consequentemente, não podem usar Braille nem para ler sua correspondência, nem para escrever cartas. Portanto, Braille não é uma resposta completa para o problema da restauração da comunicação escrita. Apesar disto, é uma das respostas, e tão valiosa para deter¬minados fins, que todas as pessoas capazes de ler e escrever que perdem a visão devem interessar-se por este método. Mesmo os que não sejam “leitores assíduos” utilizarão o Braille em negócios e anotações domésticas, memorandos, etc.
Livros Falados - A maioria dos leitores de Braille, também o é dos livros falados, apesar de alguns leitores técnicos em Braille estarem tão acostumados à leitura pelo tato que não apreciam ouvi-la em voz alta. Outros se utilizam dos livros falados para leituras em geral, mas se condicionaram ao uso do tato quando a finalidade é de instruir e exigem que seja em Braille todo o material de estudo. A questão não é a de usar Braille ou livro falado, ele precisa de ambos (a disponibilidade do livro falado não significa, como alguns técnicos receiam, a diminuição da motivação para aprender Braille).
Algumas pessoas que perderam a visão, especialmente aquelas que eram leitores ávidos, sentem-se frustradas com a lentidão da leitura oral em comparação com a visual. Estudantes e outros que lêem com intuito de informação mais do que pelo prazer de ler, tocam suas gravações em máquina ligeiramente aceleradas da velocidade de 53 rotações por minuto, obtendo assim, algumas palavras a mais por minuto, embora sacrificando o som. Ha. também a possibilidade de serem feitos livros falados usando-se o método de “leitura condensada” experimentado pelas companhias telefônicas, especialmente em conexão com as comunicações internacionais, A leitura é gravada numa fita e esta é cortada com a finalidade de diminuir as pausas e o tempo gasto pa¬ra se pronunciar vogais e consoantes, deixando as palavras inteligíveis.
Outros instrumentos de gravação e reprodução -Alguns estudantes fizeram uso destes instrumentos para gravar as preleções do professor durante a aula. Mas, isto geralmente é mal visto e não há nenhuma razão para que ao estudante cego seja dado tão extraordinário privilégio. Al¬guns estudantes usaram dispositivos especiais que os possibilitavam gravar sem perturbar os colegas, mas este método não é recomendável. A maior utilidade destas máquinas é de permitir futuras referências do material lido para eles pelos seus ledores (ver Quadro A).
A escolha de uma máquina, neste campo de tanta variedade, deve ser guiada não só pela necessidade mas também pelo gosto pessoal. Alguns preferem a fidelidade de reprodução; outros a facilidade no uso; e outros ainda querem discos que podem ser tocados nas máquinas comuns de discos, A função do centro de reabilitação é de indicar as possibilidades de usar os vários instrumentos, de dar ao que está sendo treinado a oportunidade de conhecer diversos tipos e até de examiná-los e testa-los se houver um interesse especial.
Deve-se assinalar que neste problema de restaurar a facilidade de comunicação escrita, a questão não é só de escolha entre os vários meios. Todos os instrumentos importantes devem ser usados pelo que recentemente ficou cego, e devem ser dadas a este todas as informações sobre as dife¬rentes possibilidades e disponibilidade dos mesmos.


9 - Comunicação falada

Esta restauração não é como a que acabamos de discutir, apenas uma questão de habilidade e dispositivos. A pessoa que ficou cega sabe que algo aconteceu a sua facilidade de comunicação com outras pessoas, mas não sabe exatamente o que é isso. Pode culpar-se, sentindo que além da cegueira alguma coisa a tornou “peculiar” ou que todo o problema existe apenas em sua imaginação. Ou poderá acusar os que a cercam de estúpidos e desatenciosos. As pes¬soas dotadas de visão com as quais ela procura falar não compreendem claramente o que aconteceu, nem quais são as verdadeiras dificuldades. Sentem que ela está “diferente”, sentem-se embaraçadas com ela ou por causa dela, e não sabem o que fazer para facilitar a comunicação entre elas.
A restauração, portanto, envolve a ajuda dada ao que perdeu a visão, para reconhecer esta perda como um dos efeitos da cegueira e para aceita-la como um fato, espontaneamente procurar os meios para sobrepujá-la e treinar-se na prática dos mesmos. A restauração também inclui com¬preensão e consideração da parte do público em geral e da família do que ficou cego, em particular, para esta dificuldade especial na comunicação falada.
O trabalho de ajuda à pessoa que ficou cega é objeto de todo o programa de treinamento e de curso especial em comunicação falada; o de ajuda à família é mais efetivamente feito pelos seminários familiares nos centros de reabilitação. O trabalho de educação pública é geralmente da responsabilidade das instituições e dos profissionais que se dedicam ao trabalho com pessoas cegas.
A própria existência de um curso especial de comunicação falada, como parte do programa de treinamento,¬ indica para o que ficou cego que esta perda é um fato objetivo experimentado por todos os cegos. A análise do que ele envolve ajuda a libertá-lo de acusar a si mesmo e aos outros e prepará-lo para aceitar os meios de sobrepu¬já-la. Mas, o requisito básico para usar os meios efetivos é a aceitação da sua cegueira — resultado de toda a atividade terapêutica desenvolvida pelo centro de reabilitação na área psicossocial. Algumas vezes a palavra “a¬ceitação” parece indicar que esperamos que aquele que fi¬cou cego goste da sua cegueira. Mas “aceitação” significa encarar o fato da sua cegueira com todas as dificuldades que envolve: aceitar-se como uma pessoa cega e adquirir uma atitude que permita enfrentar e sobrepujar as mesmas dificuldades.
Uma vez alcançada esta atitude emocionalmente equilibrada, ele pode resolver, usando de franqueza, muitas das dificuldades da comunicação falada. Mas, até que ele se ajuste à cegueira, qualquer palavra de explicação, seria ou jocosa, e até o mais bonito dos discursos, apenas despertará emoções — e emoções erradas, nos seus ouvintes. O inconsciente fala para o inconsciente mais alto do que as palavras. Se a cegueira é um distúrbio emocional que o domina, isto será comunicado aos outros; se a cegueira é uma parte dele e uma parte sob controle emocional, as palavras mais simples produzirão efeito. Portanto, se a pessoa cega não tiver certeza de que falam com ela deve simplesmente perguntar: “está falando comigo?”, ou o equivalente. Caso contrario, terá que permanecer calada, a não ser que se dirijam a ela pelo no-me ou responda a todas as perguntas quando não é citado o nome de outrem. Sendo ambos os casos embaraçosos. A pergunta franca dar-lhe-á a oportunidade, sem despertar falsa piedade nem admiração exagerada, de explicar a necessidade de se dirigirem a ela nominalmente.
Nos primeiros dias da cegueira, ou ocasionalmente mais tarde sob certas circunstâncias, poderá não saber onde está a pessoa que se dirige a ela, ou poderá não ter certeza de estar ou não encarando o interlocutor e “olhando” enquanto fala. Ou, num grupo poderá ter dificuldade em localizar as pessoas. Aqui novamente, não havendo outra maneira de esclarecê-lo, deve simplesmente perguntar.
Muitas destas dificuldades serão eliminadas com o aperfeiçoamento das habilidades, particularmente na localização dos sons. Mas, em geral, o que ficou cego que “acei¬tou” sua cegueira está apto a aceitar ajuda e sabe pedi-la quando necessária. Acima de tudo, deverá pôr os outros à vontade através de declaração direta ou comunicação indireta da sua atitude. E deverá usar de franqueza de tal modo que sua cegueira seja considerada apenas como um fator acidental a qualquer situação social e não como centro à vol¬ta do qual giram os acontecimentos. Naturalmente, não se espera que ela considere a cegueira uma deficiência secundária, mas não se deve permitir que ela se torne o foco da conversação. Sobretudo se for capaz de aludir à mesma de maneira casual, sem humor forçado, dará um grande passo na remoção da tensão emocional criada por sua presença num grupo de pessoas que enxergam, desacostumadas à cegueira, e assim facilita a conversação à sua volta. Estará também edu-cando os membros deste grupo a compreenderem a necessidade de dirigir-se aos cegos pelo nome, de se identificarem e, acima de tudo, o aceitarem como uma pessoa normal, comum, apenas portadora de uma deficiência.
O curso em comunicação falada discute os métodos sociais que podem ser usados para se obter informações e aliviar a tensão de várias situações. Mostra ao que está sendo treinado como desenvolver a força dos sentidos — o da audição principalmente — como identificar e localizar outros oradores e formar um juízo sabre eles: altura, po¬sição, idade aproximada. E, além disso, aprende a deduzir da expressão vocal dos mesmos, como antes fazia da expressão facial, que tipo de pessoas são, quais seus sentimen¬tos etc. (Isto, naturalmente, é apenas o desenvolvimento consciente da habilidade que todos exercitamos numa con¬versação telefônica — imaginando como um amigo se sente, pela sua maneira de falar, julgando alguém que nunca en¬contramos pelo tom de sua voz e pelas expressões que usa).
O treinamento na visualização é muito importante para dar ao que está sendo treinado o hábito de mentalmente imaginar o ambiente no qual a situação social se desenrola e todas as personagens nela envolvidas — uma imagem ativa mostrando a posição e algo de cada pessoa do grupo, suas expressões, gestos etc.
O curso também capacita a fazer futuras inferências do que ela percebe: como julgar o significado de hiatos na conversação e seu possível conteúdo emocional, a possível significação de certos lapsos da fala, sussurros, o respirar sintomático de tensões, certos tipos de tosse e espirros, pigarros, o som de cigarros sendo acesos etc.
À medida que ganha mais habilidade para reunir e interpretar todas essas espécies de informações, a pessoa cega que está sendo treinada estará capacitada a julgar as reações dos seus ouvintes a tudo que diz e, o que é mais difícil para a pessoa cega, saber o momento propício para interferir na conversação.
Num grupo de pessoas cegas, a conversação é sem¬pre barulhenta, sendo a razão disto a dificuldade que os membros do grupo encontram em saber exatamente quando po¬dem falar sem concorrência. Num grupo predominantemente de pessoas que enxergam, é suficiente a pessoa cega indicar que deseja falar — com uma inclinação de corpo, demonstrando ansiedade ou movendo os lábios.
Finalmente, em todo o programa de treinamento e mais particularmente em conexão com a comunicação falada, a pessoa que ficou cega precisa de ajuda para evitar (ou corrigi-se, se já os adquiriu) maneirismos — os hábitos, tiques que são direta ou indiretamente resultantes da cegueira. Tais atitudes (que inclui a ausência dos maneirismos dos que enxergam e aos quais já nos acostumamos) focalizam a atenção dos que vêem na deficiência da pessoa cega com quem conversam e torna difícil e até impossível o diálogo comum.
Maneirismos de postura incluem o modo artificial de ficar parado ou sentado, rigidez excessiva ou relaxamento combinado com o desajeitamento na posição da cabeça e das mãos. Maneirismo do porte inclui certo jeito de arrastar os pés e uma maneira hesitante de andar com as mãos impossibilitadas de apalpar. Maneirismos de voz inclui a “voz radiofônica” mencionada anteriormente e a tendência para verbalismo comum a todas as pessoas inseguras, de grandiloqüência, de usar sempre linguagem clássica quando uma palavra comum explicaria tudo perfeitamente. Maneirismo de expressões faciais e de comportamento incluem o suave que não se altera e tais hábitos como esfregar as pálpebras ou esquadrinhar a órbita ocular vazia.
O que pode ser classificado de maneirismo negati¬vo, isto é, a perturbadora ausência dos maneirismos próprios dos que enxergam, por exemplo, o malogro na mudança de expressão para enfrentar as diversas situações, a impossi¬bilidade de encarar as pessoas, de olhar ao redor de uma sala, para fora de uma janela quando fosse o caso etc., etc.
Nem todas as pessoas cegas adquiriram todos estes maneirismos ou mesmo algum deles. Mas é importante compre¬ender e diferenciar suas causas para podermos impedir a pessoa que ficou cega de adquiri-los ou ajudarmos a anular os que já existem.
Maneirismo pode ser conseqüência do fato da pessoa cega não se lembrar visualmente dos gestos, maneirismos e atitudes dos que enxergam e de não poder ver os próprios e, portanto não percebe que deixou de fazer coisas que fazia normalmente ou que adquiriu novos tiques; ou pode resultar de um constrangimento no uso de gestos e de movimentos normais por temer esbarrar em alguma coisa e parecer desastrado. Mas tudo isto pode ser efeito de distúrbios emocionais.
Quando em dúvida deveríamos deixar aos técnicos decidir se a causa de certos maneirismos é emocional ou não. Falar à pessoa que ficou cega sobre seus maneirismos servirá apenas para torná-la mais autoconsciente e agravar suas dificuldades. De um modo geral, a diminuição de tensão, resultante de trabalho de reabilitação, dos fatores reais e emocionais afastará os maneirismos.
Os maneirismos resultantes de outros fatores são normalmente de fácil correção, principalmente quando descobertos na fase inicial. Por exemplo, o hábito de deixar os olhos vaguearem de modo a só aparecer o branco é fàcilmente corrigido no início e quase impossível depois de certo tempo 1. Mais uma razão para que a reabilitação seja iniciada logo após a cegueira. Antes que os maneirismos se transformem em hábitos, devemos alertar a pessoa que já os está adquirindo. Além disso, o maneirismo no modo de an¬dar, de postura é diretamente tratado no treinamento da mobilidade, enquanto que chamar a atenção e tentar corrigir os da fala e maneiras são partes do curso de comunicação-falada.
Uma das funções deste curso consiste em ajudar a pessoa que ficou cega a não adquirir estes maneirismos, apontando os mais comuns e dirigindo seus esforços para a preservação e aprimoramento dos maneirismos peculiares aos dotados de viso.
A habilidade da pessoa que está sendo treinada para visualizar a pessoa com quem fala é cultivada de tal modo que ela não somente ouve o que está sendo dito, mas também vê, com os olhos da imaginação, a fisionomia e as mudanças de expressão do seu interlocutor. Fazendo isto ela começará automaticamente a refletir em seu próprio rosto as expressões que visualiza nos outros, como fazia antigamente, quando enxergava.
Com a finalidade de manter a expressão facial normal, deverá ser-lhe ensinada a prática consciente do que nós inconscientemente fazemos frequentemente: visualizar a própria expressão, ver-se numa espécie de espelho mental, ao longo de uma conversação. Uma série de exercícios é praticada em St. Paul, na qual a pessoa que está sendo treinada se posta frente a um espelho (que serve de estímulo à imaginação) e tenta visualizar o próprio rosto com suas expressões de raiva, ansiedade, orgulho, alegria, etc.
Não queremos dizer que a pessoa que ficou cega deva exagerar as expressões faciais, mas procurar manter vivas as que são normais. E é especialmente importante que ela esteja consciente da expressão dos próprios olhos (incluindo as expressões da área que os circunda) quando fita algo perto ou longe.
E, finalmente, o curso de comunicação falada deveria alerta-lo da importância de manter e cultivar os maneirismos próprios dos dotados de visão, para que a ausência dos mesmos não dê aos outros a impressão de que ele é “diferente”. Um advogado cego (que perdeu a visão quando garoto, bacharelou-se em Ciências Sociais, exerce advocacia, faz parte de diversas diretorias de instituições para cegos) cultivou estes maneirismos de tal modo que não se sente à ausência de nenhum deles. Seu escritório está normal¬mente equipado: livros e revistas, sua escrivaninha com lápis, caneta, mata-borrão, blocos etc. Quando fala, ocasionalmente brinca com um prendedor de papel; no meio de uma discussão pega o lápis e pontilha o papel. No meio de um argumento levanta-se e dirige-se à janela. Ou, se está falando sobre os papéis que estão em sua mesa, ele os manuseia, ou os indica com a mão. A finalidade de tudo isto não é de esconder a cegueira, mas simplesmente impedir os que o vi¬sitam de serem distraídos por uma vaga sensação de desassossego ocasionada pela ausência de um comportamento normal.
Consequentemente, o programa de reabilitação total, e em particular o curso em comunicação falada, poderá fazer muito para que seja restituído à pessoa cega o que ela perdeu. Mas os que com ela trabalham também precisam ser alertados para certos pontos. A comunicação é um ato recíproco e muitas dificuldades resultam da maneira impensada de agir do que é dotado de visão.
A necessidade de educar o público é um dos aspec¬tos de um programa continuo e constante que tem como finalidade dar a todos uma compreensão real da cegueira, Não podemos dar a todo o público tais noções. Mas com os meios disponíveis, podemos alcançar ao menos os especialmente interessados, quer seja pelo contato direto que têm com o cego em empregos, ou por situações sociais. Estes são os que devem possuir um conhecimento inteligente do prob1ema.
Já existem folhetos de “O que se deve e o que não se deve fazer com os cegos”, que geralmente dão boas informações. Indicam por exemplo, a importância de se usar certos termos quando nos dirigimos a um cego ou a outra pessoa em sua presença, para que ele possa distinguir a quem nos dirigimos; de dar uma insinuação antes de terminarmos uma conversação e antes de abandonarmos o recinto (preferivelmente de uma maneira discreta, como a de continuar a falar, enquanto nos dirigimos à porta, para que pelo som da nossa voz ele possa saber o que se passa); acrescentando descrições verbais aos gestos quando for necessário para maior compreensão (por exemplo: com os gestos que acompanham "alto", “longo", etc.).
E deveria ser feita alguma coisa, no campo de educação do público, para se evitar o pueril jogo de adivinhações: “Quem sou eu”, no qual muitos envolvem seus conhecidos cegos.
Pessoas que esperam que sua voz ao telefone seja reconhecida pela sua telefonista, admiram-se que o cego seja capaz disto: “Que maravilhoso sexto sentido ele desenvolveu!”.
E talvez seja possível incutir neste público que qualquer gesto ou expressão facial que se refira ao cego em sua presença, deve ser evitado como uma praga. Aproveitamo-nos de sua cegueira quando fazemos algo - mesmo que seja com boas intenções -que não faríamos se ele pudesse ver; poderá ser uma cruel maneira de fazê-lo sentir-se excluído e abandonado ao perceber que seus amigos travam uma conversação muda em sua presença.
Outro ponto que devemos considerar é o chamado “ponte de contato”. É certo que, comumente, fora a conversa telefônica, a presença dos interlocutores forma uma espécie de ponte através da qual passa a comunicação verbal. Quando a cegueira de uma das partes destrói esta ponte particular, o sentido do tato pode, quando necessário, substituí-la. Esta é uma das razoes que justificam a importância entre os cegos do aperto de mão.
Mas as pessoas que enxergam, num esforço bem in¬tencionado para estabelecer uma comunicação simpática com a pessoa cega, muitas vezes tendem a exagerar esta neces¬sidade que existe quando a comunicação verbal é totalmente inadequada como meios de estabelecer a presença de outra pessoa. Deve-se lembrar que esta ponte é importante, por exemplo, no caso do oftalmologista que se sente a beira da cama do paciente, vitima de catarata senil. Estará ele possivelmente infringindo as regras do hospital, mas estará trazendo mais benefícios do que se as obedecesse. Mas, de um modo geral, não há nada que justifique sujeitarmos a pessoa que ficou cega a constantes apertos de mão.
A família da pessoa que ficou cega, obviamente, precisa mais do que o publico em geral, ser informada a respeito destes problemas próprios da comunicação falada Um período de “olhos vendados” poderia esclarecer melhor estes aspectos. Mas esta experiência nunca deve ser sugerida às pessoas que pensam que com isto “saberão o que significa a cegueira”.
Compete à família uma parte importante na inter¬pretação do significado da perda de comunicação falada; do seu papel na restauração do que foi perdido. Este é um dos aspectos do complexo problema de proporcionar-se à família uma compreensão inteligente da cegueira e de um dos seus membros e em muitos casos será necessário o trabalho direto do técnico. Mas muito pode e deve ser feito através dos seminários familiares mantidos pelos programas de reabilitação.


10 – Progresso informativo

Os meios para se obter novamente o progresso in¬formativo são dados nos vários cursos do programa de reabilitação já mencionados, particularmente naqueles do treinamento dos sentidos, na mobilidade e na comunicação escrita e falada. Mas a perda das aquisições de informação é algo acima e além das perdas diretamente tratadas nestes cursos e seus efeitos não são imediatamente evidentes, mas cumulativos durante meses e anos. Entretanto, estes efeitos podem, ser graves para todas as pessoas que ficaram cegas, e muito mais graves para algumas. Esta perda, portanto, precisa ser mantida em evidência e tratada especificamente durante o treinamento de reabilitação, em especial nas semanas finais quando a pessoa que está sendo treinada faz planos definitivos para o futuro.
Um esforço especial é necessário para alertar a pessoa que está sendo treinada para a realidade desta per¬da e das suas razões; para a possibilidade de estagnar no seu atual grau de conhecimentos do que vai pelo mundo, a menos que faça planos, conscientemente, para prevenir isto e para o uso dos vários meios à sua disposição.
Deve-se assinalar que o uso progressivo dos seus sentidos aguça sua habilidade para tirar deduções e conclusões das informações que lhe estão sendo proporcionadas. Deve acostumar-se a não desprezar qualquer coisa que traga um sentido de informação. Deve desenvolver um processo de raciocínio, uma espécie de “instinto de detetive” que lhe revele o significado mais amplo desta informação. Em conseqüência disto virão o aumento de conhecimento e a possibilidade de uma real percepção intelectual. Deve-se salientar que com o desenvolvimento deste “instinto de detetive” e com o uso de várias técnicas de julgamento e inferências que lhe são ministradas no curso de comunicação falada, ela pode tornar-se mais consciente das outras pessoas, de sua¬s ações e reações, do que era antes de perder a visão.
E mesmo que a sua leitura de impressos seja agora um tanto quanto restrita, nada o impede de tornar-se cada vez mais um habilidoso leitor de criaturas; e assim apren¬der muita coisa que desconhecia sobre a natureza humana e sobre o que acontece no seu mundo.
A importância da mobilidade que está reconquis¬tando deve ser assinalada aqui. O lugar-comum “Viajar é desenvolver-se” aplica-se igualmente à pessoa que ficou ce¬ga; ela necessita andar — até à loja da esquina, ou até à casa do vizinho ou até onde lhe permitam as oportunidades — e encontrar algo para explorar, algo novo, algo arris¬cado, para manter e ampliar seu circulo de relações, amizades e o número e escopo de suas experiências.
A necessidade de usar os meios de comunicação escrita que já foram restaurados e providenciar para ser suprido com o que precisa: livros em Braille, livros falados, correspondência pessoal, ledores, rádios, (providenciar informação sobre programas, quer através de amigos dotados de visão, quer de programas em Braille, fornecidos por instituições) etc., deve ser bem esclarecida.
Readquirindo sua mobilidade e facilidade de comunicação falada, a pessoa cega terá meios para aumentar as oportunidades de comunicar-se com outras pessoas e conhecer coisas novas. A possibilidade de cursos de educação de adultos, palestras, descrições de viagens, clubes para debates, e projetos de melhorias da comunidade, devem ser indicadas para que todos, mesmo as pessoas que nunca se interessaram por estas atividades, percebam os benefícios de¬correntes. Não se deve levá-lo a mudar seu nível cultural ou tornar-se um dependente se nunca o foi, mas simplesmente mostrar-lhe novas oportunidades de adquirir conhecimentos e travar relações de acordo com sua formação cultural, treinamento e gostos.
Acima de tudo, reconhecerá a necessidade de ti¬rar vantagem de todas as oportunidades, de criar novas, para aumentar sensivelmente o número e a intensidade das suas relações inter-pessoais e de novas experiências. É necessário frisar que estas novas relações não devem restringir-se somente às pessoas cegas; todos os esforços devem se dirigir à ampliação das relações dentro do círculo ge¬ral das pessoas dotadas de visão, no qual ela encontrou toda a experiência de sua vida.
Em relação a campos especiais e interesses especiais poderá ela receber assistência da família e dos amigos que compartilharão dos mesmos. Isto não implica em qualquer desvantagem para os interesses alheios; se puder acontecer naturalmente, será ótimo. Mas seria contraproducente suportar o longo martírio de demonstrar interesse no que ela realmente considera cansativo, seria inevitavelmente descoberto e prejudicial à pessoa que ficou cega. Nem deveria permitir que seus interesses se transformassem em tiranos intervindo na organização do lar. A solução mais adequada, quando possível, é a de procurar camaradagem e meios para progredir entre aqueles que já compartilham dos mes¬mos pontos de vista. Em outras ocasiões, especialmente com o propósito de leitura, poderá planejar pagar um ledor se puder dispor de recursos para tal.
Em qualquer caso, ela precisará, num certo momen¬to, valer-se de um observador dotado de visão. É, portanto importante, principalmente em conexão com o progresso na aquisição de informações, que ela mostre como fazer o melhor uso dos olhos alheios. Isto significa que precisa aprender a deduzir o tipo de descrição que mais a auxiliará, como enunciar as questões sistematizadas exigidas por certa situação — questões que a capacitarão efetivamente a contentar-se com o quadro visualizado que procura criar. Geralmente isto envolve fazer as perguntas que lhe darão inicialmente a “gestalt”, o completo “sentir” do assunto, e mais tarde os detalhes (vale notar que frequentemente ela recebe mais da descrição feita por crianças do que pelos adultos; suas perguntas fornecerão as informações que necessita quando respondidas com a franqueza de observação encontrada nos jovens). Mas, em alguns pontos precisará da observação treinada de um técnico no assunto.
Restauração na aquisição do progresso de informações, então, é principalmente, uma questão de motivação e de oferecer-se oportunidades para usar os meios já incluídos no treinamento de reabilitação. É de máxima importância que isto seja feito de modo adequado.


NOTAS DE RODAPÉ
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1 - Quando os músculos dos olhos estão prejudicados ou quando este hábito está muito fixado para ser eliminado, a pessoa deveria usar lentes opacas.


CAPÍTULO 14
RESTAURAÇÃO DA APRECIAÇÃO

11 - Percepção do agradável

As diferentes espécies de prazer, outrora, permitidas ao indivíduo que ficou cego, que consistiam em olhar aquilo que era “bom de olhar”, podem ser quase completamente restauradas. Aqui, como já foi visto, quando discutimos a perda, o prazer não vinha das qualidades vi¬suais destas coisas, mas da sua presença. Quando os indivíduos cegos aprendem a perceber a presença dessas coisas, por meio de suas próprias atividades dos sentidos, incluindo o poder da visualização, e aprende a fazer desta percepção um “abraço” da sua capacidade de ser amável, querido, satisfeito, ele reconquistará novamente o prazer e, essencialmente o mesmo prazer que tinha, outrora, em contemplá-los; ele os achará “bom de serem percebidos”.
Por conseguinte, o trabalho do centro de reabilitação consiste em mostrar aqui, ao treinando, no que consiste esta perda: ajuda-lo a analisar as várias razões por que ele acha as coisas “boas de olhar”, e indicar a me¬lhor maneira de fazer uso dos meios que lhes são proporcionados no treinamento da reabilitação a fim de achar que as coisas são “boas de serem percebidas”. Nenhuma análise dessas razões pode ser exaustiva, nem pode separar, claramente, uma de outra. Frequentemente, muitas razões dife¬rentes fazem de uma pessoa ou coisa, boa de ser vista ou percebida. Não obstante, a lista que se segue pode ser útil para ajudar o cego a se convencer que quase todas as espécies de “coisas que agradam” e que outrora percebia através da visão, ainda podem vir ao seu encontro por ou¬tros meios.
1 - Prazer de se olhar para objetos de sua propriedade, olhando as coisas que lhe pertencem. O máximo do egoísmo e o do avarento que sente imenso prazer em contemplar o seu ouro. Não é a sua “visualização” que o satisfaz e sim por que é “seu”. Dentro de certo limite isto é verdadeiro em todos nós. É a visão que traz todas estas coisas para o “espectador”, que lhe dá o seu conhecimento presente. Mas o ato de ver não é razão para o prazer. A razão é a percepção, é o conhecimento, é o fato da posse.
2 - Há o prazer de se olhar para o objeto de sua afeição — olhando aqueles aos quais está preso por laços de afeição — marido e esposa contemplando-se, as crianças e os pais, os bons amigos que se cumprimentam, “prazer em revê-lo!”. Aqui também, não é a visão que nos dá esse prazer, é tudo aquilo que a visão significa, é a certeza imediata do objeto de nossa afeição — é o fato dela estar presente ali para ele, é o esquecimento da distância.
3 - Há o prazer de se olhar um objeto bom, que tenha qualidades que nos atraem, cuja vista nos dá prazer. Uma crian¬ça que passa na rua pode provocar tal sentimento. Ela pode não ser uma beleza, porém algumas qualidades que apresenta despertam um eco dentro de nós, tanto assim que vendo aquelas qualidades nós imediatamente sentimos prazer. Repetindo, quando discutimos esta perda; é a perda do homem ou da mulher que os torna incapazes de ver a pessoa do sexo oposto. A qualidade do “bom” poderia ser a qualidade do seu ar va¬ronil ou da sua graça feminina que os torna bons de serem olhados.
Todas essas e outras qualidades de “bondade” tornam as coisas “boas de serem vistas”, entretanto, à medida que vamos analisando, parece evidente que o prazer não é encontrado no ato de ver, mas sim naquilo que percebemos.
4 - Há o prazer de se olhar o objeto elegante (dentro do sentido mais amplo de “beleza” — amabilidade, beleza, graça, interessante para se olhar, atraente). É agradável de se olhar para qualquer coisa que tenha algo de retidão, certa consonância: um carro novinho em folha, uma casa recentemente pintada. Aqui também, não é somente o ato de olhar ou ver e sim a percepção total que realmente causa prazer.
5 - Há o prazer de se olhar o objeto querido por associa¬ção. Por exemplo: rever a casa em que crescemos, pode ser uma fonte de prazer real, devido às agradáveis recordações que evoca, Outros sentem prazer em olhar o campo, um rio, ¬faz parte desta espécie de prazer. O prazer da associação.
6 - Há o prazer de se olhar para o “que é bem feito”. É bom de se ver como os artesãos trabalham, ver sua ordem e o interesse que os anima naquilo que fabricam, Prazer que muitos têm em observar as grandes obras de escavação, não é, como já foi aliás constatado, o simples prazer de olhar o buraco no terreno. É o prazer de acompanhar o que se está realizando, uma criação no seu gênero — homens trabalhando com um determinado fim, tendo sob seu comando os românticos e fantásticos removedores de terra. Isto tudo é bom de se ver, mas o prazer não é o simples prazer da visão.
7 - Há o prazer de se olhar o desenho dos objetos. As coisas bem feitas que são boas de se olhar, Quanto mais tomamos conhecimento da inteligência e habilidades envolvidas na sua feitura, tanto mais sentimos prazer em olhar para elas. Livros bem cuidados constituem para o guarda-livros um “algo de belo”, Olhando-os, ele vê seu desenho, a inteligência que os concebeu, não somente porque ele vê, mas sim porque os conhece. Ainda outra vez, o prazer não é meramente o prazer do órgão, final nos olhos ou nos ner¬vos ópticos.
8 - Há o prazer de se olhar o objeto familiar. Aqui encontramos a segurança conhecida daquilo que não traz as ameaças das grandes áreas do desconhecido. Assim, pois, gosta-se da paisagem da cidade natal, da sua própria vizinhança e das pessoas conhecidas. Outra vez, repetimos, é mais o conhecimento que essas coisas estão presentes do que a vista deles no momento, que causa a satisfação,
9 - Há o prazer de se olhar o objeto novo, o objeto que não é familiar. Tem-se o prazer de adquirir novas informações, de ganhar novos conhecimentos, de aprender, de satisfazer a curiosidade. O camponês na cidade, o homem da cidade no campo, o individuo num país estrangeiro todos têm este prazer. Ele adora ver paisagens novas. No entanto, não é vendo-as e sim as conhecendo que satisfaz.
10 - Há o prazer de se olhar o objeto onde “Deus se reflete”: uma noite clara cheia de estrelas, a lua no mar so¬bre as velas movidas pelo vento, paisagens de rochedos, montanhas, torrentes, campinas que se estendem até o dis¬tante céu, luzes incontáveis do diamante, os rebentos de uma arvore, o nascer de uma flor, Á vista de qualquer uma destas coisas pode despertar na criatura, sentimentos da presença da eternidade, um maravilhar-se que o leva da majestade da criatura à glória do Criador. Caso ele esteja afastado de Deus e do conhecimento de Deus, pode ter o sentimento somente de respeito e de independência absoluta do mistério fora do seu alcance. Ele só pode pensar na gran¬deza da natureza, mas mesmo aqui o prazer experimentado é maior do que aquele dos sentidos. Está bem claro que o significado e não a visão é o que agrada.
11 - Há o prazer de se olhar o objeto do sexo. Aqui também pode haver um desdobramento de muitos dos diferentes aspectos já mencionados, particularmente do objeto da afei¬ção, Porém, completamente separado do amor, pode haver es¬te prazer da sensualidade que foi doada por Deus que pode ser certa ou erradamente usada. Aqui, o que é “bom de olhar” pode ser de fato moralmente bom e dar prazer, ou pode ser moralmente mau, porém ainda dar prazer sexual. Aqui chega¬mos a um aspecto no qual o prazer de ver pode ser diferen¬te, psicologicamente, para o homem e para a mulher.
Para a mulher, o prazer que deverá ser sentido deverá ser o pra¬zer refletido e moderado da antecipação, mais do que o prazer imediato de ver. Porem, já para o homem, há no ato de ver uma gratificação, um início do prazer do ato sexual.
Assim sendo, somente neste aspecto específico da percepção visual do agradável é que uma parte do prazer, pelo menos para o homem, consiste no ver o tangível. Entretanto, em substituição há os diversos prazeres do conheci¬mento da presença do objeto já mencionado acima.
Ajudaria muito ver como todos estes aspectos diferentes podem estar presentes num só ato de ver. Imaginem, portanto, um casal, unidos já há alguns anos e cujo amor se tornou mais profundo com o correr dos anos. Em certos dias, enquanto a esposa se ocupa com os serviços da casa, o marido está sentado meditativamente se comprazendo em contemplá-la.
As palavras objeto de propriedade ou de posse podem parecer rudes, porém uma das razões do seu prazer calmo é que ela é dele, há orgulho neste fato que constrói seu amor e seu bem-estar.
Objeto de afeição — é talvez uma expressão fraca. O homem sente um lampejo de prazer, sabendo que ela está presente, a quem ele se entrega, objeto de seu amor profundo e que se torna ainda mais profundo. Ela é o objeto bom naquilo para o qual foi feita para ser o que o é. Ela a mulher é uma mulher completa; reflete-se nela certa humanidade que faz bem ao seu coração e que de fato é bom de se olhar.
Mas ele também sente prazer porque ela é o objeto elegante. Existe nela uma retidão, certa consonância — maneira de se vestir, seu porte, ela mesma. Nela, ele vê a “formosura” que talvez o esteta analítico não perceba. Ela está certa para ele e é um prazer contemplá-la. Faz-lhe bem olhar para aquele objeto querido por associação. “Nós subimos o morro juntos ...“. As lembranças dos bons tempos sempre ocorrem — tempos difíceis e tempos mais agradáveis — nos quais cresceram juntos. E ve¬la, agora é bom.
Ele a observa, ocupada em “tudo bem feito” e há um sentimento de prazer nesta contemplação — a or¬dem, a finalidade, o método do trabalho. Isto é bom de se ver e ele vê que é bom.
Os objetos desenhados, as coisas que ela sabe fazer, dá-lhe novo prazer quando ele os vê e seu pensamento se volta para ela que os executou. Até seus filhos têm algo que se relaciona com isso são o produto de ambos, os filhos que eles criaram e que vêem crescer. Ele os olha agora e eles são bons; a tarefa que ela teve em criá-los educá-los, de novo, o leva ao prazer que é seu em vê-los e em vê-la também.
Certamente ela é o objeto familiar com o qual ele partilha seu lar, ela não é uma ameaça oculta à sua segurança, mas o sustentáculo das suas forças e fraquezas. Ela é uma parte dele e um prazer para se olhar.
Entretanto, há algo nela de um objeto novo. Ocor¬rem as novas descobertas, um constante adivinhar de novas profundezas da personalidade e que continuam com o passar dos anos; novas experiências, novos cuidados surgem, fazendo parte da experiência de toda uma vida. A vida é constituída de descobertas e cada nova descoberta é boa de se ver, à medida que ela se torna parte de um todo mais claro, mais vivo.
Ela é o objeto onde “Deus se reflete”, cheia de respeito e mistério. O firmamento mais estrelado, a flor mais preciosa jamais refletiu com maior precisão as glórias do Criador como ela, com todas as suas qualidades, suas sutilezas, seus mistérios, sua bondade, seu reflexo de totalidade de grandeza da Sabedoria e do Amor infinito que a criou. É bom, de fato, de olhá-la.
E esta esposa do seu coração é o objeto do sexo que o satisfaz na expressão do seu amor — atuando com ele na expressão de sua mutualidade de que lhe foi doada por Deus, a doação — aceitação da exteriorização da sua unidade íntima no ato da união física — o abandono do eu, não mais dois e sim apenas um. E, no ardor repleto do prazer que é uma parte dele, visualmente ele a alcança e com a vista ele a abraça.
Aqui, portanto, estão alguns aspectos nos quais encontramos pessoas e coisas “boas de se ver”. E todos eles exceto o último que foi mencionado, são aspectos nos quais o homem cego pode encontrar pessoas e coisas igualmente “boas de se perceber”, sem o uso da visão, se ele aprende a procurar e reconhecer sua presença, utilizando-se dos outros sentidos. Obviamente, outras atividades dos sentidos, além das atividades da visão, estão envolvidas até certo grau no indivíduo com visão, transmitindo o conhecimento da “presença que agrada” sob cada um dos aspectos mencionados acima. A tarefa do centro de reabilitação, aqui, é de mos¬trar de que maneira estas atividades sensoriais podem assumir o papel outrora ocupado pela visão. Aqui então, com apenas uma exceção, é possível uma verdadeira restauração no programa de reabilitação e o cego fará sua parte.
Restará um outro fator que mencionamos quando discutimos essa perda — o que poderia ser chamado de prazer da percepção visual, a perda do prazer no receptor da visão. Nós associamos tal prazer muito mais prontamente com os assim chamados, sentidos inferiores. Há momentos em que a simples alegria de estar vivo já é uma alegria, com o puro prazer sensual de ter exercido e exercer nossos sentidos. Talvez numa bela, esplêndida manhã no campo, quando a natureza está despertada, nós conseguimos ter uma repenti¬na e total certeza de estarmos vivos e de sermos criaturas dotadas de sentidos. Poder respirar o ar puro e penetrante com as narinas prontas a receber e saborear; cheirar, pro¬var o gosto do ar; estender e relaxar cada múscu1o e cada fibra do corpo; sentir profundamente a extensão e o relaxamento; alcançar, tocar, sentir, até mesmo conhecer o pra¬zer não masoquista da dor do frio na pele quente — isto é estar vivo, num mundo dos sentidos, onde se pode ter reno¬vada a gratidão pelos sentidos e onde há o prazer em exer¬citá-los.
Haverá, também, tal prazer sensual na visão e na audição, nos assim chamados sentidos superiores? Poderia ter acrescentado à lista da nossa clara manhã no campo, a atenção a cada som ou a nítida previsão das coisas em re¬dor. Poderíamos sim, mas aqui há uma diferença. Estamos agora mais interessados no objeto do sentido, do que na própria atividade do sentido. Estes, entram em contato com seus objetos de tal maneira tão direta e imediata que pouco pensamos, ou saboreamos o prazer sensual do seu uso.
Entretanto, há um sentido no qual “vendo” o tangível é importante, especialmente, para certas pessoas. A luz é o veículo para a visão, porém a luz, a cor e a forma são todos “objetos apropriados” para a visão. E entre todos estes, a cor tem as conotações mais íntimas e emocionais.
A capacidade da cor em si, de levantar ou deprimir o humor tem sido o objeto de muitos estudos, porém estes são bastante supérfluos, quando consideramos a alegria que um espocar de cor pode trazer a um indivíduo. A explosão de cor que excita a emoção quando alguém sai de um edifício na obscuridade, ou artificialmente iluminado e se depara com o pôr-do-sol de primavera ou outono — não são necessárias pesquisas para nos falar de sua existência. Nem tampouco, temos necessidade das experiências de laboratório para nos certificarmos do prazer intenso que muitos encontram na harmonia das cores evaporadas de um nevoeiro distante.
A perda deste prazer todo especial foi limitada quando falamos da perda do campo visual; foi mencionado acima quando falamos dos “objetos onde Deus se reflete”. Não obstante, tudo isso, é uma perda que exige seja reconhecida — por si só.
O que se poderia fazer a seu respeito? Teria ela se perdido completa e irreparavelmente para aquele que perdeu a visão? Eu, pessoalmente, não penso assim. Acredito vivamente que, por um lado, os profundos sentimentos que as cores evocam podem ser evocados pelos outros sentidos, principalmente pelo olfato e pela audição. E por outro lado, o indivíduo cego que retém fortemente a lembrança das cores, evoca pela visualização (muito mais apuradamente do que qualquer precisão de feitio ou forma, medidas de espaço movimento, ou paralaxe, ou o julgamento da perspectiva) o claro e brilhante resplendor das cores.
Exagerar, aqui, as possibilidades da restauração, ou para qualquer outra perda — seria muito mais grave que exagerar a perda em si mesma; assim, pois, é importante notar que a substituição não é o original e que de tempos em tempos, parecera uma imitação falsa. Há, porém, um grau no qual o que foi perdido aqui, pode ser restaurado e é essencial que nós que estamos trabalhando na reabilitação, o reconheçamos e nos esforcemos por consegui-lo.

12. Percepção do belo

A fim de discutir o que pode ser feito para restaurar o que foi perdido com a cegueira na percepção visual do belo, necessitamos, primeiramente, de ter alguma noção do que é o “belo” e no que consiste sua percepção, embora qualquer discussão do ponto de vista estético possa parecer estranho no campo da reabilitação.
A linguagem popular usa a palavra “belo” num sentido tão amplo que fica quase sem um significado. Aplicamos a palavra em coisas que possuem uma aparência que com¬bina com a moda do dia (o “belo carro novo”); aquilo que de certa forma excita nossos sentidos (a “bela mocinha”); ou uma opinião geral (o “belo bebê”). Mais ainda, aplicamo-la também às coisas que têm uma certa bondade que nos agrada —(um “belo caráter” ou mesmo um “belo bife”). A beleza, po¬rém, no seu sentido mais restrito é algo mais do que qualquer destas qualidades ou mesmo a soma delas todas.
No capítulo anterior usamos a palavra “agradável” para designar todos os aspectos das coisas que os causa para nos agradar, à medida que os percebemos. Aqui, pretendemos discutir a perda, não a de determinado prazer, mas daquele “gáudio” especial, estético, numa pobre e inadequada tradução de “deleite”. E o que causa tal deleite dentro de nós é o belo.
Os filósofos falam da beleza como aquilo que dá “um raio de inteligibilidade ao coração”. Aristóteles se refere à beleza como não despertando desejo além dela própria, pois que o desejo é minorado pela “proximidade” do objeto. Pela sua sensação e conhecimento, e que vem com a experiência da beleza, O deleite estético é encontrado numa experiência de beleza verdadeira que é “intuitiva, intelectual” e na qual combinam a razão e o intelecto. O “abraçar” do ob¬jeto tem uma “proximidade” onde não há necessidade de raciocinar. E na presença de uma grande beleza, pode haver um “êxtase” quando ao contemplar “se sente levantado acima de si mesmo”. Os poetas se referem a este fato como um “vislumbre temporal do eterno”.
Para a maioria dos teóricos clássicos a percepção da beleza é somente possível, através dos “sentidos superiores” da visão e da audição 1, estando a razão no exercício destes sentidos, a percepção intelectual segue tão di¬reta e imediatamente no sentido da percepção como para formar um único ato. Já no exercício dos outros sentidos, a percepção da própria sensação intervém e impede o contato imediato sensorial-intelectual necessários para a percepção da beleza. Assim, pois, a dança não viria do prazer do abandono ou controle cinestético; não consistiria nos movimentos livres ou rítmicos, mas no movimento que é visto atualmente pelo espectador, visto na imaginação do participante 2.
A beleza na poesia seria no auditório, a beleza de suas linhas e da imagem visual que evoca, juntamente com a imagem do significado que transmite.
Existem muitas outras escolas de pensamento entre os estetas, alguns dos quais dariam outras elaborações com relação à natureza da beleza. Alguns, por exemplo, valorizam a integridade do objeto e a percepção do que é “bem feito” — o que poderia significar que a percepção da beleza viria através de quase qualquer um dos sentidos exteriores. Porém, estes aspectos poderiam ser incluídos, pelo menos quanto aos nossos propósitos aqui discutidos, entre aqueles que são antes agradáveis do que belos de se¬rem vistos e cujos aspectos já foram mencionados na parte anterior.
Realmente, é de se admirar como na nossa civi1ização se expandiu a percepção da beleza neste sentido restrito, Minha experiência mostra que apenas um ou dois de um grupo de mais ou menos quinze indivíduos cegos, realmente, sentem esta perda como uma morte que traz sofrimento e dor. Para outros, não se trata absolutamente de uma morte, pois, jamais “viveram” dessa maneira. Para aqueles que assim viveram, esta perda é de fato muito importante. Cabe a nós nos esforçarmos e fazer o que for necessário para restaurá-la.
Com a visão bloqueada como meio de perceber a beleza, o indivíduo cego ainda tem o sentido da audição. E ainda há também grandes possibilidades inerentes na força da visualização.
Audição — nosso dever é ajudar o individuo cego a substituir a percepção auditiva do belo, pela percepção visual que foi perdida. Isto significa que o centro de reabilitação precisa descortinar para seus treinandos, o mundo inteiro de sons, darem-lhes uma nova consciência dos sons, seus significados, suas qualidades. Nosso propósito precisa ser igualmente amplo. Não pode se restringir a certa busca eclética dos “belos” sons, mas deve incluir um reconhecimento de assonância e dissonância, até mesmo de na cacofonia. Precisamos ensinar aos nossos treinandos a encontrar a “bondade” dos sons caseiros, a sutileza dos sons mais comuns, o significado do roncar de um motor, a precisão compassada do tique-taque de um relógio. O som de um pássaro, o som do vento, o som de um riacho, o som de um animal, o som de um inseto — alguns são belos por si mesmos, porém, a sua apreciação, em geral, é quase uma necessidade, se de fato quisermos alcançar a verdadeira beleza de qualquer um deles, ou uma simples combinação dos mesmos. Precisamos revelar a amplidão dos sons humanos — som das vozes, som das palavras, som da fala — e uma apreciação deles que pode constituir uma base para a busca da beleza.
Além disso, há a música. O estereótipo do músico-cego é falso e, como muitos estereótipos, pernicioso. A crença popular muito divulgada de que todo cego é um musicista e um amante da música ou um crítico musical. É um erro, apenas um outro meio de tornar os cegos “diferentes”.
O fato é que alguns cegos têm “ouvidos fino” para a música e aqueles que desejariam apreciá-la, nem sempre gostariam de pô-lo em prática 3. Não há razão para se crer que a situação seja diferente entre cegos recentes adultos. Alguns dentre eles, não terão capacidade para apreciar a música e outros não demonstrarão interesse neste setor. Para fazer da música uma parte importante nos nossos esforços de reabilitação, seria como que forçá-los a se integrarem en¬tre os estereotipados. Porem, para a criatura que sutilmente sente a perda da percepção visual da beleza, a música é de grande importância. Nem todo aquele que tinha um grande amor pela beleza visual encontrará, imediatamente, um substituto de igual valor na beleza auditiva da música. Entretanto, se a capacidade de apreciar o belo através do sentido da visão já existia, é quase certo de que a capacidade de se apreciar a beleza através do sentido auditivo também existirá. Pode ser bloqueada por falta de experiência ou por prejuízos de uma espécie ou de outra. Caso isso aconteça, é tarefa do centro de treinamento da reabilitação de removê-lo.
Nestes dias de sons de alta fidelidade e de estações de rádio de freqüência modulada, as oportunidades dos amantes da música de ouvirem boa música são infinitas. Pode ser também, que alguns serão compelidos a mais apurada apreciação da música, aprendendo a tocar um instrumento musical. Está claro que o centro de reabilitação não é um local onde se ensina a tocar instrumentos musicais, porém, o indivíduo cego que está interessado deve ser encaminhado para tal.
Há, também, os discos para enriquecer os conheci¬mentos de boa música e que são úteis e podem ser um meio rápido para desvendar as alegrias e a beleza da boa música, um passo no caminho para o dia em que a experiência do de¬leite estético chegará ao cego por intermédio do seu sentido da audição.
Visualização — Se a beleza, no seu verdadeiro sentido, pode apenas ser percebida através da visão e da audição, parece-nos que trabalhando com o sentido da audição fizemos tudo o que seria possível para restaurar no cego as possibilidades de perceberem a beleza. Há, porém, mui¬to mais que pode ser feito — através das forças da visualização acima mencionadas. Assim como Beethoven apreciava a beleza da música, mesmo depois de totalmente surdo, o homem que outrora possuía visão, pode apreciar a beleza das coisas visuais, mesmo depois de completamente cego.
Isto nos leva de volta à completa teoria da visualização e de seus valores para o indivíduo cego. Acredito que a memória do belo pode ser recordada e que muitas imagens visuais lembradas individualmente, consigam ser com¬binadas de maneira a trazer à mente novas imagens — ima¬gens de coisas que o indivíduo cego jamais vira antes, que estão presentes na sua frente, aqui e agora. O desenvolvimento deste poder envolverá treinamento e prática, porém,  com o treinamento e a prática, acredito que o cego pode conservar suas memórias visuais. Por outro lado, a não ser que ele faça uso dos seus poderes de visualização, poderá perder seu sentido das formas visuais, moldes e perspectivas do mesmo modo que sabemos que ele se pode permitir perder sua memória das cores.
Caso o individuo cego deva continuar a apreciar os objetos, visualmente, eles devem lhe ser entregues através da descrição ou (o que pode parecer paradoxal) por intermédio dos outros sentidos ou através de uma combina¬ção da descrição e da admissão do sentido 4.
Assim ele seria capaz, por exemplo, de chegar a apreciar uma peça de escultura, visualmente. Segurando-a, sentindo-a, tateando-a, ele poderia levar à sua mente um conhecimento da mesma forma que aos olhos da sua mente tomaria a forma de imagem visual da peça que ele segurou em suas mãos.
A beleza que ele achou nela não estaria na imagem do tato, nem na imagem cinestética (nenhuma das duas devendo ser necessariamente agradáveis), mas sim na imagem visual. Se o objeto fosse de fato belo de ser visto e se sua imagem refletida nele fosse verdadeira, então, ele teria de novo uma percepção visual do belo, implícita e intuitiva, enle¬vada, um reflexo da verdade e beleza eternas 5.
Outrossim, o individuo cego pode estar na presença do belo, vasto e majestoso demais para ser alcançado, delicado demais para ser tocado; ou colocado numa tal dimensão que somente a vista poderia alcançar. Aqui haverá, então, a descrição que pinta sua imagem visual — as palavras que comunicam, que gravam um quadro na sua mente. E neste quadro está a beleza que ele veria — e que agora “vê” — sendo que a percepção visual do belo lhe é, desta forma restaurada 6.
Isto porém, nem sempre acontecerá. As palavras desapropriadas, palavras desajeitadas de indivíduos providos do sentido da visão, mas que não sabem realmente “ver”, ou mesmo comunicar o que vêem pode, ao invés de restaurar a percepção da beleza, despertar toda espécie de frustrações com sua perda. Necessário se faria, então, um longo período de ajustamento e aprendizado para o indivíduo que vai se utilizar de um dos meios que substituem a visão e no processo podem ocorrer muitas experiências cheias de frustrações e sofrimentos.
A despeito destas “deficiências”, creio que a reabilitação tem vários instrumentos a seu serviço, com os quais poderá superar de muito os sofrimentos da perda da percepção visual do belo.
Olfato — Como já foi citado, anteriormente, existe uma escola de estetas que inclui o sentido do olfato entre os sentidos “superiores”, capazes de trazer um deleite estético. Embora, pessoalmente, não acredite nisso, não obstante, a escola goza de uma autoridade suficiente para ga¬rantir a inclusão de algumas sugestões no que concerne ao desenvolvimento deste sentido, nestas linhas. Algo do que foi dito com respeito à audição, aplica-se também aqui, isto é, não se trata apenas de escolher perfumes agradáve¬is, mas sim de apresentar um mundo completo de odores.
Aqui, porém, nosso dever é muito mais difícil do que o foi, em relação ao sentido da audição. Nenhuma faculdade dos sentidos é tão inibida e limitada por um esnobe bitolado, como o é em nossos dias, este sentido. Por uma afetação tão vulgar como os da época vitoriana, os termos cheiro e odor se tornaram tão indelicados, como outrora o fo¬ram braços e pernas; “fragrância” e “essência” podem ser mencionados nas conversas hodiernas, como outrora “membros” era permitido; “pernas”, jamais. Pode-se reconhecer o perfume e o “buquê”, mas cheirar cheiros é quase indecente.
O indivíduo que deseja apreciar a beleza através do sentido do olfato, deve se familiarizar com os cheiros fortes e delicados, fabricados e naturais, bons e maus cheiros, e todos aqueles cheiros comuns, “caseiros”, com suas conotações que envolvem seu quadro de referências. O cego recente deve chegar a conhecer, experimentar e distinguir cheiros, odores, fragrâncias, perfumes, essências, buquês na sua totalidade, como base para apreciar os cheiros que podem traduzir beleza. A terra e o feno tenro; a doçura de uma boa plantação; florestas; campos; animais e fazendas; uma queimada; carne recém abatida; o cheiro da nogueira; o cheiro limpo de peixe salgado. O cheiro da manhã, do entardecer, do dia pleno, do dia seco e do dia úmido e o cheiro dos diferentes ventos. O cheiro das pessoas, dos quartos fechados e das salas de visitas; o cheiro do bom tabaco e dos diferentes sabões — tudo isto e muito mais constituem a base necessária para se apreciar a beleza do cheiro que advém disto tudo.
A fim de ajudar a restaurar a percepção do belo através do sentido do olfato, o centro de reabilitação, enquanto trabalha com o sentido do olfato no propósito de colher informações gerais, também trabalhará com perfumes, incensos e o reconhecimento de flores e ervais aromáticas. Tais coisas não representam para cada indivíduo cego mais do que o curso de apreciação musical, porém, para aqueles que sofreram intensamente na perda da apreciação visual do belo, eles podem ser um fator importante na reabilitação total.
Mas, se aquela escola de estetas estiver certa, que assevera que a beleza pode ser experimentada através do sentido do olfato, então, as planejadas áreas de parques públicos ou jardins botânicos como “jardins perfuma¬dos para cegos”, não deve ser suficientemente condenados. A segregação do cego envolvido é altamente perniciosa pa¬ra aqueles que são desta forma segregados. Mais prejudicial ainda é o efeito no público provido de visão, pois tais “jardins” criam um novo estereótipo, que envolve idéias de que tais pessoas devem ser segregadas. Elas têm interesses diferentes dos indivíduos normais, que estão de¬samparadas quanto a participarem de esforços normais e que o povo deve se apiedar deles, quando palmilham seu caminho isolado, aquecidos na fragrância de um outro mundo.


