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Papel Social Cego

MARIA DIRCE A. VIEIRA / SÔNIA FIORONE

PAPEL SOCIAL CEGO

FACULDADE DE SERVIÇO SOCIAL

PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

SÃO PAULO

1977


À Prof. Maria Rachel Tolosa Jorge pela orientação, dedicação e interesse com que acompanhou o desenvolvimento deste trabalho;


Ao Prof. Sylas Fernandes Maciel pela valiosa colaboração e incentivo que nos dispensou;


A todos que direta ou indiretamente contribuíram para a realização deste trabalho,


nossos sinceros agradecimentos.


ÍNDICE


INTRODUÇÃO

I - PROPOSIÇÃO DO PROBLEMA.

II - CONCEITUAÇÃO DE TERMOS
1 – Papel social
2 – Cegueira
3 – “Papel Social Cego”
4 - Serviço Social

III - PESQUISA BIBLIOGRÁFICA
1 – Considerações Gerais sobre papel Social
1.1 Relações entre Papéis
1.2 Regu1amentação Social e Conflito de Papéis
1.3 Formação dos papéis Sociais
2 Considerações Gerais sobre a Cegueira
2.1 A Falsa Concepção da Cegueira
2.2 Anatomia Ocular e Fisiologia da Visão
2.2.1 Anatomia Ocular
2.2.2 Fisiologia da Visão
2.3 Epidemiologia e Etiologia da Visão
2.3.1 Epidemiologia da Cegueira
2.3.2 Etiologia da Cegueira
2.4 Significado Social da Cegueira
2.4.1 Através dos Tempos
2.4.2 Atitudes, Dinâmicas e Efeitos
2.4.3 Grupos Minoritários
2.5 Imp1icações Psicológicas da Cegueira
2.5.1 O Desenvolvimento da Personalidade – Cegueira Adquirida
2.5.2 Aspectos Peculiares do Desenvolvimento da Personalidade da Pessoa Cega Congênita
3 Serviço Social

IV – ANÁLISE

1 Assunção X Rejeição do "Papel Social Cego"

2 O Serviço Social e a Cegueira

CONCLUSÃO

BIBLIOGRAFIA

INTRODUÇÃO
Na condição de estagiarias da FECEL - Federação de Cegos Laboriosos, entidade que se destina a tratar dos interesses médico-profi1ático, educacional, cultural e ocupacional dos deficientes visuais, tivemos a oportunidade de contatar diretamente com a problemática da cegueira.

Entre os vários aspectos teóricos e práticos que prenderam nossa atenção durante este período de formação profissional, ressaltamos a compreensão dos conceitos que as pessoas têm em re1ação às potencialidades e limitações do indivíduo cego,que contribui para a manutenção e reforço do estereótipo social.

Esta compreensão foi possibilitada pelo estágio que nos mostrou a discrepância entre o estereótipo social "cego" e as pessoas na condição de cegueira.

Face a esta realidade optamos pelo estudo do "papel social cego", cuja assunção ou rejeição implica em vantagens e desvantagens, e as possibilidades de intervenção do Serviço Social como instrumento de conscientização e mudança nesta situação específica.

"A maioria das pessoas cegas está marginalizada da sociedade, como se "de direito" já não fossem membros desta sociedade, a qual, quase que inconscientemente, os tem rejeitado.*

Um dos elementos responsáveis por esta situação, a adoção de conceitos previamente formulados, que determinam as atitudes e sentimentos dos videntes em relação às pessoas cegas, bem como as oportunidades sociais que lhes são concedidas.

Este trabalho torna-se importante na medida em que possibilita, aos indivíduos cegos e às pessoas que direta ou indiretamente se relacionem com a problemática da cegueira, o conhecimento e entendimento do verdadeiro significado da cegueira, permitindo maior compreensão das potencialidades e limitações decorrentes desta situação e servindo como um referencial para o tratamento com os deficientes visuais. Pode ser mais uma contribuição para alertar a sociedade que o importante é solucionar os problemas dos indivíduos cegos que escondê-los sob a égide das instituições específicas, do protecionismo familiar e da caridade pública.

Para nós este trabalho torna-se particularmente importante porque significa um estudo analítico da "situação cegueira", com vistas às possibilidades de intervenção em Serviço Social.

Abordaremos o tema analisando os componentes da situação cegueira, a forma como se relacionam e o que garante a estrutura desta situação. Para tanto serão utilizados conhecimentos da Sociologia, do Serviço Social, da Psicologia e Oftalmologia. Isto nos dará condições para analisar as possibilidades de intervenção do Serviço Social nesta situação, no sentido de integrar os indivíduos cegos à sociedade.

* II CONGRESSO BRASILEIRO DE EDUCAÇÃO DE DEFICIENTES VISUAIS –Brasília, Ministério da Educação e Cultura - 78 p.


PROPOSIÇÃO DO PROBLEMA

Anteriormente ao estagio na FECEL, como tantas outras pessoas, tínhamos também uma visão estereotipada em relação à cegueira e ao indivíduo cego. O contato indireto e esporádico com a problemática da. cegueira dava-nos somente oportunidade de ver esta situação de maneira restrita: admirávamos certas habilidades nos indivíduos cegos que ju1gávamosS pudessem ser apenas atributos das pessoas videntes (por ex.: fazer troco, tomar ônibus sozinhos, reconhecer coreø, exercer certas profissões). Ao mesmo tempo sentíamos constrangimento em manter contato direto e natural com as pessoas nessas condições, pelo impacto que a própria situação oferecia, bem como pelo reflexo de nossos próprios conceitos.

Através do estagio, que nos levou a um contato direto com a problemática da cegueira e as pessoas nela envolvidas, tivemos oportunidade de reformular certos conceitos e adquirir outros, o que tem nos levada a já encarar de forma mais natural e realística a situação.

O estagio nos propiciou avaliar nossas próprias atitudes e as de outras pessoas em relação à cegueira. O contato com os assistidos da FECEL ensejou ainda a compreensão de que muitas vezes as próprias pessoas cegas concorrem para a formação e manutenção de uma imagem. estereotipada e das atitudes preconceituosas que existem em relação a elas.

Nossa experiência neste campo nos mostrou que existe uni "papel social cego", cujo desempenho pode ou. não resultar em utilidade e proveito para. o indivíduo.

Frente a. isto nos propomos a estudar o "papel social cego", analisando as possibilidades de intervenção do Serviço Social, com o propósito de evitar ou minimizar este papel, para possibilitar a integração social da pessoa cega.


CONCEITUAÇÃO DE TERMOS

1 - Papel Social
De acordo com FICHTER (1), "Os padrões de comportamento são as uniformidades repetidas de comportamento social, tanto manifestas como latentes. Quando certo número de padrões relacionados entre si se agrupam ao redor de uma função social, chamamos a esta combinação papel social".

Ressalta o mesmo autor que não se deve pensar que o indivíduo assume simplesmente o papei por algum tempo e depois se desfaz dele, mas que estes estão profundamente arraigados em suas maneiras habituais de pensar e agir - é aprendido no processo de socialização e desempenhado nos diferentes grupos que, o indivíduo participa, sendo uma parte integrante de sua personalidade social.
A personalidade social é, essencialmente, o sistema total de papéis através dos quais o indivíduo se relaciona com a sociedade. O indivíduo participa em numerosos grupos, desempenhando em cada um diferentes papéis, fazendo-o na forma prevista, ou seja, de acordo com as normas ditadas por seu grupo, ou, de modo mais geral, pela sociedade. Porém é sempre o mesmo indivíduo. O que muda é a situação, a função, o grupo. É correspondendo a esses três elementos que o indivíduo realiza seu papel padronizado.

Um determinado indivíduo define-se pelos papéis e posições que exerce na sociedade, posições essas que não podem ser vistas sem relação com outras - a posição em relação com outras posições num mesmo grupo ou sociedade é que define o status; e o padrão de comportamento que se espera das pessoas que ocupam determinado status define o papel.

2 - Cegueira
- Legal (2) é a redução de 80% ou mais da visão normal.
-  Social  (3) o conceito inclui não apenas as pessoas com alguma percepção visual, mas também as tota1mente cegas.
- Psicológica: (4) é considerado cego aquele que nasceu cego ou. que perdeu a vista em tenra idade (mais ou menos 5 anos) de modo a não poder basear os seus conceitos em experiências visuais.
- Oftalmol6gica: (5) cegueira significa um certo grau de deficiência da visão, referindo-se à acuidade visual do melhor olho, ap6s a melhor correção. Com base neste critério, distinguem-se três tipos de cegueira: cegueira total ou absoluta, cegueira prática e cegueira econ6mica ou profissional.

A - Cegueira total ou absoluta é a perda total da visão, isto é visão igual a zero. Este é o conceito popular de cegueira. Acuidade Visual = O

B - Cegueira prática, que corresponde a 2% de visão; dá para contar dedos a um metro.
Acuidade Visual = 2% O indivíduo é praticamente cego e não pode se locomover, a
não ser com recursos auxiliares (bengala, por ex.).

C - Cegueira econômica ou profissional é a acuidade visual igual ou abaixo de 10% da visão. Neste estado o cego não terá visão suficiente para leitura só podendo ler pelo processo Brail1e. Embora tenha sua capaciia4e de trabalho bastante reduzida, pode ser treinado num rol expressivo de profissões que lhe são apropriadas. Chama-se cegueira profissional porque embora apresente um resíduo de visão relativamente significante, não terá capacidade para o desempenho da grande maioria das profissões.

Os indivíduos cuja acuidade visual está contida na faixa entre 30 e 10% de visão, são denominados "deficientes visuais ou amblíopes". Possuem capacidade de exercer um número maior de profissões do que os portadores de cegueira econômica ou profissional; norma1mente aprendem. a. ler por intermédio de educação especial, através de "auxílios ópticos" e com textos ampliados. Para aqueles que após a melhor correção em ambos os olhos apresentam acuidade visual entre 90 e 40% de visão, usa-se a expressão “visão sub-normal".

Dada a necessidade de se estabelecer uma definição de cegueira e de deficiência visual a ser aceita universalmente, o "grupo de estudos da OMS (*) sobre Prevenção da Cegueira" (6), concluiu que para isso seria necessário, inicialmente, classificar as cegueiras e deficiências visuais em 6 categorias, baseando no nível de visão remanescente do paciente.

Recomendou ainda que, embora a constatação da cegueira se faça pela tomada da acuidade visual para longe, se tirasse, sempre que possível, a acuidade visual para perto - esta será tomada com os dois olhos e após melhor correção.

A Organização Mundial da Saúde recomenda a todas as nações o uso da tabela que se segue – “CATEGORIAS DE DEFICIÊNCIA VISUAL E CEGUEIRA”, esclarecendo que os números correspondentes à categoria de cegueira ou de deficiência visual (1, 2, 3, 4, 5 e 9) devem ser usados como 4º dígito na codificação usada para Classificação Internacional de Doenças, em que a cegueira está codificada como 389.


(*) - Organização Mundial de Saúde.

(1)  - FICHTER, Joseph H. - (Sociology) Sociologia, Trad. Hebe Camargo Leme. São Paulo, Ed. Pedagógica e Universitária 1973, 243 p.

(2) - BANDUCCI, Luiza – O Reajustamento Social do Cego - trabalho de Conclusão de Curso, São Paulo, IAPC, 1951, 20 p.
(3) – Ibid, 20 p
(4) – Ibid, 20 p
(5) – BRASIL,  Secretaria de Estado da Saúde, Instituto de Saúde, Serviço de Oftalmologia Sanitária, - A Prevenção da Cegueira, São Paulo, 1973, 6-9.
(6) - Re1atório Técnico n. 518. Genebra. 1973. In  Secretaria de Estado da Saúde. Instituto de Saúde. Serviço de Oftalmologia Sanitária – Prevenção da Cegueira. São Paulo, 1973. 9 p.

3 - Papel Social “Cego”

De acordo com CALLIS (7), a cegueira, assim como o sexo, a idade e a cor da pele, é uma característica fisicamente reconhecível, e isto tem como conseqüência que a pessoa cega seja vista como o "cego" e passe a estar confinada a um papel unitário, que se superpõe a. todos os outros, "o papel da cegueira".

Segundo LUKOFF (8), há quatro tipos de papéis principais:
- Tradicional: este termo é para designar as pessoas cegas que se consideram definidas somente em função de sua cegueira, ou então que se ajustaram às concepções que a sociedade tem sobre os cegos; são geralmente dependentes e participantes dos programas das obras de assistência aos cegos; em seu círculo de amizades e relações s6 estão pessoas cegas; trabalham possivelmente em oficinas abrigadas ou ocupações tradicionais reservadas as pessoas cegas;
- Retraído: quase todas as pessoas acometidas de cegueira recente se incluem no grupo de retraídos; esse grupo se caracteriza pelo fato de ver sua cegueira através dos estereótipos que tiveram como pessoas videntes, considerando-se assim, objeto de piedade; consideram-se por isto jogados ou mesmo atirados ao mundo dos cegos;
- Inovador: alguns cegos são conscientes das expectativas e atitudes que lhes são dirigidas, mas não podem aceitá-las por significarem noções errôneas sobre suas capacidades; constituindo uma minoria, para eles é impossível reeducar todas as pessoas videntes, julgando mais conveniente participar do "jogo", aceitando ajuda quando não necessitam e mostrando cortesia com o benefício; dão preferência às profissões que são independentes da supervisão de obras sociais e que oferecem maior independência financeira, numa tentativa de se aproximarem o maia possível do "mundo dos videntes", para que suas reais capacidades e limitações sejam de fato percebidas; no "mundo dos videntes" se originem seus objetivos;
- Rebelde: os indivíduos que assumem este papel, recusam submeter-se às condições tradicionais estabelecidas para as pessoas cegas; não se identificam como pessoas cegas; vêm com desprezo aqueles que freqüentam oficinas abrigadas e obras para cegos.


