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NEM CLARO...NEM ESCURO

MÁRIO ALVES DE OLIVEIRA

 

Nem claro...Nem escuro!

DEDICATÓRIA

“Aqui eu posso distinguir um pássaro do outro pelo canto, reconhecer a entrada da casa pela trave de cima, porém, jamais poderei aprender o que existe fora do meu ouvido e do meu tato. Só os livros podem libertar os cegos”.

Por volta de 1820, aos dez anos de idade, Louis Brai­lle disse essas palavras para convencer seu pai de que deveria ir para a escola de Paris.

Dedico, pois, este pequeno trabalho aos milhares de cegos que ainda não tiveram a oportunidade de tocar com os dedos a luz que Louis Braille criou.

Mário.

PREFÁCIO

O livro de Mário Alves de Oliveira, escrito num português claro, fluente e bonito, é um ensaio autobiográfico no qual relata sua luta insana e pungente pela integração do deficiente nas escolas normais e na sociedade, sem discriminação ou preconceito sobre o drama que envolve as pessoas portadoras principalmente de deficiências audiovisuais, em Minas Gerais e em todo o Brasil.

Mário Alves, cego dos dois olhos na adolescência, não desanimou diante desse grave problema que o afligiu. Muito pelo contrário. Sabendo que não teria os pais para protegê-lo a vida inteira, foi à luta, dando belo exemplo de vida e perseverança àqueles que desanimam por tão pouco.

Conseguiu fazer seus primeiros estudos, após a cegueira, no Instituto São Rafael, instituição especializada para deficientes visuais. Apesar de cego, tinha ampla visão do mundo e achou que era injusto segregar os cegos ou qualquer outro deficiente em um lugar comum apenas a eles, diminuindo-lhes assim os horizontes já pequenos pelas circunstâncias que tentavam a duras penas alcançar.

Entendeu desde cedo que os deficientes que tivessem o direito de freqüentar escolas comuns a todos teriam chances de conhecer e conviver com pessoas de todos os tipos, e, naturalmente, abrir-se-lhes-iam horizontes até então desconhecidos. Dando seu próprio exemplo de dignidade e força de vontade, conseguiu fazer seus estudos no Colégio Estadual, e mais tarde enfrentou a Universidade, formando-se em Direito, com a ajuda de colegas que lhe gravavam as aulas dadas e até estudavam com ele.

Nunca desanimou diante de nenhum problema. Até a falta de dinheiro conseguiu suprir fazendo bicos como vendedor ambulante. Lutou como pôde para sobreviver e se formar, pois não podia contar com a ajuda de seus pais, simples lavradores em Carmo do Cajuru. É um exemplo de vida a ser seguido tanto pelos deficientes como pelos normais, pois vemos por aí muita gente desanimando diante das adversidades da vida.

Que o exemplo de Mário Alves seja seguido, não apenas pelos deficientes, mas por todos que desejam um sol brilhante em suas vidas.

Mônica Dirce de Camargo Coutinho

Escritora e Editora

INTRODUÇÃO

Ondina Vieira, a quem entrego regularmente um bilhete de loteria, ao saber alguma cova a meu respeito achou que eu deveria escrever um livro sobre a situação do cego utilizando a minha própria vivência como tema. Aleguei não estar inteiramente preparado paira isso e também não via nenhuma utilidade no empreendimento. Minha amiga argumentou com convicção, dizendo que eu não deveria me preocupar com a utilidade do que iria escrever. “Escreva devagar e do seu jeito; conte o que tem feito para sobreviver e superar e superar sua limitação física. Organize, num só volume, o resumo das idéias que você vem divulgando em prol dos seus companheiros e deixe o julgamento do seu trabalho a cargo das outras pessoas”.

Resolvi, então, procurar recortes de jornais e outros papéis que costumo guardar, sem muito cuidado, jogados em qualquer gaveta, o que explica desaparecimento de vários textos escritos por mim, e a falta de anotação datas numa boa parte deles. Entre os achados, escolhi os que me pareceram melhores e os incluí oeste volume, que se assemelha a uma autobiografia, embora não tenha sido esta a minha intenção.

Ao organizar minhas propostas em favor dos deficientes e relatar um pouco da minha vida, quis mostrar as condições de abandono em que ficam família e o individuo ao ter que buscar outro tipo de vida, quando deparam, de repente, com uma limitação física grave como a cegueira, por exemplo.

Na segunda parte, com base na minha própria experiência, procurei apontar o caminho para se evitar o que chamo de “sofrimento inútil”, visto que a solução existe para todos, mas se encontra geralmente muito distante de quem dela necessita.

Precisava dar um título ao livro. Como eu havia ficado completamente cego – e um dos efeitos da cegueira total é exatamente é a não percepção do claro nem do escuro, - optei por essa idéia que me pareceu adequada e sugestiva. Assim, desde o título, tento desfazer um conceito errôneo que as pessoas fazem do cego, acreditando que ele vive permanentemente na escuridão.

Ao escrever este trabalho procurei ser breve. Por isso, alguns fatos e muitos amigos, não foram citados aqui. Todavia, tudo o que foi dito aqui poderia ser resumido em poucas palavras, tais como: a questão do deficiente resolve-se com sua socialização e, uma vez integrado, poderá ele crescer com o Brasil, que só será grande quando houver amor à Pátria e a convicção de todas as pessoas de que não vale a pena possuir sozinho.

CEGO POR DOIS ACIDENTES

Eu tinha dez anos quando tudo começou a mudar em minha vida.

Em janeiro de 1958, fiquei cego do olho direito, num acidente, ao brincar com dois irmãos mais velhos no quintal da nossa casa.

Resolvemos brincar de pique antes de apanhar a roupa enxuta, estendida em laranjeiras, goiabeiras, cerca de arame, etc.

João, de 12 anos, foi sorteado como o primeiro pegador. Depressa subi numa árvore. Perseguido pelo irmão, pulei para outra árvore, como se fosse Tarzan. João não teve coragem de fazer o mesmo. Ele desceu e subiu novamente na árvore onde eu estava, certo de que dessa vez me pegaria. Dei outro pulo de volta e Assis, meu irmão mais velho, também fez o mesmo.

Já nervoso, João resolveu cortar o galho que nós usávamos para atravessar de um lado para outro. Arranjou um facão e começou logo a sua nova empreitada. Achei que ele estava muito lento e pedi que descesse, julgando que o cortaria mais depressa. Por ser mais alto do que eu, João alcançou a ponta do galho e, do chão, o puxava para baixo enquanto eu o cortava. Subi comecei a cortá-lo, onde João havia parado. De repente, o galho se rompeu e antes de cair, deu um golpe para trás.

Meu olho direito foi esmagado. Lembro-me, como se fosse hoje: o braço todo respingado do líquido viscoso, que também escorria pelo rosto.

Era tardezinha. Passei o resto do dia e a noite sem nenhum analgésico sequer. Minha mãe, apavorada, não sabia o que fazer! Meu pai não estava em casa. Havia saído a negócios. Falaram em me levar a cavalo até a cidade.

Distante da nossa casa cerca de 20 quilômetros. Já era quase noite e aleguei não agüentar a viagem.

De manhã, quando meu pai chegou, enrolou uma toalha branca na minha cabeça, tampando o olho ferido, que doía ainda mais diante da luz.

Caminhamos dois quilômetros para chegar à estrada onde, todos os dias, pela manhã, passava o caminhão de leite com destino a Cajuru.

Chegando à cidade, fui levado ao farmacêutico, mas ele disse que o caso não era para ele. Não me lembro, entretanto, se tomei pelo menos um comprimido para dor. Meu pai procurou Jadir Marra, industrial na cidade, que logo mandou seu motorista nos levar a Divinópolis. Era sábado e, por isso, tornou-se difícil meu tratamento.

Na segunda-feira, bem cedo, viajamos de ônibus para Belo Horizonte, na companhia do meu padrinho Dico, irmão do meu pai, que conhecia a capital, onde fora treinado como soldado para combater na Segunda Guerra.

No dia seguinte, fui operado no hospital São Geraldo pela equipe do Dr. Ênio Coscarelli, que não teve outro recurso senão extrair o que restava do olho.

Nessa ocasião, meus avós paternos já estavam morando em Cajuru. Queriam descansar e, por isso, mudaram-se para a cidade.

Talvez porque na roça o risco de um novo acidente fosse maior e porque desejassem me proteger, meus pais decidiram, então, que eu deveria estudar na cidade, morando com meus avós.

Não me lembro se gostei muito da idéia. Afinal, não tinha com que me preocupar. Vivia livre como passarinho no campo, embora tivesse que ajudar meus pais em muitas tarefas diárias.

A cidade era cheia de meninos, mesmo fora da escola. Por toda parte, encontrava-se um grupinho. Brincadeiras, então, era o que não faltava! Estudar mesmo, só na escola! Eu chegava da aula, almoçava rápido e saia para a rua. Em pouco tempo, eu conhecia todos os cantos da cidade e toda a meninada.

Por ter o cabelo muito vermelho, logo me apelidaram de Cabecinha de Fogo. Aos poucos, à medida que me ia familiarizando com a turma, só me chamavam de Cabecinha. Eu só não era pivete porque ainda não existia essa denominação para os meninos de rua de cidades do interior.

Meu tempo para brincar era bem menor quando morava com meus pais. Na zona rural, os meninos são chamados a cumprir pequenas tarefas de casa, com pouco mais de oito anos de idade. Em Cajuru, eu podia desfrutar de uma liberdade bem maior, embora meus avós tentassem me controlar. Pensando apenas em me divertir, ainda assim, guardei uma experiência que me valeu muito, posteriormente.

Na roça, não havia muita diferença entre os meninos da minha escola. Ninguém usava sapatos e o material escolar não passava de um único caderno, uma cartilha, um lápis com uma borracha na ponta. A mochila era uma simples sacola de pano, que chamávamos de capanga. A merenda, não me lembro como era. Não pensava em comida, certamente pela fartura que tinha em casa. A bola do recreio era, quase sempre, uma lobeira murcha e, às vezes, aparecias uma de borracha, que logo se partia ao meio. Lobeira é uma fruta redonda, comum na região, dura e resistente, pouco menor que uma bola de futebol de salão e tão pesada quanto essa.

Na cidade, pude experimentar as primeiras sensações de constrangimento causadas pela desigualdade social. Percebi, ainda que muito de leve, que meu pai era pobre e que não podia me dar as mesmas coisas que alguns colegas da cidade usavam, como pastas escolares, sapatos bonitos e blusas de frio de boa qualidade.

Fazia um ano e meio que estava em Cajuru quando me aconteceu o segundo acidente.

A meninada corria por todo lado, mas o local preferido era o jardim, situado em frente à prefeitura. Ali brincávamos todos os dias.

Na tarde de 10 de junho de 1959, eu brincava de faroeste. De arco e flecha nas mãos, perseguia o inimigo, que corria em torno do coreto. Ao perceber que não era mais visto por mim, por causa da curva do coreto, lldeu, o meu inimigo na brincadeira, encostou-se bem na parede para me esperar. Sem desconfiar, continuei correndo, supondo que ele estivesse mais adiante. Quando contornei o coreto, lldeu jogou sua flecha, que acertou em cheio o meu olho esquerdo.

Eu estava sem os óculos. Preferi guardá-los no bolso, enquanto me divertia no jardim. A flecha não passava de uma simples vareta - sem ponta trabalhada e sem leme - tirada com as mãos de arbustos plantados em torno da praça.

Vicente, filho do Zé Carreirinho, que também estava por lá, batendo figurinha, imediatamente me levou para casa. Desta vez, não foi como no primeiro acidente. Logo veio alguém da farmácia e me aplicou uma injeção.

No dia seguinte, bem cedo, fizemos a mesma viagem do ano anterior. Dr. Énio levou o maior susto. Segundo me contou mais tarde, esse caso foi um dos que mais marcaram sua vida profissional.

Dez anos depois, fui colega de sua filha Letícia, no Colégio Estadual Central, quando ficamos amigos.

Em Carmo do Cajuru, o comentário sobre meu acidente era geral. Diziam: “O Cabecinha ficou cego”. Certamente, era essa a expressão mais repetida naqueles dias pelas pessoas da cidade. Houve muitas manifestações de pesar, mas também alguma censura contra o outro menino. Para mim,

Ildeu não teve culpa pela fatalidade. Nunca tive dúvida quanto a isso, nem mesmo nos primeiros dias, quando a emoção era ainda muito forte.

Meu pai foi aconselhado, até pelo juiz da comarca, a ingressar na justiça para receber uma indenização.  Apesar do sofrimento e de pensar que meu futuro estava definitivamente comprometido, ele não hesitou um instante sequer, em contestar tal sugestão. Jamais admitiria levar alguma vantagem pelo que me havia acontecido, segundo ele, por obra do destino.

Fiquei emocionado quando me contaram, tempos depois, que naquela tarde não houve mais brincadeira na cidade. Aonde a notícia chegava, todos os meninos paravam e iam embora, cabisbaixos, para suas casas.

Felizmente, o tempo não pára. Ele atua sobre todas as coisas e situações. Momentos bons e ruins desaparecem e, mais depressa ainda, se não perdemos tempo chorando diante da porta que se fechou. Alguns anos depois, lendo a vida de Hellen Kelier, vim a saber, o que ela pensava a respeito do infortúnio: “Quando uma porta da felicidade se fecha, uma outra se abre; muitas vezes nós olhamos tão demoradamente para a porta fechada, que não podemos ver aquela que diante de nós se abriu”.

Passei, então, a ouvir rádio durante boa parte dos dias. Quando enxergava, não parava um minuto para escutar música. Aos poucos, fui preenchendo o tempo com outras atividades simples, sem me preocupar com o futuro. As pessoas que me visitavam esperavam encontrar um menino triste ou desesperado. De fato, não me sentia feliz como antes, mas também não lamentava minha situação. Quando me perguntavam sobre meu estado de angústia, sempre respondia com outra pergunta: de que adianta chorar?

Fui compreendendo sozinho que já não era mais possível executar movimentos rápidos, seguros e precisos, que o sentido da visão antes me permitia fazer. Nos primeiros meses que se seguiram ao acidente, quebrei algumas vasilhas da minha avó, especialmente copos.

Mesmo conformado, só voltei à casa de meus pais no fim do ano, seis meses depois do acidente. Parece que eu tinha medo de chorar ao chegar em casa pela primeira vez, sendo cego. Sem as pessoas perceberem meu conflito, encontrei uma saída bem sensata, que acabou dando bom resultado. Fui à roça e voltei no mesmo dia, no mesmo caminhão que fora buscar alguma coisa na propriedade do meu pai. Passada a primeira emoção, ficou fácil voltar outras vezes. Quando fui definitivamente para a minha casa, já me haviam falado sobre a existência de uma escola para cegos em Belo Horizonte.

Meus pais ficaram confusos quanto à melhor alternativa, deixando a decisão de estudar na capital por minha conta.

Não decidi imediatamente se iria ou não para essa escola. Neste caso, também, houve muitas opiniões divergentes. Muitos aconselharam que eu ficasse na roça, alegando que não precisava enfrentar dificuldades fora de casa para garantir meu futuro. Meus pais, embora não fossem ricos, poderiam me manter para o resto da vida, diziam amigos e parentes.

Entretanto, no tempo em que eu brincava distraidamente nas ruas de Cajuru, aprendi que isso não era verdade. Talvez tenha sido essa a maior lição que, de fato, aprendi durante o tempo em que morei com meus avós. E no dia sete de março de 1960, meu pai, meu padrinho e eu, pela terceira vez, viajamos paras Belo Horizonte.

SÃO RAFAEL

Não foi fácil separar-me da família. Parece, até, que foi mais difícil acostumar-me com a idéia de viver longe de casa do que com a de ficar cego. Talvez porque tenha vindo devagar a certeza de que eu não mais enxergaria, enquanto que a separação foi um momento rápido e decisivo. Apesar de tudo, não chorei em momento algum, nem mesmo ao me despedir de minha mãe ou quando fiquei só na escola. Com certeza, era mais um aprendizado árduo que eu guardava, sem saber que, mais tarde, poderia ser uma das razões para lutar em favor da interiorização do ensino para deficientes, isto é, lutar para levar para o interior o ensino para esse tipo de pessoa.

Quando me mostraram o alfabeto Braille, a primeira sensação foi de que eu deveria voltar para casa. Era impossível aprender aquilo. Mas foi só um susto. Dezessete dias depois, fiz um teste para verificar se estava em condições de ser promovido para a 1ª série. Passei com dez. Escrevi todo o alfabeto, numeração e pontuação.

De pressa, também, acostumei-me com os novos companheiros. Era até agradável conviver, diariamente, com outros meninos também cegos. Assim, logo aprendi a gostar da escola. Devagar, criava-se um mundo novo para mim. Em pouco tempo eu já usava uma expressão comum na escola: “lá fora”. Ser cego já não me parecia um problema. Ali não me faltava nada. O dia era cheio, da manhã até a noite, havia o que fazer. Somente aos domingos a situação me parecia monótona, pois não recebia visitas nem tinha para onde ir. O mundo se dividia em dois: o de fora e o do internato.

Falava-se, então, que o mundo de fora é que complicava. Na opinião dos cegos do internato, as pessoas chamadas videntes ignoravam tudo a respeito deles. Dizia-se isso como se elas fossem culpadas por não saberem nada a nosso respeito. Em pouco tempo eu já conhecia muitos casos engraçados e até absurdos, envolvendo cego e vidente, focalizando sempre a ignorância deste ao se relacionar com o deficiente visual.

A razão desta crítica constante, a meu ver, decorria de dois fatores: o isolamento em internato dava ao estudante deficiente visual uma falsa idéia de sua real limitação física. O aluno desconhecia e também não era orientado pela escola sobre as suas reais dificuldades: locomoção, acesso à instrução, ao trabalho e outras. Suponho também que, ao criticar com freqüência os videntes, o cego busca, inconscientemente, compensar suas graves limitações.

O Instituto São Rafael mantinha, na época, cerca de 120 alunos internos, entre rapazes, moças, meninos e meninas, todos cegos ou com visão subnormal, instalados em três setores, ocupando uma área de oito mil metros quadrados, aproximadamente.

Os estudantes do sexo masculino utilizavam dois setores, sendo comum apenas o dormitório. Durante o dia, quando não estavam em aula, os meninos de até 13 ou 14 anos e os maiores permaneciam em seus pátios ou nas salas de estudo, totalmente separados.

O colégio era misto, mas o contato entre aluno e aluna praticamente não existia. O auditório, o refeitório e a sala de aula eram lugares comuns, mas os estudantes não se misturavam, nem mesmo durante o recreio, e até na capela, nas missas ‘aos domingos. Somente nas festas juninas, nos piqueniques ou em algum baile, por ocasião especial, é que os alunos se encontravam com certa liberdade. Fora daí não era permitido o bate-papo entre alunos e alunas, permanecendo cada grupo em seu setor.

Apesar de tudo e talvez por isso mesmo, havia muitos casais de namorados. Fora das ocasiões especiais, como citei acima, namorava-se, apenas, através de cartas, às escondidas.

Para chegar ao refeitório, as alunas seguiam em fila indiana, orientada por uma inspetora, passando ao lado do pátio dos rapazes e dos alunos menores. Durante o trajeto, Antônio José de Paula, que transitava livremente entre as moças, nesse momento, por ser ainda pequeno, gentil, prestativo e ter visão subnormal, era sempre encarregado de entregar um livro qualquer a uma das estudantes, dizendo-lhe em voz alta que o “exercício” estava na página tal. Na verdade, era uma carta para a namorada.

A repressão, a inexistência quase completa de atividade recreativa e a própria cegueira faziam com que o sexo oposto exercesse um fascínio muito grande entre os adolescentes e adultos da escola, além de estimular a prática de homossexualismo.

Tive muitos namoricos, fiz poesias românticas, mas tudo dentro da rotina. Quando estava na 8ª série, comecei a namorar uma das minhas professoras. Isto sim deu o que falar, por causa da diferença de idade.

Essa disciplina rígida, quase medieval, implantada no São Rafael desde a sua fundação, em 1926, prevaleceu até 1965. A partir daí, a escola entrou num período conturbado, de muita indisciplina e desordem, que durou cerca de cinco anos.

Eu imaginava que todos os cegos de Minas, em idade escolar estavam ali no São Rafael, e creio que os demais colegas pensavam a mesma coisa. Mais tarde, porém, pude constatar que isso não era verdade, pois o número de cegos que vinham para a capital era muito menor do que os que ficavam no interior do Estado.

Se antes do internato o tempo passava rápido, lá dentro ele voava. Em dezembro de 1963 eu esperava, ansioso, pelo meu pai, porque as aulas já haviam terminado e o São Rafael estava quase vazio. Dr. José Róiz, médio da escola, vendo-me à toa no pátio, quis saber por que ainda não tinha ido embora. Envergonhado, menti, dizendo que não tinha recebido o dinheiro par comprar a passagem, mas que logo meu pai o mandaria. Esse médio simplesmente tirou a carteira, separou a quantia necessária, enfiou o dinheiro em meu bolso e acrescentou: em março, quando voltar para as aulas, você me pagará.

