“O REAJUSTAMENTO SOCIAL DO CEGO”
LUIZA BANDUCCI
DIVULGADO PELO SERVIÇO SOCIAL DO I.A.P.C.
SÃO PAULO - 1950
INTRODUÇÃO
Não fosse a exigência da Escola de Serviço Social em condicionar a apresentação de um trabalho escrito para a conclusão do curso, talvez nunca tivéssemos coragem de abordar o problema dos portadores de cegueira.
Uma vez escrito, desejamos oferece-lo à Fundação para o Livro do Cego no Brasil, muito especialmente a Da. Dorina de Gouvêa Nowill que muito nos auxiliou na tentativa de introdução do Serviço Social, entre as finalidades principais daquela Obra.
Embora sem nenhum valor científico, representa este trabalho toda a nossa boa vontade em bem servir a causa das vítimas da cegueira.
À Revma. Irmã Teresa Pontes, Superiora do Instituto Padre Chico, ao Prof. Mamede Freire, Diretor-Técnico da Associação Promotora de Instrução e Trabalho de Cegos, à Escola de Serviço Social e a Da. Maria da Conceição Carvalho, nossa orientadora, queremos deixar aqui, os nossos agradecimentos pela colaboração e orientação recebidas.
I - CONSIDERAÇÕES GER.AIS SOBRE O PROBLEMA DA CEGUEIRÀ
“Os cegos são as vítimas da ignorância em relação a sua condição real”.
Pierre Villey
1 - A falsa concepção da cegueira
As opiniões sobre a vida e a personalidade das pessoas cegas, são tão diversas e surpreendentes, e, em torno desse assunto, contam-se tantas histórias absurdas que resolvemos, como introdução de nosso trabalho, apresentar algumas considerações sobre a falsa concepção da cegueira baseada não só em observações e experimentação feitas pelo psicólogo cego Samuel Pérkins Hayes, como também em nossa experiência pessoal adquirida e fortalecida no contacto diário com pessoas cegas durante o estágio que tivemos na Fundação para p Livro do Cego no Brasil.
Evidentemente não temos a pretensão de estabelecer dogmas ou normas, mas apenas a preocupação de trazer um pouco de esclarecimento a tão importante assunto.
Diz o autor cego Clarence Hawke: “Não existe na vida nenhuma condição anormal tão pouco compreendida como a cegueira e a respeito da qual tantos erros tenham sido cometidos”.
As opiniões sobre os dons privilegiados dos cegos são as mais variadas. Alguém sempre se lembra que conheceu, leu ou ouviu falar de uma pessoa cega que possuía um tato maravilhoso ou era dotada de uma extraordinária acuidade auditiva; outra, que era capaz de distinguir cores pela simples textura de suas roupas ou pelo cheiro de suas tintas; ainda outras que possuem memória prodigiosa ou esplêndido “sentido facial” que as livra dos obstáculos por pressenti-los à distância.
Em geral o vulgo tende a aceitar todas estas histórias sem espírito critico ou sem preocupação de uma observação mais acurada dá a entender que, com essa atitude, estão atribuindo ao indivíduo cego aquilo que, sentimentalmente, lhe é devido.
Julga-se de uma maneira simplista que, uma vez excluído o uso dos olhos, os outros sentidos adquirirão una hiper acuidade e melhor obedecerão à vontade do individuo Presume-se também que ele deve possuir uma memória excepcional porque não pode lançar mão de certos artifícios, tais como cadernos de notas, listas telefônicas e outros.
Não estando em contacto com os cegos, pessoas há, geralmente, que não se lembram, que muitos indivíduos além de cegos podem ser surdos e que muitas vezes a cegueira vem acompanhada de outras deficiências. Outros talvez ignorem que há cegos ‘com a acuidade tátil tão baixa, que não podem aprender o Braille e que, em condições desfavoráveis, provavelmente precipitar-se-ão sobre obstáculos que estão a sua frente.
A maioria das pessoas cegas só consegue adquirir a independência e a liberdade de locomoção à custa de grande coragem e intrepidez, aceitando as possíveis pancadas e contusões, com bom humor, como se fora um acontecimento de rotina em sua vida cotidiana.
Os indivíduos cegos não são prodígios ou raridades. São criaturas humanas como qualquer um de nós, bons ou maus, inteligentes ou tardos de compreensão, temperamentais ou dóceis, e em tudo apresentando, no mesmo grau e natureza, as diferenças individuais encontradas entre as pessoas que enxergam.
Aquela concepção falsa, romântica e exagerada do individuo cego, é encontrada não só na vida real, como também na literatura. O Dr. H. Best, depois de uma cuidadosa apreciação de como o indivíduo cego é tratado na literatura diz: “Muitas vazes os cegos são considerados como habitantes de um mundo distante que não o do comum das pessoas. Acredita-se que elas são feitas de um elemento menos material e grosseiro que nós os mortais, e possuem um temperamento todo peculiar. Supõe-se que sejam capazes de responder a certos estímulos que os que enxergam não seriam suficientemente sensíveis para sentir, e que podem atingir extraordinária perfeição estética.
Não raro aparecem como seres muito dóceis, tratáveis e puros, embora algumas vezes esses personagens cegos surjam com tendências particulares ao vicio”.
J. L. Langworthy procura justificar esses pontos de vista:
“Para muitos, diríamos nós, para a maioria, um mundo sem luz e sem cor é insuportável, fantasmagórico, onde é inconcebível que alguém possa construir uma vida, mesmo próxima do normal, enclausurado dentro das limitações conseqüentes à perda da visão. Os heróis dos livros mostram esta falsa perspectiva.
Algumas vezes os personagens cegos são estudados com certa objetividade e revelam alguma semelhança com¬ a vida real do individuo cego, mas geralmente corporificam as idéias do autor e do público em geral, que é a de piedade, compaixão ou de uma condição incompreendida e desconhecida. Já que os indivíduos cegos são tão mal compreendidos, cada trabalho de ficção que é difundido, com a apresentação desarrazoada de personagens cegos, aumenta as incompreensões do público menos avisado. Quanto mais vigoroso e interessante seja o livro, tanto maior serão os prejuízos acarretados àqueles que já se debatem com a maior de todas as deficiências”.
À atitude comum do público e principalmente da imprensa, pode ser caracterizada qual um misto de admiração ¬e piedade. A admiração cria um terreno propício ao desenvolvimento das histórias fantásticas e absurdas e a piedade conduz à caridade impulsiva e mal dirigida. Tudo isto, como se vê, tem como base a ignorância. À esse respeito citaremos dois exemplos:
um dado por Clarence Hwukes, no seu livro ”Alguns erros comuns à respeito da cegueira” e outro colhido de um jornal da nossa Capital.
Escreve Hawkes: - “Centenas de pessoas perguntam-me se posso distinguir as cores pelo tato. É diverti¬do que uma pessoa inteligente, admita que seja possível distinguir cor pelo tato.
Possivelmente isto é devido ao fato de que o público aceita todas as tolices que surgem a respeito dos indivíduos cegos, e, por outro lado, alguns deles gostem de provocar a admiração de seus amigos e passam a custa destes, a praticar toda a sorte de mágicas.
Conheci um individuo cego, tratador de cavalos, que podia, pelo tato, dizer a cor de um cavalo. A cor, verdadeiramente, nada tinha a ver com sua façanha, isto se realizava pelo simples fato de que os pelos dos cavalos têm textura diferente, de conformidade com a cor. Assim podem ser macios,finos, grosseiros ou ásperos.
A maioria dos cegos, conhece as cores das flores mais comuns. Quando se lhes coloca um ramo de flores na mão, serão capazes de reconhece-las pelo tato ou pelo perfume. Atualmente, com as novas tonalidades e a grande variedade de flores, este pequeno artifício é bastante perigoso.
Comumente, as pessoas que vêem costumam perguntar às que não vêem, se elas são capazes de distinguir notas, afirmando que conhecem muitos cegos que o sã0. É que a maioria dos indivíduos cegos usa carteiras com várias divisões, guardando, em cada uma delas, notas de um determinado valor, de modo que podem encontra-las facilmente, fazer trocos, dando a impressão de que são capazes de distinguí-las.
Na discriminação de moedas, os indivíduos cegos levam alguma vantagem, porque elas são fabricadas obedecendo a diversos tamanhos”.
Acreditamos que mesmo assim, a vantagem irá depender do tipo de moeda utilizado no país, do seu tamanho, do desenho e de outras características que facilitem a discriminação.
Como exemplo da piedade mal orientada, baseada na mais absoluta ignorância do problema, transcreveremos, de um dos jornais da nossa Capital, o seguinte trecho, sobre a necessidade de assistência aos indivíduos cegos: - “ ... é obter recursos para a construção de uma vila,onde os cegos possam viver em comunidade, locomovendo-se livremente, a exemplo do que é proporcionado até aos hansenianos de Santo Ângelo. Se os poderes públicos nos auxiliassem, poderíamos construir algumas casas e um pavilhão onde os cegos pudessem viver e trabalhar com a sua subsistência garantida....”
Para aqueles que lutam pela integração do cego às condições normais de vida, que se batem para que consigam a sua independência, segurança e afirmação da sua personalidade, estas palavras seriam risíveis se não soassem como uma monstruosidade.
Uma comunidade prépria?
Os cegos não aspiram isso.
Que justificaria a segregação do cego como a de um hanseniano?
Somente da ignorância poderiam fluir tais pensamentos.
Assim, a imprensa, numa compaixão destrutiva, numa piedade mal orientada, num absoluto desconheci¬mento do assunto, vem contribuir para que aumente a confusão e as incompreensões já tão generalizadas.
Contínua Hawkes: “Existem muitas cousaø que os cegos podem fazer pelo tato, tais como: enfiar uma agulha, colocando a ponta da linha na boca e movendo o fundo da agulha até conseguir que seu orifício alcance a linha, recolocar peças numa máquina de escrever conservando-a em perfeita ordem, etc”.
Falando sobre o tato da língua, parte do corpo que possui maior acuidade na discriminação tátil, diz Hayes: - “ela é a lente de aumento do tato, porém, o que se nota de importante, é que não é muito usada para esse fim. Sem¬ dúvida1 o leitor já observou que uma cavidade dentaria parecerá muito maior a língua que aos olhos e aos dedos. Acidentalmente, crianças cegas lêm o “Braille” com a língua, se por alguma razão não podem ler com os dedos”.
O público possui a tendência de exagerar ou a de subestimar o valor e as capacidades dos cegos.
Comenta Villey: - “Atrás desses olhos sem luz e dessas faces sem animação, a impressão que se tem é que tudo neles é embotado, a vontade, as sensaç5es, e, as faculdades intelectuais parecem entorpecidas como se èles estivessem anestesiados,
Habituados, como os que enxergam, a não ter nada sem os olhos, parecia-lhes que se perderam a vista não seriam capazes de qualquer atividade e que os seus pensamentos cessaram de fluir”.
Na critica de Hawkes sobre um trabalho de ficção de F. Barclay encontramos, em relação à cegueira, excelente exemplo da tolice que tal atitude pode conduzir.
Os leitores de “O Rosário” lembrar-se-ão que um médico escocês, delineia e executa o plano de colocar como enfermeira de um artista cego, sua namorada, da qual estava afastado há algum tempo.
Embora a enfermeira use outro nome, sua voz o faz lembrar da amada. Suspeita, mas sucumbe ao subterfúgio. É enganado por várias semanas, até que ela lhe revela sua identidade. Todo enredo gira em torno disto. Porém, o fato é que tal engano seria impossível.
Há muito mais personalidade e características na voz do homem do que em seu rosto. Seria mais plausível que alguém não conhecesse seus amigos olhando-lhes o rosto, do que o individuo cego deixar de reconhece-los ouvindo-lhes a voz, especialmente se tratar de sua namorada.
Concordamos com Hawkes de que é um absurdo esse enredo. Praticamente podemos notar que nunca fomos objeto de confusão, por parte de nossos clientes, por maior que fosse o grupo, Com relação àquele romance deve ser lembrado que o artista conhecera a moça quando ainda enxergava, passando depois de cego por uni período de transição e adaptação dentro da condição que lhe fora imposta. Mesmo assim seria impossível que èle não a reconhecesse.
Continua Hawkes: - “Fossem as vozes de centenas de pessoas submetidas a testes e analisadas verificar-se-ia serem tão pessoais quanto os seus rostos. Jamais encontrei duas pessoas, que depois de conhecê-las bem, não as pudesse distinguir pela voz.