4 - Serviço Social

De acordo com FALCÃO (9), "O Serviço Social está inserido no campo das ciências humanas como disciplina profissional destinada a intervir na realidade humano-social”.

A autora vale-se do termo disciplina profissional para enfatizar a missão primeira do Serviço Social que é "produzir mudanças na realidade humano-social, mais que produzir conhecimentos ou. teorias a respeito desta realidade..."

O Serviço Social centra sua intervenção na promoção de condições de atendimento às necessidades humanas básicas de subsistência e de participação. Neste sentido compartilha com outras disciplinas profissionais da busca de criação de condições de atendimento destas necessidades".

Continuando, Falcão salienta que as tarefas específicas que cabem ao Serviço Social na promoção de condições de atendimento às necessidades humanas básicas de subsistência e de participação, "centram-se na articu1ação e desenvolvimento de potencialidades e habilidades dos cidadãos e grupos de um lado e, das estruturas, sistemas e recursos de outro.

A tendência atual é situar o foco da intervenção do Serviço Social no processo de inter-relações do homem com a sociedade e dos homens entre si".

(7) CALLIS, Maria Lúcia Lanfranchi de. - A Cegueira Recente e o Serviço Social de Casos. Trabalho Conclusão de Curso, São Paulo, 1962. 15 p.
(8) LUKOFF, Irving. - A Sociological Appraisal of Blindness. Chapter II, Social Casework and Blindness. New York, Ed. Samuel Finestons, Mar., 1960.
(9) FALCÃO, Maria do Carmo Brandt de Carvalho. -  Serviço Social: Uma Nova Visão Teórica. São Paulo, Cortez & Moraes, 1977 17p.


III - PESQUISA BIBLIOGRÁFICA


1 - Considerações Gerais Sobre Papel Social - Todo ser humano nasce em uma sociedade que não é informal, mas sim organizada. A sociedade como um todo e suas partes, grandes e pequenos grupos, classes sociais, instituições e organizações, é organizada numa complexa estrutura. Os antropólogos mostraram que a estrutura de todas as sociedades - até as menores, as pró-letradas que nos parecem simples - possuem uma forma e uma estrutura bem elaboradas. O modo de organização de grupos e sociedades estabelece normas que referenciam a percepção seus próprios membros e de seu comportamento. Assim, a sociedade propõe situações sociais mais ou menos definidas e posições conjugadas com papéis a serem preenchidos.

Numa situação cada papel e cada posição estão relacionados com outros papéis e outras posições. No teatro um ator dialoga com outro; assim também  na vida cotidiana, os indivíduos têm suas relações definidas por sua situação, devendo portanto corresponder a seu papel e preencher a sua posição.

1.1 - Relações entre Papéis
Os papéis sociais não existem isoladamente, mas sim em relação aos demais. Os diferentes papéis sociais que um indivíduo desempenha estão relacionados entre si dentro da personalidade desse indivíduo, porém, estão também separados e coletivamente em conexão com os papéis de outros indivíduos - a esta conexão denominamos relações sociais mútuas e recíprocas (Fichter , 1967).

Os indivíduos reagem entre si em seus papéis sociais e através deles.

Para melhor entendimento, exemplificaremos estas relações, tomando como base uma adaptação da Henry Mendras, em seu livro "Princípios de sociologia” (10):

O papel A será o do professor. Este papel é claramente definido pela instituição, a escola. A sociedade inteira define o que é uma escola e o que é um professor. O papel do professor se define num contexto preciso: a situação do ensino de hoje. Esse papel social de professor relaciona-se com certo número de papéis sociais a saber: B, os alunos, C, a direção; D, os outros professores; E, os pais dos alunos.

Tentemos compreender quais as re1ações de papéis que existem. entre o papel A e os papéis associados ou contra-papéis B, C, D, E, que formam um campo de papéis. O papel A encontra-se definido pelas "expectativas" dos outros papéis. Os alunos esperam algo do professor, e este tenta corresponder às expectativas deles. Os outros professores esperam certo comportamento do colega, e este último tenta comportar-se "como é conveniente”. A direção e os pais esperam também comportamentos e atitudes do professor, e este se esforça para corresponder a essa expectativa.

Percebe-se através do exemplo que a interdependência , de papéis relacionados, é mostrada pelo fato de que toda posição envolve tanto direitos como obrigaç5es. Não existiriam nem direitos e nem obrigações se os papéis não estivessem definidos em suas relações de uns para com os outros. O mesmo grupo de normas proporciona prescrições para cada papel num conjunto de papéis inter1igados.

Isto significa que o ocupante de uma posição aprende mais ou menos ao mesmo tempo as prescrições de seu próprio papel e dos papéis diretamente relacionados.

Todo papel faz parte necessariamente de uma rede de papéis interdependentes, e pode ser modificado por mudanças em outras partes da rede.

(1O) MENDRAS, Henry. – Princípios de Sociologia - Unia iniciação à Análise Sociológica (Elementos de Sociologia). Trad. Patrick Davos, 4ª ed.,  Rio de Janeiro, Zahar, 1975. 89 p.


1. 2 - Regulamentação Social e Conflito de Papéis

Considerando o exemplo anterior, vimos que o papel A é definido pelas expectativas doa papéis B, C, D e E, mas em que medida A é obrigado a corresponder as expectativas dos outros papéis? Será que todas as expectativas se impõem com a mesma força, ou existem expectativas que são mais constrangedoras para o papel A?

Existem expectativas necessárias, expectativas obrigatórias e expectativas facultativas que correspondem aos três tipos essenciais de sanções que a sociedade e os grupos sociais dispõem, com relação aos seus membros, para impor-1hes o respeito às regras sociais.

A expectativa necessária se impõe completamente e o detentor de um papel tem apenas uma liberdade restrita a esse respeito - se não satisfizer tais expectativas, será punido de modo brutal. O único meio de esquivar-se às expectativas consiste em esconder-se para escapar às sanções.

As expectativas obrigatórias são exercidas no seio de um grupo social, podendo-se, até certo ponto, contorná-las, por não implicar em sanções tão rígidas e completas como no caso precedente. Certos grupos sociais impõem uma regra de conduta aos seus membros, mas eles podem conformar-se mais ou menos; e, se desejam realmente escapar a elas, sempre têm a possibilidade de sair do grupo sem expor-se às sanções necessárias.

Com relação às expectativas facultativas, tem-se a liberdade de respeitá-las mais ou menos, já que não há sanções - os outros membros do grupo deixam simplesmente perceber ao infrator que ele está agindo mal.

Nas expectativas necessárias e obrigatórias as sanções são vistas realmente como negativas - o desempenho de papéis não é recompensado, enquanto que as expectativas facultativas são essencialmente compensadas por sanções positivas. Ao desempenhar satisfatoriamente o seu papel uma pessoa conquista êxito e sorrisos - com o bom desempenho do papel, ela coopera com o funcionamento da máquina social e todo mundo mostra seu reconhecimento.

A pressão da sociedade se exerce, portanto, muito mais através de sanções positivas do que negativas. No exemplo, o jogo de sanções positivas que os alunos promovem podem ser mais sensíveis para o professor do que as sanções negativas utilizadas pela direção. As conseqüências dessas últimas são evidentemente mais graves, porém devido aos poucos contatos que o professor tem com a direção, as sanções negativas têm pouca importância na sua vida diária, enquanto que os alunos podem tornar -lhe a vida insuportável em cada hora de aula.

Pode surgir ainda conflito entre as expectativas dos vários contra-papéis ou papéis associados. O aluno procura não se aborrecer demais, enquanto a direção deseja que ele se instrua. Cabe ao professor, ao mesmo tempo, instruir e distrair os alunos. O professor que se dá "bem demais" coma os alunos se arrisca a entrar em conflito com os outros professores; estes preferem colegas que são moderadamente bem sucedidos com os a1unos. Constitui a tarefa de cada indivíduo encontrar um compromisso entre as expectativas conflitantes utilizando com este fim a sua personalidade e outros jogos de papéis - terá que se decidir por uma ou outra alternativa.

O "conformista" desempenha seu papel conformando-se da forma mais exata possível às expectativas institucionalizadas, enquanto o "deviacionista” (que desempenha seu papel desviando-se do comportamento normal) pode aceitar as sanções ou procurar fugir delas.

1.3 - Formação dos Papéis Sociais

De acordo com FICHTER (1), o papel social não é uma realização imaginária da pessoa, mas criação da cultura, na medida em que os indivíduos o realizaram repetidas vezes. Embora os papéis principais existam em toda parte, sua formação foi, de certo modo, diferente em cada uma das diversas grandes sociedades. São identicamente aprendidos, visto que os indivíduos adquirem a cultura de seu grupo, embora possam tornar-se uma parte tão íntima de sua personalidade que são representados sem que se tenha
consciência de seu caráter social. Os papéis não são pessoas, são a representação no palco social.

A existência e o funcionamento dos papéis sociais básicos são condições necessárias para existir uma vida social. Como a própria cultura acham-se presentes como algo inerente à sociedade e, quanto à sua origem e existência, não requerem que se haja atingido determinado nível de desenvolvimento num povo.

Um breve conhecimento das diferentes culturas do mundo é suficientes para reconhecer que nem sequer os papéis básicos são desempenhados de modo idêntico em todos os lugares - eles se configuram segundo as exigências da sociedade ou cultura particular em que se desempenham. O número, conteúdo e gênero dos papéis sociais existentes, numa dada sociedade, são o produto que essa desenvolveu.

Portanto, pode-se dizer que os papéis sociais são fórmulas já preparadas, pré-existentes de comportamento social, às quais o indivíduo se ajusta. Num sentido restrito, em a1guns aspectos do papel existe uma acomodação, um ajustamento mútuo. Distinguem-se dois modos gerais em que se dá este ajustamento, ou seja, em que se encontra o indivíduo e os papéis que deve desempenhar. Estes modos são a atribuição e a assunção (Pichter,1967).

A atribuição de papeis sociais significa que estes são dados aos indivíduos externamente, de fora. Esta atribuição efetua-se de duas maneiras, dependendo do tipo de papel social de que se trate. Em alguns papéis a atribuição se dá automaticamente, como por exemplo os de filha, filho, idade, sexo, raça. Em outros a atribuição pode ser também intencional, como por exemplo na adoção de um filho ou quando um indivíduo é designado para o papel de chefe de vendas.

Um indivíduo adquire um papel por assunção quando o adota voluntariamente, por sua decisão pessoal, para uma realização individual, como por exemplo, quando se decide seguir uma profissão e não outra, solicitar a admissão ou algum cargo em determinados grupos.

Resta apenas salientar em que medida um individuo escolhe um papel para satisfazer suas necessidades psicológicas e pode assim identificar-se mais facilmente com o papel social que escolheu. O indivíduo que desempenha um papel tende a identificar-se mais ou menos com esse papel e procura desempenhá-lo bem, não simplesmente para corresponder às expectativas dos outros, mas também para satisfazer suas necessidades pessoais e motivações íntimas.

(l) FICHTER, Joseph H. - Sociologia (Sociology) Trad. Hebe Camargo Leme. São Paulo, E. P.U. I973, 250 p.


2 – Considerações Gerais sobre a Cegueira

2.1 - A Falsa Concepção da Cegueira

A cegueira é uma das incapacidades que atingem o homem com relativa freqüência e que, no entanto, é tão pouco compreendida. As opiniões sobre a vida, personalidade e habilidades das pessoas cegas são tão diversas e surpreendentes e, em torno disso tantas histórias absurdas são contadas, que julgamos necessário apresentar algumas considerações sobre a falsa concepção da cegueira, baseadas na vasta literatura que existe a respeito e também em nossa experiência pessoal adquirida no contato direto com pessoas cegas no estágio que fazemos na FECEL.

Pretendemos com isto trazer um pouco mais de esclarecimento sobre o assunto.

As opiniões a respeito dos dons privilegiados dos portadores de cegueira são as mais variadas. Embora sem nenhum fundo científico, é opinião corrente que uma pessoa ao ficar cega adquire melhor acuidade auditiva, melhor tato, melhor olfato, memória prodigiosa e esplêndido sentido facial, uma espécie de compensação.

Não estando em contato com indivíduos cegos, as pessoas não se lembram que existem aqueles que possuem dificuldades mú1tiplas. Alguns não possuem tato, por várias razões, e encontram, portanto, grande dificuldade no aprendizado do Braile; há ainda os que não possuem olfato ou o têm bastante deficiente , e os que não possuem o menor sentido de orientação.

Julga-se de maneira simplista, que uma vez excluído o uso dos olhos, os demais sentidos adquirirão uma hiper acuidade e melhor obedecerão à vontade do indivíduo,  que deve possuir memória excepcional porque não pode lançar mão de certos artifícios como caderno de notas, lista telefônica e outros - isto se deve ao fato do desconhecimento das reais habilidades e limitações da pessoa cega.

A atitude comum do público e principalmente da imprensa se caracteriza como um misto de admiração e piedade. A admiração cria um terreno propício ao desenvolvimento das mais absurdas das histerias e a piedade conduz a caridade impulsiva e mal dirigida (Banducci, 1951).

O público aceita todas as tolices que surgem a respeito dos indivíduos cegos, e alguns, por outro lado, se aproveitam desta situação.