Preocupado, viajei sozinho pela primeira vez para a minha terra. E não tinha coragem de dar um passo sozinho nas ruas de Cajuru, embora a conhecesse bem. Viajei tenso, sem saber como resolver o problema, quando chegasse na estação. Mas ao descer do trem, logo fui cumprimentado por um dos amigos do meu tempo de estudante em Cajuru. Fiquei aliviado! Depois desta, meu pai nunca mais me buscou em Belo Horizonte.

Quando cursava a 7ª série, ganhei uma bolsa de estudos da Cultura Inglesa. Eu não conhecia Belo Horizonte, nem tinha experimentado ainda dar uma volta sozinho em torno do próprio São Rafael, pois nem isso era permitido pela escola. Comprei, assim mesmo, a minha primeira bengala e pedi a amigo Antônio José de Paula que me ensinasse o caminho da Cultura Inglesa. Por três vezes fomos juntos. Depois não foi mais necessária a sua amável companhia.

Em breve, minha turma concluiria o ginásio - hoje 1° grau - e, naquela época, nos preocupava muito que rumo tomaríamos após a formatura.

Concluí a 8ª série, matriculei-me no Colégio Estadual Central e permaneci no São Rafael, dormindo e tomando as refeições, como se ainda estudasse lá. Outros colegas, na mesma situação, por serem do interior ou não terem família na capital, faziam o mesmo, superlotando a escola em pouco tempo, o novo diretor, muito complacente, não se dava conta disso ou fingia não ver. Aos poucos, ele foi perdendo o controle de todos os setores do colégio. A escola ficou à deriva e só não foi fechada graças à intervenção de alguns Professores, que pediram que ele fosse substituído. O ambiente ficou, de fato, muito difícil para mim, mas, sem renda alguma para pagar uma pensão, eu não tinha como sair de lá.

Felizmente, vim a saber, por caso, que alguns professores e ex-alunos possuíam cotas de bilhetes da Loteria Federal, repassando-os a um agente lotérico, que os comprova, sem lhes dar trabalho algum pelo lucro que obtinham. Movimentei-me no sentido de conseguir uma cota para entrar nesse ramo.

De fato, ganhava-se algum dinheiro sem trabalhar, simplesmente fazendo intermediação no negócio Iotérico, mas ainda não era o suficiente para pagar uma pensão modesta. A situação, então, exigia uma nova saída.

Eu tinha, na época, muito preconceito contra os cegos que vendiam loteria na Praça Sete. Mesmo assim, resolvi ser revendedor lotérico ambulante, mas no sentido estrito do termo, procurando conseguir fregueses em seus locais de trabalho ou em suas residências, apesar da dificuldade de locomoção.

Apenas com a revenda de dois bilhetes por extração, passei a ganhar o suficiente para pagar uma vaga numa pensão, com direito ao café da manhã. Fui, então, morar próximo ao Colégio Estadual Central. Devo salientar que, sendo cego, não era fácil encontrar vaga em pensão, por causa do preconceito dos proprietários contra esse tipo de hóspede.

COLÉGIO ESTADUAL

 

 

O Estadual me encantava, embora fossem muitas as dificuldades que eu teria pela frente, ao contrário do que experimentara até então.

No São Rafael, tudo era de graça: roupa, sapato, remédio, material escolar e até mesmo sabonete e dentifrício. Lá fora, tudo era pago. De graça, só recebia o almoço, servido pela cantina do Colégio, de segunda a sábado.

Quando alguém me convidava para almoçar em sua casa no fim de semana, tinha visita certa. Solange Ribeiro, professora de inglês no Colégio Estadual e que se tornara minha amiga, aos domingos, por algum tempo, contou com minha presença em sua mesa.

Meu desejo era chegar à universidade e, para isso, não perdia tempo nem avaliava as dificuldades materiais. Eu fazia as provas e trabalhos da escola numa máquina de escrever portátil, de escrita comum, comprada especialmente para este fim. Com um gravador velho, quase sempre estragado, eu ia à casa das colegas que se mostravam mais solidárias. Elas gravavam as anotações dos seus cadernos e apostilas.

Madalena Martins Lopes, irmã de uma das minhas colegas, interessou-se tanto pelo meu estudo que, enquanto foi necessário, toda segunda, quarta e sexta-feira, à noite, gravava tudo que eu precisava. Quando, por um motivo qualquer, eu não comparecia, era ela quem me dava bronca.

Letícia Costa Vai, também irmã de uma das minhas colegas, foi outra voluntária importante, fazendo muitas gravações, e assim, muitas outras pessoas, de quem não me esqueço.

Por causa do serviço de loteria e do colégio, em pouco tempo, eu já conhecia muita gente que se interessava por mim. Os proprietários da fábrica de calçados Della Croce fizeram uma vaquinha e me deram um gravador.

No fm da década de 60, os jovens ainda costumavam encontrar-se nas próprias residências, nos finais de semana, para promover pequenos bailes entre amigos e colegas de escola, ao som das amigas radiolas de alta fidelidade. Com entusiasmo, participei desses encontros já em extinção, como se fosse uma grande novidade, embora não soubesse cantar nem dançar direito. No internato, obviamente, não havia nada disso. Lá, os fins de semana eram monótonos e sem fim, principalmente nas tardes de domingo. Eu tentava compensar a minha falta de jeito na música e na dança, com alegria e uma boa conversa, o que era facilitado pelo fato de eu ser mais velho do que a maioria dos meus novos amigos.

Assim, não demorou muito, o internato era só uma lembrança, como se fosse um sonho bom. Com o tempo, até a minha namorada no São Rafael também ficou para trás.

Hoje, além da saudade que tenho do Estadual, guardo também, como troféu, a camisa branca usada na última aula, toda autografada pelos colegas e professores amigos que estavam presentes no momento alegre e triste da despedida, naquele distante mês de novembro de 1969.

Em 22 de janeiro do ano seguinte, o jornal “O Globo” publicava minha foto na primeira página, como um dos candidatos ao vestibular unificado da UFMG.

Aproveitando a alegria da vitória no vestibular, passei uma semana em Vila Velha, Espírito Santo, quando fui, pela primeira vez, ao litoral. Paulo Meira era gerente do Banco Real, em Belo Horizonte, quando o conheci em meu trabalho lotérico, e se tornou muito meu amigo. Por ocasião de sua transferência para Vitória, ele fez questão de que eu fosse visitá-lo. Foi mais uma oportunidade para conhecer novos amigos.

FACULDADE DE DIREITO

No dia cinco de março de 1970, desfilei pela Avenida Afonso Pena puxando uma carroça cheia de estudantes, vestido apenas de cueca e uma saia curta, de saco de aniagem, com o cabelo todo repicado, sujo de tinta, com os seguintes dizeres nas costas: “O meu é branco”. Era o trote dos calouros da Faculdade de Direito daquele ano.

Para facilitar, mudei-me para outra pensão, próxima à faculdade Desta vez, fui convidado pelo proprietário, que me conheceu na rua.

Junto à Fundação Mendes Pimentel, consegui uma bolsa integral de alimentação, ou seja, duas refeições ao dia, inclusive aos domingos.

Assim como existiam Alcides e Barbosinha no Colégio Estadual, figuras inesquecíveis dessa escola, na faculdade também havia o gerente do restaurante, apelidado puí todos de Capitão Galdino.

A hora do almoço era uma festa! Com as risadas gostosas do Capitão ninguém ficava triste.

Não me esqueço do refrão que, batucando nos bandejões, os estudantes, em coro, cantavam animadamente:

“O meu coração é só do Capitão, a minha alegria é o bandejão”.

Durante o trote, conheci o colega João Carlos de Andrade, e ficamos amigos. Por ser do interior, ele morava numa república de estudantes. Passei a freqüentar regularmente sua casa, especialmente nos fins de semana. De lá quase sempre, a turma saía junta para beber nos bares da cidade.

Num sábado, ao entrar no apartamento de João Carlos, fui logo lhe perguntado pelos outros amigos, estranhando o silêncio. Ele disse que estava sozinho. Sem muito jeito, meu amigo começou dizendo que aquele momento era uma boa oportunidade para me falar de seus problemas. Indagou se eu ainda não tinha percebido que ele era homossexual e se eu poderia colaborar com ele. Levantei-me sem graça e, desdobrando a bengala, comecei a andar em direção à porta da rua, dizendo-lhe que eu não era dessas coisas. De repente, um coro de risadas. A turma assistia calada ao teatro que João ensaiara. Rindo muito, também, acrescentei, para fazer mais graça, que só não aceitei a proposta porque o João, enquanto falava, parecia olhar para os lados, como se estivesse observando alguém por perto. Com esta, as risadas aumentaram. Depois disso, todas as vezes que nos encontramos por aí, mesmo hoje, a brincadeira é recontada para outras pessoas, inventando-se detalhes e, às vezes, mudando-se até o enredo. O mais interessante é que sempre damos as mesmas risadas, como se ainda estivéssemos lá, na republica da Rua Rio de Janeiro.

Com o advento da Loteria Esportiva, em 1970, a venda de bilhetes caiu muito. Tive, então, que procurar outro meio para me manter em Belo Horizonte. Como eu já conhecia muita gente, não foi difícil vender outra coisa.

Até 1973, vivi somente de vendas, como ambulante, variando de produtos, conforme a situação.

A Faculdade de Direito da UFMG mantém, até hoje, um Departamento de Assistência Jurídica - DAJ -, onde os estudantes, a partir do 4° ano, podem advogar como estagiários, devidamente assistidos por professores da escola.

No meu tempo, o DAJ oferecia 80 vagas. Em 1973, fiz o concurso e me classifiquei em 43° lugar. A Fundação Mendes Pimentel oferecia vinte bolsas para os mais carentes. Felizmente, fui contemplado com uma bolsa de um salário, durante o estágio de dois anos.

Inseguro, como todo principiante, no DAJ atendi clientes, freqüentei delegacias e fiz audiências no Fórum. Apesar da limitação da cegueira, não tive problemas durante o estágio. Para me auxiliar neste trabalho, contei com a ajuda de João Batista, meu irmão de quinze anos, que já morava na capital e cujo nome é o mesmo de nosso irmão falecido em outubro de 1958.

Durante o meu estágio, havia um delegado na cidade que, ao perceber que o advogado era estagiário, fazia questão de intimidá-lo. Ninguém no DAJ gostava de ir à delegacia desse policial autoritário. Um dia, chegou a minha vez. Pela manhã, eu tinha escutado pelo rádio que o referido delegado tinha sido escolhido como o melhor policial do ano em Minas. Na delegacia, antes de mencionar as razões que me levaram ali, dei-lhe os parabéns na presença de outras pessoas. Parece que ele ainda não tinha sido cumprimentado por ninguém pela homenagem importante que recebera. Ele se levantou de sua mesa e me abraçou muito eufórico. Quando eu estava no passeio da delegacia, indo embora, ele me procurou outra vez para me dizer que eu podia contar sempre com ele. Não é preciso dizer que as coisas ficaram fáceis até para o DAJ, naquela delegacia.

Quando concluí o primeiro ano de Direito, em 1970, resolvi alugar um barracão para trazer três irmãos que moravam na roça, sem condições de prosseguir nos estudos. Dionísio e Paulino, com 14 e 16 anos, respectivamente. Já haviam recebido o diploma de grupo, o máximo que se podia fazer na minha terra. Maria Júlia veio mais para nos ajudar.

Para alugar o barracão, era preciso fazer o cadastro. Minha ficha cadastral só foi aprovada pela administradora de imóveis porque Deusuíta -uma de suas funcionárias, era minha amiga. Além do mais, como todo sabem, quem garante mesmo o aluguel é o fiador. Foi uma luta encontrar alguém que tivesse coragem de dar sua fiança, mesmo em se tratando de um aluguel barato, a um inquilino pobre e sem renda fixa. Procurei mais de 30 pessoas, começando pelos conhecidos mais íntimos. Estava para desistir. Sem intimidade para tanto, resolvi, no último instante, procurar o Professor João Eunápio Borges, meu professor de Direito Comercial no ano que se encerrava.

Creio que o velho mestre só concordou em dar seu nome para garantia do meu aluguel porque era católico convicto. Por esta razão e por não tê-lo decepcionado, ele foi novamente meu fiador depois, quando montei meu escritório de advocacia.

No segundo ano do curso, o advogado Antônio Augusto de Melo Cançado, membro do Conselho Estadual de Educação do Estado de Minas Gerais, era meu professor de Direito Civil. Tomei a iniciativa de procurá-lo em sua casa, para lhe falar sobre a necessidade de se lutar pela interiorização do ensino para os deficientes. Ele sugeriu que eu fizesse por escrito o que pensava sobre o assunto e encaminhasse a sugestão ao conselheiro responsável pelo Departamento de Ensino Especial.

Foi durante o segundo ano do curso que conheci o colega Nézio Wolhein do Amaral, conhecido como Tininho, que estudava à noite, também na Faculdade de Direito da UFMG, e que resolveu se transferir para o turno da manhã. Tornamo-nos amigos inseparáveis nos estudos, na diversão e também no trabalho, quando mais tarde montamos juntos nosso escritório de advocacia. Sem a sua participação decisiva nas gravações de livros, apostilas e até cadernos de outros colegas, certamente eu não teria superado as dificuldade do curso.

PROJETO RONDON

Quando eu descia sozinho a Avenida Amazonas, depois da Praça 7, rumo à Estação Central, carregando pouca bagagem, cheguei a pensar em desistir. Mas ao me lembrar dos motivos que me fizeram chegar até ali, sentia-me novamente encorajado e não pensava mais nas possíveis dificuldades que teria pela frente. Daí a pouco, eu ia viajar de trem, na companhia de muitos universitários, em direção ao norte de Minas. Era a 12ª Operação do Projeto Rondon.

Em 1967, o Governo Federal criou uma fundação de direito público, vinculada ao Ministério do Interior, conhecida como Projeto Rondon, nome dado em homenagem ao Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon, defensor da interiorização do Brasil. A Fundação tinha como objetivo proporcionar ao universitário a oportunidade de prestar serviço voluntário em favor das comunidades do interior, durante as férias de julho e janeiro.

Pela participação no Projeto, o estudante só recebia transporte, alimentação e hospedagem.

Por razões financeiras e políticas, em 1989 o Projeto Rondon foi extinto.

Eu ainda não conhecia nenhum rondonista da excursão da qual estava começando a participar. Sabia, apenas, que fazia parte de um grupo de 40 estudantes que deveria atuar em 10 cidades do norte do Estado.

Conceição Marques Gontijo, também participante desta operação, publicou, tempos depois, um livro contando suas aventuras no Projeto Rondon. Transcrevo as palavras do seu texto, onde narra o momento da nossa partida: “atarefados, correndo de um lado para outro, atendendo ao chamado dos dirigentes e chefes de equipe, a fim de assinarem os últimos comprovantes da viagem e do trabalho.

Finalmente, tudo pronto. Cada um com sua passagem tomamos os lugares marcados, e o trem partiu.

A animação era geral! Os universitários, eufóricos, gritavam, conversavam, chamavam uns aos outros, cantavam... E foi assim, noite adentro”.

Além da turma que me distraia bastante, conheci um companheiro de viagem, um rondonista muito animado, com seus planos e projetos em execução, os quais já haviam sido expostos aos dirigentes do Projeto Rondon, numa entrevista à Imprensa. Chama-se Mário e é cego. Seu ideal é trabalhar em favor dos seus companheiros de deficiência visual.

Em Montes Claros, as equipes formadas pela direção do Projeto Rondon em Belo Horizonte, classificadas mediante treinamento para a seleção dos mesmos, tomariam rumos diferentes, espalhando-se pelo norte de Minas, dirigindo-se para as cidades já determinadas, onde os diversos grupos trabalhariam durante o mês de julho, na chamada Operação Regional.

Ao chegar em Montes Claros, meu grupo reuniu-se pela primeira vez para, finalmente, tratar dos objetivos da viagem. Observou-se que a direção do Projeto equivocara-se.

Não teríamos condições de trabalhar bem em 10 cidades diferentes em pouco menos de um mês. Era chegar e sair logo, sem tempo até para conhecer as autoridades locais. Tomamos a iniciativa de subdividir a equipe de quarenta elementos em pequenos grupos. A formação da nova equipe se deu por interesses pessoais e por laços de amizade já existentes entre alguns. No fim do mês, ao concluir os trabalhos, ficou combinado que os quarenta rondonista iriam se reunir novamente em Francisco Sá, para a viagem de volta à capital.

Márcio Flávio, um estudante de Sete Lagoas, ao entrar no ônibus que nos levaria a Capitão Enéias, estava furioso! Nosso mini-grupo era formado por quatro universitários: ele, eu, Cuido e Lúcia, sendo os dois últimos marido e mulher. Para acalmar o companheiro, argumentei que o mais importante para nós era encontrar pessoas diferentes em outras cidades, e não as universitárias já conhecidas. Parece que ele entendeu o meu ponto de vista. De fato, eu tinha razão. Vinte anos depois, ainda tenho amigos em Capitão Enéias e Rio Pardo de Minas, onde vivi momentos inesquecíveis.

Nosso trabalho consistia em preencher um questionário, a fim de obter informações sobre as condições de vida das pessoas analfabetas da região. No trabalho de pesquisa, realizado em grupos de dois, visitando casas e cursos noturnos do MOBRAL, tive também oportunidade de saber algo sobre os deficientes do município. Cerca de 12 anos depois, em melhores condições, a Fundação Hílton Rocha iniciou um trabalho de pesquisa semelhante, mas somente com pessoas deficientes visuais do interior, publicando na sua revista Braille” várias entrevistas resultantes dessa pesquisa. O que foi publicado não era diferente do que encontrei na época do Projeto Rondon em 1973.

Em Rio Pardo de Minas conheci um lugarejo chamado Montezuma ou Águas Quentes. Era 26 de julho, dia de Santana. Muitas pessoas da região visitavam esse lugar, nesse dia, por motivo religioso. Ninguém do Projeto quis ir. Na companhia de outros rapazes e moças da cidade, já meus amigos, subi no caminhão cheio de gente e fui para Montezuma, a 60km da sede do município. Era de tarde quando saímos. Só voltaríamos no dia seguinte.

Não sabia se teria o que comer nem onde dormir. Chegando ao lugarejo, alguém com voz amiga me perguntou o que eu estava fazendo ali. Era D. Hilda, de Belo Horizonte, mãe de Pedro de Oliveira Chagas (Pedrinho), meu amigo desde os primeiros tempos de São Rafael. Além da hospedagem inesperada, na casa de sua irmã Dalva, diverti-me muito, nadando em águas realmente muito quentes.

De volta à capital, fui procurado por uma repórter do Projeto Rondon, que mantinha um jornal distribuído em todo o País. Eis a matéria do jornal, publicada em outubro de 1973:

Mesmo privado da visão, Mário Alves de Oliveira se inscreveu e participou do Projeto Rondon (l2ª Operação), iniciando uma campanha pela integração do cego.

Diz ele que é necessário sair do esconderijo para reivindicar os direitos relativos à condição humana de milhares de deficientes, que vivem no Brasil superprotegidos ou rejeitados pelas próprias famílias e marginalizados por toda a comunidade. Segundo Mário, sua participação é apenas o começo e este e um trabalho que exige esforço e conscientização, só podendo ser conseguido mediante boa vontade e muito interesse. Otimista, ele acredita que a solução para o problema não é tão difícil quanto aparenta, não havendo necessidade de criação de escolas especiais para os deficientes. Basta apenas preparar os professores para a tarefa de lidar com eles em escolas comuns. Acadêmico de Direito da UFMG, Marro conta que, por onde passou, expressou suas idéias e teve a maior receptividade, principalmente entre as professoras e diretoras de escolas. Menciona, inclusive, que uma diretora, estudante de Psicologia, convenceu se a tal ponto da importância do assunto que se decidiu a defender tese sobre o tema.

Mas tudo será inútil - na opinião de Mário - se o próprio deficiente não despertar para pleitear oportunidades, ele mesmo, provando que também pode produzir e ser útil à vida comunitária. Nada de se confinar e se acomodar a um internato, ilha dos deficientes, que os prepara somente para viver uma vida especial. E essencial, fala Mário, insistir em que os deficientes vivam entre pessoas do seu próprio meio, sendo educados junto a essas pessoas, na sua própria terra, com suas próprias famílias, nas escolas comuns.

Só uma coisa Mário lamenta: não ter iniciado essa campanha há mais tempo. Mas se consola, pensando que talvez ela esteja surgindo no momento exato em que o brasileiro amadurece para enfrentar uma situação mais ampla e mais complexa.

Entusiasmado, inscrevi-me novamente no Projeto Rondon para participar, desta vez, da Operação Nacional, realizada fora do Estado de origem do universitário, durante as férias de fim de ano.