Se a voz de Rosemary não tivesse revelado sua presença, tê-lo-ia feito o encantamento espiritual que dela se desprendia. Isto é muito forte entre os sexos. Houvesse o jovem amado a moça tanto quanto o romance faz acreditar, certamente, sem que ela pronunciasse uma só palavra, sua presença seria tão real quanto o fato de que ele respirava ou vivia.
De uma feita o astuto médico senta-se entre o jovem e a namorada e procura persuadi-lo de recebe-la outra vez em sua vida, O homem cego está mui próximo de sua amada, contudo não percebe que ela ali se encontra.
De dez a vinte pés, possui a pessoa cega
um sólido senso de percepção que o faria pressentir sua presença.
Talvez o lado até burlesco de toda a imaginação de F. Barclay é quando ela coloca o artista cego sentado numa confortável cadeira, no centro de sua biblioteca, de onde sai um cordão azul em direção ao piano, um verde à máquina de escrever e um amarelo à estante.
Para alguém que, sem vista, esteja habituado a fazer, dentro de sua casa tudo o que lhe apraz, orientando-se sem conseqüências, que se acostumou a andar, desacompanhado pelas ruas, a tomar bondes e a fazer compras e, ainda sozinho, empreender longas viagens para fazer conferências, isto de sentar-se numa biblioteca e de cuja cadeira cordões coloridos foram colocados para conduzi-lo a cada peça do mobiliário, é na literatura, uma das cousas mais divertidas”.
O que foi exposto evidencia a grande divergência de opinião, por parte daqueles que não tiveram oportunidade de conhecer melhor os indivíduos cegos.
Entretanto, encontramos muitas vezes, essa mesma divergência entre os que estão entrosados no problema, tais como: professores de cegos, diretores de escolas, orientadores de instituições. Entre nós, podemos afirmar sem medo de errar ou sem nenhum exagero, que isto acontece porque reina um desconhecimento quase total do assunto, mormente sob bases cientificas. Muito recentemente, entretanto, de uns quatro anos para cá, tem havido, da parte dos poucos conhecedores dos serviços sociais especializados a preocupação de preparar pessoal que se encarregue ou que se interesse pelas atividades destina¬das a desenvolver o bem estar dos cegos.
Inúmeras vezes temos ouvido dos chamados “trabalhadores de cegos”, as expressões seguintes: “esta pobre gente”, “estes coitados”, “Eles possuem uma psicologia diferente e nós não os compreendemos”.
Certamente não cometem erros elementares como os daqueles que atrás apontamos relativos à acuidade dos sentidos, ao seu uso, às habilidades superestimadas e coisas parecidas. Eles sabem perfeitamente do que os cegos são capazes e procuram anima-los.
Hayes diz com grande acerto, que, pelo fato de sermos inclinados a tudo generalizar, não nos devemos surpreender de encontrar pessoas com grande experiência com os cegos, que manifestam opiniões definitivas sobre certas cousas que ainda não foram cientificamente comprovadas.
Ouvimos dizer, por exemplo, que os cegos são alegres e confiantes e que os surdos são desconfiados e ciumentos; que os cegos são difíceis de ser guiados na escola ou na oficina e que são mui cuidadosos quando se trata de trabalho industrial. Encontramos até pessoas com longa experiência, que mui razoavelmente não admitem a idéia de considerar os indivíduos cegos como una classe.
Barrit diz: “Apesar do uso freqüente, no falar e no escrever, da palavra “cego”, esta expressão não pode ser usada no sentido genérico, pois não há um tal conceito a respeito do “cego”.
Às pessoas sem vista, entre si, diferem das que vêm, nas capacidades, nos gostos, no caráter, enfim, em tudo aquilo que vai formar a personalidade. Alguns são inteligentes, outros são obtusos, quase sem capacidade de aprendizagem; encontramos os afetados, que se preocupam com a aparência pessoal ou os que são inteiramente desdenhosos da sua impotência. Há os que possuem caráter forte, austero bem como os fracos, facilmente manejáveis e dependentes.
Esta opinião é também manifestada pelo Dr.
French: "Estabelecer generalizações a respeito das pessoas cegas sem primeiro verificar os limites das expressões "cego" e “cegueira", é tão perigoso, sob o ponto de vista educacional, como o são as generalizações a respeito de qualquer grupo humano heterogêneo".
Os cegos não podem ser considerados como uma classe à parte; definir e considerá-los como tal, é perder, indiscutivelmente, um dos maiores fundamentos da sua educação. O que existe são indivíduos cegos e pequenos grupos de pessoas cegas, Mas, considerar "o cego" como uma classe, é simplesmente uma força de expressão, um termo gramatical coletivo.
Há graus de cegueira, exatamente como há graus de surdez, de debilidade mental e de outras deficiências físicas ou mentais do homem.
O grau de cegueira é que vai determinar a extensão das possibilidades intelectuais, econômicas, sociais de seus portadores e condicionar os problemas a serem encarados na sua educação.
Sob o aspecto educacional, é muito importante a idade em que o individuo se cegou. Os que se cegaram mais cedo, apresentarão problemas diferentes daqueles que perderam a vista depois de alguns anos de vida. Esta circunstância é sempre de incalculável valor para a formação da personalidade do indivíduo cego.
Finalmente, a causa da cegueira é mais importante ainda. Não a mera doença ou acidente que provocou a cegueira, certamente de grande valor na estatística, mas sim os seus efeitos específicos sobre o sistema nervoso central, sobre os demais sentidos ou sobre a saúde geral do individuo.
Diante do que ficou exposto podemos dizer que encontramos na cegueira três linhas principais de diferenciação:
I - Grau de cegueira
II - Idade do advento da cegueira
III - Causa da cegueira e efeitos concorrentes e colaterais.
Acrescenta Hayes: “Não esperamos mudar nossos hábitos de falar e continuaremos a dizer “o cego”, como dizemos “o rico”, “o pobre”.
A situação econômica de um individuo, afeta seu comportamento, seus sentimentos; da mesma forma, a condição de cegueira pode afetar muitas das suas atividades e atitudes. Mas, aqueles que não possuem senso crítico tendem a generalizar, indo além dos fatos observados. Porque os cegos possuem uma falta de habilidade em comum, não se pode concluir que terão outras características especificas comuns.
No dicionário de Filosofia e Psicologia de Baldwin, o Dr Joseph Jastrow diz: “A literatura conscienciosa, sobre cegos, possui principalmente caráter educativo e nos instruí sobre o tratamento de cegos em tempos passados; as estatísticas da freqüência de causas e espécies de cegueira; os métodos e instrumentos usados na educação de cegos; a orientação das instituições destinadas aos cegos; as pessoas cegas excepcionais e outros assuntos desse gênero. Limitada série de estudos refere-se às pessoas cegas, como “uma classe”.
Os problemas examinados incluem: efeitos da privação da vista no uso e treino dos outros sentidos; a direção precisa, em que o ouvido e o tato excedem aos do indivíduo que vê; as peculiaridades mentais de associação, imaginação, memória e atenção; a influência da cegueira nos temperamentos emotivos e outros de igual natureza.
As pessoas cegas, surdas, mudas, atraíram sobre si, grande atenção, a ponto de terem os métodos utilizados na sua educação contribuído com valiosa documentação sobre aplicação de princípios psicológicos. Alguns estudos especiais, por exemplo, tem sido realizados sobre o sonho de pessoas cegas.
Apesar de tudo o que foi dito, não há como negar que pesquisas cuidadosas nos são apresentadas em livros e artigos que tratam do assunto conscienciosamente e, mais ou. menos, cientificamente. Todavia, devemos nos acautelar contra aqueles que Leta S. Hollíngworth chamou de "literatura de opinião" em contraposição à "literatura de fato".
À literatura de opinião é aquela pseudo cientiffca em que se incluem afirmações feitas por cientistas e outros escritores, sem bases experimentais. Entende-se por literatura de fato, a que contém afirmações baseadas na observação e experimentação, cujos resultados foram realmente obtidos, e registrados após cuidadosas e controladas condições e que possa por conseqüência ser verificadas por aqueles que são suficientemente competentes e capazes de compreendê-las e criticá-las.
Podemos facilmente distinguir as duas espécies de literatura. A literatura de opinião nos apresenta o que vulgarmente se pensa e se diz, a respeito das pessoas cegas. Tem ela o mérito de levantar problemas mais aproveitáveis para discussão e experimentação. A literatura de fato, tal como está se formando e desenvolvendo, é a única fonte informativa capaz de oferecer urna solução adequada aos problemas da cegueira e que poderá constituir os fundamentos da verdadeira psicologia diferencial sobre o assunto, atualmente em elaboração.
De acordo com Steinberg, ambas as literaturas poderiam ser muito mais valiosas se aqueles que escrevem sobre os indivíduos cegos conhecessem mais psicologia, e se os psicólogos conhecessem melhor a vida mental dos indivíduos cegos.
O exame histórico do desenvolvimento e da origem do interesse pelo assunto, levado a efeito por Steinberg, fornece-nos uma excelente orientação. Vamos apresentá-la com algumas ligeiras modificações feitas por Hayes.
A antiga concepção, de que era possível uma concentração mais alta de certas experiências sensíveis quando ocorresse um dado estímulo sensorial reduzido, levava a crer que a escuridão em que vivia o cego, devesse ser acompanhada de uma maravilhosa iluminação interior. Por isso julgavam que fossem felizes, os poetas, músicos e profetas eegos. Conta-nos a lenda que Demócrito, levado por esta teoria, cegou-se, a fim de continuar melhor as suas investigações filosóficas.
A verdade, porém, é que a maioria dos cegos tem vivido como mendigos miseráveis, não mostrando nenhuma centelha de iluminação interior. É por esse motivo que quando dentre eles aparecem uns melhores dotados, sobretudo quando se trata de indivíduos que ficaram cegos na idade adulta, são eles louvados e seus conhecimentos apontados como uma prova desta crença popular.
Na idade média, a situação do cego não era melhor; sua situação somente era considerada como objeto de edificantes discussões por meio das quais procurava-se consola-los das tribulações deste inundo, tendo em vista a esperança da bem-aventurança eterna e celestial.
A cegueira foi objeto de discussão cientifica no fim do século XVII, quando estudiosos do problema de percepção do espaço procuraram explicar as relações entre o es¬paço visual e a extensão tátil. Como reagiriam as pessoas portadoras de cegueira congênita cujas vistas lhes fossem dadas através de uma intertenção cirúrgica, ante os primeiros objetos que lhes surgissem a sua percepção? Esta discussão começou pela pergunta feita por Molyneaux ao filósofo inglês John Locke: Imagine-se um adulto, cego de nascença, que soubesse distinguir, pelo tato, um cubo duma esfera. Suponha-se que esses dois objetos fossem colocados sobre a mesa a que se sentasse esse indivíduo cuja vista recobrou, de improviso. Pergunta-se: pela vista, o recém vidente, antes de toca-los, seria capaz de distinguir o cubo da esfera? Molyneaux entendia que não, e Locke concordou com ele.
A questão foi objeto de calorosa discussão, sobretudo no plano teórico, porém, quando poucos anos mais tarde, foi possível, pelas intervenções cirúrgicas, dar a vista às pessoas portadoras de cegueira por catarata congênita, fizeram-se cuidadosos estados e observações sobre o comportamento das pessoas que conseguiram ver. Esta nossa referência abrange o período, desde o caso de Chesselden, até os mais acurados estudos sobre a percepção do espaço em nossos tempos.
Révész diz em seu livro “Psicologia e
Arte do Cego”, recentemente publicado, que as diferenças entre as percepções puramente visuais e as “haptics”, são evidentes e não comportam discussões.
Maior número de estudiosos tornaram-se interessados pelo assunto, e vários trabalhos foram escritos, tal como a “ Lettre sur les aveugles à l’asage de ceux que voient” (London 1749). Diderot chama a nossa atenção para certas peculiaridades da vida mental, conseqüentes à perda da visão. Todavia, cai em graves erros quando pretende que aos cegos, faltam modéstia e simpatia. Suas opiniões foram vivamente contestadas pelos modernos professores de pessoas cegas, porém, não se pode negar que o seu interessa pelo assunto levou os estudiosos aos primeiros ensaios de uma sistematizada educação para aquele tipo de aprendizes.
Em 1748, Hauy inicia, em Paris, a educação das crianças cegas, e, nos primeiros anos do século XIX, foram fundadas algumas escolas para pessoas cegas em vários países da Europa e nos Estados Unidos.
Para combater as várias e correntes apreciações errôneas sobre as pessoas cegas, os modernos escritores costumam abrir os seus livros com extensas introduções nas quais descrevem as principais atividades das pessoas cegas, explicam como elas podem aprender a impressão em relevo, de como encontram seu caminho em lugares que não lhes são familiares e cousas semelhantes.