Ilustrando, através da experiência do autor cego HAWKES (2) - pode-se dizer que a maioria dos cegos conhece as cores das flores mais comuns. Quando se lhes coloca um ramo de flores nas mãos são capazes de reconhecê-las pelo tato e pelo perfume. Atualmente porém, com a grande variedade de cores das flores, este pequeno artifício se torna bastante perigoso. Há o caso também daqueles que são capazes de distinguir notas - é que a maioria dos indivíduos cegos usa carteiras coma varias divisões, guardando em cada uma delas notas de um determinado valor. Isto lhes possibilita encontrá-las facilmente, fazer trocos, dando a impressão de que são capazes de distinguí-las.

O exposto nos mostra que os indivíduos cegos não são prodígios ou raridades. Embora reconhecendo que a cegueira acarreta limitações para os indivíduos, não podemos esquecer que são criaturas humanas como qualquer um de n6s, bons ou maus, inteligentes ou tardo de compreensão, temperamentais ou dóceis, e em tudo, apresentam, no mesmo grau e natureza, as diferenças individuais encontradas entre as pessoas que enxergam.

2.2 - Anatomia Ocular e Fisiologia da Visão (3)

Em se tratando de cegueira, faz-se necessário o conhecimento de noções elementares sobre a anatomia e fisiologia dos 6rgãos da visão, como embasamento para quem lida direta ou indiretamente com esta problemática.

(2) HAWKES, Clarence - Alguns Erros Comuns a Respeito da Cegueira. In: O Reajustamento Social do Cego. Trabalho de Conclusão de Curso. São Paulo, I.A.P.C., 1951.

(3) CERQUEIRA, Edna. Calciolari et alii. -Oftalmologia Sanitária Escolar - Aspectos Educativos. São Paulo, Secretaria de Estado da Educação, 1974. p. 19-28.

2.2.1 - Anatomia Ocular
O globo ocular é o órgão destinado a formar imagens dos objetos, que impressionando os elementos sensoriais nele existenteø, são transmitidas ao sistema nervoso central, onde se integram no sentido da visão.

Os órgãos da visão constam de 2 globos oculares e órgãos anexos.

A - Globos Oculares
São ovalados e estão localizados na parte anterior das cavidades orbitárias. O diâmetro antero-posterior do olho mede cerca de 24 mm.

Cada globo ocular possui três camadas ou túnicas concêntricas:
- túnica externa, fibrosa com função protetora;
- túnica média, vascular com função nutritiva;
- túnica interna, nervosa com função sensorial.


A Túnica Externa ou Esclerótica é constituída de:
a. esclerótica;
b. córnea.

Os 5/6 posteriores da túnica externa constituem a escler6tica. É uma membrana fibrosa, resistente, opaca, de coloração branca. Sua porção visível é conhecida por "branco do olho". O 1/6 anterior, transparente, denomina-se córnea.

A esclerótica é opaca porque suas fibras entrecruzam-se em todas as direções, enquanto que a córnea, devido à disposição paralela de suas fibras, possibilita a penetração dos raios luminosos.

A túnica Média ou Úvea é constituída de:
c. coróide;
d. corpo ciliar;
e. íris

Os 2/3 posteriores da túnica média constituem a coróide. É uma membrana pigmentada, escura, rica em vasos sanguíneos.

O corpo ciliar é um espessamento da túnica média e liga a coróide com a íris. Produz o humor aquoso.

A parte anterior da túnica média denomina-se íris. É o disco colorido do olho. Em sua parte central apresenta um orifício - a pupila (f). A íris é provida de músculos que determinam a contração ou dilatação da pupila, respectivamente, conforme a. maior ou menor intensidade de luz.

A Túnica Interna ou Retina é composta de tecido nervoso contendo substâncias sensíveis à luz.

A retina (g) possui duas espécies de células sensitivas: os cones e os bastonetes. Os cones são responsáveis pela percepção das cores e pela visão central; os bastonetes, pela visão em condições de pouca luminosidade e pela visão periférica Os bastonetes possuem um pigmento - a púrpura visual; e como componente do mesmo, associada a uma proteína, é encontrada a vitamina A.

As terminações das células nervosas da retina, unindo-se, passam a constituir o nervo ótico (h), que conduz a sensação visual diretamente ao cérebro, onde há interpretação e tornam-se conscientes as imagens focadas.

Sistema Dióptrico do Olho (*)
(*) Dióptrica é o ramo da Física que estuda os fenômenos da refração da luz.

Refração é o desvio sofrido pelos raios de luz quando passam de um meio transparente para outro.

Os raios luminosos atravessam diversos meios transparentes que constituem o sistema dióptrico do olho:
- córnea (já. descrita);
- humor aquoso (i);
- cristalino (j);
- humor vítreo ou corpo vítreo (l)

Humor aquoso é um fluido transparente e incolor, que ocupa o espaço existente entre a face posterior da córnea e anterior do cristalino.

O cristalino é uma lente biconvexa, transparente, situada atrás da íris, presa ao corpo ciliar pelo músculo ciliar (m).

Humor vítreo é uma substância gelatinosa, transparente e incolor, que ocupa o espaço delimitado pela face posterior do cristalino e retina.

Qualquer má-formação ou alteração na transparência desses quatro meios, resultará numa deficiência de menor ou. maior gravidade, podendo causar até a cegueira.

B - Órgãos Anexos
São representados por:
- sobrancelhas
- pálpebras
- cílios
- conjuntiva
- aparelho lacrimal
- músculos extrínsecos
- corpo adiposo orbitário

Sobrancelhas são pelos curtos, em forma de arco, situados na margem superior das órbitas. Protegem os olhos contra a transpiração, que descendo da região frontal poderia atingi-los.

Pá1pebras são duas pregas móveis (superior e inferior) situadas na frente dos olhos, recobertas externamente pela pele e internamente pela conjuntiva. Protegem os olhos contra o excesso de luz, traumatismos e durante o sono. Além disso, espalham a lágrima sobre a superfície do globo ocular.

Cílios são pelos existentes nas bordas das pálpebras Resguardam o olho de algumas partículas suspensas no ar.

Conjuntiva é uma membrana transparente que recobre interiormente as pálpebras e a parte anterior do globo ocular, exceto a córnea.

Aparelho lacrimal compreende as glândulas lacrimais e as vias de drenagem de sua secreção para o nariz. A g1ândula localiza-se na porção externa da pálpebra superior, O escoamento da lágrima para o nariz inicia-se pelos pontos lacrimais, situados na porção interna das pálpebras superior e inferior, continua pelos canículos que desembocam no saco lacrimal, de onde através do conduto lácrimo-nasal alcança o nariz. Parte da lágrima é eliminada diretamente por evaporação e outra parte é drenada para o nariz.

Músculos extrínsecos, em número de seis em cada olho, inserem-se na esclerótica e são responsáveis pelo movimento dos olhos em todas as direções.

A posição paralela dos olhos é mantida pela ação sincronizada desses músculos.

Corpo adiposo orbitário é um tecido gorduroso que envolve lateral e posteriormente a cavidade orbitária, protegendo o globo ocular.


2.2.2 - Fisiologia da Visão
Estimulação Visual - A chegada dos estímulos visuais até à retina é possibilitada pela penetração dos raios lun1inoso, que partindo do objeto focalizado, atravessam os meios transparentes do globo ocular (sistema dióptrico do olho).

A adaptação às condições de maior ou menor luminosidade está a cargo da pupila que, sob a ação dos músculos da íris, se dilata ou se contrai, controlando a quantidade de luz necessária para melhor visualização.

Fenômeno da Refração - A incidência dos raios luminosos sobre cada meio transparente (córnea, humor aquoso, cristalino e humor vítreo), possibilita a convergência dos mesmos sobre a retina:
- a córnea é responsável por cerca de 2/3 da convergência dos raios luminosos;
- o cristalino tem o poder de modificar sua curvatura, alongando-se ou tornando-se mais globoso, pela ação dos músculos ciliares, a fim. de que os estímulos visuais incidam exatamente sobre a retina. Essa acomodação não se faz necessária na focalização de objetos situados a mais de cinco metros: a convergência dos raios à retina faz-se naturalmente.

Imagem Consciente - As impressões recebidas pela retina são invertidas, levadas pelo nervo ótico ao cérebro, onde são corrigidas no córtex occipital e interpretadas, havendo então a conscientização da imagem.

A vitamina A e a lágrima possuem importante função quanto à visão:
- a lágrima mantém a superfície do olho sempre úmida, impedindo o ressecamento da córnea e da conjuntiva. Pode afastar corpos estranhos que se depositem na parte externa do olho. Tem ação germicida, destruindo bactérias;
- A vitamina A rege o funcionamento dos bastonetes da retina, responsáveis pela visão em condições de pouca luminosidade.

2.3 - Epidemiologia e Etiologia da Cegueira

O estudo da problemática da cegueira com vistas à intervenção do Serviço Social, requer o conhecimento de sua incidência e causas. Estas variáveis nos possibilitam avaliar o grau de importância do fenômeno enquanto problema social.

Tomaremos como base para este estudo o levantamento por amostragem realizado no Estado de São Paulo, de novembro de 1970 a abril de 1971, pela Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo (4), que propicia conhecer a freqüência atual do problema da cegueira, visto que desde 1940 não é feito recenseamento de cegos no Brasil.

2.3.1 - Epidemiologia da Cegueira
Resumo do trabalho feito:

População do Estado de São Paulo (1970) = 18.000.000
Pessoas levantadas  = 156. 422
Domicílios visitados = 35.884
Coeficiente de cegueira =62/100.000 h.

Há estudiosos do assunto que informam ser a Cegueira Econômica igual a aproximadamente cinco vezes a "cegueira de um metro", na qual se baseou este levantamento. Assim sendo, por estimativa, o coeficiente de Cegueira Econômica entre nós seria de 310/100.000 hab.
(4) Secretaria de Estado da Saúde. Instituto de Saúde, Serviço de Oftalmologia Sanitária, Prevenção da Cegueira. São Paulo, 1973. p. 10-23

a) Distribuição da cegueira em re1ação ao sexo e à idade
Idade Sexo masculino Sexo feminino Número total /100.000 hab.
0 a 9 anos 2 - 2 
10 a 19 anos - 2 2 
20 a 29 anos 3 - 3 
30 a 39 anos 9 3 12 
40 a 49 anos 9 1 10 
50 a 59 anos 10 2 12 
60 a 69 anos 14 8 22 
70 anos 11 22 33 
TOTAL 58 38 96 62,0
 60,4% 39,6%  


A amostragem confirma a predominância de cegos do sexo masculino (60,40%) em relação ao feminino (39,60%).

Faltam dados para estabelecer o coeficiente de cegos masculinos em relação à população masculina examinada, o mesmo se dando quanto aos coeficientes femininos.

Fato de real significação é o aumento do coeficiente em relação ao aumento de idade. Obviamente isto ocorre por conta da idade mais propícia ao glaucoma (* acima de 40 anos), às doenças vasculares, ao diabetes, etc.

Quanto mais civilizado e rico o país, maior é o coeficiente de cegueira acima dos 50 anos; quanto mais pobre e atrasado, mais comum à cegueira abaixo dos 30 anos.

O sexo masculino predomina em todas as faixas etárias, embora haja evidente prevalência de cegos do sexo feminino nas idades mais avançadas, acima de 70 anos.

b) Distribuição em relação à idade do início da ceguei ra


DISTRIBUIÇÃO DE CEGOS CONFORME A IDADE DO INICIO DA CEGUEIRA
Idade do início da cegueira Número %
De Ren. Nasc. A l1  meses 16 16,6
1 a 9 anos 8 8,3
10 a 19 anos 7 7,3
20 a 29 anos 3 3,1
30 a 39 anos 5 5,2
40 a 49 anos 14 13,6
50 a 59 anos 16 16,6
60 a 69 anos 10 10,5
70 anos 14 13,6
Não informados 3 3,1
TOTAL 96 

(*As definições das principais causas de cegueira encontram-se ao final deste item).


A curva desta distribuição mostra que no levantamento, a maior freqüência do início da cegueira está em duas faixas etárias: 1º ano de vida e 59/60 anos.

A incidência mínima do início da cegueira está na faixa entre 20 a 29 anos.

Acima dos 70 anos a incidência é alta.

CEGOS COM INÍCIO DA CEGUEIRA ENTRE RECÉM-NASCIDO E 11 MESES DE IDADE
CAUSAS Nº %
Catarata congênita 3 18,75
Oftalmia neonatorum 6 37,50
Lues congênita 1 3,13
Não determinados 2 6,25
Atrofia do nervo ótico 2 6,25
Atrofia do globo ocular (subnutrição) 1 3,13
TOTAL 16 

Incidência de cegos com início na faixa etária de 0-1 ano (recém-nascido) a 11 meses. Fato grave de se registrar é que essa é a faixa etária de maior incidência de início da cegueira no levantamento realizado, ao lado da faixa etária 50/59 anos. 


CEGOS COM INÍCIO DE CEGUEIRA ACIMA DE 45 ANOS
CAUSAS Nº %
Degeneração macular 1 2,18
Oftalmopatia endógena 5 10,85
Degen. Coriorretiniana 1 2,18
Atrofia do globo ocular 2 4,34
Retinite pigmentar 1 2,18
Glaucoma 25 54,34
Ceratite 1 2,18
Atrofia do nervo óptico 1 2,18
Catarata 7 15,21
Tracoma 1 2,18
Coriorretinite 1 2,18
TOTAL 46 


Incidência de cegos com início da cegueira na faixa acima dos 45 anos. 50% dos cegos tiveram sua cegueira iniciada após os 45 anos. Destaca-se aqui, predominantemente, o glaucoma como causa de cegueira, com índice específico de 54,34% dos casos.