NOTAS DE RODAPÉ
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1 - Alguns também incluiriam o sentido do olfato.

2 - Muitas pessoas que se opõem à teoria de que a bele¬za nos vem somente através dos sentidos superiores, logo acrescentam o balé com uma duvida. — Certamente, muitos deles apreciam o balia, porém poucos o praticam.

3 -Em média, o gosto pela música entre as pessoas que sempre foram cegas será, talvez, maior do que naquelas dotadas de visão, não somente porque algumas crianças ce¬gas, sem outro interesse pelos sentidos, bem cedo despertam seu interesse pela música, como também, e muito especial¬mente, porque as escolas para cegos insistem no ensino da mesma.

4 - A possibilidade de compor uma imagem visual através de material produzido pelos outros sentidos, creio eu, é a fonte da crença geral de que a beleza pode ser percebida por intermédio do sentido do tato e por isso, por exemplo, crianças cegas podem ser educadas na percepção do belo, quando se lhes dão para sentir, coisas belas de serem vistas. Tendo estas crianças um estoque de imagens visuais que po¬dem ser desenvolvidas e recombinadas, elas certamente poderão tirar proveitos estéticos do “sentir dirigidas para a visualização”. Creio, porém, que é irrealistico experimen¬tar cultivar a percepção do belo, diretamente, através dos sentidos do tato. Elas, simplesmente, não são capazes de fazê-lo por si mesmas.

5 - Historicamente, os maiores esforços feitos em relação ao ensino da escultura ao cego, levou sua atenção ao tipo de escultura que apela pelo sentido da visão. Foram feitas tentativas em reproduzir esculturas famosas, úteis pa¬ra as crianças cegas — não porque elas com isto, ganhassem um conhecimento da forma das grandes esculturas que poderiam ser louvadas, mas para que supostamente elas pudes¬sem, através das esculturas, ter um prazer estético — algo que eu creio ser impossível através do sentido do tato, ou que poderia acontecer por simples coincidência. A escultu¬ra foi feita para ser vista e não tocada. É bem verdade que ela só pode ter qualidades esculturais no momento que tenha qualidades “táteis”. Mas, trata-se aqui de uma qualidade “ver tocando” do que uma simples qualidade de pegar, de tocar. Agora é possível imaginar-se uma escultura para o sentido do tato, porém, seria difícil para qualquer um que não fosse cego de nascença, de inventá-la. De fato, podem ser feios à vista, da mesma maneira que belas peças de es¬culturas são feias ao tato. Para todos aqueles, entre nós, que afirmam que uma verdadeira experiência estética só po¬de vir através dos sentidos da visão e da audição, necessário seria ensinar-lhes a possibilidade do sentido do tato se tornar dos mais importantes, no caso de cegos congênitos. Não se trata de um postulado impossível, pois que, experiências recentes indicaram que o córtex visual é ativado nos indivíduos com cegueira congênita. Porém, se realmente assim for, então a escultura que daria o verdadeiro “gaudium” estético a este grupo seria quase que diferente de qualquer escultura que conhecemos. Como se¬ria seu estilo e o material empregado? Que podemos dizer? Teria alguma mensagem para aqueles que haviam, outrora possuído o sentido da visão? Repetimos — não o sabemos Entretanto, podemos sondar a possibilidade de, no curso da História, algum Michelangelo, algum Rocem, cegos terem produzido obras de arte que perdurariam através dos séculos; mas que tais obras tivessem sido ridicularizadas e eventualmente destruídas por um público com visão que não poderia saber que uma escultura pudesse existir para o sentido do tato, e assim sendo jamais haviam se preocupado em tocá-las,

6 - Que diremos do cego-surdo congênito? Neste caso, sua percepção da beleza teria que ser quase que puramente in¬telectual - a percepção da beleza do significado, sem o componente normal da censura que é uma parte intrínseca desta experiência, como todos nós sabemos. Porem, como foi dito anteriormente, a organização completa do sensório do indivíduo cego congênito, ainda é um assunto de conjetura — e ainda maior, no cego-surdo congênito.


CAPÍTUO 15
RESTAURAÇÃO DA OCUPAÇÃO E DA SITUAÇÃO FINANCEIRA

13 – Recreação

A restauração da recreação é parte importantíssima do nosso trabalho — tão importante que alguns a consideram quase o único trabalho, do qual a pessoa cega tem necessidade. Isto, definitivamente, não é verdade. Recentes estudos psicológicos indicam que existe um elemento de fuga na atual difundida procura por óbvias formas de recreação e que a pessoa verdadeiramente ajustada é capaz de encontrar diversão e descanso, sem programas de recreação metódica.
Não obstante, estando aquele que ficou cego sujeito aos múltiplos e repetidos traumas da cegueira, tem necessidade especial de nova vida possibilitada por uma recrea¬ção construtiva e a restauração desta capacidade é um importante aspecto do nosso programa.
Precisamos esclarecer bem o que entendemos por recreação: não é uma série de atividades destinadas a preencher todos os momentos de lazer — o conceito moderno de que a criatura humana precisa estar “fazendo alguma coisa” todos os momentos, é um fenômeno assustador. Mas, atividades que ofereçam oportunidade de verdadeiro descanso e de con-templação é que devolvem a pessoa bem disposta a sua vida e ocupação.
A tarefa de um programa de reabilitação é, consequentemente, ajudar aos que ficaram cegos a ganhar as atitudes e habilidades que lhes tornarão possível a recreação; oferecer-lhes uma ampla escolha de possíveis formas de recreação: de verificar que, realmente eles retornem à convivência de uma recreação com aqueles que possuem visão e de ajudá-los a compreender e sobrepujar as sérias dificuldades que possam surgir.
As atitudes e habilidades necessárias serão obtidas através de programa global — sendo, particularmente relevante o curso de comunicação falada. A atitude de alguns indivíduos quanto à recreação talvez precise de orientação. Certas pessoas sofrem de um sentimento neurótico de culpa em relação à recreação, ou sobre uma forma particular da mesma. Tendem a racionalizar “o dar seu tempo a coisas” e usam como motivo para recreação o tratar da saúde, da vida intelectual própria ou alheia, ou adquirir novas habilidades. Outros tendem a fazer da recreação uma fuga. Em ambos os casos, deixa de ser uma verdadeira recreação. Aqueles que ficaram cegos, portanto, precisam ser es¬clarecidos, provavelmente em psicoterapia de grupo, do verdadeiro lugar e significado da recreação na vida presente e na vida futura.
Considerando as formas de recreação, que no momento lhe são accessíveis, aquele que ficou cego enfrenta o fato de que certas formas — talvez algumas das suas favoritas — tornaram-se absolutamente impraticáveis. Possivelmente haja necessidade de uma ajuda psicológica especial para interpretar o significado da perda e ajudar o individuo a procurar uma compensação. Mas, a grande urgência aqui é a de expor as múltiplas e várias possibilidades que permane¬ceram. Isto não deve ser feito de maneira geral e vaga, mas através de discussões concretas, tornando os motivos claros e despertando em cada pessoa sua própria imaginaçao, a fim de considerar qual destas possibilidades é a mais atraente e a mais praticável. O quadro B pretende fornecer o núcleo para tal discussao e de maneira nenhuma o mate¬rial completo.
Estabelecendo-se as amplas possibilidades de recreação, diversos fatores devem ser lembrados. As possibilidades devem ser, para cada individuo, suficientemente numerosas e variadas, para se adaptarem a sua personalidade, seus gostos, sua formação, seus preconceitos e preferências. Alguns novatos que se dedicam ao trabalho com a pessoa cega ficam felizes ao saber que existem tabuleiro de xadrez e jogo de damas especiais para o mesmo9 como se is50 e dispositivos semelhantes pudessem resolver todo o problema da recreaçào. Devemos ter em mente que os tabuleiros de xadrez especiais são muito úteis, mas somente para as pessoas cegas jogadoras de xadrez quando querem jo¬gar xadrez.

QUADRO B
ATIVIDADES RECREATIVAS E POSSIBILIDADES DE RESTAURAÇÃO
ATIVIDADE POSSÍVEL IMPOSSÍVEL
Leitura Principalmente intelectuais. Ver seção de restauração da comunicação escrita. 
Peças e cinema Possível gozo desde que os sentidos e habiliades estejam capacitados a seguir o que acontece. Cinema mudo e pantominas.
Conferen¬cias
 Grande fonte de prazer – importante para o desenvolvimento de novas fontes de informação. 
Concertos sinfônico e de jazz O crescente uso dos sentidos possi¬bilita real participação no aconte¬cimento ou efetivo concerto; a pes¬soa deve ser solicitada a fazer es¬forços e não contentar-se com gravações, T,V, e rádio, 
Rádio Evita monotonia e demasiada dependência, Necessária atenção para ob¬ter horário de programas. 
Televisão Ver acima. Valiosa fonte de recreação se usada de maneira certa, especialrnente como parte de padrão social; ajuda a gozar da conversação. 
Espectador de esportes Ver acima0 Começar com acontecimentos que são transmitidos pelo rádío principalmente,  portáteis; de grande valor. 
Visitas a museus e ver vitrinas Possível fonte de grande prazer, através dos olhos do companheiro intelígente que possa dar descrições competentes. 
Xadrez Excelente para as pessoas que fica¬ram cegas que apreciam o xadrez. 
Jogo de damas Como acima. 
Palavras-cruzadas, jogo de da mas Chinês, donuinó Tendo sido adaptados para o uso dos cegos.
 
Cartas Possivel logo que a pessoa conhe¬ça suficientemente o braille para ler marcas e comprar cartas braille ou marcar baralho comum, Brid¬ge, possível se uma pessoa dotada de visão disser ao cego o valor de “morte”. 
Visitas Continua fonte de recreação e importante para continuação e expansão de relações interpessoais. 
Conversação e discussão Devem ser desenvolvidas como arte. Ver a seção, na restauração da comunicaçã falada. 
Jogos de salão. Jogos de palavras, parte em pantomimas, etc. Aspecto adivinhatório das pantomimas.
OratSria e debates Possíveis. Aquisição de confiança extra pode ajudar no total ajustamento. 
Ativida¬des dra-máticas Quando a pessoa pode tomar parte adequada, tendo certeza que o grupo espera dela tanto quanto antes da cegueira. Alguns papéis impossíveis.
Excrusões Pode ainda trazer novas experiên¬cias, relações muito úteis neste ponto. Possibilidade de usaros olhos alheios para “ver cenários”. 
Comer fo¬ra Pessoas, atmosfera, comidas diferentes, tudo ainda disponível logo que esteja treinado para perceber tudo isso. 
Artes e ofícios Possível continuar com muitas e dominar novas Ver texto. 
“Hobby” e atividades de colecionar Possivel continuar com muitos0 Ver texto. 
Execução de músicas Aquele que ficou cego deve aprender noções de braiile para continuar. 
Escultura Pode ser experiencia recreativa tremenda para alguns, até mesmo execuções artistícas. 
Pintura à dedo Talvez útil para estimular o poder de visualização, como treino médio. Em outros casos, frustradora para muitos. 
Pintura e desenho, etc. Ver acima. 
At ivida¬des indi-viduais Reparos caseiros, colocar canos, consertos em instalações elétricas,etc, tudo possível. Curso dado no centro de reabilitação. 
Cozinhar Tanto o homem como a mulher podem usufruir grande prazer na habilidade de cozinhar pratos diversos, extraordinariamente bem. 
Danças Devem ser exercidas por muitos, mesmo por aqueles que nunca dan¬çaramm;  prazer não interferido; maior importância social. 
Piquenique Inclui muitas atividades ainda —possíveis e oportunidodes para tornar-se socialmente participante de um grupo. 
Jogos de malha e ferradura Oferece dificuldades, mas muitas pessoas que perderam a visão a¬cham prazer neles; jogos de olhos vendados indicam possibilidades e limitações. 
Bilhar  Impossível
Pingue-Pongue  Impossível
Caminhar Pode ter grande valor recreativo quando a mobilidade é restituida com o cão-guia ou bengala. Valor recreativo depende do grau de desembaraço e ausência de tensão obtida. 
Tênis  Impossível
Golfe Forma modificada de jogo possível: companheiro servindo como carregador, colocando a bola e descrevendo o caminho. Recreaçâo de valor para os jogadores antigos e novos, Não é um esporte segregado, apesar de haver o torneio internacional para golfistas cegos. Normalmente é disputado com pessoas de visão. 
Boliche Fonte de recreação como “esporte popular’. Sem sensação de pressões ou necessidade de grandes habilidades. Pista especial portátil pode ajudar mas a maioria não a usa. 
Caça Caça ao pato (atirando de esèonderijo, escondido, com companheiro dotado de visão). Sendo membro de um clube de caça. Qualquer tipo de tiro em sentido horizontal.
Pesca Várias formas de lançar a rede incluindo rede de superficie~ arrastão, etc, (Um engenho útil é a cor¬tiça sibilante). Provavel¬mente nas correntes d’água.
Tiro ao alvo Atirar no som emanado do centro alvo, Mais útil no treinamento da audição do que como recreação. Até o mo¬mento não existe ne-nhum tipo realmente praticáve1. Tentativas para dese¬nhar um pássaro sibilante para tiro, até o momento, sem sucesso.
Caça ao animal vivo Restrita pelas dificuldades de recolocar armadilhas. Mateiros treinados podem ainda divertir-se quando acompanhados. Comumente¬impossível sozinho.
Vaguear e marchar Usualmente restrita a lugares conhecidos, mesmo com bússola braille. Exceto acompanhado. Não completamente.
Acampar Pode ser membro efetivo de um grupo - cozinhar, lavar pratos, ajudar na limpeza, etc. Deve ser en¬corajado a continuar se já sentia prazer antes. 
Escalar montanhas No sentido turístico - subida de trilhas seguras e bem marcadas com acompanhante. No sentido lato de conquistar picos etc.
Montaria Possível quando há habilidade razoáve, conhece o cavalo e pode confiar nele, evita terrenos com árvores de galhos baixos,  etc. 
Velejar Em grupo9 se as constantes mudan¬ças de direção não transtornam seu senso de direção e não o perturbam. Impossível sozinho por causa da-dificulda¬de de per¬ceber obstáculos silenciosos.
Remar sozinho. Em certas circunstâncias, quando sons audíveis vêm do cais. Comumente.
Remar em equipe ou um atrás -do outro. Nenhum problema. 
Remar em canoa Como remar, exceto com a vantagem que o canoeiro volve-se para frente onde está a melhor localização do som. 
Corrida de barco Alguns se comprazem em fazer parte da tripulação;  podem guiar fora de competições com guias. 
Mergulhar Apreciada por alguns atletas cegos. Precauções devidas necessária (agua na piscina,  ninguém no caminho). 
Natação O esporte favorito de muitos. Neces sita condiç~es apropriadas: um sen tido de localização dos sons bem desenvolvido, Precauções razoáveis. Em situações desprotegidas (cegos já se afogaram, quando impossibilitados¬ de localizar a pra¬ia, seus -gritos por ajuda pas-saram desapercebido).
Escafrandro Possível. 
Esqui aquático Atualmente o “hobby” de muitos. 
Boxe A bola de ar é valiosa como exercicio, melhorando a coordenação Para alguns, recreativo. No verdadeiro sentido.
Esporte de competição em pista e campo. Lançamento de peso, arremesso de disco, arremesso de dardo e malha. Outras formas.
Corrridas Oferece a sensação de liberdade recreativa se não envolver competição.Necessita de um guia corredor. Corridas em competições rais.
Voleibol, basquete, futebol
“hockey” -etc. 1. Podem ser peritos explicadores, Completamente im¬possível, tratando-se de jo¬gar propriamente.
Esquiar Através dos campos parece praticável. Mas peritos e esquiadores que ficaram cegos continuam a descer as montanhas com companheiros servin¬do de “olhos de esqui”, indo adiante e fazendo sinais audíveis. 
Patinação Figurativa sem problema quando há espaço suficiente. Outro tipo pre¬cisa de guias. 
Quebra gelo Ver velejar. 
Trenó Como membro de um time. 
Quebra-neve Em grupo, mas dificultado pelo fato da neve ser “neblina do homem cego” descendo um pesado cobertor sobre a possibilidade de conhecimentos sensoriais quer no solo como no ar. Exige reorientação de interpretação de informação e aumenta a dificuldade de mobilização. 
Esgrima Excelente forma de recreação, Nenhuma modificação na clássica forma é necessaria. 
Guia automóveis  Completamente impossivel (Ver texto).

A livre escolha é a essência da recreação e restringi-la ao xadrez e similares não resolve o problema.
Aqui, como em outras áreas, devemos evitar cuidadosamente impor àquele que ficou cego o nosso nível cultu¬ral, seja ele mais alto ou mais baixo. Entretanto, precisamos estar alertas para ajudá-lo a desenvolver qualquer interesse novo que tenha surgido nas diferentes circunstân¬cias criadas pela cegueira e pela reabilitação. Podemos indicar-lhe quanto esnobismo existe nas diversas formas de recreação, quer seja esnobismo de abaixar ou arquear as sobrancelhas, o fã de voleibol olhando com superioridade para amantes de conferências, estes se sentindo gratos por não serem iguais aos outros que perdem o seu tempo em jogos de bolas; o fã da música sinfônica desdenhando o andarilho, este pensando com desprezo nos que ouvem música ao invés de sentir os prazeres da vida. Se aquele que ficou cego reconhecer tais esnobismos, será mais fácil alguns pre¬conceitos pessoais serem removidos e aumentar a possibilidade de escolha.
E finalmente, é essencial que aquele que já pos¬suiu visão seja levado novamente a encontrar suas recreações entre as pessoas dotadas de visão. Forçá-lo ou encorajá-lo a fazer parte de um segregado e especializado grupo de pessoas cegas, mesmo com fins recreativos, é afastá-lo da sociedade dos que enxergam à qual ele pertence e para a qual estamos tentando reconduzi-lo. Ele poderá encontrar uma energia temporária no “grupo-de-fora”, mas é uma força que falha, logo que ele volte para o grupo, e que mobiliza e reforça todos os seus sentimentos de “diferença”. Tal se¬gregação pode rapidamente anular qualquer motivação de reorganizar-se definitivamente (incluindo-se recreação e trabalho) como um membro ativo da comunidade que enxerga ou anular qualquer progresso que possivelmente tenha feito em direção a uma a tal propósito.
No uso do quadro B deve-se ter em mente que em todas as formas de recreação, o espectador classificado como espectador intelectual (a palavra intelectual é usada no sentido mais amplo), espectador esportivo etc., deve ser um participante emocional, identificar-se com o protagonista, no campo do jogo, no livro ou no teatro, se deseja realmente divertir-se. Esta é a razão pela qual, aquele que ficou cego, deve ser encorajado a freqüentar teatros, jogos e concertos, preferivelmente a ficar em casa, acompanhando-os pelo rádio — a participação emocional é muito mais direta e intensa, quando se é efetivamente parte da situação. Por esta mesma razão ele deve ser encorajado a olhar além dos limites da novela radiofônica e outras formas similares puramente passivas de recreação que exercitam apenas as emoções de maneira exaustiva e monótona.
Analisando-se artes e ofícios como meios de recreação, o estereotipado cego fazedor de cintos e sacola de cordões etc., deve ser levado em consideração. O uso de certas artes e ofícios é ainda aceito, em certas regiões, co¬mo típico de cegos. É conveniente se esclarecer que nos casos em que isto é verdade, o cego provavelmente não o faz por recreação. Praticar certos ofícios pode ser para o necessitado um meio de ganhar um dinheiro extra; ou para os entediados, uma maneira de passar longas horas; para os estudantes de Braille e outras técnicas, um meio de treinar o sentido do tato. Trabalhos em couro e metal de várias espécies são produzidos por pessoas que são cegas, sendo alguns de alta qualidade. Mas, não se devem infligir àquele que ficou cego, ofícios (como se fazia anteriormente), ainda que a maré agora pareça estar contra, precisamente por causa do perigo de estereótipos.
Vários “hobbyes” e coleções que constituíam ativi¬dades favoritas das pessoas antes de ficarem cegas podem e devem ser mantidas. Existem cegos filatelistas que não são técnicos. Um surpreendente número de pessoas cegas costuma colecionar fotos de suas viagens. Um dos alunos de St. Paul sentia especial prazer em tirar fotografias dos seus colegas e instrutores. E uma pessoa cega era colecionadora e restauradora de relógios.
Para os jovens ativos, têm enorme importância as atividades esportivas. Aquele numeroso grupo de esportes que (apesar de serem cada vez mais exercidos pelas mulheres atualmente) são psicologicamente de caráter masculino. Isto envolve competição física, competição entre homens, entre homem e forças da natureza — o mar, floresta, tempestade, inverno, animais. Oferecem uma oportunidade para os indivíduos, particularmente aos jovens, se desabafarem das agressões, da hostilidade, pois os costumes civilizados não oferecem outra válvula de escape.
É aqui, mais do que em qualquer outro campo esportivo, que o jovem que perdeu a visão sente-se frustrado. Aqui, no esporte em que a masculinidade é testada, ele fi¬ca â parte. Perde muitos companheiros e competições mascu¬linas que necessita de provavelmente também a admiração feminina pela sua perícia. Ao mesmo tempo, perde a natural válvula de escape para suas energias e impulsos íntimos que anseiam por uma libertação. É especialmente importante que para este grupo de jovens, a restauração seja a máxima possível, e salvo tudo que possa ser salvo.
O significado especial, em particular para os jovens, de dirigir um carro deve ser objeto de estudo. Significa um status, uma sensação de poder, habilidade técnica, maturidade e até masculinidade (testemunha a masculina atitude depreciadora a respeito da mulher ao volante). A absoluta e irreparável perda da habilidade de guiar poderá ser muito grave, com efeitos profundos e permanentes Aqui é proveitoso e necessário ajudarmos o individuo a interpretar o sentido desta perda e obter suficiente discernimento, É essencial que o técnico que trabalha com aquele que ficou cego, ajudando-o a retornar a uma ou outra forma de recreação, tenha em mente que o “fator frustração” está implicado no sentimento que pode oprimir aquele que fi¬cou cego quando recomeça a participar de uma atividade re¬creativa que era normalmente uma das suas favoritas. Poucas situações têm tão grande poder de reavivar emocionalmente o impacto produzido por sua incapacidade. Envolve uma percepção das coisas que não mais poderá fazer, mesclada de um sentimento de desespero sobre a possibilidade de novamente fazê-las. Pode incluir supremo embaraço. Pode sentir que é constantemente vigiado para certificarem-se de como se sai de certas situações (o que poderá acontecer). Numa multidão poderá sentir verdadeira fobia. Muitas pessoas que perderam a visão desistiram (suando de ansiedade) depois da primeira tentativa, do que deveria ser uma situação recreativa.
Prepara-lo para esta volta exige a ajuda de um técnico que incluirá a competente interpretação, antes que a situação traumática ocorra, e auxílio para enfrentar as situações posteriores. Deve estar esclarecido com a total consciência de que não achará nada “recreativo” em muitas formas de diversão nas primeiras vezes que delas participar. Talvez necessite de obstinadamente tentar repetidas vezes até que o fator frustração seja sobrepujado, se espera participar com prazer de todas estas diversões.
Devemos procurar despertar a necessária motivação para esta obstinação e perseverança. Não podemos tratar como crianças os adultos que perderam a visão — e isto deve ser evitado especialmente no campo da recreação. Entretan¬to, poderá haver ocasiões no processo de reabilitação, du¬rante as quais aqueles que estão sendo treinados, devem ser forçados à “recreação”, para seu próprio bem, com períodos regulares, nos quais se espera que eles voltem à sociedade para tomar parte em alguma forma de recreação mesmo que, no momento, não lhes proporcione nenhum valor recreativo.
Porque a recreação é em si mesma um fator de reabilitação, pode ser usada durante os treinamentos de tal forma que a pessoa que ficou cega, ocasionalmente se “sentirá como um novo homem” — e esta será a sua função quando a frustração for superada e forem encontradas as espécies de recreação mais apropriadas às necessidades e circunstâncias daquele que ficou cego. Mas, durante o treino e nos períodos de ajustamento posterior, a recreação tem o valor potencial de transformá-lo num novo homem. Peritos em educação atualmente assinalam o valor da recreação no desenvolvimento da personalidade e do caráter; os peritos em reabilitação devem ser alertados para seu valor na reeducação nos casos em que a formação da personalidade e do caráter ¬sofreu uma interferência. E para todos aqueles que ficaram cegos, além do estímulo temporário que poderá (ou não, no início) proporcionar o fato de retornarem ao convívio recreativo com pessoas dotadas de visão poderá criar um estímulo duradouro resultante da realização de ser possível viver normalmente entre as pessoas normais.
Mas, a não ser que por motivação interior e por um plano efetivo a pessoa cega seja assistida no retorno à participação na vida social da comunidade normal, há um grave perigo de deslizarem para a vida social e jogos especializados de comunidades segregadas de pessoas cegas, com renúncia a toda esperança e força íntima envolvidas nisto.
A restauração da recreação não é, portanto, a questão comparativamente simples de proporcionar-se àqueles que ficaram cegos jogos ou “coisas para fazer”; é assunto complexo requerendo esforço inteligente e perseverante da parte daquele que ficou cego e daqueles que o ajudam 2.


14 – Carreira - Finalidade Vocacional - Oportunidade de Empregos

Para quase todos os homens e para grande número de mulheres que Ficaram cegos durante os “anos produtivos” a colocação definitiva em empregos adequados e dignos é a chave do processo de reabilitação.
Isto não significa arrumar para aquele que per¬deu a visão algum emprego. Ele perdeu não somente seu meio de ganhar a vida e sua ocupação, mas a posição correspon¬dente e em muitos casos sua finalidade vocacional e pers¬pectivas de progresso numa carreira especial, envolvendo todo o seu modo de viver e projetos para o futuro. Se for colocado em emprego inadequado ou num que não ofereça possibilidades de melhoria, não estaremos resolvendo seu problema. Historicamente, “reabilitação vocacional” começa simplesmente com “reabilitação de emprego”, mas atualmente o conceito ampliou-se e inclui “vocação” no sentido mais amplo.
Emprego adequado - se realmente o for restaura a oportunidade de serviços e segurança financeira; fará muito pelos sentimentos daquele que ficou cego a seu próprio respeito, aliviando-o de seu medo de dependência e restituindo-lhe a sua posição na família e vizinhança.
Mas a própria importância da volta ao trabalho, produz a tendência para arrumar-se um emprego para aquele que não enxerga, sem a prévia reabilitação. Isto é um reflexo sutil do mecanismo de negação que diz ser a cegueira uma deficiência de menor valor (“no fim das contas o grande mal é que o homem perde o seu emprego, restitua-lhe isto e ele estará bem”).
Como conseqüência, muito frequentemente, pessoas com o melhor potencial para reabilitação são devolvidas à comunidade psicologicamente despreparadas e com falta de conhecimentos nas habilidades e recursos. Enquanto são completamente capazes de ganhar um meio de vida, não recebem os conhecimentos e treinamentos que os capacitaria para outros setores. Quando uma pessoa que ficou cega, desorganizada e inabilidosa, (entretanto, habilidosa em seu trabalho) retorna à uma posição na comunidade, pode ser prejudicial a si e aos outros.
Colocação em empregos adequados não é, portanto, o todo da reabilitação, nem a pedra fundamental. Mas é certamente a pedra angular para a vasta maioria de jovens e adultos de meia idade. Sem ela a reabilitação não se transforma em sólida realidade.
Isto significa que a pessoa cuja cegueira custou-lhe sua posição depois de anos de emprego ou no seu próprio emprego, ou profissão, precisa ser devolvida ao mesmo emprego ou profissão, com as mesmas possibilidades futuras. Sendo isto impossível, ele deve ser assistido para encontrar uma posição equivalente com possibilidades equivalentes. É ainda mais difícil à pessoa que ficou cega muito cedo para já ter tido emprego ou sido lançada numa carreira, precisa de ajuda para ter um futuro equivalente ao que teria se tivesse tido visão.
Antes de considerarmos aqui o papel do centro de reabilitação, do orientador profissional, agências de colocação que trabalham com o centro e das agências para ce¬gos em geral, devemos ter idéias concretas sobre o tipo de trabalho que ele pode ou não fazer. O quadro C fornece um esboço de várias possibilidades.
Aquelas ocupações nas quais a visão é absolutamente necessária estão completamente afastadas. Se o trabalho da pessoa era deste tipo e se não for possível transferência para um similar ou para um campo vizinho no qual a visão não é requerida, então, ele deve enfrentar uma com¬pleta mudança no seu objetivo vocacional. Infelizmente, tal situação trágica na qual anos de habilidades, esforços e ansiedade vão por água abaixo, deixando o homem ou a mu-lher de 50, 40 ou 30 anos diante da necessidade de começar tudo novamente, acontece frequentemente. Podemos torná-la menos trágica ajudando a estas pessoas na necessária reor-ganização, e também a se iniciarem numa linha de trabalho adequado às suas qualidades e capacidades (se não na sua experiência e no seu treinamento), em vez de forçá-la a algu¬ma forma de trabalho estereotipado.
Como indica a tabela, as possibilidades da pes¬soa voltar ao mesmo ou similar tipo de trabalho expande-se em relação a dois fatores, o primeiro sendo a quantidade de experiências no citado campo que aquele que não enxerga já possui e quanto ele já “subiu na escada”. Pois se ele for suficientemente experiente e estabelecido, estará apto a comprar a visão ou tê-la, proporcionada pelos seus empregados. Um exemplo marcante do que pode ser feito a este res-peito é o do homem que ficou cego e que trabalhava no for¬necimento de material para construção, sendo seu ramo de atividade observar as obras em construção; calcular e comandá-las, Depois da reabilitação ele resolveu seu problema alugando jovens aprendizes que funcionam como seus olhos para guiá-lo para as obras, responderem suas perguntas bem formuladas, e escreverem o que fosse requerido. Assim, ele se completou com a visão necessária e também proporcionou aos diversos jovens uma experiência e treino valiosos.
Do mesmo modo, um negócio ou indústria que não deseja perder os serviços de um empregado valioso pode tornar possível a sua continuação fornecendo-lhe a ajuda de uma secretária especializada, quer seja para todo dia ou para certos períodos. Na última hipótese, a secretária pode¬rá, por exemplo, ler a correspondência matinal enquanto ele faz anotações em Braille; pode ditar num gravador o número dos telefones que ele deverá chamar durante dia, bem como outros lembretes necessários. Qualquer que seja o trabalho que necessita ser feito há casos nos quais a companhia pode impedir a saída de um empregado treinado e experimentado, comprando e fornecendo-lhe a visão (auxílio de una pessoa com visão) que é o “sine qua non” para o seu funcionamento efetivo.

QUADRO C
T1POS DE TRABALHO QUE AQUELE QUE FICOU CEGO PODE OU NÃO FAZER
TIPO DE TRABALHO EXEMPLOS SOLUÇÃO
A - TRABALHOS QUE AQUELE QUE FICOU CEGO PODE FA¬ZER OU TORNAR-SE HABILITADO PARA FAZER.  
1 - Trabalhos nos quais a visão tem pouca ou nenhuma conexão com a essência do emprego.
a) não é necessária a mudança de emprego. Certos tipos de advocacia, de ensino, psiquiatria, secretária de certos tipos de trabalhos com máquinas, Treinamento, reabilitação, volta ao trabalho.
b) - alguns instrumentos novos tornam o emprego possível ou mais fácil. Telefonista de PBX e trabalho de despachos (tipo especial à disposição do operador cego). Treinamento de reabilitação treino em novos dis¬positivos, volta ao trabalho.
c - pequenas modificações no emprego. Secretária e guarda-livros ocupar-se mais com trabalho de secretaria, dar a outrem a guarda de livros. Treinamento de reabilitação, re-atribuição de ta¬refas, volta ao trabalho.
2 - Trabalho similar ao anterior, mas que não requer visão. Trabalho de su¬perintendência ¬no mesmo setor, patrulheiro faz trabalho de es¬critório no quartel-general ou de telefonista; bombeiro trans¬forma-se em membro do grupo de inspeção de se¬gurança, ou trabalho em campo vizinho:: clínico geral passa pa¬ra psiquiatria; advogado de certos setores que exigem visão passa para um, no qual ela é dis¬pensável 3. Treinamento de reabilitação, período de preparação para o novo trabalho.
3 - Trabalhos nos quais a visão não é necessá¬ria para o serviço em si, mas é condição in-dispensável (ver texto). Vendedores que devem guiar até os fregueses; muitos tipos de trabalho executivo. Treinamento de reabilitação, pessoas com visão pagas pelo cego, ou pelos empregadores.
B - TRABALHOS QUE AQUELE QUE FICOU CEGO NÃO PODE FAZER 4.  
1 – Aqueles para os qua¬is a visão é essencial. Guiar qualquer tipo de veículos; pilotar, cirurgia, optometria; -arquivar e catalogar; distribuição de correspondência; trabalhadores em pontes, rebites. Treinamento de reabilitação como A-2 como acima, ou completa reorientação de carreira e meta vocacional.
2 - Nos quais a visão é essencial para:
a) – segurança Pescadores profissionais, cer¬tas operações. Como acima.
b) – eficiência. Gerentes em su¬permercados ou lojas de quinquilharias, caixa de cinema. Como acima.
c) ambos Transportando mercadorias ou produtos de um lado para o outro. Como acima.
3-Nos quais a visão não é essencial, mas o é para alguma tarefa inseparavelmente ligada a ele (ver texto). Secretaria-arquivista em negócios muito peque¬nos, que não permitem reorganização de trabalho; vendedores não suficientemente bem sucedidos para contratar chofer jovem não muito promissor. Treinamento de reabilitação, procura de novo emprego ou com¬pleta reorientação, talvez necessária.
C - TRABALHOS VEDADOS AOS CEGOS CONGÊNITOS OU ÂQUELAS PESSOAS QUE FI¬CARAM CEGAS ANTES DE RECEBEREM TREINAMENTO, MAS DISPONIVEIS PARA OS JÁ TREINADOS.  
1= Nos quais a visão é necessária. Todos os campos da medicina e similares nos qua¬is a. experiência pessoal e observação são partes do treinamento. No atual estado de coisas, devem ser dirigidas para outras metas vocacionais. No futuro profissões mais seguras poderão ser mais flexíveis.
2 - Nos quais a visão é necessária na aprendi¬zagem e primeiros anos. Muitos setores de exercício da advocacia, que inicialmente en¬volve o preenchimento de formulas etc. Não é fácil, mas muitos advogados conseguem adaptar-se.


Enquanto um excelente vendedor, no auge de sua carreira, pode alugar o serviço de uma pessoa de visão pa¬ra guiar seu carro e assim continua como antes, o novato ou vendedor parcialmente bem sucedido poderá ser incapaz disso e deve encarar a reorientação da sua carreira e meta vocacional. E assim também acontecerá com outros tipos de trabalho.
Quando aquele que ficou cego tem habilidade e energia deve tentar, se houver possibilidade, a chance de pagar pela visão, mesmo que isto signifique gastar uma boa parte de sua renda, até estabelecer-se. Geralmente, se a carreira que a pessoa cega já exercia (ou tinha em mente), exigia para seu sucesso outras qualidades além da visão, e há razões para se crer que ele as possua, devem-se levar em consideração todas as possibilidades deste tipo de ajuda.
Mas aqui os problemas dos cegos congênitos e dos que ficaram cegos na infância ou qualquer época anterior à aquisição de treinos e experiências são mais vastos do que os das pessoas que perderam a visão já adultos. Algumas carreiras accessíveis em si mesmas são vedadas porque a visão era necessária para se obter o pré-requisitado treinamento. Por exemplo: um clínico geral pode especializar-se no campo da psiquiatria, mas a pessoa que se tornou cega antes de cursar a faculdade de medicina não poderia tornar-se um psiquiatra porque não teria a possibilidade de acompanhar os cursos (para isso nenhum meio foi descoberto até hoje).
Os problemas dos cegos congênitos e daquele que ficou cego na infância não são objetos dos nossos estudos aqui, mas precisamos estar cônscios deles como parte do quadro geral; também as suas dificuldades especiais servem para indicar as reais vantagens proporcionadas por conhecimentos previamente adquiridos, habilidades e experiências e se aquele que perdeu a visão souber fazer uso das mesmas.
O segundo fator no aumento (ou diminuição) das possibilidades de voltar ao mesmo emprego e a habilidade é a boa vontade do empregador ou superiores em adaptar o emprego anterior às novas qualificações da pessoa que ficou cega, ou experimentá-la em serviço no qual a visão não é necessária e sua experiência muito útil. A secretaria arquivista, caixa, guarda-livros de uma pequena firma, por exemplo, pode voltar ao mesmo emprego se seu patrão concordar, em que faça apenas o trabalho de secretária, dando a outrem as restantes obrigações. Caso contrário será impossível continuar; ainda poderá ser secretária em outras firmas. Outro exemplo é o do patrulheiro que poderá desempenhar trabalho administrativo no quartel-general; o bombeiro, um trabalho administrativo, ou tornar-se membro de um grupo de inspeção de segurança. Mas, se os seus superiores não puderem ou quiserem dar-lhe tal serviço ou se não tiver as necessárias qualificações, ele terá de procurar outro lugar e, possivelmente, reorientar completamente sua meta vocacional.
Este fator está em muitos casos (mas não necessa¬riamente) ligado ao primeiro - a maioria dos empregadores fará muito mais por um empregado útil e experimentado do que por um novato ou marginal. A possibilidade de restauração depende aqui de muitos fatores, sendo uns internos e outros externos à própria pessoa que ficou cega. Cada pessoa apresenta um problema individual e necessita de ajuda individual, tanto em relação ao seu emprego potencial como na sua preparação para retornar ao trabalho.
A primeira tarefa do centro de reabilitação nes¬te setor é de equipar aquele que perdeu a visão com a habilidade e reorganização de atitude requerida para “total ajustamento à cegueira”. Deve-se acentuar que isto é tão necessário para a pessoa que pode voltar diretamente para o mesmo emprego ou profissão, como para aquela que precisa reorientar completamente sua vida inteira de trabalho. A segunda tarefa (a não ser que o individuo possa voltar di¬retamente ao trabalho) é de estimular, enquanto se proporciona habilidade e reorganização, a imaginação daquele que ficou cega, oferecendo-lhe a total extensão de possibilidades disponíveis. A terceira tarefa é de fornecer os melhores conselheiros especializados em empregos profissionais e de prover um orientador profissional e, posteriormente, um agente de colocações que tenha a mais completa, científica e humana noção da pessoa a ser empregada — suas energias e fraquezas, seu treino e experiência.
A tarefa do orientador profissional é de relacionar este quadro aquilo que pode ser averiguado sobre a comunidade onde o indivíduo deve trabalhar e nesta base desenvolver com ele os planos que têm a perspectiva mais realista de sucesso.
Algumas pessoas precisarão de específico treinamento profissional. A tarefa do centro de reabilitação é, quando necessário, ajudar o indivíduo que aí se graduou a encontrar onde fazer seu treinamento. Mas, não é tarefa do centro (nem de toda a organização de trabalho para o cego) providenciar tal treinamento. Um médico cego que tenciona tornar-se psiquiatra precisa freqüentar os cursos e residências hospitalares requeridos para sua especialização. Uma mulher que ficou cega que pretende fazer trabalhos de estenógrafa precisa cursar uma escola especializada. Pessoas que precisam ser novamente treinadas para um ou outro emprego no comércio ou indústria, podem encontrar tais treinamentos nos cursos noturnos especiais, disponíveis, em muitas escolas da comunidade ou como é sugerido pela “Health and Welfare Fund of the United Mine Workers Association” 5, numa escola de comércio na sua própria comunidade ou nas vizinhanças.
Não somente seria impossível para os centros de reabilitação oferecer treinamento especializado, mas também inconveniente, pois simplesmente significaria acrescentar uma outra forma de segregação e uma que é completamente desnecessária, se o treinamento de reabilitação foi bem sucedido.
O último passo é a efetiva procura de emprego. É muito provável que aquele que ficou cego possa, por si mesmo, procurar e achar um emprego. Ou pode se valer de uma agência de empregos para examinar o trabalho que tem em mente, a fim de certificar-se da possibilidade de exercê-lo competentemente, ou para conseguir informações que possam ser úteis. Em outros casos, o especialista em colocação, com sua perspectiva de um negócio ou fábrica, pode ser indispensável para convencer um empregador na praticabilida¬de de contratar uma pessoa cega.
Todos os interessados neste processo devem lembrar-se, em todos os momentos, que à pessoa cega cabe a decisão final. Poderá ser auxiliada pelo pessoal da reabilitação a ganhar a necessária motivação, pelo orientador a decidir qual tipo particular de trabalho e pela agência de colocação a encontrá-lo. Mas, em nenhum momento deverá ser for¬çado a uma ou outra decisão. Como um adulto emocionalmen¬te maduro, é ele quem deve fazer a escolha. Se ele não for um adulto em tais condições, nós não temos obrigação de assisti-lo na sua colocação.
Devemos lembrar que trabalhar com aquele que ficou cego é o mesmo que trabalhar com a pessoa que enxerga. A cegueira não é garantia de maior possibilidade de emprego assim como não deverá ser de empecilho. A pessoa que não exerceu emprego fixo quando normal, dificilmente o fará quando perdeu a visão. O trabalhador marginal ou o que vive trocando de emprego, quando fica cego provavelmente continua com a mesma vida (e poderá ser um crítico das agências que não conseguem encontrar emprego adequado para ele, que na realidade não o deseja). Há também pessoas que só trabalham bem e constantemente devido à pressão social. Quando esta é relaxada em virtude da cegueira, alguns preferem ficar em casa e se queixarem da falta de oportunidade, do que exercer o trabalho que lhes for oferecido.
Mas, infelizmente, mesmo quando o pessoal de reabilitação, orientador profissional e agencias de trabalho e o próprio cego fizeram o possível, ainda assim poderá ser difícil se achar um emprego adequado por falta de conhecimentos e conseqüente preconceito a respeito da cegueira por parte dos empregadores.
Os agentes pioneiros de colocação que num passado recente, pela primeira vez ofereceram emprego para cegos na indústria existente fizeram uma enorme contribuição. Seu trabalho está sendo levado avante e desenvolvido atualmen¬te pelos orientadores profissionais e agentes de colocação devidamente habilitados para se dedicarem a esclarecer empregadores individuais e companhias, da viabilidade de em¬pregar pessoas cegas e de encontrar os empregos certos pa¬ra as pessoas cegas certas. Eis que um campo de constante expansão para os especialistas, não somente no setor industrial como também nos escritórios, com perspectivas que se abrem no setor agrícola também. As atividades destes agentes “fundamentais” necessitam ser cada vez mais expandidas e reforçadas, com o apoio de todos os demais que se dedicam à atividade de encontrar trabalho para os cegos em particular e para os excepcionais em geral, e que reconhecem, com franqueza, as grandes dificuldades que devem ser enfrentadas.
Alguns crêem na falsa noção de que o emprego de pessoas que ficaram cegas não é difícil, pelo fato de que estas podem preencher muitos cargos com destreza e consequentemente, criticam os técnicos de colocação. As pessoas que perderam a visão, se reabilitadas, não apresentam as deficiências de trabalho, de algumas pessoas com outras deficiências: a posição em pé ou sentada, em um determinado lu¬gar, por exemplo, não provoca dor e lesão a não ser naque¬les que já as possuem; as atividades manuais repetidas não têm o mesmo potencial de prejudicar que teriam para aqueles com defeitos nos membros superiores, e não são tão cansativas quanto o seriam para os portadores de músculos pa-ralisados. O espírito de tolerância para o trabalho não é fator de perigo para o cardíaco ou para o tuberculoso crônico, nem tampouco fator de cansaço como para o paralítico. Não existem as dificuldades de intestino e bexiga que cau¬sam tensão em muitos paraplégicos. A cegueira, de per si, não traz consigo a tendência para acidentes encontrada até entre muitos não considerados incapazes, nem as repetidas doenças físicas inerentes a muitas enfermidades incapacitadoras.
Se o público em geral e particularmente aquele setor que emprega as pessoas estivesse cônscio destes fatos, a colocação das pessoas que perderam a visão, reabilitadas, seria relativamente fácil. Mas, no pé em que as coisas es¬tão, a maioria dos empregadores possui fortes sentimentos emocionais que prejudicam a aceitação para o trabalho das pessoas que não enxergam. Ademais se espera que a maioria dos agentes de colocação encontre trabalho não somente para as pessoas sem visão devidamente reabilitadas, como também para aquelas cuja reabilitação esteja apenas no início. Esta incumbência é extremamente difícil e ingrata.
Mas, se o apoio que damos para o pessoal de colocação deve ser efetivo, será apenas uma parte daquele esforço total dos institutos em geral, das associações para cegos, das escolas especializadas, dos parentes e amigos daqueles que perderam a visão, e destes mesmos, no sentido de trabalharem juntos para alcançar o dia em que existirão as mesmas oportunidades dentro da comunidade para as pessoas com e sem visão, de encontrar empregos de acordo com seus talentos e habilidades, de seguir uma carreira proveitosa, de alcançar um objetivo vocacional real e digno do indiví¬duo. Este objetivo pelo qual todos nos empenhamos, inclui igual salário para as pessoas cegas e pessoas dotadas de visão. Inclui igual opção de permanecer no emprego ou deixá-lo, de procurar outro; igual oportunidade de melhorar através de estágios, de promoção — e igual possibilidade de ser dispensado em virtude de mau serviço ou de ser posto fora, em tempos difíceis.
Desde que apenas um em cada 5.000 americanos em idade de emprego é cego, existem certamente suficientes oportunidades, no amplo campo de colocações, nas quais o cego pode desincumbir-se tão bem quanto os seus companheiros de visão, para tornar nossa meta uma realidade. Entretanto muita coisa precisa ser feita para alcançá-la. Pesquisas precisam ser feitas no próprio campo de reabilitação para dar novas perspectivas aos problemas de cegueira e novos métodos de tratá-los, no campo da Sociologia para descobrir completamente as fontes de preconceito sobre a cegueira, para podermos melhor combatê-las, e no campo de empregos especializados para aprender mais exatamente onde a visão é absolutamente necessária e onde não o é, e para contribuir no desenvolvimento de métodos e dispositivos.
Uma campanha contínua e maciça de educação do pú¬blico e necessária para afastar todas as falsas noções correntes sobre o cego e, acima de tudo, que todos são, por definição, pobres e desamparados. Tal campanha deve demonstrar que são menos numerosos os serviços que o cego não pode fazer se lhe derem a oportunidade. Neste sentido, a noção estereotipada de “empregos para cegos” e “habilidades dos cegos” — uma noção que torna ofícios perfeitamente aceitáveis como os de confeccionadores de vassouras e ocupações táteis, como dirigir lojinhas, parecerem desagradáveis para aqueles cegos ou pessoas normais, que em caso contrário poderiam achá-los aceitáveis — poderiam também ser afastadas. Acima de tudo, esta campanha traria a realização do fato de que julgamento, poder de raciocinar, inteligência geral, personalidade, habilidade de venda, imaginação, experiência, capacidade para operação manual repetitiva — qualidades que são exigidas para negócios, indústrias e profissões — são encontradas entre pessoas que perderam a visão, tão frequentemente, como entre as que enxergam. Na verdade, o maior potencial não explorado do país para tais qualidades reside entre a população.
Mas, agora e no futuro, o fator mais efetivo pa¬ra alcançarmos nosso objetivo de expandir as possibilidades de emprego será aquele que ficou cego completamente beneficiado pelo treinamento de reabilitação. Quanto mais pessoas que ficaram cegas, emocionalmente maduras e bem organizadas entrarem em profissões, em negócios e indústria, mais caminhos serão abertos para serem seguidos por muitos outros, e, pelo efeito geral produzido na comunidade, tornarão mais fácil a aceitação daquele que ficou cego num crescente número de ocupações, até que todo o campo potencial seja accessível.