Procuram esses escritores uma explicação destes fatos, apelando para a antiga crença, atrás já assinalada por nós, de que os sentidos restantes se desenvolveriam especial e rapidamente, para compensar a perda da visão.
.A substituição dos sentidos, como se denominou, foi demonstrada até em termos quantitativos. A leitura dos caracteres ”Braille” foi considerada como possível, pela libertação da energia que as pessoas que vêm consomem ao usar os olhos. Os métodos de educação foram modelados de acordo com os aplicados às pessoas que possuem vista, em vez de serem baseados nas necessidades dos indivíduos cegos.
O desenvolvimento do alfabeto em relevo, com efeito, é uma claríssima prova disto. No principio, pensou-se que era suficiente colocar em relevo as letras comumente impressas e faze-las um pouco maior, sem se considerar as dificuldades que acarretaria a sua análise pelo tato, dada a sua complicada estrutura.
O sistema Braille, baseado numa clara apreciação sobre as limitações do tato para a leitura, foi, por muitos anos, abandonado.
Além da substituição dos sentidos e da pressuposta idéia de semelhança entre a percepção visual e a tátil, os primeiros pedagogos especializados discutiram também as funç5es mentais, atribuindo muitas vezes, à personalidade do cego, características especificas. Embora enriquecidos de interessantes observações, seus trabalhos se restringem à descrições isoladas de detalhes, sem conclusões sistemáticas, e muitas vezes, descambando para o nível das anedotas.
Pela metade do século XIX, o indivíduo cego tornou-se objeto de investigações psicológicas, isto é, foi objeto de elucubrações científicas.
No começo, era a descriminação sensorial, a que mais atraía a atenção dos estudiosos; logo depois, era o modo pelo qual a pessoa cega organiza sua percepção de espaço. Contudo, as faculdades superiores, sistematicamente, têm despertado pouca atenção, e muitos dos argumentos apresentados estão baseados em observações de acaso e são fornecidas por autores de pouca visão e insuficiente equipamento científico”.
Em nossos tempos, pessoas capazes têm se Preocupado com este assunto. A chamada “psicologia do cego” foi relegada para um plano secundário, pois se chegou à conclusão de que a cegueira, por si, não vem fornecer ao indivíduo -uma constituição psicológica diferente, capaz de transformá-lo num ser à parte, isolado, com uma psicologia própria e específica.
Qualquer moléstia ou acidente que tenha como conseqüência uma deficiência física, produzirá em seus portadores, efeitos psicológicos, que influirão sobre o indivíduo desta ou daquela forma, de acordo com a sua capacidade de adaptação, o seu modo de reação, enfim, de conformidade com todos os fatores individuais e sociais, sob cuja influência o individuo se encontra.
Estes efeitos repercutem não só no indivíduo, como no ambiente que o cerca (família e comunidade). Porém, os efeitos psicológicos desencadeados pela cegueira ou por outra deficiência qualquer, não farão de seus portadores, uns seres diferentes, dominados por uma psicologia especifica. Portanto, a tão decantada psicologia do cego ou da cegueira, como querem outros, deve ser considerada com discrição, tendo-se em conta o seu real valor.
O individuo cego é, antes de mais nada, uma pessoa humana, e será como tal que ele deseja ser tratado. Um professor cego costumava dizer: - “Eu não sou um entre os cegos, mas, simplesmente, um homem cego”.
Sem dúvida alguma, a cegueira é uma condição especial que acarreta grandes e variadas limitações aos que dela são portadores, principalmente no que diz respeito à quantidade e variedade de conceitos: à habilidade de movimento (locomoção e orientação), ao domínio do ambiente.
Mas, tudo isso poderá ser contornado e mitigado, desde que exista uma colaboração compreensiva em que se lhes proporcionem todos os meios para o uso de suas próprias energias.
Acima de tudo, o que cada um de nós deseja é ser compreendido. É no pressuposto da compreensão que se fundamentam todos os sucessos e no da incompreensão é que têm origem todos os fracassos.
Assim, a grande dificuldade que encontramos ao tratar do problema dos desajustamentos dos deficientes visuais é a falta de compreensão relativa a sua condição real.
II - Conceito de cegueira.
O que é a cegueira
Sob o ponto de vista médico, cegueira significa um certo grau de deficiência da visão. Legalmente, ela é definida como a redução de 80% ou mais da visão normal, e esse limite é determinado para efeito de concessão dos benefícios destinados aos cegos. Socialmente, o conceito de cegueira inclui, não só as pessoas com alguma percepção visual, quanto as totalmente cegas. Psicologicamente, é considerado cego açule que nasceu cego ou que perdeu a vista em tenra idade, de modo a não poder basear os seus conceitos em experiências visuais. Geralmente, são os que perderam a vista até os cinco anos.
Não existe um conceito de cegueira universalmente aceito, pois muitos e variados são os critérios adota¬dos para a definição. Mesmo dentro de um pais, os critérios divergem, de acordo com o aspecto do problema a ser focalizado (censitário, pensão e outros).
Estritamente falando, uma pessoa é cega quando não possui percepção luminosa. Por outro lado, a cegueira, sob o ponto de vista econômico, permite um considerável grau de percepção visual. Assim, o ponto que a vista incapacita o individuo de realizar os trabalhos que exigem uma visão normal é o limite da cegueira econômica. Para esse fim, não existe, e nem se poderá estabelecer um padrão quantitativo de visão.
A definição de cegueira adotada pela Secção Oftalmológica da Sociedade Real de Medicina, publicada em Londres, em 1915, era: - “visão deficiente para a realização de trabalhos para os quais a visão é essencial”. A definição de Trousseau aceita em 1934, pelo Congresso Médico Australiano, é a seguinte: “incapacidade de contar dedos à distancia de um metro, em qualquer circunstância”. A cegueira parcial foi considerada como a posse de 20/200, ou menos, de visão, em qualquer circunstância.
A definição de Trousseau, mais como critério censitário, foi usada em diversos países como: Alemanha, Hungria, Polônia, Japão e China, até depois de 1945.
Como atualmente acontece entre nós, até 1930 nos Estados Unidos, época em que se reuniu o “Committée on Statistic of the Blind”, não existia uma definição de ceguei¬ra sobre a qual estivessem de acordo os oftalmologistas e os trabalhadores para cegos,
O “Committée on Statistic of the Blind” dividiu as pessoas em grupos, de acordo com a acuidade visual. Selecionadas essas diferenças de visão, determinou aquele órgão, o tipo de trabalho que uma pessoa seria capaz de realizar. Cinco eram aqueles grupos, variando os graus de cegueira desde 20/200 (Snellen) até a cegueira total, ou, apenas, percepção luminosa.
Em 13 de julho de 1945, o “Subcommittée on Ophtalmology of the National Research Council” aprovou a definição seguinte: “Acuidade visual central de mais de 20/200 com lentes de correção, e menos de 20/40, se o campo de visão periférica tenha se contraído a tal ponto que o maior diâmetro do campo visual compreenda um ângulo não maior de 20º“. Esta definição foi recomendada às Forças Armadas dos Estados Unidos.
Mais tarde, a definição adotada pelo Departamento Americano de Guerra para a admissão de pacientes aos serviços de Reabilitação em centros especializados para cegos foi: - “a cegueira existe quando a acuidade visual central é de 20/200, no melhor olho, com a correção máxima”.
Mesmo nos Estados Unidos, como se vê, há uma considerável divergência na aceitação das definições de cegueira. .A mais aceita é a seguinte: - “a cegueira existe quando a acuidade visual central no melhor olho é de 20/200 ou menos, com a melhor correção, mas o campo de visão é tão restrito que o maior diâmetro compreende um ângulo de 20º, ou menos”.
Assim, as pessoas que possuem boa visão num olho, não são consideradas cegas porque a definição se refere à acuidade visual do melhor olho. O mesmo acontece com aqueles cujos vícios de refração podem ser corrigidos por lentes que aumentam a visão para mais de 20/200.
III Classificação das causas de cegueira.
Como não existe urna definição de cegueira universalmente aceita, é evidente que qualquer classificação será influenciada pela definição que se adote.
Não existe, também uma classificação internacional das causas da cegueira, que por sua vez, são as mais variadas.
Entre os muitos planos de classificação das causas da cegueira, existe o estabelecido pelo “Committée on Statistic of the Blind”, indicado pela “American Foundation for the Blind” e “National Society for the Prevention of Blindness”. É uma classificação baseada na etiologia dos fatores da cegueira e inclui seis tópicos principais:
1 - Doenças infecciosas
2 - Lesões químicas e traumáticas
3 - Envenenamento tóxico
4 - Neoplasmas
5 - Doenças não infecciosas
6 - Lesões congênitas e hereditárias.
Esta classificação é acompanhada de uma classificação topográfica que inclui oito itens:
1 - Globo ocular
2 - Conjuntiva
3 - Córnea
4 - Íris e corpos ciliares
5 - Cristalino
6 - Coróide e retina
7 - Nervo óptico
8 - Humor vítreo.
A classificação adotada pelo Comitê de Prevenção à Cegueira, em Londres, 1931, e que tem sido usada no Egito, por muitos anos, è a seguinte:
I - Congênita
II - Adquirida
a) Conjuntivites que determinam:
1 - Opacidade total da córnea
2 - Atrofia do globo
3 - Glaucoma secundário
4 - Outras condições
b) Fundo
1 – Atrofia óptica
2 - Neurite óptica e papilo-edema
3 - Retiníte pigríentar
4 - Descolamento da retina
5 - Outras doenças
c) Glaucoma primário
III - Acidentes
IV - Operações
V - Doenças infecciosas
VI - Irites endógenas
VII – Várias
Num estudo das causas da cegueira feito em 1935, na Escócia e baseado em 1.460 casos, dividiram-se os grupos de acordo com a idade:
O-4 anos (pré-escolar)
5-15 anos (escolar)
16-49 anos (período de treinamento e colocação)
50 anos (período de descanso).
Sob o ponto de vista médico, as causas da cegueira, foram classificadas em:
1 - Infecciosas e tóxicas
2 - Traumáticas e químicas
3 - Doenças sistêmicas
4 - Indeterminadas
5 - Sem causa aparente.
O maior número de casos estava incluído no primeiro grupo, seguindo-se-lhe o segundo grupo.
Em relação à idade, as causas de cegueira eram de grande interesse. Na idade pré-escolar, excluindo os defeitos congênitos e progressivos, a cegueira era devida, principalmente, às infecções. Na idade escolar, a sífilis congênita era a causa mais comum, seguida pelos acidentes casuais, septicemia crônica, meningites e doença flictenular.
No período entre a idade escolar e os 50 anos, a miopia e os acidentes foram os principais fatores. A sífilis adquirida, septicemia crônica, moléstias congênitas e progressivas também foram causas que se destacaram.
Dos 50 anos em diante, a cegueira era muito comum e, em muitos casos, devido à afecç5es próprias da idade madura, tais como glaucoma, catarata e miopia.
Em 1946, no Canadá, o “Committée on Statistic of the Blind”, aceitou uma classificação que incluía os seguintes grupos:
1 - Doenças
a - Glaucoma
b - Miopia
2 - Anomalias congênitas
3 - Condições da córnea
a - Lesões da córnea
b - Queratite intersticial
4 - Trato da úvea
5 - Retinite pigmentar
6 - Doenças do nervo óptico
a - Atrofia
b - Doença de Leber
c - Neurite retobulbar
d - Doenças dos centros visuais superiores
7 - Catarata
Entre nós, existe a classificação das causas da cegueira elaborada pelo Prof. Moacír Álvaro, em 1935, que tomou por base a possibilidade de prevenção, colocando-as na seguinte ordem decrescente:
I - Oftalmia doa recém-nascidos
II –Tracoma
III - Irites e iridociclites
IV - Queratíte intersticial
V - Queratite superficial
VI -Lesão conseqüente a acidente do trabalho
VII – Lesão conseqüente a acidente fortuito. Maus resultados operatórios.
VIII - Lesão conseqüente a ferimento de guerra
IX - Coroidites e retinites
X - Lesões do nervo óptico
XI - Conjuntivite purulenta
XII - Miopia e suas conseqüências
XIII - Lesões conseqüentes a doenças infecciosas (sarampo, etc).
XIV - Descolamento da retina
XV - Glaucoma
XVI - Vícios de formação congênita
XVII - Coroidite central senil
XVIII - Retinite pigmentar
XIX - Cataratas inoperáveis
XX - Tumores e neoplasmas intracranianos.