CEGOS COM INÍCIO DE CEGUEIRA AOS 70 ANOS OU MAIS
CAUSAS Nº %
Glaucoma 7 50
Cataratas 4 28,57
Oftalmopatia Endógena 2 14,29
Degeneração Macular 1 7,14
TOTAL 14 


Incidência de cegos iniciados na faixa igual ou maior de 70 anos. Nas idades avançadas, isto é, igual ou superior a 70 anos, os glaucomas também são os casos determinantes de maior incidência de cegueira, 50%. A catarata vem a seguir com 28,57%.

DURAÇÃO DA CEGUEIRA
DURAÇÃO DA CEGUEIRA NÚMERO
De 0 a 10 anos 50
11 a 20 15
21 a 30 10
31 a 40 5
41 a 50 4
51 a 60 2
61 a 70 3
71 a 80 1
81 1
Não informados 4


Em relação ao período de duração da cegueira verifica-se três casos de catarata congênita. Dadas as precárias condições econômicas de tais pacientes, suas cegueiras que foram de 71, 33 e 28 anos, nunca tiveram assistência ou tratamento

A média de duração da cegueira é considerada relativamente alta, pois quase 50% apresentam cegueira há maia de dez anos.


2.3.2 - Etiologia da Cegueira
De acordo com Anais do III Simpósio sobre Problemática da cegueira (5), no mundo todo as principais causas de cegueira, referem-se principalmente a dois tipos de problemas: doenças endêmicas e estados sub-nutricionais.

Entre as principais doenças endêmicas causadoras de cegueira temos o tracoma e a oncocercíase. O tracoma é a mais comum das doenças oculares em termos de humanidade toda; há no mundo cerca de 400 milhões de pessoas portadoras de tracoma. A oncocercíase, que é uma verminose, é a mais grave doença causadora de cegueira e atinge a vários milhões de habitantes no mundo inteiro.

A hipovitaminose A é a grande causadora de cegueira por subnutrição, atingindo alguns milhões de crianças abaixo de 5 anos.

Não há levantamento sobre causas de cegueira no Brasil. Extrapolando os resultados do levantamento realizado no Estado de São Paulo, no que se refere à etiologia da cegueira, pode-se dizer que as causas mais comuns entre nós são:
1º - Glaucoma
2º - Catarata (cegueira curável)
3º - Oftalmopatias endógenas (tipos: uveites e outras de causas indeterminadas)
4º - Atrofia do nervo ótico
5º - Infecções externas do olho (conjuntivite blenorrágica do recém-nascido, ceratites e causas não especificadas).

(5) Brasil. Secretaria de Estado da Saúde, Instituto de Saúde, Serviço de Oftalmologia Sanitária - Anais III Simpósio sobre Problemática da Cegueira, Série A, n. 5 (28), São Paulo, 1975, 56 p.

As tabelas a seguir apresentam as causas cegueira encontradas no levantamento realizado.

CAUSAS DA CEGUEIRA
CAUSAS Nº %
Glaucoma 30 31,25
Catarata inoperável 10 10,42
Oftalmopatia endógena 10 10,42
Atrofia do nervo óptico 9 9,37
Infecção não especificada 6 6,25
Oftalmia neonatorum 6 6,25
Traumatismo – acidente 6 6,25
Tracoma 5 5,21
Ceratite 3 3,13
Tumores 1 1,04
Coriorretinite 1 1,04
Descolamento de retina 1 1,04
Degeneração macular 2 2,08
Degen. Coriorretiniana 1 1,04
Retinite pigmentar 3 3,13
Causas não determinadas 2 2,08
TOTAL 96 100


ETIOLOGIA DA CEGUEIRA
CAUSA Nº %
Cientificamente dúbia 42 43,75
Doença indeterminada 25 26,04
Doenças infecciosas 13 13,54
Acidentes – traumas 8 8,12
Origem genética 5 5,20
Doenças gerais 2 2,08
Tumores 1 1,04
TOTAL 96 100

Atualmente, está estabelecido, por grupos especialistas no assunto, que cerca de 75% dos casos de cegueira são evitáveis. O restante, cerca de 25% são inevitáveis, conseqüentes a doenças hereditárias, tumores malignos e outros.

A grande maioria dos cegos (nos países subdesenvolvidos e em. desenvolvimento) é constituída de doentes que procuram cuidados médicos muito tarde, quando a doença Já está em tal fase de evolução que dificulta a ações das medidas terapêutica.


DEFINIÇÃO DAS PRINCIPAIS  CAUSAS DA CEGUEIRA (6)

Glaucoma - doença ocular caracterizada por hipertensão intra-ocular resultando no endurecimento do globo ocular; escavação de disco óptico, campo visual restrito, anestesia da córnea, um halo colorido circundando a luz artificial e redução da acuidade visual.

Catarata - opacidade parcial ou completa do cristalino ou de sua cápsula.

Oftalmopatia endógena - qualquer doença que atinja o globo ocular propriamente dito.

Oftalmia neonatorum - oftalmia gonocócica ou purulenta do recém-nascido; é também chamada conjuntivite infecciosa aguda.

Traumatismo - estado local ou geral produzido por um ferimento ou lesão.

Tracoma - doença infecciosa da conjuntiva e da córnea produzindo dor, fotofobia, lacrimejamento; é causado pelo Chlamydozoon trachoma caracterizado por “pannos”, congestão, inflamação e hipertrofia folículo papilar da conjuntiva.

Ceratite - inflamação da córnea.

Coriorretinite - processo inflamatório que atinge as camadas da retina e da coróide.

Uveite - inflamação da úvea.

Conjuntivite - inflamação da conjuntiva.

(6) BLAKISTON - Dicionário Médico Ilustrado, 1ª ed.. São Paulo, Organização Andrei Editora, 1972.


2.4 - Significado Social da Cegueira
2.4.1 - Através dos tempos

Podem ser distinguidas três fases na evolução das atitudes sociais em relação à pessoa cega: (Callis, 1962).

A primeira refere-se aos tempos primitivos, em que o indivíduo nessas condições era tido como peso morto, inútil ao bem comum e por isto expulso da sociedade ou sacrificado.

Pode-se considerar a segunda fase como sendo a da Idade Média, em que a vida da pessoa cega era poupada, porém. entregue ao seu próprio destino. Eram considerados seres passivos, recipiente de caridade pública. Desde esta época já são colocados na posição de mendigos - através disso os videntes procuravam consola-los das tribulações deste mundo, tendo em vista a esperança da bem-aventurança eterna e celestial. A prática da mendicância, que em raros casos se apresenta capaz de resolver a situação material daqueles que a adotam, obviamente representa um atentado contra a formação moral da pessoa incapacitada e fere sua própria dignidade humana.

A terceira fase se configura como sendo a atual, na qual a sociedade tenta oferecer ao deficiente visual, oportunidade de educação adequada e reabilitação. Esta posição baseia-se numa filosofia democrática de vida, tendo como ponto de referência a consideração do homem na sua globalidade, e não na sua incapacidade. Leva em conta todas as capacidades das quais o indivíduo não ficou destituído pela perda da visão.

Esta posição, no entanto, não é universal. Se cada um analisar com profundidade e cuidado seu pensamento sobre a pessoa cega e seus atos em relação a ela, estendendo estas considerações à atitude de nossa sociedade, concluirá que este conceito democrático é teórico, uma vez que não é vivenciado pela maioria dos membros da sociedade e até mesmo por aqueles que trabalham em programas para o bem-estar dos cegos.

Sob um prisma bem realista verificamos que o indivíduo cego não é assimilado pela sociedade. Vive dentro dela, mas não como membro participante. Fica isolado, sendo ainda considerado inútil.

Isto demonstra que a atitude dos povos primitivos ao eliminarem os seres portadores desta incapacidade não era descabida e incoerente, pois a atitude da sociedade atual não é fundamentalmente diferente da antiga. A sociedade atual mostra a esses indivíduos tudo o que a vida em condições normais oferece (trabalho, constituição familiar, interação social), porém nega-lhes o direito de participação ativa.


2.4.2 - Atitudes - Dinâmica e Efeitos
Como temos visto no decorrer do trabalho, existem tipos de comportamentos relativamente estáveis em relação às pessoas cegas.

São idéias padronizadas, muitas vezes fixas e inalteráveis, que constituem os estereótipos sociais e que contribuem para a manutenção do sistema social organizado. (Callis, 1962)

No caso da cegueira há opiniões culturalmente determinadas e partilhadas por diversas pessoas, concepções estas que orientam as atitudes em relação à cegueira e aos indivíduos cegos.

Segundo WRIGHT (7), as atitudes diante da cegueira são essencialmente negativas. Apenas quando o foco é a pessoa cega é que as atitudes positivas emergem. O contexto de "pessoa" é que é importante e origina o fato de que as atitudes frente às pessoas cegas são mais corretamente caracterizadas como ambivalentes.

 mesma autora destaca alguns fatores cognitivos e afetivos importantes que influenciam as atitudes para com os cegos, salientando que estes fatores se influenciam mutuamente. Enfoca a atitude da maioria vidente, dizendo porém que estes princípios são gerais e se aplicam também às atitudes de pessoas cegas:

Fatores Cognitivos - A cognição é entendida como sendo os processos pelos quais o mundo é intelectualmente abarcado e compreendido. Isto inclui percepção, julgamento e raciocínio. Uma das atitudes mais comuns supõe que os cegos são muito limitados no que podem fazer. A base desta percepção exagerada das limitações é formada por um certo número de fatores cognitivos:

O Fenômeno da Difusão é a tendência humana de extrair inferências sobre alguém baseadas em uma única característica proeminente desta pessoa. A pessoa cega não é vista apenas como visualmente limitada, mas a idéia de deficiência estende-se também à sua audição, saúde geral, maturidade emocional, etc. Isto denota a avaliação negativa de cegueira difundindo-se à pessoa inteira.
(7) WRIGHT, Beatrice A. – Uma Análise de Atitudes - Dinâmicas e Efeitos. Revista Lente, São Paulo, F.L.C.B.. v.l6, n.46, p. 16-25, julho, 1976


Posição do Observador: é o segundo fator que leva ao exagero da incapacidade, originando-se do ponto de "vantagem" da pessoa vidente. Não tendo que lutar com a cegueira diretamente, ela imagina o que seria viver em um inundo escuro, o que pode resultar numa catástrofe. Problemas e limitações dominam a imaginação devido à inexperiência da pessoa vidente e à falta de conhecimentos. Estando de fora da situação, o que choca o vidente quando vê uma pessoa cega ou pensa em cegos, em geral, é a cegueira. Este é um fator preponderante para distinguir pessoa cega de outras. A pessoa cega, por outro lado, está na posição de quem está dentro da situação, vendo sua vida mais como diferenciada do que contida pela cegueira.

Ajustamento das Percepções às Expectativas: quando as expectativas de uma pessoa não são equiparadas pela realidade, a discrepância deve ser resolvida. Isto pode ser feito de diversas maneiras. Um modo comum é modificar a realidade manifesta de tal forma que concorde com as expectativas. Por exemplo, a. pessoa vidente restringida pela crença de que uma. pessoa cega pode apenas tatear e tropeçar, poderá considerar a boa mobilidade de um indivíduo cego como sendo uma exceção à regra. Alterar-se a realidade manifesta é um tipo de profecia auto-realizável que fixa noções sobre a cegueira.

Ajustamento do Ambiente às Expectativas: um outro tipo de profecia auto-efetivável que estereotipa as atitudes com relação à cegueira é o poder coercitivo do ambiente atual para produzir o tipo de comportamento que se ajusta às crenças e expectativas daqueles que controlam tal ambiente. Isto significa que as expectativas sobre uma habilidade podem ser verificadas por uma realidade moldada em termos destas expectativas. Tendo suas habilidades sub-estimadas, as pessoas cegas serão dirigidas para programas educacionais limitados. As acomodações ambientais que levariam as pessoas cegas a funcionarem em níveis mais elevados e em séries mais complexas não serão consideradas, e os empregadores continuarão a rejeitar funcionários cegos, exceto para funções estereotipada.

Atribuição: diz respeito à fonte, causas ou características designadas a um evento, problema ou pessoa. Visto desta maneira, os problemas que as pessoas cegas encaram podem ser baseados primariamente em características do indivíduo ou do ambiente. É mais provável que aquele que está dentro do problema indique o ambiente como a fonte de dificuldades do que quem está de fora. Assim, é provável que quem não tem a deficiência atribua. a maior parte dos problemas da pessoa cega ao próprio fato dela ser cega, enquanto que esta, em comparação a quem não tem a deficiência, sinta que a maior fonte de seus problemas reside no ambiente físico e social.

Estes cinco fatores influenciam significativamente as percepções sociais dos videntes com relação às pessoas cegas. As percepções sociais modelam e mantém as atitudes negativas sobre as capacidades e os potenciais de atuações independentes de pessoas que são cegas. Estas atitudes são o produto do modo como os seres humanos fazem suas inferências sobre outras pessoas em geral.

Para compensar há forças cognitivas que servem para resolver a discrepância de expectativas:

Revisão de Expectativas: é uma das maneiras que se utiliza o observador para conciliar as expectativas com a realidade, quando esta é tão clara e persistente que não pode ser negada. Significa revisar suas expectativas de tal forma que elas se ajustem de forma precisa às evidências.

Anormalização: é outra maneira de resolver a discrepância de expectativas. Significa remover as pessoas cegas das leis dos simples mortais, imbuindo-as de poderes especiais, a fim de poder considerar o fato de que suas atuações superam as expectativas. Anormalização ocorre quando as expectativas sobre as habilidades naturais resistem às mudanças que não podem ser negadas no contexto de realizações.