15 – Segurança financeira

De todas as perdas resultantes da cegueira, esta é uma das que a sociedade poderia eliminar completamente se assim o desejasse.
Obviamente, quanto mais tipos de serviços e empregos forem postos à disposição das pessoas cegas, maior será o número daqueles capazes de alcançar a resultante segurança financeira. Mas, os ganhos daqueles que recuperam o emprego, são raramente suficientes para pagar as dívidas decorrentes das despesas de tratamento da cegueira — em alguns casos incluindo não somente as despesas acarretadas pelo desenvolvimento da cegueira, mas também aquelas de lon¬gos e repetidos períodos de hospitalização, medicação cara que deve ser tomada por períodos longos, dietas especiais e custosas. Na maioria dos casos, existem despesas de considerável período de reajustamento, treinamento e procura de emprego. Além disso, não importando quão completa seja a reabilitação de um indivíduo, suas despesas serão, inevitavelmente, mais altas do que as dos que enxergam, vivendo no mesmo plano e aumentarão se precisar pagar a visão de outros.
E naturalmente existem algumas pessoas que perderam a visão entre o grupo que consideramos e muitos entre o crescente grupo dos idosos e dos com deficiências adicionais, para os quais a segurança financeira de um emprego bem remunerado está fora de questão.
Entretanto, apesar do custo da medicação estar aumentando, a caridade dos médicos e as taxas especiais ofe¬recidas por alguns hospitais aos necessitados ajudam a aliviar a carga; assim como o crescente número de seguro hospitalar e médico ser utilizado por um número de pessoas cada vez maior. Aqui precisamos apenas solicitar, como parte de nossa campanha educacional, que todos façam alguma for¬ma de seguro médico contra “catástrofes”.
Todos nós que trabalhamos com o cego, incluindo médicos, funcionários de hospital e leigos, podemos certamente ajudar aqueles que ficaram cegos a evitar as desnecessárias despesas decorrentes da não aceitação do diagnóstico médico, dado como final, Não deveríamos desencorajar aquele que ficou cego de procurar consultas razoáveis. Deveríamos fazer o possível para convencê-lo a não continuar uma procura desnecessária de novos médicos e novas curas.
Além disso, podemos informar às pessoas que perderam a visão sobre a natureza das verbas de auxílio que agora são concedidas, conjuntamente, pelo Governo Estadual e Federal, sob capitulo 10, da Lei de Segurança Federal, (Estados Unidos, assim chamados de “ajuda aos cegos necessita¬dos”). Isto não é, nem poderia ser “segurança”, mas sim aju¬da e ajuda baseada na necessidade. Em comparação com as leis “Assistência à Velhice”, “Ajuda as Crianças Dependentes” e “Ajuda aos Permanentes e Totalmente Incapacitados” aque¬la é um substituto (onde se fez um grande progresso) em relação aos asilos do passado. Provavelmente, aquela lei tem manti¬do muitos a salvo da miséria e é um excelente “nível” abaixo do qual não se pode descer. Mas, não é a restauração da segurança financeira como o era o asilo.
Podemos, também, quando necessário, colocar as pessoas sem visão em contato com uma das numerosas instituições privadas para cegos existentes no país. Algumas estão organizadas para conceder auxilio de emergência ou suplemen¬to a renda de um cliente, por um breve período, mas mesmo aquelas que possuem um orçamento volumoso podem, no máximo, dar uma ajuda mínima e não uma renda adequada. De qualquer forma, isto não representa segurança financeira, mas ajuda de emergência, e em muitos casos se tornam “caridade” no sentido pejorativo — “caridade sem amor”, estabelecendo uma relação de dependência, obrigação e mesmo de insegurança total.
Existe, também, a possibilidade de dependência na família e nos amigos. Existem, também, “benefícios” conhe¬cidos pela comunidade e donativos obtidos através de campanhas pelo rádio e imprensa, tudo isto pode e vem ajudar numa crise, mas também opera no campo da compaixão e não significam segurança, uma vez que tais esforços geralmente culminam num grandioso donativo e depois desaparecem.
Todas estas tentativas de ajudar as pessoas sem visão implicam no dispêndio de muito tempo e esforço e em muitas despesas e não conseguem restaurar a segurança financeira. Se a sociedade pudesse encontrar um meio efetivo de restaurá-la aos seus membros sem visão, uma grande par¬te destes esforços, agora dedicada infrutiferamente a es¬tes fins, poderia ser dirigida para outros objetivos. Isto, certamente, seria de maior benefício para os de visão e para os que não a possuem. Não somente estes esforços pode¬riam ser mais bem sucedidos em outros setores, como por que as pessoas sem visão, aliviadas da ansiedade desta perda, en¬contrar-se-iam numa posição de sobrepujar as outras perdas com mais sucesso, e assim se tornarem, integralmente, mem¬bros participantes da sociedade.
A relação dos veteranos que ficaram cegos na Guerra Mundial dá excelente testemunho do valor de algumas restaurações reais da segurança financeira. O auxílio de incapacidade que recebem, mensalmente, da Administração dos Veteranos representa uma boa soma (apesar de, infelizmente, por não estar ligada a uma escola de reajustamento, ser mais desvalorizada pela inflação do que deveria ser). Quando seu montante, pela primeira vez, tornou-se conhecido entre os civis que trabalhavam com o cego, alguns disseram que com a remoção da necessidade de motivação financeira, os que recebiam tais somas nunca se ajustariam à cegueira e certamente não haveriam de procurar emprego.
A relação destes veteranos que ficaram cegos 6 tem provado serem estas objeções sem fundamento e deveriam permanecer como norma para o tratamento dos civis que per¬deram a visão. Nenhum grupo de pessoas que ficaram cegas no nosso tempo tem um melhor registro de ajustamento e emprego. Existem muitas razões para isto, incluindo o excelente treino de reabilitação dado a estes homens e a extrema boa vontade dos empregadores para aceitarem um veterano em serviços relacionados com a cegueira. Entretanto, demonstra definitivamente que a restauração da segurança financeira não diminui a motivação para a reabilitação ou emprego. Ao contrário, diminui áreas de ansiedade permitindo que a pessoa funcione com mais facilidade, diminui a dependência nos amigos, na família e nas instituições para os cegos e permite à pessoa, com nova dignidade e segurança, mover-se em direção a reabilitação.
O que, então, poderá a sociedade fazer para realmente restaurar a segurança financeira dos seus membros que perderam a visão? O seguro privado não é a resposta. A maioria das companhias de seguro, atualmente, pouco se esfor¬çam no sentido de cobrir a perda da visão, além de propor¬cionar cláusulas contratuais que suspendem pagamento de prêmios em caso de cegueira; também concedem um único pagamento para a perda de um ou ambos os olhos. Seria também difícil a criação de uma apólice de seguro com prêmios mínimos. Os indivíduos mais sujeitos à cegueira (conseqüência de hereditariedade e condições de trabalho precárias seriam aqueles mais inclinados a fazer seguros contra a cegueira e consequentemente, a companhia de seguros teria que cobrar taxas exorbitantes ou recusar apólices aos seus mais prováveis clientes. E, como acontece com qualquer plano voluntário, muitos ficariam sem cobertura.
A única resposta, portanto, é o seguro público: cobertura do berço ao túmulo contra a cegueira, integrando o seguro social oferecido pelo Governo dos Estados Unidos. Alguns teóricos políticos objetam que o nosso sistema de se¬guro social não é propriamente denominado um “seguro” e que tecnicamente não e um seguro. Mas, acredito firmemente que a analogia ao seguro privado é suficientemente grande para permitir chamar-se de “seguro” sob o ponto de vista da se¬mântica o seguro social atual. Na nossa cultura é da mai¬or importância para a dignidade do indivíduo que esta ana¬logia seja mantida e que os contribuintes encarem o pagamento como um “quid pro quo” em troca dos pagamentos efetuados. Tal seguro público contra a cegueira 7 não seria de forma alguma uma ajuda. Não seria uma pensão, nem tampouco um pagamento pela sociedade, oriundo de bondade dos corações. Não seria um teste de meios, pois seria um seguro e não um pagamento baseado na necessidade. Os pagamentos se¬riam efetuados àqueles portadores de seguro — pobres e ricos, os que trabalham e os desempregados — pois estaria apenas baseado no preenchimento das condições estabelecidas — a existência legal da cegueira.
Naturalmente, dificuldades se apresentariam para a elaboração de tal plano, particularmente, para aqueles cegos de nascença ou que perderam a visão antes de fazer este seguro, pois, não teriam efetuado pagamento de prêmio algum, e também para aqueles sem visão, existentes antes de vigorar este sistema de seguro. Mas, estes e outros problemas seriam resolvidos, da mesma forma com o sistema de seguro social atual tem solucionado vários aspectos comple¬xos surgidos e que continuam a ser tratados. Na atual taxa do dólar, os pagamentos deveriam ser ao redor de US$ 85 por semana, subordinados à alguma cláusula de reajuste de acordo com as flutuações do valor do dólar. O recebimento de uma quantia como esta, como um pagamento de seguro devido por justiça, de acordo com um contrato celebrado entre o indivíduo e o Sistema Federal de Segurança Social, permitiria às pessoas sem visão viver num ambiente de respeito, em conseqüência de sua independência financeira. E assim eles poderiam adquirir a visão de tal forma a restaurar completamente as perdas em outros setores, e de alcançar ràpidamente e com segurança uma posição participante, normalmente independente, no seu meio social.

NOTAS DE RODAPÉ
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l - O tênis e todos os esportes que exigem movimentos muito rápidos de bola ou objetos semelhantes são completamente impossíveis.

2 - Muitas atividades de recreação exigem companheiros e é importante que esse companheiro tenha visão, pois a pes¬soa cega teria um divertimento como se ainda tivesse sua visão. Isto, normalmente poderia incluir companheiros homens ou mulheres. Quando o companheiro não é da própria escolha da pessoa, mas um guia fornecido por uma agência, deveria ser evitada a possibilidade de deixar-se a pessoa cega somente com companhias masculinas ou femininas nas atividades de recreação, pois, assim ela estaria sendo privada da possibilidade de cooperação normal e competição com ambos os sexos.

3 - Deve-se notar aqui que ao menos um especialista em medicina volta ao mesmo campo depois da cegueira, continuan¬do com a prática e ensinando em hospitais.

4 – É arriscado enumerar-se tais ocupações, porque frequentemente depois que a lista é feita ouve-se contar de um cego que provou que alguma entre as profissões classificadas pode ser feita, no mínimo, por alguns cegos. Combinando as posições do orientador profissional e do agente de colocação, como é frequentemente necessário hoje, coloca-se grandes responsabilidades sobre uma pessoa, e assim ela deve desempenhar dois tipos de trabalhos diferentes. Ambos devem ser realistas e ter um largo conhecimen¬to de trabalhos e de oportunidades de trabalho para pes¬soas cegas. O orientador profissional necessita energia suave e compreensão do treinando, características usualmente encontradas na pessoa calma e serena — enquanto que o agen¬te de colocação deve ser mais agressivo, homem de ação e treinado em comércio. Seria quase que impossível estar li¬gado a ambas as tarefas. Até que cada instituição possa colocar essas funções separadamente, consequentemente é necessário manter um orientador-colocador com extremo cuidado.

5 - A história não notará o tremendo impacto deste grupo no campo da reabilitação. O efeito desse fundo tem propor¬cionado mais altos padrões e melhor reabilitação.

6 - Veja “Word War Veterans in a Postwar Setting”, pu¬blicado em julho, 1958 pela “U.S Veterans Administration”, um estudo estatístico e análise sociológica; é uma grande contribuição para o trabalho com o cego.

7 Esta idéia de pagamento de seguro para as pessoas cegas, antes que pagamento de ajuda ou “pensão”, foi primei¬ramente apresentada para o autor pelo Capitão Alan Block¬burn, que foi em grande escala responsável pelo desenvolvimento do programa para o centro de reabilitação do exército no “Old Farms Convalescent Hospital, Avon, Connecticut” que foi de grande importância para o cego neste país. Foi também o Capitão Blackburn, que primeiro discutiu com o autor a idéia de que cegueira é, atualmente, constituída de um número de perdas diferentes, cada uma das quais deve ser considerada por ela própria no programa de restauração.

CAPÍTULO 16
RESTAURAÇÃO DA PERSONALIDADE GLOBAL

16 - Independência pessoal

Uma das finalidades do treinamento da reabilitação é restaurar no cego o máximo da independência real possível para que sua necessidade objetiva de depender dos outros além do rotineiro dar e tirar da vida, seja reduzido ao mínimo. O treinamento dos sentidos e os vários cursos de habilidades — talvez, particularmente, aqueles relacionados com a mobilidade e os que estão dentro das técnicas da vida diária — são aqui de importância primordial.
Porém, não importando o quanto a pessoa cega possa se beneficiar através do treinamento, ela sempre neces¬sitará de mais ajuda do que as outras pessoas — não excessivamente, se ela foi devidamente reabilitada, mas em algu¬mas coisas para ler, manter-se atualizada em determinadas situações sociais e de mobi1idade, etc. Além disso, certas forças que se encontram fora dela estarão operando no sen¬tido de impor um grau de dependência maior do que é necessário ou mesmo saudável. Consequentemente é necessário um trabalho especial a fim de ajudar à pessoa cega a estabelecer a firmeza de uma independência interior requerida para tratar esta situação de maneira eficiente,
Este trabalho é especialmente necessário para aquela pessoa que sempre teve uma personalidade dependente: sem uma assistência adequada ser-lhe-á muito difícil esca¬par completamente aos fatores incomuns da dependência da cegueira. É necessário, também, para aquela que pode comba¬ter as situações de dependências da vida normal, mas que agora se encontra esmagada pela opressiva dependência da cegueira adquirida. Mesmo a diminuição objetiva desta depen¬dência necessariamente não restauraria por si mesma o equilíbrio da personalidade; a personalidade normal não pode aceitar um grau anormal de dependência, sem uma luta interior, especialmente numa civilização como a nossa, que reforça a independência pessoal.
Por conseguinte, todo o ambiente do centro de reabilitação deve ser orientado no sentido de restaurar a independência da personalidade de cada treinando; deve também estar imbuído de uma atmosfera que comunica a cada um a coragem de trabalhar para a independência. O processo de reabilitação deve ser o desenvolvimento do interior, levando aqueles que estão sendo treinados a se esforçarem por en¬contrar sua força na equipe de reabilitação, a fim de descobri-la dentro de si mesmos. Isto envolve o que foi dito com respeito à equipe, à capacidade de dar um apoio humano e acolhedor, no princípio, e retirar o apoio aos poucos, embora continuando a dar compreensão humana. A essência desta fase importante do processo de reabilitação poderia ser descrita como um desmame sem a privação do amor; sem isto, nada se fará, exceto transferir a dependência da família ou dos amigos para a dos membros da equipe.
Manter relações de amizades interpessoais dentro ou fora do centro de reabilitação pode ser de grande ajuda para comunicar a coragem necessária, porem, somente se estas amizades levarem à independência. Um centro multidisciplinar tem, é lógico, a grande vantagem de contar com muitas personalidades diversas que trabalham para esta finalidade em comum, não somente no sentido de proporcionar esta atmosfera geral de força em relação à independência, mas também oferece uma variedade de oportunidades para indivíduos de personalidades diferentes formarem tais relações de amizade.
Este processo de orientar as pessoas cegas para uma independência interior é extremamente importante, embo¬ra muito perigoso. Aí está o motivo e, como já foi dito no capítulo 9. Haverá a necessidade da orientação psiquiátrica para a organização de um completo meio ambiente terapêutico.
Portanto, no trabalho com o cego, geralmente aqueles dentre nós que não somos especialistas poderemos aju¬dar melhor a pessoa cega, em relação à independência, simplesmente através do seu relacionamento conosco e com nos¬sa organização (relacionamento este considerado como temporário) experimentando fazer frente às suas necessidades, em uma ou outra área de “realidade”. Porém, somente poderemos lhes dar a devida ajuda se em nossos contatos com a pessoa cega nos mantivermos suficientemente humanos e suficiente¬mente desapegados; se estivermos realmente interessados (sem autodecepção) em ajudá-la a atingir sua independência com relação a nós mesmos e a nossa organização; se não nos acharmos por demais envolvidos nos seus sentimentos, e se nós mesmos no nosso íntimo não necessitarmos conservá-la dependentes de nós. Se, portanto, formos suficientemente amadurecidos e independentes dentro de nós mesmos e particularmente quanto às nossas atitudes em relação às pessoas deficientes, então, poderemos dar às pessoas cegas dependen¬tes a mesma espécie de ajuda que um pai naturalmente inde-pendente dá a seus filhos, um professor a seus alunos e um amigo a seu amigo. Além disso, deveríamos deixar a tarefa de restaurar a independência interior à pessoa cega.  Ela precisa ser informada a respeito do mecanismo psicológico que faz com que as pessoas experimentem torná-la indevidamente dependente. Ela terá, quase certamente, que encarar este fenômeno face ao público em geral, às amizades, à sua própria família e até mesmo quanto aos técnicos especializados. É necessário que ela seja alertada, não através de uma interpretação aberta sobre sua situação em particular, mas através de um conhecimento geral deste fenômeno, a fim de po¬der entender o que está se passando e opor resistência, sem, contudo se ressentir do fato.
Trabalhar com o público tendo como foco o aspecto da dependência da cegueira — a espécie de assistência extra que os indivíduos cegos realmente precisam ter; qual a melhor maneira de prodigalizá-la; aquilo de que eles não necessi¬tam já que não são desamparadamente dependentes; não se trata de indivíduos submaturos, porém, normais e ativos —, tudo isto faz parte do trabalho geral de educação com o qual deveríamos enfatizar em toda nossa literatura e publici¬dade (ver capítulo 18).
Porém, um trabalho especial junto às famílias de pessoas cegas é, geralmente, exigido e pode ser de fa¬to, um trabalho exaustivo e delicado. Pais superprotetores de crianças, maridos, esposas, parentes ou amigos geralmente resistem tenazmente a uma mudança num relacionamento já existente, embora este incorra numa dependência prejudicial à qual o individuo foi forçado pela cegueira.
É claro que tais pessoas não pretendem conscientemente bloquear aquilo que é bom para a pessoa cega (infelizmente eles não o fazem conscientemente, pois caso contrário, seria mais fácil combatê-los abertamente, sem contudo infligir muito sofrimento e sentimento de culpa). Sua intenção é boa, simpática, delicada; porém, estão ansiosas para proteger ou reforçar uma amizade dependente; não porque se trata de beneficiar a pessoa cega, mas porque satisfaz algumas de suas próprias necessidades.
A esposa que inconscientemente se compraz da ce¬gueira do marido, conservando-o em casa e tornando-o dependente dela, resiste fortemente em acreditar nessa evidência. De forma alguma ela está ansiosa por aprender a verdade a seu próprio respeito; esta não é a espécie de verdade que qualquer um gosta de encarar. Ela se sentirá mais ansiosa (novamente inconscientemente,) para não tomar conhecimento.
O mesmo acontece com o marido superprotetor, os pais, etc.,
Ocasionalmente, tal situação torna-se impossível de solução, a não ser que se ajude o indivíduo cego a reconstruir sua independência interior, preparando-o contra as forças que estarão operando no sentido de torná-lo ou conservá-lo dependente. Porém, em geral, há diversas maneiras pelas quais as famílias podem ser orientadas quanto à forma de auxiliar sem se colocarem no caminho da aquisição de independência do membro cego (isto será discutido no capi¬tulo 17).
Um fator importante aqui é o das famílias e amigos reconhecerem o grau real da independência atingido pela pessoa cega, no decorrer de seu treinamento para reabilitação.


17 - Adequação social

A perda da adequação social é para a maioria, provavelmente, o trauma mais severo que a cegueira ocasiona como já foi dito ao discutirmos as perdas. E, como aliás, também já foi mencionada antes, esta perda apresenta duas fases — no indivíduo e na sociedade.
A perda da adequação social, no cego ou em qual quer outro grupo minoritário 1, pode originar-se no indivíduo ou na sociedade. Em um caso ou no outro, os dois ficam envolvidos já que as forças operam em ambos os lados para manter a barreira que se recusa a deixar o indivíduo se “adaptar”. No momento em que o individuo cessa de ser pessoalmente adaptado, a sociedade nega-se em aceitá-lo. E quando, por outro lado, a sociedade se recusa a receber o indivíduo, ele pode também cessar de ser pessoalmente adaptado.
A perda da adequação social pode, como aliás acontece no caso da cegueira, envolver o preconceito de um grupo minoritário sobre parte da sociedade. A perda da adequação por muitos membros de um grupo pode fazer com que a sociedade se recuse a aceitar o grupo como tal. A recusa da sociedade em aceitar o grupo pode em revanche levar a per¬da da adaptação individual, por parte de mais de um membro do grupo.
Seja a perda um assunto de grupo ou individual, há uma interação contínua: menor adaptação e por conseguinte ¬uma menor aceitação; caso haja uma redução na aceitação ele irá por conseguinte a uma falta de adaptação e assim a uma ainda menor aceitação. Forma-se então um círculo vicioso difícil de ser destruído.
É bem verdade que os preconceitos minoritários que afligem o cego, não resultam geralmente do fato dele ser odiado pela sociedade como acontece muitas vezes a ou¬tros grupos, no momento em que fanáticos e demagogos agitam suas bandeiras. Os cegos não são odiados; eles são re¬jeitados e lastimados (outra forma de rejeição). Geralmente as pessoas não se referem ao “cego”, como a um grupo, e muito menos como a um grupo que potencialmente ameaça a segu¬rança da sociedade, como acontece no caso do preconceito racial. Elas tomam conhecimento daquele indivíduo cego ou dos poucos cegos que encontram ou ouvem falar. Aí está porque rejeição e piedade, e não o ódio, são despertadas. No en¬tanto, o fator grupo está presente, embora latente e até mesmo aqui, já que a pessoa cega surge como a corporificação presente de todas as pessoas similarmente “diferentes”, cuja existência é sentida de alguma maneira como uma ameaça à vida “normal” e à sociedade.
Há outra diferença que concorre distinta e amar¬gamente em detrimento da pessoa cega. O negro ou o judeu rejeitados pela sociedade podem identificar-se com aqueles que eles mais amam, sua própria família. Porém quando o indivíduo cego é rejeitado muitas vezes sua família é de pessoas que vêem e assim, é uma parte da sociedade que o rejeita ou o lastima (ou, sobre quem ele projeta tais sentimentos). Em tais circunstâncias, o único grupo com o qual a pessoa cega pode identificar-se poderá ser o grupo com o qual ela nada tem em comum, a não ser sua cegueira — o grupo que a levará cada vez mais longe, para não se reidentificar consigo mesma.
A sociedade não força esta perda da adequação social sobre a pessoa cega somente do ponto de vista de fora; força-o também dentro de sua própria personalidade. Pois ela vem de uma sociedade dotada de visão, partilha de suas interpretações e de seus sentimentos sobre a cegueira, so¬bre si mesma como uma pessoa cega, sobre “o cego”. E, embo¬ra ela não tenha sido apenas preparada para se sentir desadaptada, ela pode sentir-se assim, de qualquer maneira,mui to profundamente, no seu íntimo. Então, sentindo-se inade¬quada, ela irá provar que o é, diminuindo desta forma a possibilidade de sua aceitação.
Pode então reagir à rejeição que a sociedade faz de sua pessoa (e a sua própria rejeição inconsciente) por um ou outro tipo de compensação no seu comportamento. Em “The Nature of Prejudice”, Gordon Allport classifica vários tipos deste comportamento resultantes da sensibilida¬de e interesse introduzidos pela discriminação e desigualdade. Para aquele é basicamente extrapunitivo, isto pode ser de interesse obsessivo e assim suspeita, malícia e astúcia podem contribuir para a dissolução do grupo, preconceitos de outros grupos, de agressão e revolta, aumento de rivalidades. Para a pessoa basicamente intrapunitiva há uma negação como membro de seu próprio grupo, retraimento e passividade, grosseria, auto-abominação, agressividade dentro do grupo, simpatia para com todas as vítimas, luta simbólica pelo próprio status, neurose. Esta lista dá uma idéia dos tipos de comportamento que podem ser esperados da rejeição ocasionada pela cegueira. Qualquer um deles aumenta a fal¬ta de adaptação social e diminui a possibilidade de aceitação. ¬Assim pois, uma fase da perda da adequação social origina-se dentro do próprio cego — e tanto ele como aqueles que querem ajudá-lo deveriam reconhecer este fato. Se para nós técnicos especializados, é fácil começar a sentir que o problema é todo ele a culpa da sociedade, é também fatalmente fácil para os próprios cegos o fazerem. A tragédia consiste em que muitos cegos permitem-se acreditar estar este problema completamente fora deles mesmos; atribuem todos os fracassos da adaptação social ao público que não os quer aceitar. Quando uma pessoa cega toma essa ati¬tude, ela não se ajustará à sua cegueira, a não ser o paranóico que lançará nos outros a culpa pelos seus fracassos, procurando ser um parasita da sociedade, acusando-a constantemente por não lhe proporcionar o suficiente para sua sobrevivência.
Esta atitude levada ao extremo faz com que o indivíduo descreva os problemas da cegueira quase que completamente em termos de erros, estupidez e a rejeição do público com visão. Leva a um desarrazoado desenvolvimento de todas as espécies de atividades segregadoras para as pessoas cegas e empenha-se em mobilizar sentimentos de hostilidade e ressentimentos que são a origem destes fenômenos.
A ignorância e a consequente rejeição social, por parte daqueles que possuem visão é um fator primordial dentre os problemas da cegueira. Seria completamente irreal a pessoa cega ignorar este fato. Entretanto, afirmar que o problema é completamente culpa do público é uma defesa perigosa e falsa por parte da pessoa cega, pois que isto a impedirá de encarar os problemas que estão dentro delas mesmas.
Outro meio de fugir a estes problemas é a pessoa cega simplesmente negar que eles existem — falha quando ela admite para si mesma que não há problema de aceitação. Tal fuga apresenta ramificações e como a anterior ela é falha pois, não se defronta com o problema, procurando vencê-lo.
Porém, é fato que uma fase da inadequação social com a origem dentro da própria pessoa cega, torna possível para nós penetrar no círculo vicioso e poder assim colabo¬rar para o seu bem. As pessoas cegas às quais ajudamos a recuperar sua adequação social e compreender as forças que se encontram envolvidas no problema global, irão, elas próprias, influenciar sua sociedade a aceitá-las e a todas as pessoas cegas — e assim diminuir as forças que operam quanto à não aceitação, no futuro.
A perda da adequação social é um assunto extremamente sério, Sua restauração merece nossos melhores esfor¬ços e a grandeza da tarefa os exige. Quanto mais eficientemente atacarmos esta perda quando ela se origina na atitu¬de da sociedade dotada de visão, mais atingiremos o ponto essencial do problema da educação do público a respeito da cegueira, uma questão ampla e complexa que deve ser tratada separadamente (capitulo 18). Nosso interesse aqui, se prende ao cego como pessoa.
O treinamento da reabilitação em todas as áreas opera em direção à recuperação da adaptação social “objetiva”. A ajuda profissional para se restabelecer a independência (já discutida no parágrafo anterior) é de importância primordial; a maneira de a pessoa cega tratar os proble¬mas reais da adequação social e seus próprios sentimentos em face à sociedade dotada de visão, depende, em grande parte, do grau no qual, no decorrer de sua reabilitação, ela conseguir restabelecer novamente uma estrutura equilibrada e madura da personalidade.
Além disto, ela necessitará de uma ajuda especi¬al no sentido de esclarecer e reorganizar sua atitude para com a sociedade — o que significa aclarar seus sentimentos em relação à cegueira e a si mesmo como pessoa cega. Se ela não agir desta maneira, será ainda guiada por estes sentimentos, acusando a sociedade por conservá-los e escondendo de si mesma o fato de que ela, a pessoa cega os compartilha; isto a tornará inadequada, não importando a boa vontade que a sociedade possa demonstrar em querer aceitá-la. Outrossim, ela necessitará de ajuda a fim de compreender seus sentimentos de mágoa de que outras pessoas são dotadas de visão e ela não — sentimentos que ela pode ter racionali¬zado como um ressentimento por causa da atitude da sociedade quanto a sua própria pessoa. Isto requer uma atenção toda especial no que se refere â sociedade de pessoas com visão e que está mais próxima a ela — sua própria família. De maneira contrária, seus sentimentos sobre a capacidade de visão dos outros membros e sua cegueira podem causar terríveis conseqüências na sua “adaptação à família”.
Também seus sentimentos em relação ao outros cegos precisam ser esclarecidos. A rejeição aberta, ou inveja disfarçada, em face aos que se distinguiram, o ressentimento devido aos fracassos; uma completa identificação com o grupo dos cegos — qualquer uma destas atitudes indica sentimentos profundos com respeito à sua própria cegueira e ao público dotado de visão, em relação ao qual ela não se sente nem excluída, nem aceita quanto à tolerância.
A pessoa cega também precisa de ajuda a fim de poder distinguir entre a falta de adequação social resultante da cegueira e a falta de adaptação que ela sofreria caso fosse cega ou não. Alguns indivíduos cegos habitualmen¬te põem a culpa dos seus fracassos inteiramente na sua cegueira. Esta atitude pode ser franca ou oculta (sendo assim mais perigosa) e é uma atitude fácil da pessoa cega adotar.
Por exemplo, um rapaz que perde a vista aos treze ou quatorze anos, e meses depois convida uma menina para jantar fora pela primeira vez na vida, incorre em muitas espécies de sentimentos de insegurança. Ele se sente insegu¬ro quando encontra a menina, quando topa com alguém da “turma” ao se achar em sua companhia, quando chama um táxi, quando dá gorjeta ao chofer ou ao porteiro, quando encomenda o jantar, quando dança e em todas suas atitudes desde o momento em que se encontra com a menina até quando se despede dela.
A tendência natural do adolescente é a de culpar a cegueira de toda a sua falta de segurança, sem reconhecer, que qualquer outro adolescente tem os mesmos sentimentos no seu primeiro encontro. A não ser que seja ajudado para se¬parar os fatores da cegueira dos da adolescência, ele se sentirá tremendamente mal adaptado na sociedade de adoles¬centes da qual faz parte.
Do mesmo modo, o cego adulto precisa ser alertado quanto à necessidade de ser o mais possível objetivo a fim de distinguir entre os fatores da cegueira que o impedem de funcionar devidamente, dos outros fatores que afetam os providos de visão e que têm os mesmos efeitos. As dificuldades sociais não se prendem unicamente a programas de jantares, mas acontecem em todas as nossas relações com outras pessoas. Até mesmo o fato de abrir a porta para um vendedor é enfrentar uma situação social que é preciso ser vencida. Comumente não usamos tais palavras como “vencer” ao discutirmos situações às quais estamos habituados em condições emocionais normais. Não encontramos grandes novidades nelas. Entretanto, devemos considerar que a vida é um círculo contínuo de novas situações sociais (e 6 neste sentido que empregamos as palavras) e a cegueira acrescen¬ta fatores que podem fazer de um encontro bem sucedido, uma verdadeira “conquista”.
Os: “Será que, ele vai gostar de mim?”, “Vou gostar dele?”, “Vou impressioná-lo?”, “Ele ficará impressionado?”, “Saberei enfrentar dignamente a situação?” — na adolescência não é felizmente um fator consciente importante como quando a maioria dos adultos enfrenta situações sociais co¬muns. Muitas vezes, está ligeiramente enterrado; entretan¬to, uma cegueira recente pode trazê-lo à superfície de ma¬neira trágica. Com este fator no quadro, as oportunidades de erros sociais acrescentados à cegueira podem causar danos reais.
Em resumo, a pessoa cega deve ser auxiliada no sentido de reconhecer que o fato da sua perda da adequação social não é inteiramente culpa da sociedade dotada de vi¬são, mas que é, em parte, devido a ela mesma, e saber que neste campo ela pode realizar muita coisa.
Ajudá-la nestas realizações é, em parte, um tra¬balho de total ajustamento à cegueira ou uma reorganização total da personalidade, ainda a ser discutida. Grupos de discussão em relação aos perigos inerentes a segregação das pessoas cegas quanto à recreação e os outros fins, pode ser útil, aqui, fornecendo através do próprio grupo uma grande parte de reconhecimento das forças que atraem os indivídu¬os inseguros para se manterem juntos, e dos caminhos nos quais os sentimentos socialmente inadequados de tal grupo completam seu medo e hostilidade já existentes. Psicoterapia de grupo é muito mais importante e também será de grande utilidade, um trabalho especial em relação a cada indivíduo.
Porém, seja através de um grupo de psicoterapia, ou por outros meios, é imprescindível que a pessoa cega seja orientada, não só no sentido de reconstruir suas próprias energias internas, mas também para obter a devida compreensão das dificuldades que são experimentadas pelo público dotado de visão, em contato com indivíduos cegos. A pessoa cega ajustada desenvolverá a compreensão e tolerância pelas dificuldades que aqueles com visão têm a seu respeito e aprenderá a se tornar capaz de ajudar os dotados de visão quanto a uma compreensão maior dos problemas em questão, de maneira que possam sentir-se “à vontade com a cegueira”. Com tal tolerância bem equilibrada, a pessoa reconhecerá o fato de que surgirão oportunidades em que a ignorância dos que têm visão a fará sofrer e outras em que raros exemplos de estupidez a aborrecerão. Ela porém, não continuará sua vida afora com um ressentimento recalcado pelos dotados de visão, nem será levada a viver num mundo de cegos.


18. Obscuridade

A cegueira tem um alto “fator de visibilidade social”, não só devido a ser facilmente reconhecida por aquele que vê a pessoa cega, mas também porque sua cegueira — um sinal de diferença física — é também o distintivo, o símbolo da presumida diferença social que acabamos de discutir.
Nas sociedades nas quais as diferenças raciais têm um alto grau de importância social, as características de cor e de raça possuem um alto grau de visibilidade social. Porém, quando as diferenças raciais assumem seu verdadeiro papel subordinado às características de cor e de raça (embora ainda facilmente reconhecíveis por qualquer um que as veja) não têm o mesmo grau de “visibilidade social”. Um indivíduo de pele muito escura e com as características fa-ciais do negróide, vivendo entre um grupo de caucasianos é simplesmente um negróide, quer a sociedade seja antirracista ou não; porém, onde existe a consciência racial ele apresenta um grau muito mais alto de visibilidade social do que onde não existe.
A pessoa cega pode, por si mesma, acrescentar ao fator da visibilidade social, seu próprio sentimento profundamente neurótico de diferença ou insegurança, de desesperança em relação a poder realmente superar sua cegueira, e viver uma vida normal. Não foi por mera coincidência que nosso idioma começou a usar a mesma palavra “atitude” com relação a emoções, sentimentos e ponto de vista de um indivíduo, como também no que se refere à sua posição física. A atitude interior de uma pessoa transparece na sua atitude exterior: a atitude psíquica tem reflexos somáticos. Isto acontece muitas vezes na atitude de uma pessoa em face de sua própria cegueira. Como conseqüência, a pessoa que tem sentimentos de estranheza, desesperança, comumente as manifesta na sua aparência externa comunicando-as às outras, dando à sua cegueira um fator de visibilidade social mais alto do que realmente tem.
Finalmente, a pessoa cega pode projetar seus sentimentos em torno daqueles que a cercam e achar que está sendo observada, mesmo quando não está. Este é um fenômeno comum de criaturas autoconscientes e a cegueira leva a uma exagerada “consciência do eu”.
No treinamento da reabilitação há pouco a fazer a fim de que o “fato da cegueira física” seja menos visível. Em lugar disto, a pessoa cega é ajudada a ver quão fútil e mesmo prejudicial pode vir a ser, o fato de ela querer esconder o que não pode deixar de ser tão evidente que os gestos tateantes que a pessoa faz querendo se proteger e ainda escondendo sua cegueira, simplesmente, reforçam todos os sentimentos do público provido de visão a respeito da necessidade de ajuda do cego e, em particular, daquela pessoa cega.
O uso de um cão ou de uma bengala, como já foi demonstrado, não é um apêndice da cegueira de alguém, mas sim o uso lógico de um expediente necessário à pessoa que reconhece que, desde que sua cegueira não pode ser escondida, ela precisa usar os instrumentos que a levarão à sua independência. Em nossos dias, para o público em geral, o cão e a bengala longa se tornaram cada vez mais o símbolo de um tipo de pessoa cega diferente dos estereótipos familiares. (A tentativa de “passar” por pessoa provida de visão deve¬ria ser, então, provavelmente apenas atacada, indiretamen¬te num programa de reabilitação e compreendida como um sintoma de uma dificuldade recalcada que deve ser e pode ser tratada).
Em conexão com a “profunda diferença social” que o público presume que se encontra por trás da deficiência visível, pode-se mostrar a pessoa cega que enquanto o pro¬blema de longa duração não for resolvido em nossos dias, há entretanto muita coisa que pode ser feita por ela, no seu próprio meio ambiente, imediato. Quanto mais ela conseguir transformar a atitude do seu meio ambiente em relação à cegueira, e a si própria como pessoa cega, mais sua cegueira será relegada ao segundo plano, como um “fator de visibilidade”.3 O que é necessário é que haja um maior numero de pessoas cegas, seguras de si, e que trabalhem dentro e em redor da comunidade, educando o público através da sua própria presença e colocando desta forma o “fator de visibilidade social” em segundo plano.
Os próprios sentimentos da pessoa cega, de estranheza, de diferença, e de falta de ajuda que podem ser acrescentados ao “fator de visibilidade social” são tratados pelo completo aspecto psicossocial da reabilitação. Quanto ao fator da projeção, qualquer forma de insegurança faz com que a pessoa tema ser observada, embora por vezes, ela possa desafiar a observação por um exibicionismo perverso e frequentemente faz com que se sinta observada, mesmo quando ninguém está olhando para ela. A insegurança causada pela cegueira adquirida não é uma exceção. De fato, é até mesmo maior, desde que a pessoa cega não possa retribuir o olhar de alguém que porventura o estivesse observando.
O que está envolvido aqui é tanto a necessidade normal do individuo equilibrado, em busca de discrição, como uma maior necessidade da pessoa que é insegura por si mesma. O processo de reabilitação não eliminará o espaço de tempo em que uma pessoa é vista. O que fará de fato, se for bem sucedido, é encorajá-la a tomar parte em atividades sociais de tal modo que ela seja vista, ainda mais, do que a pessoa cega que não está reabilitada. O que a reabilitação pode conseguir aqui é ajudar a transformar o auto-conceito da pessoa cega de tal maneira, que ela não pensará em si mesma como sendo uma criatura cega sem ajuda; mas, ela será de fato (e será vista desta maneira) como uma pessoa forte, apta a superar os problemas da cegueira. Uma pessoa imbuída de tais idéias sobre si mesma pode sair, levando consigo sentimentos completamente diferentes quanto a ser vista e o problema de ser alvo dos olhares, diminuem consideravelmente. Por exemplo, diz-se geralmente que o verdadeiro cego independente caminha com seu cão ou com a bengala longa e não recebe oferecimentos de ajuda exceto quando ele deixa transparecer que a necessita, enquanto que (aqui, novamente a neurose derrotando sua finalidade) o cego de¬pendente está pronto a receber ajuda quando está menos preparado para recebê-la e também não encontra ajuda, no mo¬mento em que mais necessita dela.
Existe sempre o perigo de a pessoa sensível tender a projetar dentro deste problema mais do que existe na realidade. A resposta não será dada proporcionando-lhe introspecção intelectual quanto a esta tendência (embora algumas vezes ajude), porém, assistindo-a nos problemas que estão por baixo.
Porém, todos nós que trabalhamos com os cegos devemos nos abster da nossa própria tendência de acrescentar a este fardo particular da pessoa cega, a sugestão de que de uma forma ou de outra, alguém a estará vigiando; que a observarão através do reflexo do nosso treinamento, e que por este motivo ela deve comportar-se, de acordo com aquilo que pensamos que ela deve fazer. “Noblesse oblige” é um fardo pesado para qualquer um; portanto, jamais o deveríamos exigir daquele que vem a nós em busca de ajuda. A motivação do homem cego reabilitado não deveria ser, certamente, a de uma obrigação que lançamos em seus ombros. Deveria, pelo contrário, ser encontrada dentro dos seus próprios princípios in-teriores. Esses princípios ele deve estar apto a apre¬sentar com maior clareza no curso do processo de reabilitação e na segurança que ele tem em si e que conseguiu completar.


19 - Auto- estima

Como já foi dito anteriormente (Capitulo 9) a auto-estima, a opinião completa que alguém possui de si mesmo, possui duas fases distintas, sendo a primeira sua auto-estimativa objetiva. É quase impossível para qualquer um possu¬ir uma auto-estimativa que seja realmente objetiva, porem, não importando o quanto seja ou não real, as múltiplas per¬das da cegueira estão combinadas para infringir-lhe um sério golpe. Em uma área após outra, o indivíduo foi mutilado pela sua cegueira adquirida.
Não é desaconselhável que a auto-reapreciação de¬va começar num momento de extrema auto-desvalorização no após choque, nos primeiros estágios de lamentação da cegueira adquirida. Contudo, é importante que o processo de reabilitação comece logo depois, não tão cedo para inibir a dor, mas não tão tarde para permitir que a autodesvalorização se torne um padrão de ordem ou a concretização de vários mecanis¬mos de defesa.
A tarefa de ajudar a pessoa cega a superar o que ela perdeu na auto-estimativa objetiva, deveria começar por ajudá-la a formar cedo, na sua cegueira adquirida, uma estimativa a mais realista possível de sua situação: quais são seus projetos, quais as oportunidades que tem de fazer alguma coisa e quais as dificuldades que encontra em seu caminho. Isto inclui a necessidade dela encarar o fato de sua condição e compreender o significado da reabilitação, em termos realísticos.
Este é o trabalho no leito do hospital ou para as primeiras semanas após a ocorrência da cegueira. Isto não exige propriamente a presença de um psicólogo, porém as pessoas bem intencionadas, inspiradas em Pollyana são certa¬mente “contra-indicadas”. Há a necessidade de alguém capaz de apresentar uma avaliação realista da cegueira e das possibilidades que este indivíduo cego pode ter a fim de superar os problemas criados por ela, É necessária uma pessoa que não subestime ou sobreestime a própria deficiência, nem as possibilidades de superá-la.
Com o treinamento da reabilitação, as áreas uma após a outra serão restauradas até certo grau. A pessoa cega então se julgará competente numa coisa após outra que ela achava que jamais poderia fazer novamente. Não poderá fazer tudo aquilo que fazia antes da cegueira, mas, num grau que ela jamais acreditaria possível, desenvolveu habilida¬des e aprendeu com suas potencialidades para um desenvolvimen¬to ulterior.
Ela irá perceber, é lógico, que até certo ponto isto está acontecendo. Precisará então ser ajudada a compreender o contraste entre o que podia fazer um mês atrás e o que pode fazer atualmente. Tal ajuda é mais efetivamente fornecida por uma série de entrevistas pessoais regularmente organizadas, talvez em conjunto com uma folha de pontos que apresenta uma lista de todas as perdas da cegueira com sinais que detalhem o progresso que deve ser verificado em relação à finalidade da reabilitação, adaptada ao indiví¬duo. Esta folha poderia ir ao longo das linhas do panfleto V-A louco “What’s my Score” e na forma V-A 10-2555: “My owon score”, elaborado para homens com defeitos na coluna vertebral. Estas publicações provam também ser úteis no sentido de elaborar um quadro do progresso de indivíduos cegos que não fazem o treinamento de reabilitação. De qualquer maneira, a avaliação de cada estágio, deveria ser realista e concreta, indicando a extensão a qual a auto-estimativa da pessoa está autorizada a subir, à medida que suas bases obje¬tivas são reconstruídas.
Tamb6m a família da pessoa cega precisa de ajuda no sentido de fazer uma estimativa realista logo cedo, da sua cegueira e em vários estágios durante o progresso da reabilitação, já que a família que se nega a encarar a finalidade da cegueira ou outra que a considere como uma tragédia irremediável, pode tornar praticamente impossível que o indivíduo faça sua auto-reapreciação e o necessário plane¬jamento para sua reabilitação.
Entretanto, realisticamente o indivíduo pode ava¬liar os elementos “objetivos” da sua auto-estimativa, fa¬zendo-a finalmente de acordo com alguma base padrão de cálculo de valores. Se este padrão de valores que o cego usou até então no foi realístico e maduro, é bem possível que no curso do processo de reabilitação ele venha a substituí-lo por outro que o seja.
Se a medida do sucesso ou da felicidade da pessoa tenha sido a de ganhar dinheiro, ela pode descobrir, en¬quanto está sendo ajudada a recuperar a possibilidade de aquisição de dinheiro suficiente para sua segurança, que, embora alguns elementos na nossa civilização equacionem o status com o dinheiro, a verdadeira segurança deve ser procurada algures.
Caso a medida completa da pessoa cega daquilo que o ser humano normal deveria ser, tenha constituído no ideal da “beleza corporal”, ela poderá descobrir que um número de pessoas procura ser seres humanos relativamente satis¬feitos, embora não sendo fisicamente perfeitos, assim como a maioria do grupo da “beleza corporal” manifesta alguns fenômenos psicológicos interessantes.
Se a filosofia completa da vida da pessoa cega é falsa, ela ganhará consideravelmente se chegar a substituí-la por outra mais verdadeira. Porem, ela somente sairá ga¬nhando se adotar a nova, não porque a “fará mais feliz” (como se fora uma fuga), mas porque é verdadeira. Falando logicamente, pareceria como que o sofrimento da cegueira fosse mitigado por uma crença na Divina Providência e uma crença na vida futura sem cegueira, ou sofrimentos, mas o fato da pessoa ter estas crenças não significa realmente que ela sente menos o sofrimento da cegueira. Porém mesmo que ela o sentisse não faria melhor do que se os adotasse como uma espécie de aspirina cósmica. Pois, todo aquele que adota qualquer crença religiosa a fim de se “sentir melhor”, esta usando a religião como uma fuga a realidade. E, é bem possível que, abraçando uma nova ordem de princípios, muitos estarão na realidade, simplesmente se prendendo a uma nova forma de fuga neurótica.
A obtenção de um novo padrão de valores — conteur ele no domínio dos princípios religiosos, éticos, morais, filosóficos ou culturais — pode-se favorecer, em alguns casos, pelo fato do trauma múltiplo da cegueira ter destruído uma ordem de valores previamente tidos como falsos. Em outros, pode ter sido impedido pelas fortes emoções originadas pelo trauma, que já estão no caminho de qualquer clareza de pensamento. Em todo caso, o objetivo da reabilitação é de capacitar o individuo a se tornar uma criatura completa ainda uma vez — uma criatura capaz de fazer sua própria escolha entre o bem e o mal, de fazer sua própria escolha dos valores, de acordo com os quais ela doravante fará sua auto-estimativa objetiva.
Em relação à outra fase da auto-estima, a “auto-imagem”, existem poucas medidas dos efeitos da cegueira sobre ela e ainda menos dos efeitos da reabilitação após a cegueira. A experiência porém parece indicar que o processo de uma reabilitação completa pode, na maioria dos casos, ajudar uma pessoa a construir uma auto-imagem mais forte e mais satisfatória do que a que tinha depois que a cegueira a acometeu e antes da reabilitação, e que também pode conseguir maior equilíbrio com esta auto- imagem do que teria sido esperado de outra maneira. Em poucos casos esta auto-imagem reformada pode ser ainda mais forte do que aquela que a pessoa possuía antes de tornar-se cega.
Este reerguer de auto-imagem parece ser devido em parte à introspecção induzida do processo de reabilitação, em parte à natureza geralmente terapêutica da boa reabilitação. Certamente o maior fator aqui é também o reconhecimento desenvolvido da pessoa cega de que ela possui e deu provas de uma força a fim de encarar e superar uma crise importante da sua vida — a força que ela antes não acreditava poder possuir.
A reaquisição de habilidades e a conseqüente elevação na auto-estimativa objetiva também estão envolvidas aqui, porém, a completa questão de reconstruir a auto-imagem como a de independência interior, está ligada à reorganização total da personalidade, a ser discutida no próximo item.