Nos primeiros dias de janeiro de 1974, viajei de ônibus de carreira para Fortaleza, mas com as 42 poltronas ocupadas pelos rondonistas de Minas que atuariam no Estado do Ceará.

Minha equipe, composta de sete universitários, sendo quatro rapazes e três moças, a maioria do interior, na véspera da partida para o Nordeste reuniu-se no Colégio Militar, em Belo Horizonte, para tratar dos últimos detalhes da viagem e, principalmente, para se conhecer.

Independência, localizada no extremo oeste do Ceará, no sertão dos lnhamuns, freqüentemente castigada pela seca, era a cidadezinha onde deveríamos permanecer por cerca de trinta dias. Entre outras atividades, a equipe do Projeto Rondon deveria colaborar com os funcionários do INAN -Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição - na distribuição de alimento para os flagelados da seca daquele município. Não chovia na região havia três anos. Durante a distribuição das cestas, dávamos explicações sobre a importância das diversas vacinas, falávamos da necessidade e da forma carreta de se construir fossas e de outros assuntos de interesse social.

Antes de chegar em Independência, passamos em Fortaleza, onde permanecemos pouco mais de vinte e quatro horas. Lá me encontrei com outros rondonistas de vários Estados, mas foi com os cariocas que passei bons momentos à beira-mar, enquanto esperava a hora de viajar para o interior do Estado. Na cidade de Independência, distante 480km da capital cearense, fui pego de surpresa quando me apresentei à diretora de uma escola local. Ao lhe estender minha mão, ela disse que já me conhecia. Tinha visto minha foto e lido o artigo do Jornal do Projeto Rondon, e sabia porque eu estava ali.

Dias depois, na hora do almoço, Henry, o chefe da equipe, revelou-me um fato que, por si só, mostrou o quanto foi importante minha participação no Projeto. Até então, eu não tinha percebido que os meus companheiros haviam tentado retirar-me da equipe, ainda em Belo Horizonte. Viajei despreocupadamente quarenta e oito horas, de Belo Horizonte a Fortaleza, participando das brincadeiras, dirigindo-me a todos, sem desconfiar de nada. Durante a viagem e até aquele momento, não percebi que os meus companheiros de equipe evitavam fazer contato comigo. Por acaso, Túlio César Duarte de Vasconcelos, estudante de Medicina de outra equipe, foi meu companheiro mais constante, na longa viagem. Henry, então, contou-me toda a história: “logo que você foi embora, após nosso encontro no Colégio Militar, o restante da equipe procurou a diretoria do Projeto Rondon para falar que não aceitava a sua participação no grupo, pelo fato de ser cego”. E acrescentou: “queremos, agora, pedir-lhe desculpas e dizer-lhe que sua presença foi o que de melhor nos aconteceu, até o momento, no Projeto”.

Os sete mineiros, sempre alegres e unidos, fazendo serestas e conquistando a cidade, resolveram, quase no fim da excursão, passar um fim de semana em Crateús, maior cidade da região, próxima a Independência. Saímos à noitinha de um sábado, para voltar no último ônibus da meia-noite. Fomos direto para uma boate, onde cada rondonista foi logo rodeado por rapazes e moças da cidade, indo cada um para o seu lado, só nos reencontrando para voltar no fim da tarde de domingo. Paradoxalmente, enquanto distribuía cestas de alimento aos flagelados da seca durante a semana, na tarde daquele domingo eu participei, em Crateús, de um churrasco patrocinado por um político local. Lá conheci, rapidamente, uma moça de Fortaleza, poucos minutos antes de ela voltar para a sua terra. Pediu-me, então, que lhe telefonasse, assim que estivesse novamente na capital cearense, por ocasião de meu regresso a Minas Gerais.

De volta para seus Estados, encontramo-nos de novo, os diversos rondonistas, que procuravam desfrutar da melhor maneira possível dos últimos momentos que teriam em Fortaleza. Compravam lembranças no Mercado Modelo, iam às praias famosas e, à noite, bebiam em barzinhos típicos à beira-mar. Quase sem dinheiro, não pude fazer muita coisa. Mas, por um motivo muito especial, que será conhecido mais adiante, comprei apenas uma rede, como lembrança do Ceará.

Outra vez encontrei-me com meu amigo Túlio, que também me pareceu estar com os bolsos vazios. Juntos, pensamos o que poderíamos fazer à noite, na véspera da viagem de volta. Procuramos um telefone público e liguei para a jovem que eu conhecera dias antes, em Crateús. Zenílda ficou muito contente por ter-me lembrado de lhe telefonar. Naquela noite haveria uma festa de aniversário em sua casa e me pediu que não deixasse de ir. Tomamos um táxi e fomos para o bairro Aldeota, um dos mais sofisticados da cidade, como vim a saber. No terraço da mansão, em mesinhas de mármore, tomando chopp, comendo queijo Minas e outros salgados, Túlio e eu parecíamos dois reis.

Semanas depois, recebi em Belo Horizonte uma carta de Maria Alcides Ximenes. Não era bem uma carta. Ximenes, estudante em Fortaleza, tornou-se minha amiga quando nos conhecemos na festa do bairro Aldeota. À noite, quando ela chegou em casa, já de madrugada, escreveu um soneto falando do nosso encontro. E uma pena não ter mais aqui essa carta e outras, falando do nosso encontro. É uma pena não ter mais aqui essa carta e outras, tanto do Ceará quanto do norte de Minas. Certo dia, fazendo uma faxina, joguei fora muitos papéis e cartões.

Quando participei da operação regional, foi a minha vez de ficar apaixonado, ao contrário do que me ocorreu no Ceará. Durante algumas semanas em Capitão Enéias, conheci a professora Norma Lopes. Pouco mais de uma semana de convivência foi o bastante para me fazer voltar a Belo Horizonte com muita saudade.

ESCRITÓRIO DE ADVOCACIA

Pouco antes de concluir o curso de Direito, Tininho, Gonzaga e eu montamos nosso escritório de advocacia, no centro de Belo Horizonte, com participação igual nos lucros e nas despesas. Por sermos ainda estagiários, Dr. Vicente de Paula Pereira (De Paula), meu amigo, assinava também nossas petições, como assistente jurídico, enquanto aguardávamos a carteira definitiva da OAB. Gonzaga foi para a sua terra, logo que se formou. Tininho, por ser perito criminal, impedido legalmente de exercer a profissão de advogado, participava apenas do trabalho de escritório, dividindo ainda o tempo com suas obrigações de funcionário público. Eu não exercia outra atividade remunerada e, por isso, dedicava-me, o tempo todo, ao trabalho da advocacia.

Eu contava, também, para o serviço externo, além do Tininho, com a colaboração dos meus irmãos, ora Lucília, ora João ou Luciano.

Pelo relacionamento anterior que eu tinha, minha clientela já era razoável.

Certo dia fui procurado no escritório por um senhor de Carmo do Cajuru. Em poucas palavras, o Sr. Adão contou-me sua história:

“Quando eu cortava lenha para o Sr. Mundico, meu vizinho, tomei uma pancada num olho, ficando cego do mesmo. Quis receber indenização pelo acidente, mas o fazendeiro recusou-se a pagar a quantia solicitada. Procurei um advogado, o Promotor de Justiça e até o Juiz da Comarca. Todos me disseram que meu trabalho, neste caso, era eventual, não tendo, por este motivo, nenhum direito à indenização. Estou aqui porque o Sr. Rafael, Oficial de Justiça da nossa comarca, me falou que, no ano passado, o senhor resolveu um caso complicado para a D. Regina e, quem sabe, poderia, também, resolver o meu”.

Adão ganhava por metro de lenha cortada e empilhada, mas não tinha hora para começar ou terminar o trabalho, nem dia determinado para comparecer ao serviço. Neste caso, expliquei ao cliente que o dono da empreitada estava isento de qualquer responsabilidade trabalhista, e que somente teria que pagar a indenização se ficasse provado que Adão era seu empregado, prova esta quase impossível.

Contei este caso a um Juiz do Trabalho, que foi meu professor na faculdade. Ele também achou que não havia nada favorável ao meu cliente. Mesmo assim, não desisti do caso. Troquei idéia com o Tininho, como era de costume e, dias depois, entrei com uma reclamatória trabalhista no Fórum de Carmo do Cajuru, contra o Sr. Mundico.

Numa petição de meia página, aleguei que o reclamante fora impedido de voltar ao seu trabalho depois que se restabelecera de um acidente, quando cortava lenha, caracterizando-se, desta forma, sua despedida sem justa causa. Por essa indenização trabalhista, indiquei um valor bem abaixo do que o fazendeiro já havia oferecido ao Sr. Adão. Quando o trabalhador rural soube, na audiência, da quantia que o seu vizinho, satisfeito, dispunha-se a pagar, começou a protestar, dizendo que não aceitava aquela miséria. Tive então, que lhe dar um chute nas canelas, às escondidas, para que ele se calasse.

Não lhe dei explicações anteriormente, pois meu plano poderia vazar. Disse-lhe, apenas, que confiasse em mim. Pagando aquela quantia, mesmo irrisória, o fazendeiro estava, sem perceber, formalizando sua obrigação como empregador do Sr. Adão.

Tininho, que esperava do lado de fora o final da audiência, ouviu o filho do Sr. Mundico debochar do advogado e achar graça no valor da ação.

De posse da certidão que homologou aquele acordo, protocolei novamente, no Fórum, uma ação de indenização por acidente de trabalho. Meses depois, meu cliente fez uma casinha na cidade de Cajuru com o dinheiro que recebeu da ação posterior.

Pouco depois de formado, tive um caso simples na família para resolver, mas que, independente da minha participação, tornou-se quase insolúvel. Entretanto, de vez em quando, meu anjo da guarda dá sinais de que realmente está por perto. Meu avô, com quem morei em Carmo do Cajuru, passava uns dias em Belo Horizonte, na casa de uma filha, quando foi atropelado na Av. Amazonas, falecendo quarenta dias após o acidente. Fui encarregado de receber o seguro para minha avó. Constatei que a seguradora, com sede em Caxias do Sul estava falida. Através de minha amiga, Tita Zambelli, nascida e criada naquela cidade, mas que se mudara depois para Minas, consegui entrar em contato com um advogado seu amigo, que morava em Caxias do Sul Ele tentou, inutilmente, receber o seguro junto à diretoria da própria empresa. O administrador da massa falida informou-lhe que, logo que fosse possível efetuar o pagamento dos seguros, comunicaria à imprensa. Dico Rabelo, meu tio afim, que pagara sozinho todas as despesas do hospital para o meu avô, mandou pedir-me os papéis, dizendo que o seu corretor resolveria esse problema em menos de cinco dias. O corretor do meu tio não teve mais sorte do que eu.

Ninguém da família contava mais com aquele seguro, nem mesmo eu. Certa vez, encostado no balcão de um cartório do Fórum, resolvi estender o braço para frente e toquei com a mão numa pilastra do outro lado do móvel. Notei que havia um papel muito pequeno colado na parede da coluna. Instintivamente, pedi ao meu irmão que lesse o que estava escrito ali. Era um comunicado da seguradora gaúcha, avisando que estava à disposição dos interessados para efetuar o pagamento dos seguros. Semanas depois, entreguei nas mãos de minha avó o dinheiro que ela não esperava mais.

Um dia, por volta de 1977, Dr. José, médico do Instituto São Rafael, foi ao escritório para me falar de um problema simples, do ponto de vista jurídico, mas que para ele representava, até então, um grande tormento. José Rodrigues de Oliveira era seu nome correto e não José Róiz, como todos pensavam que fosse. Ele contava com nada menos de 45 homônimos protestados. Poucas semanas depois, seu nome era retificado para José Róiz Oliveira. Nessa época, tive a oportunidade de lhe mostrar meu ponto de vista acerca da problemática da pessoa deficiente. Ele se mostrou interessado pelo assunto e entendeu como poucos o quanto era preciso lutar pela descentralização do atendimento aos deficientes. A partir dai, Dr. José Róiz escreveu diversos artigos sobre essa questão, incluindo alguns em seu livro, “Pais e Drogas”. Transcrevo, aqui, trechos publicados em seu livro:

Comentávamos sobre o plano de Dr. Mário. Pensa ele que todos os outros cegos devam ter a mesma oportunidade que obteve, ou melhor, que todos os deficientes visuais ou auditivos sejam alfabetizados, sem segregação, em sua própria cidade natal. Em outras palavras, cada cego ou cada surdo-mudo seria tratado como os que não tenham deficiência física, mas, para isso, haveria necessidade de que os professores do 1° grau soubessem conversar com o surdo-mudo, manusear o Braille corretamente, transmitindo-o facilmente ao deficiente visual. Foi então sugerida a introdução, no curso de Magistério, não só do ensino do Braille, como também do alfabeto do surdo-mudo. Mário desejava que centenas de milhares de outros cegos do Brasil tivessem a mesma chance que teve. Supunha ele, acertadamente, que se todos os cegos fossem alfabetizados, poderiam estudar e até se formar em curso superior. Deste modo, no mesmo local onde nascera, o cego receberia os primeiros ensinamentos, à semelhança dos que não são cegos, podendo, na maioria das vezes, fazer o curso secundário completo sem se privar da companhia dos parentes e amigos. Assim, desde cedo, seria o cego tratado como as outras pessoas, paradoxalmente com a vantagem de poder enxergar mais do que elas. A mesma oportunidade que teve o Mário, os outros cegos do Brasil não deveriam ter, porque nem todos eles poderiam ter a sorte de se encontrar com um Dr. Neide Garcia Lima para orientá-los. Por outro lado, não teria o Instituto São Rafael condições de abrigar todos os cegos de Minas Gerais. Ademais, designar instituição para tratar todos os cegos, indistintamente, ficaria muito mais dispendioso para o Estado, além de determinar segregação.

PROJETO DE LEI

Após a participação no Projeto Rondon, meu trabalho amador consistia em descobrir uma autoridade ou instituição que se interessasse em levar adiante o projeto da descentralização do atendimento às pessoas portadoras de deficiência.

Procurei a Diretoria de Ensino Especial da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, fui várias vezes à Assembléia Legislativa do Estado, fiz palestras em escolas e, até, no Rotary Club. Como água em pedra dura, eu não desistia da idéia. Por se tratar de um projeto de importância incontestável, pensei, inicialmente, que fosse bem fácil colocá-lo em prática. Ao enfrentar as primeiras dificuldades entre a maioria dos próprios deficientes da capital, constatei, com surpresa, que a mudança da política de atendimento aos deficientes não seria tarefa tão simples. Aborrecido e, às vezes, até irritado, fui compreendendo, aos poucos, as razões da resistência e do desinteresse pelo trabalho que poderia mudar o destino de muitas pessoas do interior, inteiramente desassistidas.

Cheguei a pensar no Professor Hilton Rocha, mas como ele estava, na época, muito empenhado em transferir o Instituto São Rafael para um local mais amplo, a fim de transformá-lo num grande hospital-escola, como se dizia, não acreditei que o renomado oftalmologista pudesse interessar-se pela interiorização do ensino, que eu defendia.

Em 1979, eu estava em uma festa, na casa de João Carlos Lanza, meu amigo desde o tempo da república na rua Rio de Janeiro, quando me encontrei com o deputado estadual Marcelo Caetano. O resultado deste encontro veio pouco depois, através do Projeto de Lei n° 372/79, que se segue:

Minas Gerais

Diário do Legislativo

Sábado - 20 de outubro de 1979.

Projeto de Lei n° 372/79, que autoriza o Poder Executivo a criar curso de especialização do sistema Braille e do alfabeto do surdo-mudo.

A Assembléia Legislativa do Estado de Minas Gerais decreta:

Art. 1° - Fica o Poder Executivo autorizado a criar o curso de especialização do sistema Braille e do Alfabeto do surdo-mudo com sede nesta capital.

Art. 2° - O curso terá como objetivo conceder a professores primários habilitação específica prevista no artigo anterior.

Art. 3° - A presente lei será regulamentada por decreto do Poder Executivo.

Art. 4° - Revogam-se as disposições em contrário.

Art. 5° - Esta lei entrará em vigor na data de sua publicação.

JUSTIFICATIVA

A integração social dos deficientes, como os surdos—mudos e os cegos, é um imperativo atual que merece o apoio incondicional de todas as autoridades. Em Belo Horizonte, existe o Instituto São Rafael, onde os cegos fazem o curso de 1° grau. O Instituto Santa Inês se encarrega de alfabetizar os surdos-mudos. No interior do Estado, entretanto, inexistem elementos qualificados para a árdua e nobre tarefa, ficando marginalizados todos os portadores de deficiência física. E de se lamentar esta situação, exigindo-se uma posição imediata daqueles que são responsáveis, direta ou indiretamente, pelo bem-estar coletivo. Com a criação do curso, nossos professores primários do interior terão a oportunidade de se habilitar para aquele mister, freqüentando-o durante o período de férias escolares, aliás, período que deverá ser destinado, especialmente, aos mestres do interior, quando da regulamentação da Lei.

A nossa proposição se reveste de um sentido altamente significativo, pois com a qualificação de professores, dando-lhes maiores incentivos, estaremos cobrindo uma lacuna, evitando, conseqüentemente, a rejeição aos deficientes e a marginalização de centenas de jovens.

Esta medida deve ser tomada o mais depressa possível e tudo deve ser feito eliminando os possíveis complexos dos deficientes. O convívio sadio das crianças e dos jovens será uma conseqüência dessa iniciativa governamental. A rejeição aos deficientes deve ser eliminada com a criação do curso especial, dando condições aos futuros professores de integrar esses jovens desafortunados na sociedade.

Acreditamos que, com a criação do curso de especialização, teremos professores que se dedicarão plenamente ao aluno, sem cometer injustiça e parcialidade, alcançando os melhores resultados, justificando, desta forma, a proposição em tela.

O Projeto de Lei n° 372/79, posteriormente transformado na Proposição de Lei n°. 8.300, obteve aprovação unânime da Assembléia Legislativa, mas recebeu o veto do Governador. Através da Imprensa protestei veementemente. Meu amigo Jaime Gomide, apresentador do Jornal das 19 horas da TV Itacolomy, entrevistou-me nesse horário, quando tive a oportunidade de criticar o governador. Entre outras palavras, afirmei - lembro-me ainda, que o Sr. Francelino Pereira, ao assinar aquele veto, com certeza estava cochilando.

Transcrevo, aqui, o que foi publicado no jornal Estado de Minas a esse respeito:

Advogado quer a derrubada do veto

O advogado Mário Alves de Oliveira afirmou, ontem, que vai tentar junto ao Deputado Marcelo Caetano, líder do MDB, que a Assembléia derrube o veto do Governador Francelino Pereira ao projeto de sua autoria e daquele parlamentar, propondo a criação de um curso de especialização do Alfabeto Braille e do Sistema de Comunicação para Surdos—Mudos em Belo Horizonte. O curso ou treinamento seria ministrado a professores do interior que, voltando para suas cidades, ministrariam aulas aos deficientes, evitando que os mesmos viessem estudar na capital.

O veto do governador ao projeto foi considerado pelo advogado, que é cego, como “fundado em total desinteresse pela sorte de mais de trinta mil pessoas”.Em Minas existem cerca de vinte mil cegos e treze mil surdos—mudos, de acordo com dados do IBGE, que aponta a existência de 1,5 cegos para cada mil habitantes e um surdo—mudo para o mesmo número de pessoas. Este contingente, de acordo com Mário Alves, não pode ser esquecido, porque, mais do que qualquer outra pessoa, o deficiente necessita de instrução para superar sua limitação física e assim tornar—se útil a si e à comunidade.

A LUTA - Há oito anos que vem lutando para que sua idéia (transformada em projeto por Marcelo Caetano) seja absorvida pelas autoridades ligadas à área da educação. Em 1972, ele fez um relatório para o Conselho Estadual de Educação, sugerindo que fosse inserido no currículo de formação de professores primários a aprendizagem do Braille e do sistema para alfabetização do surdo—mudo; entretanto, não recebeu nenhuma resposta. Mário diz que, mesmo com a frustração causada pelo veto ao projeto, ele vai continuar lutando de todas as formas ao seu alcance. Espera, pelo menos, minorar o sofrimento de milhares de deficientes, colocados à margem da sociedade, principalmente pela falta de interesse do governo. Explica que, em Minas, existe apenas uma escola oficial para o atendimento dos cegos (o Instituto São Rafael) com capacidade para aproximadamente 200 alunos, e duas escolas para surdos-mudos (Instituto Santa Inês e Fundação D. Bosco), todas localizadas em Belo Horizonte. Mário Alves observa que “está claro que na capital não pode haver vagas nas escolas especializadas para tantas crianças e jovens e, mesmo que houvesse, seria um absurdo, pois Belo Horizonte não pode ser mais sobrecarregada e responsável pela solução de todos os problemas do Estado”.