Deve-se salientar que o reconhecimento da desvalorização das capacidades da pessoa cega não deve conduzir, erroneamente, a uma negação das limitações reais.

Fatores Afetivos - Por fatores emocionais ou afetivos consideram-se os sentimentos que impulsionam a pessoa para perto de, para longe de ou em alguns casos, contra um outro indivíduo. As emoções comuns pelo lado negativo são: piedade, medo, inquietação e culpa; e do lado positivo: respeito, simpatia, valorização e relacionamento humano caloroso.

Piedade: compreende uma desvalorização a qual é acompanhada de desprezo; é rejeitada pela pessoa de quem se compadece. Isto ocorre quando o sentido da visão tem um "status" tão elevado que a pessoa vidente passa equacionar a cegueira como uma inferioridade total do indivíduo. A piedade torna-se especialmente clara quando a pessoa vidente é tão insegura que busca a satisfação de sentir-se superior.

Medo: são distinguidos alguns tipos por parte da maioria vidente. Ele pode ser incitado pela presença de uma pessoa com uma deficiência física - é aquele da própria vulnerabilidade do observador à deficiência. Este medo pode ser agravado pelo sentimento irracional de que se pode "pegar" a deficiência de uma outra pessoa, de que a interação se faz por contagio. Apesar de irracionais, estes pensamentos permanecem tipicamente escondidos na consciência. Outro tipo de medo e o associado à possibilidade de tornar-se "responsável" pela pessoa cega. Isto se deve às percepções distorcidas das limitações da cegueira.

Inquietação: ocorre especialmente quando as pessoas videntes têm pouco contato com pessoas cegas. As primeiras são incapazes de agir naturalmente por causa de seus conflitos com relação à cegueira, por sua falta de compreensão e porque a cegueira domina sua atenção. Uma outra base para a inquietação diz respeito ao comportamento não verbal na situação de comunicação, bem como o contato visual, a movimentação de cabeça e outros, tão importantes para a interação.

Culpa: ocorre quando a pessoa vidente é incitada por uma determinação moral, de que deva ajudar a aceitar alguém que considere menos afortunado. Para restringir sua culpa a pessoa vidente evita as situações que aumentem o conflito moral, pode envolver-se em fantasia para justificar seu comportamento, ou pode ter atitudes que restrinjam a aceitação e ajuda. A expiação da culpa é um dos motivos que leva o público a prover uma legislação protetora e serviços especiais para cegos.

Simpatia Genuína e Respeito: a simpatia genuína é uma realidade oposta à piedade. Implica em um reconhecimento das dificuldades impostas pela cegueira, uma prontidão para ajudar quando necessário e uma afeição pela própria pessoa. Há também um respeito genuíno pela pessoa cega que apesar da deficiência tem uma boa atuação. O respeito genuíno difere da simpatia pois o enfoque está mais na realização do indivíduo do que em seus problemas.

Inspiração: ocorre quando as pessoas se inspiram na coragem que aparentam aqueles que são atuantes apesar da adversidade. Pode significar uma fonte de resistência humana interior para as próprias tentativas pessoais.

Relações Calorosas: ocorre quando há um relacionamento de pessoa-para-pessoa entre cegos e videntes que possuem valores e interesses semelhantes, que gostam das mesmas atividades e que trabalham para atingirem objetivos comuns. O que domina o relacionamento são as pessoas envolvidas e não a cegueira de urna delas.

Ambivalência: significa conflito - os componentes cognitivos e afetivos das atitudes frente aos cegos têm potencialmente um papel na criação das atitudes ambivalentes. É a resolução deste conflito em diferentes direções que contribui para a variabilidade de comportamentos frente ao cego. Uma conseqüência da ambivalência é o que se denomina maior amplitude de reações - o comportamento ante um objetivo de ambivalência tende mais a situar-se, sob certas circunstâncias, no extremo positivo ou negativo, do que frente a um objetivo não ambivalente. Outra conseqüência da ambivalência compreende a culpa que surge quando o lado oposto do conflito é negligenciado.


2.4.3 - Grupos Minoritários
De acordo com MAILHIOT (8), citando Kurt Lewin, os termos minoria e maioria possuem sentidos diferentes do ponto de vista da demografia e da psicologia.

Em demografia. um grupo constitui uma maioria desde que a porcentagem de seus membros ultrapasse de um a metade da população em que esta inserida. Por outro lado, todo grupo constituído de menos de 50% da população dada é considerado como uma minoria.

Em psicologia um grupo é considerado fundamentalmente como maioria psicológica quando dispõe de estruturas, de um estatuto e de direitos que lhe permitam auto determinar-se no plano de seu destino coletivo, independentemente do número ou da porcentagem de seus membros. Assim, minorias demográficas podem constituir maiorias psicologias. Por outro lado, um grupo deve ser classificado como uma minoria psicológica desde que seu destino coletivo dependa da boa vontade de um outro grupo. Este grupo, mais ou menos conscientemente, percebe-se como minoria, e como tal, não possui direitos totais ou um estatuto completo que lhe permita optar ou orientar-se nos sentidos mais favoráveis ao seu futuro Desde que se trate da sorte de seu grupo, os membros que pertencem a uma minoria psicológica se sentem, se percebem e se conhecem em estado de tutela - isto independentemente da porcentagem de seus membros em relação à população total onde vivem. Por estas razões, maiorias demográficas podem ter uma psicologia de minoritárias.

As minorias psicológicas são sociais em sua origem, em suas estruturas e em sua evolução. Sua dinâmica é essencialmente social.

Pessoas pertencentes a raças e religiões diferentes, ou portadoras de deficiências sensoriais identificáveis, acarretam um impacto social e constituem um grupo de minoria.

Frente a esta visão, as pessoas cegas constituem um grupo minoritário em relação aos videntes e à sociedade em geral.

O cego, em geral, não é um membro da sociedade, constitui uma classe à parte. Segundo Lima (9), a exp1ioação para este separatismo mostra um verdadeiro círculo vicioso: a sociedade não considera o cego como um de seus membros, porque ele, o próprio cego, não se entrosa nela. Estão muitas vezes desejando tratamento especial, conduções gratuitas, preferências, leis que lhe concedam favores. Por outro lado, o cego age desta forma, porque nasceu e se criou entre pessoas que o julgavam uma criatura excepcional.

Este fenômeno social ocorre e tem se mantido por algumas das seguintes causas: (10)
- Dificuldade ou impossibilidade da pessoa cega superar as limitações objetivas e subjetivas decorrentes da limitação sensorial, ao nível pessoal;
- Dificuldade ou impossibilidade do grupo de convivência do deficiente visual aceitar as limitações objetivas do estado de cegueira;
- Dificuldade ou impossibilidade do grupo de convivência do deficiente visual colaborar para que este supere as limitações subjetivas e aquelas objetivas, para as quais já existem recursos tecnológicos e pedagógicos capazes de supri-lo de dados suficientes para o planejamento da sua atuação no ambiente;
- Dificuldade ou incapacidade dos recursos sociais se aparelharem para o conhecimento e conseqüente atendimento adequado das necessidades específicas decorrentes da limitação visual grave.

Pode-se dizer que o perfil deste grupo minoritário é delineado pelo grupo majoritário dos videntes. Este impõe ao primeiro verdadeiras fórmulas, produtos da própria cultura, conceitos e crenças impostas durante seu desenvolvimento.

Daí também porque vamos encontrar preconceitos sobre a cegueira, no que se refere ao aspecto físico, social ou emocional, muitas vezes reforçados pelos próprios indivíduos cegos.

(8) MAILHIOT, Gerald Bernard. - Dinâmica e Gênese dos Grupos. 3ª ed. São Paulo, Livraria Duas Cidades, 197&. 38 p.

(9) LIMA, Luzia Lopes. - Progresso e Necessidades da Educação de Cegos. Anais I Congresso Brasileiro de Educação de Deficientes Visuais. São Paulo, MEC. 1966. 40 p.

(10) MACIEL, Sylas Fernandes. - Prevenção da Marginalização Social do Deficiente Visual. Anais III Simpósio sobre a Problemática da Cegueira. São Paulo, Instituto de Saúde. Serviço de Oftalmologia Sanitária. n.5(28). 1976. 45 P.


2.5 - Implicações Psicológicas da Cegueira
2.5.1 - O Desenvolvimento da Personalidade - Cegueira Adquirida

Não existe uma "Psicologia do Cego" - o indivíduo é antes de tudo um ser humano com suas necessidades físicas, intelectuais, sociais e emocionais. (Lavander, 1964).

A cegueira não é responsável pelo tipo de personalidade de seu portador, considerada esta como a organização psicofísica do indivíduo modificada pelas experiências de vida (11), e sim a constituição física, os fatores hereditários, etc. o que existe de real são distorções da personalidade que o indivíduo pode sofrer em conseqüência do abalo emocional - são os chamados "efeitos psicológicos da cegueira", fazendo-se necessário conhecê-los para não confundi-los com padrões de comportamento. Para isto torna-se importante também, conhecer as perdas acarretadas pela cegueira, o que significa a condição especial da qual derivam grandes e variadas limitações.

O Reverendo CARROLL  (l2), líder no campo da reabilitação nos Estados Unidos, estudando os problemas dos portadores de cegueira recente, analisa diversas perdas ocasionadas por esta incapacidade. Deter-nos-emos nas perdas básicas em relação à segurança psicológica e nas perdas que implicam na personalidade como um todo, dado o caráter do presente estudo.

PERDAS BÁSICAS EM RELAÇÃO À SEGURANÇA PSICOLÓGICA
Perda da Integridade Física: é dos primeiros sentimentos que aparecem quando alguém é privado da visão. O indivíduo sente que perdeu uma parte muito importante de seu corpo. Encontra-se intimamente ligado ao complexo de castração e redução das funções do ego. Este sentimento pode explicar a atitude de medo de olhar um cego, assumida por muitas pessoas, por suporem que isto poderia ter-lhes acontecido.

Perda da Confiança nos Sentidos Remanescentes: é através do sentido da visão que recebemos maior número de informações. Quando não é mais possível ver, para muitas pessoas, acreditar torna-se difícil, se não impossível - adquirem uma tendência para desconfiar das informações colhidas através dos outros sentidos e suspeitam da sua validade.

Perda do Contato Real com o Meio Ambiente: e o sentido da visão que nos coloca de imediato em contato com o mundo concreto das coisas tais como são; normalmente é por ele que estabelecemos a re1ação de espaço e de equilíbrio. Sua perda ocasiona como que uma "quebra" com a realidade, pois a impossibilidade do uso desse sentido acarreta desorientação, sensação de estar perdido e insegurança.

Perda do Campo Visual: as perdas anteriores referem-se ao objeto; esta se trata da perda do campo onde este objeto se encontra. Embora se trate de um reflexo inconsciente, estamos a todo o momento realizando uma atividade fotográfica - supostamente não vemos nada além daquilo em que nos concentramos, porém subconscientemente nossos olhos e nosso pensamento estão "vendo". Esta atividade tem a função de nos proteger contra o perigo, além de servir como uma forma de recreação. A perda do campo visual leva a pessoa ao vazio e a solidão, além de acarretar insegurança.

Perda da Segurança Luminosa: a cegueira não acarreta uma escuridão absoluta. O simples fato de o indivíduo possuir o globo ocular pode dar-lhe a sensação de luz, mediante uma compressão do olho, uma vez que a retina conserva uma luz própria. Por outro lado, um estímulo elétrico pode dar ao indivíduo a sensação luminosa. Entretanto, alguma pessoa cega não tem percepção de luz; têm percepção de cores flutuantes que partem de mudanças dentro dos olhos. Mesmo as pessoas que retiram o globo ocular podem ver cores durante varias horas por dia. Há evidentemente pessoas cegas desprovidas totalmente de qualquer sensação de cor e luz. Estas sofrem a perda da segurança luminosa de duas formas: em primeiro lugar muitos dos portadores de cegueira recente estão impressionados e prejudicados pela concepção popular de que vivem na escuridão, principalmente se são constantemente objeto de piedade por este motivo; em segundo lugar, mesmo para muitas das pessoas que compreendem o significado dessas concepções populares, ausência de luz lembra-lhes a infância, quando a vinda da noite ela associava à solidão, separação daqueles que lhes dispensavam carinho e amor - a insegurança que sentiam então, pode ressurgir com o advento da cegueira, o que pode ser difícil de manejar.

PERDAS QUE IMPLICAM NA PERSONALIDADE COMO UM TODO
Perda da Independência Pessoal: poucas situações podem acarretar choque tão grande para a independência pessoal como a cegueira. A dependência que ela acarreta é suficientemente nociva - mas, quando aquele que perdeu a visão compreende sua dependência e descobre em si sentimentos de amargura em relação àqueles dos quais depende, pode encobrir esta sensação tornando-se mais dependente do que realmente é; ou então, não a pessoa cega por si mesma, mas os que a rodeiam, podem inconscientemente aumentar sua dependência - podem apreciar esta nova posição estabelecida entre eles. A perda da independência pessoal é uma das mais expressivas entre as múltiplas limitações vinculadas à cegueira - pode significar a regressão da vida adulta.

Perda da Adequação Social: é uma das mais graves e serias, pois com ela a pessoa cega pode perder a aceitação pessoal, a dignidade humana e quase sua individualidade. É imposta ao indivíduo cego não pela cegueira, mas por pessoas que o cercam, supostamente bondosas e simpáticas; estas, quer seja de perto ou de longe, fazem à pessoa cega o mesmo que a todos os grupos minoritários: segregam-na da sociedade. Deste contexto provém o indivíduo portador de cegueira recente, com sua própria atitude e sentimentos referentes aos portadores de deficiência visual que, talvez em outra época, lhe causaram piedade - descobre então que não é mais aceito por si mesmo. Perde progressivamente seu lugar original, o lugar que sua personalidade, caráter, hábitos, realizações e seu próprio "eu" haviam estabelecido na sociedade. Perde sua adequação social, embora seja possível que ele assuma e "goste" de seu novo papel de "cego". Quanto mais dificuldade sentir em retomar e reassumir sua posição anterior à cegueira, tanto mais grave será esta perda. Isto reclama, não só por parte dos videntes como das próprias pessoas cegas, a consideração do homem como ser eminentemente social.