20 - Organização total da personalidade

A restauração da organização total da personalidade é, de algum modo, a finalidade completa da reabilitação e como consegui-lo eis o problema. A perda da personalidade é o efeito de todas as outras perdas, porem a restauração não vem assim, simplesmente como efeito da reabilitação em outras áreas. Pela reaquisição de habilidades e técnicas muito da tensão da personalidade é removida, porém ainda há a necessidade de ajuda a fim de sanar os danos ocasionados pela própria estrutura emocional. Muitos dos fatores envolvidos já foram discutidos em conexão com uma ou outra restauração psicológica. A reorganização total da personalidade é a síntese dinâmica de todos esses fatores fazendo do cego novamente um indivíduo completo.
Como já dissemos anteriormente, esta necessidade de reorganização não significa que algo está errado mentalmente com aquele que ficou cego. Isto simplesmente significa que ele é uma criatura normal em circunstâncias anormais, tendo sofrido tal trauma múltiplo que somente uma pessoa, completamente anormal com um caso avançado de es¬quizofrenia não seria afetado por isto, A pessoa cega, portanto, precisamente por ser normal, precisa de cuidados profissionais especiais para se recuperar inteiramente e poder atingir o “total” da sua nova condição.
Este ajustamento total pode ser definido como a atitude que capacita a pessoa cega de acordo com sua própria natureza e capacidades individuais, a encarar o fato de sua cegueira admitindo sua severidade, sem contudo dramatizá-la ou exagerá-la; fazer todo o possível para adquirir as habilidades substitutivas e os conhecimentos necessários; ter e apresentar as mesmas emoções anteriores à cegueira; mobilizar as forças internas em torno de si mesma e não em torno da cegueira; voltar à sociedade da qual vem, como uma personalidade íntegra, fazendo parte integral desta sociedade e não fazendo uso do seu defeito físico como uma fuga ou defesa de si mesmo ou talvez como um chamariz ou clube para aqueles que o cercam.
Assim pois, o ajustamento verdadeiro é distinto do mal-ajustamento (uma situação de uma falsa atitude pa¬ra com a cegueira), facilmente distinguível em teoria, mas não acontecendo necessariamente o mesmo na prática, um indivíduo que é normalmente irritado, ou agressivamente desejoso de fazer alguma coisa para superar sua cegueira é muitas vezes considerado mal-ajustado.
Também se distingue do ajustamento parcial que pode ser tanto um estágio normal no decorrer do caminho para o ajustamento completo, ou um estágio no qual uma pessoa em particular deixou de progredir.
E, finalmente, distingue-se do ajustamento aparente — a espécie que mais facilmente engana os técnicos especializados destreinados e ocasionalmente também nos engana. O ajustamento aparente é muitas vezes encontrado entre aquelas pessoas cegas que dizem a si mesmas que a cegueira é uma “pequena deficiência” e entre aquele grupo eufórico a quem os não iniciados chamam de “felizes”. Estas criaturas apresentam um problema especial, já que nelas estariam as sementes de uma explosão — o que talvez jamais aconteça e desde que se torna especialmente difícil ajudar pessoas a superarem uma deficiência que elas acreditam ter superado.
Também estão incluídas no “ajustamento aparente” aquele grupo de pessoas muitas vezes chamadas de ajusta¬das simplesmente porque jamais se queixam porque não têm capacidade de se tornarem agressivas, exceto em circunstâncias muito limitadas são capazes de uma hostilidade real, porém incapazes de expressá-la; trata-se de uma hostilidade não suspeita pois que se encontra enterrada sob um constante ar de camaradagem. Podem ser mais hostis do que a média de pessoas, sem o saber, mas não possuem a capacidade de uma agressividade normal.
O verdadeiro ajustamento não é a resignação à cegueira; não é concordar com tudo que se lhes sugere; não é aceitação das coisas como elas são, nem mesmo a habilidade de conservar um bom emprego. É a síntese de tudo o que foi dito acima.
A tarefa da restauração da organização global da personalidade, de ajudar, o indivíduo cego a completar seu verdadeiro ajustamento, pode ser dito que consiste essencialmente em patentear e fortalecer o ego, ao mesmo tempo em que removendo as defesas que se encontram no caminho para encarar e superar a grande deficiência da cegueira. Trata-se de uma tarefa delicada e difícil que exige esforços unidos, num centro de reabilitação que é, essencialmente uma comunidade psicoterapêutica.
De que maneira esta tarefa pode ser executada é talvez melhor indicada em termos de um programa real de treinamento. Descreveremos então o que esta sendo feito no Centro de Reabilitação de St. Paul, incluindo-se um quadro (quadro D), apresentando o horário de uma semana, indicando como as habilidades e o treinamento psicológico se mesclam, a fim de perfazer um programa de “reabilitação total”.
Durante um longo período de treinamento da equipe, antes do Centro ter admitido seu primeiro grupo de treinandos, foi firmemente estabelecida a orientação psiquiátrica original. Isto é comunicado aos novos membros da equipe através da atmosfera geral, num período de uma semana de treinamento (em adição à reunião regular da equipe) e por constantes comunicações entre os outros membros da equipe e do departamento psicossocíal que consiste de dois psiquiatras, um psicólogo e um assistente social psiquiátrico. Acima disto tudo, as sessões semanais de psicoterapia de grupo para a parte fundamental dos membros da equipe assegu¬raram a continuação e crescimento interno do Centro, como uma comunidade psicoterapêutica.
O Centro encontra-se fechado por uma semana du¬rante o ano, a fim de dar à equipe uma oportunidade de revisar o programa, geralmente contando com a ajuda de um especialista em dinâmica de grupos. Desta forma a auto-avaliação e programa de avaliação não sofrem interrupções. Qualquer membro da equipe pode falar aberta e livremente a respeito da cegueira, não poupando comentários sobre quaisquer dificuldades. E, no momento em que os membros da equipe tomam conhecimento de seus próprios problemas, são aconselhados a levá-los ao psiquiatra da equipe.
Dezesseis cegos são atendidos no treinamento de cada vez, entrando juntos a fim de se beneficiaram com a dinâmica de grupo; o programa que é residencial tem a duração de dezesseis semanas. A equipe que consta de umas trinta pessoas é orientada no sentido de dar a maior ajuda e apoio possível durante os primeiros dias e ir gradu¬almente se desligando de tal maneira que, nos fins da décima sexta semana, o treinando já possa operar com suas próprias energias.
Aulas de atitudes com relação à cegueira são ministradas três vezes por semana durante o período de dezesseis semanas. Aqui a tentativa é de levar o grupo a enca¬rar todas as implicações da cegueira e dar-lhes alguma introspecção intelectual, nos seus efeitos. Este curso consiste num ataque direto em algumas defesas psicológicas e seu efeito cumulativo é forte. (Consequentemente, tal curso jamais deveria ser tentado com cegos, a não ser que a ajuda profissional esteja apta a cuidar das reações que podem surgir).
O psiquiatra também ministra uma aula por sema¬na de auto-apreciação, diretamente orientado para uma aproximação terapêutica em relação aos problemas dos treinandos. Nesta atmosfera permitida, a aula tem algo da qualidade de psicoterapia de grupo, porém possui também uma parte de conteúdo intelectual, apresentando princípios para solução de problemas discutidos.
Uma “sessão de queixa” semanal na qual os treinandos podem transmitir suas dificuldades ao administrador, revelam os problemas, tornando assim os grupos semanais de sessões de psicoterapia mais eficientes. Estas sessões, conduzidas pelo psicólogo da equipe, permitem que o grupo penetre mais profundamente na compreensão e conclusão de alguns dos problemas que eles haviam considerado intelectualmente em outras classes.
Entrementes, os treinandos recebem o benefício individual do serviço social de casos através do assistente so¬cial e as sessões individuais de aconselhamento com o psicólogo e o psiquiatra.
Estas várias aproximações aos problemas emocionais envolvidos com a cegueira, permitem esforços unidos a fim de assistir cada treinando para concluir um ajustamento verdadeiro. Com a colaboração de uma autorizada equipe profissional de ensino operando ao mesmo tempo para o desenvolvimento de várias habilidades, o curso de dezesseis semanas desenvolve um verdadeiro embalo, no sentido de restaurar a organização da personalidade global e capacitando cada um para voltar à sua sociedade como membro integrante e contribuinte.
Pode parecer que o período de dezesseis semana seja muito curto para este trabalho complexo de “ajustamento total” ou “reorganização total”. Porém, em adição ao meio ambiente terapêutico total, o próprio fato da cegueira assiste o processo de remover alguns dos bloqueios usuais para a manifestação do ego. O treinando pode atribuir ao “nervosismo” sem a auto-desvalorização, já que todos concordam com que a cegueira é uma razão suficiente para ele se sentir dessa maneira. Daí por diante estará mais pronto do que estava em outras circunstâncias, para aceitar a idéia de que precisa de ajuda a fim de compreender suas próprias reações em obtê-las.
O próprio fato do baixo estado de capacidade ao qual o treinando ficou reduzido pela cegueira, faz com que um mínimo de progresso pareça muito. Evidentemente terá caminhado para cima. Já que está melhorando nos cursos de habilidades (e aprendendo aquilo que jamais pensaria capaz de fazer) ele está sendo sempre estimulado durante o período de auto-avaliação.
É verdade- que muitos indivíduos cegos obtiveram sucesso quanto à restauração da sua organização total de personalidade sem jamais terem freqüentado um centro de reabilitação. Entretanto, os problemas resultantes das tentativas de resolver as tarefas tão difíceis e importantes fora de um completo programa de reabilitação são bastante óbvios. Quando por força das circunstâncias surge tal necessidade, a própria pessoa cega e aqueles que a ajudam precisam ter em mente os elementos essenciais para uma verdadeira reabilitação: o re-treinamento dos sentidos; a reaquisição de habilidades e técnicas necessárias (com a ajuda de um professor que vá à casa do aluno e que esteja capacitado a instruí-lo no Braille, um técnico profissional de mobilidade para ensiná-lo a caminhar etc.); a organização de energias internas através de um apoio adequado exigido pa¬ra aqueles que convivem com a pessoa cega - um apoio que a levará á independência, ministrado por alguém capaz de amá-la adultamente; e, se possível, serviço social ou a ajuda da psicoterapêutica em face à cegueira e à organização para superá-la.
Deve ser repetido, em resumo, que, sem um ataque aos problemas externos da cegueira, qualquer trabalho em relação aos problemas interiores terá poucas probabilidades de sucesso; e igualmente, sem um trabalho quanto aos problemas interiores - sobre a organização total da personalidade, o trabalho para restaurar as habilidades e capaci¬dades será de pouca importância. Quando ambos são obtidos juntamente, então estaremos fazendo todo o possível para ajudar a pessoa cega a completar um ajustamento autêntico na cegueira, e dar à pessoa que “morreu” para a vida de visão, a oportunidade de viver plenamente outra vez, num mundo dotado de visão.


QUADRO D
HORÁRIO DE AULAS NO CENTRO DEREABILITAÇÃO
(Excluído)


NOTAS DE RODAPÉ
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1 - Neste e no capítulo seguinte, a situação das pessoas cegas na sociedade é tratada de maneira análoga à do grupo racial minoritário. Isto não significa uma identificação entre as duas situações. A cegueira é uma anomalia num mundo provido de visão; ser membro de um grupo racial minoritário é anômalo, somente quando o grupo majoritário dá uma importância primordial à origem racial.

2 – Addison-Wesley Comeany, Reading, Massachusetts, 1954.

3 - Isto é semelhante à situação mencionada quanto ao negro numa sociedade que não é precisamente e conscientemente racista. É evidente que se trata de um negro, mas o fato cessa de ficar muito presente na consciência das criaturas; cessa de ser uma característica importante nos seus pensamentos a seu respeito. É possível que as pessoas cegas possam passar pela mesma situação, não somente no seu círculo familiar, na sua vizinhança, no seu grupo de emprego, como também no geral da comunidade.


CAPÍTULO 17
AJUDANDO A FAMÍLIA


Através deste livro temos considerado as perda que a cegueira inflige às pessoas que perderam a visão. Mas precisamos lembrar que os membros da família, também, sofrem um golpe severo e que eles também muito perderam — as perdas variando de acordo com a relação de cada um para com a pessoa cega e seu papel na família.
Há, também perdas tanto nas áreas psicológicas como na da “realidade”. Mesmo que aquela pessoa que perdeu a visão não fosse o arrimo da família, problemas financeiros surgiriam certamente, com muitas dificuldades reais afetando a vida diária. Mas, estas por mais perturbadoras que a sejam, são num certo sentido, sem importância comparadas ao dano emocional que possa suceder aos mais chegados à pessoa que ficou cega e à completa estrutura familiar.
Qualquer pessoa com um pouco de imaginação preci¬sa apenas percorrer a lista de perdas para verificar quais poderão ser os efeitos de cada uma: aqui está alguém de minha família, muito íntimo, que não é mais fisicamente perfeito, que “vive na escuridão”, que se tornou estranhamente “diferente” e digno de compaixão etc. Pois que, assim como a pessoa que ficou cega compartilha da opinião geral do público a respeito da cegueira e do cego, é o fato dela agir assim que causa, em grande parte, senão no todo, os danos psicológicos decorrentes da cegueira — assim também, sua família. Assim como o público geralmente, inconscientemente, teme e rejeita a cegueira pela compaixão e rejeição daquele que ficou cego, o mesmo acontece com sua família. E como os dotados de visão geralmente, inconscientemente, sentem-se envergonhados destas reações e, portanto, tentam escondê-las de si próprios, assim, mas em grau muito maior, fazem os membros da família da pessoa que ficou cega causando, frequentemente muitas tensões perturbadoras.
Os membros da família, portanto, necessitam de qualquer ajuda que possamos oferecer-lhes: ajuda para com¬preender a cegueira, compreensão do que a reabilitação po¬de realizar para seu parente e como eles podem dar real assistência, compreendendo e trabalhando através das suas próprias reações para com a sua cegueira. Esta ajuda não pode ser tão direta ou tão completa como a que pode ser dada pelo treinamento de reabilitação. Não obstante, alguma coisa pode ser feita; e quando a família coopera, muito pode ser feito.
Seria o ideal, se nos primeiros dias da cegueira de uma pessoa, se pudesse dar à sua família, um balanço realista da situação e assistência no sentido de aceitar a sua cegueira. Isto, de um lado, iria impedi-los de darem ao que ficou cego falsas esperanças e de encorajá-lo a procurar “curas” inúteis, e por outro lado, de desencorajá-lo a submeter-se a treinamentos de reabilitação baseando-se em despesas desnecessárias e inúteis. Seria, também muito útil se se fosse demonstrado a estes, neste momento, como melhor ajudar o parente a recuperar a confiança em seus outros sentidos e a ajudá-lo a exercitá-los a recuperar algumas habilidades elementares.
Quer tal ajuda possa ser dada ou não, um “seminário familiar” é muito valioso ao treinamento de reabilitação. Levado a efeito em horas convenientes, durante as últimas semanas do período de treinamento, pode ajudar enormemente a família a compreender o que é necessário e assim facilitar a volta daquela pessoa que ficou cega à vida fa¬miliar.
O seminário familiar do St. Paul, por exemplo, realiza-se durante dois dias. Palestras feitas pelos vários membros da equipe dão uma idéia realista da aprendizagem dos que estão sendo treinados e do progresso de cada curso. Duas destas palestras apresentam uma versão condensada dos cursos que tratam das atitudes em relação à cegueira e são seguidas de debates, tendo mais ou menos o caráter de psi¬coterapia de grupo. Aos participantes é dada a oportunida¬de de descobrir seus problemas e de procurar suas soluções numa atmosfera de “comunhão” com pessoas que possuem os mesmos problemas. Proporciona-se também, oportunidade para conferências individuais e um relatório é dado a cada família sobre o progresso feito pelo seu parente.
Mesmo em tão breve tempo é possível dar às pessoas que freqüentam estes seminários, informações suficientes sobre os problemas práticos que eles e seu parente que perdeu a visão terão que enfrentar quando este retornar ao lar, tais como aqueles relativos aos guias e ledores, a neces¬sidade de mantê-lo em contato com programas e acontecimentos, os fatores que devem ser lembrados em relação à comunicação falada e às possibilidades de emprego. Assim, a família estará apta a fazer planos realistas para o futuro, em relação ao que o treinado poderá fazer e aos planos do mesmo. E além disso, terá ganhado ao menos o começo de um discernimento de suas próprias reações emocionais para com a cegueira e seu parente cego.
Em muitos casos, isto é tudo que se necessita. Em outros, entretanto, como foi mencionado em conexão com a restauração da independência, será exigido maior trabalho se a família, ou algum de seus membros, for permitir àque¬le que ficou cego recuperar seu status independente e seu papel na família.
Se for possível, tal família poderá ser posta em contato com um técnico em serviço social da organização, preferivelmente alguém com conhecimentos do problema especial das pessoas que não enxergam. Este poderá fazer muito pelas famílias que não podem freqüentar os seminários familiares, ou cujos membros cegos não receberam treino de reabilitação..
Em algumas comunidades, será possível a uma organização para cegos oferecer um curso noturno, de uma vez por semana, para as famílias interessadas, o que serviria às mesmas finalidades. Mas, sendo a questão principalmente a de mudança de atitudes, geralmente uma inveterada atitude em relação à cegueira, certo trabalho contínuo junto à família é ne¬cessário para lembrá-la do que a cegueira realmente é e do que ela não é. A experiência mostra que um jornal especial enviado, mensalmente, ou bimensalmente ao lar daquela pessoa que ficou cega para ser lido a esta pelos membros da família, é do maior valor aqui, tanto para eles como para a própria pessoa que ficou cega 1.
Tal jornal deveria dar notícias sobre a cegueira e os cegos, escritas de tal maneira, e constantemente (mas nas entrelinhas), dirigir para o lar os verdadeiros conceitos sobre o assunto; uma verdadeira “filosofia da cegueira”. Não deveria ser um órgão doméstico a serviço de uma organização, nem um dedicado às notícias sobre as atividades de grupo para as pessoas cegas. Não deveria se limitar a histórias sobre cegos bem sucedidos, ou culturalmente ativos, ou cidadãos exemplares. Seu alvo deveria ser, antes, o de informar a família daquele que ficou cego sobre a ampla extensão de atividades exercidas pelos cegos, mostrando os fracassos, as mediocridades, bem como os sucessos. Acima de tudo, deveria mostrar que há cegos de todas as espécies e tipos, exatamente, como as pessoas de visão e assim, ajudar a eliminar os vários estereótipos e a difundir a idéia de que os cegos não são “diferentes”. Aqui, a educação fa¬miliar se entrosa com a educação do público em geral, que será discutida no próximo capítulo.


NOTAS DE RODAPÉ
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1 - O jornal bimensal “listen”, de tamanho grande de 8 páginas, publicado pela Catholic Guild for the Blind, de Boston, Franklin Street 65 é enviado gratuitamente a todos os cegos de Massachusetts, assim como para os que o requeiram. Procura preencher esta função.


CAPÍTULO 18
EDUCANDO O PÚBLICO

A grande urgência de pôr um fim nas falsas noções sobre a cegueira, noções estas geralmente correntes, e substituí-las por outras autênticas é óbvia, partindo daquilo que já foi dito anteriormente. Como vimos, isto significa pôr um fim na idéia de “viver na escuridão” que muitos têm da cegueira; isto significa pôr um fim na idéia geral de que “o cego” é um desamparado, um ser dependente, um indivíduo digno de piedade que é de alguma forma “diferen¬te” do resto do mundo, que é constituído, por assim di¬zer, da sociedade “normal”. Significa, outrossim, repor todas estas concepções errôneas e os estereótipos que re¬sultam daí, com idéias certas e concretas a respeito do que os cegos, atualmente, estão fazendo, não somente os cegos dotados de talento superior, como também os de nível médio. Significa acreditar na verdade de que os indivíduos cegos são criaturas de todos os tipos e espécies, indivíduos que possuem uma deficiência severa, certamente, porém, uma deficiência que pode ser superada de tal maneira a poder fazer da vida normal e ativa não uma exceção entre os cegos, mas uma regra geral.
O primeiro passo em qualquer programa de educação do público aqui mencionado deve ser a eliminação da educação e informação errôneas. Nossa primeira tarefa será a de auto-exame, - não que nós que trabalhamos com pessoas cegas, sejamos insinceros ou responsáveis por frases falsas, porém por darmos uma importância errada em nossa publicidade e fazendo relatórios que são somente em parte verdadeiros, podemos estar, inadvertidamente, confirmando ou acrescentando algo às más interpretações do público em geral. (Nos grupos minoritários, as tensões do tipo comum, são o maior perigo e vêm dos demagogos que desfilam sentimentos de ambos os lados, ocasionando tensão até o ponto de explodir. É interessante saber que no trabalho com o cego, se podem encontrar pessoas que acreditam que podem revelar o nome de demagogos que trabalham no grupo de fora, destilando amarguras entre os cegos. Entretanto, há um pequeno número que adverte quanto à existência daqueles “demagogos” sem inteligência, cujo prosseguimento do trabalho depende do dinheiro obtido através do movimento em torno do “preconceito de piedade” do público com visão, em relação aos seus membros ce¬gos.
Precisamos, portanto, perguntar a nós mesmos: existe alguém dentre nós, cegos ou não, que acha as pes¬soas cegas “diferentes?” — diferente no âmago da sua psicologia, nas necessidades da sua personalidade, ou anormal de qualquer maneira? Quem acredita que a cegueira é uma deficiência tão grave a não poder ser vencida? Quem fala livremente a respeito da “normalidade” do cego, porém sem acreditar, no que diz? Qual foi o aspecto que atraiu o cada um de nós para trabalharmos com pessoas cegas? Falamos às vezes do nosso cego ou agimos de uma determinada forma a parecer que ele nos pertence? Pretendemos mesmo que os cegos que estão nas nossas agências se tornem realmente independentes? E de nós também?
A não ser que acreditemos profundamente naquilo que ensinamos, falharemos, não importando aquilo que falarmos, ou publicarmos. O inconsciente falará ao inconsciente sob nossas palavras mais altas e nas entrelinhas daquilo que escrevemos e testemunhará aquilo no que realmente acreditamos.
Após havermos examinado a nós mesmos, podemos continuar nossas citações e publicidades e resolver para o futuro evitar dar falsas impressões sobre o lastimável estado do cego. É bem verdade que muitas pessoas cegas têm dificuldade financeira. Porém, fazer com que isto seja uma condição verdadeira de todo indivíduo cego, como uma característica necessária ou inerente a cegueira não é apenas propalar uma falsidade como também ocasionar um prejuízo a todos os cegos tanto ricos como pobres. É verdade que algumas pessoas cegas necessitam de auxílio e muitas não têm quem as auxilie. Entre¬tanto, apresentamos um quadro extremamente falso e queremos que este seja extensivo a todos os privados da visão.
Dentro deste assunto, evitaremos uma vez por todas o tema da “escuridão e luz”. Também evitaremos, igualmente, o extremo oposto de exaltar as noções a respeito das maravilhosas aptidões das pessoas cegas, o que resulta em cercar a cegueira de uma aura de magia ou parecendo sugerir que a “natureza” prove o cego de uma compensação automática, ou por vias de algum “sexto sentido”, ou uma “felicidade” extraterrena.
Acima de tudo, evitaremos qualquer coisa que le¬ve a generalizar algo em torno das pessoas cegas insistin¬do nos estereótipos já 5 existentes, ou criando novos, bons ou maus. A Aesociação Americana de Técnicos Especializados para Cegos, (Americam Association of Workers for the Blind) já tomou a dianteira nesta campanha a fim de esclarecer a publicidade das organizações para cegos, apresentando uma lista de estatutos quanto às atividades para angariar fun¬dos.
O leitor é encorajado a obter uma cópia destes estatutos, quer para o uso da sua própria organização, ou para julgar a publicidade das organizações em sua comunidade.
Depois de havermos, desta maneira, eliminado as falsas impressões e a educação errada da nossa própria pu¬blicidade, poderemos então empreender a tarefa de eliminá-la da média do público. Com relação aos jornais em particu¬lar, um dos trabalhos mais importantes, dentro destes aspectos é a renovação de más legislações, aparentemente a favor do cego; o tipo de notícias de uma espécie de lei que autorize, por exemplo, uma licença liberando a pesca para pescadores cegos ou licença para bufarinheiros e mascates cegos. Tais leis em nada beneficiam o cego, conferindo benefícios duvidosos a bem poucos, exercendo um efeito dos mais nefas-tos na atitude do público, com respeito ao cego. São resultados de sentimentos sobre o cego que devem ser eliminados, e eles estimulam e acentuam estes sentimentos. Pois, quando um jornal de um Estado publica, em tipos pequenos ou grandes, o ato de uma lei em discussão, sua passagem ou rejeição pelo legislativo ou pelo governador, isto dá margem ao constante e insistente “golpe do martelo”, tipo de publicidade que faz a promoção da idéia atrás da Lei — publicidade esta que qualquer agência informativa invejaria, devido ao número de pessoas que ela alcança e a sutileza com a qual as alcança. Quando leis como estas são introduzidas, centenas e milhares de leitores, embora apenas lhes lancem um rápido olhar, reforçam seus sentimentos de que os cegos desamparados, incompetentes, que empregam seu tempo entre a pescaria e a atividade de mascate (do tipo mendicância) nas esquinas das ruas, e que nenhum deles dispõe de dinheiro para pagar a devida licença para exercer estas atividades. Por este motivo devemos fazer tudo que está ao nosso alcance para evitar que tais “leis” sejam introduzidas, e se não obstante forem, podemos então combatê-las apresentando razões para tanto (se é que temos a devida coragem moral).
Outro meio para eliminar a falsa publicidade, embora precise ser tratada com muito cuidado, é a carta de protesto enviada a jornais, revistas, rádio e estações de TV. Falando de maneira geral, aqueles responsáveis pela massa não têm a menor intenção de prejudicar as pessoas cegas, entretanto, estas mídias estão continuamente dando publicidade prejudicial e mal orientada ao cego, quase sempre de natureza sentimentalista. Valem-se tanto da ficção como de histórias sempre novas com um final artificioso — histórias que parecem ser completamente informais até o suspense final -“Porque vocês vêem. José é cego”. Eles apresentam a cegueira envolta em emoções de horror; dão uma falsa idéia às pessoas cegas; transformam em heróis aqueles que agem de maneira comum; acrescentam um ar de ocultismo à cegueira; introduzem o estereótipo do gênio cego; o mendigo cego ou sob qualquer outro aspecto. Um dos assuntos favoritos de histórias em quadrinhos ou mesmo de novelas é de arrastar seus heróis ou heroínas através da ridicularização da perda da visão, para terminar com uma restauração final. Há também aquela aproximação pela “camaradagem” que se utiliza do primeiro nome ou diminutivos, ao se referirem às pessoas cegas. Editores que insistem sempre ao se referirem a Sra. Eleonor Roosevelt, de dizer a “Sra., Roosevelt”, irão logo em seguida, se referirem a Srta. Helen Keller de “Helen”, o que demonstra uma atitude inconsciente de superioridade e complacência. Isto não é privativo dos editores e jornalistas; acontece também entre os que trabalham com pessoas cegas. Assim, pois, John Smith, o digno e bem sucedido banqueiro cego, cinco minutos depois de uma apresentação será simplesmente o “Johnny”.
Não se pode esperar que os escritores, editares e produtores saibam que toda esta espécie de coisas é prejudicial ao cego, e de que maneira é prejudicial, a não ser se lhes conte. Seria muito útil que se organizasse uma campanha a fim de informá-los, numa base de serviço de monitores e avisos. As cartas escritas não deveriam ter um tom de protesto amargo, nenhuma espécie de suscetibilidade com um grupo psicológico minoritário; deveriam ser comunicações claras, apresentando as informações necessárias às pessoas responsáveis e que presumivelmente as receberão com agrado. Geral¬mente tais informações são bem-vindas, se chegam à forma de uma especificação clara e objetiva de como e porque o seu tratamento, de um determinado assunto, não foi voltado aos interesses de indivíduos cegos. Embora escrever tais cartas seja como fechar a casa depois do ladrão ter entrado, alertará os editores e produtores no sentido de não mais produzir material dessa espécie.
A reeducação positiva do público será consideravelmente mais defluiu de ser conseguida. Um programa com¬pleto exigiria em primeiro lugar uma pesquisa extensiva, empregando-se todo o material existente no grupo de precon¬ceito e em outras áreas (tais como a elaborada pelo B’nai B’rith e a Associação Nacional Para a Promoção da Pessoa de Cor) desenvolvendo o conhecimento sociológico com respeito aos vários tipos de preconceitos, sua origem e importância e, dentro da base destes conhecimentos, examinar os preconceitos que existem contra as pessoas cegas. Só então poderíamos considerar quais os meios mais apropriados para eliminar estas prevenções e estabelecer um plano de ação em conjunto para todas as associações de cegos.
O verdadeiro sentido dos preconceitos atuais, juntamente com o problema complexo de elaborar uma mudança no conceito do público, exige tal programa. Até que possa ser executado, nós certamente podemos e devemos fazer o possível dentro de nossa própria esfera de influência para eliminar as informações errôneas, prover informações práticas, verdadeiras sobre a cegueira e os problemas “reais” de indivíduos cegos; educar as famílias e os amigos dos cegos e executar, quando se oferecer uma oportunidade, campanhas publicitárias orientadas para determinados fins. Entretanto, não podemos esperar que algo seja conseguido dentro daquilo que desejamos, a não ser que possamos interessar centros de pesquisas com respeito a um estudo completo do problema, e que técnicos especializados se encontrem numa posição de aceitar e coordenar suas atividades e basear uma campanha significativa no que for encontrado.
Repetindo mais uma vez, nosso meio mais eficiente quanto à reeducação do público é agora e sempre o será, o indivíduo cego bem ajustado, maduro e que, no decorrer da reabilitação, tenha obtido uma introspecção nos problemas que os dotados de visão encaram na sua aproximação com a cegueira; ele estará preparado para ajudá-lo na compreensão mais autêntica e completa. Nosso trabalho para a reabilitação da pessoa cega é, portanto, nosso meio mais eficiente para educar a sociedade para a qual estas pessoas voltam — educando-a a fim de receber e aceitar as pessoas cegas, como “pessoas” que elas são.


TERCEIRA PARTE
PROBLEMAS ESPECIAIS DE VÁRIOS GRUPOS


CAPÍTULO 19
PROBLEMAS ESPECIAIS DE GRUPOS DE IDADES DIFERENTES.

O estudo da cegueira e reabilitação que fizemos até agora principalmente em referência às outrora pessoas sadias que ficaram cegas na vida adulta — é típico no fato de que a falta de fatores intrincados nos permitem ganhar al¬gumas perspectivas sobre os problemas de todas as pessoas cegas e um perfil geral de todas as tentativas relacionadas com a reabilitação e reintegração das mesmas na sociedade daqueles que possuem visão.
Mas, nem todas as pessoas cegas ficaram assim na vida adulta, Algumas nasceram cegas. Outras perderam a visão na infância, na meninice ou adolescência e um crescente número de pessoas ficaram cegas ao longo do processo de crescimento. Entre os cegos, como entre a população que enxerga uma certa porção sofre das outras deficiências. E há um vasto grupo cuja deficiência não é a cegueira, mas falta parcial da visão. Precisamos considerar os efeitos destes fatores e as diferentes aproximações, habilidades e programas que eles possam necessitar, começando com os problemas especia¬is dos grupos de idades diversas.
Na análise da situação total de qualquer pessoa cega individualmente, em qualquer grupo de idade, deveríamos levar em consideração o fato de que tanto o significado como os efeitos da cegueira variam de acordo com a idade na qual ela perdeu a visão e se a perda foi repentina ou gradual.
Por exemplo, uma pessoa pode ter estado na linha limite da cegueira legal 1 desde a primeira infância, tornando-se legalmente cega aos 30 e totalmente cega aos 60; sua situação será muito diferente daquela outra que, repentinamente, torna-se totalmente cega aos 20 anos ou em outra idade qualquer. Mesmo dentro do grupo geriátrico, a pessoa que se torna cega aos 90, não enfrenta a mesma situação daquela que perdeu a visão aos 65 anos e nenhuma delas têm os mesmos problemas das pessoas idosas que são cegas desde os 20 anos. Uma grande diferenciação deve ser feita, sobretudo, entre aqueles que ficaram cegos enquanto suas personalidades ainda estavam no processo de formação e aqueles que ficaram cegos na maturidade. E a maior de todas as diferenciações, como veremos no capitulo 20, deveria ser feita entre pessoas cuja cegueira é adquirida e aqueles cuja cegueira e congênita.

1 - O grupo pré-escolar

Se algum grupo entre os cegos necessita de aproximação e habilidades especiais é certamente este. Em nos¬sos dias, felizmente, o tratamento e cuidados profissiona¬is destas crianças fizeram enormes progressos 2. Uma associação após outra organizou serviços especiais e, em muitos casos, associações que quase não reconheciam a necessidade de treinamento profissional para os que trabalham co¬m o cego adulto, mostraram-se inclinadas a reconhecê-la naquele setor.
A American Foundation for the Blind oferece constantemente, serviço consultivo profissional para organizações e no seu departamento pré-escolar criou um serviço encarregado de fazer panfletos e bibliografias à disposição dos pais, assim como aos que trabalham neste campo. Portanto, é desnecessário entrarmos em detalhes aqui, sobre as necessidades especiais deste grupo. Os pais de criancinhas cegas podem, espero, ser guiados por este livro a outra compreensão da cegueira. Alguns pontos, entretanto, precisam ser enfatizados.
O primeiro é o perigo do berço móvel e do quadrado. Nenhum item no lar pode interferir mais no desenvolvi¬mento sensorial, progresso informativo e crescimento normal da criança cega do que aqueles. Quando seu berço, ou quadrado, são levados de um canto a outro da sala, de um quarto para outro e para fora, à criança não é dado nenhum meio de orientar-se. Este seu pequeno mundo, que ela sente sob e à volta de si é raramente duplicado na mesma relação com os sons, os quais ela gradualmente aprende a reconhe¬cer e identificar, ou com os aromas, com a sensação do sol entrando pela janela.com a brisa pela porta, ou com o calor de um aquecedor. O quadrado, particularmente, não só impossibilita a orientação; é também uma solitária cela de confinamento, privando a criança cega de todas as oportunidades para exploração necessária, se ela deve conhecer o mundo exterior.
O berço da criança deve, portanto, ser fixado em um lugar, pregado ao chão, se necessário, para impedir que a própria criança o mova. E o mesmo quanto ao quadrado (ou cadeiras altas ou quaisquer destas comodidades). Mas, em geral seria muito melhor se a criança cega nunca fosse confinada a nenhuma destas coisas, exceto na hora de dormir.
Oportunidades para exploração não devem cessar com a idade do quadrado, mas devem ser continuamente desenvolvidas e expandidas. O constante esforço da criança para receber estímulos, deve ser encorajado, não apenas através da sua própria exploração, mas satisfazendo suas necessida¬des quando são expressas nas infindáveis e embaraçosas perguntas, típicas das crianças da sua idade. Deve-se permitir à criança cega gatinhar na idade de gatinhar, perambular na idade de perambular e trepar na fase de trepar e sua curio¬sidade nunca deve ser sufocada, mas antes estimulada de todas as maneiras.
O que precisa ser dito, além disso, pode ser feito em forma de uma carta aos pais de uma criança cega. Pois, não são os problemas da criança, mas os dos pais que devem ser solucionados se pretendemos dar àquela uma vida normal.

Para o pai e a mãe:

Existem muitas coisas que vocês precisam saber a fim de dar à sua criança a vida normal que almejam para ela. Há coisas que vocês devem saber e com as quais outros pais nunca se preocuparam. Na verdade, vocês devem conhecê-las para não se preocuparem com as mesmas.
Vocês terão um grande auxílio quando se dirigirem às organizações profissionais para receberem conselhos — mas certifiquem-se de que são profissionais. A maioria das pessoas neste serviço não tem outra intenção senão fazer o me¬lhor pelo cego, incluindo sua criança. Recebam nossos conselhos, mas nunca dependam de nós — e nunca deixem sua criança depender de nós.
Lembrem-se, ela pode traçar seu caminho sem exces¬siva dependência se, exceto por sua cegueira, ela for nor¬mal. Vocês poderão duvidar desta possibilidade em certas ocasiões — que ela possa realmente ser normal e independen¬te. Mas, talvez lhes ajude lembrar-se de que o autor deste livro está completamente convencido desta possibilidade.
Seu caçula poderá crescer com esta deficiência, ajustar-se a ela, viver normalmente numa sociedade de pessoas dotadas de visão, e alcançar o objetivo para o qual Deus o colocou aqui.
Vocês quererão, certamente, aprender o mais que puderem sobre a cegueira e seu significado total e sobre todas as possibilidades de sobrepujá-la — as já existentes e aquelas que serão desenvolvidas no futuro. Mas, mais importante é o que vocês precisam saber sobre um determinado cego — sua criança: suas reações e sentimentos. Precisarão saber distinguir seus verdadeiros pensamentos e sentimentos, daque¬les que ela poderá exprimir e também daqueles que vocês possam interpretar como sendo dela e que na realidade vêm das suas próprias mentes e dos seus corações.
Isto significa que vocês, mais do que qualquer um de nós, precisam chegar a uma compreensão madura de si mesmos — porque seus ajustamentos à vida e à cegueira da sua criança é muito importante para o ajustamento dela, Mais do que qualquer outra pessoa, vocês estão envolvidos no desenvolvimento total e no futuro daquela criança. Se vocês deixarem de se envolver o suficiente, ela perderá o amparo que precisa para crescer; se vocês se envolverem demais, sufocarão seu crescimento e o estagnarão.
Vocês precisarão saber qual sua real atitude para com sua criança (Não tirem conclusões precipitadas; certamente vocês a amam; existem outros fatores). E o que é mais importante depois disto e diretamente ligado a isto: vocês precisarão conhecer suas próprias atitudes para com a cegueira — não apenas as superficiais, mas as mais profundas.
Estas coisas podem ser difíceis para vocês aprenderem por si mesmos. Poderão descobrir algumas, possivelmente, por observar suas próprias reações quando se fala sobre cegueira, quando dizem coisas erradas, quando se compadecem em demasia de sua criança, ou a rejeitam. Mas pode ser que por mais que tentem descobrir seus sentimentos reais, não possam fazê-lo sozinhos. Se assim for, deverão haver organizações na sua vizinhança com pessoal treinado para ajudá-los. Lembrem-se disto: vocês amam sua criança — mas seu amor (se vocês forem como nós outros) é complexo e outras reações são confundidas com ele. Seria surpreendente se algumas das emoções misturadas com seu amor não tivessem re¬lação com a cegueira.
Talvez vocês não admitam isto como um fato, mas provavelmente poderão, ao menos, admiti-lo como uma possi¬bilidade. Certamente concordam que (ao menos por um momen¬to passageiro e provavelmente muito mais duradouro) a notícia da cegueira de seu filho foi um choque terrível para vocês, Não houve, talvez, um momento de verdadeira revolta com a idéia desta cegueira? E vocês não reagiram quando a ouviram pela primeira vez, com a mesma reação que os inco¬moda, tanto quando a vêem em outras pessoas? Se tiveram tais sentimentos, então, talvez, tenham agora alguns momentos de culpa quando vêem outras com os mesmos sentimentos a respeito de seu filho. E possivelmente vocês ainda têm, no íntimo, alguns destes. A idéia de tê-los não deve preocupá-los; é apenas humano.
Provavelmente, também haverá ainda outros sentimentos associados ao seu amor por ele. Vocês poderão reagir a alguns destes sentimentos instintivos de choque e compaixão com os de posse, uma posse que interfere com o mais amplo desenvolvimento do amor. E possivelmente, há alguma coisa naquela criancinha que vocês sentem que todos rejeitam e os relembre de outra criança, da qual tinham a mesma impressão — vocês mesmos. Assim sendo, poderão identificar-se quase completamen¬te com ela. E, não obstante, pensar o quanto desejam dar-lhe de independência. Passarão grande parte do tempo protegendo-a, de uma maneira ou de outra, do mundo hostil que nunca deu a nenhum de vocês muito amor.
Vocês vêem a possibilidade de existir um certo sentimento confuso em seu amor? Fariam bem em se perguntar, como se sentiam em relação às pessoas deficientes (antes de seu filho nascer, ou mesmo de ter sido concebido). Poderão perguntar a si mesmos, como se sentiam em relação às crian¬ças alheias deficientes e aos seus pais. E poderão também se perguntar que espécie de ambição e expectativa tinham para a criança que desejaram viesse um dia. Tudo isso faz parte do quadro agora, porque são partes da situação global dentro da qual vocês receberam a noticia traumática de que sua criança era cega.
Parte da situação, também é a espécie de sentimentos que vocês possuíam no passado sobre hereditariedade e “males hereditários”. Isto é verdade mesmo que a hereditariedade nada tenha a ver com a cegueira de seu filho (e as chances são, hoje em dia, muito grandes de nada ter). Se vocês, alguma vez, tiveram vagas idéias sobre “sangue mau” transmitindo-se na família; e se tiveram todas as espécies de idéias sobre “males” e, se tiveram vocês mesmos a vaga sensação de não serem bons (quando tinham 5, 4 ou 10 anos) então, tudo isto poderá ainda ser fator de perturbação, que de algum modo está incorporado no seu amor pelo seu filho.
Vocês não gostarão de encarar estas possibilidades, mas se elas existem, é muito importante reconhecê-las e sobrepujá-las.
Seu esforço total deve ser na direção de um ajustamento perfeito à cegueira de seu filho, para que ele e os seus outros filhos possam também ter um ajustamento perfei¬to. De seu ajustamento deve surgir um amor perfeito e madu¬ro para com ele e para com todos os seus filhos, um amor que contribuirá para o crescimento e independência deles e mesmo uma independência de vocês.
É de magna importância que tenham em mente a di¬ferença entre amor maduro e amor possessivo. O primeiro liberta, o segundo luta sempre para aprisionar e assim sendo, nunca deixa nada crescer e sair. O amor possessivo nunca é um amor verdadeiro, mas um substituto neurótico para o amor, encontrado em pessoas que realmente nunca cresceram. Uma parte dele, em algumas pessoas, é o falso martírio com o qual elas parecem sofrer enormemente pelos seus filhos, mas na realidade estão usando tudo que podem ou fazem, co¬mo um outro meio de mantê-los dependentes.
Agora devem saber, sem nenhuma dúvida, que vocês estão livres desta espécie de amor, ao menos, nas suas formas mais exageradas. Estas, entretanto, existem em vários graus, e, se estiverem inseguros de seus sentimentos mais íntimos, não hesitem em esclarecê-los. Se estiverem interferindo na sua adaptação a seu filho, então, quanto mais cedo forem corrigidos, melhor.
Se problemas psiquiátricos estão envolvidos, en¬tão provavelmente, precisarão de ajuda psiquiátrica, quer seja diretamente de um especialista ou de um assistente social psiquiatra de uma das organizações para cegos. Sejam suficientemente prudentes para procurar uma ajuda psiquiá¬trica para a compreensão também, de suas necessidades espirituais. A combinação de uma boa ajuda espiritual com a psiquiátrica, talvez seja necessária para eliminar qual¬quer sentimento falso que ainda permaneça sobre ser a cegueira de seu filho uma forma de justo castigo divino por algo que vocês fizeram.
Não percam a coragem. Sua criança poderá crescer e ter uma vida de total ajustamento com seu ambiente, amando a Deus e aos seus semelhantes (quer sejam cegos ou dotados de visão). Sua chance para isto será grandemente realçada se vocês, seus pais, forem ambos capazes de dar-lhe um amor profundo, maduro e não possessivo — um amor para ela como ela é, enquanto, tentam ajuda-la a crescer para algo mais forte e mais independente, exceto em sua dependência a Deus.

2 - O Grupo em Idade Escolar: Educação, Aonde e Como?

Antes de discutirmos educação formal, deixem-me assinalar que alguns dos cegos congênitos mais bem sucedidos que já conheci, foram aqueles cujos pais lhes deram todas as oportunidades de se tornarem verdadeiros meninos. Um casal de pais devotados não sabia que seu filho, totalmente cego, estava emprestando uma bicicleta que dirigia pelas avenidas, juntamente, com seus amigos possuidores de visão; descobri¬ram que ele passava alguns dos seus dias mergulhando em do¬cas proibidas com seus jovens companheiros, e ficaram muito preocupados quando o policial da redondeza trouxe-o para casa, um dia, depois de tê-lo pego fugindo de um jogo de bola com meninos, que se realizava no gramado “proibido” do parque. Outro menino, atualmente um juiz cego de fama, narra o horror dos adultos que o pegaram juntamente com seu irmão dotado de visão, arrastando-se pelas vigas de aço do terceiro andar de um prédio em construção. Eu mesmo, em resposta a pedido de informação sobre um presente especial para um menino de doze anos que tinha perdido a visão e que morava numa fazenda no Oeste, recomendei uma espingarda 22. Pois, apesar dos escrúpulos dos pais, ao menino cego e a menina cega devem ser dadas oportunidades para completarem-se nos seus anos de crescimento, se queremos que se tornem adultos em todo sentido da palavra.
A educação nos apresenta problemas especiais: “Aonde deverá ser?” e “Como deverá ser feita?”. Apesar de tudo que tenha sido dito a cerca da segregação de cegos, deve-se lembrar que a segregação para fins educativos apresenta um caso especial. Sem segregação, no passado, a educação do cego nunca teria alcançado sua atual posição de destaque. As grandes e necessariamente segregadas escolas residenciais para cegos tiveram uma tremenda influência no desenvolvimento da educação das pessoas cegas, não somente neste país, mas através do mundo.
Permanece, entretanto, o problema da posição des¬tas escolas hoje em dia e num futuro imediato. São elas o lugar para a educação de todas as crianças cegas, todo o tempo, ou de algumas crianças durante todo o tempo, ou de todas as crianças por algum tempo? Qual é a posição da crian¬ça cega em relação a elas? Deveriam ser completamente afas¬tadas? Para conseguirmos uma resposta, precisamos examinar alguns métodos possíveis na educação das crianças cegas.
A Escola Residencial Segregada é o clássico centro de educação para crianças cegas. É uma escola para crianças cegas e somente para crianças cegas. Lá as crianças vivem e são instruídas através do ano letivo, voltando ao lar para períodos de férias e (de acordo com a orientação da escola e proximidade do lar) para um maior ou menor número de fins de semana.
Uma variação se ter algumas crianças não residentes, em tais escolas — crianças que vivem o suficientemente perto para ser-lhes possibilitada a freqüência à escola durante o dia e volta ao lar após terminar o dia letivo.
Ainda outra variação, especialmente para cursos secundários, é de ter-se a escola residencial unicamente como residência, com os estudantes indo para uma escola (pública ou paroquial) durante o dia e voltando para a esco¬la após as aulas.
Existem também classes segregadas em escolas públicas (ou paroquial). As crianças vivem no lar e durante as horas de escolas freqüentam as chamadas “classes Braille” do tipo segregado.
Ainda outra possibilidade ê da criança freqüentar classes e escolas comuns, públicas ou paroquiais, ao lado das crianças normais da mesma idade e no mesmo ano, mas irem a intervalos regulares, durante o dia, para uma “sala de recursos” ou “centro de ajuda especial” na própria escola, onde um professor especializado lhe fornece o mate¬rial didático e especial que necessita (incluindo o Braille). Este é o sistema chamado “Classe-Braille-Integrada”. Há ainda um mais recente progresso de freqüência nas Classes de Escola Pública (ou Paroquiais) com Ajuda Especial Consultiva (ou “professor itinerante”) que visita a escola quando necessário para dar ajuda diretamente à cri¬ança ou aos professores das classes comuns.
Ocasionalmente é tentada a experiência de enviar crianças cegas para classes de escolas públicas (ou paroquiais), mesmo que aí ninguém tenha sido treinado para ajudá-las por meios especiais.
Uma criança pode ser educada individualmente através de combinações destes métodos (no jardim de infância, por exemplo, indo a uma escola pública comum, transferida para uma escola Braille integrada por alguns anos, sendo então incluída numa escola residencial segregada para as aulas, e talvez saindo durante o dia para uma escola secundária pública). Em aditamento, há outras possibilidades como as de educar a criança cega numa escola residencial não segregada — enviando-a a uma escola interna para crianças dotadas de visão etc.
Outro fator que entra no quadro completo é a disponibilidade de um campo de verão para as crianças cegas.
Tal campo tem as mesmas qualidades da “segregação” de uma escola clássica. Os educadores de cegos pare¬cem geralmente concordar em serem tais campos prejudiciais para as crianças de escolas residenciais segregadas (não obstante, alguns acharem que são necessários em certas fases do desenvolvimento da criança cega educada fora da escola residencial segregada). Alguns educadores as vêem, entretanto, como ideal por proporcionar a alguns as vantagens destas escolas.
Discussões sobre os benefícios resultantes dos vá¬rios métodos de educação para a criança cega têm levado a alguns argumentos acalorados, através dos anos, Presentemente, parece ter-se concordado, ao menos, em que ninguém po¬de classificar um método como sendo necessariamente o melhor para todas as crianças. Como todas as discussões, estas re¬sultam em grande parte dos sentimentos daqueles interessados, ou de suas experiências pessoais. Seria extremamente proveitoso se algum estudo amplo e objetivo pudesse ser feito para demonstrar o resultado das diversas formas de educação.
De um ponto de vista a priori, a escola residenci¬al segregada tem a favor e contra, fortes argumentos.
A fa¬vor: diz-se que as crianças cegas são desviadas por um deslocamento tão pronunciado que elas 1) não podem ser compre¬endidas e auxiliadas na sua educação pelos próprios pais e familiares; 2) não podem ser aceitas como normais por professores de classes, que ou as mimarão, ou as negligenciarão; 3) não serão aceitas como nanais pelos companheiros, estudan¬tes dotados de visão; 4) não recebem, fora da escola residencial segregada, toda a instrução suplementar, auxílio cultural etc., necessários para compensá-las pelas privações resultantes da cegueira; 5) não podem ser educadas sem uma atenção direta e quase individual durante e fora das horas de estudo; 6) não podem, sem prejuízos permanentes para a estrutura da personalidade, serem expostas com pouca idade à falta de esperança da tentativa de competir com os dotados de visão.
Argumentos contra a escola residencial segregada são baseados, tanto no fato de ser “residencial” como no fato de ser “segregada”. Ser residencial significa que a criança deve ser “transplantada”, deve ser tirada de seu lar. Ser segregada significa que deve ser agrupada com crianças cegas que ficam afastadas do contato normal com as crianças dotadas de visão. Educar a criança cega em escola residencial segre¬gada pode, consequentemente, ter sérios e duradouros efeitos maléficos: 1) privando a criança do amor natural ou, ao me¬nos, do reconhecimento daquele amor de seus pais; 2) tirando dos pais a oportunidade de compreender seu filho durante os anos de crescimento; 3) afastando-a de irmãos e irmãs diminuindo assim as oportunidades de mútua compreensão e amor; 4) criando uma lacuna entre a criança cega e seus pa¬is e irmãos dotados de visão que poderá não ser nunca inteiramente preenchida; 5) separando a criança do mundo da visão e assim tornando impossível emocionalmente educá-la para este mundo; 6) prejudicando a habilidade da criança para competir e cooperar com as de visão, como terá de fa¬zer no futuro, pelo fato de afastá-la da competição e coo¬peração durante seus anos de formação; 7) formando na cri¬ança um forte sentimento de minoria que é desenvolvido pela segregação; 8) tornando-a (e as outras crianças cegas diferente aos olhos das crianças dotadas de visão; privan¬do-a de futuras oportunidades de ser aceita entre elas, e 9) em geral diminuindo o número e qualidade de suas experiências.
Cada grupo, nestes argumentos, inclina-se a pen¬sar que os argumentos opostos são exagerados (e certamente o são, com a ênfase e universalidade que são frequentemen¬te expostos). Mas, cada lado é levado a reconhecer o valor de alguns argumentos apresentados pelo outro lado.
Por este motivo, em cada grupo de educadores existem pessoas que procuram levar em consideração todos os argumentos. O resultado é benéfico; a escola residencial segregada procura manter uma forte ligação com o lar, enviando as crianças para casa o mais frequentemente possível, e proporcionando tantas oportunidades quantas puderem, de si-tuações normais com crianças dotadas de visão; e os oponentes procuram adaptar ao seu sistema o maior número das vantagens da escola residencial segregada.
Não é possível uma resposta especifica e certa à pergunta “Aonde deveriam ser educadas as crianças cegas?”
Pode-se dizer que algumas recebem todas as condições educativas que necessitam fora da escola residencial segregada, e também que nem todas as crianças precisam ser expostas às desvantagens daquele tipo de instrução. A dificuldade surge quando se procura determinar o melhor tipo de aprendizagem para uma criança cega em particular.
A solução será mais bem alcançada se um grupo de pessoas conhecedoras de toda a situação assistir aos pais na tomada de decisão. Tal grupo deve ter á sua disposição uma análise completa dos meios disponíveis para a instrução, com os pontos fortes e fracos de cada, claramente ex¬postos; um estudo da situação familiar e das relações entre a criança cega e os outros membros da família; um conhecimento da criança em particular, com suas forças e fraque¬zas emocionais e intelectuais, assim como de qualquer outro fator que possa alterar o quadro, e certa estimativa quanto a sua possibilidade vocacional futura e oportunidades (quando ela já tem idade em que isto possa influir na escolha da instrução); e também um conhecimento da comunidade da qual a criança vem e para a qual será devolvida.