Às doenças compreendidas nos grupos 1 e II constituem as de causas evitáveis; III a XII, as parcialmente evitáveis; XII a XX são as de causas sobre as quais não se tem nenhum controle.
Conclui o autor que, no combate às causas da cegueira, é, não só batalhar contra os fatores etiológicos, como também guerrear a própria doença ocular, para o que é indispensável urna boa assistência oftalmológica, acessível a todos os que dela necessitem. Assim, seguramente, serão evitados 72% de casos de cegueira, que, de acordo com a asserção de Harry Best, podem ser passíveis de prevenção.
IV - Problemas especiais a serem considerados no Serviço Social junto aos portadores de cegueira.
Os processos, instrumentos e recursos usados no reajustamento das pessoas cegas são, básica e fundamentalmente, os mesmos de que nos utilizamos no reajustamento daquelas que enxergam.
Existe entre os indivíduos considerados cegos, uma variedade infinita de pessoas: os recém-nascidos e os adultos, os idosos, os educados e os ineducados, os bem dota¬dos e os incapazes, os ricos e os pobres, os doentes e os sadios, aqueles que ficaram cegos há muito tempo e os recentemente cegos, os parcial e os totalmente cegos, e, entre os extremos, todos os graus e diferenças. Daí o perigo das generalizações, no que se refere às suas capacidades, personalidade psicológica, caráter, independência e ajustamento à cegueira.
Portanto, a força principal no trabalho de reajustamento dos portadores de cegueira é a individualização; conseqüentemente o adotado no Serviço Social, sendo que o Serviço Social de Caso Individual tem um papel inestimável.
Entretanto, a condição de cegueira exigirá algumas adaptações nas técnicas comuns e atenção especial pa¬ra certos fatores. Diz Philip S. Platt que existem certas generalizações baseadas em informações estatísticas e experiências aceitáveis e que qualquer consideração conscienciosa sobre a cegueira, no mundo moderno, deve ser baseada em certos fatos fundamentais:
a - A cegueira é progressivamente encontrada na idade maia avançada.
b - Grande parte dos indivíduos cegos tem o seu tempo menos ocupado do que os videntes.
c - Os cegos, em condições e idade de serem empregados, são em pequena porcentagem.
d - O empregado cego, quando colocado em trabalhos compatíveis com a sua condição, são trabalhadores eficientes e produtivos.
e - Os empregados cegos nas indústrias têm menor coeficiente de acidentes e maior assiduidade que os videntes.
f - É mais difícil ao indivíduo cego conseguir aceitação na sociedade do que os que enxergam.
g - O ajustamento à cegueira depende precipuamente do que o individuo è. Isto é, do seu equipamento psicológico, constitucional, dos efeitos do ambiente em que vive, da sua personalidade e da maneira e extensão pela qual tem se adaptado à realidade de outras situações.
No estudo de cada caso e em todo plano de tratamento, deve-se considerar o grau de cegueira, idade em que se deu o advento da cegueira, causas e efeitos da cegueira, assim como as habilidades, capacidades, tendências e ambiente em que vive o cliente.
No contacto com as pessoas cegas, a simpatia compreensiva, inteligente é necessária, nunca o sentimentalismo. As reações emocionais, em relação à sua condição, são para elas mais desastrosas que a própria cegueira.
O excesso de piedade, indulgência, proteção, de solicitude e o emocionalismo do meio, tomados no seu conjunto, tornam extremamente difícil o reajustamento das pessoas cegas. Estas reações, alheias em relação à sua cegueira, concorrem quase sempre, para que elas não disponham de força para aceita-la como um fato consumado e, conseqüentemente, possam lutar para sobrepuja-la.
A atitude de servir constantemente as pessoas cegas, cumulando-as de favores, não só acentua sua deficiência, corno desenvolve nelas a autocomiseração e a insatisfação, criando situações desagradáveis e de difícil solução.
Temos que aceitar a cegueira como urna grande deficiência, que clama por drásticos reajustamentos psíquicos e sociais, não fáceis de serem atingidos. Por isso, aqueles que trabalham com as pessoas cegas devem estar atentos, não só quanto à observância das atitudes e reações de seus clientes, como também das suas próprias, para poderem objetivamente, assegurar-se de que estão ajudando ou sentindo que estão prejudicando o seu reajustamento.
O indivíduo cego deve ser auxiliado por todos os meios a adquirir independência, segurança e confiança em si mesmo. Quando pode ou consegue andar sozinho, executar as atividades exigidas pela rotina da vida cotidiana, prestar acidentalmente, pequenos favores aos outros, fazer trabalhos agradáveis, ter oportunidade de recreação e experiências sociais, o seu reajustamento é quase que seguro.
Alguns dos casos que tivemos a oportunidade de tratar ilustrarão os aspectos que focalizamos no reajustamento das pessoas cegas. Serão eles apresentados em condensação diagnóstica, técnica de relatar, sugerida por Gertrudes Sackhein que, a nosso ver, foi a que mais se adaptou ao nosso tipo de trabalho.
Com exceção dos casos de Celina Sampaio e de Da. Berta, os demais estão em andamento, mas orientados para soluções satisfatórias como o próprio leitor poderá concluir.
Os nomes das pessoas, cidades e instituições utilizados nos relatórios, são fictícios.
Diz Emerson: “Nobody ever finds life worth living. One always must make ít worth living”. Aqui está o grau de valor da contribuição do Serviço Social que, com a eficiência e o poder de todas as suas armas, poderá lutar para que as criaturas humanas portadoras de cegueira aceitem suas limitações e aproveitem das possibilidades que lhes restam, encontrando, assim, o lugar que lhes é devido no seio da sociedade.
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REFERÊNCIAS
1 - HAYES, D.S.P. - “Contribution to a psychology of Blindness” American Foundation for the Blind, Inc. 194l
2 - REVESZ, G. -“Psychology and Art of the Blind”, traduzido do alemão por Wolff, Dr.H.A. e Longmann, Green and Co. 1950 Londres.
3 - BEST, H. - “The Blind” - New York –The Macmillan Co. 19l9
4 - BURRIT, O. H. - “The Blind” – Philadelphia - J. B. - Lippincott, Co. – 1918
5 – CUTSFORTH – “The Blind in School anda Society” – New York – D. Appleton & Co. – 1933
6 - FRENCH, R. S. – “The Education of the Blind” – California School for the Blind – 1924
7 – HANKES C. – “Some Common Falacies about Blindness” – III – 1915
8 - ROLLINGWORTH, L. S. – “Vocational Psychology” – New York – D. Appleton & Co. – 1916
9 - JASTROW, J. – “Blindness and the Blind” -Dicionárto de Filosofia e Psicologia de Baldwín –1901 - Vol. 1.
10 - LANGW0THY, J. L. - “Blindness in Piction” - Jornal de Psicologia Aplicada - 1930.
11 - VILLWY, P. - “The World of the Blind” -Londres –1922 -Simnpkin, Marshall.
12 - FOLHA DA NOITE – 1ª. Edição - 12-9-1950.
II - RECURSOS DO MEIO
“O índice de civilização de um povo pode ser avaliado pela atenção que dispensa aos seus deficientes“.
Por vários motivos é impossível conhecer-se o número exato de pessoas cegas no Brasil:
a) o problema não tem despertado a atenção pública, quanto devera;
b) não possuímos um conceito nacional de cegueira;
c) não existe um trabalho estatístico acurado que nos forneça dados seguros e sempre atualizado;
d) a nossa imensa extensão territorial dificulta a localização das pessoas cegas, principalmente crianças em idade pré-escolar e pessoas de idade avançada.
De acordo com o censo de 1940, existem aproximadamente, no Brasil, 72.000 pessoas cegas, das quais 7406, no Estado de São Paulo, sendo que destas, 5.000 estão na cidade de São Paulo.
Em regra, a assistência prestada ao cego, em nosso meio, é de iniciativa particular, e as suas obras são insuficientemente subvencionadas pelos poderes públicos.
Procuraremos, a seguir, focalizar os recursos específicos de que dispomos e aos quais tentamos acrescentar outros, para atender às necessidades das pessoas cegas na cidade de São Paulo, onde mais intensamente realizamos o nosso trabalho.
I - Fundação para o Livro do Cego no Brasil
A “Fundação para o Livro do Cego no Brasil” é una organização de caráter particular que estabelece e desenvolve relações com todas as escolas e oficinas para cegos no Brasil, procurando auxiliar cada cego, individualmente, quer em seu lar, quer na instituição em que viva. Mantém, do mesmo modo, intercâmbios com as organizaç5es de gênero, nos países da Europa e das Américas. À “Fundação” foi instituída a 11 de março de 1946, por dotação especial de Da. Adelaide Reis de Magalhães e vem tentando, à custa de seu rendimento, acrescido de alguns donativos que recebe esporadicamente, além de subvenção do Governo de nosso Estado.
A Fundação para o Livro do Cego no Brasil tem por objetivo principal a divulgação do livro em sistema “Braille”, mas poderá tomar outras iniciativas atinentes aos interesses sociais, culturais, profissionais e de saúde dos cegos, a critério de sua diretoria, desde que não seja prejudicado o seu objetivo principal (art. 2º dos Estatutos).
Tendo como finalidade precípua, a difusão do livro em “Braille”, procurou a Fundação adquirir uma imprensa especializada a fim de preencher uma lacuna que, de há muito, vinha prejudicando o desenvolvimento cultural do ce¬go brasileiro, organizando para isso o seu departamento de imprensa Braille. Através de alguns de seus membros que estiveram em viagem de estudos nos Estados Unidos da América do Norte, conseguiu a doação do aparelhamento necessário a instalação daquela imprensa que foi feita por duas organizações norte americanas. W. K. Kellog Foundation e American Foundatíon for Over Seas Blind.
O departamento de Imprensa Braille, situado à Avenida Paulista, numa parte do Trianon, cedida pela Prefeitura Municipal, consta de um equipamento completo para a impressão de livros em relevo, assim como, uma revista mensal a que se denominou, sugestivamente, “Relevo”. Todo material impresso é distribuído às Instituições do Estado de São Paulo.
O treinamento dos funcionários especializados é realizado no próprio departamento da imprensa Braille.
Através de uma biblioteca circulante, os livros de ficção, de estudos, etc, são emprestados aos leitores de todo o país, O prazo para a leitura dos mesmos é de 1 a 2 meses, variando segundo as necessidades de cada um. A revista “Relevo” é um órgão de difusão cultural que transcreve em caracteres Braille, artigos publicados em revistas e jornais de todo o país, assim como colaborações inéditas. Dessa manei¬ra, a nova revista se propõe a informar seus leitores sobre o que vai pelo mundo, no que diz respeito à ciência, às artes, ao esporte, à religião, ao cinema e à educação. Conta, ainda, com uma parte delicada à criança, uma página feminina, além de outras.
A Fundação inclui ainda, entre suas atividades:
- Importação e venda de material para uso de cegos, tal como: relógios, regletes, jogos, etc.
- Divulgação do sistema Braille entre pessoas que queiram copiar livros para cegos.
- Bolsas de férias para que os estudantes cegos possam visitar suas famílias.
- Concursos literários.
- Levantamento estatístico.
- Campanha permanente de Prevenção à Cegueira.
- Biblioteca especializada sobre tiflologia.
- Assistência individual ao cego, promovendo sua reintegração social. Isto é feito através de seu Departamento de Serviço Social, procurando empregar cegos capacitados, na indústria e no comércio. Neste particular tem obtido alguns resultados satisfatórios. Como vemos, a primeira idéia de realizar o trabalho de reajustamento dos indivíduos cegos, através de agentes especializados, coube à Fundação para o Livro do Cego no Brasil; ao lado de suas atividades institucionais a Fundação está tentando dessa maneira, assentar, em bases sólidas e definitivas o seu departamento de Serviço Social.
A Fundação para o Livro do Cego no Brasil, compreendendo o valor da opinião pública em relação ao problema social dos cegos brasileiros, procura informar devidamente os interessados nesse problema, a fim de que se forme una consciência bem orientada que consiga exercer benéfica influência sobre os poderes públicos ao tomarem suas deliberações e medidas relacionadas com aquele assunto.