Perda da obscuridade ocasionada pela cegueira, significa a perda do anonimato, e conseqüentemente, da própria intimidade. Aí estão todos os problemas decorrentes de uma constante evidência. Exemplo disto está na correspondência particular ou no desejo da pessoa passar desapercebida dentro de um grupo. A presença da cegueira é objetivamente constatada, acarretando serias dificuldades a serem enfrentadas pelas pessoas nestas condições - tendem a se afastar dos indivíduos videntes e agrupar-se às pessoas cegas.

Perda da Auto-Estima: a auto-estima não deve ser nem elogiosa nem depreciativa; deve levar em conta o "eu" total com todos os dons naturais, potenciais, desenvolvimento, aceitação na sociedade; deve ser uma análise completa. A perda da auto-estima compreende a perda da auto-estima objetiva e a perda da auto-imagem ou da auto-estima subjetiva. Existe nas pessoas duas diferentes estimativas do "eu": a avaliação intelectual ou auto-estima objetiva, que se aproxima da realidade; e a reflexão sobre todos os pensamentos e sentimentos que tem sobre si desde criança e tudo quanto for acrescentado durante o desenvolvimento - autovalorização ou auto-imagem. A auto-estima objetiva mostra à pessoa seu próprio valor. Com o advento da cegueira, sua imagem sofre uma desvalorização. Sente que perdeu seu status na comunidade, que lhe é atribuído outro papel na família, que perdeu sua individualidade e não é mais aceito por si mesmo. O equilíbrio de cada um está na harmonia que consegue estabelecer com sua auto-imagem. Na cegueira este equilíbrio pode ser perturbado, ocasionando uma desorganização da personalidade total e a morte da imagem do próprio "eu".

Perda da Organização Total da Personalidade: cada pessoa leva para sua cegueira um conjunto diferente de sentimentos, assim como uma personalidade diferente. A cegueira poderá transtornar e destruir uma vida inteira de organização de personalidade; não porque a cegueira tem alguma peculiaridade, mas sim, porque como qualquer outra incapacidade grave, constitui um golpe, composto de uma série de golpes, que atinge um padrão de vida completamente. É, na realidade, uma ação simu1tânea de todas as perdas já mencionadas e outras concernentes à cegueira; é mais um fundo de tensões e inseguranças que a pessoa enfrenta.

Os prejuízos focalizados referem-se às dificuldades enfrentadas pelas pessoas portadoras de cegueira recente; todavia, muitos deles estão presentes nos casos de cegueira congênita. Isto ocorre quando a pessoa não tem oportunidade de esclarecimento sobre sua condição real, quando não foi levada, no decorrer de sua vida, a ter experiências mais reais e variadas.

(11) LOWENFELD, Berthold. In: “O Reajustamento Social do Cego”.Trabalho de Conclusão de Curso. São Paulo, IAPC, 1951. 124 p.
(12) CARROLL, Thomas J. – Cegueira (Blindness). São Paulo, Campanha, Nacional de Educação de Cegos, MEC, 1968. p. 11-30 e p. 58-71.


2.5.2 - Aspectos Peculiares do Desenvolvimento da Personalidade da Pessoa Cega Congênita
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Segundo FREEDMAN (l3), cada pessoa é única pelo seu temperamento, caráter, inteligência, necessidades e atitudes. No seu desenvolvimento normal, há uma seqüência lógica entre diversas etapas de amadurecimento, cada uma das quais apresentando necessidades e problemas particulares. Os problemas de cada etapa precisam ser resolvidos satisfatoriamente antes que problemas de níveis mais altos sejam estudados. Essas generalizações são universais e se aplicam a todo grupo humano, independentemente das diferenças individuais. Isto proporciona uma visão mais objetiva sobre o desenvolvimento da personalidade da pessoa cega congênita.

O desenvolvimento da personalidade da pessoa cega é condicionado por vários ambientes, sendo os mais importantes a família, a escola. e as obras sociais para cegos.

Família

A interação pessoal, emocional e social com cada membro da família tem uma influência marcante no desenvolvimento da personalidade; o relacionamento vital da criança com a mãe é aquele que lhe dará mais segurança para o futuro. É necessário reconhecer que a cegueira de um dos membros da família influi sobre todos os demais - a família toda sustenta uma perda visual.

Alguns pais experimentam revolta, vergonha e sentimento de culpa em virtude da cegueira de seus filhos e, deste modo, são incapazes de criar um ambiente saudável no lar. Quando o filho chega â adolescência, já se tornou inseguro, ansioso, tímido e rejeitado. A reação quase universal das famílias é a superproteção. Quando a própria família se sente suficientemente inadequada, pelas frustrações voltam-se para a hostilidade. Isto se manifesta por uma forma autopunitiva de superproteção que condiciona o indivíduo cego a ser cada vez mais dependente. Os adolescentes provenientes de lares deste tipo nunca deixam de ser, em maior ou menor grau, prejudicados pela inadequação das atitudes de seus pais.

Alguns pais manifestam seu desapontamento em não poder desenvolver com os filhos determinadas atividades. Alguns procuram descobrir as capacidades peculiares de seus filhos e as desenvolvem de modo desproporcionado, em prejuízo da evolução total da criança - isto é outra forma de rejeição. Estas dificuldades dos pais têm privado a criança cega de contar com todas as possibilidades que lhe permitam um desenvolvimento total da personalidade.

A superproteção dos pais, deixando de desenvolver na criança cega o senso de disciplina e responsabilidade, acaba freqüentemente, por desencadear sentimentos desagradáveis dos irmãos videntes em relação ao que é cego. Em alguns casos verifica-øe a negação do irmão vidente em ajudar o outro, principalmente quando ambos alcançam a adolescência e a maturidade.

Os efeitos de tal ambiente familiar são desastrosos.Ao chegar à adolescência o indivíduo cego se sente, fatalmente, inadequado. Os outros o levaram a sentir-se inferior, dependente dos demais, indesejado, diferente, inseguro em seus relacionamentos.

Escola

A influência do ambiente escolar é quase tão marcante no desenvolvimento da personalidade quanto o ambiente familiar.

Algumas crianças sofrem muito mais a inf1uência da escola que a do lar, quando a família não lhes sabe compreender as necessidades. É comum a identificação com o professor. Estes apesar de sua educação e treinamento, reagem à cegueira da mesma forma que o comum das pessoas. Mostram freqüentemente simpatia, piedade, constrangimento, temor, ignorância; é freqüente que sejam superprotetores ou que evitem os estudantes cegos. Quando um estudante consegue atuar com independência, consideram-no como exceção, chamando-o “excepcional”. O estudante, entretanto, está consciente das atitudes de seus professores, as quais influem profundamente na formação de sua auto-imagem.

Os colegas agem de forma quase que indiferente em relação à deficiência do estudante cego, pois as idéias erradas e preconceitos ainda não estão solidificados. A exclusão do aluno cego de atividades de classe das quais, com algumas adaptações, poderia participar, é que produz o sentimento de desigualdade e inadequação que pode ser imputado a todos. O comportamento do aluno cego tem a máxima importância no sentido de determinar a atitude dos colegas e professores. Os maneirismos, ausência de autolocomoção, a expressão fision6mica inadequada ou ausente, a apresentação e a posição descuidada pode contribuir em muito para dificultar sua aceitação e seus relacionamentos.

Os efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade do indivíduo cego que foi educado no ambiente segregado de escola residencial especializada é muito mais decisivo. Alguns sobrevivem mas muitos ficam aniquilados. O desenvolvimento normal de suas personalidades corre o risco de ser atalhado. Sentem-se muito freqüentemente rejeitados por suas famílias, O contato com o mundo real dos videntes é insuficiente. Existe, muitas vezes, insuficiência de competição que seria um estímulo necessário para o desenvolvimento normal e saudável da personalidade. A qualidade da instrução que oferecem as escolas residenciais é variável. Os indivíduos cegos que cursam estas escolas, tornam-se muitas vezes imaturos. Os prejuízos que sofrem em conseqüência do confinamento de seu ambiente, fazem com que muitos atuem em nível inferior as suas reais possibilidades. São limitados e inadequados, tendo consciência disso. Ao deixarem este ambiente, sentem-se despreparados para assumir as responsabilidades que lhes cabe de acordo com sua idade.

Obras Sociais para Cegos

As obras sociais para cegos têm, como a família e a escola, efeitos sobre o desenvolvimento da personalidade dos indivíduos. As capacidades profissionais, as atitudes, a compreensão, a sensibilidade ou a falta dela por parte do pessoal de obras sociais, podem ter um efeito profundo sobre o desenvolvimento de uma auto-imagem positiva, sadia e confiante na pessoa cega. Pode contribuir, por outro lado, para estacionar este desenvolvimento. O fato de não deixar que o indivíduo faça nada sozinho, priva-o da oportunidade de descobrir a maneira de suprir suas próprias necessidades e nega-lhes a possibilidade de verificar se é capaz de se manter com seus próprios meios. Algumas pessoas cegas acham muito cômodo aceitar auxílio dos outros e acabam por se tornar dependentes da obra que as auxilia; encaram as obras sociais como solução de todos os seus problemas. A passividade e a dependência são então aumentadas.

Às vezes, sem o perceber, certas obras não dão a necessária preparação às pessoas que não possam continuar fora os seus estudos. Em algumas, os indivíduos cegos, mais impressionáveis são colocados em oficinas protegidas - a obra mostra a esses indivíduos, de maneira bem clara, que seu horizonte profissional é limitado. Surgem daí sentimentos de inferioridade, diferença e rejeição que passam a influir no desenvolvimento da personalidade. A pessoa passa a encarar a obra social como seu educador empregador e mantenedor. Isto o torna cada vez mais dependente da instituição.

Outro exemplo da influência das organizações sobre o desenvolvimento da personalidade refere-se ao programa recreacional. Os indivíduos participam de programas recreacionais da própria obra, o que lhes infunde o sentimento de que são diferentes; não são encorajados a procurar essas atividades dentro da comunidade. Eles não têm oportunidade de manter relações sociais com pessoas videntes, sentindo-se até constrangidos em procurá-los. Ambos os grupos se sentem cada vez mais isolados um do outro.

Os efeitos do ambiente escolar, familiar e institucional sobre a personalidade aqui apresentados, referem-se mais especificamente aos portadores de cegueira congênita. Os portadores de cegueira recente ou adquirida, no entanto, podem também sofrer as influências desses ambientes em sua personalidade.


(l3) FREEDMAN, Saul.  - Desenvolvimento da Personalidade. Revista Lente. FLCB, v.13, nº40, p.14-17, Jan/Jun, 1969.


3 – Serviço Social

As idéias acerca da cegueira influenciam o tipo de papel que a sociedade atribui ao indivíduo cego. O assumir ou rejeitar este papel implica em vantagens e desvantagens, sendo o foco de intervenção do Serviço Social, nesta situação específica, o processo de conscientização e mudança.

Tendo visto as implicações físicas, sócio-culturais e emocionais da cegueira, elementos necessários ao conhecimento específico para o Assistente Social que atua neste campo, possível se faz a apresentação do Serviço Social, como um processo de ajuda, para atenuar as dificuldades acarretadas pela deficiência, possibilitando a melhor integração do indivíduo cego na sociedade.

“O Serviço Social encara o homem na sua característica de ser social. Atua na base das inter-relações do binômio indivíduo-sociedade. Seu objeto, portanto, é constituído por fenômenos concernentes ao ser humano no processo de inter-relação com o seu meio social, sob a perspectiva da mobilização e desenvolvimento de potencialidades”. (l4)

Isto vem mostrar que o objetivo do Serviço Social é a mobilização e desenvolvimento de potencialidades. Este objetivo permite um trabalho permanente, uma vez que é sempre possível um maior desenvolvimento de potencialidades, devendo ser conseguido na situação e a partir da situação em que se encontra o sistema-cliente. (Medeiros, 1974)

Este objetivo leva a uma consideração dos valores universalmente postulados como guias normativos da ação profissional do Serviço Social: (Medeiros, 1974)
- dignidade da pessoa humana - a pessoa humana enquanto capaz de se autodeterminar, de ser livre, de se realizar, capaz de intervir e transformar a realidade em que se insere;
- perfectibilidade do ser humano - o homem é um ser em construção;
- sociabilidade do homem - todo ser humano tem o direito de encontrar na sociedade condições para a sua auto-realização.

A fim de alcançar resultados eficazes em sua intervenção o Serviço Social se vale de uma metodologia que retrata a estrutura e a dinâmica da ação. Assim, a metodologia do Serviço Social compõe-se de princípios de ação específicos, métodos e um conjunto de técnicas, atitudes e habilidades relativos ao desempenho profissional. (15)

Princípios de Ação

O Documento de Araxá apresenta como princípios operacionais:
- "O estímulo ao exercício da livre escolha e da responsabilidade das decisões;
- Respeito aos valores, padrões e pautas culturais;
- Ensejo de mudança no sentido da autoformação e do enriquecimento do indivíduo, grupo, comunidade e população;
- Atuação dentro de uma perspectiva de globalidade na realidade”.