Educação Superior

O que temos dito sobre a educação aplica-se sem distinção (ainda que com diferente força de ênfase) a toda instrução, desde a escola maternal, jardim da infância, até o curso secundário. Mas, no curso superior não há escolha de métodos, desde que não há educação segregada disponível, nem desejável neste nível. A questão aqui não é “aonde”, ou “co¬mo”, mas antes, “se ou não”, em cada caso particular.
Para algumas pessoas cegas, a educação superior pode ser de grande valia. A seleção das pessoas que devem tentar graduar-se precisa, entretanto, ser baseada não apenas em fatores intelectuais e de personalidade, mas sobretudo em bases realistas, nas metas realistas que a pessoa cega escolheu, a possibilidade de alcançá-las e a frustração que resultará se estas metas não forem conseguidas.
Educação superior é, em muitos casos, uma real ne¬cessidade. Sem ela, obviamente, alguns não poderiam alcan¬çar seus objetivos vocacionais (o jovem cego que tenta ser advogado é um bom exemplo). Uma educação de nível graduado pode também ser uma vantagem na obtenção de objetivos vocacionais para os quais não é realmente uma necessidade. Portanto, o cego que possui curso universitário estará cm melhor posição para competir com o formado em universidade, dotado de visão, se tiver um diploma de professor ou médico, enquanto o de visão não tiver nenhum, do que estaria se ambos possuíssem a mesma formação educacional.
A possibilidade que as pessoas cegas têm de êxito nos estudos superiores tem sido bem demonstrada pelos estudantes cegos. Deve-se assinalar que para algumas pessoas cegas a educação universitária é prejudicial, apesar de capacitadas para assimilarem os estudos e obterem as notas mais altas. É verdade que a universidade abre novas oportunidades vocacionais, mas e igualmente verdade (e não tão amplamente aceito) o fato de que restringe efetivamente o campo de possibilidades vocacionais. É quase impossível para o homem cego que conclui a universidade trabalhar, sem grave perda da autoconfiança e sentimentos de frustração e inferioridade, numa fábrica, no balcão de um bar, como copista, ou em centenas de outros empregos que não exigem educação universitária. Esta declaração, talvez seja contestada por muitos que dirão não ser isto possível, que esta alegação demonstra incompreensão das finalidades da universidade, que há esnobismo em tal noção. Quer seja assim ou não, a questão é outra, mas eu estou firmemente convencido de que é assim e como resultado de incapacidade por parte de muitos entre nós de reconhecerem isto, alguns cegos diplomados na universidade vivem, atualmente, infelizes.
Quer na escola maternal, quer na universidade, portanto, a educação da pessoa cega, como a da pessoa dotada de visão, deveria ser a mais indicada para permitir-lhe levar uma vida normal e produtiva, com equilíbrio emocio¬nal e intelectual que irão permitir-lhe sentir-se à vontade no mundo que conhecemos, enquanto ela se prepara, juntamente conosco, para o seu lar no mundo futuro.

3 - O Grupo de Jovens Adultos

A situação daquele que ficou cego depois de ter alcançado a maturidade já foi longamente discutida. Mas, a pessoa que perdeu a visão na infância ou adolescência e em particular o jovem adulto cego desde os primeiros anos, que rocem terminou sua educação e está enfrentando a vida na sociedade, tem problemas especiais. Seja qual for sua educação, ele está destinado a ter dificuldades especiais na solução dos problemas próprios a todos os jovens, em encontrar e ajustar-se a um emprego e a todos os problemas da vida adulta. Estas dificuldades são especialmente severas para o jovem que recebeu uma educação segregada, que ate então viveu entre cegos, que aprendeu a cooperar e competir apenas com crianças cegas e que pela primeira vez enfrenta o mundo de visão.
Já mencionamos algumas das dificuldades especiais deste grupo em relação ao trabalho e “vocação” em geral. O ajustamento necessário abrange muito mais do que achar e manter um emprego. Mas, há pouco tempo atrás, as escolas para cegos criticavam as agências de colocações por não acharem emprego para os graduados e as agências culpavam as escolas por não prepararem adequadamente os estudantes.
De qualquer modo, este período da juventude é de grande e difícil ajustamento para circunstâncias enormemente variáveis. Chegou-se a sugerir que um tipo especial de centro de reabilitação fosse instalado para os graduados em classe para cegos, a fim de prepará-los diretamente para o emprego e para a vida de adulto. Esta sugestão não dá a de¬vida consideração ao trabalho que as escolas já fizeram no tratamento deste difícil problema e o estabelecimento de tal centro parece impraticável. Em vez disso, as organizações para cegos adultos deveriam começar a treinar assistentes sociais especiais equipados para ajudar nos múltiplos e graves problemas com os quais se defrontam os jovens durante o pe¬ríodo de ajustamento.
Sem tal ajuda, os programas de recreação e de trabalho segregado podem apresentar certa fascinação. Jo¬vens graduados das escolas para cegos que durante os anos de estudo tomaram todas as espécies de resoluções de que viveriam uma vida num mundo de visão, descobrem que estão sendo afastados pelas frustrações que encontram, ou retornando a uma existência segregada, simplesmente porque parece não haver outro lugar para eles. Em tais circunstâncias é fácil, para as primeiras dores da desilusão tomarem a rédea; neste período muitos jovens ajustados, ou potencialmente ajustáveis tornam-se introspectivos, mergulhados na desesperança de algum dia tornarem-se parte real do mundo da visão. E uma vez arrastado para um programa segregado é, normalmente, muito tarde para se tentar sua salvação.

Casamento, de pessoas cegas

Um dos maiores problemas para o jovem cego ou dotado de visão é, obviamente, a questão do casamento. Qualquer um com experiência de trabalho entre os cegos, sabe que não é preciso ser conselheiro matrimonial para ser questionado sobre a conveniência do casamento por pessoas cegas.
Algumas pessoas estão tão impressionadas com a idéia de o cego casar-se que até mesmo parecem acreditar que tal casamento seria imoral (e talvez sexualmente perverti¬do). Outras, parecem sentir que é justo que os cegos “casem-se entre si” (embora um velho ditado entre os cegos diga que é “melhor ter janelas ao menos num lado da casa” e há muitos anos, escolas segregadas para cegos mantêm uma separação interna entre meninos e meninas, a fim de não encorajarem o casamento).
Frequentemente, os que tentam discutir os princípios envolvidos, limitam-se apenas aos externos. Consideram, por exemplo, a questão da habilidade da esposa para tomar conta do lar ou do marido para ganhar o pecúlio familiar; ou, surge a questão de filhos, discutem-na em termos da habilidade do progenitor cego para reconhecer as doenças de infância ou para trocar fraldas. Mas, outros fatores mais básicos são frequentemente ignorados.
Centenas de casamentos bem sucedidos provam que a cegueira, por si mesma, não é razão para não se casar. Entretanto, falando-se de uma maneira geral, fatores da rea¬lidade, como os a pouco mencionados, parecem reforçar a idéia de que pelo menos uma das partes do casal deveria possuir visão. Unidade familiar, isolamento familiar, independência familiar, tudo sofre severo teste quando ambos, ma¬rido e mulher, são cegos. A unidade familiar por precisar de muita ajuda fora de si mesma; vizinhos ou parentes tomam parte nos assuntos familiares — nem que seja apenas lendo correspondência ou cartas. Isto é, principalmente se houverem crianças para serem educadas. Aqui, a visão é, algumas vezes, essencial e é natural que esta seja a de ao menos um dos pais. Entretanto, devemos reconhecer o fato de casais extraordinários, ambos cegos, tenham se casado e criado uma excelente família.
Mais importante do que os chamados fatores de realidade, entretanto, são os emocionais que entram no casamento, principalmente, o fator maturidade emocional que não é nem dado, nem tirado pela cegueira em si. As implicações emocionais da cegueira em relação à própria pessoa cega e ao público de visão, não podem ser ignoradas na discussão desta questão de casamento. Pelo que já foi dito a respeito, nas duas primeiras partes deste livro, nós podemos concluir que o casamento de uma pessoa cega e o casamento com uma pessoa cega, ambos pedem ao menos o mesmo grau de maturidade emocional (não discutimos idade e os dois não têm o mesmo significado) que para o de pessoas de vi¬são entre si. Mesmo assim, pessoas contraem matrimônio sem terem se ajustado à sua cegueira e alguns são levados ao casamento por terem falhado em se ajustar. Ainda mais, pessoas de visão, muito frequentemente, casam-se com cegos movidas por piedade, por sentimento de proteção, ou por super-identificação — por mais que tenham sido disfarçados estes mo¬tivos por uma ou ambas as partes.
Os fatores emocionais concernentes à educação das crianças devem ser levados em conta pela pessoa cega, prestes a se casarem, e pelo que pretende ficar noivo com pessoa cega. O problema está na habilidade do pai cego manter-se no papel de pai, de fazer-se respeitar como lhe é devido, quando as crianças por vir, forem suficientemente crescidas: para compreender que seu pai é “diferente”. Incluiu-se aqui a habilidade em educar as crianças de tal forma que terão, participação completa no grupo dos companheiros, e se orgulharão de seus pais como pais, sem que isto venha a distor¬cer ou restringir as suas próprias vidas. Isto não se constitui num problema impossível para o pai cego (ou mãe) que seja realmente equilibrado e maduro (embora ainda possam existir algumas dificuldades inerentes à psicologia de um grupo minoritário).
Pondo de lado as questões relacionadas com a cegueira hereditária, portanto, não há razão alguma para que uma pessoa cega madura, treinada nas técnicas que a tornam parte da sociedade, não deva casar-se. Homens e mulheres deste tipo tornaram-se esposos e pais muito bem sucedidos. Mas, a maturidade emocional é o essencial.
Fatores hereditários: - O problema do casamento de pessoas cegas envolve a questão dos fatores hereditários da cegueira 3. Os aspectos médicos deste problema estão bem desenvolvidos na literatura médica. Para aquele com interesse geral no campo da cegueira, dois pontos devem ser ressaltados:
Primeiro, devem ser claramente reconhecidos que alguns tipos de cegueira não são mais transmissíveis à geração seguinte do que uma perna fraturada. Um grande número de casos de cegueira causados por acidentes e de outras origens, incluindo certas doenças, definitivamente não é hereditário.
Em segundo lugar, outras causas da cegueira são familiares e mais ou menos possíveis de repetirem-se em gerações subseqüentes. Mesmo que a doença em si não seja, seguramente hereditária, a oftalmologia durante a última geração muito aprendeu à respeito do caráter hereditário de alguns problemas oculares. Certas anomalias da vista, anteriormente sustentadas como sendo de origem hereditária, foram atualmente demonstradas que nac o são 4, enquanto que a natureza hereditária de outras está agora definitivamente conhecida.
Todo casal que suspeita que um ou outro possa ser portador de genes da cegueira deve, antes de se casar, con¬sultar um competente oftalmologista para obter um quadro mais completo possível da situação. Existe uma grande varia¬ção no método de transmissão hereditária de uma doença que cega, para outra, e o oftalmologista precisa fazer seu diagnóstico, não somente da natureza da doença em si, como também dos antecedentes familiares.


4 - O Grupo dos Velhos

Uma categoria extremamente importante que merece especial consideração atualmente é a do grupo geriátrico ou dos idosos. As estatísticas atuais mostram que pelo menos em cada 10 cegos neste país, cinco ou seis estão acima dos 65 anos de idade, com fortes razões para esperar-se um au¬mento na proporção nos próximos anos. Pois, mesmo que esta média se estabilize em relação à população no ano de 1970, como está previsto, os números atuais continuarão a aumen¬tar. Com a eliminação de muitos fatores responsáveis pela cegueira das crianças e jovens, é bem possível que, a não ser que sejam feitos progressos espetaculares para debelar os fatores que causam a cegueira entre as pessoas idosas, o campo de trabalho com os cegos poderá se tornar, em grande parte, uma subdivisão da geriatria.
A idade de 65 anos é tomada como base para a estatística, uma vez que se presume a maioria deste grupo está acima deste limite, poucos abaixo. Porém, a senilidade não deve ser medida em termos de anos de vida ou de mudança fisiológica. Fatores de ordem psicológica e sociológica in¬fluem igualmente: o conceito de “velhice” está mudando ra¬pidamente nos dias que correm, de duas maneiras bem distintas. De um lado, diminuiu-se a idade de se aposentar e fixaram-se condições menos rígidas para novos empregos na indústria. Por outro lado, a média de vida do americano em geral tem aumentado consideravelmente, e as pessoas, atual-mente, se candidatam às instituições de amparo à velhice dez anos mais tarde do que antigamente. Em Nova York, por exemplo, a idade média para admissão nesses lares, passou de 65 para 75 anos, em pouco mais de uma década.
A expressão velhice é sob vários aspectos, um termo muito relativo. Aqui, para a nossa finalidade, devemos considerar a velhice não tanto em termos de anos como de “desgaste” (e/ou enferrujamento). Antes mesmo de um indivíduo entrar na fase em que possa ser membro do grupo geriátrico, ele começa a sentir perdas múltiplas e a sofrer, de certa forma, uma deficiência múltipla. Fisicamente, houve uma perda gradual de tônus, uma mudança no funcionamento metabólico (alguns especialistas em geriatria tentam definir “grupo geriátrico” como daqueles que alcançaram um estágio de catabolismo avançado). A força e disposição musculares não são mais o que eram. Em um outro estágio, surge uma perda de esqueleto, perda efetiva de altura e de dentes (aqueles estudiosos de geriatria dão importância crescente a esta perda dental). Há uma perda crescente em todos os órgãos dos sentidos, um “déficit sensorial”, e sobre tudo isto advém à perda do equilíbrio, contribuindo para a grande perda da mobilidade.
Concomitantemente, com estas perdas físicas, sobrevêm outras mais importantes para alguns. A perda de contemporâneos, a perda do mundo a que estavam habituados, em virtude da rápida mudança das condições de nossos dias – tudo isto conduz a uma perda de interesse nos acontecimentos e mesmo nas pessoas. E tornando ainda mais difícil manter-se atualizado, os anos trazem a perda da rapidez de capacidade de aprender e do poder de abstração.
Em nossa civilização, onde a sabedoria e a idade não se equacionam mais, existe uma séria perda de posição. Com a tendência da indústria em preferir cada vez mais o trabalho dos jovens, poderá haver a perda de uma carreira. A independência pessoal e a segurança financeira podem desaparecer gradativamente ou repentinamente. Milhões de pessoas velhas nos Estados |Unidos estão procurando viver com uma renda que representa em termos do valor do dólar reajustado, menos do que o era para um trabalhador do WPA durante o auge da Grande Depressão.
O pior de tudo, talvez, seja a dupla perda de amor que adejem com a idade: de pessoas para amar e das que retribuíam este sentimento. Com tudo isso, não é de se admirar que, em muitos casos, a pessoa idosa perca a motivação e até mesmo o sentido de tempo. Todas estas perdas significam um gradual desguarnecimento de tudo que se conheceu e se foi. Alguns velhos parecem estar “separados” no sentido de que parecem ter sido atirados para fora deste nosso mundo apressado. Outros aceitam este deslocamento forçado como uma preparação para o futuro, um morrer tranqüilo para os objetivos terrenos. O finito pode perder a sua importância aos poucos, e o infinito à frente assumir um aspecto de interesse de uma nova ventura. Todas as separações já suportadas tornam a possibilidade de reunião ainda mais ansiosamente antecipada e, durante o tempo de espera, eles podem desfrutar a ausência de pressão e a sensação de satisfação no trabalho realizado.
Obviamente, a cegueira tem um significado diferente para a pessoa que já passou por muitas ou todas as perdas da velhice, do que para a criança, jovem ou adulto. O velho encara a sua cegueira com atitude muito diversa: se não estiver resignado às dificuldades físicas e privações, pelo menos, já se acostumou com elas. A sociedade não exige tanto dele; não existe “vexame” em ser cego. De fato, alguns do grupo geriátrico, não somente aceitam a sua cegueira como um fato consumado, como também chegam também a ter certo orgulho dela, como se fosse uma insígnia de distinção.
Portanto, dependendo do alcance que o indivíduo tenha realmente atingido na fase geriátrica, a seguiria será uma deficiência menor do que para os mais jovens. Mas, dependendo do avanço atingido pelo indivíduo na idade, sem ter aceitado as perdas da velhice, ou se for tão jovem de coração que leve uma vida ativa apesar delas, a cegueira pode se tornar uma deficiência maior do que seria para a pessoa fisicamente mais jovem. O quadro E procura esquematizar estas duas hipóteses com relação a cada uma das perdas da cegueira.
Isto não quer dizer, naturalmente, que existem dois grupos completamente separados na categoria geriátrica: cada perda afetará cada indivíduo de acordo com a sua própria personalidade e circunstâncias.
Mas, de um modo geral, existirão aqueles que se encontram mais ou menos negativamente conformados, e aqueles que procuram lutar contra a velhice e a cegueira. E, somente a personalidade marcante num corpo forte (ainda que possivelmente delicado) pode suportar estas “mortes” e continuar a viver anos de felicidade pacífica e positiva.
Uma questão assaz prática que surge em cada caso individual, será a de saber se a cegueira ou a velhice é a primeira deficiência da pessoa sem visão, e, em conseqüência, se ele deve ser auxiliado inicialmente por um técnico no trabalho com os cegos, ou por um técnico geriátrico. Em ambos os casos, torna-se cada vez mais importante que os técnicos no campo da geriatria devam compreender o significado da cegueira e tenham algum conhecimento de como lidar com o problema, e que os técnicos que trabalham para cegos, possuam conhecimentos suficientes em geriatria para fazerem as referências adequadas quando surgirem dificuldades desta ordem.
Nos Estados Unidos, as pessoas cegas idosas, agora, estão preferindo procurar lares para os “velhos” do que instituições para cegos, enquanto que lares para cegos idosos estão ficando com leitos vazios. Pelo menos no grupo geriátrico, estamos no caminho de alcançar a integração. Se assim for, isto não significa o fim dos problemas geriátricos para os que se dedicam a trabalhar com os cegos; significa, ao contrário, que devemos reformular totalmente as idéias daquilo que estamos fazendo pelos idosos sem visão, com ênfase muito maior no que pode ser alcançado no campo de “geriabilitação” para prepará-los a viver sob condições de não segregação.


NOTAS DE RODAPÉ
_____
1- “Cegueira legal” é o termo usado para descrever perda visual dentro de uma definição semelhante àquela descri¬ta na nota de rodapé na pág. 29.

2 - Provavelmente devido em grande parte à incidência de fibroplasia retrolental nos Estados Unidos no período de 1940 aos meados de 1950 que deu grande ímpeto à integração de crianças cegas em escolas públicas.

3 - As implicações morais do casamento de pessoas, prováveis transmissoras da cegueira para seus descendentes, deve ser discutidas entre o indivíduo e seu guia espiritual.

4 - Assim é que, há poucos anos atrás, um grande numero de casos de “catarata congênita” — “causas desconhecidas” -levou os médicos a estudarem a árvore genealógica da família, resultando suspeitas quanto à existência de fator hereditá¬rio. A recente descoberta dos efeitos da rubéola, sobre a gestante, causando às vezes cataratas congênitas, deu resposta a muitos destes casos.


GRUPO E
O EFEITO DAS PERDAS DA CEGUEIRA NO GRUPO GERIÁTRICO

PERDAS MITIGADAS REALÇADAS
1 – Integridade física. Quando as perdas físicas já são esperadas e acei¬tas. Sentimentos sobre diferenciação sexual de importância relativamente menor, seu significado é diferente. Quando aumenta a sensação de integridade perturbada, causada pelo ressentimento a outras perdas físicas e torna a situação mais desesperadora.
2 - Confiança nos sentidos remanescentes. Quando um déficit sensorial já foi tolerado e aceito por muitos anos. Quando contribui para sentimentos de que o mundo exterior está escapulindo e no-vos conhecimentos se tornam impossíveis.
3 - Contatos com a realidade Quando já existe a inclinação para devanear com um passado agradável. Quando decisivamente, contraria a precária união com o contato da realidade.
4 – Campo visual. Quando, principalmente vivendo de recordações. Quando contribui para a monotonia das situações próprias à velhice.
5 - Segurança luminosa. Quando, meramente, contribui para aceitar o déficit sensorial. Quando contribui para conexão en¬tre “falta de luz” com a verdadeira solidão.
6 – Mobilidade.
 Quando apenas acrescentada à já aceita perda de mobilidade. Quando tal mobilidade e atividade que ainda eram possíveis, eram de importância para a saúde, mental e física.
7 - Técnicas da vida diária Quando a depend4ncia em outros já era aceita. Quando a independência ainda resiste, e o padrão diário é modifi¬cado; dificulda¬de em aprender novas habilidades — torna quase im¬possível continuar a independência.
8 – Facilidade na comunicação escrita. Quando tão desprendido a ponto de não estar inte¬ressado nos jornais diá-rios. Quando há correspondência com a família e amigos dispersos, ou a leitura é um fa-tor importante.
9 – Facilidade na comunicação talada. Se a conversação é prin¬cipalmente com pequeno grupo cônscio das dificuldades visuais. Quando a conversação e comunicação com outras pessoas é uma parte importante da vida.
10 – Progresso informativo. Muito para os que vivem essencialmente de recordações. Mais do que qualquer outra, pode separar o indivíduo do seu mundo, trazendo perda de prestigio, de motivação, de interesse nos acontecimentos.
11 – Percepção visual do agradável. Quando vivendo, principalmente, de recordações; quando experiências vividas e a visão das coisas tenham gradualmente se obscurecidas; quando o processo de afastamento está avançado. Quando ainda tem interesse nas pessoas e coisas atuais; e assim muitas outras fontes de prazer são eli¬minadas.
12 – Percepção visual do belo. Como para o grupo dos mais jovens: severa para aqueles que possuem forte atração pe¬lo belo, de outro modo, quase não existente. Idem.
13 – Recreação. Por não ter a mesma importância do que para os jovens, principalmente, pelo desgaste de energia física. Quando necessária para preen-cher o tempo; mais difícil de achar as formas adequadas.
14 - Carreira, objetivo vocacional, oportunidade de emprego. Para a grande maioria que já abandonou a carreira e não tem mais objetivo vocacional e que de qualquer modo, não consegui¬ria emprego. Para aqueles, cuja cegueira pôs um ponto final num interesse contínuo e numa carreira.
15 – Segurança financeira. As despesas que incidem na cegueira podem ser menores; algumas já incidentes â velhice; menos necessidade de gastar para manter-se; talvez menos necessidade de renda; maior oportunidade para planejar renda inferior; não tem o mesmo significado social. Quando qualquer despesa adicio¬nal representa intolerável carga para uma renda já insuficiente para uma vida decente; muitas pessoas idosas estão nesta cate¬goria.
16 - Independência pessoal. Quando a depend4ncia da velhice já foi aceita. Quando a dependência da velhice ainda é ressentida e combatida.
17 – Adequação social. Quando a cegueira é aceita pela pessoa e pela sua sociedade como algo esperado. Quando ainda lutando para man¬ter um papel ativo na sociedade e a cegueira finalmente o “coloca no ostracismo”.
18 - Obscurida¬de. Geralmente para todo o grupo geriátrico. O aspecto social não tem o mesmo significado - a cegueira pode ser aceita e até ser uma espécie de insígnia meritória. 
19 - Auto-esti¬ma. Quando numa medida adapta da à sua idade; a auto-i¬magem também se modificou ajustando-se ao avan¬ço dos anos. Quando a auto-estima ainda é feita numa base jovem e ativa outra perda se adiciona às severas perdas, quando a auto-imagem não se ajustou.
20 – Organização total da personalidade Se a cegueira não significa a serie de golpes traumáticos que acarreta às pessoas mais jovens. Se a velhice já afetou a organização da personalidade. Muitos vôos precipitados para a irrealidade e para o mundo das lembranças.

CAPÍTULO 20
O CEGO CONGÊNITO


A maior distinção que se deve fazer quando se trabalha com as pessoas cegas, é a que existe, entre aquele que alguma vez, efetivamente, possuiu o uso da visão e o que nunca teve visão, ou seja, entre o portador de cegueira adquirida e o cego congênito. Todo o equipamento sensorial de um indivíduo outrora dotado de visão se acha organizado em termos de visão. De que maneira o de um individuo cego congênito está organizado è ainda um assunto de pesquisa e especulação, porem, nós sabemos o suficiente para afirmar que é radicalmente diferente.
Consequentemente, enquanto a psicologia mais profunda desta pessoa é a mesma daquela com cegueira adquiri¬da ou de qualquer outra pessoa, sua “psicologia de superfície” — seu mecanismo para a recepção de idéias — tem an¬tes, um padrão diferente. De acordo com o ditado filosófico: “Nihil est intellectu, quod non prius fuerit aliquo modo in sensu”, o que poderia ser traduzido por: “Nada se encontra na psique que de alguma forma não tenha estado an¬tes no sensório”. Desde que uma pessoa cega congênita ja¬mais viu, ela não poderá visualizar, nem formar conceitos visuais. Uma pessoa com visão e uma pessoa que outrora possuiu visão formam suas idéias a respeito da realidade den¬tro de um padrão. principalmente, visual; a pessoa cega congênita forma suas idéias de outra maneira.
Uma pessoa cega congênita tem de usar uma linguagem “vista” e formas de pensamentos adaptadas de alguma maneira à sua experiência. Ela não possui meios adequados, portanto, para transmitir aos indivíduos com visão qualquer compreensão direta dos termos sensoriais, nos quais forma su¬as idéias. Pela mesma razão, é difícil de se avaliar de que maneira as tentativas para se saber a partir de que momento começa o uso da visão poderiam ser bem sucedidas. Será que a pessoa que perdeu a visão aos seis meses, com um ano, aos dois anos, realmente se lembra de cores e formas visu¬ais, ou, até que ponto sua imaginação posterior, acrescen¬tada das palavras destas sensações a fará pensar que ela sabe?
Porém, chegue-se ou não ao acordo no sentido de que uma criança que tenha ficado cega, digamos aos dezoito meses, deva ser considerada uma cega congênita ou adventí¬cia, não há duvida de que existe uma real e qualitativa diferença entre uma espécie de cegueira, seu significado, seus efeitos, e na maneira pela qual ela deve ser tratada — e a outra. Porque, além desta diferença radical quanto à “psi¬cologia da superfície”, o que num caso seriam “perdas”, no outro seriam “limitações” — e uma perda não é o mesmo que uma privação.
O quadro F pretende uma avaliação desta diferença radical, indicando em cada caso (pela letra A) onde se en¬contram as “vantagens” de um lado ou do outro. O propósito não é de responder a insolúvel (e portanto, frequentemente proposta) pergunta: “O que è melhor — ter nascido cego ou ter ficado cego?”, mas de mostrar as diferenças reais en¬tre os problemas dos dois grupos e os diferentes caminhos -nos quais devemos ajudar a cada um deles.
Um dos fatores complicados que devem ser tomados em consideração na valorização da situação individual é até que ponto a pessoa cega congênita recebeu uma educação segregada. Por um lado, certas características podem ser atribuídas mais a esta segregação do que ao próprio fato da cegueira congênita. Por outro lado, podemos estar culpando a educação da pessoa cega pelas conseqüências que atualmente resultam do fato de que ela jamais viu. E é lógico que as circunstâncias do lar, o grau de educação, as oportunidades e o temperamento individual da pessoa, tudo isto de¬ve ser levado em consideração.
Porém, o determinante primário do nosso trabalho em relação a tal pessoa, deveria ser que ela é mais congenitamente do que adventiciamente cega. O fato de que as associações no passado não reconheciam geralmente esta distinção vital, não é motivo para que não a façamos no futu¬ro.

QUADRO F
AS LIMITAÇÕES DO CEGO CONGÊNITO COMPARADAS COM AS PERDAS DO PORTADOR DE CEGUEIRA ADQUIRIDA

Perda ou limitação Congênito Cegueira adquirida
1 - Integridade física. Nos seus anos de formação ele sabe que é “diferente” - sujeito as terríveis pressões psicológicas. É mais sujeito ao maneirismo. A
2 - Confiança nos sentidos remanescentes. A - Nunca usou a visão co¬mo censor. Construiu as informações sobre os sentidos remanescentes. 
3 - Contato com realidade. A - Contato com a realida¬de foi estabelecido de ou¬tras maneiras (caso lhe seja permitida qualquer liberdade de investigação) - exceto talvez a tendência ao verbalismo. 
4 - Campo visual. A - No que ele possua de maiores apreciações de ou¬tros campos sensoriais. A — No que diz respeito à visualização.
5 - Segurança luminosa. A - No que não exista conexão entre a falta de luz e falta de afetividade. 
6 – Mobilidade. Sempre confiou nos outros sentidos e aprendeu a in¬terpretar as informações que estes lhe deram. Vantagem potencial sobre as pessoas que ficaram ce¬gas na vi-da adulta, das forças de visualização con¬servadas.
7 - Técnicas da vida diária.— A – Aprendeu-as à medida que crescia. Porem, experiência visual de vantagem potencial em aprender novas técnicas para novas situações.
8 - Facilidade da comunicação escrita A - No que se refere ao Braille - geralmente treinado desde a infância como meio para ler e escrever. Tem bons meios para ensinar - escrita aceitável embora conseguida. A - No que diz respeito à escrita.
9 - Facilidade da comunicação falada.  A - Devido à habilidade de visualização de unia situação social; melhor controle dos gestos e expressões faciais.
10 - Progresso informativo. A - Devido a maior experiência em interpretar informações dos outros sentidos. A – Devido a mais ampla experiência – fundo de conhecimento experimen¬tal, for-ças de visualização para ajudar a assimilar no¬vas experiências.
11 - Percepção visu¬al do agradável A - Dá maior possibilida¬de de mais substituições ¬adequadas. A - Da possibilidade de visualização.
12 - Percepção visu¬al do belo. A – Dá possibilidade de ter audição mais bem treinada e talvez outra percepção da beleza. A - Dá possibilidade de visualização.
13 - Recreação.
 A - Dá maior agudeza no uso de outros sentidos. A - De ter podido ver outrora as praticas de esportes.
14 - Profissão, etc.
 Menores possibilidades de experiência levam a meno¬res oportunidades. A
15 - Segurança financeira. Não há regra geral possível. Pessoas cegas podem possuir economias, porém podem gasta-las em “despesas da moléstia” da cegueira recente. Idem.
16 – Independência pessoal. A - Possibilidade de real independência, devido à longa experiência de superar certos obstáculos. Porém provavelmente não quanto à independência inte¬rior devido a quase certas grandes dificuldades nos anos de formação. A – Provavelmente na independência interior.
17 - Adaptação so¬cial.
  A - Com experiência mais ampla, espe¬cialmente quanto ao uso visual. Menor probabi¬lidade de maneirismo.
18 – Obscuridade Não há um julgamento possível, no sen¬tido de se poder dizer se é mais fácil ter sido criado com estes problemas, ou de ter sido obrigado, de repente, a encará-los. Idem.
19 – Auto-estima.
 A – Na medida em que ele não sofra qualquer contraste entre a atual auto-estima e auto-imagem com uma anterior. A - Na medida em que a auto-estima e a auto-imagem formadas originalmente sob pressões emocionais estejam longe de terem si¬do formadas sob pressões emocionais graves.
20 – Organização total da persona-lidade. A - Na medida em que não te¬nha sofrido um golpe se¬vero de repentinas limitações múltiplas.
 A - Na medida em que os problemas emocionais trazidos pela cegueira che¬gam até ele após a personalidade estar formada.

*A - significa uma possível vantagem de um grupo ou de outro.


CAPÍTULO 21
OS PROBLEMAS ESPECIAIS DAQUELES COM DEFICIÊNCIAS
FÍSICAS ADICIONAIS

1 - A cegueira e outras deficiências principais.

Neste ponto de nosso estudo, torna-se útil verificar como a reabilitação das pessoas cegas se enquadram em um trabalho geral de reabilitação que surge agora em virtude do rápido progresso em vários campos nas últimas décadas. Isto nos permitirá clarear as idéias a respeito do trabalho para os cegos, e nos guiará também em nossas tentativas de ajudar aqueles que sofrem de outras deficiências alem da cegueira.
As deficiências principais podem-se classificar como (1) fisiátricas (neuro-musculares, cérebro-vasculares, card1ovascular, etc., - incluindo, por exemplo, amputações graves e todas as formas de paralisia); (2) nervos sensitivos superiores (surdez e “dificuldade de audição”, ceguei¬ra e visão parcial); (3) habituais e viciosas (alcoolismo e viciados em drogas); (4) mental e emocional; e para completar a lista, devemos incluir (5) penais (crime habitual) apesar de este último escapar do escopo deste livro.
O que já pudemos verificar a respeito da ceguei¬ra aplica-se também às outras deficiências dos sentidos superiores; há uma diferença qualitativa entre se ter uma deficiência congênita ou adquirida. E com todas elas o impacto é bem diferente, nas pessoas que as possuem desde nascença ou infância, e naqueles que a adquirem na velhice. U¬ma vez que o impacto é diferente, “o que fazer a respeito do mesmo” também é diferente. Preencher uma carência não é o mesmo que restaurar ou substituir as capacidades, habilidades, a organização da personalidade que se perderam. Deve¬mos pois pensar em trabalhos com crianças deficientes como “habilitação” mais do que reabilitação, se formos distin¬guir claramente seus problemas especiais daqueles que tra¬balham com outros grupos.
Naturalmente, algum trabalho com as crianças, e muito mais com aqueles num grupo jovem adolescente, será de reabilitação. Entretanto, evitar-se-á muita confusão e er¬ros se esta distinção básica não for esquecida. E igualmente, aqueles que alcançaram o período geriátrico não deverão e não poderão funcionar com a mesma eficiência como os jovens e os adultos de meia idade. O trabalho com este grupo em relação a qualquer deficiência deve pois ser considerado como “geriabilitação”, para manter seus problemas particulares e metas distintos daqueles propriamente denominados de reabilitação.
O espaço não nos permite analisar o impacto do 1º, 3º e 4º tipos de deficiências sobre o grupo mais jovem e o geriátrico, mas devemos ao menos examinar algumas características comuns a todos os tipos, quando afetam o grupo dos de meia idade, exigindo, portanto, reabilitação.
Todos têm dois efeitos em comum: a perda da indi¬vidualidade e a perda de relações com outras pessoas. Todos desfecham um terrível golpe na auto-imagem e testam ao máximo a força do ego (ou produz seu colapso). E todos colocam o indivíduo numa nova relação de “diferença” para com as pessoas normais (o que significa, com a maioria destas deficiências, não somente que a pessoa parece “diferente” para si mesma, mas que as pessoas “normais” são completamen¬te incapazes de compreender o significado e o efeito da deficiência).
Todos os quatro tipos de deficiências também envolvem um “morrer” mas de diferente espécie em cada tipo, e “diferente” nas subdivisões de cada tipo. Por exemplo, a “morte” de um adulto que recentemente perdeu a visão, para a sua vida de visão é completamente diferente da destruição do ego de um viciado em drogas, no qual o desejo e o “não desejo” desta destruição coexistem. E nenhuma delas é igual à “morte” para a vida normal e ativa do paraplégico.
O reconhecimento de qualquer deficiência essencial como um fato inevitável acarreta um período inicial de choque, seguido por um de “lamentação”. Entretanto, aqui novamente, a “lamentação” é de uma espécie diferente, por exemplo, da do que tem um braço amputado e da pessoa neurótica na confusa fronteira com a realidade. Uma ajuda efetiva durante o período de choque e pesar deverá ser de forma diferente e adequada a cada tipo. Há a séria pergunta, por exemplo, se a pessoa sofrendo de uma deficiência como a quadriplegia, deveria ser levada (e de fato poderia suportar) enfrentar francamente a deficiência, o que é essencial na reabilitação das pessoas cegas.
Mas, é comprovadamente certo que a resposta pa¬ra qualquer tipo de deficiência, não será encontrada em um ou outro aspecto da reabilitação médico, psico-social, vocacional. Mas sim numa aproximação global que considere o indivíduo como ele era, como e1e é, e como será e se esforce para assisti-lo não somente em seus problemas pessoais mas também nos do meio ambiente, no qual ele viverá depois da reabilitação.
Também é verdade que há uma grande necessidade de programas inteligentes de educação do público, sobre todas as deficiências principais - não as aterradoras campanhas publicitárias que se valem do medo e da compaixão, com a finalidade de levantar fundos, mas programas destinados a formar uma mentalidade verdadeiramente esclarecida e civilizada, que aceitaria as deficiências e as pessoas portadoras de deficiências, pelo que elas são e estariam prontas a dar o auxílio necessário aonde e quando ele fosse realmente necessário. 1
Este quadro geral será, assim se espera, de alguma utilidade quando considerarmos os problemas especiais das pessoas com deficiências físicas ou mentais em adição à cegueira — incluindo a questão de saber-se, em cada caso particular, qual é a deficiência mais severa e, conseqüentemente, como e por quem pode ser mais bem auxiliado. Seria útil, se o espaço permitisse, comparar a cegueira com uma ¬deficiência em cada um dos outros três grupos 2. Mas precisamos ao menos compará-la bastante cuidadosamente com a outra deficiência sensorial superior - a surdez -, a fim de entender melhor a cegueira e também algumas das terríveis implicações da dupla deficiência da surdez-cegueira.


2 - Comparando a Surdez com a Cegueira

O quadro G procura fazer uma comparação detalhada entre surdez e cegueira, na base das 20 perdas já familia¬res ao leitor. Além disto, como já dissemos, geralmente, a cegueira afasta do mundo das coisas e a surdez afasta do mundo das pessoas (embora como já vimos, por causa da per¬da da comunicação falada e das suas implicações de “diferença”, a cegueira pode efetivamente afastar do mundo das pessoas normais). Esta é uma diferença que afeta o proces¬so de aprendizagem das crianças que sofrem de uma ou de outra deficiência.
A maior dificuldade das crianças surdas é em relação às idéias universais. A criança cega tem seus maiores problemas relativamente às idéias particulares. A palavra, VERBUM, é prontamente disponível ao ouvido da criança cega, embora o reconhecimento das coisas particulares seja vedado pela falta de visão. Mas a palavra, o VERBUM, é acima de todos os outros meios de comunicação, a expressão do conceito intelectual, a expressão (e quase a única expressão possível) da idéia universal.
Este fato é de grande importância. A visão particulariza. Nós conhecemos, naturalmente, a possibilidade que a visão traz de combinação e variação de imagens (sendo o exemplo favorito o da vaca roxa). A faculdade de imaginação, no máximo, pode somente juntar várias destas imagens particulares e formar novas. A audição, entretanto, é o sentido intermediário para a palavra. E a palavra é a expressão do pensamento - o produto não da imaginação, mas da inteligência.
É verdade que a palavra, endereçada inicialmente ao ouvido, pode depois tornar-se palavra escrita, e então chegar à mente através do canal da visão. Também é verdade que as palavras podem ser traduzidas por sinais e desta maneira serem mais vistas do que ouvidas. Não obstante ser o sentido auditivo, mais do que o visual, o primeiro canal para a recepção de idéias e conceitos universais.
Isto certamente produzirá na pessoa que sempre foi surda efeitos diferentes dos produzidos na que perdeu a audição depois da maturidade de seus processos intelectuais, especialmente quando este já tinha adquirido a habilidade de ler a palavra escrita. Deve ser lembrado, de qualquer maneira, tratando-se da educação de crianças surdas e quando lidando com o adulto que nunca possuiu o sentido da audição. Não estamos sugerindo que este não tenha a capacidade de formar conceitos universais, mas antes demonstrando algo do difícil processo pelo qual ele adquire tal habilidade (e o fato de que palavras, expressão de pensamentos universais podem, em algum momento, terem sido “estranhas” para ele).
Esta diferença particular entre surdez e cegueira, também indica a necessidade de se dar à criança cega todas as oportunidades para distinguir coisas particulares, através de todos os meios que ainda lhe são disponíveis e no caso de adultos cegos, de ajudá-los a se manterem em contato com o mundo do particular pelos vários meios esboçados na 2ª parte deste livro.
Uma diferença a mais poderia ser sugerida: a surdez priva a pessoa dos modos de perceber o que está se passando ou acontecendo às suas costas, enquanto que a cegueira, do que está se passando ou acontecendo à sua frente. Portanto a perda da audição torna a pessoa mais susceptível a ameaças pelas costas; o medo de que alguma coisa a esteja assaltando, algo sobre os seus ombros. Mas a perda da visão significa maior susceptibilidade a ameaças pela frente, medo do que possa encontrar pela frente. Esta diferen¬ça pode ser um dos fat6res contribuintes da maior incidência de paran8ia entre os surdos do que entre os cegos.
O Quadro G é baseado no efeito que tem a cegueira e a surdez sobre o adulto que era normalmente sadio. Mas a “realidade” e as perdas psicológicas da surdez, como as da cegueira, afetam cada indivíduo de modo diferente. Deve se separar os surdos em grupos, assim como os cegos, de acordo com a idade e com a época em que a doença ocorreu, de acordo com a saúde física e mental. Os problemas criados pelos vários graus da perda de audição são equivalentes aos criados pelos vários graus da perda de visão. Embora a distinção entre o “surdo”, o “duro de ouvido” e os graus da perda de audição e audição residual sejam mais amplamente reconhecidos e discutidos entre os que trabalham com os surdos do que seus equivalentes, entre os que trabalham com os cegos, isto acontece a tal ponto que os surdos e os duros de ouvido são em muitos casos classificados em dois grupos diferentes, com organizações diferentes trabalhando para cada um. O uso dos equipamentos auditivos equivalente aos óculos corretivos é há muito familiar, mais os novos aparelhos eletrônicos que podem “aumentar” consideravelmente a audição de certas pessoas, trazem novas esperanças e novas complicações para o trabalho com os surdos. E, como no caso dos cegos o fator do prognóstico, a opinião dos médicos especialistas e do próprio indivíduo sobre as probabilidades de estacionar no atual grau de perda, de melhorar ou piorar, é de grande importância para o seu ajustamento à deficiência.
Como no nosso campo, o trabalho com o surdo pode ser motivado por uma filosofia de segregação ou uma de integração, em conexão com os adultos e com a educação das crianças surdas. O fato da surdez não ser, em muitas circunstâncias, tão perceptível quanto a cegueira, contribui para desencorajar a segregação do adulto, entretanto muitos fatores hodiernos tendem a fortalecê-la.
Ligada às tensões emocionais resultantes da dificuldade especial com a segregação e integração, é a questão da leitura labial versus “sinais”. A escola partidária da leitura labial (ou melhor, “leitura Falada”, pois outros fatores além do movimento dos lábios estão envolvidos) afirma que a prática desta habilidade (com a correspondente produção da voz) é absolutamente necessária para a pessoa surda ter uma vida normal dentro de uma sociedade normal. Sobretudo, à criança surda não deveria ser ensinada a linguagem dos sinais de maneira nenhuma. E não deveria igualmente ser exposta a ela, não somente porque leva a negligenciar a leitura labial, mas também porque o uso de sinais restringe à criança as idéias relacionadas com coisas concre¬tas e resulta no malogro para abranger os conceitos gerais e as idéias universais expressas pelas palavras.
A escola partidária “dos sinais” não tem objeção quanto à aprendizagem pelos adultos e crianças da leitura labial. Mas, sente-se que a linguagem muda dos sinais é recurso natural do surdo, e eles a usarão de qualquer modo. Eles deveriam ser ensinados a usar apropriadamente a reconhecida linguagem dos sinais. A omissão no ensino desta ou, pior ainda, a restrição no seu uso, é o pior tipo de preparação para a vida. Existem várias situações nas quais é impraticável a leitura labial. Além disto, eles dizem que uma boa emissão de voz é restrita a alguns e mesmo aqui não é um perfeito meio de comunicação.
Os adeptos dos sinais, aparentemente, têm uma posição “moderada”, pois poucos entre eles são contra o ensino da leitura labial; ao contrário, confiam no uso de ambos os métodos. O que para alguns parece moderação, para outros, entretanto, surge como acomodação, acordo aonde não há lugar para tal.
Obviamente, apenas o técnico no trabalho com os surdos tem algum direito a decidir sobre os méritos destas duas escolas de pensamento. Mas, é importante para nós estarmos cônscios deles e dos efeitos sobre as pessoas sur¬das que posteriormente se tornaram cegas, sobre a educação do surdo-cego. Em ambos os grupos encontramos alguns que são produtos de uma escola e alguns de outra; e verificamos que os surdos geralmente são divididos em grupos treinados de uma maneira ou de outra.
Todos estes fatores necessitam ser lembrados quando analisamos a situação de qualquer pessoa surda que ficou ou está se tornando cega ou a da pessoa cega tornando-se surda e à qual devemos ajudar com os recursos apropriados.
Concluindo esta comparação entre surdez e cegueira, é interessante notar que as pessoas geralmente pensam ser a cegueira a pior deficiência enquanto as pessoas cegas acham que seria muito pior ser surdo. Uma razão para isto está no fato de ser tradicional entre as organizações dentro de cada campo, ensinar ao indivíduo a atenuar a própria deficiência. Há também o desejo natural que todos têm de escapar à severidade de suas próprias deficiências e a admissão do quanto são deficientes.
Mais forte que qualquer um destes dois fatores, entretanto, é o da grande dependência que cada grupo coloca no sentido perdido pelo outro grupo. A pessoa cega cultivou sua audição para substituir a perda da visão, e a pessoa surda ao contrário. Consequentemente, a gravidade de todas as perdas relacionadas com a confiança nos outros sentidos é enormemente aumentada no surdo que se torna cego ou no cego que se torna surdo.

3 - O Cego-Surdo

Poder-se-ia pensar que o número de pessoas cegas surdas estivesse diminuindo com os progressos da ciência.
Infelizmente, isto não acontece. Devido ao aumento na média de vida, mais indivíduos chegam à velhice, quando po¬dem perder tanto a visão como a audição; mais pessoas ce¬gas a uma idade em que podem tornar-se surdas e também es¬tas tornarem-se cegas.
Talvez por causa da grande fama de Helen Keller, a maioria das pessoas pensa que todo cego-surdo é assim desde a primeira infância. Realmente, existem tais pessoas. A crian¬ça surda e cega, afastada ao mesmo tempo do conhecimento visual do particular e do conhecimento auditivo do universal, tem que sobrepujar maiores dificuldades que a cega ou a surda. Entretanto, os exemplos de Helen Keller, Richard Kenney e Robert Smith demonstram que tais pessoas podem conseguir muito mais do que inúmeras pessoas normais.
Mas, sem dúvida, a grande maioria das pessoas cegas-surdas, e o grupo tende a aumentar, são aqueles que se tornaram assim numa fase mais avançada da vida, por alguma das prováveis combinações da perda de visão ou audição separadamente, ou ambas juntas, em qualquer idade.
Analisando-se a situação de cada indivíduo e de como podemos dar-lhe a ajuda especial que necessita, devemos levar em consideração quando ele ficou surdo e quando ficou cego, e os respectivos efeitos de cada deficiência sobre seu treinamento, educação, tipo de trabalho, status etc. E também devemos levar em consideração o atual grau de per¬da da visão e da audição em cada caso. Porque nem todos os cegos-surdos são totalmente cegos ou surdos. Existe um grande número de possíveis variações entre a perda total de ambos os sentidos e a definição aceita de cegueira-surdez. “O estado de estar privado de visão dentro da definição leg¬al de cegueira e privado de audição na medida em que interfere com a atividade normal”.
No quadro G esboçamos o impacto da surdez-ceguei¬ra sobre o adulto que perde totalmente o uso de ambos os sentidos, a fim de realçar o total significado desta deficiência — um significado que deve ser modificado de acordo com graus menores de perda de cada sentido. Nenhum sumário ou descrição pode exagerar a magnitude desta dupla deficiência. Mas há o perigo de parecer exagerar a possibilidade de sobrepuja-la. Esta é uma tarefa verdadeiramente grande. Entretanto tem sido alcançada; é possível.
A American Foundation For Blind mantém um servi¬ço consultivo nacional para os problemas dos surdos-cegos e é a mais importante fonte de informações neste setor. A Industrial Home for Blind, em Brooklyn, Nova York, é a organização de serviços diretos que mais se sobressai nos Esta¬dos Unidos. Rehabilitation of. Deaf-Blind Persons (sete volumes) publicado por esta instituição, como resultado de um projeto comum do Office of Vocational Rehabilitation United States Departament of Health, Education and Welfare, deverá estimular enormemente o progresso dos trabalhos neste campo. 2 E, como já ouvimos, tal progresso é particularmente necessário hoje em dia, pois o número dos cegos-surdos está aumentando.