II - Instituto “Padre Chico”
Este Instituto, talvez o melhor estabelecimento de ensino para cegos, existente no Brasil, foi fundado em 1927, após uma reunião comemorativa da Semana Oftalmológica, por sugestão do oftalmologista Dr. José Pereira Gomes. Sua Excelência Reverendíssima, D. Duarte Leopoldo e Silva, ouvindo o apelo feito, reuniu uma comissão de senhoras para organizar a Instituição. O povo paulista atendeu com generosidade o apelo do seu grande Arcebispo e os donativos não se fizeram esperar. A nova instituição tornou o nome do Monsenhor Dr. Francisco de Paula Rodrigues, carinhosamente conhecido da gente paulistana por Padre Chico, porque o primeiro terreno que recebeu foi dado mediante essa condição, pretendendo o seu doador que, sob o nome de ”Padre Chico” se perpetuasse, num pavilhão, a lembrança do insigne sacerdote.
Sua Excia. Revma. o Sr. Arcebispo deu pleno apoio à justa imposição, determinando que o Instituto, por inteiro, recebesse aquele nome. Grandes donativos foram feitos e o Instituto começou a funcionar em 1929, no alto do Ipiranga, onde se acha até hoje. Tem uma área total de 16.000 metros quadrados, quase toda construída. Dispõe de 7 pavilhões, una grande capela, aqueles com os seguintes compartimentos: 11 dormitórios, 2 refeitórios, copa, cozinha, enfermaria, gabinete dentário, gabinete oftalmológico, 5 salas de aulas para o curso secundário e 7 para o curso primário; sala de música, sala da banda, biblioteca, museu, auditório, pátio para educação física e recreio, jardim e horta, oficinas com material apropriado para o fabrico de uma grande variedade de objetos de limpeza e artigos para a indústria e sala de encadernação. Além disso, dispõe de instalação completa e adequada para instruir e educar crianças cegas.
A direção e a administração da obra estão a cargo de una comissão composta de 6 senhoras eleitas de 3 em 3 anos, A administração interna está confiada às Irmãs de São Vicente de Paulo, atualmente em número de 14. Há, ainda, um assistente eclesiástico. Não recebe o Instituto subvenção oficial, porém, ele é auxiliado pelo Governo do Estado que lhe fornece as necessárias professoras primárias.
Atualmente, assiste a 207 alunos matriculados, procedentes dos mais diferentes pontos do país e até mesmo do estrangeiro.
Por ser exclusivamente uma instituição de caráter escolar, recebe, em seu internato, candidatos que não ultrapassem os 18 anos de idade e que possuam aptidão e disposição para estudar, ou melhor, para seguir algum dos cursos que a Escola mantém. Além dessas condições, deve o interessado apresentar certidão de nascimento, atestado de sanidade mental, fornecido por um médico psiquiatra e um certificado de que não é portador de moléstias contagiosas. Estes documentos, assim como outros relativos a exames mais especializados tais como, exame de sangue, radioscopia e radiografia dos pulmões, etc, são providenciados, na quase totalidade dos casos, pela própria escola. As despesas com o ensino, manutenção, assistência médica e hospitalar, estão a cargo da Instituição que recebe cegos de todas as classes sociais, sem distinção de cor, sexo ou credo religioso. Para realizar seus trabalhos assistenciais, dispõe de um corpo clínico completo: 2 médicos de clínica geral, um neuro-psiquiatra, um oculista, 2 dentistas, um médico endocrinologista, um laboratorista, um dermatologista, um otorrinolaringologista, contando, ainda, com o benevolente concurso do Hospital das Clínicas e de Assistentes Sociais.
Os médicos apresentam seus relatórios aonde vem o resumo de todos os casos examinados, dos tratamentos indicados e dos resultados obtidos ao qual fazem acompanhar da respectiva estatística.
A princípio. o Instituto funcionava como asilo de inválidos cegos, pois ali eram recebidos, indistinta¬mente, velhos e enfermos, moços e crianças. Com o decorrer dos tempos, aconselhado por uma experiência esclarecida, fixou as suas atividades na educação do cego menor.
Seguindo o regime de internato, externato e semi-internato, o Instituto oferece os seguintes cursos: pré-primário, primário, oficializado em 1939; curso de formação de massagistas, aberto a 5 de fevereiro de 1942 e reconhecido pelo Departamento Nacional de Saúde, pela Portaria nº 75, de 15 de setembro de 1945, inspecionado pelo Governo Federal; curso ginasial reconhecido pela Portaria nº 318 de 12 de julho de 1947, também inspecionado pelo Governo Federal e curso profissional. Esta dependência tem apresentado resultados satisfatórios, tanto para o Instituto, como para os alunos e, também para os operários cegos, que, com o lucro de seu trabalho, sustentam honestamente suas famílias.
Há também, uma secção de encadernação e um curso de economia doméstica, sem contar o curso de música que compreende: teoria musical, orfeão, piano, violino e una banda.
III - Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos
Sob a direção técnica da respeitável e conhecida figura do professor Mamede Freire, esta instituição de assistência e amparo ao cego adulto, foi fundada a 20 de maio de 1924. Em pouco tempo desdobrou-se em outros núcleos que iniciaram suas atividades no interior do Estado: Santos, Piracicaba, Sorocaba e Bauru.
Sem distinção de crença, sexo, raça ou categoria social, a Associação da assistência ao cego, proporcionando-lhe, gratuitamente, abrigo, manutenção, roupa, calçado, socorros médicos, remédios, funeral, amparo material e moral, ensino de alfabetização, cálculo de valores, música pelo método Braille, prática mercantil ao seu alcance, técnica de indústrias manuais, serviços remunerados para que garantam a sua subsistência e a da família. Assim, mestres de ofício, professores, coordenadores e distribuidores dos diversos trabalhos da instituições são cegos que provam a sua competência no exercício das atividades mencionadas,
Em caso de miserabilidade, a Associação estende sua assistência, não somente ao cego, como também a sua família, até que ele possa assumir ou reassumir a chefia da mesma. Pois, sem base na família, qualquer providência será inprofíqua senão inútil.
A Associação Promotora de Instrução e Trabalho para Cegos, para não se afastar de suas finalidades, que é a de conduzir os indivíduos cegos à prática de atos econômicos, exclui do programa de suas atividades, toda e qualquer ação supérflua que considera nociva ao encaminhamento dos mesmos a una vida de trabalho honesto. Dentre as muitas estão estas: a filantropia de exibição por qualquer forma de peditório elegante em que os cegos se apresentam como principais figuras, tômbolas, festivais, chás dançantes, angariação de meios, de porta em porta, arrecadação de espórtulas pelas ruas e praças públicas, o que vale ter a indústria da mendicância como solução do problema,
Fora da contribuição livre e espontânea dos associados simpatizantes de suas finalidades, a Associação se socorre do auxilio indireto dos poderes públicos e do pequeno rendimento líquido do trabalho de seus próprios assistidos.
Nesta conformidade a Associação já reeducou 1285 pessoas cegas. Existem sob sua proteção 220, sendo:
H = 2l5; M = 5
Empregados diversos = 71: H = 69, M = 2
Aprendizes...= l49: H = 149, M = 0
Famílias.............. =16
Crianças... = 24: H = 11, M =13
Cobradores...= l4: H = l3, M = 1
Corretores...= 10: H =10, M = 0
Feirantes...= 11: H = 11, M = 0
Lojistas...= 3: H = 3, M = 0
Mercadores...= 3: H = 3, M = 0
Pensionistas...= 5: H = 1, M = 4
Gerentes técnicos...= 4: H = 4, M = 0
Zeladoras...= 5
Professores de alfabetização...= 5
Professores de música...= 5
Mestres de ofício...= 5
Diretor Técnico...= 1
Os trabalhadores estão inscritos nos institutos de seguros sociais e nos de seguros contra acidente de trabalho. As propriedades da Instituição, também estão asseguradas contra fogo e outros riscos.
O professor Mamede Freire muito se tem batido pela causa dos cegos. No seu anteprojeto de lei apresentado ao Governo do Estado em 22 de junho de 1945, clama pela isenção de ônus estaduais ou municipais às instalações e funcionamento de oficinas de indústrias manuais e de pequenos negócios de propriedade exclusiva de cegos alfabetizados pelo sistema Braille ou das instituições de assistência aos cegos; pela educação das crianças cegas entre as videntes, nas escolas públicas; preparo de professores especializados e criação de una Escola Técnica Industrial de Aperfeiçoamento para cegos adultos, de 18 a 35 anos de idade, na qual, ao lado da aprendizagem técnica de diversos ofícios ao seu alcance, possam adquirir noções da vida prática, do que, em geral, tanto carecem.
IV – FEDERAÇÃO DOS CEGOS LABORIOSOS
Esta Instituição é una dependência da Associação Cívica Feminina, sob a direção técnica do Sr. Braz Pinto, Mantém-se pela contribuição de particulares e subvenções estaduais e municipais.
O que garante o funcionamento ininterrupto das oficinas, além do comércio nas feiras livres, são os contratos feitos com indústrias de produtos congêneres. A produção diária é de 600 a 700 escovas.
Estão, atualmente, sob seu amparo, 58 cegos, distribuídos pelas atividades seguintes:
34 entre os operários, feirantes e propagandistas;
5 corretores;
22 cobradores;
1 professor de Braille;
1 professor de música.
A Federação possui um gabinete dentário completo, onde um profissional remunerado pela obra, duas vazes por semana presta seus serviços aos assistidos.
O serviço médico é realizado por um clínico também remunerado pela instituição, dando consultas uma vez por semana.
Parte do resultado líquido das atividades do assistido reverte em seu benefício em forma de remuneração.
V - Instituto Profissional Paulista para Moças Cegas
Esta obra é a única existente em São Paulo para a assistência de moças cegas. Mantém-se à custa de contribuições mensais,
VI - Educação
O moderno ensino para indivíduos cegos, baseado em princípios psico-pedagógícos cientificamente comprovados, deve ter como finalidade principal fornecer a esses indivíduos, preparo adequado para que se entrosem e funcionem harmoniosamente dentro da vida social.
Entre nós, o tipo de educação é o de segregação e todos os trabalhos são realizados entre crianças cegas em estabelecimento fechado. Com excelentes resultados, nos Estados Unidos da América do Norte, tem-se procurado realizar a educação das crianças cegas juntamente com as videntes.
Por iniciativa de Dorina de Gouvêa Nowill, o ensino das crianças cegas, junto com as videntes, tem suas bases lançadas no projeto cujas diretrizes exporemos a seguir, o qual foi aprovado em 1950, a titulo experimental.
a) – CLASSES BRAILLE
A educação dos indivíduos desprovidos do sentido da vista, nos países mais adiantados da América e da Europa, não constitui mais um problema de difícil solução, devido ao grande número de técnicos e professores especializados no assunto e ao acerto das medidas tomadas. Durante algumas centenas de anos, acreditou-se ser a institucionalização, o único meio de oferecer aos cegos elementos capazes de torna-los auto-suficientes e independentes.
Data de 1784, na França, a fundação da primeira escola para cegos em todo mundo e que se denominou Instituição Nacional para os Jovens Cegos. Surgiu, graças aos esforços de Valentin Hauy, que a história, muito justamente, cognominou de o “Pai da Educação dos Cegos”.
Na primeira metade do século XIX, todas as grandes capitais européias possuíam suas respectivas escolas para cegos, inspiradas, em sua maioria, na obra vitoriosa de Hauy. Por volta de 1830, a chama desse novo ideal incendiou a mente e o coração de educadores norte-americanos e três grandes instituições nasceram quase ao mesmo tempo, nos Estados Unidos da América do Norte. Baseadas nos princípios educacionais praticados na escola de França, as três grandes organizações norte-americanas desenvolveram-se e, aos poucos, adquiriram uma feição própria e característica.
Não tardou o Brasil em criar também uma instituição para cegos. A 12 de setembro do ano de 1854, por influência de D. Pedro II, foi publicado o decreto que criou o Instituto dos Meninos Cegos, inaugurado a l6 do mesmo mês, sob a direção do Dr. José Francisco Sigaud. Este estabelecimento do Rio de Janeiro recebeu, com o advento da República, o nome de Instituto Benjamin Constant. Além desta casa de ensino, que é mantida pelo Governo Federal, conta o nosso país com outras escolas, figurando hoje o Instituto Padre Chico, em S.Paulo, como sendo, no gênero, uma das mais importantes, não só pelas suas instalações materiais, como pelos métodos de ensino empregados.
Todas as instituições acima referidas e um sem número de outras espalhadas pelo mundo, têm proporcionado aos cegos, educação, trabalho e preciosos ensinamentos, tornando-os participantes das sociedades em que vivem.