Métodos

O Documento de Teresópolis (17) apresenta três fases metodológicas do Serviço Social, que constitui seu método básico:
- Investigação - conhecimento da realidade onde atua o profissional;
- Diagnóstico - opinião do profissional sobre os dados apresentados pela realidade, com o apoio da referencial teórico;
- Intervenção - ação planejada a partir dos dados da realidade e do diagnóstico realizado, visando a modificação ou a solução de uma situação, em função de um modelo projetado.

FALCÃO (18) considera impróprio o uso da expressão método básico do Serviço Social, porque é restrita e não leva em conta o significado real do termo método, entendido este como o conjunto de etapas e operações de ordenação do pensamento ou da ação. Prefere utilizar a expressão metodologia, por ser mais ampla mais significante e que se presta menos à ambigüidade do que a palavra método, e também porque não é apenas de um método que se vale o Serviço Social, mas de um todo processual que lhe garante um modo singular de conduzir sua intervenção.


Técnicas, Habilidades e Atitudes

De acordo com FALCÃO (19), as técnicas são sempre instrumentos utilizados para impulsionar a ação em determinada direção, ou seja, para implementar um ou vários métodos de intervenção. O Serviço Social deve estar aberto e a par de todas as técnicas elaboradas na área profissional do humano-social, utilizando-as para seus fins, ou transformando-as para seu uso, de acordo com seus objetivos e necessidades, na intervenção que lhe é específica.

As atitudes e habilidades requeridas do profissiona1 de Serviço Social centram-se, basicamente, na capacidade de relacionamento empático, crítico e criador com os sistemas clientes, exigindo sensibilidade para percebê-las e compreendê-las, estabelecendo uma relação de crescimento para ambos.

A mesma autora cita Sposati, que destaca na formação do Assistente Social outras atitudes e habilidades que são fundamentais à capacitação deste para uma intervenção planejada na realidade humano-social:
- "objetividade frente aos fatos;
- coerência na ação;
- defesa do interesse publico e da máxima conveniência social;
- uso da oportunidade;
- trabalho em equipe".

Esta intervenção planejada do Serviço Socia1 na realidade humano-social se dá nos planos micro e macro social, através de unidades de intervenção de natureza psicossocial, social e política.

Considera-se unidade de natureza psicossocial as unidades humanas e constitutivas da sociedade, apresentando características singulares de vida social: indivíduos, grupos, populações, comunidades e outros.

Como unidades de natureza social, são considerados os organismos sociais que oferecem bens e serviços e as organizações sociais através das quais o homem reivindica, expressa-se e sua participação.

As unidades de natureza política referem-se às unidades processuais ou organizacionais que operam na vida social: estruturas, sistemas e sub-sistemas.

A ação do Serviço Social, tendo como foco as relações homem-meio, envolve, necessariamente, a utilização complementar e convergente das varias unidades de intervenção citadas, entre outras. Ao se trabalhar com um cidadão, grupo ou população, trabalha-se ao mesmo tempo a rede de serviços, estruturas e sistemas operantes nas situações apresentadas por aqueles sistemas clientes.

A escolha de unta unidade de intervenção constitui apenas o início da própria intervenção, urna vez que não se deve perder de vista o enfoque relacional com as outras unidades. (Falcão, 1977)

(14) KFOURI, Nadir. - Determinação do Objeto do Serviço Social e os Problemas que Coloca. In: MEDEIROS, Suzana A. da Rocha. -  Estudo Preliminar dos Componentes Básicos da Estrutura do Serviço Social. Tese de Doutoramento. PUC-SP, 1974. 36 p.
(l5) FALCÃO, Maria do Carmo Brandt de O.. - Serviço Social - Uma Nova Visão Teórica. São Paulo, Cortez & Moraes, 1977. 26 p.
(16) DEDATE5 SOCIAIS. Documento de Araxá. Rio de Janeiro, CBCISS, 3 (4), maio, 1967.
(17) DANTAS, J. L. - A Teoria Metodológica do Serviço Social: Uma Abordagem Metodológica. Debates Sociais. Documento de Teresópolis: Metodologia do Serviço Social. Rio de Janeiro, CBCIS, nº4, nov. 1970. 150 p.
(18) Op cit. 34 p.
(19) Op. cit. p.32-33


IV - ANÁLISE


1 - Assunção X Rejeição do Papel Social Cego

As situações vivenciadas no campo da prática profissional mostraram-nos pessoas assumindo plenamente o papel social Ce go, outras se recusando a vivê-lo, outras ainda, se sujeitando a desempenhá-lo conscientemente em alguns aspectos.

Refletindo sobre estas realidades observadas, surgiu a indagação que nos levou à elaboração deste trabalho, porque as pessoas na situação de cegueira reagem de formas diferentes. Para respondê-la procuramos levantar os componentes desta situação, a forma como se relacionam e o que garante que esta estrutura se mantenha.

Como vimos, 75% dos casos de Cegueira são evitáveis, sendo que isto representa num primeiro momento um problema de saúde pública, ligado principalmente à ausência de saneamento básico e educação de base, como fatores relevantes para o número crescente de pessoas portadoras de cegueira.

A pessoa nesta situação apresenta limitações objetivas e subjetivas decorrentes da 1imitação sensorial, muitas vezes difíceis de serem superadas a nível pessoal. A cegueira de um dos membros da família influindo sobre todos os demais, dificulta ou impossibilita também o grupo de convivência de aceitar as limitações objetivas e subjetivas do estado de cegueira, bem como dificulta ou impossibilita este mesmo grupo de colaborar para a promoção do deficiente visual. O relacionamento da família com o indivíduo centra-se na pr6pria deficiência, tendo como foco as dificuldades da vida desta pessoa e suas conseqüências.

A falta de educação de base, de recursos econômicos e desconhecimento sobre a problemática são outros fatores que contribuem na manutenção da posição ocupada pela pessoa cega. Tudo isto leva ao protecionismo exagerado, que resulta inclusive no isolamento social do indivíduo cego.

Este isolamento se dá na medida em que o grupo familiar ou de convivência transfere sua "pseudo-responsabilidade" * sobre a pessoa cega para a sociedade, internando-a em instituições especializadas. Estas por sua vez, em sua maioria, não proporcionam aos indivíduos oportunidades de crescimento e realização pessoal e social.

A segregação destes indivíduos da sociedade contribui para que cada vez mais eles se sintam e sejam considerados diferentes, como uma classe à parte. Postos à margem da sociedade e marcados como "deficientes", constituem um grupo minoritário, mesmo atingindo milhões em números concretos, reconhecido e amparado pelas instituições jurídicas e de prestação de serviços.

A partir daí o grupo majoritário apresenta expectativas em re1ação ao comportamento destes indivíduos, que passam a estar confinados a um papel unitário que se superpõe a todos os outros: o papel social cego.

Na situação-prob1ema-cegueira permanecem as concepções errôneas a respeito da mesma. O conceito de pessoa não prevalece - o indivíduo passa a ser um "tipo". Persistem as 1imitações reais, sendo que algumas podem ser minimizadas, outras supridas, mas algumas são permanentes; o indivíduo no entanto não perde a sua integridade, e muito menos sua dignidade, ainda que sejam abaladas. Vencido o primeiro impacto emocional, ele tem, às vezes com ajuda, outras não, condições de refletir sobre sua situação, para encontrar o caminho de sua realização humana. De acordo com as oportunidades disponíveis e das condições em que vivia anteriormente à cegueira, ou, no caso de cegueira congênita, a maneira como foi criado, terá opções em re1ação ao papel social cego: acomodar-se, recusar-se, ou numa atitude de equilíbrio, lutar para sua realização como pessoa.

O indivíduo acomoda-se ou assume plenamente este papel quando aprendeu no decorrer de sua vida a viver somente em função de sua cegueira, ou então que se ajustou às concepções que a sociedade tem sobre os cegos. Trata-se de pessoas que ainda nem se perceberam como "gente", que se encontram em tal estágio de massificação que não apresentam condições de questionar a situação, e aceitam a pressão no sentido de desempenhar este papel , da mesma maneira como já vem aceitando outras pressões no decorrer de sua vida. Podemos tomar como exemplo um assistido da “FECEL”, que desde a infância viveu em instituição. Este cliente incorporou de tal maneira o "papel cego", que nem encontra outras opções de vida. Não tem consciência de todo seu potencial, e isto se configura principalmente na acomodação a ocupações tradicionais de pessoas cegas (vendedor ambulante de vassouras), na resistência em fazer reabilitação e de se autopromover.

Existe a possibilidade do indivíduo estar consciente em re1ação às expectativas e atitudes que a sociedade tem sobre ele e assumir o papel porque isto lhe traz vantagens. Dentro da FECEL existem dois exemplos típicos de pessoas nestas condições.Ambos "usam" a cegueira como empecilho principalmente para o estudo e trabalho, achando que há necessidade e obrigação de serem mantidos por instituições específicas para. cegos, especialmente as de caráter residencial, onde recebem além de moradia, alimentação e vestuário gratuitos. Acham que a sociedade tem obrigação de mantê-los e percebem como vantajosa a piedade que lhes é dispensada pela população vidente. Já em outros aspectos, como por exemplo diversão, visitas a familiares e amigos, relacionamento afetivo e sexual, não se percebem como "cegos" - sentem-se com os mesmos direitos e capacidade das pessoas videntes, inclusive irritando-se quando são considerados excepcionais seus comportamentos nestes aspectos.

Alguns indivíduos acometidos pela cegueira tem plena consciência de sua situação e das expectativas e atitudes que lhes são dirigidas. São aqueles que se percebem como pessoa, sabendo realmente até onde vão suas limitações, tendo consciência de todo seu potencial e lutando para que a sociedade se aperceba disso. Como todo ser humano, eles têm necessidades a serem atendidas, que muitas vezes só podem ser satisfeitas através da assunção de alguns aspectos do "papel social cego", face à liberdade restrita imposta pela sociedade. Isto não quer dizer que o desempenho ocorra de forma passiva e definitiva - ao contrário, lutam constantemente contra os preconceitos, o estereótipo social cego, num esforço contínuo e permanente de realização humana. Nossa experiência profissional ensejou o trabalho com um cliente com estas características. Trata-se de um rapaz com 18 anos, sem experiência institucional, que realizou treinamento de locomotividade na FECEL. Sempre viveu com a família, estuda em escola comum e tem planos e atividades comuns a sua faixa etária e condição social. É, em suma, um indivíduo comum, sem nada de excepcional, a não ser a cegueira.

Outras pessoas recusam desempenhar os comportamentos estabelecidos tradicionalmente para as pessoas cegas, não aceitando de tal forma este papel e sua incapacidade, que nem chegam a assumir as limitações objetivas decorrentes da cegueira. Realmente não se identificam como pessoas cegas. Citamos como exemplo um cliente que realizou treinamento de orientação física e locomotividade na FECEL. Durante as entrevistas e o treinamento o cliente demonstrou enfaticamente o quanto não aceita a cegueira e suas limitações reais, a ponto de deliberadamente expor-se a situações perigosas (por exemplo atravessar ruas movimentadas sem o treinamento adequado e sem aceitar ajuda de pessoas). Demonstrava desembaraço e desinibição exagerados, numa tentativa de provar independência total, mas que na verdade apenas denotava todo o conflito e insegurança em relação à sua condição de pessoa cega. Esta situação vem demonstrar, de forma mais acentuada que nas demais analisadas, uma fraqueza do ego, resultando aqui numa atrofia da auto-imagem do indivíduo, o que faz com que ele desempenhe um papel inverso a sua condição real de vida.

Nas posições analisadas o indivíduo atingirá melhores níveis de condição humana na medida em que tome maior consciência de seus próprios potenciais e encontre amplas oportunidades de testá-los.

(*) A nossa experiência nos mostrou que as pessoas de visão se atribuem a responsabilidade pela vida dos cegos. Posteriormente pressionadas pelas circunstâncias, não conseguem atender a
sobrecarga econômica, emocional e de serviços, transferindo a mesma responsabilidade para os organismos sociais.


2 - O Serviço Social e a Cegueira

Sempre houve e sempre haverá pessoas cegas, sendo que a cegueira se constitui em problema social quando em nível do indivíduo ele se mantém inconsciente de sua condição humana, e em nível do sistema social enquanto existe uma pressão que abafe a realização pessoal ao invés de promovê-la. Outro aspecto é o grande número de pessoas vivendo essa situação, pois mesmo que comparativamente ao total da população o percentual de cegos seja pouco expressivo, o fato de 75% de eles poder ser evitado é um forte indicador que o sistema social está em processo de desequilíbrio.

Por um lado, grande parte dos cegos encontram-se institucionalizados, analfabetos, sem trabalho, mendigando, endossando freqüentemente a posição de proteção como única forma de prover sua subsistência. De outro, novos seres humanos continuam a ficar cegos por falta de saneamento básico, de condições de higiene familiar e ambiental, de atendimento médico precoce, de educação de base, de aconselhamento genético, subnutrição, condições precárias de nascimento, condições sócio-econômicas inadequadas e falta de segurança no trabalho.

Essa estrutura se mantém na medida em que os serviços tradicionais prestados aos indivíduos cegos e a ignorância das pessoas em relação à cegueira impedem a promoção humana; e na medida em que a sociedade através de doações particulares e subvenção dos órgãos públicos às instituições específicas de cegos, financiam o "status quo".

As atitudes da sociedade em relação aos indivíduos cegos aliadas às pr6prias atitudes de compreensão das pessoas envolvidas pela cegueira estão, então, em constante conflito, de
maneira prejudicial a um entendimento mútuo, e portanto, ao desenvolvimento normal de uma minoria portadora de deficiência, quanto ao aspecto social, intelectual e moral.