4. Problemas especiais dos cegos com uma perda parcial da audição

Mesmo uma insignificante perda da audição poderá ser um problema sério para a pessoa cega, desde que ela depende tão decisivamente deste sentido. Não pode usar o método da “leitura labial”, nem mesmo na medida em que todos nós usamos, inconscientemente, especialmente quando a voz do orador é baixa ou difícil de ser compreendida, e assim sendo a diminuição da audição, que ela mal perceberia se ti¬vesse visão, pode interferir com a comunicação falada. E uma pequena deficiência em qualquer um dos dois ouvidos pode, mais seriamente ainda, afetar sua habilidade de orien¬tar-se e locomover-se, pela interferência que produz na sua capacidade para localizar os sons. Como vimos antes, o ouvido humano tem dois diferentes campos: para sons de alta¬ freqüência e sons de baixa freqüência e é possível que a pessoa cega com uma deficiência em um deles possa aprender a usar o outro mais eficientemente. Contudo, qualquer perda da audição em ambos os campos, diminui a quantidade de sons recebidos e assim limita as ocasiões nas quais o poder de localização pode ser usado.
A captação da reflexão sonora tipo C, que aparentemente depende da audição aguda nas altas freqüências, pode sofrer interferência em virtude da perda de audição naquele campo.
Uma perda de audição em um ouvido pode ser tão séria quanto a perda em ambos, qualquer desigualdade na capacidade de audição, entre um ouvido e outro, pode distorcer, a captação da direção do som, e interferir com a orientação. Esta não é uma situação desesperadora. Há uma real possibilidade de reaprender e de treinar novamente, a fim de que a pessoa cuja audição de um ouvido difere notadamente da de outro possa localizar o som.
Em vista disto, uma pessoa cega pode ser conside¬rada “surda”, isto é, privada da audição na medida em que isto interfere com a atividade normal, mesmo quando sua perda é muito menor do que a da pessoa com visão. Se uma per¬da de 25 decibéis prejudica uma pessoa de visão normal uma de 15 decibéis pode ser considerada prejudicial à pessoa cega.
Visto que os aparelhos auxiliares de audição são agora, socialmente, tão aceitos quanto os óculos, pode-se pensar que eles dariam uma resposta às dificuldades das pessoas cegas com perdas leves de audição. Mas isto não é necessariamente verdade. Os instrumentos até agora aperfeiçoados ajudam num tipo de percepção sonora, mas podem limi¬tar ou eliminar completamente outra.
Qualquer instrumento que deva ser inserido no ouvido, por exemplo, pode diminuir a recepção de pistas auditivas, muito importantes para a pessoa cega. Ou um aparelho para um só ouvido, com um microfone colocado no peito pode distorcer completamente as pistas direcionais, fazen¬do com que sons que estão mais próximos do microfone pare¬çam estar mais perto do ouvido. Urna pessoa cega que possui tal aparelho mono-aural deveria ser ensinada quanto à necessidade de dirigir o microfone, como um localizador de direção para determinar a origem do som, pela oscilação de sua potência e fraqueza de sinal, assim como de permitir qual¬quer ajuste possível nas distorções.
Existe também a possibilidade de se ter um aparelho auditivo para ambos os ouvidos (bi-aural) dotado de microfone para cada receptor, sendo estes colocados o mais perto possível dos ouvidos. Seria de grande ajuda se estes aparelhos fossem ligados a uma só fonte de energia, evitando assim a perda de eficiência desigual.
Mas nenhum aparelho até hoje construído constitui-se na resposta ideal a todos os problemas das pessoas cegas, uma vez que nenhum deles reproduz toda a gama normal dos sons; o que é útil para finalidades sociais pode não o ser para locomoção e vice-versa.
Em vista da importância especial da audição, to¬da pessoa cega deveria ser pressionada a fazer regularmen¬te um teste auditivo, e o menor sinal de dificuldade audi¬tiva deveria ser relatado a um otologista para diagnostico e tratamento. Quando isto é feito, deve certificar-se que o audiólogo, e/ou o otologista têm uma compreensão do significado especial de qualquer perda auditiva para uma pessoa cega.


5 - Problemas criados por outras deficiências físicas

Diabete - Numa época em que um crescente número de casos de cegueira entre o grupo dos jovens e dos de meia idade é causado pela diabete, é especialmente importante que aqueles que se dedicam ao trabalho com o cego tenham alguma noção da deficiência do diabetes em si.
O avanço do diabetes frequentemente causa a perda sensorial incluindo aquela de discriminação cutânea mais acurada. Acontece, portanto, que muitas vezes os diabéticos que recentemente ficaram cegos pensam não ter suficiente acuidade tátil para aprender Braille. A experiência mostra que isto é raramente assim: o grande obstáculo para o Braille não é uma acuidade diminuída, mas a atitude.
Atualmente, foi aperfeiçoado um aparelho para auto-injeção de insulina pelo cego, cujo uso deveria certa¬mente ser ensinado ao diab6tico cego, removendo assim uma área de dependência frustradora. Nenhum método ainda foi desenvolvido que permita ao cego diabético examinar a própria urina, apesar de tentativas estarem sendo feitas visando esta finalidade. 3 A cegueira aumenta as dificuldades com o tratamento do pé tão necessário aos diabéticos, mas o diabético cego médio pode facilmente aprender os princípios de tal tratamento e desincumbir-se dele. Este tópico, consequentemente, merece atenção especial no centro de reabilitação.
Algumas pessoas que se dedicam ao trabalho com os cegos pensam que a diabete desenvolve uma espécie de “per¬sonalidade diabética” tornando-os mais difíceis para serem tratados. Apesar de várias descobertas psicossomáticas te¬rem sido feitas em relação aos diabéticos, esta noção seria mais resultado do fato de que na última década casos de retinopatia diabética puseram muitos dos que se dedicam a trabalhar com o cego em contato, pela primeira vez, com considerável grupo de jovens que recentemente ficaram cegos; jovens ativos que possuíam suficiente grau de educação, experiência e ambição, para sentirem-se insatisfeitos com empregos estereotipados. Consequentemente, alguns dentro deste grupo possuem uma vontade própria desconhecida a muitos que se dedicam ao trabalho com pessoas cegas.
Perda do uso da mão ou do braço. - À idéia de que a pessoa cega que sofreu amputação da mão ou de um braço deve imediatamente ser adaptada com uma prótese precisa ser cuidadosamente encarada. A mão ou o braço artificial não pode sen¬tir, e isto implica num problema especial para a pessoa cega. Em alguns casos haverá razões para um braço protético; em outros será talvez melhor para a pessoa usar o coto sensível, à bem da informação que ainda pode transmitir.
Outra dificuldade especial para a pessoa cega com braço artificial (ou com braço insensível) é a de não poder dizer onde o braço termina (qualquer pessoa que tenha tido a experiência de acordar durante a noite com o braço adormecido pode ter uma noção do problema).
Mesmo depois que se ganha completo controle do braço protético ele raramente torna-se parte da imagem corporal.
É importante que os centros de reabilitação para cegos façam uso certo do campo da medicina física quando estas deficiências adicionais estão envolvidas. Igualmente o pessoal de tais centros deve ser alertado para a existência de equipamentos, como máquinas de escrever desenhadas para o uso de pessoas possuidoras da mão direita ou esquerda somente, e de cursos especiais de datilografia que possibilitam às pessoas com um só braço usar as máquinas de escrever comuns.
Mais uma sugestão pode ser incluída aqui: a possibilidade da operação Krukenberg pela qual, nos casos de amputação da mão, os ossos do braço podem ser cirurgicamente separados compondo uma garra com o formato da mão. Esta operação engenhosa pode ser de valor incalculável, permitindo a algumas pessoas cegas, manterem-se independentes em muitas áreas, o que seria impossível em outras condições.
Mas a possibilidade desta operação deve ser precedida de um minucioso estudo psicológico do paciente e do significado para ele de tal mão, antes de ser tomada qualquer decisão. Para alguns poderá ser de grande valia; para outros ser tão traumática que inutilize seus efeitos benéficos.
A pessoa cega que perdeu ambos os braços e as mãos está naturalmente numa posição de tremenda desvantagem.
Normalmente, nestes casos só um lado é adaptado com prótese e aqui (se um ou ambos os braços permanecem) há frequentemente a indicação da operação Krukenberg para um lado. Em todos os casos haverá sempre a necessidade de maior cuidado na prescrição individual. A melhor fonte de consultas é o Veterans Administrations, Blind Section.
Amputação da perna ou perna severamente danificada. - A perna protética, e até a perna fraca ou mais curta, pode aumentar enormemente os problemas de mobilidade da pessoa que ficou cega. A tendência para virar para dentro pode ser tão grande que se torna quase que impossível de ser sobrepujada; e naturalmente tal perna ou pé não transmite todas as informações como os normais. Uma bengala ortopédica, como já vimos, é inadequada às necessidades da pessoa cega. Mas, o uso da bengala Hoover com um pé ou uma perna artificial, propõe um problema especial que exige vasto conhecimento e experiência por parte do técnico em mobilidade que vai enfrentá-lo.
Quadriplegia. - Felizmente a combinação de quadriplegia e cegueira é muito rara. Quando à dependência de qualquer uma das deficiências é acrescentada as da outra, então os técnicos em reabilitação mais otimistas serão oprimidos pelos problemas decorrentes. Uma das mais severas e menos reconhecidas perdas para o quadriplégico é a da percepção ci¬nestésica e do auto-conhecimento do próprio corpo (enquanto tem falsas dores dentro do corpo). Quando esta e outras perdas do quadriplégico se combinam com as resultantes da cegueira, a condição assemelha-se muito intimamente à situação experimental descrita pelo National Institute of Men¬tal Health em março de 1956, na qual o pesquisador colocou-se suspenso, nu, num tanque cheio de um liquido, à temperatura do corpo, durante várias horas, sua cabeça encerrada num capacete escuro e à prova de som. O pesquisador em breve sentiu que o isolamento o levava a um mundo de viva alucinação. O único alívio para esta situação, no caso do quadriplégico cego, vem através do sentido da audição.
Esclerose múltipla. - A combinação de esclerose múltipla e cegueira é conhecida pela maioria dos que trabalham com o cego, desde que a perda da vista é parte do sintoma da esclerose múltipla. O problema em muitos casos é principalmente de reabilitação médica e física, mas o que se dedica ao trabalho no campo da cegueira deve ter conhecimento da natureza da doença. A não ser que ele conheça seus períodos de desânimo e da alta incidência de euforia, ele poderá ser nocivamente desencaminhado ao tratar destes casos.
Paralisia Cerebral etc., - O trabalho com a criança cega com paralisia cerebral tem dificuldades muito especiais. A ex¬trema limitação de funções, particularmente na área de coordenação, torna o treinamento dificílimo, A American Foundation for the Blind tem tentado reunir algum material sobre este duplo problema e alguns dos centros de reabilitação física têm tido experiências limitadas na tentativa de solucionar estes casos.
No caso do adulto cego que e vítima de ataque ou acidente cerebral, os que trabalham com o cego devem saber que os centros de reabilitação física estão fazendo muito pelo hemiplégico o que até pouco tempo parecia impossível. O “Optimum” funcionamento do corpo é tão importante para a pessoa cega que no caso de um ataque ou acidente cerebral, todos os esforços deverão ser feitos para se obter a melhor consulta no campo da medicina física.
Algumas formas de dano cerebral produzem uma condição chamada hemianopsia, na qual a visão de um lado, e o mesmo lado, de ambos os olhos é danificada ou totalmente perdida. Tal condição pode levar as pessoas mais idosas, em particular, a desistirem de toda leitura pela dificuldade de achar o começo de cada nova linha com a metade do campo vi¬sual normal assim danificado. O Dr. Richard E. Hoover ofere¬ce a sugestão de que tais pessoas podem readquirir a capacidade de leitura com o simples expediente de segurar o papel ou livro verticalmente ou num ângulo oblíquo, para que as linhas sucessivas permaneçam dentro do campo visual remanescente.
Afasia. - Todas as indicações dadas pelas tabelas de probabi¬lidade de vida e os conhecimentos médicos atuais apontam um grande aumento no número de cegos afásicos nas próximas décadas. Não conheço nenhum estudo quer no campo de trabalho com o cego quer no da fala ou da audição que nos prepare para enfrentar tal problema.

NOTAS DE RODAPÉ
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1- A maior contribuição nesta área é a coluna semanal domingueira no New York Times por Howard A. Rusk, M.D., geralmente reconhecido atualmente como a maior autoridade mundi-al, em reabilitação.

2 - O leitor interessado em alguma deficiência em particular e que conhece algo sobre sua natureza pode achar as vinte perdas da cegueira útil como base para análise, apesar de que algumas não se adaptarão e outras precisarão ser adicionadas a cada caso.

3 - Ver também “Report: Committee on Services for the Deaf Blind to the World Assembly of the World Council for the Welfare of the Blind, Roma, Itália, 1959.

4 - St. Paul agora possui seu primeiro protético de um dispositivo para esta finalidade.

QUADRO G
CEGUEIRA, SURDEZ E CEGUEIRA-SURDEZ.

Perda Para o cego Para o surdo Para o surdo-cego
1 – Integridade física. Muita mais severa. “Ouvidos surdos”, “não tão notados” - “Maneirismos” diferentes dos da cegueira, significado intimo não tão importante. Dupla perda com todos os efeitos próprios a cada uma.
2 - Confiança nos sentidos remanescentes. Muita mais severa. Maior dependência nos outros sentidos, mas não há tendência pa¬ra desconfiar dos mesmos. Perda de confiança no julgamento próprio devido à perda de confirmação proporcionada pelo som da voz humana. A perda resultante da cegueira torna-se muito mais grave desde que o principal sentido compensador também se foi.
3 - Contato com a rea-lidade. Devida à perda de confiança nos sentidos remanescentes apare¬ce mais cedo na ce¬gueira. Devido à perda de contato humano, pode ser muito severa com nuances paranóicas. Normalmente vem de-pois de um longo período de crescentes suspeitas. Dupla perda, algumas ve¬zes devastadora. Uma grande razão para trabalho especial com o cego surdo, para que não se considere neurótico ou venha a ser pela completa separação do mundo das coisas e das pessoas.
4 - Campo visual ou au-ditivo. Impassível dizer se a perda do campo visual é mais grave que a perda do campo auditivo para o surdo. Monotonia do silêncio, perda da recreação e prazeres in¬conscientes e dos avisas de perigo, separação do mundo ao redor, necessitando ser unido pela visão. Efeitos de cada perda mul¬tiplicados pelos da outra, completa monotonia, sensação de perigo e sensação de perda total da recreação subconsciente.
5 - Seguran¬ça luminosa ou sonora. Mais severa. Considerado coma um viver no “perpétuo silêncio”, provavelmente tão falsa como a “perpétua escuridão” para o cego. Mas isto não tem implicações e signifi-cado para a própria pessoa ou para o público. Noção de vi¬ver em “silêncio” acrescenta novo horror ao conceito público - considerada como vivendo numa “escuridão silenciosa”. Mesmo quando considerada como uma “claridade sem som” seu significado para as emoções pessoais pode ser muito severo.
6 – Mobilidade. Muito mais severa. Algumas limitações (guiar etc.). Movimentos corporais geral¬mente não são embaraçados. Mas, movimento pode significar me¬do, especialmente vindo de trás. Aqui o cego depende da audição, e o surdo da visão. Com ambas perdidas significa quase que uma imobilidade completa, exceto para poucos.
7 - Técnicas da vida diária
 Muito mais severa. Sem telefone. Dificuldades quando é necessária a comunicação com outras pessoas. Mas as habilidades e técnicas não são interferidas. Com a perda do sentido compensador, a perda é muito severa.
8) Facilidade de comunicação es¬crita. Muito mais severa. Pouco interferi¬da, exceto em relação à composição de material escrito. Pode perder a qualidade auditiva do estilo. Quase que total. As compensações do cego com o rádio, Livros falados etc., todas cortadas.
9 – Facilidade na comunicação falada. Menos severa. A mais severa de todas. Dificuldade decorrente não somente do malogro em ouvir, mas também do medo de má interpretação. A própria voz pode tornar-se muito baixa, muita alta, muito monótona. Pode ser incapaz de falar, ou falar no mo¬mento errado. Desligado da vida ao redor. Efeitos das perdas para o cego-surdo multiplicado; até a linguagem dos sinais é inútil, exceto quando dire¬tamente de mão para mão.

10 – Progresso informativo. Talvez sofram mais da falta de informação. Talvez mais por falta de interpretação. Mais fácil de manter-se em contato com os conhecimentos distantes e coisas que já aconteceram; muito mais difícil com coisas comunicadas oralmente. Sua facilidade maior de mobilidade pode mostrar-lhe uma visão mais particularizada do seu ambiente em mudança, mas o que significa praticamente é mais difícil de descobrir. Aqui o cego e o surdo dependem de outros sentidos. Com am¬bos atingidos torna-se uma perda quase impossível de ser sobrepujada. 1
11 – Percepção visual do agradável Grande para a maioria das pessoas. Mas tem a vanta¬gem de ter a habilidade para relembrar imagens visuais e de construir novas, normal¬mente maior da que para relembrar e construir imagens auditivas. Perda menor desde que usualmente menos satisfação é obtida pela percepção auditiva do que pela visual. Ambas as perdas são enormemente aumentadas.
12 - Percepção visual (ou auditi¬va) do belo. Impossível dizer qual é a perda maior. Idem. Quase intolerável para aqueles que possuíam aquelas capacidades.
13 - Recreação.
 Muito mais severa. Música, conferências, rádio, conversação, etc. Apreciação dos esportes pode ser diminuída e para alguns aumentada. Mas a atividade fica muita mais restrita. Qualquer recreação que envolva outras pessoas é quase impossível, além das restrições impostas por cada deficiência separadamente.
14 – Carreira, etc. Mais séria. Posição profissional seriamente interferida, empregos de vendas etc.,, difícil de serem mantidos; entretanto, ser¬viço de escriturário e serviços braçais disponíveis. Prevenção contra o emprego de pessoas surdas não é tão farte; possibilidade ou adaptação de em¬prego etc., parece mais difícil. Quase impossível de convencer ao empregador que tal pessoa pode ser útil ou que o emprego pode ser adaptado.
15 - Segurança financeira.
 Mais severa. Maior probabili¬dade de empregos; normalmente des¬pesas menores com a doença e com a deficiência. Ambas as despesas são aumentadas. Ren¬da normalmente interrompida. Para muitos qualquer possibilidade de segurança financeira desaparece.
16 - Independência pessoal. Muito maior em relação à independência com a realidade, Impossível de ser feito qualquer julgamento sobre a independência interior. Idem. Qualquer que seja a grau da independência interior, impassível imaginar grau maior de dependência real,
17 - Adequação Social. Rejeitada e apiedado. Rejeitado e ridicularizado. Incapacidade de ouvir é tomada por incapacidade de compreender, sinal de baixa inteligência. O público sente impaciência mais do que consideração para com o surdo. Constrói complexo no surdo, formando um circula vicio¬so, Tão grande que poucos podem ou estão em situação de sobrepujá-la.
18 – Obscuridade Geralmente mais severa. Talvez muito mais severa em situações sociais íntimas. Também dificuldade em usar linguagem de sinal em lugares públicos. Novamente, a dupla deficiência multiplica a perda.

19 – Auto-estima. Impossível um julgamento geral tanto sobre a auto-estima quanto sobre a auto-imagem. O cego é mais severamente deficiente, mas o efeito de cada perda sobre o indivíduo é o que interessa aqui. O afastamento das pessoas pode afetar a auto-estima e a auto-imagem do surdo de uma maneira muito grave. Idem. Lista das perdas indica o número dos sérios golpes à auto-estima, efeitos sobre a auto-imagem, incalculáveis.
20 – Organização da personalidade global. Impossível de se avaliar qual das deficiências tem efeitos mais graves. Nenhuma estatística disponível em relação à incidência de doenças mentais ou colapso nervoso em qualquer dos grupos. Os golpes desferidos pelas duas deficiências são de caráter diferente – efeitos diferentes devem ser esperados. Paranóia parece ser mais comum entre os surdos, mas isto é discutível e sem provas disponíveis. Idem. Multiplicidade e intensidade dos golpes traumáticos tão íntimos que muitas estruturas da personalidade são incapazes de enfrentá-los sem desorganização.

1 – A palavra “quase” é importante aqui. Aqueles de nós que conhecem um número razoável de pessoas cego-surdas estão cientes da maneira surpreendente que alguns sobrepujam a dupla deficiência. O público geralmente conhece as histórias de Helen Keller e Robert Smithdas, ambos tendo estudado em universidades e obtido diploma, embora totalmente surdos e cegos.


CAPÍTULO 22
PROBLEMAS ESPECIAIS DE PESSOAS CEGAS PORTADORAS DE DOENÇAS MENTAIS OU DE RETARDAMENTOS MENTAIS

1 - O doente mental

Entre os cegos, como entre os dotados de visão, há certamente os que sofrem do terceiro tipo de deficiência na classificação dada no capitulo 21, a do uso de drogas ou alcoolismo. Alguns alcoólatras ficam cegos e alguns cegos se tornam alcoólatras. (É interessante notar que, em pequeno numero de casos, alcoólatras que ficaram cegos pararam de beber como se a cegueira aparentemente satisfizesse sua necessidade masoquista). Um material publicado pe¬los “Alcoólatras Anônimos” pode ser adquirido em Braille e em livros falados. Além disso, em vista dos estudos e pesquisas feitos atualmente no campo do alcoolismo e do uso de drogas, talvez, tudo aquilo que possamos fazer no presente é providenciar para que a pessoa tenha o melhor tratamento possível e oferecer nossos conhecimentos especializados à respeito dos problemas da cegueira e nossa aju¬da, pelo menos, com seus problemas da realidade. Ora, se a pessoa já está sob tratamento, nós podemos oferecer-lhe nossa cooperação e assistência, quanto aos problemas originados pela cegueira.
Quanto àqueles portadores de doenças mentais em adição à cegueira, nossa tarefa pode ser mais claramente exposta.
Na população em geral as doenças mentais são encontradas em todos os grupos de idade, porém, especialmente nas idades mais avançadas, quando o processo da senilidade já teve início. Isto também se aplica ao cego, mas desde que mais de 50% dos cegos deste país contam mais de 65 anos, há como, aliás, seria de se esperar, uma cota maior de doenças deteriorativas. Como complemento, há aquelas pessoas que ficaram gravemente doente mentalmente, como resultado da cegueira.
Alguns de cada grupo, agora vivendo numa comunidade normal, podem continuar e ser tratados na comunidade; alguns de cada grupo poderiam beneficiar-se grandemente num ambiente hospitalar; alguns já devem estar sob a guarda e cuidados de um hospital.
Os cuidados de associações para cegos, com respeito a estas pessoas, deveriam tomar três formas: o interesse no seu treinamento imediato; os interesses quanto ao seu ambiente; e ajuda quanto às pesquisas necessárias.
Caso seu tratamento esteja entregue em mãos competentes, de nossa parte devemos oferecer nossa cooperação ao médico ou ao hospital sob cuja responsabilidade ele se encontra. Frequentemente, acharemos que os especialistas no setor da saúde mental agradecerão nossos conhecimentos com relação aos efeitos emocionais da cegueira e, ou, nossa assistência direta em solucionar alguns de seus problemas da realidade enquanto trabalham nos centros.
Porém, frequentemente, encontramos pessoas cegas que necessitam de tal tratamento e que ainda não o receberam, possivelmente devido a que tanto ela própria como aqueles que a cercam não se aperceberam desta necessidade. Assistentes sociais psiquiatricamente orientados nas nossas associações podem aqui ser de utilidade, estando capacita¬dos para reconhecer a urgência, para ajudar o individuo e sua família a reconhecer e providenciar o necessário, tra¬balhando com o psiquiatra ou hospital no próprio tratamen¬to.
Todos nós, trabalhando em grandes associações, também precisamos estar alertas quanto aos recursos psiquiátricos que se podem obter dentro da nossa comunidade, em adição à conservação de nossa própria equipe de consultas psiquiátricas. Algumas das grandes associações das grandes cidades poderiam providenciar recursos próprios aos quais os cegos poderiam trazer seus problemas mentais, e emocionais - na forma talvez de equipe clínica (uma base de, pe¬lo menos, uma parte do tempo) com especialistas que tiveram treinamento especial e, se possível, experiência para tratar dos problemas da cegueira. O fato de a cegueira ser uma experiência traumática compartilhada por outros pode levar grupo de terapia no tratamento de muitas espécies de dificuldades mentais.
Com os assistentes sociais psiquiatricamente orientados nas nossas equipes, também poderemos trabalhar no ambiente da pessoa que não está hospitalizada, ajudando-a em qualquer problema de âmbito familiar ou na sua situação de vida em geral que pode estar agravando sua condição mental ou interferindo em sua cura.
Devido à grande porcentagem de cegueira e de doenças mentais nas idades mais avançadas, pode-se encontrar uma porcentagem maior de cegueira nos hospitais de doenças mentais e nas instituições, do que entre a população em geral. Se nosso interesse está em todas as pessoas cegas, certamente, deve também se estender a estas pessoas. Elas necessitam de nossa assistência especial da mesma forma que os cegos que se encontram entre a população em geral e elas podem se beneficiar de muitos de nossos serviços — exceto de que frequentemente nos esquecemos de que elas também fazem parte do nosso interesse. Se devêssemos organizar um trabalho para o cego hospitalizado, encontraríamos como voluntários, tanto cegos, como portadores de visão dispostos a executar este trabalho com uma possibilidade adicional da ajuda de outros pacientes.
Uma das grandes tarefas dos assistentes sociais nos hospitais de doenças mentais é a de encontrar lares dentro da comunidade, para os pacientes fisicamente deficien¬tes quando estão prontos para receber alta - uma tarefa tanto mais difícil quando a deficiência é a cegueira. Bem que nossas associações poderiam oferecer sua cooperação neste setor, numa tentativa de colocar os pacientes cegos e que receberam alta num ambiente o mais favorável possível.
Com fins de pesquisa neste campo, já que o fundo psicológico das pessoas cegas não é de forma alguma dife¬rente do daquelas dotados de visão, pessoas que ficaram cegas são tão incomuns na experiência da média dos psiquia¬tras (sendo menos de um, em quinhentos na população em geral) que os problemas especiais do ajustamento da cegueira não fizeram de forma alguma parte do seu treinamento. Consequentemente, há uma necessidade grande de colecionar a pouca literatura agora adquirível à respeito destes problemas e coloca-los de maneira a serem úteis ao psiquiatra e assistentes sociais e às nossas associações.
Há, outrossim, necessidade de algum grupo de estudo de pacientes cegos nos hospitais de doenças mentais, O estudo deveria ser o do mais alto nível profissional com um grupo de pesquisadores trabalhando nas medidas e em estudos sociais de todos os fatores anteriores à doença, tanto quanto ao tratamento atual. Tal estudo conduzido em qualquer divisão estadual de saúde mental beneficiaria os pacien¬tes individuais envolvidos pelas atenções acrescentadas focalizando seus problemas particulares. Também pode provar ser de valor inestimável nas indicações que vão em busca de métodos de prevenção e tratamento de doenças mentais para ouras pessoas cegas. E mais ainda, pode espalhar muita luz sobre o devido ajustamento da cegueira, através da sua análise de ajustamentos anormais.
E aqui, também há necessidade de muito mais estudo e trabalho dos problemas de crianças emocionalmente perturbadas e cegas (e de crianças surdo-cegas).

2 - O deficiente mental

Considerando-se o que podemos fazer para aquele que é tanto deficiente mental como cego, devemos lembrar em primeiro lugar, que os problemas da cegueira, e ainda mais os da surdez e cegueira, podem fazer com que a pessoa pare¬ça ser deficiente mental, quando de fato não o é. É fácil diagnosticar-se uma criança cega ou surdo-cega como deficiente mental e até mesmo como incapaz de ser ensinada ou treinada, quando na verdade sua inteligência é bastante normal, porém está mental e emocionalmente perturbada e/ou não re¬cebeu os meios necessários para um desenvolvimento normal ou um treinamento adequado. Tal criança deveria ser confiada à custódia de uma instituição e ser enviada a outras instituições similares, à medida que for crescendo. Porém, se o engano for retificado e ela puder receber a ajuda psiquiátrica e outras, das quais necessita, poderá se desenvolver normal e saudavelmente.
Assim, pois, uma das grandes necessidades aqui é trabalhar com especialistas quanto a testes e saúde mental, a fim de constatar o mais acuradamente possível se um de¬terminado indivíduo é na verdade deficiente mental ou não. Em segundo lugar, devemos recordar que há muitos graus de deficiência mental, dos que são totalmente desprovidos da possibilidade de qualquer desenvolvimento mental, àqueles que se situam apenas abaixo do limite mais baixo da ordem do Q.I. “normal”. Para aqueles incapazes de qualquer desenvolvimento mental, só se poderá dar um cuidado puramente custodial, em casa ou numa instituição. Entretanto, estudos modernos parecem confirmar que pessoas que são capazes de qualquer desenvolvimento mental, são também capazes de, sob condições favoráveis, realizarem consideravelmente mais do que se supunha antes. O trabalho da moderna reabilitação em escolas especializadas e em centros que apresentam tanto aulas, como oportunidades de consultas e também serviços de assistência social com as famílias, estão capacitando um número cada vez maior de tais pessoas a tomarem lugar dentro da comunidade regular.
Em estudo recente 2 relativo a pessoas deficientes mentais, por meio de testes quanto a desempenho intelectual, no inicio e no fim de um período de cinco anos, sob condições favoráveis, o proveito médio do Q.I., ia de 9.1 para o grupo mais jovem (cuja média de idade era inferior a 20 anos no primeiro teste) para 4.4 para o grupo mais velho (média de idade de 50 no primeiro teste). Mesmo neste grupo mais idoso, havia alguns indivíduos cujo proveito era 10.
Os problemas da cegueira aumentam enormemente as dificuldades para se ajudar o deficiente mental de qualquer idade, no sentido de atingir seja qual for o grau de desen-volvimento de que são capazes. Porém, desde que foi provado que, sob cuidados adequados (que inclui o “T.L.C.” que hoje é um elemento reconhecido em todas as técnicas da terapêutica) e treinamento, tais pessoas estão capacitadas de desenvolvimento (quanto mais próximas do Q.I. normal, tanto maior a potencialidade), nós, certamente, deveríamos fazer o máximo para cooperar com os especialistas neste campo e ampliar os recursos e oportunidades úteis.
No presente, somente o cuidado de custódia é favorável à criança cega que é completamente deficiente mental e incapaz de desenvolvimento mental — como também para sua companheira dotada de visão e em idênticas condições mentais. Porém, o número de tais crianças é infinitesimal, pequeno.
Entretanto, para a criança cega deficiente mental que for capaz de desenvolvimento mental, ela pode em nossos dias contar com recursos adequados, em alguns lugares. Para as crianças dotadas de visão existem recursos, tanto na comunidade como em instituições escolares. Nas classes comunitárias elas são educadas ou treinadas para viverem na comunidade, de acordo com sua capacidade. Nas instituições especiais recebem cuidados de custódia e conforme a sua capaci¬dade: oportunidades de recreação, treinamento e educação.
Porém, para a maioria, tais recursos a não ser os puramente residenciais estão vedados às crianças cegas, com a mesma deficiência, desde que geralmente nem as classes da comunidade, nem as escolas institucionais estão devidamente equipadas para poder lhes dar a ajuda necessária de que precisam e consequentemente não podem aceita-los. O mesmo acontece com as escolas para cegos. Quanto menor o grau de deficiência mental, maior a capacidade de tal criança, maior a tragédia para ela e para seus pais. Por conseguinte essas crianças formam um grupo intermediário merecendo nossa atenção e interesse especiais.
Isto se refere particularmente à realidade daquelas crianças cujo diagnóstico na tenra idade foi de total incapacidade mental e colocadas numa instituição de custó¬dia, sem esperanças. Tais instituições estão, muitas vezes, superlotadas, sua equipe é deficitária, não contando com alguém que tenha conhecimentos especiais ou tempo disponível a fim de se dedicar ao caso especial da criança cega. Por isto devemos fazer tudo o que pode ser feito para providenciar uma revisão do diagnóstico para verificar a pos¬sibilidade de ter havido um engano.
Os pais de uma criança que nasceu cega, apresentando também sinais de deficiência mental, precisam se in¬formar a respeito das escolas especializadas onde tal criança receberá diagnóstico e tratamento especiais. Uma delas é a Escola Royer Greaves para Cegos em Paoli, na Pensilvâ¬nia, onde o Dr. Jessie Poyer Greaves tem executado um ótimo trabalho em favor dessas crianças com dupla deficiência. A outra, recentemente fundada, Ransome Green Unit da Esco¬la de Walter E. Fernald em Waltham, estabelecida pelo Estado de Massachusetts, especialmente, para crianças cegas e deficientes mentais. Há, outrossim, centros de diagnóstico tais como o Centro para Crianças Cegas de Boston (outrora conhecido como Blind Babies Nursery). Um crescente interesse nos problemas dos deficientes mentais, especialmente no que se refere às crianças e adolescentes, tem sido demonstrado, por exemplo, na área de Nova York, enquanto que a Associação Nacional para crianças Retardadas, Inc., 386 Park Avenue South, New York City, fornece um centro para informações e assistência.
Adultos portadores da mesma dupla deficiência e que vivem na comunidade devem ter problemas especiais e graves quanto à residência, recreação e emprego. É para estes que devemos trabalhar em programas separados. Dependendo do grau de cegueira e da deficiência mental em cada caso, eles precisarão ou não de proteção especial e do cuidado quanto à segregação com respeito à residência e recreação. Normalmente, eles não serão capazes de competir no campo profissional dos videntes, onde a pessoa cega geralmen¬te precisa de “algo extra” para progredir. Além disso, as dificuldades de um nível alto de ajustamento à cegueira serão muito grandes para eles (embora alguma coisa que se aproxime a um ajustamento pode mais facilmente vir a eles do que aos mais inteligentes).
Tais pessoas certamente necessitam de nossa ajuda e jamais deveremos negligenciá-las a bem do sucesso que poderemos conseguir na reabilitação de pessoas de maior capa¬cidade. Entretanto, ajudando-os devemos evitar o erro de equacionar todas as pessoas cegas com este grupo, planejando ou facilitando nossos programas principalmente em atenção às suas necessidades. Precisamos, também, usar do maior cuida¬do para não confundir o que está perturbando emocionalmente o cego inteligente mal ajustado, com o deficiente mental, simplesmente, porque não possui a habilidade presente para tornar conhecido seu verdadeiro eu.

NOTAS DE RODAPÉ
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1 - Os termos “débil mental” e “deficiente mental” parecem os mais diretos e menos desencaminhadores do que as palavras de fuga, para dentro das quais os especialistas foram compelidos hoje em dia: “retardado mental”, “excepcional”, “especial”. Tais pessoas são aquelas cuja função do intelecto é bastante fraca; seu equipamento mental é deficiente. O ter-mo “retardado” traz a idéia de uma parada tardia e que pode ser recuperada a tempo; usando este termo para o fraco de espírito confunde-se sua condição com a da criança que é realmente retardada (agora se referindo como “aparentemente retardada”); isto é a criança que parece ter um quociente de inteligência inadequado, mas que na verdade está temporariamente bloqueada por problemas emocionais. Empregando-se “retardado” para os “fracos de espírito” ajuda desta forma a impedir que as crianças realmente retardadas tenham suas necessidades diferentes, analisadas e cuidadas. Além disso, chamando as crianças — fracas de espírito (ou no caso as retardadas), de “excepcionais”, ou “especiais”, além de ser uma forma de subterfúgio, tem o efeito desastroso de dar ao público a vaga noção de que uma criança excepcionalmente brilhante é tão infeliz e peculiar como as excepcionalmente retardadas e que somente as medianas é que são normais.

2 - “The Effect of Age on the Intellectual Performance of Mental Defectives”, poor Anne Dell, M.A., e John P. Zubek, Ph.D., Journal of Gerontologgy, Vol. 15, n.3, 1960

CAPÍTULO 23
PROBLEMAS ESPECÍFICOS DAQUELES COM ALGUM GRAU DE VISÃO

1 - Aqueles com um mínimo de visâo residual

Como vimos anteriormente, em relação com a falsa concepção de “escuridão” da cegueira, existem algumas pessoas privadas de visão que percebem alguma luminosidade - sufi¬ciente para diferenciar o claro do escuro e, em certos ca¬sos, para distinguir vagamente formas e cores. Quando a pessoa chega a este grau de cegueira na vida adulta sua recepção desta pequena quantidade de luz implica num problema especial na reabilitação.
Tal indivíduo, tendo funcionado toda sua vida em termos de luz, tentar continuar a agir assim, mesmo que agora possua tão pouca visão residual que lhe seja de pouco valor prático, tão desesperadamente usar este mínimo restante que não será capaz de concentrar-se em desenvol¬ver o uso dos outros sentidos. Seu grau quase inútil de visão residual torna-se, portanto, uma barreira á sua reabilitação.
Este problema pode e deve ser sobrepujado duran¬te o treino de reabilitação pelo uso de vendas ópticas (com a sanção de um oftalmologista, em cada caso) usadas duran¬te a maior parte do dia, particularmente, durante os cur¬sos de habilidades.
Ao se exigir o uso destas vendas para o treinamento de tais pessoas, o pessoal do centro de reabilitação deve estar ciente de todas as possíveis implicações psicológicas, particularmente para um treinando com um prognóstico duvidoso, e estar pronto a enfrentar os casos oca¬sionais de choques produzidos pelo trauma de usar uma venda. Mas, os benefícios do uso de vendas são tão grandes que as tornam um instrumento essencial na reabilitação destas pessoas que ficaram cegas. Durante este período de oclusão dos olhos, o treinando aprende a receber e interpretar, dentro do grau que necessita para uma vida normal, a informação que lhe é dada pelos outros sentidos. Quando e1e remove a venda, invariavelmente descobre que passou a confiar nos outros sentidos e a confiar neles num grau até então desconhecido, e também que seu pequeno grau de visão residual agora funciona mais exatamente do que antes, porque não tenta usá-la além da medida possível.
Certa ocasião, em St. Paul, um indivíduo que esta¬va sendo treinado e que tinha funcionado, durante meses, com um grau mínimo de visão residual, retornou ao lar depois de ter treinado com vendas, com o uso tão mais eficiente desta visão que agora ele se refere ao período de antes da reabilitação como ao “tempo em que eu era cego”, apesar de seu grau de visão continuar o mesmo.
Mas, os problemas da criança nascida com pequeno grau de visão residual devem ser tratados diferentemente. Neste caso, seu sentido central começa, desde o momento em que ela se torna ciente de qualquer coisa exterior, a organizar suas funções em termos desta visão extremamente limitada. Ela não tem o problema do adulto que ficou cego e que precisa reorganizar o sentido central acostumado a trabalhar em termos de visão normal. A esta criança deveria, portanto, ser ensinado o uso de sua visão limitada, ao máximo, restringindo apenas pela possibilidade de dano ocular, indicado por ofta1mologis ta competente. Um limitado uso de vendas pode ser benéfico em tais casos, mas somente em sessões especiais para o treino direto dos outros sentidos e nunca como parte de uma situação de classe comum.

2 - Os dotados de visão parcial

Se a um individuo comum fosse pedida uma definição de cegueira ele certamente diria “significa não poder ver”. E isto está de acordo com a definição do dicionário de “cego” como o “sem visão” ou “destituído do sentido da visão”.
Até o momento temos discutido, neste livro, os problemas das pessoas cegas neste sentido da palavra, da pessoa que “não pode ver”. Mas, de acordo com a definição legal, há um número considerável de pessoas “cegas” que podem ler impressos comuns, distinguir uma pessoa da outra com a vista e uma nota de valor diferente da outra. Algumas até (apesar de não deverem) guiam automóvel.
Estes são geralmente os “cegos cujas façanhas espetaculares são reportadas pela imprensa, que aparecem nas colunas, ou não” por algum feito, tal como ter completado uma carreira vitoriosa na polícia militar, depois de ser graduado por uma escola para cegos. Estes são os “cegos” que frequentemente tornam os relatórios de colocação de em rego das agências para cegos tão impressionantes. Estes são os “cegos” que dificultam a descoberta de algo de preciso sobre as possibilidades de novos empregos para os verdadeira¬mente cegos, pois os relatórios apenas declaram que a pes¬soa colocada era “cega”, sem mencionar seu grau de visão. 1
O fato de pessoas com tanta visão serem chamadas cegas contribui para a má compreensão da cegueira e do que o cego pode ou não pode fazer (certamente contribui para a existência do mágico sexto sentido), por parte do público e causa confusão no trabalho com os cegos.
Entretanto, estas pessoas não se rotularam de ce¬gas; foram as organizações para os cegos que fizeram isto. E o maior mal causado pelo rótulo é feito ás próprio pesso¬as. É muito provável que quando o termo foi aplicado pela primeira vez a algum deles, ele tenha se ressentido e o rejeitado, quando, por exemplo, recebeu uma carta de uma or¬ganização para cegos, não pedindo a sua ajuda, mas oferecendo-lhe ajuda.
Quando uma criança nos limites máximo da cegueira é enviada a uma escola para cegos, sua tendência, no princípio, é de mostrar a todos que ela não é realmente ce¬ga e de rejeitar qualquer assistência desnecessária. Entre¬tanto, há um limite para as vezes que tentará explicar o seu grau de visão para o seu público. Depois, de certo tempo, qualquer que seja o resultado sobre os próprios sentimentos, ela aceitará o rótulo da cegueira e a assistência e deixa as “pessoas estúpidas” acreditarem, já que nisto insistem, que ela é cega. Que tantas crianças passem por este processo sem aparentemente danificarem sua retidão e caráter é de algum modo espantoso.
O adulto de visão parcial encontra a mesma difi¬culdade. Até a própria família não pode compreender sua “cegueira”. Para os que estão à sua volta, parece ser capaz de ver em certas ocasiões mais do que em outras, de reivindicar mais visão do que tem, a fim de blefar os vizinhos, ou menos visão para obter simpatias. Seu estado de saúde, o tempo e as condições luminosas, tudo faz uma diferença no que e no quanto ele pode ver num certo momento. Mas, como pode explicar isto se foi rotulado de “cego” — e ninguém parece constatar que ele é, na verdade, severamente deficiente, mas que não é cego? Portanto, ele sofre os distúrbios emociona¬is de uma deficiência visual severa, o qual todos conhecem rotulado como “cegueira”, mais aqueles acrescidos pelo co¬nhecimento de que não é realmente cego (mas, teme tornar-se assim, qualquer que seja a opinião médica) e, contudo esta sendo tratado como se fosse (e sente-se profundamente culpado por aceitar tal tratamento).
E finalmente, estas pessoas não se sentem à vontade com os que possuem visão porque estes não compreendem sua “cegueira”. Também não se sentem à vontade com os cegos por que estes não acreditam que tais pessoas sejam realmente cegas como eles.
É verdade que muitas pessoas com visão parcial, generosamente usam seu tempo e habilidades para servirem como guias e amigos das pessoas realmente cegas, e que a própria redução da visão os torna cônscios de muitos problemas da cegueira (Uma senhora de visão parcial é de opinião que as pessoas como ela foram postas no mundo para servirem de auxiliares para os totalmente cegos). E também é verdade que a pessoa realmente cega, frequentemente, aceita o de visão parcial como seu guia e auxiliar “natural” (muitas pessoas totalmente cegas dirão: “Mas se tirarem aqueles de visão parcial das escolas de cegos, quem servirá de guia para os totalmente cegos?” Dr. Richard E. Hoover oferece a sugestão de que esta pode ser a razão pela qual as escolas para cegos nunca atacam vigorosamente o problema da mobilidade).
Entretanto, para o observador psiquiátrico treinado, ainda que muitas pessoas de ambos os grupos afirmem que se sentem à vontade com aqueles de outro grupo, é óbvio que os de visão parcial sentem-se culpados em relação ao verda¬deiramente cego por não compartilhar de sua deficiência e este se sente cheio de ressentimentos como se aqueles estivessem agindo sob falsos pretextos (isto não é surpresa, desde que o de visão parcial que faz o verdadeiro cego sentir-se realmente frustado quando, por exemplo, ganha prêmios nos esportes para “cegos” e consegue serviço nos empregos para “cegos”).
No trabalho com as pessoas cegas supomos que nos¬sa tarefa inclua o trato tanto destas pessoas como das “re¬almente cegas”. Entretanto, geralmente, não salientamos es¬te aspecto do nosso trabalho na nossa publicidade. Podemos, ocasionalmente, mencionar o fato de que algumas pessoas ce¬gas não o são totalmente, mas de maneira tão vaga como a deixar o público pensar que nenhum dos nossos clientes pode ver mais do que sombras ou contornos. Que outra razão haverá para este fenômeno? Seria o fato de que nós mesmos nos senti¬mos confusos ao incluir pessoas que enxergam dentro da categoria de “cegos”?
Estas pessoas são deficientes, severamente defici¬entes. Precisam de ajuda e devem recebê-la. Mas, sua deficiência não é a cegueira; é visão parcial. E é injusto para eles, para aqueles que são cegos e para o público em geral, continuar a denominá-los assim. Sobretudo, não beneficia o nosso trabalho porque causa confusão no progresso do traba¬lho com o verdadeiro cego e torna uma parte do público desconfiado dos nossos apelos quando vêem pessoas que, obviamente, não são cegas, recebendo ajuda como “cegas”.
Em vista disto, parece que devemos inicialmente, esclarecer nossas próprias idéias sobre a distinta deficiência de visão parcial. Os que sofrem desta deficiência não somente vêem menos que os normalmente dotados de visão (tanto em relação à visão direta como periférica), mas em muitos casos sua visão é distorcida, tornando as formas grotescas, figuras disformes e as cores esmaecidas e manchadas.
Nos seus aspectos psicológicos, esta deficiência é de algum modo maior do que a da cegueira, pelas dificuldades em aceitá-la e interpreta-la para os outros, O quadro H oferece uma análise detalhada das perdas (ou privações) da visão parcial, comparadas com aquelas da cegueira. Enquanto as perdas da realidade são inevitáveis, as psicológicas são em grande parte resultado de serem rotuladas e tratadas como “cegas” e seriam enormemente mitigadas ou removidas se este rótulo desaparecesse e a deficiência da visão parcial reco¬nhecida como tal.

QUADRO H
PERDAS AFETANDO OS DE VISAO PARC1AL

PERDA EFEITO
1 – Integridade física. De modo algum tão severa como para o cego, exceto quando ligada à idéia de que são “cegos”.
2 - Confiança nos sentidos remanescentes. Algumas dificuldades, mas muito menos severas. Muitos continuam a usar a visão como censor.
3 - Contato com a realidade. Não a mesma perda de contrato com a realidade, mas dificuldade especial de viver num mundo deformado, oculto pela neblina.
4 - Campo visual. Redução, nenhuma perda real; pode ser muito desagradável, mas não monótono.
5 - Segurança luminosa. Nenhuma perda.
6 – Mobilidade. Algumas perdas: impossibilidade de guiar, algum perigo no tráfego, nas esca¬das, etc., mas, não a mesma perda. Tais pessoas geralmente servem como guias para os cegos.
7 - Técnicos da vida diária. Relativamente muito menos severa.

8 - Facilidade de comunicação escrita. Alguma “facilidade” perdida, mas não a possibilidade dela, Auxílios ópticos para visão baixa, recentemente aperfeiçoados, estão ajudando muito.
9 - Facilidade de comunicação falada. Perda não muito grande, exceto em reuniões, assembléias, etc., ou na impossibilidade de reconhecer amigos e paren¬tes.
10 - Progresso informativo. Diminuído, mas não perdido.
11 - Percepção visual do agradável. Muitos podem ainda ver com relativa nitidez muitos objetos, cuja percepção traz prazer.
12 - Percepção visual do belo. Distorções e limitações, mas não perda completa.
13 – Recreação. Alguma perda, mas muito pequena em comparação com a do cego.
14 - Carreira, etc. Perda severa. Algumas oportunidades de emprego e possibilidades de melhoria completamente perdidas. Mas, de maneira alguma tão limitadas como para o cego - exceto quando intimidado pelo rotulo de “cegueira”.
15 - Segurança financeira. Não tem as mesmas despesas, mas certamente não é seguro financeiramente. Deveria permanecer como candidato, quando necessária a Ajuda aos Deficientes Totais e Permanentes (Aid to Totaliy and Permanently Disabled).
16 - Independência pessoal. Independência da realidade não tão grandemente afetada. Se houver sentimentos de dependência será devido, em grande parte, ao rótulo de cegueira.
17 - Adequação so-cial. Perdas maiores devidas principalmente ao falso rótulo.
18 – Obscuridade. Pequena ou nenhuma - fácil de “passar”.
19 – Auto-estima. Perda na auto-estima severa, mas menor. Na auto-imagem, impossível de comparar.
20 – Organização da personalidade global. Quando grandemente afetada, devido principalmente ao rótulo de “cegueira” e di¬ficuldade em aceitá-la.