Seguindo o desenvolvimento dos princípios educacionais em geral, a pedagogia evoluiu, no que diz respeito aos cegos, e, a pouco e pouco, chegou-se à conclusão de que as crianças cegas podem ser educadas juntamente com as videntes, nas mesmas escolas, nas mesmas classes, com excelentes vantagens para umas e outras. Desta maneira, em 1900, Frank Hall, criou em Chicago, a primeira classe Braille numa escola pública. Desde então, todas as capitais norte-americanas possuem classes Braille nas escolas públicas e dia a dia cresce o número de crianças cegas que a elas afluem.
Pelas últimas estatísticas, nos Estados —Unidos da América do Norte, das 6000 crianças privadas de visão em idade escolar, cerca de 600 freqüentam as classes Braille. Deve-se ressaltar que o número de crianças matriculadas nas re¬feridas classes cresce de ano para ano, ao passo que diminui o ingresso de alunos nas escolas residenciais especializadas pa¬ra cegos. Nem por isso pode-se prescindir das escolas para cegos, cujo valor e eficiência têm sido notórios em todo o mundo. Com a criação das classes Braille, a criança cega pode se instruir sem deixar o lar e o convívio dos membros da família, resultando disto vantagens sociais, econômicas, morais e vocacionais que têm inegável influência na formação de sua personalidade.
Sabemos que a escola pública é um excelente fator de socialização do individuo e, sobretudo, para a criança cega que, a freqüentando, participará, mais ativamente, da comunidade a que pertence.
Não sendo obrigada a abandonar sua casa durante longos meses, mas observando o trabalho diuturno em que se empenham os membros de sua família, a criança cega se capacita da necessidade de lutar pela vida e contribuir com o seu quinhão de esforços para o bem estar comum. Sob o ponto de vista econômico, nenhum compêndio ou tratado teria a mesma utilidade que a participação da vida em família.
Não ignoremos que o lar forma o caráter do indivíduo e o exemplo e ação dos pais sobre os filhos, reforçam e intensificam as forças vitais transmitidas pela hereditariedade.
Vocacionalmente lucra a criança cega que pode se educar na escola pública. Tanto na escola corno no lar, muitos são os exemplos que diariamente observa; diversas são as vantagens que descobre nas diferentes profissões, o que permite a sua auto-avaliação e a decisão das suas preferências. A luta de todo o dia entre as pessoas videntes leva o cego a julgar com justeza de suas capacidades e limitações o que nada mais é que um ajustamento racional e eficiente.
Como corolário destas vantagens, devemos acrescentar ainda a compreensão por parte do público que, desde os bancos escolares aprende a ver no cego um homem semelhante aos outros e a aceita-lo como um elemento ativo da sociedade,
A criança de hoje será o industrial, o comerciante ou o profissional de amanhã que não relutará em aceitar como companheiro de trabalho aquele que provou nas competições escolares o seu valor e a sua capacidade, embora seus olhos não pudessem ver.
A criação das classes Braille de São Paulo, no Instituto de Educação Caetano de Campos e na Escola Normal Padre Anchieta, constitui, pois, o marco inicial de uma nova era na educação das crianças cegas em nosso país, que deste modo lhes oferece as mesmas possibilidades de educação proporcionadas a todos os brasileiros.
b) - FUNDAMENTO DAS CLASSES BRAILLE
As classes Braille funcionam apenas nas grandes cidades, fazendo parte integrante das escolas públicas mantidas pelo governo.
Há no Estado de São Paulo, 7.406 cegos, segundo estatística fornecida pelo Departamento Estadual de Estatística. Por aí se vê perfeitamente, que é possível e necessária a criação das referidas classes. O programa, sendo ministrado no Instituto de Educação Caetano de Campos e na Escola Normal Padre Anchieta, trará muitas vantagens, pois ambos se localizam em situação bastante central, o que facilitará o transporte das crianças para a escola. O Instituto de Educação Caetano de Campos conta com elementos técnicos que poderão orientar a organização dos trabalhos.
A classe Braille não se destina a um grau de aprendizagem determinado. Recebe, durante o período escolar, as crianças cegas de todos os graus da escola primária, a fim de se instruírem naquilo que, especialmente, têm necessidade.
As crianças cegas, desse modo, participam das atividades do grau de aprendizagem a que pertencem e dirigem-se à classe Braille, apenas para se familiarizarem com este sistema, para aprenderem a calcular na prancheta de cálculo pa¬ra cegos ou consultar um mapa em relevo. Permanecem a maior parte do tempo possível, na classe com os alunos videntes e participam de todas as atividades destes. À classe Braille não passa de um centro complementar de consulta e de orientação que fornece aos alunos cegos o aparelhamento técnico de que têm necessidade ao acompanhar a classe a que pertencem. A classe Braille ficará a cargo de uma professora especializada em educação de cegos. As crianças cegas farão os seus exames no sistema Braille, ficando a transcrição para o alfabeto comum a cargo daquela professora. As professoras de cada grau corrigirão, assim, as provas da mesma maneira que o fazem com as dos outros alunos.
O transporte das crianças cegas poderá ser feito facilitando-se a matrícula no Instituto de Educação Caetano de Campos e na Escola Normal Padre Anchieta, de um seu irmão mais velho, para o mesmo período de aulas, ou concedendo-se o passe gratuito para um aluno mais velho que, diariamente, queira se encarregar de levar e trazer a criança cega à escola. Este projeto de classes Braille tem grandes vantagens econômicas para um programa de educação de cegos a ser desenvolvido pelo Governo do Estado. Em primeiro lugar, porque a criação de uma escola residencial especializada para cegos acarretaria despesas fabulosas, não só no que se refere às instalações adequadas, mas, sobretudo, no que diz respeito à manutenção de professores, alunos e funcionários. Em segundo lugar, porque já existe em São Paulo uma escola especializada para cegos, como já vimos, que é o Instituto Padre Chico.
Convém, ainda, deixar bem patente que a nova pedagogia norteadora da educação dos cegos, baseada nos ensinamentos da psicologia experimental, procura formá-los com os videntes, desde a creche, até às academias de ensino superior, pois, é este o único e verdadeiro meio de integra-los na sociedade.
As classes Braille tiveram início nos Estados Unidos, no ano de 1900, por Frank Hall. Cinqüenta anos apos, o Brasil entrega aos seus bancos escolares as crianças cegas, permitindo-lhes as mesmas oportunidades de que dispõem as crianças videntes.
Nos planos educacional e social, as vantagens da educação, em comum, de crianças cegas com videntes são irrefutáveis, uma vez que a criança cega é um membro vivo da sociedade, Nesta qualidade, to5das as oportunidades lhe devem ser dadas para que se desenvolva entre aqueles com os quais deverá viver e competir futuramente.
Não esqueçamos, que no seu anteprojeto de Lei apresentado ao Governo do Estado em 22 de junho de 1945, o professor Mamede Freire, como educador esclarecido, já focalizava este aspecto da educação para cegos. Diz ele no item 3º do referido anteprojeto: - “Estender à juventude cega a assistência escolar, coeducando-a com a puerícia vidente, nas escolas publicas, como já se pratica há muito tempo em diversos países cultos”.
c) - ENSINO DOMICILIAR
Grande parte das cegueiras advém numa idade avançada da vida das pessoas, Os programas de educação de cegos adultos, para que eles melhor se adaptem à nova condição, devem ser considerados com atenção. Assim, o ensino domiciliar constitui um dos aspectos essenciais nos planos educacionais daquelas pessoas.
Não se restringirão, apenas, ao ensino do sistema Braille, mas procurarão fornecer o treinamento de certas habilidades e darem orientação individual.
O professor domiciliar de cegos deverá dominar certas técnicas dos métodos de Serviço Social, especialmente do Serviço Social do Caso Individual, porque, pela sua situação privilegiada, pode estudar o ambiente em que vive o aluno e auxiliá-lo no reajustamento à vida familiar. Poderá, conseqüentemente, ser um dos maiores colaboradores do Assistente Social, no seu trabalho de reajustamento social das pessoas cegas. Será, porém, uni trabalho de cooperação, em que cada um dará ao cliente os benefícios dos seus conhecimentos especializados.
O ensino domiciliar também lembrado por Dorina de Gouvêa Nowill, que possuí um estudo nesse sentido condensado em projeto, ora em discussão na Assembléia Legislativa Estadual. Temos que salientar que este projeto, além das vantagens trazidas ao plano educacional do cego adulto, vem acrescido de um valor inestimável, como em alguns países, pois, visa destinar a profissão de professor domiciliar exclusivamente às pessoas cegas, preparadas para este fim.
d ) CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO PARA ENSINO DE CEGOS.
O Curso de Especialização para o Ensino de Cegos, do Instituto Caetano de Campos, destinados aos professores normalistas e diplomados por escolas superiores, tem prestado relevantes serviços à educação dos cegos. Os alunos recebem, ali, conhecimentos sistematizados sobre Anatomia, Fisiologia e Moléstias de Olhos, Efeitos Psicológicos da Cegueira, Método Braille, Métodos Especiais para Ensino de Cegos e Prevenção à Cegueira. Já foram diplomados pelo curso, quarenta professores, na sua maioria em atividade no Instituto Padre Chico. Na ausência de outros recursos, somos de parecer que este curso e muito útil aos Assistentes Sociais que desejam se especializar no campo da cegueira.
VII – RECREAÇÃO
Embora não se tenha dado a devida atenção à recreação das pessoas cegas, queremos lembrar que, como qualquer outra pessoa, elas necessitam de estímulos saudáveis, de educação informal, higiene mental, o que se consegue pela participação em atividades recreativas que descansem e permitam-lhes o entretenimento social através de clubes, festas, piqueniques, jardinagem, jogos, orquestras, danças, natação e outras.
Às pessoas cegas mais velhas devem ser criadas oportunidades para que assistam conferências, reuniões políticas, concertos, para que possam fazer compras, etc.
Enfim, devem ser proporcionadas ao indivíduo cego, todas as atividades que lhe aumentem as experiências sociais necessárias ao seu bom ajustamento à vida. Procuramos despertar esse interesse em nossos clientes, individualmente, desde que nos foi impossível desenvolver um programa de Serviço Social de Grupo.
VII – Emprego de Pessoas Cegas em Sérvios Ordinários
Dada a complexidade deste problema, resolvemos apresenta-lo em capítulo especial, onde procuraremos demonstrar as nossas tentativas nesse sentido.
IX - Auxílio de Voluntários
O auxílio de voluntários em certas tarefas, no Serviço Social junto aos portadores de cegueira, é valioso. As pessoas muito idosas têm dificuldade em aprender o Braille; as crianças abandonadas e internadas em estabelecimentos especializados, necessitam de alguém que se preocupe particularmente com elas; os doentes cegos, sem família, reclamam cuidados e atenção; estas, e muitas outras, são tarefas que podem estar a cargo de um corpo de voluntários, pois, embora não sejam atividades especificas do Assistente Social, não podem ser esquecidas. Além disso, essas tarefas viriam sobrecarregar, sobremaneira, as atividades do Assistente, desviando-o da sua verdadeira função.
Tentamos alguma coisa nesse sentido, para o que entramos em contacto com a Federação Paulista de Escoteiros, Sociedade São Vicente de Paulo e particulares.
X – Comentários
Coerentes com os objetivos que norteiam o nosso trabalho, que é o ajustamento das pessoas cegas às condições normais da vida, restringimo-nos a considerar, apenas, as instituições com as quais entramos em contacto direto, e, que, ao nosso ver, prestam reais serviços à comunidade.
Não entraram em nossas cogitações, aquelas pseudo-instituições que usam a deficiência de seus assistidos e com isto para atrair a atenção e despertar a sensibilidade pública, bem como as chamadas “instituições clandestinas”. Estas ultimas multiplicam-se pela nossa Capital. São obras, se assim podem ser denominadas, que funcionam sem cumprir os requisitos legais, organizadas para satisfazer interesses pessoais, falhando em todos os aspectos. Elas constituem um verdadeiro atentado a boa fé do publico que, pela sua ignorância e excessivo sentimentalismo, concorre para que se perpetue, indefinidamente, tal situação e em detrimento dos trabalhadores honestos. Este estado de coisas constitui, acima de tudo, o maior de todos os desrespeitos à dignidade da própria pessoa cega e representa um sério obstáculo para os esclarecimentos do público, em relação ao problema.
Ora, são videntes que se organizam para explorar a cegueira; ora, são cegos que tiram partido da sua própria condição, ou então, cegos que se digladiam entre si, forçando uma liderança em proveito próprio. Tudo isto não passa de una camuflada mendicância organizada.
Apresentaremos, a seguir, uma das entre¬vistas realizadas em nosso serviço, para documentação do que acabamos de afirmar.