Esta problemática reclama a intervenção do Serviço Social em termos de mobilizar estas energias conflitantes e alinha-las no sentido da promoção humana. Essa intervenção deve se dar nos planos micro e macro social, através de unidades de intervenção de natureza psicossocial, social e política.

Na situação-problema específica "cegueira", a ação do Serviço Social deve convergir para as relações indivíduo cego -meio, envolvendo a utilização complementar e convergente das varias unidades de intervenção.

O enfoque macro dado a uma unidade significa apenas o início da ação do Serviço Social, já que este deve atuar tendo em vista a perspectiva relacional das varias unidades de intervenção.

O Serviço Social atuando na situação e a partir da situação em que ao encontra o indivíduo cego, deve auxiliá-lo a atingir um maior desenvolvimento das potencialidades, a adquirir independência, segurança e confiança em si mesmo. Isto ocorrerá na medida em que o indivíduo for motivado a se autolocomover, executar as atividades da vida cotidiana, realizar trabalhos de acordo com sua capacidade, ter oportunidades de recreação e de experiências sociais. Isto permitirá ao indivíduo cego usar de forma mais produtiva suas habilidades e capacidades, diminuir temores constritivos, ansiedades e oferecer-lhe oportunidade para o desenvolvimento das forças do "ego".

Para o reajustamento social das pessoas cegas, os processos, instrumentos e recursos são basicamente os mesmos utilizados no reajustamento de outras pessoas. Há, porém, a necessidade do profissional de Serviço Social ter conhecimentos específicos sobre a problemática da cegueira, ressaltando-se ainda a importância do autoconhecimento e compreensão da realidade sócio-cultural em que está envolvido.

O Serviço Social deve focalizar a pessoa ao invés da sua incapacidade e determinar bem o papel desempenhado pela cegueira na constelação total dos problemas apresentados pelo cliente, pois embora haja algumas condições impostas pela cegueira, que determinam limitações comuns aos indivíduos cegos, o ajustamento de cada um será diferente e refletirá a estrutura básica ligada às suas experiências pessoais e sociais. Daí a importância da individualização para evitar as generalizações no que se refere às capacidades, personalidade, caráter, independência e ajustamento à cegueira, de cada pessoa, em cada situação.

Por outro lado, o Serviço Social deve reconhecer que a pessoa cega, como todo ser humano, é capaz de se autodeterminar de ser livre, de se realizar e capaz de intervir e transformar a realidade em que vive. Como vimos, existem cegos que nem se perceberam como pessoa, assim como tantos outros seres humanos. O Assistente Social deve trabalhar com eles no sentido de que se conscientizem disso, descubram todo seu potencial enquanto ser humano, enquanto homem capaz de intervir e transformar a realidade, enquanto homem fazendo sua própria história, vivendo seus direitos e cumprindo suas obrigações.

Considerando-se que o homem é um constante "vir a ser”, mesmo com aqueles que já estão conscientes de sua situação, justifica-se a intervenção do Serviço Social, no sentido de ajudá-los a perceber que a posição em que atualmente se encontram não é o máximo alcançado, pois o esforço em direção à realização humana deve ser contínuo e permanente.

O trabalho que talvez exija mais do profissional é aquele com as pessoas que tentam negar as limitações reais em que eøtão envolvidas em decorrência da cegueira. Desempenham um papel totalmente inverso à sua condição real de vida. Esforçam-se por serem percebidas como pessoas videntes. Geralmente são indivíduos portadores de cegueira recente ou há algum tempo adquirida, cujo impacto emocional é tão forte, que enfraquece as funções do ego, leva a uma atrofia da auto-imagem, derivando seus comportamentos de conflito inconsciente pré-existente. Compete ao assistente social nestes casos, refletir e trabalhar diretamente os sentimentos da pessoa cega em relação à situação, com a finalidade de auxiliar o indivíduo a interpretá-los e modificá-los
para a reconstrução da imagem física e do autoconceito.

Os problemas do indivíduo não existem isolados. Repercutem nos seus grupos de convivência, entre os quais um papel peculiar cabe à família.

A família deve ser trabalhada no sentido de perceber o indivíduo cego como portador apenas de uma 1imitação e não de um prejuízo total; auxiliada para compreender que a pessoa cega tem capacidades e possibilidades, esclarecendo-se e refletindo-se sobre os inconvenientes da superproteção, da segregação ou mesmo da exclusão da vida familiar; trabalhada no sentido de que as idéias estereotipadas sejam substituídas por uma concepção real, individualizada e promotora de seu membro cego. No caso de cegueira congênita a orientação deve ser no sentido de levar a família a uma compreensão realista da limitação visual, e nos casos de cegueira adquirida a família deve ser ajudada no sentido de aceitar a pessoa afetada, esclarecendo-se a responsabilidade que ela tem no processo para que a pessoa cega tenha uma vida ativa; deve ser ajudada na percepção dos modos pelos quais a pessoa cega pode enfrentar a situação, colaborando então para a realização pessoal deste indivíduo; levada a se engajar no processo de colaboração nas formas mais positivas; deve ainda ser esclarecida sobre as facilidades de serviços, recursos e equipamentos disponíveis na comunidade ou fora dela, para que sejam utilizados adequadamente.

Quando o indivíduo não encontra serviços e recursos condizentes com suas necessidades e realizações, ele e seu grupo de convivência são bloqueados no processo de desenvolvimento. Grande parte dos serviços específicos para cegos estão estruturados sobre princípios já arcaicos e não promocionais. Necessário seria promover o indivíduo cego sem que sofresse a privação do lar e o afastamento da sociedade. No Brasil, como em outros paises subdesenvolvidos ou em vias de desenvolvimento, ainda não se conseguiu prescindir de obras específicas para pessoas cegas, sendo necessário então, que as mesmas sejam dotadas de métodos que possam suprir, de certa forma, suas principais deficiências. Deve-se procurar não isolar o indivíduo cego da sociedade, mostrando-lhe o caminho seguro, através de serviços de orientação educacional, correcional e profissional, preocupando-se não somente com suas condições psíquicas ou materiais, porém com ambas. Cabe por tanto ao Serviço Social trabalhar também nas instituições a nível administrativo e de formação de pessoal, no sentido de que percebam de forma realista a cegueira e colaborem de maneira eficiente na promoção do indivíduo nesta situação. A intervenção do Serviço Social a nível comunitário realiza-se ainda no sentido de divulgar, promover e fomentar os conhecimentos técnicos, científicos e psicopedagógicos de tal forma que eles possam ser assimilados a ponto de transformar atitudes pessoais ou grupais em relação ao problema, bem como criar serviços sociais adequados às necessidades e realizações do indivíduo cego.

Por outro lado, o Serviço Social deve promover a utilização integrada e sistêmica dos equipamentos sociais, de modo a evitar que a clientela cega venha a ser discriminada como um grupo carente e dependente de serviços específicos. Deste modo não se justifica a segregação já manifestada por alguns grupos propondo a criação de escolas para cegos quando podem ser atendidos em escolas comuns, assim como não se justificam pensionatos, restaurantes, clubes e vilas residenciais só para cegos.

Há muito a cegueira se constitui não só em problema social grave, como de saúde pública.

A partir do momento em que o cego vive livre, que trabalha, que tem sua vida independente, não é mais o “cego”. Este é o principal aspecto de nosso trabalho: auxiliar o cego a libertar- se de sua cegueira. Isto se consegue através dos processos já demonstrados até então, porém soluciona o problema de cada indivíduo isoladamente ou de um grupo. Tendo em vista o alto índice de cegueira no Brasil (310 cegos por 100.000 habitantes), e sabendo se que pelo menos 75% dos casos poderiam ser evitados se cuidados a tempo, salientamos a necessidade do trabalho a nível macro nesta problemática, no sentido de prevenção. Esta medida além de diminuir o sofrimento dos deficientes visuais e de suas famílias e de evitar a perda da força de trabalho, economizaria elevados gastos com a reabilitação, pensões e auxílios a que a pessoa cega tem direito.

Neste sentido e considerando-se a problemática da cegueira não apenas em seu aspecto físico, mas em seu aspecto social e de saúde pública, a prevenção deve contar com o trabalho de equipe multidisciplinar, principalmente das áreas de saúde e reabilitação, tendo como objetivos:
- melhoria do padrão socioeconômico-cultural da população (renda “per capita”, nível de instrução, serviço nacional de saúde alimentação adequada, equilíbrio psico-emocional);
- melhoria das condições do meio (esgoto, água domiciliar tratada, tratamento apropriado do lixo, combate aos insetos e animais que transmitem doenças, combate às po1uições). Calcula-se que cerca de 20% das deficiências visuais evitáveis podem ser prevenidas com a melhoria das condições do meio;
- melhoria do nível de educação em relação aos problemas de saúde (conscientização da problemática da saúde e da promoção de saúde; higiene pessoal, do ambiente domiciliar e dos ambientes coletivos; higiene visual do trabalho; aconselhamento genético);
- detecção dos problemas oftalmológicos nos diversos grupos etários (pré-natal, recém-nascido, pré-escolar, escolar, capacidade visual do adulto, problemas geriátricos da visão), através de exames de massa;
- assistência médico-oftalmológica dos portadores de doenças oculares (diagnóstico e tratamento precoces, controle periódico e contínuo dos casos). Calcula-se que cerca de 20% dos casos de cegueira são curáveis (catarata, enxerto da córnea e outros);
- integração socioeconômica dos deficientes visuais: limitação dos danos visuais pela utilização da visão residual e pela recuperação funcional; educação especial; integração psicossocial; profissionalização e outros.

A intervenção nesses setores deve se dar através de medidas coletivas, contando com a participação consciente da população que poderá interferir no seu campo de ação para que estas medidas sejam usadas em função da sua própria saúde.

Essa intervenção será mais ou menos positiva dependendo da incorporação ou não do valor saúde na perspectiva de vida do próprio homem.

Em relação a esta conduta desejável o Serviço Social é componente básico, pois contribui para a formação do indivíduo em função da incorporação deste valor a sua vida, o que permite que o mesmo se desenvolva através de seus próprios esforços.

A ação do Serviço Social, visando a formação de hábitos e atitudes envolve mais que a simples transmissão de conhecimentos sobre a problemática da cegueira ou a execução de atividades esporádicas. Para a incorporação na vida do homem de práticas de saúde favoráveis a sua visão, a ação educativa deve ser contínua, sistemática e a longo prazo. Outras variáveis sócio-culturais (tabus, crendices, condições socioeconômicas, recursos disponíveis) devem ser levantadas, analisadas e consideradas no processo educativo, uma vez que podem interferir favorável ou desfavoravelmente no comportamento em relação à saúde visual.

Esta ação é possível de ser desenvolvida desde que se aceite que em qualquer idade o homem tem condições de aprender e se promover, sendo necessário, no entanto, utilizar a metodologia adequada às características individuais e grupais e ao próprio contexto cultural onde se pretende atuar.


CONCLUSÃO


Existe uma problemática social e não casos isolados de cegueira.

A cegueira configura-se desta maneira na medida em que a própria sociedade, refletindo conceitos e maneiras de reagir fundamentadas principalmente em antigas tradições, vê o cego como objeto de piedade; e na medida em que o próprio indivíduo cego, diante da prevenção dos que o cercam, reage de maneira diferente das pessoas videntes, caracterizando o "papel social cego".

O indivíduo pode ou não se aproveitar dos privilégios que a sociedade lhe concede, assumindo ou rejeitando este papel, e qualquer que seja sua opção, o "preço" é bem alto. Rejeitando o indivíduo praticamente vai contra as expectativas da sociedade , enfrentando diversas dificuldades. Assumindo, ao contrario, o indivíduo coopera com o funcionamento do sistema, inclusive reforçando-o, porém perdendo sua condição de pessoa e se tornando um "tipo".

De qualquer modo porém os indivíduos cegos estão desintegrados da sociedade, pela negação de oportunidades de participação ativa.

A integração será favorecida pela intervenção do Serviço Social, que funcionando como elemento de ligação entre os portadores de cegueira e a sociedade, contribui na avaliação e manejo dos problemas acarretados pela cegueira ao indivíduo, à família e à sociedade.

Como já foi visto, estes têm conhecimentos pouco realísticos sobre a cegueira e conceitos errôneos sobre as pessoas cegas. Isto limita a criação de recursos e serviços adequados ao atendimento dos deficientes visuais, agravando seu problema e limitando suas perspectivas sociais.

Compete ao Serviço Social não só auxiliar os clientes cegos no processo de conscientização de sua verdadeira posição na sociedade e a usarem mais produtivamente suas habilidades e capacidades, oferecendo-lhes oportunidades para um funcionamento social adequado, como também participar em programas de interpretação para a sociedade dos serviços requeridos de educação especializada e reabilitação, participar em programas positivos de reeducação do público em geral, através principalmente da imprensa escrita e falada, se empenhar na procura de revogação de leis errôneas a respeito do problema, e participar em programas de prevenção da cegueira.

A reeducação do público é essencial na integração do indivíduo cego, e efetiva-se a partir do momento que o próprio público participa dos programas de reabilitação e prevenção, e principalmente na medida em que a própria pessoa cega vivendo, participando e contribuindo para a sociedade impõe sua presença real.

A problemática da cegueira tratada desta maneira propicia a minimização e pode chegar a evitar a eclosão do "papel social cego".

O que se objetiva, em última análise é, então, a promoção do cego à condição de pessoa, através de sua participação e da participação da sociedade no processo de integração, ressaltando-se no entanto, que o indivíduo cego, como todos os homens, é capaz de se autodeterminar, de se realizar e é livre, competindo somente a ele, devidamente conscientizado, optar por um caminho de vida.


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