O ideal seria que a educação de crianças com visão parcial fosse inteiramente não segregada, exceto por “auxílios especiais” e “consultores para ajudas especiais”, disponíveis nas escolas para estas crianças, formando um grupo distinto do das crianças cegas. A reabilitação das pessoas atingidas por esta deficiência na fase adulta é, na ordem da realidade, uma questão principalmente de ensiná-las o melhor uso possível da visão remanescente. Apesar de nenhum programa ter sido traçado até o momento é claro que este deverá ser completamente distinto e separado daqueles para os cegos.
Reabi1itação vocacional para pessoas com visão parcial deveria ser da competência das organizações gerais pa¬ra reabilitação mais do que das especificas para cegos. E de fato, as organizações gerais deveriam estar aptas para um serviço melhor desde que sua tarefa não fosse embaraçada pelas reações emocionais dos empregados à palavra “cego” (e com as associações para reabilitação vocacional do cego restringindo seus trabalhos àqueles que realmente são cegos. Estes também terão melhor oportunidade para encontrar oportu¬nidades de emprego).
Assistência social, auxílios recreativos, e muitos outros serviços que podem ser de necessidade em alguns ca¬sos, também podem ser oferecidos aos de visão parcial por uma organização geral em vez de urna especial para cegos. No momento em que a visão parcial começar a ser considerada e tratada como uma deficiência distinta, as pessoas portadoras de tal deficiência deverão ter com as associações para cegos apenas os mesmos contatos que tem os dotados de visão, - não como um cliente, mas como contribuidor ou voluntário e poderão tornar-se nossos melhores voluntários.
Tal mudança em nossa prática atual está ligada à necessidade de procurar formular uma nova definição legal de cegueira. Apesar desta ser quase geralmente aceita neste país, algumas vozes já começaram a se levantar contra seus efeitos ilusórios e prejudiciais 2; dois comitês, presentemente, estudam a atual definição.
Há necessidade de uma definição exata da cegueira, que deve incluir também aqueles que recebem um pouco de luz, mas “não podem ver”. Uma nova definição mais de acordo com a noção comum e geral sobre “cego” e com as realidades da situação, precisaria surgir como resultado de consultas entre os mais notáveis oftalmologistas, os que se dedicam ao trabalho com o cego, pessoas totalmente cegas, e os de visão parcial e peritos no campo de conservação visual. Nesta nova definição, parece que a perda do campo inferior da visão deveria ser considerada como muito mais prejudicial do que aquela do campo superior, e os prognósticos também deveriam ser levados em conta. Acima de tudo um esforço deveria ser feito para basear a nova definição na eficiência da visão mais do que na acuidade.
Ao mesmo tempo, alguma definição dos limites da visão parcial, como uma forma distinta de deficiência incapacitadora deveria ser conseguida para que os adultos neces¬sitados de auxílio pudessem recebê-lo sob a “4ª categoria” do Federal State Releef, AID T0 THE PEflMANENTLY AND TOTALLY DISABLED” e não como atualmente, através do AID T0 THE NEEDY BLIND.
Uma mudança tão radical dos nossos costumes atuais deveria ser feita, naturalmente, de maneira gradativa, a fim de não perturbar os indivíduos nela envolvidos. Para os de visão parcial, atualmente recebendo nossos serviços, po¬deria ser opcional continuar conosco ou serem transferidos para uma organização de caráter geral. Mas as pessoas que nos procurassem pela primeira vez, tão cedo a mudança fosse realizada, deveriam ser imediatamente encaminhadas para uma organização geral, evitando assim serem designadas com o rótulo da “cegueira”.
Podemos esperar gratidão por parte de alguns daqueles que possuem visão parcial e que foram libertados deste estigma, mas de outros somente ressentimentos, visto que, finalmente, tendo racionalizado sua aceitação do rótulo, lhes pareça uma afronta ser dito que realmente não são cegos.
A mesma reação pode ser esperada de alguns funcionários de organizações, os quais durante anos vinham convencendo ao público e a si mesmos da validade da atual definição. Aceitar a idéia de que esta não é justa e não satisfaz aos interesses daqueles que até então vinham ajudando, não será fácil.
Muitas instituições passarão por grandes proble¬mas para alcançarem tais mudanças. Nosso custo unitário elevar-se-á se uma organização usando o mesmo número de funcionários e o mesmo prédio servir exclusivamente aos verdadeiros cegos. Nossos apelos públicos poderão, no inicio, não produzir os mesmos resultados, e no caso de organizações estatais, as verbas podem ser cortadas quando o número de pessoas com visão parcial não mais se acrescentar ao dos cegos, em nossa estatística de pessoas atendidas. Se dependemos de nossos clientes com visão parcial para auxiliarem como guias dos cegos, etc. precisamos fazer novos arranjos ou descobriremos que nossas despesas estão aumentando.
Entretanto, há tanto e tão variado trabalho a ser feito pela pessoa verdadeiramente cega que, no fim, com um programa inteligente de educação para o público, não teremos necessariamente nosso trabalho diminuído ou nossas finanças seriamente afetadas. Mas, mesmo que isto aconteça muitos de nós estarão dispostos a sofrer qualquer inconveniência pelo bem do maior serviço que poderão oferecer ao cego e ao de visão parcial, não o tratando como cego e porque nossas organizações serão as melhores para eles.

NOTAS DE RODAPÉ
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1 -Uma exceção digna de nota é VA Pamphlet 7-10, Occupations of Totally Blinded Veterans of World War II and Korea.

2 - Ver “A New Look at the Definition of Blindness” por Richard E. Hoover MD., em Proceedings AAWB, 1957.


CAPÍTULO 24
PROBLEMAS ESPECIAIS APRESENTADOS PELO PROGNÓSTICO

1 - Preparando para a cegueira

A todo técnico especializado, com bastante experiência, já foi feita a pergunta: “O que pode ser feito com uma pessoa que de repente sabe pelo médico que ela sofre de uma moléstia ocular incurável e que inevitavelmente vai fi¬car cega? Como você o prepararia para a cegueira?”.
Está claro que não há um programa que pode ser recomendado a todo aquele ameaçado com a perda da visão — o temperamento do indivíduo e as circunstâncias, caso o prognóstico seja de acometimento de uma cegueira repentina ou gradual e o tempo que levará tudo isto fará uma grande diferença naquilo que seria desejável ou prático. O que se se¬gue, portanto tem a intenção de apresentar somente sugestões bem gerais.
Muitas pessoas julgam que em tais circunstâncias seria aconselhável aprender o Braille. Porém, é quase impossível para a pessoa dotada de visão aprender o Braille pelo tato, como deve ser aprendido e a pequena vantagem que ela poderia obter com o conhecimento do Braille antes da cegueira, seria mais do que perdida, pelos efeitos emocionais traumáticos. O Braille é o símbolo da cegueira, e exceto em circunstâncias muito especiais não deve ser aprendido até que a pessoa fique cega.
Outra idéia generalizada é que ajudaria se ela entrasse em contato com pessoas cegas. Muitas pessoas ameaça¬das com a perda de visão tornam-se, por exemplo, voluntári¬as em associações que trabalham com cegos (como se seguissem a ordem “faça para você amigos não riquezas da iniqüidade, por que se você falhar eles poderão aceitá-lo...”). Ao lado das questões da sua acomodação emocional quanto ao trabalho do voluntário, trata-se de política muito pobre a destas pessoas se identificarem desta maneira com indivíduos cegos ou associações. Eles simplesmente provocarão em si mesmos novos distúrbios emocionais, ou fazem desta atividade um meio de evitar o desenvolvimento daquilo que, nas citadas circunstâncias seria um padrão emocional normal, interferindo desta maneira, e não colaborando para uma preparação à cegueira.
Outra idéia, a de “ver tudo o que pode ser visto enquanto há tempo”, pode ser aceita se for devidamente entendida. Se se trata de uma série de excursões repletas de emoções mórbidas, ou saciando simplesmente o sentido da visão, ou se com certeza implica em satisfazer uma necessidade de ver, não faz sentido e tornaria a aproximação da cegueira ainda mais perturbadora. Porém, se uma pessoa planejou a vida inteira ver determinados lugares ou determinadas obras de arte e se ela tiver um equilíbrio emocional suficiente para viajar e apreciar tudo isso, com um conhecimento claro de que a incidência da cegueira não significará o fim de todo prazer e deleite, então certamente, deverá ser estimulada a fazê-lo.
Sugere-se, outrossim, que a pessoa deve ler a respeito de pessoas cegas, principalmente histórias de criaturas que de uma maneira ou de outra foram bem sucedidas superando sua deficiência e conseguindo fazer coisas notáveis. Aqui também, os efeitos emocionais seriam em muitos casos, mais perturbadores do que construtivos.
A leitura geralmente mais útil seria um material relativo aos sentidos humanos para se obter um conhecimento mais completo possível do potencial e das limitações de cada um. Em alguns casos, pode ser útil obter e ler material concer¬nente ao seu tipo especial de trabalho ou um interesse particular, material este que seria mais difícil de assimilar depois da incidência da cegueira.
Repetindo, tal indivíduo poderia muito acertada¬mente começar a treinar seus outros sentidos, alertando a si mesmo quanto às informações que estes lhe proporcionam e avaliando-as através dos obstáculos que ele ainda pode obter com a visão. Pode também aprender sozinho ou tomar um curso de datilografia, caso ainda não tenha esta habilidade. Isto não ocasionaria os efeitos traumáticos do aprendizado Braille e o capacitaria a continuar com a comunicação escrita mesmo depois da cegueira, e sem praticamente uma interrupção.. Outras pessoas poderiam também ser aconselhadas a praticar e aperfeiçoar um tipo de esporte ou passatempo, ou outra forma de recreação que poderiam levar avante, com a cegueira.
Em muitos casos, também seria desejável, antes da incidência da cegueira, se fazer uma mudança no tipo de trabalho que seria difícil de continuar, por um mais fácil de conservar após a reabilitação. Por exemplo, a secretária-estenógrafa que executa suas obrigações e outras tarefas que implicam essencialmente no uso da visão, poderiam transferi-lo para um trabalho apenas de datilografia e atividades similares, não visuais, O advogado num ramo que exige um con¬siderável. emprego da visão, deve tomar as devidas medidas a fim de se transferir para outro setor; o mesmo com o médico - na clínica geral ou em alguma especialização que exige a visão poderia aproveitar o tempo que antecede a cegueira para um treinamento especializado em administração médica.
Poucas pessoas são capazes de conseguir ir além destas mudanças e planos a fim de melhorar sua segurança financeira antes da incidência da cegueira. Alguns poderiam, en-tretanto, mudar seus planos que envolvem despesas desneces¬sárias ou fazer planos de um equilibrado orçamento domésti¬co.
Durante tal período de “preparação” à cegueira, os problemas principais serão, é claro, os psicológicos. Caso eles possam ser considerados como superáveis, a pessoa inteligente recorrerá à ajuda de especialistas, antes cedo do que tarde, - ou procurando a orientação de um psiquiatra, o, se os problemas não forem tão graves, a uma associação dentro da comunidade familiar, a fim de providenciar serviço de assistência social. Para alguns, a depressão e o medo durante este período é tão grave que pode originar tendências suicidas. É lógico que qualquer indício neste setor exige uma urgente assistência profissional.
Alguns técnicos especializados sentem que sua experiência neste campo os preparam para a eventualidade de¬les perderem a visão. Pessoalmente não penso o mesmo a meu. respeito. Acredito até que se algo acontecesse comigo em relação às boas condições da minha visão, eu seria um cego bastante medroso e desamparado. Espero, contudo que estaria pronto a aceitar a ajuda psicológica que me seria tão necessária.

2 - prognósticos e reabilitação.

Todos os que trabalham no campo da cegueira deveriam possuir um conhecimento perfeito da distinção que há entre o prognóstico médico (objetivo) atual, e o próprio prognóstico (subjetivo) do paciente. Embora o médico tenha exposto claramente seu prognóstico, e o paciente pareça tê-lo aceito, este pode ter se firmado num prognóstico bastante dife¬rente. O médico pode ter-lhe dito que não se preocupasse com a sua vista e o paciente pode estar ainda convencido de que está se encaminhando para a cegueira total. O médico pode tê-lo prevenido de que com toda certeza vai perder a vista dentro de certo tempo e o paciente confia que conservará o atual nível de visão. O facultativo pode ter dito a um indivíduo completamente cego que há esperanças de que ele recuperará a visão e o paciente não acreditar. Ou o médico pode afiançar de que não há tratamento capaz de restaurar sua visão e o paciente ainda continua se aferrando às falsas esperanças.
Nas duas primeiras partes do livro consideramos os problemas de criaturas cegas e cujas advertências medicas os prevenira de que não havia esperanças de sua vista melhorar ou ser restituída. O dever da reabilitação aqui é o de ajudá-lo a aceitar o veredicto com tudo o que ele acarreta, de atravessar os períodos de “choque” e de tristeza e começar a construir uma nova vida. Quando o paciente está aferrado às falsas esperanças de melhora, uma parte de nossa obrigação é ajudá-lo a reconhecer o fato de que estas esperanças são falsas.
Porém o problema se torna ainda muito mais difícil quando a cegueira está prosseguindo sem ser, contudo, completa. Um dos treinandos do St. Paul, por exemplo, apresentando uma condição de deteriorização dos olhos e um prognóstico de uma eventual perda completa da visão, estava tão preocupado com a batalha que travava entre o medo e as falsas esperanças que tinha grandes dificuldades com o programa da reabilitação. São suas palavras: “Sinto como se fosse onze horas e que deveria ser executado à meia noite. Porém, continua sendo sempre onze horas”. 1.
Um prognóstico contendo, quaisquer esperanças, embora fracas, também bloqueia o processo de reabilitação. Um homem que, durante os anos de guerra, havia perdido uma grande parte de sua visão, passou por um período de muitos meses durante os quais os médicos procuraram, por meio de operações, uma chance desesperadora de conservar o que restava e talvez restaurar ainda um pouco mais. Durante este período, tornou-se extremamente difícil se trabalhar com ele. Depois, porém, após a última operação e quando os médicos constataram ser impossível salvar o pouco de visão que restara e que já não havia mais esperanças, ele começou seu treinamento de reabilitação e é agora uma pessoa grandemente bem sucedida, equilibrada.
Quando o prognóstico è bom e prevê a restituição da visão depois de um certo tempo, não se apresenta vantagem em tentar um treinamento de reabilitação. Algumas vezes, por exemplo, o médico enviará o paciente para um centro de reabilitação durante certo tempo enquanto ele aguarda que as condições do olho sejam favoráveis para um transplante da córnea. Tal treinando, embora completamente cego durante este período de tempo, não pode fazer progressos na reabilitação, já que não precisa aceitar o fato de uma cegueira permanente.
Por conseguinte, em geral, uma pessoa só deveria ser admitida no treinamento da reabilitação somente depois de alguma alteração esperada ter-se concretizado, devem ser feitas exceções nos casos em que a visão regride gradualmente durante um longo período de tempo ou quando uma possível operação para a recuperação da visão é para ser ultimada em uma data indeterminada.
Tanto social como economicamente, em tais circunstâncias as pessoas não podem prolongar a reabilitação, indefinidamente. Porém, no momento em que forem aceitas para o treinamento, o grupo precisa sempre estar ciente das difi¬culdades adicionais que tais casos apresentam.
Sob qualquer aspecto, a reabilitação precisa levar em consideração tanto o prognóstico do treinando como o do médico, e se valer da orientação psiquiátrica sempre que o caso exigir.

NOTAS DE RODAPÉ
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1 - Stewart P. Smith, M.D. apresenta as implicações psiquiá¬tricas como “a iminente sombra da morte”.-


QUARTA PARTE
TRABALHOS ORGANIZADOS PARA OS CEGOS


CAPÍTULO 25
INSTITUIÇÕES E ORGANIZAÇÕES


1 - Pontos de vista


O ponto de vista fundamental ou “filosofia da cegueira” que anima e dirige tanto o trabalho como os técnicos é a questão básica para qualquer serviço organizado para os cegos. Se a cegueira for considerada uma deficiência tão sobrepujante que nada pode ser feito exceto suavizar a sorte das pessoas cegas, então, a única solução possível é a segregação para educá-las para o trabalho, a diversão e o seu a¬lojamento. Porém, se a cegueira for considerada uma deficiência grave e múltipla, sendo possível de ser tratada a ponto de tornar a vida e o trabalho os mais normais possíveis, então os nossos esforços devem ser dirigidos no sentido de sua integração na sociedade dos que enxergam.
“Segregação” é uma palavra que se tornou pesada. Em nossos dias, poucos americanos, fora de certas áreas historicamente prejudicadas, desejam estar colocados diante de uma posição que aceite a segregação de qualquer espécie. Aqueles entre nós que se opõem a segregação dos cegos têm que admi¬tir que o emprego deste termo aumenta o calor em vez de clarear a discussão. Entretanto, “segregação” e “integração” são as palavras aceitas e nos parecem serem as únicas disponíveis para identificar as duas filosofias existentes, as atitudes e os métodos de trabalho com as pessoas cegas.
A segregação, como método de tratamento de pessoas cegas, tem a seu favor o peso da história. Repetidamente, no passado, os cegos têm sido agrupados com a finalidade de treinamento ou para emprego; “asilos”, institutos e escolas foram a origem de alguns dos maiores progressos para o tra¬balho com cegos. E a filosofia da segregação ainda atua hoje no trabalho com cegos. Existem aqueles que mesmo em associações profissionais continuam recomendando o estabelecimento de “oficinas de treinamento”, e outros que optam por outras modalidades de atividades segregadas, frequentemente disfarçadas sob a expressão atualmente popular de “trabalho em grupo”.
Procuraremos, portanto, da forma mais objetiva possível, indicar os argumentos ainda invocados a favor da segregação e, em seguida, tentaremos demonstrar porque, muito embora tivesse sido no passado necessário e até benéfico, não o é mais no dias atuais, quando o progresso no trabalho para o cego reside na direção da integração.
A segregação tem-se dito, é a maneira mais econômica de tratar os problemas da cegueira, econômica e financeiramente porque é sempre mais barato e mais fácil de construir e manter instituições e prédios para os trabalhos do que proporcionar serviços dentro da comunidade espalhada numa área maior. E é também econômico do ponto de vista dos serviços. Menor tempo é empregado pelos nossos especialistas, em condução, se podemos reunir todos os pacientes num só ponto. E ainda mais, a segregação torna mais fácil a intensificação dos nossos serviços, com a reunião de muitos cegos em um só local, temos uma melhor oportunidade de convencer os voluntários em potencial — assim como os benfeitores potenciais — do valor dos serviços que estamos proporcionando.
Diz-se ainda que deve existir entre pessoas cegas que estão competindo numa sociedade dotada de visão, os sentimentos de frustração e tensão, pois, têm contra si, as desvantagens em grande número armazenadas, acrescidas ainda, segundo se diz, que a cegueira compartilhada dá ao cego a oportunidade de se fortalecer numa situação em grupo, resultando daí a diminuição do seu impacto. Ou então, ouve-se com freqüência que somente um cego pode verdadeiramente entender outro, “Pessoas videntes nunca podem verdadeiramente compreendê-los”. “Deixem que fiquem juntos, como eles assim o desejam. Algumas pessoas com visão podem compreender a deficiência e estas deveriam ser colaboradores nos institutos segregados para os cegos, Então, os cegos encontrariam algo de uma felicidade em seus companheiros cegos e naqueles poucos colaboradores compreensivos, como também adquiririam algum treinamento”.
As pessoas cegas não são desejadas na convivência daqueles que enxergam, argumenta-se. “Elas compreendem que não são desejadas e, portanto, serão sempre infelizes em qualquer situação com.” Ou então, diz-se que a colocação de cegos em convivência com os videntes, conduz somente à situação de serem mimados, como por exemplo, a colocação de uma criança cega em uma escola de crianças com visão. “A pes¬soa cega estará melhor entre pessoas que não se impressionam com sua deficiência e por conseqüência não irão aborrecê-la”.
Argumenta-se ainda que numa situação de segregação, onde muitos cegos se encontram juntos, a pessoa cega aprenderá não só pela observação do que os demais estão fazendo, como também ficará inspirada a exercer um maior esforço para suplantar sua deficiência e a tornar-se uma pessoa normal.
Não se está sugerindo aqui, que a única força promotora da segregação venha de fora, de organizações de profissionais que enxergam ou do público vidente em geral.
Realmente, como já vimos anteriormente, a segregação do cego, como qualquer outra forma de segregação, possui um ímpeto de dentro e de fora. Existem de fato, pessoas cegas que somente se sentem à vontade com outras pessoas cegas. Existem aquelas que sentem que somente podem competir para emprego com outros cegos. Outras há que não só procuram emprego, mas também alojamento e recreação entre os cegos (Isto particularmente é verdadeiro, e com boas razões, pois as pessoas que tendo vivido em escolas residenciais para cegos, formaram suas amizades e conviveram com cegos, não tendo tido a oportunidade de fazer amizades entre as pessoas de visão). Mas, isto não quer dizer que devemos aceitar e muito menos endossar esta situação. Temos que admitir que a história tenha demonstrado que a segregação, no passado, trouxe certos benefícios a certos grupos. Talvez mesmo a segregação tenha sido um estágio necessário no progresso do trabalho com os cegos. Mas o fato de que segregação tenha sido o único método prático de tratamento dos cegos, em certas situações do passado, de forma alguma vem provar ou mesmo aventar que devemos nos restringir a este método nos dias atuais.
A segregação em função de técnicas e custos é, sem dúvida, o método mais econômico de tratar com o cego. Porém, se é realmente econômico sob o ponto de vista de resultados é o que deve ser considerado. Muitos de nós acreditam que os resultados de um programa integrado até agora superam aqueles de um programa segregado, ao ponto desse se tornar, em muito casos, anti-econômico. Se de um lado é verdadeiro que a reunião de pessoas cegas em um só local possa influenciar fortemente um grupo de pessoas dotadas de visão, existe um real perigo que esta influência seja contraproducente aos objetivos finais. Isto pode impressionar e resultar em maiores donativos, mas impede de mostrar ao público a “normalidade das pessoas cegas”, não importando o tipo de publicidade usado.
Quanto ao argumento de que as pessoas cegas por si mesmas procuram a segregação, os motivos já foram discutidos anteriormente. A solução está não tanto em concordar e daí aumentar o desejo de segregação, mas sim em ajudar as pessoas cegas de todas as formas para que não sintam a necessidade de escapar da sociedade como eles a conheciam. É também verdade que uma sensação de força deriva de uma situação em grupo, quando esta é controlada e aceita como temporária. O perigo reside na possibilidade de que este sentimento de força se deteriore num estado de “a miséria adora a convivência”, esvaindo o vigor do individuo e substituindo-o por uma dependência no grupo. Além disso, a segregação tem o terrível e infeliz resultado de construir sentimentos de minoridade. Aumenta hostilidades de grupo ao invés de diminuí-las (como pode acontecer numa situação de terapia de grupo) e, em casos extremos, conduz ao estado de quase paranóia de grupo.
Quanto às tensões e frustrações resultantes da com petição com as pessoas que enxergam, devemos compreender que apesar de existir uma parcela de verdade nisto, não é toda a verdade. Devemos considerar o fato de que uma tensão ainda maior e frequentemente um dano á verdadeira personalida¬de, pode resultar do fato de se fugir da competição.
Não importa quão completa possa parecer a felicidade das pessoas cegas numa situação de segregação, têm elas e não podem deixar de ter um sentimento subjacente contra esta situação que as desliga da oportunidade de escolha de amigos e companheiros, que a sociedade dotada de visão pode proporcionar-lhes. A segregação despoja as pessoas cegas de todos os meios de relações inter-pessoais normais e de experiências compensadoras; por sua própria natureza ela conduz, forçosamente, a uma diminuição de satisfação em todos os setores.
Se as pessoas cegas não são verdadeiramente bem aceitas nos círculos sociais dos videntes, a solução está em fazer algo em benefício de ambos. Particularmente em relação aos últimos, a segregação é um mal. Como poderemos almejar a educação do público a respeito da cegueira e das pes¬soas cegas se as mantemos como um grupo à parte? Com respeito às relações e educação do público este método de tratar do problema da cegueira não nos leva a nenhum lugar, uma vez que está calculado a promover a noção, já por demais predo¬minante, de que os cegos são de forma vaga e inalteravelmente “diferentes”.
Certamente, é verdade, que somente as pessoas ce¬gas possuem um conhecimento, por experiência própria, da cegueira e, portanto a verdadeira compreensão do seu significado. Isto, no entanto, não exclui a possibilidade das pessoas que enxergam poderem ser educadas de forma a alcançar uma compreensão intelectual da cegueira e de algumas conseguirem atingir aquele interesse que é de tanta importância, Realmente, em certos casos a pessoa cega pode se beneficiar da objetividade e do desprendimento de um técnico dotado de visão capaz, e em outras situações do reconhecimento emocional do técnico sobre o impacto total da cegueira.
Certamente já vimos casos em que grupos de pessoas com visão confundidos nos seus próprios sentimentos emocionais sobre a cegueira estavam prejudicando as pessoas cegas (crianças e adultos). Mas, a solução não é colocar as pessoas cegas aonde não possam ser prejudicadas, mas esclarecer o público de tal forma que este não mais as prejudique.
Finalmente, com relação ao problema da aprendiza¬gem em grupo, sempre existe o perigo de se estar preparando para um mundo de cegos, em vez de para um mundo de visão, aprendendo a fugir mais do que a enfrentar a realidade, Os resultados da aprendizagem podem ser então mais prejudiciais do que benéficos ao indivíduo. E da mesma forma, com relação à inspiração a ser recebida de outros dentro do grupo: ainda que haja verdade nisto, outro método que não a segregação, pode conseguir o mesmo resultado, quer seja usando vários, meios de comunicação para educar o indivíduo cego sobre os sucessos e atitudes de outras pessoas cegas, quer trazendo-os para o contato com outros indivíduos cegos que podem dar a eles o mesmo que o grupo, sem todos os inconvenientes da situação de grupo segregado.
A segregação, portanto, não parece ser a solução adequada e necessária para os problemas da maior parte das pessoas cegas. Pode ser a única solução disponível, no presente, ao menos para aqueles que possuem além da cegueira outras deficiências. Os retardados mentais, por exemplo, não serão capazes de viver numa sociedade de visão, de trabalhar numa indústria com os dotados de visão, de serem treinados em ambientes de pessoas que enxergam. Ou então, aqueles com graves deficiências físicas adicionais, particularmente surdez ligada à cegueira, podem nas circunstâncias presentes necessita¬rem da proteção da segregação. Eventualmente, progressos su¬ficientes podem ser feitos na direção da integração, de tal modo que muitos deste grupo podem livrar-se desta necessidade.
Quando uma pessoa idosa sente que não pode enfrentar a dupla carga da velhice e cegueira, somos incapazes de sobrepujar esta situação e possivelmente o oferecimento de serviços extras em condições segregadas, pode ser necessário. Mas mesmo atualmente, é encontrada uma resposta mais adequada nos lares para velhos do que nos lares segregados para os cegos idosos.
Aqueles deficientes por severas dificuldades emo¬cionais que possuem sentimentos neuróticos s3bre a sociedade e sobre os perigos que os ameaçam no mundo da visão, podem ou não serem ajudados por uma segregação temporária, enquanto tentam sobrepujar estas dificuldades.
E, finalmente, para o cego recente, a segregação temporária durante a situação de treinamento pode ser de assistência, se esta condição de temporalidade estiver sempre em mente. Mas, é da maior importância que recreação de grupo no centro seja desencorajada, que um limite de tempo seja estabelecido a fim de que se saiba que é temporária, e que se reconheça que a finalidade da segregação é obter integração quando o tempo limite for alcançado. (Certamente, este raciocínio contra a segregação não se aplica de modo algum à formação de organizações para cegos, cujos objetivos são aqueles de reuniões periódicas para alcançar o maior progresso no campo de trabalho com o cego, e para proteger seus direitos na legislação vigente, ou na proposta).
A segregação, então, enquanto não pode ser totalmente eliminada, deve ser limitada cada vez mais. Segregação é uma rendição e uma fuga, quer é o ímpeto em direção a ela venha do cego, dos funcionários com visão ou das organizações para cegos. É uma rendição às dificuldades da cegueira, ma¬is do que uma conquista das mesmas. É uma fuga da sociedade dotada de visão, e — da parte dos que enxergam como da dos cegos — é uma fuga da realidade do mundo em que vivemos, é uma fuga da vida e do reconhecimento de nossos sentimentos acerca da cegueira.
Quando o ímpeto para a segregação vem de organizações para cegos, manifesta uma falta de confiança na sua habilidade para integrar a pessoa cega é uma falta de confiança na capacidade íntima da pessoa cega para integrar-se. Fre¬quentemente, as organizações não estão agindo tanto de acordo com seus sentimentos mais íntimos, visto que ainda não examinaram seus próprios sentimentos, como de acordo com o precedente histórico. Mas este precedente nasceu da impressão de ser inútil procurar integrar o cego (exatamente como agora dizemos que em certas circunstâncias é inútil procurar integrar certo grupo de pessoas com dupla deficiência).
Em todo caso, enquanto no passado a segregação do cego para muitos fins podia parecer o melhor ou o único modo de lutar contra uma situação praticamente desesperadora, atualmente, com os progressos 1 feitos nas últimas décadas, tornou-se uma maneira derrotista de lutar contra uma situação potencialmente esperançosa. Chegamos a um nível de desenvolvimento no trabalho com o cego, no qual o nosso único progresso real deve vir da integração das pessoas cegas numa comunidade dotada de visão. A dupla meta das organizações para cegos, de hoje em diante, deve ser de restituir às pessoas que ficaram cegas o seu lugar certo na sociedade dos dotados de visão, e educar esta sociedade para que aceite a pessoa cega ajustada sem ser oprimida pelos seus próprios receios e sentimentos.

2 - Oficinas de trabalho especiais para os cegos.

Entre as instituições para os cegos, o público está talvez mais consciente das escolas especiais, que contribuíram tanto para o progresso no trabalho com o cego. Já discutimos estas escolas quando tratamos das necessidades educacionais da criança cega. A outra instituição para cegos mais geralmente conhecida é oficina de trabalho, apesar de o público estar vagamente a par das diferentes espécies de oficinas, sua natureza e finalidades.
Historicamente, o trabalho organizado para o cego fez grande uso de tais centros especiais classificados sob o nome geral de “oficinas protegidas”, visto que a intenção da maioria era, de fato, de proteger as pessoas cegas contra a competição direta pessoa—contra—pessoa, existente nos empre¬gos comuns no mundo cotidiano. Mas outras foram organizadas, com a intenção muito diversa, de servir como trampolim para outros empregos. Este tipo de oficina era destinado a ser um centro de treinamento no qual as pessoas cegas eram recebidas como aprendizes até estarem preparadas para empregos em indús¬trias regulares.
Quando estas oficinas de treinamento foram organizadas pela primeira vez constituíram um passo à frente — que era de grande importância e cheio de promessa. Pois, reconheciam o fato de que as pessoas cegas necessitam de treino especial e de que sendo treinadas apropriadamente teriam emprego regular. Sobretudo, o treinamento era dado, no mínimo, em circunstâncias de empregos simulados. Levando-se em consideração a atitude daqueles tempos em relação ás pessoas cegas e à cegueira, o estabelecimento de tais oficinas era um ponto de partida novo e cheio de esperanças (na verdade, nos chamados “países mais novos” atuais, eles podem ter um valor similar).
Mas, a maioria destas oficinas não procurou distinguir entre cegueira congênita e adquirida. Desde que as possibilidades de emprego eram tão limitadas dentro do clima público daquele tempo, eles podiam dar pouca consideração à prévia educação, treino ou experiência de seus clientes. Mas a maior dificuldade, em muitos casos, era a de tornarem-se não apenas em centros de treinamento para que tinham sido destinados, mas também centros regulares para em¬prego contínuo. Em vez de dispensar os clientes que não podiam colocar, mantinham-nos como empregados permanentes.
Dois caminhos podem ser seguidos em tal situação: um é de conservar, para o bem da oficina, não só aqueles que não podem ser empregados, mas também os mais capazes que podem achar outros empregos; o outro é de continuar a colocar os mais capazes em trabalhos regulares. Mas, então, a oficina em breve terá um núcleo permanente de trabalhadores menos capazes. Novos clientes, capazes ou não, são treinados numa atmosfera necessariamente impregnada da impossibilida¬de de emprego deste grupo permanente. Em pouco tempo a oficina torna-se tão orientada que não treina mais para empregados regulares em indústrias ou outros serviços externos; treina para ambientes protegidos exclusivamente.
Existe, certamente, alguma necessidade de oficinas protegidas que são destinadas unicamente a esta finalidade. Mas, mesmo que eles possam manter sua finalidade original, o que é praticamente impossível, não terá nenhuma utilidade hoje em dia. Os adultos que ficam cegos — a grande maioria com experiência de trabalho — precisam ser inicialmente treina¬dos para a cegueira. O centro de reabilitação é, portanto, o sucessor atual da oficina de trabalho, como planejada originalmente. E quando a pessoa necessita treinamento especializado para um novo tipo de trabalho, industrial ou não, como já vimos, ela o recebe mais efetivamente numa escola comum, ou num curso para aquele tipo de trabalho.
O cego congênito e outros que nunca tiveram experiência de trabalho antes da cegueira, formavam o grupo que mais utilizava as antigas oficinas de treinamento. Algumas pessoas ainda acham que há necessidade de oficinas especiais de trabalho para os graduados nas escolas para cegos. Mas como vimos antes, isto é um insulto às escolas residenciais, O que é preciso, não é novo treinamento segregado, mas conselhos especiais para ajudar tais jovens a fazerem a dupla adaptação à vida adulta e à vida numa sociedade dotada de visão. Se treinamento especial, profissional ou industrial ou de qualquer outro tipo for necessário, deve ser obtido na própria instituição educacional para os que enxergam.
Mas, o problema aqui parece centralizar-se naqueles graduados pelas escolas para cegos que têm, de um modo ou de outro, capacidade intelectual abaixo da média e, portanto, são possíveis candidatos permanentes às oficinas protegidas.
A chamada oficina protegida é um centro para o em¬prego permanente de pessoas cegas incapazes de competir com os que enxergam. Os trabalhadores não são efetivamente empregados, mas clientes de instituição que opera com a oficina, que é necessariamente subsidiada pela instituição. A finalidade é de manter seus clientes ocupados e de provê-los com alguma renda.
Como vimos, há um lugar para estas oficinas protegidas em conexão com o tratamento das pessoas retardadas. Também podem ser necessárias para o grupo daqueles que seriam os “subempregados” nos trabalhos regulares se tivessem visão e, também para alguns que estivessem um pouco acima do nível do subemprego. Por um lado, estes serviços são quase que completamente vedados aos cegos e, por outro lado, a cegueira requer da pessoa “algo extra” para competir. “A própria palavra ‘‘deficiência” sugere isto. Mas, há um número de cegos, como de pessoas de visão, que não têm este extra e assim, muitas vezes, devem ser incluídas entre os incapazes com relação a certos empregos. Para este tipo de pessoa o centro de proteção pode preencher uma necessidade real.
Outro grupo que deve ser considerado é o das pessoas que ficaram cegas às quais alguma deficiência adicional produz uma baixa tolerância ao trabalho. São capazes de trabalhar numa indústria apenas meio período, mas não podem ser colocadas. Mas, se for possível uma escolha, mesmo estas pessoas não deveriam estar numa oficina protegida para cegos, mas numa destinada à outra deficiência que produz esta intolerância ao trabalho.
Portanto, se a oficina de trabalho for mantida deveria ser honestamente reconhecida e recomendada pelo que é: não uma “oficina de trabalho para o cego”, mas uma solução especial para aquele grupo de trabalhadores marginais cuja incapacidade para encontrar emprego no mercado de trabalho dos que enxergam é, simplesmente, devida ao fato de que são “marginais”. No momento, infelizmente, muitos destes centros, como aqueles que combinam características de proteção e de “produção”, abrigam muitos trabalhadores capazes, que numa situação ideal, nunca seriam aceitos neles.
O terceiro tipo, oficina de produção, é aquele que eliminou muito da “proteção” encontrada na estritamente chamada oficina protegida, um centro para emprego segregado de cegos que, de fato, são capazes de manter posições em indústrias externas. Não pode se permitir o luxo de aceitar os trabalhadores cegos menos capazes, visto que estão compe¬tindo com indústrias normais: seus trabalhadores não são clientes, mas empregados que ganham salários. Tal centro não é subsidiado, mas opera com lucros, ou no mínimo com oportunidades iguais.
Mas, a oficina de produção protegida raramente existe neste estado simples. Em muitas comunidades encontram-se oficinas que procuram ser ao mesmo tempo, oficinas de treinamento, oficinas protegidas no sentido restrito, e centros de produção. Pode-se encontrar uma oficina que tenha algumas características da de produção, mas é financeiramente subsidiada: em parte, diretamente e em parte indiretamente por leis protetoras e isenções.
Algumas destas oficinas foram organizadas por grupos de cidadãos de espírito público que não compreendiam inteiramente as verdadeiras necessidades das pessoas cegas dentro das suas próprias comunidades e pensaram nas oficinas como uma solução ideal. Frequentemente, entretanto, os funda¬dores compreenderam que a oficina segregada (de produção ou não) não era o ideal, mas acreditavam ser a melhor solução possível no momento. Pensavam, pois, (algumas pessoas ainda pensam) que as oficinas eram uma necessidade momentânea quando num certo período histórico, os empregadores dotados de visão demonstravam má vontade para empregar pessoas cegas capacitadas a desempenharem suas tarefas. Para estes, a ofici¬na parece um mal necessário, num período crítico para emprego ou numa área de emprego desfavorável, e o único modo possível de dar às pessoas cegas capazes alguma ocupação, alguma renda e a preservação de alguma respeitabilidade.
Devemos admitir que tais períodos e tais lugares existiram e podem existir, no desenvolvimento histórico do emprego de pessoas cegas. Mas, devemos lembrar também que a oficina de produção cessa de preencher suas finalidades quando se confunde com a oficina de treinamento ou com a oficina protegida no sentido estrito. Este fato é importante por muitas razões, uma delas sendo que a oficina de produção para preencher suas reais finalidades, deve ser dirigida com a preocupação de eficiência, para produzir numa escala capaz de competir (e competir razoavelmente) com os dotados de visão. Logo que cessa de ser conduzida desta forma o paternalismo se introduz. Depois do paternalismo, vem a destruição moral; e então uma das finalidades primárias do centro não mais é alcançada.
As oficinas de produção para cegos são, algumas vezes, criticadas por empregar pessoas dotadas de visão para certos serviços. Em alguns casos estas críticas são justificadas, mas, falando de modo geral, o uso da visão aonde a visão apressar a eficiência é aconselhável e é no melhor interesse dos cegos. A tarefa da oficina de produção é de empregar cegos de modo que recebam uma retribuição adequada pelos seus serviços; e a melhor maneira de conseguir isto pode ser a combinação dos empregos daqueles com visão e dos sem visão, dando cada um a quem mais eficientemente o desempenha.
Mas, mesmo que a oficina de produção consiga manter a sua natureza e finalidade originais, traz necessariamente o perigo, não apenas de segregação no campo do trabalho, mas do maior avanço da segregação fora da situação de trabalho — dentro da recreação, até mesmo do lar e, finalmente, na maneira de pensar. Mesmo que os organizadores das oficinas resistam à segregação, os trabalhadores acabam aceitando-a pelo simples fato de serem colocados juntos para trabalhar. Em breve estarão se encontrando à tarde, se divertindo juntos, morando no mesmo bairro e, muito em breve, a vontade de viver num mundo de visão é destruída. Surgem todas as frustrações que a segregação acarreta (o leitor pode bem avaliar quão poucas são as perdas que uma reabilitação perfeita pode beneficiar numa situação de oficina protegida, mesmo nas de produção e quantas delas são efetivamente ampliadas).
Sobretudo, as pessoas cegas capacitadas, atualmente em tais oficinas encontrar-se-iam com melhores empregos se os fundos de subsídio para estas oficinas fossem aplicados na procura de serviço, obtendo empregos para os cegos e outros, nas mesmas condições, na indústria em geral.
Sob quaisquer circunstâncias, a oficina industrial especial para cegos tem a desvantagem séria de reforçar a noção estereotipada que todas as pessoas cegas devem estar co¬locadas em serviços industriais. Mesmo sem estas oficinas, muitos que se dedicam a trabalhar para os cegos (inclusive os técnicos de colocações) não resistem à tentação de treinar para o emprego industrial, cegos que de forma alguma deveriam estar num ambiente industrial. Não há mal nenhum com os empregos na indústria, mas a maioria das pessoas dotadas de visão não trabalha na indústria, e, portanto no há razão alguma para que as pessoas cegas o sejam.
Quando muito, portanto, a oficina de produção de¬ve ser considerada como um expediente temporário, inicialmente imposto às organizações para os cegos e aos empregados cegos pela má vontade do público em reconhecer as potencialidades das pessoas cegas.
Porém, obviamente, as oficinas protegidas qualquer que seja o seu tipo não podem ser eliminadas de vez. As organizações para os cegos às construíram e estabeleceram implicitamente um contrato de emprego contínuo para os cegos. Se erigimos um mundo para os cegos e os conduzimos e os leva¬mos para ele, a solução do problema que se apresenta não é o da sua destruição. Mas, antes é a de nos certificarmos de não mais encaminhar outros para ele, ao mesmo tempo em que, tomamos previdências para possibilitar a saída do maior número possível de indivíduos.
Este caminho é difícil, mas deve ser seguido na medida em que esteja dentro de nossas forças. Temos uma obrigação para com estas pessoas, de empregá-las desde que as levamos a crer que seriam aceitas, ou até que alas tenham resolvido satisfatoriamente seus problemas individuais de tal forma que se encontrem preparadas a abandonar a proteção da oficina.
Discute-se atualmente se as oficinas que empregam somente pessoas deficientes devem ser sindicalizadas. Enquanto existirem oficinas de produção, há toda razão para que elas sejam organizadas, em reconhecimento da dignidade dos empregados como trabalhadores (e não como um sentimento paternal de algum sindicato existente). A questão da sindica¬lização das oficinas de treinamento e protegidas no sentido restrito é algo mais complexo, desde que os trabalhadores são estudantes ou clientes. Em tais oficinas é aconselhável, no mínimo, que representantes do trabalho organizado façam parte da sua diretoria, não apenas do ponto de vista da cooperação comunitária, mas para proteger os direitos trabalhistas da comunidade contra a concorrência desleal, e para resguardar os direitos do trabalhador cego que é estudante ou cliente destas oficinas.
Em resumo: devemos eliminar completamente a oficina de treinamento e aceitar a oficina de produção como algo temporariamente necessário, devendo nessa circunstância ser só e unicamente uma oficina de produção. Finalmente, devemos planejar para conservar apenas a oficina protegida propriamente dita e esta apenas na medida em que for absolutamente necessária dentro das circunstâncias.


3 - O trabalho das organizações na atualidade e no futuro.

O trabalho organizado para os cegos, como este livro já demonstrou, encontra-se em intenso estado de transição. Atualmente, o público tem a impressão geral de que está se fazendo o possível para o cego; fazem-se doações, compram-se vassouras e cintos para “ajudar o cego”, conhecem-se escolas, vêem-se pessoas cegas com cães-guias e bengalas, tem-se a impressão vaga de que “muito está sendo feito para tais pessoas, hoje em dia”. Mas, o novato que penetra neste campo de trabalho fica frequentemente espantado de ver como o trabalho está pouco adiantado depois de todos estes anos.
Desde os primórdios da História existem pessoas cegas. Em uma ou outra civilização foram elas deificadas como possuidoras de poderes especiais, negligenciadas ou tratada como inúteis. Mas, até o século passado, com a invenção do Braille, na medida em que temos conhecimento, nada mais foi realizado para ajudar às pessoas cegas a sobrepujarem a deficiência da cegueira de um modo positivo. Em nossos tempos surgiram o cão-guia, os livros falados e muitos dispositivos e invenções. Mas, considerando o progresso alcançado nos campos social, científico e tecnológico, é de se admirar o pouco que foi feito para combater os problemas da cegueira, exceto em alguns momentos esparsos.
O trabalho moderno para o adulto cego surgiu das escolas para cegos fundadas no último século. Alguma coisa precisava ser feita para ajudar aos graduados destas escolas, e então surgiram voluntários para ler, para guiá-los, para dirigir programas recreativos, etc. Talvez, algum sociólogo do futuro seja capaz de explicar o fato extraordinário de, após tantos anos de escolas e programas especiais, ainda persistir a idéia de uma mágica “compensação”, algum “sexto sentido”, que em geral bloqueia qualquer trabalho construtivo para ajudar à pessoa cega a usar seus próprios sentidos.
A pessoa que ficou cega recentemente pode pedir alguma sugestão para reconhecer sons, etc., àquele que ficou cega há mais tempo, mas antes do programa do exército para os veteranos cegos da II Guerra Mundial, nada tinha sido organizado sistematicamente para ajudar àqueles que ficaram cegos neste setor, obviamente tão necessário. E ainda hoje, o trabalho neste setor limita-se praticamente ao do centro de reabilitação total.
O mesmo acontece no campo da mobilidade — um homem cego pode ensinar ao outro, pequenos “truques” no uso da bengala ortopédica, mas por outra parte, o cego e aquelas pessoas que ficaram cegas contaram apenas com a “própria experiência” para aprender como andar, ou às apalpadelas, ou tateando, ou sendo guiadas. O cão-guia foi um grande passo para a reabilitação e independência e a terapêutica da mobilidade, bem como o treinamento de técnicos de mobilidade estão progredindo. Mas, também aqui muitas instituições e associações ainda não reconhecem a vital importância do treino para mobilidade, nem a necessidade de treinar os sentidos do cego de um lado, e o treinamento do técnico do outro.
Novamente, parece extraordinário que até o momento haja tão pouca compreensão da necessidade de distinguir os diferentes problemas do cego congênito, daqueles que possuem cegueira adquirida, e de distinguir o realmente cego do que tem visão parcial.
O sociólogo do futuro será, talvez, capaz de explicar o estranho fato de, numa época de estudos sociais e de plena consciência da necessidade de integração, ser a segregação ainda ardorosamente defendida e continuamente promovida, e descobrir porque não é reconhecido o fato disto ser problema de um grupo minoritário, necessitando o mesmo tipo de estudos e educação do público, como os problemas dos grupos raciais e religiosos. E também porque, enquanto um grande número daqueles que se dedicam ao trabalho com o cego defende a tese de que ele é “igual às outras pessoas”; tantas organizações e suas respectivas equipes continuam com campanhas que reforçam de várias maneiras a idéia que o cego é diferente, estranho, peculiar e digno de compaixão.
É verdade que muito tem sido feito certas áreas particulares da restauração. Mas, é de se admirar como não só o público, mas organizações e técnicos apegam-se à idéia de uma ou outra restauração ser suficiente. Segurança financeira, restituição do emprego (qualquer um), mobilidade, livros falados ou Braille e, ultimamente, “ajustamento”. Cada um por sua vez e, muito frequentemente, é tomado como resposta total para todos os problemas da cegueira.
Entretanto, lentamente começa a surgir de um lado a compreensão de ser a cegueira uma deficiência múltipla que requer restauração multi-fásica, e de outro lado que cada cego é um indivíduo com suas necessidades particulares que deve ser ajudado como tal.
Esta compreensão abre perspectivas ilimitadas, algumas das quais já foram indicadas neste livro. Muitas existem e outras tantas surgem quase que diariamente, não havendo assim necessidade de qualquer sobrecarga de serviços numa determinada área, nem desculpas para desperdício de tempo, esforços e dinheiro que possam vir de organizações rivais. Deveríamos estar trabalhando no sentido de uma organização dentro da qual em todas as áreas geográficas, todos os cegos pudessem ter razoavelmente disponível a ajuda especializada que necessita. Isto incluiria auxílio no processo de sua reabilitação e a provisão de serviços contínuos, tais como leitores voluntários, informação sobre a legislação e novos dispositivos. Incluiria, igualmente, numa base nacional, pesquisas (a) para abrir, unir e utilizar futuras possibilidades da restauração.
Ocasionalmente, aqueles que trabalham com os cegos parecem crer que a medida que nossos esforços para integrar o cego são coroados de êxito, nos aproximamos do dia em que não mais haverá a necessidade de organizações especializadas nos problemas da cegueira. Mas, o progresso do trabalho mo¬derno com o cego parece indicar o oposto.
Os problemas da cegueira contêm tantos imprevistos para as agências comuns dos “cegos” que a pessoa cega que se dirige a esta organização para conselhos e assistência, geralmente, perde-se na confusão. Organizações gerais são necessárias para lutar contra todas as dificuldades naturais daqueles que ficaram cegos, mas, não se pode esperar que possuam os conhecimentos especiais e as habilidades necessárias para tratar dos problemas da cegueira. Além disso, quanto mais crescem as possibilidades de restauração, maior necessidade haverá de uma equipe de técnicos bem treinados nos vários campos, para atualizar estas possibilidades, beneficiando um maior número de pessoas cegas: para os jovens e para os velhos, para aqueles que ficaram completamente capacitados e para aqueles com várias deficiências adicionais.
Há, também, grande trabalho a ser feito na reabilitação dos dotados de visão parcial. E haverá grande necessidade de voluntários inteligentes e bem dirigidos para agirem como “olhos para os cegos”, nas situações em que a visão é indis¬pensável.
Neste trabalho tão complexo há lugar para organizações oficiais e particulares; aquelas, como já aconteceu em varias áreas, desincumbindo-se de certos serviços que foram iniciados pelos particulares, deixando estes, com a sua tendência mais flexível, livres para desenvolverem ulteriores possibilidades. Por exemplo, antigamente as organizações particulares tinham que fornecer a maior parte da ajuda financeira de emergência para as pessoas cegas, e isto as forçava a se concentrarem na restauração da segurança financeira. Mais recentemente, o Federal Capte Aid for the Blind (Auxilio Federal para Cegos Necessitados) absorveu uma boa parte desta responsabilidade, deixando as organizações livres para trabalhos em outros tipos de restauração. A mais eficaz divisão fundamental de trabalho entre as organizações deveria ser baseada em serviços, a fim de que qualquer cego pudesse obter toda espécie de ajuda que precisa, fornecida por uma ou outra organização.
Mas, enquanto o trabalho com o cego continua a progredir, precisamos ter sempre em mente uma coisa. A tarefa das organizações para cegos é de ocupar-se com os vários problemas da cegueira que afligem seus clientes e o público e não ocupar-se com todos os problemas das pessoas cegas. Quanto mais nos especializamos em nosso trabalho, recomendando os cegos a outras organizações para solucionarem aqueles problemas que não são pertinentes à cegueira, mais efetivamente suas necessidades serão satisfeitas. Esta po¬lítica ajudará na integração da pessoa cega dentro da comunidade dotada de visão, e na integração do nosso trabalho e nossa organização dentro de um quadro geral. Se tentarmos solucionar todos os problemas dos nossos clientes porque são cegos, os afastaremos e a nós mesmos dos benefícios dos outros serviços e de outros pontos de vista. Nossos client¬es estarão sendo, mais uma vez, desnecessariamente segregados e estaremos também nos segregando.
Num campo em expansão como este, é de máxima importância que nosso trabalho seja continuamente avaliado e reavaliado; o que pode ser importante num dado momento pode não o ser pouco depois. Por conseguinte, atualmente, flexibilidade prudente e habilidade para aprender são essenciais no trabalho para o cego.
É extremamente importante avaliar nosso trabalho sob a luz da sua contribuição à meta total estabelecida pela nossa filosofia de trabalho para o cego. O número de serviços prestados e o número de pessoas atingidas pela nossa organização constituem valiosas estatísticas que devemos ter à mão, Mas, a melhor medida de nosso progresso em direção à restauração das pessoas cegas de um lado, e da sociedade de outro, é no cômputo geral; não tanto o número de pessoas atendidas, mas o número das que foram tão bem atendidas que não mais precisam dos serviços de nossa organização. Nossa finalidade é ajudar ao maior número possível de pessoas cegas a alcançarem tal ajustamento à sua cegueira e que se tornem livres da dependência a nós ou a qualquer outra pessoa.

NOTAS DE RODAPÉ
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1 - Ao contrário das outras formas de progresso social, que ocorrem primeiro em centros de grande população, a oportunidade para este progresso é maior nas áreas rurais e suburbanas ou nas pequenas cidades. Infelizmente, os centros mais populosos estão sob pressão para manter ou estabelecer programas segregados.

2 - Duas ações recentes do United States Office of Vocational Rehabilitation são importantes aqui. Uma diz respeito a uma concessão para o Shilling Laboratory de Graton, Connecticut, para suas pesquisas auditivas. A outra inclui um contrato com The Massachusetts Institute of Technology para pesquisas sensoriais mais amplas, estimulando assim as pesquisas nas áreas da reabilitação.


CAPÍTULO 26
AQUELES QUE TRABALHAM COM O CEGO

1 - O profissional - cego ou não.