CASO DE J. BARROS
No escritório da F.L.C.B., fomos procuradas por um homem de estatura média, claro, apresentando no rosto algumas cicatrizes de varíola. Trajava-se decentemente. seus óculos eram levemente escuros, entretanto permitiram-nos observar que seus olhos não eram sãos, embora, à primeira vista, não parecesse cego, devido à ausência de certos anopsismos.
Como introdução, disse-nos que ali se achava para conhecer a Assistente Social, e, por seu intermédio, ser orientado no aprendizado do Braille. Recebemo-lo amavelmente, procurando colocá-lo à vontade. Soubemos que estivera em visita à Obra no dia anterior, quando preenchera o questionário do serviço estatístico que ali se está realizando, e tomara conhecimento de nosso trabalho.
Pareceu-nos estranho que nosso cliente voltasse à Obra pretendendo obter, particularmente da Assistente Social, uma orientação tão simples que poderia ser obtida através do funcionário que o atendera anteriormente.
Pelos dados daquele questionário, estaríamos de posse de alguns detalhes sobre a vida de nosso cliente. Para não fugir aos princípios que orientam nossos trabalhos, achamos conveniente obtê-los deIe próprio.
Preliminarmente, dirigimos a entrevista nesse sentido, mas tendo como principal objetivo, conhecer o motivo real e verdadeiro que o conduzira até nós.
Tratava-se de J. Barros, brasileiro, com 39 anos de idade, solteiro, funcionário aposentado, domiciliado nesta Capital, onde reside com sua mãe, já velhinha. Cegou-se parcialmente aos 21 anos de idade, em conseqüência de tracoma. Posteriormente, esteve sob os cuidados de nossos melhores especialistas, mas dado o estado avançado da moléstia todos os esforços foram inúteis. A visão que possuí atualmente permite-lhe a percepção de luz, vultos, sombras, imagens, orientação e a possibilidade de andar sozinho.
Para conservar a visão neste estado, é necessário um constante tratamento à base de vitamina A. Aconselhamo-lo a não se descuidar desse tratamento.
No decorrer da entrevista, a qual nos colocou a par do que acabamos de relatar, J. Barros mostrou-se confiante, exprimindo-se com clareza e linguagem delicada, dando-nos mesmo a impressão de quem se abre com um velho amigo.
Conquistáramos a confiança de nosso cliente, o que, a priori, fazia parte de nosso objetivo. No entanto, sentíamos que ainda não havíamos atingido o ponto desejado.
Fornecemos-lhe o alfabeto em Braille e o endereço da Cruz Vermelha, onde poderia estudar. Perguntamos-lhe ainda se, embora aposentado, não se interessaria em ocupar-se de algum trabalho ou se já havia pensado nisso. Foi quando nos disse ter vindo da cidade X, do Instituto Y, e que nos procurara para contar alguma coisa a respeito desta instituição.
Contou-nos, então, que o cego G. C., depois de uma desavença com a Associação W, que possuía um núcleo na cidade X, e de ++cuja desavença levou a melhor, pela sua astúcia, propôs-se a levar avante uma outra instituição que se denominou Instituto Y, cujo fim oculto, segundo o que lhe pareceu, a ele J. Barros era o de explorar não só os assistidos da obra, como também o povo daquela cidade.
Entrou ainda em minúcias sobre a vida de C. G., que vive separado da esposa, a qual se viu obrigada a abandona-lo pelos maus tratos que dele recebia, freqüentemente, fazendo-a muito infeliz. Além do mais. levava uma vida de boêmio permanecendo até de madrugada em bares e outros lugares pouco recomendáveis. Disse-nos J. Barros que chegou a fazer à C.G. observações nesse sentido, dizendo-lhe que julgava o seu procedimento incorreto, principalmente porque vivia da generosidade pública.
Tudo ouvíamos sem manifestar nossa opinião, falando unicamente o necessário para anima-lo a continuar a narrativa.
Entretanto, sabíamos que J. Barros não mentia, porque logo no início de nosso estágio, na Fundação para o Livro do Cego no Brasil, estivéramos na cidade X.. Pelo interesse que sempre tivemos em tudo que se relaciona com as nossas atividades de Assistente Social, visitáramos a referida obra, aproveitando a oportunidade para entregar a C. G., seu dirigente, os questionários do nosso serviço de estatística.
Na visita a que acabamos de nos referir, a nossa impressão não foi das melhores. Na realidade, pareceu-nos que G.G. usava da instituição apenas como cenário.
Muito falante, conversando bem de aparência e físico agradáveis, C. G. nos recebeu gentilmente. Durante a conversação que girou em terno de assuntos corriqueiros, C. G. Relatou-nos sua desavença com a esposa. Na sua opinião, ele, bem como os dois filhinhos que residiam com os avós paternos, não passavam de vitimas de uma mulher geniosa e sem coração.
Disse-nos ainda que pertencia a uma família abastada, não tendo necessidade de se preocupar com a sua condição de cego, bem como com a situação dos cegos em geral, mas como era um deles, não se julgava com o direito de permanecer indiferente ao problema.
Naquela ocasião, a obra se achava instalada num velho casarão, quase em ruínas e de péssimo aspecto, No porão, vimos um amontoado de tábuas velhas à guisa de oficina. A cozinha pareceu-nos, dado o estado precário do fogão, que não era de há muito tempo utilizada. Dois quartos grandes, com mais ou menos cinco canas em cada um deles nos davam a impressão de ¬que não tinham ocupantes; as camas achavam-se estendidas e cobertas com colhas azuis de tecido ordinário, ainda engomadas, ostentando as respectivas etiquetas do seu fabricante.
Dentro deste ambiente artificial, em que se não observava nenhuma atividade característica das instituições desse gênero, encontramos, como hóspede, apenas um cego, ainda jovem, de aspecto desagradável que nos pareceu epilético. Perguntamos a C. G. pelos assistidos da sua obra e fomos por ele informadas que alguns se achavam no núcleo da cidade Z, filial do Instituto, e outros percorriam as ruas da cidade, em cobrança das contribuições mensais dos benfeitores da obra.
Pesando as palavras de C. G. com o que estávamos vendo, dissemos-lhe, com certa dose de ironia, que o admirávamos muitíssimo, principalmente por ver o desprendimento com que abandonava uma vida fácil e sem preocupações em companhia dos pais e filhos para entregar-se com tanta dedicação à causa da cegueira. C. G., parecendo não compreender nossa intenção, desviou a conversação para outro assunto.
À J. Barros, dissemos apenas que conhecêramos o Instituto Y, em 1949. Informou-nos que continuava na mesma e que ale fora convidado por C. G. Para organizar a oficina e, posteriormente, substituí-lo na direção da obra. Porém, ao conhecer a instituição mais de perto, achou que as irregularidades existentes eram muitas, não sendo de seu agrado colaborar na sua continuação. Na obra, acrescentou, existem apenas quatro internados cegos e quatro empregados de escritório.
Ao chegar a S.Paulo, J. Barros dirigiu-se ao Serviço Social do Estado para verificar se o Instituto Y funcionava legalmente. Aí foi informado que o mesmo não recebia subvenções porque não preenchia os requisitos legais.
Foi, então, que resolveu procurar-nos para expor a situação e pedir nossa opinião.
Pediu-nos que fosse conservada em segredo esta conversa, porque não queria passar por delator, bem como não gostaria que parecesse estar pretendendo resolver uma situação pessoal. Explicamos-lhe os deveres profissionais de uma Assistente Social para que ficasse descansado nesse sentido.
J. Barros insistiu para que fizéssemos alguma coisa em prol dos que permaneciam na instituição. Dissemos-lhe que o assunto era muito delicado, que exigia muita reflexão e prudência, mas que estaríamos sempre prontas para colaborar em tudo que fosse em beneficio dos cegos e lhes pudesse proporcionar unia vida melhor.
Ficamos de ter ara entendimento com o Sr. P. S., diretor-técnico da Associação W, para conhecer a origem da desavença com C. G., ao mesmo tempo em que iríamos pedir informações no Serviço Social do Estado a fim de nos colocar a par das irregularidades do Instituto Y.
Como J. Barros perguntasse, com insistência o que aconselhávamos que ele fizesse para resolver sua situação pessoal, dissemos-lhe que éramos de opinião que pensasse numa ocupação em que também se dedicasse ao estudo dos caracteres Braille. Com isto ele poderia aproveitar da nossa biblioteca, bem como da revista que publicamos mensalmente. J. Barros, dizendo achar interessante a idéia, declarou que nos procuraria com freqüência, despedindo-se em seguida. Logo depois, telefonamos ao P. S., diretor-técnico da Associação W, a quem solicitamos entrevista. Como nos perguntasse do que se tratava, dissemos¬-lhe que era um assunto referente ao Instituto Y, da cidade X, Ficamos então sabendo que o Sr. P. S. estava a par de tudo, pois. recebera vários telefonemas daquela cidade pelos quais lhe pediam tomasse providências sobre o caso. Adiantou-nos, que nas mesmas condições, existiam várias instituições nesta Capital. Julgava necessário fizéssemos alguma coisa no sentido de una vez por todas, acabar com esses abusos, prejudiciais ao povo e principalmente ao cego, que julgando beneficiar-se dessas obras é a sua maior vitima. Por esse motivo, pretendia promover uma reunião dos diversos diretores de obras para cegos a fim de discutirem o assunto.
Até hoje não tivemos notícia da realização dessa reunido, o que muito lamentamos. Na verdade, urge que se tome uma medida definitiva, visando o policiamento de tais obras.
* * * * *
III - ASPECTO ECONÔMICO DO REAJUSTAMENTO DO INDIVIDUO CEGO
“Lembrem-se que a força de vontade produz milagres”. Helen Keller
1 – A condição econômica e social dos indivíduos cegos através dos tempos
Para que melhor possamos compreender a atual vida econômica e social dos cegos, mister se faz considerarmos, brevemente, a evolução de um estado de primitiva dependência até nossos dias, em que se lhes procura outorgar todos os direitos, privilégios e prerrogativas devidos aos cidadãos em geral. Embora a cegueira seja para muitos uma limitação insuperável, a melhoria progressiva da condição dos cegos obrigará a sociedade a encara-la sob um aspecto diferente.
Na sociedade primitiva, quando a alimentação era escassa; quando a astúcia, a força e a intrepidez eram necessárias para que o indivíduo sobrevivesse; quando a subsistência era tirada da natureza com perigo de vida, não havia lugar para os membros cegos, pois eram incapazes de competir com os mais bem dotados.
Contorne se lê em Kretschmer, sob a lei de Licurgo em Esparta e sob a de Solon em Atenas, a criança cega era morta ou completamente abandonada. Mais tarde, entre os próprios gregos, os cegos, ocasionalmente, foram tidos como profetas e adivinhos, possuidores de pretensos poderes sobrenaturais.
No antigo Egito existiam tipos de trabalho social mais ou menos sistematizados. Adrian, referindo-se às condições da indústria egípcia, enumera os cegos entre os empregados remunerados ( French).
Em Roma, pela lei das XII tábuas, o pátrio poder era um direito absoluto. Acidentalmente, porém, permitia-se que a criança cega vivesse. Todavia, a condição dos cegos na sociedade romana, era das mais degradantes. Os rapazes tornavam-se mendigos, as moças prostitutas.
Na antiga China, as pessoas cegas eram preparadas para se tornarem profetas. Na velha Índia, onde a tradição oral representou papel muito importante, os conhecimentos históricos e religiosos eram transmitidos às sucessivas gerações através da palavra dos cegos, que sob esse aspecto, eram equiparados aos sacerdotes videntes e adivinhos.
Perante a lei hebraica, os cegos eram mais afortunados que na dos outros povos antigos. Isto porque os judeus consideravam todos os homens como filhos de Deus. Embora não recebessem educação especializada, os cegos eram utilizados em várias ocapaç5es. Uma das atividades na qual foi a de movimentar os moinhos de mão. Nesta tinham grande habilidade a ponto de superar os videntes.
Muitos cegos tornaram-se preceptores. Para isso era necessário que acumulassem uma reserva de conhecimentos que exibiam em ocasião oportuna. Daí o título que lhes foi conferido de “cesta de livros”.
Mas, mesmo entre os judeus, onde o cego. eventualmente conseguia uma ocupação, a situação geral daqueles que não possuíam vista era a de mendigos.
Apesar de ser este o aspecto geral do problema nos tempos antigos, encontram-se exemplos isolados de pessoas cegas que, então, se salientaram como Tirésias, o profeta, Dedano e outros.