A SOLUÇÃO - Por outro lado, a solução - continua ele — não implica na necessidade do deslocamento dos cegos e surdos—mudos para a capital mineira, já que os professores que aqui os esperam também são leigos, pouco sabendo da problemática do deficiente, de seu comportamento, da sua família, da comunidade em que ele vive, enfim, sabendo pouco, até mesmo, do Alfabeto Braille. Se em Belo Horizonte o cego e o surdo-mudo podem ser alunos de professores primários, nessas condições, também, com maiores vantagens, poderiam ser estudantes em sua terra, num ambiente mais ameno, onde todos se conhecem, e onde poderiam, mais tarde, desenvolver uma atividade condizente com suas aptidões num meio onde as pessoas pudessem acreditar na sua capacidade, porque os teriam visto crescer e progredir. Isso não acontece nos internatos da capital. Ali, sem dúvida, a instrução dos deficientes é mais aprimorada e completa, mas de pouca valia; pois, fora do internato, ele continua sendo um desacreditado.

Mário diz, quanto à complexidade do Braille e do sistema de alfabetização para surdos-mudos - constantemente apontadas pelas pessoas —, que se trata de simples tradição e comodismo, parque as pessoas preferem acreditar que esses sistemas são difíceis e complicados, quando, na verdade, nunca os viram ou nem sequer tentaram entender ou assimilar algum sinal fonético utilizado na alfabetização de tais deficientes. Em pouco tempo, qualquer pessoa aprende o Alfabeto Braille e, colocando—o em prática, jamais o esquecerá. Logo, um curso de pouca duração seria o suficiente para dar condições a uma professora de ministrar aulas no interior.

Finalmente, Mário, que é formado em Direito pela UFMG, relaciona como uma das principais vantagens do projeto (vetado pelo governador) o fato de que ele, na prática, impediria que milhares de cegos e surdos-mudos continuassem vindo para Belo Horizonte em busca de estudo e, conseqüentemente, de uma vida melhor, o que, na maioria das vezes, se transforma em pura ilusão.

A título de ilustração e para mostrar a falta de sentido do veto, passo a transcrevê-lo:

Diário do Executivo — Governo do Estado

Razões do veto. Oponho veto total à Proposição de Lei n°. 8300, que autoriza o Poder Executivo a criar o Curso de Especialização do Sistema Braille e do Alfabeto do Surdo-Mudo, com sede em Belo Horizonte, fundado em razões de interesse público, como adiante indicadas.

Com efeito, é forçoso reconhecer que certas providências, pela sua natureza intimamente ligadas no exercício da função administrativa, requerem, para sua adoção, a realização de prévios e convincentes estudos técnicos da alçada do Poder Executivo, para cujo encargo lhe é confiada estrutura adequada.

Tal ocorre com a medida inscrita na proposta legislativa, que, inserida no contexto da atividade administrativa, ressente-se, pela sua origem parlamentar, de estudos especializados, sobretudo determinados pela complexidade do educando deficiente visual, que não se limita ao conhecimento, pelo professor, do Sistema Braille, mas exige dele preparação consentânea a outros aspectos técnicos, igualmente importantes para execução de um trabalho eficiente com o cego.

Por outro lado, o sistema do alfabeto gesticulado revela—se de adoção desaconselhável, pelo seu desuso, substituindo-o pelo método oral, técnica moderna de integração social e profissional do portador de deficiência auditiva, que deve constituir o objetivo maior da educação do surdo-mudo.

Apesar dos meritórios propósitos que inspiram a medida contida na Proposição de Lei n° 8300, as razões expostas conduzem-me a recusar-lhe sanção, fazendo—a devolver ao esclarecido reexame da Assembléia Legislativa.

Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte, aos 26 de maio de 1980.

Francelino Pereira dos Santos,

Governador do Estado de Minas Gerais.

O Dr. Aluízio Gonzaga de Andrade Araújo era chefe da Assessoría Técnico-Consultiva do Estado de Minas Gerais, nessa época, e também lecionava Direito Constitucional. Tendo sido meu professor na faculdade, foi fácil encontrar-me com ele em seu gabinete para lhe falar a respeito do veto.  Para minha surpresa, revelou-me que fora ele próprio que elaborara o texto encaminhado ao Governador. Garantiu-me, também, que recebeu instruções da Secretaria de Educação do Estado para que redigisse o veto naqueles termos. Para lhe mostrar a improcedência do veto, perguntei-lhe, apenas quando e onde são habilitados os profissionais das escolas dos deficientes. Com esta indagação, mostrei-lhe que o indeferimento apresentava razões pouco confiáveis, para não dizer suspeitas. É claro que ele não sabia, pois tal medida nunca fora tomada antes. Exemplificando, contei-lhe que os professores do Instituto São Rafael nunca receberam treinamento adequado par trabalhar nessa escola. Por isso mesmo, nossa proposta era, exatamente, no sentido de começar a eliminar o desconhecimento absoluto dos profissionais de ensino acerca da problemática dos estudantes portadores de algum deficiência.

Diante desse fato, comecei a desconfiar que os responsáveis pela instituições especializadas de ensino para deficientes não se interessavam pela descentralização do atendimento aos seus alunos por insegurança, desconhecimento, comodismo e, talvez, até por interesse pessoal.

Embora eu não tivesse meios para provar, imaginei que a Secretaria de Educação do Estado entrara em contato com algumas autoridades dessa escolas, solicitando-lhes a opinião sobre a criação do curso proposto na Lei n 8.300. Infelizmente, não se lembraram de ouvir os mais interessados, principalmente os deficientes do interior, pressupondo que tais instituições representassem de fato os interesses de todos eles. No entanto, a orientação da qual j tomamos conhecimento não convence ninguém medianamente informado sobre a questão.

Também não tive muitas adesões entre os próprios deficientes da capital. O apoio vinha de fora e da imprensa. Houve quem trabalhasse silenciosamente nos bastidores da Assembléia em favor da manutenção da política educacional dos deficientes. Por isso, na segunda votação da Lei n° 8.300, veto não foi derrubado, por falta de quorum.

A luta pela mudança deveria vir do interior, de milhares de deficiente que vivem espalhados por todo o território mineiro, mas que, dispersos, alienados e sem liderança, jamais poderiam fazer alguma coisa em beneficio deles próprios, embora a verdade dos fatos saltasse aos olhos de qualquer pessoa bem intencionada.

ATIVIDADE PARALELA

Vivendo apenas com a metade da renda do escritório, eu superava com esforço as dificuldades próprias do início da carreira de advogado, principalmente sendo pobre. Aos poucos fui constatando que a maioria dos colegas exercia outra atividade com renda fixa, enquanto mantinha o escritório ou, simplesmente, preparava-se para um concurso público. Embora não pensasse de maneira decisiva, comecei, também, a admitir a idéia de procurar outra fonte de renda, por uma questão de segurança, uma vez que os honorários eram oscilantes.

Por volta de 1976, meu amigo Odílio de Vargas e Silva, também deficiente visual, disse-me que a Loteria Federal estava novamente tendo boa procura e que valia a pena ter uma cota de bilhetes como antigamente, isto é, ganhando algum dinheiro somente como atravessador. Incentivado pelo amigo, repeti a iniciativa de anos atrás, mas sem a menor intenção de voltar a ser revendedor lotérico. Nesse caso, o lucro ainda era pequeno, como nos tempos do internato, mas era o suficiente para pagar algumas contas, sem nenhum trabalho.

Nos primeiros meses de 1977, novamente a Loteria Federal entrou em crise e nenhuma casa lotérica comprava mais os bilhetes de terceiros. Como acontece ainda hoje, a Caixa Econômica Federal também não aceitava devolução e o descredenciamento demorava trinta dias ou mais. Enquanto se aguardava o cancelamento da cota, a retirada dos bilhetes era obrigatória, a menos que o cotista estivesse disposto a perder a caução, ou seja, a garantia depositada na Caixa. Era preciso, portanto, encontrar uma solução urgente! Em março, mais uma vez, percorri várias casas lotéricas de Belo Horizonte, durante um dia, sem conseguir repassar os bilhetes, nem mesmo perdendo algum dinheiro.

Nessa noite, quando fui à casa de Maidinha, minha namorada, que também possuía uma cota nas mesmas condições, sob minha responsabilidade, contei-lhe o que estava ocorrendo. Voltei para casa preocupado, sem a menor idéia do que poderia fazer no dia seguinte. Muito tenso, acordei de madrugada e, naturalmente, pensei no problema. Foi então que me ocorreu uma idéia inteiramente nova. Pela manhã, telefonei para Maidinha, a fim de tranqüilizá-la, garantindo-lhe que iria não só vender os bilhetes, mas também ganhar algum dinheiro. Assustada, ouviu em poucos minutos o que havia pensado à noite: organizar um arquivo com quatro pastas, sendo uma para cada semana do mês; por telefone mesmo, explico aos meus amigos que criei um serviço de entrega de bilhetes a domicílio. Explicando melhor: o mês tem, basicamente, quatro semanas, e o sorteio da loteria também é semanal. O amigo que se interessar em receber, mensalmente, em casa ou no serviço, um bilhete da Mineira ou da Federal, poderá escolher uma semana qualquer, de acordo com sua preferência. Assim, poderei organizar uma entrega permanente e periódica de bilhetes a fregueses previamente contratados, cujo período será determinado por eles.

Deu certo. Trabalhei, inicialmente, com 16 bilhetes por semana, e hoje, no mesmo período, entrego aproximadamente quinhentos a diversos amigos e clientes, tanto em Belo Horizonte como no interior do Estado e até em outras capitais.

Forçado pela circunstância, montei um pequeno negócio que, de certa maneira, garantia-me a renda fixa que eu já procurava. Aos poucos, entretanto, minha presença no escritório foi-se tornando irregular, devido aos compromissos com a loteria. Tininho e eu não tivemos o cuidado de organizar um sistema de rodízio, de forma que o escritório não ficasse fechado.

Descontente com a situação decidi optar por somente uma atividade. Não acreditei, principalmente por causa das limitações da deficiência visual, que eu pudesse exercer, com eficiência, duas atividades simultaneamente.

Em 1981, já com o escritório de advocacia fechado, legalizei minha situação junto à Loteria do Estado de Minas Gerais e constituí a firma individual, que tem por fantasia o nome de SEPROL - Serviço de Entrega Programada de Loteria.

DOIS FILHOS

Maidinha e eu nos casamos em 1978, depois de dois anos e meio de namoro. Embora cegos - ela, em decorrência de glaucoma, e eu por acidente, não tivemos, talvez pela diferença das causas, que nos preocupar com a probabilidade de vir a ter filhos com problemas de visão. Quanto à atividade rotineira de uma casa, também não houve motivo de preocupação. Aliás, nem sequer pensamos nisso como empecilho para o nosso casamento. Somos conscientes das nossas limitações, mas, por outro lado, conhecemos nossas possibilidades para enfrentar as dificuldades próprias da vida a dois.

Agora, 15 anos depois, pai de Juninho e Marcelo, posso garantir que faria tudo de novo, se fosse preciso. Da experiência que adquiri nesse período, vou relatar apenas dois casos que podem ser úteis a outras pessoas, embora haja outros que poderiam ser mencionados.

A experiência que será narrada a seguir foi publicada pela revista “Braille” (dezembro de 1991), editada pela Fundação Hilton Rocha, precedida por um pequeno comentário:

Ponto de Encontro

Diante da problemática da cegueira, deparamos, por certo, com os empecilhos de filhos videntes de deficientes visuais, seja na relação com estes pais ou na população vidente. Nosso ponto de encontro de hoje traz uma experiência vivida pela família de Mário Alves de Oliveira, cego, esposa cega, e filhos videntes; ele nos mostra que é possível descobrir, junto com o filho, a competência dos pais em fazê-lo crescer e participar efetivamente da sociedade.

Juninho

Acreditamos que uma criança cujos pais sejam cegos, quando começa a se relacionar com os filhos dos vizinhos, parentes e colegas do Jardim de Infância, pode estranhar o tato de os pais serem deficientes, reagindo, às vezes, com impaciência e até rebeldia. Por isto, acreditamos também que os efeitos da cegueira podem ser mais nocivos psicologicamente aos filhos do que aos pais deficientes.

A fim de amenizar as prováveis conseqüências, pensamos que os pais cegos devem ter em mente três condições:

1) - estar perfeitamente adaptados à sua própria deficiência;

2) - orientar o filho para a realidade da situação, segundo sua capacidade de entendimento;

3) - preocupar-se em conscientizar a sociedade.

A questão não chega a ser alarmante. Entretanto, não podemos ignorar que a cegueira representa alguma dificuldade de ordem psicológica para os filhos, especialmente ao se relacionar com os demais companheirinhos.

Preocupados muito mais em dar assistência material, os pais podem, facilmente, ignorar os conflitos de seus filhos, quando são solicitados pelos coleguinhas a falar da deficiência dos pais, sem ter, ainda, consciência plena dela ou sem saber o que dizer a respeito.

A cegueira ainda é um estigma para a sociedade, que considera o cego bem abaixo de suas possibilidades. Portanto, além da preocupação material, é importante que os pais portadores de deficiência visual tenham consciência da sua limitação física e social e saibam orientar os filhos para conviver com esta realidade indiscutível.

Maidinha e eu passamos por esta situação, quando Mário Júnior (Juninho) contava quatro anos e meio Notamos que ele começava a desconfiar que nos não enxergávamos e demonstrava interesse em saber o que era isso.

Da melhor maneira possível, tentamos responder com simplicidade e clareza o que significava ser cego. Muitas vezes, além de repetir o que serre indagava com insistência, também usávamos, se necessário, a palavra “cego” para que ele percebesse, aos poucos a realidade. Tivemos o cuidado de lhe explicar que nós não ficamos no escuro, como se fosse noite, com a lâmpada apagada. A sensação de estar no claro ou no escuro só existe para quem tem o olho perfeito, em condições de comunicar ao cérebro o que se passa fora da retina. Para facilitar o seu entendimento sobre a visão, sempre lhe fazia a comparação da capacidade de enxergar do homem e do cavalo. O cavalo ou qualquer outro animal utiliza a visão quase que exclusivamente para se orientar no espaço físico, enquanto que o homem é capaz de se adaptar à falta da visão, por ser inteligente.

No princípio, Juninho queria saber, entre as pessoas conhecidas, quem enxergava ou não, para fazer comparação. Acreditamos que, inicialmente, devia ter dúvidas, pois, na prática, não havia muita diferença entre as pessoas. Via todos, cegos e videntes, trabalhado, tanto fora como em casa, sem nenhuma exceção. À medida que o relacionamento foi aumentando com os companheiros da nossa rua, observamos que ele começou a apresentar dúvidas sobre nossa atuação em qualquer tipo de serviço. As dúvidas eram suscitadas pelos amiguinhos que, como não poderia deixar de ser, nada ou quase nada sabiam sobre o que os cegos poderiam fazer. Tivemos, então, o cuidado de valorizar e mostrar tudo aquilo que fazemos e que ele já estava cansado de presenciar. Às vezes, Juninho reclamava também que algum colega lhe dizia que seu pai e sua mãe eram cegos, apenas com o intuito de ofendê-lo. Nós o orientamos, então, para que não se irritasse e que demonstrasse conhecer perfeitamente a situação, informando ao coleguinha que seu pai ficara cego aos doze anos e sua mãe nascera cega.

No jardim, durante o 2° período, aos 5 anos de idade, notamos que Juninho irritava—se com qualquer coisa, e, nessa mesma ocasião, fomos informados de que ele estava perturbando a aula, implicando com os colegas de classe. Tentamos descobrir o que se passava e chegamos à conclusão de que o fato se relacionava com a questão de os pais serem cegos. Nesse caso, era difícil para o aluno compreender a ordem da professora, que sempre salientava a necessidade de mostrar aos pais a beleza de suas letras, dos trabalhinhos e cadernos. Deduzimos, então, que ele não sabia explicar, mas sentia perfeitamente que havia algo errado com os pais, que apesar de acompanhar seu desenvolvimento na escola, não podiam ver, no sentido estrito do termo, suas letras e desenhos.

Felizmente, demos pela coisa e nos comunicamos com a diretora do Jardim, trocando idéias sobre como solucionar o impasse. Orientamos a professora para que, ao salientar a beleza visual dos exercícios escolares, dissesse ao nosso filho, na presença dos demais colegas, que, embora seus pais fossem cegos, podiam entender perfeitamente a beleza dos trabalhos, desde que o Juninho falasse como foram feitos. Achamos que o mais importante, no caso, era desfazer a idéia de que a cegueira deveria ser mantida em sigilo.

Sugerimos que a situação fosse explicada na presença dos colegas e com naturalidade, para que ele entendesse que não havia nada de anormal, como lhe parecia.

Acertamos. Em breve o menino voltou ao normal, comportando—se serenamente em casa e na escola, como antes. O certo é que o fato de os pais serem cegos deixou de ser segredo e ele não precisava mais esconder essa verdade, como se fosse algo de que ele se envergonhasse.

Além do resultado positivo, de ter melhorado o seu comportamento, no fim do ano Juninho fez questão de que sua mãe fosse à escola, para mostrar aos colegas como é o sistema Braille.

Além da limitação que a cegueira, por si só, acarreta, a sociedade se encarrega também de estabelecer outro limite para os cegos. Este preconceito é o resultado da idéia que em geral as pessoas fazem dos deficientes visuais e se manifesta na descrença da sociedade em admitir que o cego seja capaz de fazer as coisas mais elementares. Como a maioria dos cegos ainda não teve a oportunidade de vencer as três dificuldades básicas decorrentes da deficiência visual, isto é, locomoção, educação e trabalho, a aceitação do cego como pessoa ainda deixa a desejar. É que a falta de instrutores na área de orientação e mobilidade e a centralização do ensino impedem que os cegos desfrutem do direito sagrado de ir e vir e de se instruir. Não tendo condições de se locomover sozinho, por não ter sido adequadamente orientado ou estimulado, e não podendo ir à escola mais próxima de sua casa, por não haver nos cursos de Magistério e Pedagogia disciplina que trate da educação dos deficientes, o cego torna-se dependente e analfabeto, sem qualquer possibilidade de exercer uma atividade remunerada.

Enquanto não houver uma estrutura capaz de oferecer aos cegos, em todo o País, meios de se instruir e de se locomover, o limite estabelecido pela sociedade será este que aí está. A presença de alguns cegos bem sucedidos e independentes não passa de mera exceção. Aqueles que se locomovem sozinhos freqüentam escola especializada e trabalham representam um pequeno grupo de privilegiados que não têm condições de mudar, com sua boa atuação, o conceito que a sociedade tem do cego. E preciso melhorar a condição da maioria, para mudar o limite estabelecido pela sociedade. Enquanto isso não for possível, os filhos de cego continuarão sendo vistos como filhos de criaturas incapazes.

Marcelo

“Viver é fácil; difícil é criar. E somos felizes, à medida que temos capacidade de criar soluções para os problemas que a vida nos oferece a cada instante”.

Um dia ouvi essa frase pelo rádio e a decorei. Acho que ela encerra uma grande verdade, e vale a pena lembrar esse pensamento todas as vezes que deparamos com um obstáculo, simples ou não. Das muitas dificuldades que enfrentamos, nem todas são devidamente solucionadas. Muitas vezes deixamos que o tempo as apague, por comodismo, ou então, simplesmente as reprimimos, segundo nossa conveniência. Creio, porém, que nem sempre deve ser assim, especialmente quando se trata da educação de uma criança.

Aos seis anos de idade, quando Marcelo cursava o terceiro período do Jardim, Maidinha notou que ele estava trazendo para casa objetos escolares que não lhe pertenciam.

- Por que você trouxe esse estojo, Marcelo? —Perguntava-lhe.

- Apareceu na minha carteira e resolvi trazer. —Justificava.

- E esta borracha?

- Estava no chão, perto de mim e...

- Maidinha, com muito jeito, pedia-lhe que devolvesse os objetos no dia seguinte, para o próprio dono ou para a professora.

Ficamos preocupados. Achamos que era melhor falar com a diretora da escola que, além de psicóloga, também é nossa amiga. Regina nos disse que isso é comum nessa idade e que, com o tempo, esse desejo impulsivo de possuir, natural do ser humano, passaria, sem maiores conseqüências. Concordamos em parte, mas achamos que era preciso descobrir a causa daquela atitude incorreta, que se manifestara a partir das primeiras semanas do ano letivo de 1989. Conversar com bom jeito, explicando-lhe que aquilo não era correto, não deveria ser o suficiente. Algo especial devia ter ocorrido para que o menino projetasse suas frustrações ou desejos daquela forma, e era preciso descobrir o que se passava em seu íntimo.

Maidinha e eu procuramos rememorar tudo o que havia ocorrido nos últimos tempos. Inicialmente, não encontramos nenhum fato que merecesse destaque. Lembramo-nos, porém, de que em janeiro daquele ano nossa cadela havia dado cria a oito filhotes. Rimos, ao supor que isso pudesse causar algum efeito negativo na vida de nosso filho. A despeito da aparente insignificância do fato, aquele era o único acontecimento diferente ocorrido naquela época. Atentamos para o fato de que Juninho, por ser mais velho e mais decidido, escolheu logo o seu cachorrinho entre os filhotes: o mais belo de todos, dizia ele.