“Se as próprias associações para cegos se negam a dar emprego a pessoas cegas como membros de suas equipes, como podem esperar que outros as empreguem, e que poderia isso significar com respeito a sua própria confiança no cego?” Esta pergunta é uma das quais muitas organizações tem dificuldade para contestar. Embora muitas vezes chegue-se frequentemente a esta complexa questão: quem é preferido como profissional na equipe de organizações para cegos — uma pessoa com visão ou uma pessoa cega?
O profissional cego o primeiro e mais imediatamente envolvido. É possível que o emprego ou profissão ma¬is adequados para ele estejam numa organização para cegos. Porém, é igualmente possível que sua melhor oportunidade esteja numa outra organização. O próprio fato de encontrar um emprego fora do trabalho com o cego pode ser de extrema importância do ponto de vista da sua autoconfiança.
O profissional cego também deve ser considerado, quanto ao seu aperfeiçoamento na capacidade. O técnico especializado, profissional em particular, pode se sair ainda melhor, caso encontre emprego fora do campo especializado, a bem do seu próprio desenvolvimento e progresso na habilidade. Devido a sua própria experiência como pessoa cega ele pode também se encontrar preso demais ao seu trabalho, impedindo assim que consiga seu progresso profissional completo dentro deste setor, a não ser que durante sua carreira ele se aperfeiçoe através de uma experiência adequada e supervisionada fora do campo.
Também o cliente deve ser considerado. Pode ser que as relações entre o profissional cego e o cliente cego sejam as melhores, porem, o simples fato da cegueira não é suficiente para garanti-las. Algumas vezes, o fato da cegueira em comum pode interferir com uma amizade adequada. O profissional cego pode ficar tão satisfeito com seu próprio sucesso superando sua deficiência, que não conseguirá compartilhar devidamente do fracasso do cliente por tê-lo feito. Ou, por outro lado, seu sucesso pode ser uma barreira do ponto de vista do cliente. Também, pode acontecer dele se identificar de tal maneira com o cliente cego, ao ponto de ter um sentimento em comum, sem, contudo ser capaz de dar a devida assistência às dificuldades básicas do seu cliente. Mas é também possível que seu exemplo possa ser tão bom e sua compreensão tão completa que talvez ele, somente ele, poderia ter ajudado à pessoa cega.
O problema da educação do público também precisa ser ventilado. As associações de cegos devem certamente dar o exemplo a outras associações, empregando técnicos especializados cegos. Há porem o argumento que o emprego de pessoas cegas pelas associações para cegos não contribui para a boa educação do público, que poderia chegar a sentir que os técnicos especializados são principalmente para as associações para cegos, não aprendendo com isso o valor dos mesmos.
A questão de dar colocação a profissionais cegos (que muitas vezes humilha, dando “prioridade” aos técnicos especializados cegos, algo um tanto análogo é dar preferências aos veteranos), também deve ser considerada nos seus efeitos sobre as relações entre associações - as relações entre diversos técnicos especializados, cegos ou não, na equipe da entidade. Por um lado, a recusa completa em contratar novos técnicos especializados cegos ou promover outros, já colocados, leva a um natural sentimento de ressentimento por par¬te dos membros cegos da equipe. O ressentimento vai contra os técnicos especializados dotados de visão que estão “tomando seus lugares”. Por outro lado, se a política da associação prodigaliza privilégios especiais aos profissionais cegos, colocando-os acima dos dotados de visão e que estão fazendo um trabalho mais importante, acontece o contrário: o dotado de visão volta-se contra o cego.
De um modo ou de outro, destruímos a moral de nossa equipe de técnicos especializados e diminuímos nossa capacidade no trabalho para o bem do cego. Os efeitos de tal decadência moral na produção das associações é fácil de se constatar. Logo seremos incapazes de atrair bons técnicos especializados, quer sejam cegos ou dotados de visão, devido aos atritos com as associações. Tanto os técnicos especializados cegos, como os dotados de visão (dependendo de nossa política) sabem que eles não têm oportunidades de promoção em nossas associações e por este motivo permanecem conosco durante algum tempo, ou simplesmente não nos procuram. Por fim, muito firmes na adesão da política de contratar todos os técnicos especializados cegos, ou pelo menos lhes dando uma preferência marcada pode significar uma “estagnação” no trabalho: nossos antigos clientes se transformam em nossos técnicos especializados, que por sua vez se ocupam com novos clientes, ou estabelecem uma política para tratar com novos clientes. Muito poucos elementos novos entram em nossas associações, muito poucas idéias também; e cada vez te¬mos menos probabilidades de avaliação objetiva e reavaliação das associações à luz do progresso neste campo. Nossos novos técnicos especializados não estão adquirindo a ampli¬tude das experiências e supervisão que contribuem para o progresso das habilidades individuais e a associação é omissa em não receber o benefício dos técnicos especializados diante de tal situação.
Assim a questão está grandemente em jogo e é ainda mais complicada pelo fato de tratar com mais de um tipo de empregados, com mais de um emprego ou oportunidades profissionais nas associações para adultos cegos, a colocação de entre outros: administradores, supervisores, assistente social, professores à domicilio, analistas legislativos, orientadores, homens de negócios, representantes de relações públicas, pesquisadores, recepcionistas, supervisores de lojas, vendedores em lojas, estenógrafos, orientadores profissionais e agentes de colocação.
Desde que praticamente todos estes empregos são oferecidos por outras agências que não são a de cegos, nos¬sa primeira e maior tarefa aqui é de persuadir todas as outras agências a dar oportunidades aos cegos. Mais do que qualquer outro grupo, as agências sociais é que deveriam ter esta obrigação, E, em virtude de seu treinamento, os funcionários destas agências não deveriam estar sujeitos a bloqueios emocionais contra os técnicos especializados cegos, como encontramos entre o público em geral. As agências so¬ciais comuns, certamente, apresentam uma desculpa bem fraca quando imaginam sentimentos que as impedem de empregar cegos capacitados (por exemplo, no caso de assistentes sociais cegos e capazes). Entretanto, por estranho que pareça são geralmente as supostas agências sociais (esclarecidas) que sugerem que os técnicos especializados cegos deveriam encontrar colocação exclusivamente no campo de trabalho junto ao cego.
A muitos leitores isto pode parecer apenas uma boa teoria “porque eles são contra o fato presente da discriminação contra os técnicos especializados cegos (já que esta situação não pode ser tratada por um estado ou governo,, um serviço honesto pratica política compulsória ou de outra maneira, em muitas agências de solicitação para cegos e po¬deriam formar “uma área comitê antidiscriminação” que, atendendo às queixas em relação à discriminação com respeito à cegueira e fazer representações adequadas àqueles responsáveis, nos casos onde foram estabelecidas práticas indevidas). No caso de muitos técnicos especializados cegos, esta discriminação fornece uma motivação primária no sentido de procurar uma colocação numa associação para cegos. E, obviamente, trata-se de uma motivação irretrucável a não ser que possamos lançar mão de suficientes oportunidades em outros lugares a fim de que o cego possa fazer uma escolha.
Para outros técnicos especializados cegos, uma forte motivação é a suposta segurança de um emprego na associa¬ção para cegos. Na sua opinião ele menos chance terá de ser despedido daí do que em outro emprego. Pode haver uma divergência na idéia de procurar a segurança num emprego, embora jamais a escolha de empregos deva se constituir em motivação mais forte. Porém, a implicação de que uma agência para cegos deve diminuir suas pretensões antes do que dispensar um técnico especializado (simplesmente porque ele é cego) é algo que exige um auto-exame por parte da agência. Isto não sig¬nifica que tenhamos de ser cruéis, mas sim que nossa política junto aos empregados, deve ser a mesma tanto para os cegos como para os dotados de visão, reconhecendo a mesma dignidade e responsabilidade de ambos.
Ainda outros profissionais são motivados a procu¬rar emprego em associações para cegos por que acham que somente ali eles seriam realmente “aceitos”. Neste caso, nos aproximamos muito da renúncia implicada na segregação. As dificuldades que promoveram tal renúncia não devem ser reduzidas ao mínimo — dificuldades estas devidas em grande parte às atitudes dos que são dotados de,visão. Entretanto, a resposta não deve ser encontrada na renúncia, mas no trabalho com o meio ambiente que causou a dificuldade, e no trabalho com o indivíduo que pode ser, em parte, responsável.
Algumas vezes, também, os técnicos especializados têm profundas motivações inconscientes quando procuram tra¬balhos nas agências que se ocupam com clientes portadores da mesma deficiência. E, por vezes, estas razões profundas po¬dem interferir, seriamente, na possibilidade deles executarem um trabalho eficiente para a agência e para os clientes cegos.
Talvez o motivo mais comum, ou pelo menos os ar¬gumentos mais comuns apresentados para a colocação de técnicos especializados nas associações para cegos, é de que sua experiência como cego o torna mais capacitado a compreender os problemas dos outros cegos ou, como foi frequentemente constatado, da cegueira. Tal crença encerra um sofisma básico, Nenhuma soma de experiência em termos sido atingidos pela desgraça fará com que, por si só, compreendamos melhor os outros; não nos encontramos numa situação privilegiada, mais do que estaríamos de outra maneira, a fim de avaliar a desgraça daqueles que foram atingidos por estas catástrofes. Mas isto, por si não garante que ire¬mos compreender “aqueles” que sofrem com isto.
Só “cego pode compreender o cego” é uma asserção que ouvimos frequentemente a esse respeito. Entretanto, deveríamos acrescentar: “nem todo cego pode compreender o cego”. É verdade que a criatura dotada de visão não pode avaliar completamente o significado da cegueira. Por um breve espaço de tempo podemos saber algo do que isto seja, mas não totalmente, e necessariamente escapamos dali para vol¬tar as nossas vidas de indivíduos dotados de visão. Outras pessoas providas da visão e que se esquecem deste fato, indo como se tivessem um completo conhecimento do que é ser cego, constituem uma verdadeira ameaça e não deveriam ser admitidas como técnicos especializados. O que realmen¬te é importante é compreender a pessoa cega, compreender as pessoas — e, nem a cegueira, nem a visão garantem esta qualidade (ou é um estorvo possuí-la).
Se a experiência de ser cego não é uma garantia de que qualquer um deve conhecer o cego, também não é um substituto adequado para um bom treinamento. O fato de um homem ser cego não o qualifica para ser um assistente social treinado (se não tiver treinamento), ou um conselheiro treinado (se não tiver treinamento), ou mesmo um administrador treinado (se não tiver treinamento) da mesma forma que o qualifica a ser um oftalmologista.
É também verdade que muitas pessoas cegas e com um bom treinamento procuram oportunidades para trabalhar com o cego porque têm um interesse especial em fazê-lo. Elas podem dar muito mais de si mesmas ao seu trabalho do que o fazem aqueles que vêem aí um emprego como qualquer outro. O técnico especializado que trabalha com acidentados, tendo ele mesmo sofrido um desastre, terá menos probabilidade de ser servil. Por conseguinte, é possível que as motivações do cego diligente possam ser maiores (tanto na superfície como por baixo); sua capacidade pode ser a maior e seu treinamento e experiência podem ser a melhor.
Não obstante, ele teria dificuldades em conseguir colocação em algumas de nossas associações. E o fato de que isso acontece nos leva a uma outra fase desta questão tão complexa: as razões pelas quais alguns dentre nós que encabeçam associações para cegos, bloqueiam o assunto de indicar técnicos especializados para nossas equipes. Algumas pessoas dotadas de visão e que dirigem associações para cegos, sem dúvida alguma não acreditam em tudo aquilo que ensinam a respeito da competência ou da “normalidade” das criaturas cegas. Não importando a maneira pela qual racionalizaram sua posição em relação a si mesmos, falam a respeito de um cego que falhou, insistem em exagerar seu fracasso e em generalizar, partindo daí, atingindo todos os técnicos especializados cegos. Ou então generalizam da mesma maneira as dificuldades da personalidade de um indivíduo com o qual foi difícil trabalhar em uma agência.
Por baixo disso tudo, provavelmente, muitos dos que encabeçam as agências, e que resistem à idéia de dar colocação a técnicos especializados cegos, assim agem porque estes podem ser uma ameaça às suas próprias atividades. Ou, ainda melhor dizendo, constituem uma ameaça nos seus próprios sentimentos de segurança, sugerindo-lhes, de certo modo, sua própria incompetência. É possível que isto pareça irregular, mas é uma reação humana. Pode ser sentido pelo jogador de golfe dotado de visão que observa o bom jogador de golfe cego; pelo tenista fisicamente perfeito encarado por um bom tenista com um braço só. O fato de que outros podem ser bem sucedidos mesmo tendo uma deficiência é um assunto difícil de ser aceito por criaturas inseguras, sem deficiências.
Também outras vezes este sentimento contra os técnicos especializados cegos se origina de uma culpa interior. Por estranho que possa parecer, é possível que nos sintamos culpados por não termos tido a deficiência que um outro tem. Podemos conhecer nossa falta de merecimento diante de Deus e nos admirarmos de que Ele tenha permitido que outros sofram e que nós tenhamos permanecido livres. Ora, podemos — o que seria diferente — ter sentimentos de falta de merecimentos e pelos quais nós sentimos que deveríamos ser punidos — e tais sentimentos podem muito bem interferir na não colocação de técnicos especializados cegos.
Além disso, nós que dirigimos as agências, pode¬mos não estar dispostos a aceitar qualquer inconveniência que pode surgir na colocação de técnicos especializados cegos; podemos não ser suficientemente flexíveis para modificar nosso sistema que com isso pode ter ficado abalado.
Administradores cegos, de agências para cegos, também podem ter sentimentos que os impedem de dar emprego a cegos, dentro de suas equipes: outros cegos podem constituir uma ameaça para eles, e para a sua segurança. E, caso não estejam ajustados quanto a sua cegueira, podem ter profun¬dos sentimentos de rejeição em relação a outros que são cegos, sentimentos estes que expressam o seu próprio ressen¬timento por sua deficiência e por eles próprios.
É óbvio portanto que não há uma resposta clara e completa quanto a equipar uma agência de cegos com elementos providos de visão ou não. A resposta deverá depender, não apenas das pessoas interessadas, como também do grau de progresso obtido com a integração de pessoas cegas dentro da comunidade. Quando não há trabalho para cegos competentes em lugar algum, devemos ficar especialmente de sobreaviso quanto às oportunidades que temos em nossas agências para eles, caso eles tenham a devida capacidade para ocupar o lugar, da melhor maneira possível, como um outro faria. Devemos sempre insistir em que e a excelência do trabalho e não a cegueira é que faz a qualidade. A nata do grande número de nossos clientes cegos não deve ser sacrifica¬da pela satisfação momentânea de um cego que procura emprego.
Ao mesmo tempo devemos sempre ter em mente a fi¬nalidade de dar emprego a técnicos especializados cegos em agências comuns (comércio em geral e indústria), mais do que em agências especializadas para cegos. Outrossim, precisamos providenciar para que indivíduos, profissionais espe¬cializados cegos ou não, se animem para adquirir o melhor e mais arejado treinamento e experiências possíveis nestas agências comuns antes que os tomemos ao nosso serviço em nossas agências (tanto para o seu próprio bem, como para o bem das agências). Precisamos sempre lembrar que exceto quanto aos poucos empregos em que, tendo outras coisas em comum, a cegueira seja um bem positivo. A cegueira não deve ser uma consideração, positiva ou negativa, na formação de uma equipe.

2 - O voluntário.

Para uma agência que está em posição de aceitar os seus serviços, os voluntários podem ser de grande utilidade. Seu valor pode ser duplo: auxiliar nos serviços da agência, ajudar nos serviços do indivíduo cego.
Voluntários que auxiliam nos serviços das agência são mais difíceis de serem obtidos — voluntários para angariar fundos, encher envelopes, entregar pacotes, varrer o escritório etc. O fato de seu trabalho não ser diretamente com o cego, torna-o menos atrativo. Entretanto, tal trabalho torna possível a existência de muitas agências, possibilitando assim, a execução de tarefas, sejam elas quais forem, em relação a seus clientes cegos.
Os voluntários que trabalham diretamente com o cego tem uma função que deveria estar escrita em letras enormes e ser fixada num lugar bem visível, em todas as agências: “A função do voluntário é a de suprir os olhos”.
Através dos séculos, os voluntários têm executado esta tarefa apenas para com os indivíduos cegos, ou trabalhando em associações para cegos, ou por iniciativa própria. Porém, tais voluntários, como também as associações e agências executivas e o indivíduo cego, sabem que existem voluntários que trabalham à sua maneira, em várias organizações, deturpando a finalidade do voluntário, assumindo outras responsabilidades, esquecendo-se que a única função do voluntário é “suprir os olhos”.
A função do voluntário como agente de uma organização para o cego não é a de “angariar fundos para o indivíduo” (embora ele possa ser impelido a relatar à agência a aparente necessidade financeira do indivíduo). Sua função “não é a de prodigalizar presentes aos cegos”. Não é a de suprir sua inteligência, tomando decisões em seu nome. Não é a de educá-lo, nem convertê-lo 1. Não é a de torná-lo dependente e não é a de torná-lo sua propriedade. Não é a de usar o cego como meio de resolver seus próprios problemas.
Alguns destes propósitos são bons em si mesmos. Outros podem ser bons para aqueles que os executam. Outros são maus tanto para o voluntário como para o cliente. Mas nenhum deles faz parte das funções do voluntário, como voluntário de uma agência para cegos — exceto em uma necessidade extrema quando o voluntário é indicado para se desincumbir de qualquer uma delas, em casos muito especiais.
Já a função do voluntário, que tem a seu cargo os fatores idade avançada e cegueira, então é diferente; a função do voluntário que trabalha ao mesmo tempo com uma dependência incurável e com a cegueira, o caso pode ser diferente. Pode também haver outras exceções extraordinárias. É claro que elas existem, as exceções “regulares”; os que são voluntários dentro da sua profissão: o oftalmologista, por exemplo, ou o psiquiatra. Porém, a função do voluntá¬rio trabalhando com a cegueira deve estar bem delineada na sua mente e na agência que o admitiu.
As atividades dos voluntários têm maior eficiência quanto a três perdas (principalmente no caso de duas).
Estas são: a perda de comunicação escrita e a perda da mo¬bilidade (e até certo ponto, a perda da técnica da vida diária).
Quanto à perda da comunicação escrita, a tarefa do voluntário pode ser diretamente com o cego, lendo para ele. Também pode ser a de transcrever o material de Braille para ele, ou gravando livros falados, para seu uso posterior. No último caso, o voluntário não tem contato direto com o cego, trabalhando através de uma associação que tem a seu cargo a transcrição de tal material.
Provavelmente a maior necessidade no campo das atividades de voluntários para cegos é a de alguma associação experimentar através de um grupo de voluntários bem treinados e que quisessem ir à casa de um grande número de cegos durante um limite de horas por semana, previamente estipulado, e ler para o cego, nada de especial importância, mas aquilo que seria do agrado do cego, dentro da recreação. Estes “substitutos dos olhos” seriam provavelmente mudados regularmente, impelidos para os lares de pessoas recém-cegas. Sua tarefa seria diferente daquela da maioria dos voluntários; seria quase uma função mecânica.
A restauração da mobilidade perdida exige o emprego de guias e condutores; porém, tentando fornecer tais voluntários numa quantidade suficiente para enfrentar necessidades reais, as associações e agências devem ter cuidado para não fornecê-los a tal ponto que eles desenvolvam uma atitude de dependência, antes prejudicando o cego em vez de ajudá-lo.
Também, algumas vezes, porém ocasionalmente, em certas condições pedimos a ajuda de voluntários no sentido de auxiliarem na restauração das técnicas da vida diária.
Pondo de lado estas atividades, dos “substitutos dos olhos”, algumas agências para cegos requerem o serviço de voluntários que pouco ou nada têm a ver com a cegueira de seus clientes, por exemplo, a tarefa de substituir as “amas secas”. Embora reconhecendo que situações de emergência podem mudar a natureza das coisas, acredito que tais serviços poderiam ser fornecidos por agências comuns de voluntários, deixando para as de cegos à tarefa de restauração e substituição que é a sua.
Muitos de nós fracassamos por não termos o número suficiente de voluntários. Há também o perigo de fornecê-los em numero exagerado ou pelo menos de fornecer os serviços de voluntários num mesmo caso. Encontrar aquela média certa é difícil e mesmo para agência com o melhor e bem organizado programa de voluntários, exige-se um equilíbrio na adminis-tração do pessoal a fim de fornecer o serviço sem tornar os clientes ainda mais dependentes do que já o são, ou gostariam de ser.
O mais importante de tudo isto, num serviço eficiente de voluntários é a qualidade dos mesmos, não apenas que sejam boas pessoas, mas que também sejam boas para o serviço. A maioria das agências tem um processo de seleção e de treinamento de voluntários que irão trabalhar diretamente com as pessoas cegas. Entretanto, alguns ainda fracassam. Um dos melhores exemplos destes fracassos é o da organização executiva que comentava sobre uma voluntária que havia sido recomendada para abrir as cartas que chegavam em resposta a uma campanha para angariar fundos. Após uma apurada consideração, a resposta foi que a agência não sabia o suficiente sobre a voluntária para poder colocá-la num lugar onde fosse necessário manipular dinheiro; talvez tivesse sido melhor se a tivessem aproveitado como ledora de cegos.
A seleção de voluntários que irão trabalhar diretamente com o cego é uma parte essencial no programa do voluntariado. Significa (em adição rejeição de qualquer pessoa normalmente indesejável que por ventura quisesse ser voluntária) rejeitando todos aqueles que pela sua natureza pretendesse dominar o cego, aqueles que se “identificariam” com o cego, e muitas outras pessoas, embora boas, mas cuja constituição emocional é tal que elas poderiam trabalhar numa posição direta, como voluntários sem contudo serem envolvidas nos problemas íntimos do cego. Não é que queiramos recusar tais indivíduos, mas sim aproveitar seus préstimos em outros setores onde poderão executar serviços para a agência e, indiretamente, para o cego.
Deve-se reconhecer que, tanto aqui como em qualquer lugar, pessoas há que fazem “boas obras” de uma forma ou de outra, movidas por uma série de motivos muitos dos quais podem ser inconscientes. Em benefício de nossos clientes devemos tentar evitar qualquer mal que possa advir na execução destas motivações conscientes, da mesma forma que não podemos evitar que qualquer boa ação tenha uma finalidade própria.
Para executar tal trabalho de seleção é exigida uma pessoa extraordinária, alguém com introspecção, treinamento, tato e energia para tanto. Com o fito de equilibrar os bem motivados e aqueles emocionalmente apropriados para a finalidade, precisamos selecionar alguns dos nossos melhores amigos, e por conseguinte, alguns dos melhores amigos de nossa agência. Tratando-se, ou não, de assunto difícil, tal seleção é digna de consideração, no que diz respeito ao progresso da independência dos clientes cegos das agências.
Paralelamente à seleção, o treinamento dos voluntários é de importância máxima. Em geral, o treinamento consiste de um curso sobre o fundamento, quanto à finalidade do trabalho com o cego, a filosofia que ativará o trabalho voluntário e algo com respeito à própria agência. Durante todo o período em que o voluntário trabalhará com a agência, são continuamente ministrados cursos para colocar o voluntário a par dos progressos ou modificações no campo do trabalho com o cego.
Em alguns casos, seria de extrema utilidade se as agências elaborassem com os voluntários uma espécie de “compromisso de atividade restrita” ou, pelo menos, um “credo” para os voluntários, a fim de se certificarem de que, de fato, o voluntário realmente entende e pretende não ultrapassar os limites do trabalho, que lhe será apresentado, incluindo tanto os horários de trabalho como o tipo de trabalho. Muitos cegos passaram pela experiência de voluntários que começaram dando mais do seu tempo que o combinado e foram sumindo aos poucos, ou de repente, até que nunca mais foram vistos.
Um programa de voluntariado também exige uma boa supervisão. Os técnicos especializados devem aprender a apresentar um relatório à agência. Embora isso lhes pareça desnecessário, ou mesmo um quadro, é de suma importância que a organização não somente execute suas obrigações através de seus voluntários, como também saiba que elas estão sendo executadas. A par dos relatórios de suas próprias atividades, os voluntários deveriam saber relatar qualquer situação concernente às pessoas cegas com quem estão trabalhando, de maneira tal que a agência poderá julgar quando podem ser requisitados serviços adicionais.
Supervisionar voluntários também implica em afas¬tá-los de um caso particular ou do trabalho de voluntário, e em geral, de uma maneira ou de outra, parecerá conveniente caso, por exemplo, não comparecem sem motivo justo, ou provem ser incompetentes, ou mostrem um zelo excessivo em relação ao cego ao qual foi designado e que pode lhe ser preju¬dicial.

O compromisso do voluntário

Comprometo-me a ser os olhos do cego.
Tentarei com todas as minhas forças libertar-me dos falsos sentimentos sobre a cegueira —sentimentos de que estas criaturas sejam estranhas ou diferentes — senti¬mentos de que eles possuem um sexto sentido, ou uma compensação miraculosa — sentimentos de que eles são gênios ou, por outro lado, são donos de personalidades distorcidas, ou pervertidas.
Tentarei realizar completamente o que estou come¬çando a reconhecer, de que não há um padrão de personalidade em comum entre os indivíduos cegos. E, tentarei sempre ver cada individuo cego com o qual entrarei em contato, co¬mo um indivíduo humano possuidor de personalidade humana, individual.
Prometo, referindo-me ao meu trabalho, jamais procurar dar origem a uma falsa piedade em relação ao cego, ensinando somente a verdade sobre a cegueira, que é uma deficiência muito séria e à qual os seres humanos reagem de acordo com seus próprios meios individuais.
E, o meu relacionamento com a pessoa para a qual fui designado, será o relacionamento que deve ser mantido por mim. Aceito estas oportunidades do voluntário a fim de poder ajudar àqueles que são cegos. Falando em termos gerais, a melhor ajuda é aquela na qual eu sou somente “o substitu¬to dos olhos”. Isto significa que eu me absterei de qualquer tentativa de exercer influência na vida ou nas ações do cego, deixando isto à responsabilidade daqueles que de direito. Não tentarei ser a mãe ou pai, ou irmã, ou irmão do cego. Não me permitirei ser seu benfeitor econômico, Nem pretenderei torná-lo propriedade minha. Não farei com que ele dependa de mim, ou eu dele. Comprometo-me a ser os olhos do cego e, não tentar ser algo mais. E, se isto eu fizer, fazendo-o por Deus, então meu tempo será bem empregado, não importando quais sejam os problemas que eu gostaria de resolver.

3 - A venda como instrumento de treinamento.

Como o leitor já pode ter observado, existem muitos aspectos contestáveis no campo do trabalho com o ce¬go, não porém, quanto ao uso da venda dos olhos. Para alguns, trata-se de um instrumento que pode ajudar os dotados de visão a aprender a respeito da cegueira; para outros, usar a venda dos olhos para tal fim é uma espécie de encenação muito desdenhada por profissionais competentes.
Entretanto, a experiência demonstra que a venda de olhos pode ser um adjunto muito útil em qualquer programa de treinamento para as quatro finalidades a serem descritas. Porém, um dos seus mais graves erros é usá-la sem as devidas medidas de segurança.
Mencionaremos as medidas de segurança especiais requeridas para cada uso, sendo que a sempre usada e a mais necessária é a de que jamais deveria ser usada com a idé¬ia de que ela nos ensinaria “como é que é ser cego”. Nenhum uso da venda, não importando a extensão de tempo empregado, poderá ensinar aos dotados de visão o que é a cegueira. Seus valores estão somente na capacidade de trazer para casa muito rapidamente às pessoas dotadas de visão, alguns dos problemas da realidade da cegueira. O que usa as vendas pode aprender, como não o poderia de outra maneira, algumas das dificuldades envolvidas nas perdas da mobilidade, facilidade da comunicação falada e nas técnicas da vida diária. Porém, ele jamais poderia tirar da experiência com as vendas, a experiência da cegueira; neste aspecto estaria re¬presentando.
1- O uso da venda pelos técnicos especializados novos. –Presume-se que estes, sejam eles profissionais ou voluntários, passarão por um período de doutrinação quanto aos problemas especiais da cegueira e quanto às técnicas especiais exigidas neste campo.
Tal curso pode ser muito abreviado e seu impacto fortalecido, se os técnicos especializados usarem a venda de olhos durante a maior parte do curso 2.
Nenhuma medida de segurança será necessária aqui, a não ser a insistência no fato de que o uso da venda não ensinará ninguém o que e ser cego, embora pareça que tais técnicos especializados suficientemente capacitados para trabalhar neste campo não careçam de muita ênfase neste ponto. De fato, o técnico especializado que, após o término do curso ainda afirmar que este lhe deu o ensejo de adquirir a expe¬riência da cegueira, dará provas de que não pertence a este campo.
2 - O uso da venda para doutrinar grupos do público. – O uso da venda em qualquer auditório acomodado, ajuda a ensiná-los como alguns dos aspectos da cegueira podem ser bastante úteis. Porém, deve ser lembrado que o orador que, debaixo destas circunstâncias interpreta verdadeiramente alguns dos significados profundos e aterrorizantes da cegueira, está pi¬sando um campo perigoso; é possível introduzir o pânico e alastrá-lo num auditório em que todos usam vendas. Entretan¬to1 a não ser que o orador possa dar as interpretações mais profundas, muitas pessoas podem depois sair com a impressão de que agora elas “sabem o que é ser cego”. A venda pode ser usada em grupos de pessoas que devem ser muito advertidas quanto à cegueira em curto espaço de tempo, porém, seu uso deverá ser de curto período de tempo e a tensão emocional não deverá subir demais.
3 - O uso da venda para atender às famílias de cegos recentes. - O uso da venda pelos membros da família do cego, com quanto possa ser muito útil, mostrando-lhes alguns dos problemas da “realidade” da cegueira, deverá ser cuidadosamen¬te salvaguardado. Acima de tudo deve ser lembrado que tal experiência pode ser altamente traumatizante para alguns membros da família muito achegados à pessoa recém-cega. Em relação à família de um cego é mais do que nunca de importância vital que eles se compenetrem inteiramente que o fato deles terem usado a venda por um breve espaço de tempo não os capacita a aprenderem o que é a cegueira. Poucas coisas podem afetar tanto as relações de família como um dos membros da mesma, portador de visão parecer acreditar ou realmente acreditar que ele sentiu inteiramente o significado da deficiência do cego.
4 - O uso da venda para controlar o impacto de visitantes -com uso de visão, num programa para cegos. - Devido às reações emocionais de uma grande parte do público em face da cegueira e devido ao fato de que poucos deles mantêm contato com indivíduos cegos, o problema de visitantes às organizações ou instituições que trabalham com cegos, representam um problema dos maiores.
Por um lado, a agência, a instituição deseja que se tome conhecimento dos seus trabalhos em particular, e também pretende educar o público quanto aos problemas da cegueira em geral e apresentar alguns dos métodos para supe¬rar estes problemas. Por outro lado, qualquer coisa que se assemelhe a uma “casa aberta”, num lugar onde moram pessoas cegas ou trabalhando, convida a uma atitude de colocar o cego em exibição, como num museu ou jardim zoológico ocasio¬nando um grave prejuízo aos cegos que estão sob observação e oferecendo muito pouco, no sentido de um meio válido de educação do publico. Falando em termos gerais, uma espécie de passeio de observação em grupos não profissionais é coisa completamente fora de cogitação. Entretanto, quando surgirem ocasiões em que certos grupos do público em geral devem atravessar um estabelecimento onde há cegos trabalhan¬do, muito do trauma da situação pode ser tirado do cego, e a visita poderá ser mais proveitosa, se os visitantes fizerem uso de vendas.
O St. Paul restringe suas visitas àqueles que têm um interesse profissional no programa, a tal ponto que ninguém, exceto aos visitantes profissionais é permitida a entrada nas classes, com os alunos em aula. E, embora sendo profissionais, os visitantes precisam usar as vendas.
Os motivos para tais medidas são: o visitante profissional com os olhos vendados tem uma maior oportunidade para reconhecer o que está sendo atualmente ministrado, quanto à instrução a pessoa que é cega; ele trouxe consigo para casa, um tanto forçadamente, alguns dos problemas externos relacionados com a cegueira, tais como: os problemas da mobilidade, os da comunicação, os problemas da técnica. Ele é menos distraído por assuntos de relativamente menor importância como a aparência do treinando numa situação em classe (o que é particularmente importante para o profissional ainda não habituado a trabalhar com o cego e que poderia devotar toda sua atenção para ver “o que fazem os cegos”). Ele está capacitado a observar as classes e dependências do centro, do ponto de vista do treinando; ele ouve os treinandos agindo com muito maior liberdade do que o fariam se não soubessem que ele está de olhos vendados (observando assim o centro de treinamento em circunstâncias menos artificiais).
Estas medidas também significam que os treinandos não se sentem constrangidos ou distraídos no seu trabalho pela presença de visitantes que observam suas reações, um ponto especialmente importante para uma atmosfera de estudos, completamente livre. O treinando sabe que não está sendo “comiserado” pelas pessoas dotadas de visão que entram na classe com o objetivo de observá-los. Ele compreende, outrossim, que naquela situação particular, embora o visitan¬te com os olhos vendados não seja cego, o treinando tem a vantagem de não ser perturbado, assim como o visitante que usa as vendas estará provavelmente sob o mesmo desconforto, ou pelo menos, tão ocupado considerando a novidade da situação a fim de ver o treinando cego, de uma posição superior.
Caso isto pareça ser uma forma de proteção exagerada aos cegos que devem voltar para um mundo de criaturas dotadas de visão, deve-se notar que aos treinandos se dá total treinamento quanto a agir com segurança na presença de pessoas dotadas de visão quando se locomovem pelo centro ou adjacências, nos intervalos das aulas, quando têm instruç5es de mobilidade na comunidade, e também nas horas de recreio no convívio de pessoas dotadas de visão e em circunstâncias regulares dos dotados de visão. Entretanto, na intimidade de uma classe de estudos, não é de se esperar que eles ajam como se estivessem num aquário, ou sendo observados através de um monóculo.
O uso de vendas como um instrumento de treinamento encontrará, talvez, a resistência dos mais antigos técnicos especializados que trabalham no campo há muito tempo. Encon¬trará ainda resistência mais especial daqueles que acham seu uso por demais traumatizante para poder aceitá-lo, não obstante sentindo-se sem vontade de encarar seus próprios temores.

NOTAS DE RODAPÉ
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1 - Alguns leitores encontrarão dificuldades nesta afirmação sobre educação e conversão. Diz-se com completo conhecimento do fato que o homem foi feito para lutar pela verdade e a verdade é a necessidade da humanidade e dos indivíduos de completar a verdade e a Verdade, é também a obrigação de cada um de nós como indivíduos de ajudar outros indivíduos e à humanidade em geral, para procurar e encontrar a ambos. Aqui estamos tratando da função do trabalho do técnico especializado voluntário para o cego “qua tale”, uma função que nós acreditamos firmemente seja a de “substituir os olhos”.

2 - Todos os membros da equipe dos docentes do Centro de Reabilitação de St. Paul usam as vendas pelo menos uma vez por mês, como um lembrete bem repisado para eles se lembra¬rem dos problemas que de outra maneira poderiam negligenciar.


APÊNDICE

A PREPARAÇÃO RELIGIOSA DO CEGO

Estamos considerando a educação religiosa do cego no final deste volume porque somente quando tivermos considerado a cegueira e o seu significado estaremos em posi¬ção de apreciar este assunto em todo o seu contexto.
Alguns pensam que a única coisa a ser feita para as pessoas cegas sob o ponto de vista religioso, é de santificá-los, de torná-los santos. Isto é verdade se signifi¬car que a única coisa que a religião deve fazer para qualquer pessoa, e portanto para o cego, é santificá-la. Mas é falso se significar que, de algum modo, a pessoa tem uma tendência especial para a santidade, que o resto da humanidade não tem.
Este ponto de vista não é religioso, mas supersticioso. Não é uma superstição formal e racional. Mas, é, não obstante, superstição e não muito afastada daquela das tri¬bos primitivas que deificavam o cego, achando que de algum modo eram representantes de Deus. Isto resulta de receios indefinidos e de emoções ocultas, como geralmente acontece com as superstições. A pessoa cega parece ter um poder contemplativo especial, que nós outros não possuímos. Esta superstição talvez não esteja muito remota e sua origem dos sentimentos primitivos sobre “mal olhado”.
Com esta noção vai um sentimento de choque quando as pessoas cegas são culpadas de pecado — sentimento maior do que se uma pessoa dotada de visão tivesse cometido pecado. Choque ao pecado não é uma coisa ruim; se for com todos os pecados cometidos por todas as pessoas e não apenas pelas pessoas cegas (aqui surge a dificuldade de definição; alguns tipos de “choques” com o pecado não são tanto resultado de uma atitude equilibrada que detesta qualquer ofensa a Deus, mas o resultado de uma espiritualidade perturbadora e neurótica). Mas, sentir-se chocado com os pecados das pessoas cegas e concordar com os pecados das outras criaturas é ser supersticioso.
Algumas vezes aqueles que esperam que a pessoa cega seja mais santa que o resto da humanidade, explicam como se sentem, quando o cego é culpado de violar uma lei divina: “São privados do sentido que Deus dá a nós outros. Não é de se esperar que estivessem tão perto de Deus que se envergonhassem disto?”.
Nenhuma lógica particular pode explicar o que eles tentam dizer. Seria mais lógico que, havendo alguma diferença entre os dois grupos, o ônus caísse sobre nós que podemos ver, e a quem Deus deu mais no plano sensorial. Parece que, se deve haver mais choque com os pecados de um grupo que com os do outro, este seria dirigido a nós que recebemos tanto de Deus. Mas não há lógica na superstição.
O que podemos dizer, se acreditamos que a dimensão da santidade mede-se pelo grau de conformidade da nossa vontade com a vontade de Deus, é que talvez a pessoa cega tenha maior oportunidade para um grau mais elevado de santidade. Podemos dizer isto (não nos esquecendo de ou¬tros fatores) considerando que a vontade divina exigiu ma¬is deles - para eles completa submissão inclui submissão à Sua vontade permissiva em relação a uma terrível e múltipla deficiência, da qual nós estamos livres.
Isto nos traz imediatamente a outra questão. Qual é a atitude, em relação a esta deficiência, que Deus pede da parte do indivíduo que suporta tal sofrimento? Muitos acham que se deve minorar sua deficiência; caso contrário não demonstrariam aquela submissão que Deus exige. Muitos parecem estar ensinando esta mesma noção à pessoa cega como se não fosse tão grave. Considere-a uma carga menor e não tão severa, ou parecerá que você esta res-sentido com a vontade de Deus”.
Esta estranha crença de que o Deus da Verdade nos pediria negar a verdade é difícil de ser compreendida. Quando quebramos um braço, a submissão à vontade de Deus não significaria chamar este fato, ou pensar nele como apenas uma severa, uma espécie de “distensão muscu¬lar”, creio. Quando sofremos uma dor, Deus não espera que a conformidade com a sua vontade nos leve a dizer ou pensar, que não é na realidade uma dor, mas “Uma espécie de comichão e desconforto”.
Quando alguém sofre a limitação da cegueira, não se espera que ele a suavize (nem tampouco que a exagere). Mas que a encare no seu significado completo. Somente as¬sim estaria dando sentido ao “seja feita a Vossa vontade e não a minha”.
Cristo, na Sua Paixão, não tentou diminuir Seu terrível sofrimento. Rezou para se livrar dele: “Meu Pai, se possível, afastai este cálice de mim”. Esta é a prece que o homem cego tem todo o direito e razão de dizer, quando procura se libertar da deficiência da cegueira pela restauração da visão e pelos outros meios disponíveis. E assim procura compensar de todas as maneiras possíveis as perdas da visão a fim de diminuir esta limitação. Então, como Cristo, a pessoa portadora de uma deficiência deve tentar dizer: “seja feita não a minha, mas a Vossa Vontade”.
O amor pela verdade exige que a pessoa cega veja sua deficiência tão objetivamente quanto possível, admitindo sua carga global, encarando a revolta de toda sua personalidade aos diversos aspectos da cegueira, e como sua natureza a rejeita e a odeia.
Se esconder a verdade de si mesmo, poderá desco¬brir que o ressentimento, a rejeição e o ódio estão se extraviando. Podem se dirigir contra outras pessoas, contra si mesmo e até contra Deus.
Se, de fato, ele cresce em santidade, se sua cegueira (a aceitação da cegueira) é um instrumento daquele progresso, então seu avanço na direção de Deus, pode ser grato por aquele instrumento como “o doce jugo e a leve carga” de Cr isto. É perfeitamente possível odiar as frustrações da cegueira enquanto se ama a cruz da cegueira.
No trabalho com a pessoa cega como no contato com todas as pessoas que sofrem e passam privações temos que enfrentar o problema global da existência do mal tanto físico como moral. Sugerimos, entretanto, esquecer o uso da palavra “aflição”, desde que suas conotações são todas no campo da punição e desde que inclui mais do que a permissiva vontade de Deus, e frequentemente leve às falsas conclusões.
Existem muitas outras noções que precisamos esclarecer, tanto para nós como para os outros. Distinção entre verdadeira santidade e várias espécies de falsa santidade, deve ser feita., Que o “falso martírio” familiar a todos os confessores e diretores espirituais é encontrado tanto entre as pessoas cegas corno entre as outras pessoas. O cego, como a pessoa de visão, pode adotar uma atitude que leva as pessoas a considerá-lo um mártir, completamente submissão aos vários golpes que a vida desfere, enquanto ao mesmo tempo, coloca-se numa posição, onde no seu sofrimento, ele domina todos que o cercam, fazendo com que toda a família gire em torno de sua vontade. O falso mártir consegue fazer brotar terríveis sentimentos de culpa naqueles que permitiram, por várias ocasiões, deixar vir à tona dúvida sobre sua sinceridade. E com cada nova “onda” de culpa, o “mártir” está mais e mais no controle. O terrível (verdadeiramente terrível) disto é que, geralmente, não é feito conscientemente. Tudo se passa no nível do subconsciente, de tal modo que o próprio “mártir” está convencido (ou quase convencido) da sua inferioridade. Submissão ou aparência de submissão não nasce de amor. É, ao contrario, capa para uma terrível hostilidade. Alimenta-se de ódio e nutre o ódio.
Cruzamos, então, com as aberrações sociais, rebeliões de várias maneiras. Precisamos distinguir quando isto é apenas uma mudança de ressentimentos e quando é uma rebelião contra a própria deficiência. Ações pecaminosas contra a Igreja, contra a sociedade, contra as leis divinas do matrimônio, quase sempre trazem na sua origem esta mesma rebelião íntima (talvez desconhecida pela própria pessoa, que pode levá-la em conta de alguma “iluminação”), uma rebelião contra a cegueira que nunca foi aceita por¬que não foi inteiramente compreendida.
Sob o aspecto moral (a questão da obediência ou desobediência às leis de Deus) sabemos de início que as leis divinas obrigam igualmente aos cegos e aos de visão. Ao mesmo tempo, entre as circunstâncias que alteram a natureza do pecado (aumentando ou diminuindo sua culpabilidade) estão muitos fatores relacionados com a cegueira e com as experiências enfraquecidas pela cegueira. Compreenderemos tudo isto mais a fundo quando compreendermos me¬lhor a cegueira.
Quanto à obrigação de adoração pública aos domingos, não se pode fazer consideração de ordem geral, Algumas pessoas cegas estão normalmente excluídas porque são doentes e presos ao leito. Outras por terem graves problemas neuróticos sentem-se impossibilitados de permanecer entre a multidão. Outros, por temerem se locomover, estão dispensados. Mas, há muitas pessoas que participam de atividades regulares da comunidade durante a semana, trabalham e se divertem. É um grave erro deter estas pessoas, geralmente dispensadas da obrigação, simples e unicamente por causa da cegueira.
Precisamos, também, compreender como é sensivelmente diferente qualquer forma de adoração pública para o cego e para o dotado de visão. Em todo sistema sacramen¬tal a coisa material é sinal de espiritual. O que aparece aos sentidos significa o que aparece à alma. A não ser que consideremos isto, seremos capazes de descuidar da freqüência com que o sentido requisitado é o da visão, 1 onde a coisa literalmente é o que conduz ao invisível. O reconhecimento desta dificuldade é de enorme importância na educação religiosa das crianças; precisamos tornar todas as coisas tangíveis neste processo de educação para que elas possam saber claramente o que está acontecendo. Também é importante no trato e na compreensão dos proble¬mas da pessoa cega em relação aos serviços religiosos.
Quanto à literatura religiosa (além do que já foi dito em geral no cap. 15, Restauração, parágrafo e) deve¬mos nos acautelar contra as várias agências de transcrições. Nossa tarefa é de aumentar a circulação e não de multiplicar e duplicar cópias de um mesmo livro.
É interessante notar como a grande percentagem de literatura Braille é de variedade “inspiracional”. Será parte disto, aos menos, um reflexo da já mencionada superstição? Parece, algumas vezes, que nós olhamos para as pessoas cegas e dizemos: “Aqui está um grupo que podemos le¬var à santidade”. No desejo de levarmos Deus às pessoas existe sempre a tentação de forçá-las à santidade, Tal esforço não produzirá frutos. Podemos forçar uma aparência de santidade quando na verdade ela vem somente do íntimo.
Nossa tarefa é de permitir ao indivíduo crescer (como Deus deseja), é de dar a ele a oportunidade para aprender sobre Deus, em cada fase do seu crescimento dar o conhecimento adequado. O ajudamos, o assistimos de tal maneira que ele seja independente. Nós o protegemos das ciladas do mal, não numa estufa, mas no mundo, Nós os defendemos dos males morais, não os impedindo de crescer, mas antes os ensinando a crescer para que possam escolher o bem e evitar o mal.
O mesmo acontece com a literatura religiosa para as pessoas cegas. Devemos tornar acessível a eles tudo que possa ajudá-los a conhecer, amar e servir a Deus. Mas não devemos tentar tornar esta literatura exclusivamente religiosa, ou mais religiosa do que para o dotado de visão.
A cegueira é uma deficiência múltipla, e os interessados no bem-estar espiritual do cego, reconhecerão este fato e tentarão conhecer melhor a cegueira a fim de ajudá-lo. Em muitas ocasiões, a pessoa cega os procurará para obter conselhos. Mas não há nada na cegueira que exija retirar-se de uma paróquia regular a educação do cego. As organizações religiosas especiais existem para tornar o indivíduo cego um membro mais ativo. A verdadeira medida do sucesso obtido (e a única justificação para a existência das mesmas) é a extensão alcançada.

NOTA DE RODAPÉ
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1- Isto é particularmente verdadeiro se, como rito romano da Igreja Católica, a linguagem litúrgica não é com¬preendida pelas pessoas. É extremamente difícil para o católico cego, concentrar-se no altar durante a Missa. Não tem a ajuda de um livro em Braille, visto que a transcrição ocuparia alguns volumes e seria impraticável. Por es¬ta razão, um grupo de padres, designados para o trabalho com a pessoa cega, unanimemente fizeram uma petição a fa¬vor do uso do vernáculo na liturgia.

SUMÁRIO
Agradecimento
Prefacio
Introdução

Primeira Parte -Analise do que é Perda

1 - O homem de visão morre
2 - Perdas básicas em relação à segurança Psicológica
1 - Perda da integridade física
2 - Perda da confiança nos sentidos remanescentes
3 - Perda do contato real com o meio ambiente
4 - Perda do campo visual
5 - Perda da segurança luminosa
Pausa para respirar
3 - Perdas nas habilidades básicas
6 - Perda da mobilidade
7 - Perda das técnicas da vida diária
4 - Perdas na Comunicação
8 - Perda na facilidade da comunicação escrita
9 - Perda na facilidade da comunicação falada
10 - Perda do Progresso Informativo
5 - Perdas na Apreciação
11- Perda da percepção visual do agradável
12 - Perda da percepção visual do belo
6 - Perdas Relacionadas à ocupação e a situação finan¬ceira
13 - Perda da recreação
14 - Perda da carreira, do objetivo vocacional da oportunidade de emprego
15 - Perda da segurança financeira
7 - Perdas que implicam na personalidade como um todo
16 - Perda da independência pessoal
17 - Perda da adequação social
18 - Perda da obscuridade
19 - A perda da auto-estima
20 - Perda da organização total da personalidade
8 - Consideração adicionais
1 - Perdas concomitantes
2 - Supostos benefícios resultantes da cegueira
3 - A tomada de posição no trabalho com o cego

Segunda Parte - Reabilitação e Restauração

9 - Auxiliando o homem que ficou cego a ganhar uma nova vida
10 - Treinando os outros sentidos
11 - Restauração da Segurança Psicológica
1 - O sentido da integridade física
2 - Confiança nos sentidos remanescentes
3 - Contato real com o ambiente
4 - Fundamentos Básicos: Campo Visual
5 - Segurança luminosa
12 -Restauração das habilidades Básicas
6 - Mobilidade
7 - Técnicas da vida diária
13 - Restauração da Facilidade de Comunicação
8 - Comunicação escrita
9 - Comunicação falada
10 - Progresso informativo
14 - Restauração de Apreciação
11 - Percepção do agradável
12 - Percepção do belo
15 - Restauração da Ocupação e da Situação Financeira
13 - Recreação
14 - Carreira - Finalidade Vocacional - Oportunidade de Empregos
15 - Segurança Financeira
16 - Restauração da Personalidade Global
16 - Independência pessoal
17 - Adequação social
18 - Obscuridade
19 – Auto-estima
20 - Organização total da personalidade
17 - Ajudando a Família

Terceira Parte - Problemas Especiais de Vários Grupos

19 - Problemas Especiais de Grupos de Idades Diferentes
1 - O grupo pré-escolar
2 - O grupo em Idade Escolar: Educação, Aonde e como
3 - O grupo de Jovens Adultos
4 - O grupo dos Velhos

20 - O cego congênito
21 - Os problemas especiais daqueles com deficiências físicas adicionais
1 - A cegueira e outras deficiências principais
2 - Comparando a Surdez com a Cegueira
3 - O cego - surdo
4 - Problemas especiais dos cegos com uma perda parcial da Audição
5 - Problemas criados por outras deficiências físicas
22 - Problemas especiais de pessoas cegas portadoras de doenças mentais ou de retardamentos mentais
1 - O doente mental
2 - O deficiente mental
23 - Problemas específicos daqueles com algum grau de visão
1 - Aqueles com um mínimo de visão residual
2 - Os dotados de visão parcial
24 - Problemas especiais apresentados pelo prognóstico
1 - Preparando para a cegueira
2 - Prognóstico e reabilitação

Quarta Parte - Trabalhos Organizados para os cegos

25 - Instituições e Organizações 312
1 - Pontos de vista
2 - Oficinas de trabalho especiais para os cegos
3 - O trabalho das organizações na atualidade e no futuro
26 - Aqueles que trabalham com o cego
1 - O profissional - cego ou não
2 - O voluntário
3 - A venda como instrumento de treinamento

Apêndice

 
 
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Fone: (11) 3768-2595
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