Sem perguntar ao Marcelo se ele também gostaria de possuir um cachorrinho, distribuímos os restantes entre amigos e vizinhos. Mas, embora o cachorrinho pertencesse ao Juninho, quem mais cuidava dele e, com muito jeito, era Marcelo. Observamos também que ele sempre dizia: “Olha como o cachorrinho de meu irmão está crescidinho! É uma beleza!”.

Respondíamos que o “Barão” era dele também.

As palavras não o convenciam. Certamente, estava aí a explicação para os pequenos furtos.

Marcelo preenchia a necessidade não suprida de possuir o seu cachorrinho com a apropriação de objetos alheios.

A propósito, nessa época ele já nos vinha pedindo uma bicicleta e eu lhe falava: no seu aniversário ou em junho, quando a minha renda melhorar, por causa da Loteria de São João, vou comprá-la. Mas não esperei o mês de junho. Levei Marcelo a uma loja na cidade e lhe disse que escolhesse sua bicicleta. Ele ficou deslumbrado quando a recebeu em nossa casa. Na escola e com os amigos, só falava no seu presente. Juninho também ganhou a sua.

A partir de então, Marcelo não trouxe mais da escola objeto que não fosse seu. Esperamos passar algum tempo, supondo que pudesse ser coincidência ou uma eventualidade. O certo é que o fato nunca mais se repetiu.

Naqueles dias de lua-de-mel com a bicicleta, Barão deu uma volta sozinho na rua e nunca mais o encontramos.

APRENDA A SER CEGO

Recebi, em janeiro de 1981, um telefonema de Heloísa Aline, repórter do jornal “Estado de Minas”. Por ser o Ano Internacional dos Deficientes, ela foi indicada para fazer uma matéria sobre esse tema. A jornalista lembrou-se, então, de ter visto Maidinha e eu, meses antes, numa festa na casa de João Carlos de Andrade, também seu amigo. Resolveu procurar-me e, através do nosso amigo comum, conseguiu saber o meu nome e onde me encontrar. Heloísa esteve em minha casa e publicou a seguinte entrevista no dia 21 de janeiro:

Aprenda a Ser Cego

Um dia, de repente, pode acontecer com você. E o colorido do mundo desaparece. Então, como Mário Alves de Oliveira, cego durante a adolescência, a força interior tem que ser maior para enfrentar a vida, que continua.

Hoje, aos 33 anos, advogado e casado com Margarida Luzia, também cega, ele luta por um projeto que visa à descentralização do ensino para o deficiente visual e auditivo como medida urgente para sua integração na sociedade.

Neste ano, dedicado internacionalmente ao deficiente físico, Mário fala de sua vida, da segregação que sofreu e das dificuldades que enfrentou no seu aprendizado de cego. “Louis Braille disse que somente o livro pode libertar o cego, e eu vou mais além e acrescento: somente a educação pode libertar o homem”.A frase vem de Mário Alves de Oliveira, um homem que acreditou na educação como fórmula de sua libertação e, para isso, ainda criança, não hesitou em deixar os pais lavradores nas redondezas de Carmo do Cajuru, para vir estudar no Instituto São Rafael, em Belo Horizonte; alguém que recusou a rede que a mãe confeccionou, logo após o acidente no qual perdera a última vista, para que, dali por diante, passasse a maior parte de seus dias, e que, à noite, ainda convalescente no hospital, chorava um pouco, debaixo das cobertas, desconfiado de que o estavam enganando, que não poderia mais voltar a estudar. Um menino que, ante a hesitação da família em saber se o mandava ou não para a capital, traçou sua sorte num instante de decisão, respondendo à interrogação de maneira que o surpreende até hoje: já que não vou ter pai e mãe por toda a vida, devo ir; talvez lá possa fazer alguma coisa.

E assim ele veio e fez de tudo para se virar na vida. Como vendedor ambulante, comerciava sapatos, anéis, revistas e outras bugigangas, para conseguir dinheiro e pagar a pensão onde morava, quando deixou o internato, já que não poderia receber ajuda dos pais, ocupados com a sobrevivência da família, que ficara em Cajuru. E, provavelmente, muitos podem lembrar-se de já tê-lo visto, os olhos azuis, ruivo, falante, conforme ele mesmo fala de si, no burburinho das ruas da cidade, entrando ou descendo de ônibus, dentro dos elevadores ou mesmo no Fórum de Belo Horizonte, à cata do processo de algum cliente.

Mário sofreu a segregação que o deficiente enfrenta na sociedade e teve de lutar muito consigo mesmo para aceitar—se como cego, uma vez que, como ele conta, a própria palavra que definia a sua limitação machucava-o, profundamente. “Às vezes, ele diz, estava parado, esperando para atravessar uma rua, e escutava a voz de alguém gritando: ‘Ajude o ceguinho a passar’. Aquilo me feria profundamente. Tive que fazer um trabalho mental para diferenciar o que era defeito e o que era deficiência. E compreendi que eu não tinha defeito, mas uma deficiência que independia de mim ou da minha vontade, e que eu não precisava justificar isso para ninguém. E posso dizer que aprender a ser cego é algo muito difícil, mas eu aprendi”.

Dentro deste aprendizado ficou uma filosofia que nasceu de uma lembrança da infância, quando ele ainda enxergava, e que passou a utilizar em sua vivência. Ele conta: “Uma vez, estava na igreja de Carmo do Cairu, guardando o Santíssimo para a minha avó, que não pudera comparecer naquele dia. Sempre que ela não podia ir, me mandava fazer a guarda. Fiquei olhando aquelas paredes grossas, aquela construção imensa, e pensando quantos tijolos teriam sido gastos para edificá-la e no tempo que se gastou para isto. Eu analisava a obra em seu todo, na sua forma atual, mas depois fui compreendendo que aquela igreja tinha sido construída aos pouquinhos, tijolo por tijolo”.

Um dia, nas minhas dificuldades de enfrentar a vida como cego, introduzi um conceito fundamental no meu aprendizado, que sigo até hoje: para se fazer alguma coisa, não é preciso muito esforço. Basta fazer um pouco todo dia. O sofrimento de cada dia é pequeno. E mínimo. E a vida é uma grande construção.”

E foi assim que, depois do internato no Instituto São Rafael, ele foi cursar o Clássico no Colégio Estadual, no Bairro Santo Antônio e, depois deste, fez o vestibular de Direito na UFMG.

Mário Alves de Oliveira volta atrás no tempo para fazer um apanhado de sua história, até o ingresso na Faculdade: “Fiquei cego, aos 12 anos, em dois acidentes, ambos em brincadeira de faroeste. Um, em 1958, e outro, em 1959. A primeira idéia que se teve é de que eu estava inutilizado para sempre. Minha mãe providenciou alguns detalhes para confeccionar uma rede, onde eu deveria passar a maior parte dos meus dias, com o que não concordei. Ainda no hospital, enganado pelas enfermeiras de que tudo estava bem e que logo eu voltaria a enxergar, aproveitei a ocasião para pedir a meu pai uma pasta, por não gostar de carregar cadernos e lápis na mão. Eu tinha medo de não poder voltar a estudar, mas por ser muito criança, não avaliei, exatamente, o bem que perdera e, por esta razão, não sofri tanto, nem me preocupei com o futuro, a não ser em voltar para a escola”.

Em dezembro do mesmo ano, Etc. Neide Garcia Lima, médico recém-formado, chegava a Carmo do Cairu, para tentar ali o início de sua carreira e, ao saber do meu caso, informou a meus pais sobre a existência de uma escola para cegos em Belo Horizonte, sugerindo que eu fosse matriculado no Instituto São Rafael.

Em 7 de março de 1960, vim para o internato.Como não tinha parentes nem amigos na cidade, eu passava todos os fins de semana na escola e as idas a casa se faziam três vezes ao ano: por ocasião da Semana Santa, nas férias de julho e no fim de ano.

Apesar da separação dos familiares, das dificuldades para se adaptar ao novo ambiente e à condição física e psicológica de cego, ele aí ficou até 1966, quando concluiu o 1° grau e teve que deixar o internato. “A formatura — ele contínua — foi, na verdade, uma festa mesclada de tristeza, e eu, assim como quase todos os colegas, não tinha para onde ir, já que voltar era inadmissível. Em minha casa, na zona rural, pouco ou quase nada valeria a minha instrução de 1° grau. Ficar em Belo Horizonte era quase impossível! Não tinha como me manter, nem podia contar com o auxílio financeiro de meus pais”.

Sem qualquer qualificação profissional, tornou-se muito difícil encontrar uma solução razoável para o impasse.

Mas, apesar de todas as dificuldades, Mário resolveu ficar e, como vendedor ambulante, obtinha o suficiente para se manter em uma modesta pensão, enquanto cursava o Clássico no Colégio Estadual e ia enfrentando as discriminações que sua deficiência causava no ambiente de indivíduos normais. Ele explica que, até então, não percebera que tudo por que passava, no que diz respeito às dificuldades de relacionamento, assim como os demais colegas egressos do São Rafael, era conseqüência de um sistema de educação totalmente errado. “Desde a chegada ao internato, enfrentávamos o drama da separação e, depois dele, havia a necessidade de lutar pela reintegração após nove, dez anos de segregação. Compreendi, nessa época, a razão pela qual o cego é motivo de curiosidade e espanto para os alunos de outros colégios, para o povo em geral, e até para os professores. Percebi que este comportamento só poderia ser resultado do desconhecimento da existência do cego, do seu confinamento, tanto pelas próprias famílias como pelo sistema centralizado de ensino especial”. Mas, foi quando do seu ingresso na faculdade que, mais experiente, Mário sentiu a necessidade de lutar, realmente, pela integração do cego, convicto de que o internato para o cego e o surdo—mudo é nocivo para a sua participação na sociedade.

Em 1972, ele sugeria ao Conselho Estadual de Educação que inserisse no curso de formação para professores primários disciplina que os habilitasse a lecionar para cegos e surdos—mudos, ou então a criação de um curso de férias, a fim de habilitá-los, provisoriamente, para aquela função. Como não recebeu nenhuma resposta, foi pessoalmente procurar os responsáveis e, de um de seus membros, ouviu que a sugestão era inviável, por considerar imaturas as professoras brasileiras.

No ano seguinte e em 1974, Mário participou do Projeto Rondon, indo ao Ceará e ao Norte de Mimas tendo como objetivo principal levar a sua idéia para o interior, procurando entrar em contato com professoras, diretoras e delegadas de ensino. A aceitado por parte das pessoas com quem conversou foi grande c o animou a continuar lutando por ela em Belo Horizonte.

Em setembro de 1979, o Deputado Marcelo Caetano, então líder do MDB na Assembléia, procurado por Mário, seu antigo colega de Faculdade, apresentou o Projeto de Lei n° 372/79, autorizando o Poder Executivo a criar o Curso de Especialização do Alfabeto Braille e do Sistema de Comunicação do Surdo-Mudo, curso este que teria como objetivo conceder a professores primários habilitação específica. O projeto recebeu veto do Executivo, mas, mesmo assim, Mário não desanimou.

Tempos mais tarde, por ocasião do 40 Congresso Brasileiro de Prevenção da Cegueira, realizado em Belo Horizonte, ele procurava o Secretário de Educação, Paulino Cícero, para uma conversa. Conversa esta que terminou fazendo com que o projeto fosse desarquivado e reestudado, voltando a circular pelo Departamento Jurídico.

Um pouco de instrução para o deficiente, assim como aconteceu com Louis Braille, seria o suficiente para despertar nossa comunidade e mostrar que o mínimo pode ser o começo de tudo.

No término da justificativa, a batida na mesma tecla: a descentralização do ensino especial, procurando dar à própria comunidade condições de ela mesma encaminhar e solucionar seus próprios problemas. É uma idéia simples e natural, sem requintes técnicos e sem custos elevados.A segunda redação recebeu o “de acordo” do assessor jurídico, Márcio Ribeiro Viana.

De sobrevivência - Depois dos problemas de adaptação, de aceitação da própria deficiência, dos preconceitos da sociedade, ainda existe o do mercado de trabalho, que para o cego é outro grande desafio. A limitação profissional é fato consumado e o cego tem de escolher uma profissão que lhe permita, o mais possível, competir no mundo, que é mesmo capitalista. E, sendo assim, Mário Alves de Oliveira escolheu a advocacia, pensando que poderia, mais tarde, lecionar, após um curso de especialização de 6 meses.

Em 1974, forma-se, e até 1977 vive somente de sua profissão, com escritório aberto no centro da cidade, juntamente com um sócio. Mas, desde o início, sabia que, nos dias de hoje, a maioria das profissões liberais exige um outro emprego para garantir a sobrevivência. E, para garantir a sua, criou um sistema de entrega de bilhetes de loteria, a que deu o nome de SEPROL, através do qual amigos e conhecidos lhe compram, mensalmente, um bilhete inteiro da Mineira ou da Federal. Ele manda entregar na própria casa do cliente o envelope lacrado com o bilhete. Hoje, dois anos e meio depois de iniciado o negócio, chega a vender cerca de 700 bilhetes por mês através destes compradores fixos.

Para Mário, o mundo é uma grande equipe, e há lugar para todas as pessoas trabalharem. Os que estão de fora querem entrar, e é necessário permitir aos deficientes a participação nesta equipe.

Em 1978, ele se casa com Margarida Luzia, cega de nascença, em virtude de glaucoma, com quem convivia no Instituto São Rafael, nos tempos de estudante. Mas Margarida saiu do internato e foi fazer o curso de Magistério em sua terra, São João Dei Rei. Mário nunca mais a encontrou, até retornar ao São Rafael para aprender violão, tempos depois, quando o namoro começou. Margarida, conhecida como Maidinha, é professora de 1° Grau, na escola.

Para Mário, foi um passo fundamental em sua vida, e ele se considera muito feliz com a companheira que escolheu e que, brevemente, lhe dará um filho (ela está no 90 mês de gravidez). “Foi a música que nos uniu, pois, enquanto eu estava nas aulas de violão, ela sempre chegava para dar uma “espiadinha”, e assim começou o namoro, que terminou em casamento.”

Falante, bem-humorado e brincalhão, dividido entre a advocacia e os negócios da loteria, consciente das suas limitações e da necessidade de compreensão e ajuda honesta das outras pessoas, Mário vai levando a vida dentro da filosofia que aprendeu por si próprio. Enquanto isso fica à espera da votação do Projeto de Lei de sua autoria, que beneficiará milhares de deficientes visuais espalhados por todo o Brasil. E não existem dúvidas de que ele, realmente, aprendeu a ser cego.

O ano internacional dedicado aos deficientes foi muito comentado em todo o Brasil. O Governador de Minas Gerais, que nomeou uma comissão para discutir o assunto, criou, por indicação dessa Comissão, a Coordenadoria Estadual de Apoio e Assistência à Pessoa Deficiente. A Caixa Econômica Federal inaugurou em Belo Horizonte uma agência somente para atender clientes portadores de deficiência.

Esse serviço da Caixa não durou mais do que um ano. A Coordenadoria, órgão então vinculado à Secretaria de Governo, nasceu com muito prestígio, gerando grande expectativa entre os deficientes de todas as áreas. A Primeira-Dama do Estado, empenhada na criação desse órgão, esforçou-se para que o coordenador fosse um elemento neutro, não-deficiente, mas comprometido com a causa, a fim de evitar possíveis privilégios e conflitos entre os cegos, surdos-mudos, paraplégicos e representantes dos deficientes mentais. O primeiro coordenador foi substituído por um deficiente visual, cerca de três meses depois de empossado, por pressão das diversas associações de deficientes.

Infelizmente, aconteceu exatamente o que a esposa do Governador Francelino Pereira quis evitar. Ao invés de trabalhar em cima de propostas que pudessem operar mudanças profundas na política de atendimento aos deficientes de todo o Estado, a luta maior dentro da Coordenadoria era a disputa pela supremacia dos diversos cargos de chefia.

Hoje, vinculada à Secretaria do Trabalho, a Coordenadoria tem seus poderes bastante limitados, estando sua diretoria funcionando interinamente há já algum tempo.

Dr. Obregon Gonçalves, advogado que integrou a Comissão do Ano Internacional, em Minas, disse-me, certa vez, que a Comissão, da qual fez parte, sugeriu ao Governador somente a criação da Coordenadoria de Apoio ao Deficiente.

No segundo semestre de 1981, ainda dentro do Ano Internacional dos Deficientes, a Diretoria de Ensino Especial da Secretaria de Educação promoveu um curso sobre a educação dos deficientes para os professores das escolas especializadas, proposta que eu já defendia há muito tempo. A partir de 1982, na gestão do Prof. Luis Carlos de Castro, o São Rafael começou a treinar professores do interior, em cursos rápidos, surgindo, em conseqüência, as primeiras salas-recurso. A sala-recurso é uma pequena estrutura de atendimento ao aluno deficiente que freqüenta a escola regular, que não dispõe de material escolar e humano adequados.

***O EDUCADOR E A PREVENÇÃO DA CEGUEIRA

O IV Congresso Brasileiro de Prevenção da Cegueira, realizado em Belo Horizonte em 1980, colocou à disposição do público diversos temas relacionados com a questão, que poderiam ser abordados por qualquer pessoa, desde que o trabalho fosse apresentado por escrito, entregue com antecedência e se pagasse uma taxa pouco inferior a um salário mínimo. Pouco antes de se encerrar esse prazo, vim a saber desse evento importante, do qual participariam, como conferencistas, profissionais renomados de toda a América Latina, tanto da Medicina como de outras áreas ligadas ao problema da cegueira.

Em cima da hora, sem muito tempo para elaborar trabalho mais detalhado, escrevi um pequeno texto sobre “O educador face à prevenção da cegueira”, cujo tema constava da programação do Congresso. No final do primeiro dia, ainda na Assembléia Legislativa, pedi a alguém que lesse a programação seguinte. Fui totalmente pego de surpresa, ao ouvir meu nome entre os palestristas que, no outro dia, apresentariam seus respectivos trabalhos.

Embora me sentisse muito tenso por causa do tamanho e da importância da platéia, falei com firmeza sobre as idéias que eu já sabia de cor, havia muitos anos. Creio que a minha explanação trouxe algo de novo. Durante o Congresso, não ouvi nenhuma palestra que defendesse a interiorização do atendimento aos deficientes como forma incondicional de promover a prevenção da cegueira e outras deficiências. O Professor Hilton Rocha, ao comentar no final minhas palavras, chamou-me de pessimista simpático, a meu ver sem razão, em ambos os adjetivos. No entanto, suponho que, entre os participantes daquele encontro, talvez tenha sido ele a autoridade que mais levou a sério o que falei.

Meu trabalho encontra-se transcrito no 20 Vol., pág.110, do livro referente ao Congresso. Eis o texto:

O Educador Face à Prevenção da Cegueira

O educador é, talvez, o agente ideal na divulgação dos cuidados necessários para a prevenção da cegueira e de outros males. Entretanto, pouco significativo tem sido o seu trabalho nesse sentido. Todavia, sua participação mais efetiva pode coincidir, agora, com o nosso objetivo, que visa à descentralização do ensino para o deficiente visual e auditivo em nosso Estado, o que é inteiramente viável e necessário.

Há, em nosso Estado, cerca de vinte mil cegos e treze mil surdos—mudos, em geral sem outra opção a não ser a capital para estudar. No entanto, tais deficientes poderiam perfeitamente freqüentar as escolas comuns, desde que em cada cidade de Minas houvesse, pelo menos, um professor que soubesse o Braille e as técnicas aplicadas na alfabetização do surdo—mudo, recursos estes simples e fáceis. Para tanto, tais professores fariam em Belo Horizonte um curso suplementar, o suficiente para aprender aqueles sistemas, bem como conhecer noções de comportamento próprio dos mencionados deficientes e, sobretudo, levar para o interior informações importantes, que poderiam prevenir e reduzir a incidência da cegueira em nosso Estado.

Com a fundação da Escola Imperial dos Meninos cegos do Rio de Janeiro e do Instituto Nacional de Educação para Surdos-Mudos, no século passado, D. Pedro II, embora bem intencionado, iniciou um processo inteiramente errado para a educação do deficiente visual e auditivo. Ao centralizar o ensino especializado em um país de dimensão continental, nosso imperador concentrou em pouquíssimos lugares os recursos e benefícios que deveriam ser levados a todos os cegos e surdos, reduzindo-lhes a oportunidade de se instruir, fazendo com que a grande maioria permanecesse no interior, ignorante, desassistida e sem opção para exercer qualquer atividade útil.

Está claro que uma ou duas escolas na capital não são suficientes nem têm condições de receber a todos, tanto pelo número de cegos e surdos existentes, como pelas dificuldades da distância.

As conseqüências decorrentes desse sistema centralizado e de internato foram e são lamentáveis, sob todos os aspectos. Por outro lado, a maioria que chega ao internato perde, pouco a pouco, o convívio da família e, principalmente, de sua comunidade, tornando-se difícil, mais tarde, o seu regresso, pois em sua terra quase ninguém acredita que tais deficientes possam ou saibam fazer alguma coisa, certamente por não ter acompanhado de perto o seu desenvolvimento.

Também o deficiente, pelo convívio prolongado no internato somente com pessoas nas mesmas condições, tem dificuldade para se reintegrar na comunidade, tanto na capital como no interior.

Pelo instinto protetor dos pais, muitas vezes as famílias que têm filhos cegos ou surdos também se mudam para a capital, contribuindo, assim, com o êxodo rural. Embora tenha sido vetada a Proposição de Lei ü°. 8.300, sua aplicação é inteiramente viável e absolutamente necessária pelas razões citadas acima.

CENTRO DE PESQUISA

O V Congresso Brasileiro de Prevenção da Cegueira foi realizado em Brasília, em 1984, se não me engano. Não pude participar desse encontro, porque as despesas de viagem, hospedagem e alimentação correriam por minha conta, já que não representava nenhuma entidade. Escrevi um artigo sobre a origem do Braille e encaminhei o texto para Brasília, através de um amigo que iria participar do Congresso. Passo a transcrevê-lo a seguir:

A primeira escola para cegos surgiu no fim do século XVIII, em condições especiais. Não existia, até então, nenhum sistema apropriado para se ensinar as primeiras letras a um estudante privado do sentido da visão.

Não faz muito tempo, portanto, os cegos não liam, não escreviam, nem trabalhavam e, quando prestavam algum serviço, não eram remunerados. Não havia recurso nem interesse em integrá-los à sociedade. Não havia razões para lhes dar instrução.

Procurar um meio que lhes possibilitasse ler e escrever não só era uma idéia absurda, por ser considerada impossível, como também de pouca valia. A maioria não acreditava que os cegos pudessem fazer alguma coisa, caso viessem a ler e a escrever. Todavia, o francês Valentin Hauy, influenciado pelas idéias humanísticas da Revolução Francesa e condoído da sorte amarga dos cegos, desejou, ardentemente, mudar seus destinos.

Assim, em 1784, sem saber exatamente como iniciar seu trabalho de alfabetização, o nobre francês inaugurou uma escola só para cegos nos arredores de Paris, convencido de que estava no caminho correto, esse grande benfeitor costumava responder aos incrédulos: “Não devo me preocupar com o que os cegos venham a fazer depois. Minha obra estará plenamente realizada se eu conseguir abrir o caminho que os ponha em contato com a vida que os cerca. E acrescentava: alguém os levará daí por diante”.

Além de procurar uma solução para o grande impasse, Valentin enfrentava as críticas dos amigos e parentes que duvidavam da importância de seu empreendimento. Não é de se estranhar a atitude de seus contemporâneos. Duzentos anos depois, ainda há quem não perceba que a educação é o caminho que conduz o homem à liberdade. Ao defender as idéias de liberdade, igualdade e.fraternidade, Valentin tornou-se mais forte que as barreiras da sua época. E como o problema humano resolve-se com interesse e boa vontade, Hauy deu suas primeiras aulas segundo o que lhe pareceu mais razoável: fabricava letras comuns com varetas e, mais tarde, passou a Imprimir letras de forma em alto relevo, do tamanho das usadas nas manchetes dos jornais de hoje, gravadas em papel espesso. A principio, o método de ensino era desencorajador. Tateando, os estudantes iam reconhecendo letra por letra, formando depois as palavras, penduradas numa armação que ia de um lado a outro da sala. O método das varetas não durou muito. Certo dia, um dos alunos da escola teve, casualmente, em mãos, um cartão impresso em relevo e pôde ler o que estava escrito nele. O aluno sugeriu ao diretor que se tentasse fazer letras como aquelas do cartão. Daí surgiu a impressão dos primeiros livros com letras de forma em relevo.

E foi neste estágio, por volta de 1820, que Louis Braille ingressou na escola de Paris.

O centro de pesquisa progredia, embora o método utilizado permitisse apenas a leitura, porque a escrita vinha da gráfica que Valentim montara no próprio estabelecimento. Em pouco tempo, o Instituto dos Meninos cegos, como era chamado, apresentava o aspecto de uma verdadeira biblioteca, apesar de possuir somente algumas obras. Cada livro era dividido em 20 partes, pesando, cada uma, cerca de 10 quilos.

Os alunos aprendiam a ler, mas não, naturalmente, a escrever. A primeira cartilha dos cegos era, de fato, uma coisa comovente.

Felizmente, a história da alfabetização do cego não parou ai. Aos sete anos de idade, Louis Braille, mesmo sendo cego desde os três anos, freqüentava regularmente a escola de uma cidadezinha do interior da França.

No começo, seu pai levava—o todas as manhãs. Mais tarde, já usando uma bengala, o menino ia e vinha sozinho da escola, onde participava apenas como ouvinte, aprendendo tudo de memória. O pouco que aprendeu foi o bastante para convencê-lo de que só o conhecimento poderia permitir—lhe perceber o que está fora do alcance dos sentidos. Aos 10 anos, Louis Braille foi matriculado na escola de Valentin, por indicação de um advogado, amigo de seu pai.

O novo estudante não demorou muito a perceber que a leitura e a escrita poderiam mudar o destino dos cegos. Na escola especial de Paris, que naquela época precisava existir, o maior benfeitor dos cegos elaborou um alfabeto simples e completo, tão perfeito que até hoje não foi modificado. Aos dezoito anos, apresentou o seu invento ao novo diretor da escola, que assumira a direção após a morte de Valentin. Com a nova administração, o centro de Pesquisa, como deveria ser chamado, perdeu sua finalidade principal, que era a de criar condições plenas para a escrita e leitura dos cegos. O sucessor de Valentin, entre muitas desculpas, não aceitou o novo sistema, alegando não querer abandonar o que já havia sido realizado com muita dificuldade. O novo método, na opinião do diretor, abalaria os alicerces do que havia sido construído antes, e os cegos já estavam acostumados a ler em letras de forma. Desculpas frágeis, que não justificavam a recusa do sistema Braille. Para ele, aceitar o novo método seria prova de incompetência, tornando inútil o que tinha sido feito antes.

Louis Braille foi ameaçado de demissão da escola onde era professor por ensinar às escondidas o seu método, que era assimilado rapidamente pelos alunos.

Fora da escola, fez de tudo para conseguir apoio de pessoas importantes, com quem sempre se encontrava nas apresentações musicais de que participava como violoncelista e organista. Por influência desses amigos, conseguiu apresentar o seu alfabeto no Instituto Real de Paris, órgão do governo encarregado de incentivar e apoiar as invenções, com o objetivo de certificar-se da eficiência do novo método, os juizes do Instituto Real ditaram para bois Braille um texto complicado. Mesmo tendo lido o que acabara de escrever, não acreditaram nele. Algum tempo depois, Braille recebeu uma correspondência do Instituto agradecendo-lhe pela sua apresentação, mas sem dar qualquer Incentivo ao seu trabalho.

Diante da falta de receptividade para o seu invento, Louis Braille começou a demonstrar sinais de desânimo. Contudo, por volta de 1853, o rei Louis XVIII organizou uma feira internacional, onde o alfabeto de seis pontos foi discretamente exposto por iniciativa de uma ex-aluna de Louis Braille, também cega, filha de família nobre, a quem ensinara a ler, escrever e tocar piano, utilizando o Braille.

O alfabeto em relevo despertou grande interesse nos visitantes, principalmente nos estrangeiros.

Com muito entusiasmo, em pouco tempo o alfabeto Braille, como passou a se chamar, foi divulgado em muitos países.

No Brasil, o ensino do Braille foi introduzido imediatamente, graças ao espírito inovador de D. Pedro II, ao contrário dos Estados Unidos, que só admitiram o novo sistema a partir de 1908, porque ainda estavam presos ao método das letras de forma, recusando-se a aceitar a inovação, com isto, mais uma vez a História demonstra que o homem resiste a mudar o que já está pronto, mesmo que essa mudança seja para melhor.

Talvez pela mesma razão, Louis Braille não tenha conseguido êxito em seu país, embora lutasse por mais de vinte anos.

Pouco antes da realização da Feira Internacional de Paris, aos 42 anos de idade, tuberculoso e esquecido, Louis Braille morreu sem desfrutar um momento sequer de felicidade e glória por tudo o que fez em prol da humanidade.

O ALFABETO BRAILLE

O Sistema Braille utiliza sessenta e três símbolos em alto relevo, formados por pontos que variam de um a seis para cada letra. A maior letra do Braille tem a largura de dois pontos, no sentido horizontal, e a altura de três, ocupando uma área de 4 por 7 milímetros, cujo espaço é reservado para as demais letras, ainda que seja apenas de um ponto.

A linha vertical da esquerda representa os pontos um, dois e três, e a da direita, os pontos quatro, cinco e seis:

As dez primeiras letras do alfabeto formam a primeira linha e constituem a base de todo o Sistema Braille:

SEMINÁRIOS

A partir de 1983, a Fundação Hilton Rocha, criada no ano anterior, e a Diretoria de Ensino Especial da Secretaria de Educação iniciaram uma série de seminários sobre a questão dos deficientes, dos quais procurei participar, às vezes como convidado, para falar sobre algum tema discutido nos encontros.

Transcrevo, aqui, duas palestras proferidas nos referidos seminários.

A Situação da Cegueira no Mercado de Trabalho

A deficiência visual acarreta como conseqüência imediata a perda parcial de uma função muito importante: a locomoção. O individuo privado da visão, em geral, se sente inseguro ao andar, principalmente em lugares amplos ou desconhecidos, onde dificilmente se encontra um ponto de referência. É praticamente impossível locomover—se em linha reta ou na direção desejada, se não há ponto de referência, dificuldade constante para o cego ao transitar por aí, pois, afinal, o mundo não é feito - sobretudo nos países subdesenvolvidos - para atender às necessidades das minorias. Como o espaço perceptível ao cego é bastante limitado, indo apenas até onde o braço alcança e o ouvido escuta, o deficiente visual sente-se desencorajado e receoso ao pisar em terreno cuja posição só conhece depois que tocou com o pé ou a bengala. Por esta e outras razões de ordem psicológica, é justificável que o cego se sinta, em principio, desencorajado para o trabalho. Além disso, as oportunidades e opções de trabalho são realmente raras para os deficientes visuais. Portanto, antes de falar em trabalho para o cego, é necessário levá-lo a crer em si mesmo, convencê-lo de que, dependendo somente de seu próprio esforço, as barreiras sociais podem ser eliminadas e sua limitação física pode ser contornada. Afinal para trabalhar ou se divertir, não é necessário utilizar todas as funções e sentidos do nosso corpo. No lar, na escola, pais e mestres, também devidamente orientados, podem e devem mostrar aos filhos e alunos que o mundo é uma grande equipe, na qual há uma função compatível para cada um. O indivíduo não passa de um simples tijolinho da grande construção que é o mundo. Todos são insignificantes, isoladamente, mas importantes demais em relação ao conjunto e indispensáveis para o bom andamento de toda a comunidade.

Com a diversificação de profissões, não há razão para se falar, nos dias de hoje, em inúteis ou incapazes para o trabalho, em decorrência desta ou daquela redução da capacidade física. Entretanto, sempre foi difícil para os cegos a prática de qualquer atividade remunerada. Ao tratar de qualquer assunto referente à participação do cego, em geral, costuma-se dizer que isto ou aquilo é impossível ou que não vai dar certo, antes mesmo de qualquer tentativa Como se não bastasse a limitação física, que por si só já diminui em muito a opção de trabalho para o cego, a sociedade se encarrega de aumentar as dificuldades, quase sempre ainda preferindo fugir aos problemas a buscar soluções definitivas e eficazes. Prefere a comunidade, de um modo geral, defender a legalização do aborto a educar as pessoas a controlar a natalidade, assim como era mais simples, em outros tempos, jogar os cegos recém-nascidos nos desfiladeiros. É mais fácil destruir ou dar o peixe pescado do que investir no preparo ou ensinamento de quem quer que seja. Felizmente, porém, tivemos nossos pioneiros e benfeitores, que acreditaram sempre, acima de tudo, na força do homem, na sua capacidade criadora, buscando uma saída para os problemas que, à primeira vista, parecem insolúveis. A partir do momento em que o cego pôde ler e escrever fluentemente, mudou-se substancialmente sua posição dentro do quadro geral da humanidade. Desde o século passado, os deficientes visuais vêm procurando, decididamente, exercer as diversas atividades econômicas, das mais simples até as chamadas superiores. Embora a deficiência limite quanto à opção de trabalho, não impede o deficiente visual de exercer as funções mais sofisticadas, como as de nível técnico e superior. O fato de ser cego não implica o impedimento do exercício desta ou daquela função.

Com incentivo e orientação adequada, o cego que vive no interior, especialmente em zona rural, pode e deve desempenhar uma série de pequenas atividades cotidianas, que se fazem necessárias em uma propriedade rural, como, por exemplo, colheita de cereais, artesanato etc. Mesmo que o individuo tenha que ser auxiliado vez por outra, o importante, aqui, é não excluir o cego do trabalho rotineiro do sítio ou da fazenda. Se for oportuno, o deficiente visual pode—se instruir em assuntos técnicos, que dizem respeito à atividade rural, e aplicá-los na administração de sua propriedade.

Na cidade, o cego sente—se mais seguro ao se locomover pelas ruas. Por mais confusa que seja, seus quarteirões são sempre regulares e a linha do meio-fio e dos passeios dá ao transeunte cego a direção e os pontos de referência indispensáveis, ao ter que se deslocar de um lugar distante para outro. Além disso, há sempre alguém por perto pronto para ajudar a atravessar uma rua ou localizar a entrada de um prédio.

Na cidade, o cego pode-se dedicar também ao artesanato, vendas de um modo geral, prestação de serviço, representação comercial e outras atividades de iniciativa privada, e até à jardinagem. Neste caso, a instrução de nível médio é quase indispensável. É verdade que o desempenho de tais funções depende de maior mobilidade. Mas, a meu ver, o êxito consiste em ser honesto, eficiente e persistente.

Quanto ao nível superior, assim como acontece com a maioria das pessoas, também são poucos os que conseguem concluir o 3° Grau, tanto pelas dificuldades comuns a todos como pela limitação física, dependendo, naturalmente da capacidade e condições de cada um. O cego pode—se dar bem em Assistência Social, Advocacia, Comunicação, Psicologia, Magistério e outras, sendo mais viável esta última profissão em cidades menores, em escolas superiores e em grupos reduzidos, como nas aulas particulares. É perfeitamente viável e até mesmo aconselhável que o cego permaneça nas cidades menores para lecionar, tanto pela sua facilidade como pela menor concorrência. A habilitação do deficiente visual para o trabalho, seja em que nível for, deve ser em função de sua capacidade intelectual ou de acordo com sua vocação. Para os pessimistas, qualquer atividade que o cego pretenda exercer é motivo de dúvida e de suspeita. Há que se prevenir, também, quanto àqueles que acreditam em mil facilidades e que o fato de ser deficiente não implica dificuldade alguma. E bom ter cuidado com os elogios excessivos e sem resultado prático. Nem tanto à terra, nem tanto ao mar. Basta ser interessado e eliminar os preconceitos. Isto o cego pode fazer, demonstrando a sua capacidade e vontade de trabalhar. Infelizmente, não há um esquema organizado para a habilitação dos deficientes visuais. O sucesso de cada um fica dependendo, isoladamente, da sua criatividade e capacidade. Isso seria suprido com a criação dos cursos profissionalizantes, bem como a criação de cursos de formação de mão—de—obra, que dessem ao indivíduo a tão discutida “experiência de trabalho”.

Por isso, é quase impossível a admissão de cego inabilitado em qualquer tipo de fábrica. Melhorando-se o ensino profissionalizante em nosso País, os cegos poderão tornar—se aptos em muitas profissões, adaptando-se segundo sua aptidão.

Os cegos poderão freqüentar as escolas mais próximas de suas casas, desde que os professores estejam preparados para recebê-los. Neste caso, o Instituto São Rafael deverá ter uma atuação mais abrangente, ministrando cursos intensivos para os mestres do interior.

Por outro lado, a presença do aluno deficiente na escola regular fará com que os colegas e professores busquem soluções para os estudantes em desvantagem física, quando houver necessidade de adaptação em alguma materiais.

É preciso, pois, antes de se falar em trabalho para o cego, dar-lhe oportunidade de se instruir e condições de se locomover sozinho, conscientizando—se a sociedade para ver nele sua grave limitação física, que não o impede, porém, de contribuir para o progresso de seu país. (Trabalho apresentado no Seminário realizado em Belo Horizonte, em agosto de 1983.).

Para minha satisfação, vim a conhecer, mais tarde, o Prof. Dr. Sylas Fernandes Maciel, defensor do aproveitamento do cego no trabalho rural.

Segue-se a segunda palestra, proferida no Colégio Estadual Central de Belo Horizonte, em abril de 1988, por ocasião do seminário sobre a educação dos deficientes, promovido pela Diretoria de Ensino Especial do Estado.

A propósito, cabe registrar que não tive liberdade de escolher o tema sobre o qual iria discorrer. Estranhei sobremaneira, pois o tema a mim designado era, aparentemente, o oposto do que eu sempre defendi.

O Aluno que Necessita do Recurso da Escola Especial

Ao fundar, em 1854, no Rio de Janeiro, a primeira escola para cegos da América do Sul, D. Pedro II não considerou aspectos importantes da questão, tais como: a dimensão do nosso território, a dificuldade de transporte, a educação na sua total amplitude e, acima de tudo, o fato de a invenção de Louis Braille permitir que o cego estudasse em qualquer estabelecimento de ensino.

O mais indicado seria montar um centro de apoio, a fim de treinar pessoal das diversas regiões do País, confeccionar e distribuir material didático para milhares de estudantes cegos. O atendimento aos deficientes, que antes não existia, tornou-se, no início, um privilégio para poucos, o que permanece até hoje. De acordo com os dados da “CORDE” – Coordenadoria Nacional de Integração da Pessoa Deficiente, as atuais escolas especializadas não atendem nem 4% de um total de 10 milhões de pessoas deficientes que vivem no Brasil.

Com o ensino residencial para deficientes, iniciou-se um processo educacional pouco abrangente, onde muitos não teriam oportunidade de estudar. Se as autoridades de hoje não forem devidamente orientadas, mais escolas especializadas serão construídas nos grandes centros ou em microrregiões, supondo-se estar promovendo a tão falada integração.

A fundação do Instituto São Rafael, em 1926, por exemplo, atendeu, em parte, aos anseios dos mineiros, mas a escola simplesmente deu continuidade aos problemas já citados.

No entanto, nem mesmo o aluno que apresenta deficiência mental deve se utilizar do recurso da escola especial, acreditando ser o lugar mais apropriado para a sua educação. O ensino integrado promove a socialização do aluno deficiente. A presença dele na escola comum facilita a sua convivência com os demais colegas não-deficientes. Essas crianças, por certo, irão perceber, no futuro, que é possível trabalharem juntas, também, porque se lembrarão do tempo da escola, quando tiveram oportunidade de reconhecer o valor e a capacidade de cada um, embora alguns não tivessem olhos ou ouvidos para enxergar ou escutar, ou inteligência bastante para assimilar depressa a matéria. Especiais devem ser os recursos, e não as escolas.

A deficiência traz como conseqüência a dificuldade de integração do seu portador ao meio em que vive. O trabalho com as pessoas deficientes deve, pois, ser feito no sentido de minorar essa dificuldade. Isolá-las numa escola especial, pensando estar-se fazendo o melhor para elas, será aumentar sua limitação. O internato para deficientes, além de atender poucos alunos, como já foi dito, também isola o estudante do seu meio social; mantém o povo alheio ao seu desenvolvimento, que é conhecido apenas em seu próprio meio e, por isso, contribuí muito pouco para a extinção dos velhos preconceitos. Não havendo entre as crianças, adolescentes e adultos o convívio diário nas escolas, no trabalho, na atividade do dia-a-dia, não é possível corrigir as idéias erradas que o povo faz dos cegos e de outros deficientes. O preconceito contra o deficiente só diminuirá através da convivência constante entre todas as pessoas da comunidade.

O ensino centralizado contribui para o êxodo rural, com todos os seus problemas. Quem vive o dia-a-dia das escolas de deficientes conhece muito bem o drama das famílias que se mudam do interior, em busca dos recursos para seus filhos. Os alunos das escolas especializadas, em razão do convívio segregado, em geral casam-se entre si, contribuindo em parte para aumentar o número de pessoas deficientes, no caso de doença congênita entre os pais.

 

Também não é justo tirar uma criança do convívio familiar e interná-la numa escola distante. Nesse caso, comete-se uma violência social, assim como também é violência deixá-la crescer sem nunca freqüentar uma escola, o que acontece na maioria das vezes, porque a única opção existente encontra-se muito distante.

 

Por outro lado, descentralizando o atendimento, não só dar-se-ia oportunidade a outros, como também seria promovida sua integração de fato.

 

Convencido de que somente pela descentralização do ensino seria possível alcançar este objetivo, iniciei em 1972 um trabalho de divulgação dessa idéia.

 

Inicialmente, as escolas especializadas já existentes deveriam atuar como centro de apoio, elaborando e fornecendo material didático aos alunos, oferecendo condições aos professores do interior para atender os deficientes nas escolas regulares. Compete agora ao governo articular e coordenar a ação descentralizadora urgente, mantendo um centro de apoio amplo, capaz de atender os deficientes em suas necessidades básicas de locomoção, comunicação, educação e trabalho em suas respectivas comunidades.

 

Após ter sido vetada essa proposta em 1980, procurei o então secretário de educação para mostrar-lhe o equívoco do governo. Na minha presença, ele pediu ao superintendente que entrasse em contato com a Diretoria de Ensino Especial e apurasse o fato.

 

Talvez em decorrência disso, dois anos depois, na gestão do Prof. Luís Carlos de Castro, que reorganizou a escola e promoveu a socialização dos alunos dentro e fora do estabelecimento, o Instituto São Rafael deu início aos primeiros treinamento de professores do interior, a fim de que lecionassem para alunos deficientes nas escolas comuns.

 

Em 1982, por motivo de reforma do prédio, o São Rafael não pôde receber seus alunos. Eles foram então, encaminhados pela Diretoria às escolas regulares, tanto da Capital como do interior. Essa providência tinha tudo para não dar certo, pelo despreparo dos professores dessas escolas em lidar com alunos deficientes visuais. Ao contrário, a experiência deu bons resultados. O aproveitamento escolar dos alunos deficientes foi normal e houve até quem preferisse continuar a estudar nas escolas comuns.

 

A descentralização de emergência veio simplesmente mostrar que, há 150 anos, Louis Braille deu aos cegos do mundo a chave da porta de todas as escolas.

 

 

ARTIGOS PARA JORNAIS

Entre muitos artigos que escrevi, transcrevo alguns que foram publicados em jornais de Belo Horizonte:

Principais Dificuldades Para Os Cegos

A maior falha do Governo para com os deficientes consiste em não ter reavaliado, até hoje, os resultados obtidos pelo trabalho desenvolvido em favor dos cegos, surdos-mudos e outros. Quando o fizer seriamente, estamos certos de que muita coisa vai mudar. A solução está em ter interesse e criatividade.

Durante muitos séculos, nada se fez para mudar o destino dos cegos. Bastou alguém se interessar pelo problema para que a história desses deficientes fosse outra.

Em 1784, desejando empregar toda a sua herança na tarefa de encontrar melhores condições de vida para os cegos, o francês Valentin Hauy fundou em Paris um centro de pesquisa denominado Institut National des Jeunes Aveugles. O resultado maravilhoso decorrente dessa iniciativa veio cerca de quarenta anos depois, com a invenção do sistema Braille. A partir da existência deste sistema, a escola de Valentin alcançou seu objetivo principal, que era, acima de tudo, encontrar um meio eficaz e adequado que possibilitasse aos cegos ler e escrever rapidamente. Com a invenção de Louis Braille, como já disse em outra oportunidade, não se justificava mais a existência de escolas especializadas para cegos como único meio de promover a sua educação, uma vez que o Braille pode e precisa ser ensinado em qualquer educandário do mundo.

Ao invés de confinar os estudantes cegos em escolas residenciais, é essencial que os deficientes visuais vivam entre pessoas normais, sendo educados no meio delas, nas escolas comuns, na sua própria terra e junto de sua família.

Considerando—se o número de deficientes visuais existentes em nosso Estado em relação aos que têm acesso à educação, reabilitação e trabalho, encontramos uma diferença alarmante. Em 130 anos, a educação para cegos, no Brasil, persiste na manutenção de escolas residenciais, em geral nos grandes centros. Em Minas, podem—se contar nos dedos os cegos que receberam algum beneficio proveniente da ação do Governo.

No que se refere às dificuldades básicas decorrentes da cegueira - locomoção, educação e trabalho - pouco se tem feito.

LOCOMOÇÃO: em princípio, o deficiente visual não anda. Tanto para a criança quanto para o adulto, a falta do sentido da visão coloca o indivíduo em situação difícil, no que se refere à percepção do ambiente que o rodeia. Daí a necessidade do auxílio de uma pessoa treinada em orientação e mobilidade, para lhe ensinar a se locomover com segurança. Ao contrário do que se imagina, o deficiente visual não tem a sensação do claro e do escuro, mas sim, a dificuldade de se orientar e se locomover sozinho, apenas com o auxilio de uma bengala. A sensação desagradável causada pelo escuro ou falta de luz só existe para quem enxerga. Embora a locomoção seja uma grande dificuldade para o cego, só recentemente a Escola Estadual São Rafael contratou um técnico em orientação e mobilidade. Diante de limitação tão grave, é de se lamentar que apenas na capital de Minas e somente para os alunos de uma escola seja desenvolvida a tarefa de preparar o cego para vencer uma de suas maiores dificuldades.

EDUCAÇÃO: em principio, o cego não estuda (não lê, nem escreve). A partir da existência do Braille, pode—se dizer que a maior limitação dos deficientes visuais foi eliminada. Em Minas, entretanto, pouquíssimos cegos conhecem a luz que Louis Braille criou. Nos 60 anos de existência, o São Rafael não diplomou trezentos alunos, mesmo contando com bons professores. O número inexpressivo de alunos formados em 1° Grau não decorre da qualidade do ensino da escola, mas da política educacional vigente. Não faz sentido pretender que os cegos de todo o Estado, com mais de 700 municípios venham para a capital freqüentar essa única escola. A solução do problema não consiste em construir outras escolas especiais em grandes cidades do interior, como se costuma pensar.

O aglomeramento de pessoas portadoras de uma mesma deficiência física em lugares especiais não só estimula a segregação dos mesmos, como também contribui para aumentar o número de deficientes, em razão de casamentos que ocorrem entre eles. A solução definitiva, que já deveria estar sendo desenvolvida há muito tempo, consiste em incluir nos cursos de Magistério e de Pedagogia disciplina especifica sobre a educação dos deficientes, montando-se uma estrutura capaz de atender a todos, nas suas cidades, junto de suas famílias. Paralelamente a esta iniciativa, deveríamos ter um centro de apoio na capital, para atualizar os professores, desenvolver pesquisas, confeccionar ou adquirir e distribuir material didático específico, utilizado pelos estudantes. Também é necessário contar com uma imprensa Braille, que felizmente já possuímos, instalada na Fundação Hilton Rocha, mas que, lamentavelmente, encontra—se pouco utilizada.

TRABALHO: Também em principio, o cego não trabalha. Das milhares de profissões existentes, são pouquíssimas aquelas a que os cegos têm acesso. Daí a necessidade de se estabelecer uma espécie de reserva de mercado para cegos, determinando-se normas e condições quanto ao seu aproveitamento nesta ou naquela profissão, para a qual tenha se habilitado. Assim como ocorreu no ensino, também é restrito o aproveitamento da mão-de-obra do deficiente visual. Ao Estado compete desenvolver um trabalho, a fim de que todos - e não apenas os que estão na capital -possam desfrutar das oportunidades existentes. Tudo o que se fez até aqui, em benefício dos cegos de Minas, pode-se dizer que ficou no âmbito das boas intenções, sem se alcançar um resultado eficaz. Cabe, finalmente, observar que a oportunidade que foi dada a poucos deve ser estendida a todos. (Julho de 1987.).

Assistência aos Deficientes e aos País

No início da década de 70, sugeri às autoridades da educação de Minas a inclusão de matéria sobre a educação dos deficientes nos cursos de Magistério e Pedagogia. Esta medida possibilitaria o ingresso dos estudantes deficientes nas escolas comuns, descentralizando o ensino especializado das capitais, promovendo, de fato, a integração.

Finalmente, depois de muito trabalho, a Constituição Federal de 1988, no art. 208, item III, encerrou a discussão, estabelecendo que o atendimento educacional ao deficiente se realize, de preferência, na rede regular de ensino. Até então, a educação para deficientes tem sido para poucos, pois a maioria, por várias razões, não deixa seus lares no interior para buscar esse recurso na capital. Sugeri, também, em 1979, como medida provisória, a criação de um curso para habilitação de professores do interior, que pudessem lecionar para cegos e surdos, enquanto não surgissem os primeiros professores formados em seus cursos regulares de Magistério e Pedagogia. A partir de 1982, a idéia foi adotada pela Secretaria de Educação, que criou o curso, dotando várias cidades do interior de professores aptos à função.

Entretanto, o atendimento ao deficiente não se deve limitar somente em lhe oferecer a oportunidade de se instruir, freqüentando a escola mais próxima de sua casa. Também os que estão fora do período escolar devem receber orientação adequada, assim como os pais, quando surpreendidos com um caso de deficiência na família.

Para que a criança deficiente não chegue à escola tardiamente e com grande atraso pedagógico e social, é necessário que os pais sejam capazes de estimular o filho deficiente a se desenvolver ao máximo, de acordo com suas reais possibilidades.

Através dos diversos postos de atendimento ou clínicas conveniadas, localizadas na maioria das cidades brasileiras, os profissionais, como psicólogos, assistentes sociais e fisioterapeutas, deveriam estar aptos a reabilitar os deficientes e orientar os pais.

Também esses profissionais, assim como os do ensino, deverão estar em condições de exercer essa função, desde que em seus cursos regulares de formação seja incluída matéria sobre a problemática do deficiente.

Infelizmente, as famílias, principalmente as mais carentes, são relegadas à própria sorte, agem por intuição, de acordo com o seu conhecimento, muitas vezes inadequado. A deficiência física, auditiva, visual e mental é sempre uma realidade desagradável, especialmente quando não se aceitam os valores transcendentais e também se ignora a capacidade de adaptação do homem.

Daí, sem dispor dos recursos da reabilitação, socialização e instrução, as famílias mais carentes não têm dúvida em buscar soluções milagrosas dos que prometem cura definitiva.

Milagre não é simplesmente recuperar—se a visão, a audição, o caminhar ou curar—se de qualquer doença, e sim, adaptar—se às condições físicas de que se dispõe e ter uma vida participativa, o que a maioria dos deficientes pode ter.

Divida Social Da Loteria

A loteria é uma boa opção de trabalho para os deficientes e o seu maior compromisso deve ser exatamente com esta causa, tanto na aplicação de sua renda como na exploração. Entretanto, não tem sido bem assim. Todavia, se a Caixa Econômica Federal e a Loteria Mineira aceitarem nossa sugestão, poderão ampliar o mercado de trabalho para os milhares de deficientes que vivem em Minas, melhorando também a distribuição da própria loteria.

A idéia é simples: as diversas loterias seriam comercializadas em bancas padronizadas, do tipo das que vendem revistas, com espaço para se instalar uma máquina que registre o jogo, e seriam exploradas por deficientes e instituições filantrópicas, sem despesas com a Lei de Luvas, que exige a compra do ponto, por isso inacessível a pessoas de poucos recursos. Os pontos poderiam ser distribuídos por instituições como a LBA, o SERVAS, a AMAS, etc. e seriam intransferíveis e inegociáveis, para se evitar a especulação.

A loteria é colocada no mercado por revendedores fixos e ambulantes. Somente a Loteria Federal credencia revendedor ambulante ou pessoa física. A Esportiva, a Loto, a Raspadinha, a Sena e a Mineira são credenciadas somente para revendedores fixos ou pessoa jurídica. Os ambulantes ou cambistas compram das lojas as diversas loterias por preço pouco abaixo da tabela e as vendem ao público por valor bem maior, de acordo com a procura.

Ao credenciar pessoas jurídicas, verifica—se que poucos conseguem uma loja. Na sua quase totalidade, a loteria é comercializada por pessoas que já possuem outras fontes de renda e têm prestígio político, discriminando e inviabilizando a participação dos deficientes que, em geral, são pobres. Se a Caixa Econômica Federal e a Loteria Mineira implantassem a comercialização de suas loterias nas bancas já mencionadas, poderiam aproveitar os deficientes nesse serviço, resgatando a outra função social da loteria, ou seja, a sua comercialização, além de ampliar sua rede de distribuição, e facilitando o consumo.

A proposta de comercialização das loterias em bancas foi apresentada por mim aos diversos órgãos de apoio aos deficientes, a vários políticos e, naturalmente, às administradoras de loteria do Estado e da União, sem, contudo, obter resultados práticos. Só o Sr. Ademir Lucas, quando prefeito de Contagem, demonstrou maior interesse em implantar esse serviço, não o fazendo por falta de tempo hábil.

O PIOR CEGO É O QUE NÃO QUER VER

De repente, ao ficar cego, tive que me adaptar a tudo e me esforçar para compreender a nova situação. Em pouco tempo, percebi que as pessoas pensam que o olho é o órgão mais importante do nosso corpo, mais do que o próprio cérebro.

Hoje, muito tempo depois, quando alguém se dispõe a valorizar excessivamente este sentido, como se a vida não fosse possível sem os olhos, eu costumo dizer, para contestar, que, nesse caso, um gato estaria em situação superior à de um homem cego, porque, além de enxergar muito bem, geralmente ainda tem os olhos bonitos. Digo isto porque essas pessoas não percebem que o homem é capaz de se adaptar, o que não acontece com os animais.

As conseqüências decorrentes da perda da visão vão muito além do simples fato de não enxergar, exatamente por causa dos conceitos pré—estabelecidos e consolidados, através dos tempos, sem se considerar a criatividade do homem.

Em 1959, as pessoas da minha terra, até a diretora da escola, não sabiam que eu poderia continuar freqüentando as aulas lá mesmo, na companhia dos meus amigos de Cajuru, embora já houvesse recursos para isso ha muito tempo. No entanto, poucos meses depois do acidente que sofri, eu enfrentava outra situação difícil, ao deixar minha família, meus antigos companheiros e minha terra, para vir estudar no Instituto São Rafael. Não chorei por isso, mas tive febre à noite, quando dormi pela primeira vez no internato.

Quanto ao ensino, nada de novo: a escola não era diferente. Tive apenas que aprender o Braille, aliás, um alfabeto simples e fácil, ao contrário do que se imagina a primeira vista.

Seria muito mais simples se eu aprendesse o Braille em Cajuru, não só eu, mas também outros cegos, em suas cidades. Por isso, não posso compreender e muito menos admitir que o Braille seja, guardado a sete chaves nas escolas especializadas. E um imenso tesouro, que nos foi legado pelo menino de Coupvray, e não cabe a ninguém o direito de escondê-lo dos cegos. Em Minas, fora algumas exceções, como Uberaba e Juiz de Fora, quem desejar ler e escrever em Braille tem que vir ao Instituto São Rafael, como se não fosse possível aprender esse sistema em outro local ou em qualquer escola.

Não pode haver medida mais infeliz do que essa para a educação dos cegos. E de se estranhar que esta falha do Governo persista até os dias de hoje, apesar de alguns tímidos avanços.

Isso ocorre porque as decisões são tomadas de cima para baixo, sem a participação efetiva dos verdadeiros interessados, isto é, os cegos que estão dispersos pelo interior. Além disso, o internato tem sido uma opção para os pobres, porque os ricos, em geral, contratam professores particulares e não precisam se engajar nesta luta pela descentralização do ensino e do atendimento aos deficientes.

DOIS PROJETOS

Postal Braille:

O Braille é um tesouro sem o qual o cego não se desenvolve. No entanto, já houve quem dissesse que ele é limitador e, até, ultrapassado. De fato o é, mas somente para quem não precisa dele. Para o cego ele é essencial. Por outro lado, reconheço que o Braille, além de ser pouco conhecido, pelas razões já citadas, também só é usado dentro do ambiente escolar, e não no dia-a-dia. Ao assinar um contrato, ao receber o pagamento ou a correspondência, etc., mesmo sendo letrado, o cego é comparado a um analfabeto, dependendo sempre da leitura de terceiros. Por isso, querendo dar ao Braille uma utilização mais abrangente, melhorando a sua comunicação escrita, sugeri à Diretoria dos Correios em Belo Horizonte que estudasse a possibilidade de se instituir um serviço pioneiro, denominado Postal Braille, de grande alcance social para toda a comunidade, ou seja, um departamento que se incumbiria de receber e transcrever, para cegos, correspondências do sistema comum para o Braille e vice-versa. Este novo serviço pode facilitar em muito a vida de seus usuários, ainda dependentes no que se refere à leitura e ou escrita de qualquer mensagem postal, limitando-se os deficientes visuais, até hoje, tão somente a ouvir ou ditar suas correspondências. Em Belo Horizonte, a idéia de se criar o Postal Braille teve boa aceitação por parte da Diretoria Regional dos Correios e pela maioria dos deficientes. A administração central, em Brasília, foi consultada, respondendo favoravelmente à sua implantação, em caráter experimental. A Diretoria de Belo Horizonte, então, esforçou-se ao máximo e, em outubro de 1987, colocou o Postal Braille em condições de funcionar em Minas, com todo o equipamento e pessoal preparado para atender os primeiros usuários. Todavia, para nossa surpresa e frustração, veio de Brasília uma ordem lacônica, determinando que se adiasse a inauguração do serviço, até segunda ordem.

Possivelmente por falta de informação adequada quanto à importância do Postal Braille, ou talvez até por outro motivo não revelado, a ECT voltou atrás e perdeu a oportunidade de criar esse serviço pioneiro, adiando-o para o futuro, que esperamos seja breve, embora haja os que ainda insistem em não aceitar a implantação desse beneficio incontestável.

Depois disso, procurei políticos e instituições de apoio aos deficientes. A maioria continuava achando interessante a idéia, mas também não lutava por ela. Somente a Imprensa divulgava esse projeto como sendo uma grande inovação, não vendo no serviço da Postal Braille nenhuma ilegalidade, como foi apontado por representantes de instituições como a Coordenadoria de Apoio ao Deficiente e até a Fundação Hilton Rocha.

Recentemente, a Senadora Júnia Marize ouviu pela Rádio ltatiaia de Belo Horizonte, no noticiário da manhã, uma matéria a respeito da Postal Braille. Eis o texto:

“É do deficiente visual Mário Alves de Oliveira, um advogado, a proposta da criação de um núcleo de tradução de correspondências para facilitar a vida dos que não enxergam. A sugestão é dotar o Correio de pessoal treinado na linguagem em Braille para tocar esse sistema tão importante para quem convive com a cegueira. Assim, a correspondência chegaria aos seus destinatários, que não necessitariam de mais ninguém para a leitura, em Braille. Isso é o que se poderia chamar de avanço de Primeiro Mundo, faltando só que os Correios se sensibilizem para o problema e promovam um estudo da questão”.

Dias depois, recebi telefonema de um assessor da Senadora, dizendo que ela se interessava pelo projeto. Para que Júnia pudesse compreender bem nossa idéia, entreguei ao seu assessor o seguinte resumo:

A ECT fica obrigada a transcrever para o Sistema Braille a correspondência enviada para uma pessoa deficiente visual ou, inversamente, para o sistema comum, a correspondência escrita em Braille, da seguinte forma:

1 - O remetente fará constar na correspondência a denominação “Postal Braille”, o que significará o seu encaminhamento a esse serviço e também a autorização para a devida transcrição.

2 - O destinatário, por sua vez, deixará nos Correios uma autorização para que possa receber a sua correspondência transcrita.

3 - O remetente poderá, também, endereçar a correspondência à Postal Braille e fazer constar no texto o nome e o endereço do destinatário.

4-- Para que não se configure a violação de correspondência, o profissional dos Correios deverá assumir o compromisso de sigilo, como acontece nos telegramas.

JUSTIFICATIVA: os cegos necessitam sempre dos parentes, amigos ou vizinhos para ler suas correspondências ou escrevê-las, quando não possuem uma máquina de datilografia, o que é comum. Os Correios podem e devem substituir essas pessoas por um profissional qualificado, em melhores condições, por ser neutro e ainda comprometido com o sigilo.

O ensino do Braille foi introduzido no Brasil em 1854, e acreditava-se que, desde então, os Correios deveriam ter instituído um serviço para intermediar a comunicação escrita entre as pessoas de visão e os cegos, procurando também dar um sentido prático ao Braille. A comunicação escrita é condição essencial para a integração dos indivíduos, e qualquer obstáculo neste sentido deve ser eliminado. Este serviço representa uma inovação importante para os cegos, facilitando sua integração, ao eliminar mais uma situação de dependência.

O interesse da senadora pela Postal Braille, infelizmente, durou pouco. Creio que ela desistiu do projeto diante das primeiras dificuldades, pois não se manifestou mais a respeito do assunto.

Identificação Do Dinheiro Pelo Tato

Apesar do interesse dos governantes de diversos países e do esforço individual de muitas pessoas, ninguém conseguiu, até hoje, elaborar um

processo seguro que possibilite aos deficientes visuais identificar o dinheiro.

Essa dependência total dos cegos ainda os deixa muito distantes do convívio rotineiro, no uso de uma das necessidades mais constantes, embora

tenha havido muito progresso nos últimos cem anos em outros setores.

Os recursos utilizados, em geral, não oferecem segurança ou certeza de identificação até mesmo das moedas, permitindo apenas conhecer, precariamente, parte do dinheiro circulante.

Em 1979, aproximadamente, li numa revista um artigo sobre essa limitação dos cegos e me veio uma vontade enorme de encontrar uma solução, mesmo sabendo das dificuldades. Para começar, imaginei que as cédulas poderiam apresentar alguns pontos vazados, variando a quantidade deles em cada valor. Numa conversa com meu amigo Antônio José de Paula, o Toninho, falei do meu propósito e sobre a minha idéia inicial.

Toninho gostou da idéia, mas fez uma observação importante: “os pequenos furos deveriam ter a mesma quantidade em todos os valores.”

Durante alguns meses, falei com diversos amigos sobre o assunto. No primeiro momento, todos gostavam da idéia, mas no final achavam que não daria certo porque não tinha sentido fazer furos nas notas, pois facilmente elas seriam adulteradas. Resolvi, assim mesmo, não abandonar o projeto. Fui, então, ao Banco do Brasil para observar o dinheiro de outros países, esperando encontrar lá algum subsídio. Nas cédulas do Florim, dinheiro holandês, notei em duas delas um ponto mais áspero. Fiquei sabendo que aquele sinal é um recurso gráfico denominado talho doce, utilizado normalmente em documentos importantes para dificultar a sua falsificação.

Acreditei, então, que a Casa da Moeda poderia imprimir nas cédulas quatro pequenos círculos ásperos ou ligeiramente mais espessos. destacados no papel moeda. Com quatro pontos podemos formar treze símbolos diferentes, oferecendo total segurança ao tato e nenhuma dúvida na identificação do sinal impresso na cédula.

Esse sistema me pareceu interessante, mas, mesmo assim, procurei algumas gráficas em busca de mais opiniões. Não encontrei algo que pudesse alterá-lo.

Entusiasmado, telefonei para a Casa da Moeda, no Rio de Janeiro. Sugeriram-me que eu procurasse alguém do Departamento do Meio Circulante do Banco Central, em Brasília. Depois de muitos telefonemas, consegui falar com um funcionário que me pareceu conhecer muito bem o assunto sobre o qual eu pretendia falar. Ele fez um relato detalhado da situação mundial referente à identificação do dinheiro pelos cegos. Quanto ao Brasil, contou-me que em 1979 foi nomeada uma equipe de professores do Instituto Benjamin Constant para estudar o assunto e sugerir uma fórmula que pudesse atender aos cegos do nosso país. Educadamente, o funcionário garantiu-me que é impossível encontrar uma solução com indicações de sinais na própria cédula. Segundo ele, o cego só identificará o dinheiro através de recurso eletrônico, e acrescentou que no Canadá há um projeto neste sentido.

Sem desistir, procurei em Belo Horizonte o renomado oftalmologista Prof. Hilton Rocha, que se interessou muito pelo projeto. Pediu-me que lhe fizesse um relato sobre o assunto, acompanhado do desenho dos treze símbolos propostos. Fiz em cartolina, com um pincel, os 13 sinais de 4 pontos, representados pelas letras: n, p, r, t, v, x, z, e , o, a, u, w, e o sinal de n° que representariam os valores das cédulas, também em ordem crescente. Todas as cédulas teriam um símbolo próprio, representando o seu respectivo valor.

Daí por diante, não acompanhei mais o andamento do projeto, mas fui informado algumas vezes, pelo próprio Prof. Hilton Rocha, de que tudo estava indo muito bem, sem acrescentar detalhes.

Pouco tempo depois, inexplicavelmente, começou a circular a cédula de Cr$ 50.000,00 com três barras imperceptíveis ao tato, ao lado do número de identificação do valor, o que não representa nada para o cego, em termos de identificação.

Dos treze símbolos, dez poderiam representar os valores nas cédulas e ser impressos no papel moeda do seguinte modo:

DEPOIMENTOS E REPORTAGENS

Para demonstrar que a descentralização do ensino para os deficientes é possível e necessária, entrei em contato recentemente com algumas professoras do interior, que já haviam feito treinamento em Belo Horizonte, e pedi a elas que me relatassem suas experiências neste projeto.

A propósito, transcrevo a carta-depoimento de uma professora de ltabira, que é verdadeiro testemunho sobre o assunto.

Carta de ltabira

Itabira, 3 de maio de 1993.

De:       Maria Cássia da Silva

Para:    Mário Alves de Oliveira

Conheci Alice, estudante deficiente visual, em 1991. A família dela, juntamente com a AOADI - Associação Ocupacional e Assistencial dos Deficientes de Itabira - e a Secretaria de Educação se movimentaram com a finalidade de adquirir salas-recurso em Itabira, para atendimento ao deficiente visual e auditivo.

Como membro da AOADI, interessei—me por este trabalho, e através de um convênio entre Prefeitura, Estado e Secretaria Municipal de Educação, transferi-me para a Escola Estadual Cel. José Batista, onde a aluna estuda. Foi a primeira a receber esse atendimento, e o material que o Estado forneceu chegou incompleto, faltando cubarítímo. A prefeitura não forneceu o restante dos materiais, nem sequer preparou as salas para o atendimento ao deficiente visual e ao deficiente auditivo, sendo que a maior parte dos materiais são fornecidos pela família da aluna.

Para dar seqüência a este atendimento, o avô da aluna financiou—me uma semana em Belo Horizonte, no Instituto São Rafael, onde recebi algumas orientações, incluindo as passagens, neste mesmo ano. Comecei assim o trabalho de atendimento a Alice, deficiente visual, e a Jaislei, deficiente auditivo, a quem ensinei a falar.

O trabalho com Alice é feito por mim, juntamente com a professora regente, dentro da sala de aula. Transcrevo livros, textos, aplico—lhe as provas, ensino—lhe a usar os materiais necessários.

Minha irmã Ana Lúcia também se interessou pelo trabalho e dava-lhe aulas particulares. Hoje ela é professora na sala-recurso.

Na primeira série, houve incompreensão de sua professora regente, que não entendia nem aceitava este atendimento, não corrigindo as provas, ignorando o aprendizado da aluna, devido à leitura lenta e ao não acompanhamento da mesma nos exercícios escritos, dados em sala de aula, por falta de tempo.

Daí descobri que a aluna aprendia mais rapidamente com o uso da linguagem oral da professora e vice—versa. E que a leitura com os dedos é mais lenta do que com os olhos. Só com o desenvolvimento maior do tato é que se adquire maior rapidez na leitura Braille.

No final do ano letivo, sua professora ficou em dúvida quanto a sua aprovação à segunda série, não avaliando a menina. A avaliação foi feita por mim e pela Tereza Correia, pedagoga de Belo Horizonte, que se dispôs a atender a aluna, que obteve, assim, reais condições de aprovação. Na segunda série, ela não teve problemas de adaptação, devido à compreensão da professora e à maturidade da aluna em seu desenvolvimento escolar, sendo que na primeira série Alice rejeitava o Braille e não aceitava muito bem a sua deficiência. Hoje, já está na terceira série. Também aprendi com a aluna como fazer esse atendimento de maneira mais apropriada.

Atualmente, o atendimento é dado a 16 deficientes visuais e a 23 deficientes auditivos. A Secretaria da Educação está apoiando o trabalho de maneira mais completa. O trabalho está engatinhando. Houve novas eleições e a direção da Secretaria foi mudada.

Desde 1991, este trabalho conta com o apoio da AOADI, de Tereza Correia, pedagoga em Belo Horizonte, e da pedagoga Dalva, natural de Itabira.

Recebi pelo Correio este depoimento, escrito em Braille pela Profa. Cássia, de ltabira, apresentando, naturalmente, algumas falhas na escrita, perfeitamente compreensíveis, pois seu treinamento no São Rafael, assim como ocorre com a maioria que aqui vem, não durou mais do que uma semana, o que é muito pouco. O importante é que o seu conteúdo demonstra que minha idéia é possível e, acima de tudo, necessária, isto é, a questão do deficiente se resolve com boa vontade, mas é preciso preparar também os professores para essa tarefa, incluindo em seus cursos de formação matéria sobre o assunto.

O depoimento de Cássia comprova que o questionado despreparo dos professores do interior para o atendimento dos deficientes pode ser suprido pela dedicação e pela vocação profissional.

A boa vontade de Cássia e de muitas outras professoras espalhadas pelo interior de Minas, mesmo sem dispor de condições adequadas, vem mostrar, de fato, que milhares de pessoas deficientes podem mudar seus destinos ao freqüentar a escola mais próxima de sua casa.

As autoridades da educação precisam, urgentemente, se conscientizar de que este crime social, praticado contra pessoas já desfavorecidas pela natureza, não deve mais continuar.

Primeiras Salas-Recurso

Maria do Carmo Menicucci, Diretora de Ensino Especial da Secretaria Estadual de Educação, falou das primeiras salas para a alfabetização de cegos e surdos-mudos e fez o seguinte comentário, ao ser entrevistada em 1985 por repórter do jornal “Estado de Minas”:

O convênio firmado com a Fundação Hilton Rocha foi viabilizado a partir da criação, em todo o Estado, de salas—recurso e classes especiais para a alfabetização de crianças com problemas visuais e auditivos, com os materiais didáticos fornecidos pela Fundação.

Já foram criadas 22 salas—recurso para deficientes auditivos e 15 classes específicas para deficientes visuais nas escolas estaduais de ensino regular. Dentro do plano de expansão de ofertas educacionais e já aprovado pelo Conselho Estadual de Educação, o projeto encontra-se em fase final, para começar a funcionar em agosto próximo, informa a Diretora.

As maiores dificuldades encontradas são com os professores especializados. Por esse motivo, está havendo cursos intensivos no Instituto São Rafael, através do apoio da Diretoria e participação de técnicos. Já foi realizado este mês o primeiro curso de preparação de professor de 1° grau, com a participação de 15 municípios.

Sem onerar as escolas, o material didático adaptado ao Braille será fornecido pela Fundação, que possui máquinas impressoras e multiplicadoras.

Para Maria do Carmo Menicucci, apesar de ter sido considerada um avanço essa descentralização, ela ainda não atenderá satisfatoriamente a todos os necessitados, devido à grande extensão geográfica do Estado.

A idéia de Mário Alves, diz Maria do Carmo, não é inviável. Devemos considerar todas as possibilidades. A criação do 20 grau foi um avanço, porém, enquanto as faculdades e escolas normais não se envolverem nessa preparação de professores, os esforços nesse sentido serão apenas parciais.

Para fazer face a essa política de descentralização do ensino de deficientes, criou-se, em caráter pioneiro, o curso de Magistério com duração de 4 anos, no Instituto São Rafael, adotando—se todas as matérias do curso de magistério, mais as específicas para educação dos excepcionais.

No curso de Pedagogia da Faculdade de Educação existe hoje uma introdução sobre o assunto, não aprofundada; é quase o despertar para o problema, o que não é suficiente para atender as especialidades, disse Maria do Carmo.

Contagem dá o Primeiro Passo

No final do mandato do Prefeito de Contagem, Sr. Ademir Lucas, seria firmado um convênio entre a Prefeitura e a Associação dos Deficientes de Contagem, para a comercialização das loterias em bancas. Por questões de detalhes, o convênio não pôde ser assinado em tempo hábil. Por outro lado, seu sucessor na Prefeitura não deu continuidade ao projeto.

Eis aqui o texto que a Imprensa divulgou acerca desse serviço pioneiro, que se iniciaria dentro de poucas semanas:

Uma antiga luta das pessoas portadoras de deficiência em dizer não a todo tipo de assistencialismo começa a render frutos em Contagem.

Está prevista para a próxima semana a assinatura de um convênio inédito no País, entre a Caixa Econômica Federal e a Associação dos Deficientes Físicos de Contagem, que vai tornar real o desejo de que os portadores de deficiência possam produzir e ter seu próprio sustento, com a consciência de que são capazes disso, conforme afirmou o presidente da Associação, Maurício Peçanha.

Pelo convênio, a Caixa Econômica Federal ficará responsável pelo treinamento de deficientes para a venda das loterias Federal e Instantânea.

Dez deficientes já fizeram um curso na Caixa. Maurício Peçanha explicou que o convênio permitirá a instalação de banca% para a revenda das loterias, reduzindo o custo para os deficientes, já que ficam de fora despesas como pagamento de aluguel de lojas.

A localização das bancas está sendo negociada com a Prefeitura. O presidente da Associação informou que as duas primeiras deverão ser instaladas na Companhia Urbanizadora de Contagem - CUCO, e outra dentro da própria Prefeitura. Cinco deficientes começam a trabalhar assim que o convênio for assinado. Os outros cinco ficam dependendo da definição de novos locais para a instalação de mais bancas.

Esse convênio, pioneiro no Brasil, vai ser a mola mestra para que entidades em outras cidades do País também se sintam estimuladas a fazer o mesmo.

Há Dez Anos

O advogado deficiente visual Mário Alves de Oliveira há quinze anos trabalha com loteria e há dez anos defende o que chamou de “uma terceira opção para a comercialização das loterias”.

Há quatro anos, ele encaminhou um projeto à Caixa Econômica Federal, propondo que a revenda das loterias fosse feita pelos portadores de deficiência, em bancas ou quiosques.

Para Mário Alves de Oliveira, as duas formas de revenda existentes não são compatíveis com as condições dos deficientes. A revenda ambulante, em sua opinião, é precária, e de certa maneira prejudica a imagem do produto. Já a revenda em postos fixos - lojas lotéricas - é inacessível à maioria dos deficientes, devido à sua situação financeira; além de não poder pagar aluguel, não possui contato com os políticos, que geralmente são os responsáveis pela indicação para as pessoas conseguirem a concessão do serviço. As bancas ou quiosques, de acordo com Mário A. de Oliveira, seriam concedidas exclusivamente para os deficientes, que, como ressalta, formam um segmento da sociedade que enfrenta muitas dificuldades no mercado de trabalho. Além disso, os pontos conseguidos pelos deficientes não poderiam ser vendidos. Os deficientes seriam concessionários como os demais, e as bancas, intransferíveis. Se, por acaso, o deficiente não continuasse com esse trabalho, a banca seria devolvida à Caixa Econômica Federal, que faria o credenciamento do próximo inscrito. O projeto possibilita, ainda, segundo seu mentor que a Caixa cumpra com o seu papel social.

Constituição Mineira em Braille

A Fundação Hilton Rocha, criada com o objetivo de oferecer suporte à política de interiorização do ensino ao deficiente visual, confeccionando e distribuindo material didático, vem cumprindo o seu papei de acordo com a demanda, que ainda é pequena. Entre outras publicações, editou a Constituição Federal de 1988 e também a de Minas, cujo material foi fornecido pela Assembléia Legislativa, onde se realizou a entrega dos primeiros exemplares da Constituição Mineira em Braille. Presente à solenidade, recebi o meu exemplar, autografado pelo Prof. Hilton Rocha. A Imprensa noticiou o evento com os seguintes dizeres:

O advogado Mário Alves, 43 anos, lê a edição da Constituição Mineira editada em Braille e lançada ontem pelo Presidente da Assembléia, Deputado Kemil Kumaira.

O caminho do cego e de qualquer homem é a leitura. Sem o Braille, o cego não se desenvolve, disse Alves, afirmando que a iniciativa do Legislativo favorece a valorização do Braille.

Advogado, casado e pai de dois filhos, o deficiente lamenta que o Braille seja um tesouro que o Brasil ainda guarda a sete chaves.

(29 de junho de 199º).

AULA INAUGURAL

Convidado pela Diretoria de Ensino Especial da Secretaria de Educação do Estado de Minas Gerais, o Prof. Suas Maciel, membro do corpo docente da USP - Universidade de São Paulo, veio a Belo Horizonte ministrar o primeiro curso, de 40 horas, sobre orientação e mobilidade, especialmente para professoras do interior. Creio que esse treinamento deveria ser dado aos assistentes sociais e técnicos em fisioterapia, pois, assim, atenderia a um maior número de deficientes. Assisti ao curso como ouvinte e transcrevo aqui a primeira aula do referido professor.

Secretaria de Estado da Educação

Superintendência Educacional

Diretoria de Educação Especial

Curso Técnico de Locomoção para Deficiente Visual

- O DEFICIENTE VISUAL

Prof: Dr. Sylas Fernandes Maciel.

CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O PROBLEMA DA CEGUEIRA - Concepções Errôneas a Respeito da Cegueira

A cegueira é uma das incapacidades que atinge o homem com relativa freqüência e que, no entanto, é tão pouco compreendida. Variadas e numerosas são as histórias contadas a respeito da vida, personalidade e habilidades de pessoas cegas. Quando num grupo surge uma conversa sobre cegueira, sempre há alguém que conhece ou já ouviu falar de uma pessoa cega extremamente hábil em conhecer dinheiro, determinar cores do tecido por sua textura, e assim, passando de um para outro, essas histórias vão criando um conceito falso a respeito da cegueira.

Foi pensando em esclarecer tais conceitos acerca das reais capacidades, qualidades e atitudes das pessoas cegas que abordamos esses aspectos neste trabalho. Evidentemente, não é nosso intuito estabelecer dogmas, pois seria temeridade, em se tratando de reações e comportamentos humanos. Limitar-nos-emos a discorrer sobre o que já está cientificamente comprovado sobre o assunto, e também relataremos nossas experiências. Estas não ficaram na simples observação à distância de uma pessoa cega, mas foram até à convivência com grande número delas em idades as mais variadas e de ambos os sexos.

Iniciando, discutiremos a questão da acuidade dos sentidos dos portadores de cegueira. Embora não haja fundamentação científica, é opinião corrente que uma pessoa, ao ficar cega, adquire melhor audição, melhor olfato, melhor tato, etc., numa espécie de compensação. “Deus, ao tirar um sentido, melhora outro.” Para essa maneira de pensar só há explicação: no sentimento de piedade. É também pensamento corrente que todo cego deve aprender a tocar um instrumento musical, que a música é a alma do cego. No entanto, existem pessoas cegas que não possuem aptidão para a música, como ocorre também entre as pessoas que enxergam. Aqueles que orientam os deficientes visuais para o aprendizado da música, sem avaliar suas reais aptidões para essa arte, não podem esperar que eles se tornem artistas, mas sim, simples tocadores, além de incorrer no perigo eventual de incluí-los no rol daqueles que imploram a caridade pública utilizando-se da música como veículo.

Podemos também citar casos de pessoas que quase não possuem tato, pelas mais variadas razões, e que encontram grande dificuldade de leitura pelo sistema Braille. Citamos ainda aqueles que não possuem olfato ou o têm bastante deficiente, e aqueles que não possuem o menor sentido de orientação espacial.

Resumindo, podemos estabelecer que ninguém melhora a acuidade dos sentidos por haver perdido um deles. Eles podem ser desenvolvidos quando usados eficientemente, dando-se a devida importância às informações que eles fornecem. Se os órgãos senso— riais se encontram em boas condições, não há razão para que não funcionem. Citamos como exemplo disso os experimentadores de bebidas e classificadores de perfume. Não há registro de que tais profissões sejam exercidas por pessoas cegas, o que ratifica a afirmação anterior, ou seja, todos podemos utilizar nossos sentidos com sucesso. O que representa um grande empecilho para tal propósito, via de regra, é a supervalorização da visão, em detrimento dos outros canais sensoriais. Ela é realmente o meio de contato e de controle mais imediato do ambiente. Por isso, somos levados a desprezar as outras formas de percepção do sentido.

O maior ou menor sucesso da pessoa cega no contato com o meio ambiente através dos sentidos restantes vai depender do seu treinamento e, o mais importante, do estado de funcionamento dos mesmos. Se ele é surdo, não irá recuperar a audição porque ficou cego. Passará, pois, a ser portador de dupla deficiência, o que lhe acarretará maiores dificuldades de adaptação e funcionamento.

Após essas considerações preliminares, passamos à análise dos seguintes aspectos:

A) CAPACIDADE - Ao falarmos sobre a capacidade das pessoas cegas, desejamos fazer uma distinção inicial de dois tipos de capacidades que nos parecem imediatos, quais sejam, capacidade física e capacidade mental.

Ao discutir a primeira delas, podemos dizer que o indivíduo cego não é um inválido, um inábil, incapaz de fazer qualquer coisa, por mais simples que seja. Se pessoas cegas são encontradas que nada sabem fazer, nada conhecem, sendo mesmo incapazes de levar o alimento à boca, é por causa daqueles que enxergam e que, por um sentimento de superproteção, tudo lhes fazem, não permitindo a mais simples das iniciativas.

A cegueira traz limitações para as atividades que requerem necessariamente controle visual, mas, para as outras, não. Será suficiente proporcionar-lhes oportunidades de ação, treinamento adequado