O advento do cristianismo vem marcar um grande progresso em relação aos cegos. Eles não são mais considerados como abomináveis, desprezíveis e pecadores pelo estigma que traziam, destinados por isso, ao relegamento e à morte. Os ensinamentos de Jesus penetraram de tal forma o espírito da sociedade de seu tempo e impregnaram dos sentimentos de humanidade as geraç5es que se seguiram, que ao desabrochar da era crista, os mais ricos e poderosos adeptos do evangelho de caridade faziam tudo que estava ao seu alcance para aliviar o sofrimento dos necessitados, em geral. A sociedade passou a adotar una atitude mais humana em relação a todos os deficientes. Jesus via a cegueira não como um pecado, castigo ou maldição, mas como um meio da realização do plano divino. “Ao passar, deparou-se Jesus com um homem que ora cego de nascença”.Mestre, perguntaram-lhe os discípulos, quem pecou para ele nascer cego: ele ou seus pais“? Respondeu-lhes Jesus: “Nem ele, nem seus pais pecaram; mas foi para que nele se manifestem as obras de Deus”. (S.João 9:1-3).
Quando a Igreja mais tarde foi influenciada pelo poder do Estado, os cegos foram incluídos entre os incapazes para o trabalho e classificados como necessitados, sendo cuidados em casas especiais nos domínios episcopais.Tornaram-se definitivamente um encargo da Igreja.
O início das contrarias e dos hospitais para cegos data do V século. Neste tempo Sr. Lymnaésio que vivia nas montanhas perto de Cyr, na Síria, reuniu os cegos mendigos da vizinhança e construiu para eles pequenas habitações na vizinhança da sua ermida (French).
Outras contrarias para cegos se estabeleceram, depois das quais a mais famosa foi a de Quinze-Vingts, organizado por São Luiz, em 1245.
Às contrarias livres de cegos se desenvolveram e se enfraqueceram na medida do movimento social da Idade Média.
Em 1377, na Itália, os cegos de Pádua, fundaram a Congregação de Santa Maria dei Ciechi. Uma instituição semelhante foi organizada em Palermo, em 1666. Esta instituição cultivou a música em alto grau, estabelecia competições para as quais cada uma trazia sua contribuição em novas criações musicais e poéticas. Este é o primeiro exemplo em que os membros cegos de uma comunidade são criadores em vez de puramente receptivos ou repetidores. Em pequeno número, esses bardos e poetas cegos, mesmo sem qualidades excepcionais, eram mais felizes porque tinham mais oportunidades que a maioria dos cegos desta época, que eram assistidos pala caridade ou abandonados à própria sorte.
Em Strassburg fundou-se uma comunidade que, mais tarde, tornou-se uma organização de mendicância, e ainda permanece corno uma ordem de mendigos. Estabeleceu-se outra em Frank-am-Main para cegos e coxos.
Na Idade Média, não ocorreu a maioria das pessoas que o individuo cego deveria ser educado para que por si mesmo conseguisse obter sua manutenção. Quando muito, a sociedade os atendia através de organizações de caridade, tirando alguns mendigos da rua ou tomando parte na prevenção parcial do mal. A sociedade julgava por essa forma ter cumprido sua missão social diante do problema.
O humanista espanhol Vives, do século XVI, demonstra que, em relação aos cegos, possuía um ponto de vista muito adiantado para o seu tempo. Diz ele: “Não se deveria permitir ao cego sentar-se ou perambular ociosamente. São inúmeras ss atividades nas quais podem ser ocupados. Alguns são inclinados às letras, deixemos que estudem; e em qualquer deles que se no¬te uma aptidão, esta não deve ser menosprezada. Outros tendem para a arte musical, que cantem, tomem o alaúde e a flauta. Deixemos que outros virem as rodas dos moinhos, dirijam o engenho de uvas ou toquem os foles das forjas. Sabemos que os cegos sa¬bem fazer caixinhas, gaiolas e cestas. Permitamos que as mulheres cegas fiem e enrolem a lã.
Não lhes permitamos que se sentem indolentemente; é muito fácil encontrar-se um emprego para eles”.
Vives pensava, com razão, que era mais indolência que debilidade física o que levava os cegos a afirmarem que não podiam fazer nada.
Francamente, porém, não concordamos com Vives quando afirma: “é muito fácil encontrar-se emprego para eles”, porque, em grande parte, ainda prevalece a falta de oportunidades e, mesmo porque subsiste a prevenção do público no que se refere às capacidades das pessoas cegas. Todavia, Vives com larga visão do problema, está muito mais próximo das nossas idéias, do que muitos de nossos contemporâneos.
Sob alguns governos, a assistência aos pobres, foi incluída em leis e regulamentos, sendo que as medi¬das por estes estabelecidas desenvolveram-se fora do paternalismo do século XVIII.
Na Inglaterra, o Estado tomou a si a assistência do pobre. Em 1601, no Reinado de Izabel, foi publica¬da a famosa “poor law”. Todas as medidas de assistência subseqüentes foram baseadas nessa lei.
Na França, a ação assistencial permaneceu sob a jurisdição da Igreja mais tempo do que nos países protestantes. Indubitavelmente, pelo fato da Igreja e das suas várias instituições não poderem assistir os numerosos cegos, e, porque era dever de todo cristão católico assistir ao seu próximo necessitado, aos cegos, que não encontravam refúgio nos hospitais e contrarias, era permitido esmolar à porta das igrejas.
Na transição da ação assistencial da Igreja para à do Estado, os cegos se viram numa situação angustiosa. Não eram mais sujeitos à misericórdia e sim desprezados como inúteis. Formavam ordens de mendigos ambulantes, mas o caráter religioso das organizaç5es de mendicância havia se perdido. Essa massa errante de vadios era levada de um lugar para outro e era sempre encontrada em feiras e festas públicas.
Freqüentemente, estavam sob a liderança de impostores e viviam debaixo das mais degradantes condições. Lamentavelmente, embora sob outros aspectos, isto acontece também em nossos dias. Considerando-se o grande número das instituições clandestinas e dos aproveitadores que pululam também em nossa Capital, vemos que muitas dessas diretrizes ainda prevalecem.
Eretschmer descreve as organizações russas de mendicância, que eram fundadas com fins de auxilio próprios. Seus membros eram denominados “os carrancudos” ou ”os peregrinos que não sorriem”. Estes mendigos tinham una linguagem própria, que somente eles e seus guias entendiam. Era ela denominada “Gegawatsch”, de ”Guga”, um instrumento que os cegos usavam para acompanhar suas canções.
Em todas as idades, tanto quanto possível, o cego procurou a música como um meio fácil para livrar-se da sua dependência. Entre os antigos celtas, o culto druídico estava nas mãos dos bardos que em suas canções celebravam os deuses, proclamavam seus heróis.
Aqui os cegos levavam vantagem sobre os demais, porque a religião dos druidas proibia a escrita.
Com o advento da imprensa, no começo da idade moderna, os bardos cegos caíram ao nível de cantores de rua porque não podiam competir com os cantores videntes.
Na Espanha, pelo ano 1668, somente aos cegos era permitido recitar e cantar em lugares públicos. Mas, apesar do cego não ter recebido uma educação formal senão depois da fundação, em Paris, de uma instituição para o ensino de cegos, por Hauy, a história nos mostra numerosos exemplos de realizações de pessoas cegas, que demonstram não só de sua parte, grande tenacidade de espírito, bem como da parte daqueles que empreenderam seu treinamento. Assim como Didymus, Nicholas Lamiderson, John e Metcalf, Maria Theresia von Paradís e muitos outros.
Talvez, a primeira tentativa para estabelecer-se uma genuína ocupação para cegos, antes que o trabalho organizado com os cegos na Europa e Estados Unidos fosse preconizado, foi a que se deu no Japão com o aproveitamento de cegos como massagistas, que na opinião do Dr. Richard Slayton Prench, data do século XIX.
Mas, de um modo geral, através de todos os tempos, o cego tem sido considerado um encargo para a sociedade e o que se procura, no mundo moderno, é torna-lo um membro útil e independente, capaz de lutar pela própria subsistência.
II - Considerações sobre o Reajustamento Econômico dos Indivíduos Cegos
A pobreza é sem duvida alguma um fardo que acompanha a cegueira. Geralmente, os cegos ou são dependentes da família, ou da assistência pública ou da benemerência particular e nenhum ser humano deseja ser economicamente dependente, vivendo uma vida socialmente insegura, enfim, um desempregado.
Do ponto de vista econômico, um dos mais difíceis reajustamentos sociais é o do cego. Suas possibilidades profissionais são grandemente reduzidas, porque a maioria das atividades requer visão normal, e, por outro lado, a falta de compreensão do público, em geral, em relação aos problemas da cegueira vem agravar a situação.
Desde o inicio do nosso estágio na Fundação para o Livro do Cego no Brasil, tivemos a oportunidade de observar que muitas das pessoas que nos procuravam tinham como ponto central de todos os seus problemas, o desajustamento econômico que as conduzia à dependência, à revolta; ao sentimento de inutilidade ou de impotência diante das contingências da vida, e, como ultimo refúgio, a mendicância.
De modo que, ao considerarmos os vários aspectos do problema criado pela cegueira, concluímos que o econômico é de grande gravidade, senão o maior.
Além disso, a reabilitação econômica do cego, inteligentemente orientada, deixando de lado as ocupações tradicionais, está praticamente no seu início. Entre nós, o que se verifica é que ainda nos encontramos numa fase de tentativas. Cumpre que assinalemos que essas tentativas têm como precursora Dorina de Gouvea Nowili.
O indivíduo que confia na sua vista para orientar-se nas atividades rotineiras da vida não se convence facilmente de que aqueles que nunca a tiveram ou a perderam possuem ainda um valor econômico. O mesmo acontece com aqueles que a per¬deram recentemente, e, por esse motivo, reagem em relação à cegueira de acordo com as atitudes do meio, das quais participavam, e que ainda as encontram no ambiente, especialmente no seio de sua família ou entre os seus amigos.
A capacidade produtiva e econômica do cego está baseada em concepções falsas e tal situação continuará sendo tentarmos estabelecer os princípios de processo de colocação de indivíduos cegos. Este processo deve estar assentado em sólidas bases. Assim, é preciso que o vejamos definitivamente integrado no mundo econômico daqueles que enxergam.
Diz com razão Hector Chevigny; “A atitude do mundo diante do cego é singular. Todos devem lutar pela sua subsistência e pela sua própria sobrevivência, menos o cego. A sociedade, convencida da inutilidade deste, está sempre pronta a ajuda-lo. Isto, porem, quando necessita de coisas corriqueiras, como atravessar uma rua, ou mesmo quando necessita a alimentação ou de internação em certos estabelecimentos para aí passar o resto de seus dias. Há na bondade humana um estranho paradoxo: procurando ajudar, poderá destruir”. O que se deve ter em vista não é a piedade, mas a aceitação integral do cego dentro do mundo econômico, como um valor produtivo.
Escreve um cego, educado no celebre St. Dunstan’s, na Inglaterra: “A primeira coisa que se ensina em St. Dunstan’s é a extirpação da autopiedade, O indivíduo que perdeu a vista, recentemente, é um amontoado de auto-. compaixão. (...) Pois bem, lá fazem com que ela se dissipe, arrancam-na. O porta¬dor de cegueira não poderá ressentir-se uma vez que essa atitude parte de outros homens cegos (este é o motivo pelo qual o diretor de St. Dunstan’s deve ser um cego). Depois disso ensinam-lhe a viver naturalmente como as outras pessoas. Nós, os cegos, somos habitualmente entulhados em asilos. Ali, porém logo que podemos agir por nós mesmos, tornamo-nos livres e nos é permiti¬do encontrar nosso caminho. É uma maravilhosa aventura”,
Evidentemente, este é o ponto a ser alcançado quando falamos em independência econômica dos cegos, considerada esta no sentido máximo da expressão e baseada na necessidade que eles sentem de que sua utilidade social seja construtivamente demonstrada e reconhecido o seu valor econômico.
Entretanto, temos que reconhecer que esta desastrosa sensação de inutilidade que sobre eles pesa não poderá ser combatida, de forma alguma, pela interminável e contínua ocupação dos cegos, na execução de coisas sem valor e utilidade, bugigangas que ninguém deseja possuir, mas que as compra por piedade e compaixão, ou melhor, como uma resposta ao apelo feito à sua sensibilidade.
No plano de reabilitação econômica e profissional do cego, solidamente fundamentada no seu valor humano, social e econômico, não se deve cogitar desse tipo de produção, que fora de seu papel de terapia ocupacional (de inegável valor em muitos casos) nada representa porém na produção geral do mundo moderno.
III – OPORTUNIDADES PARA OS CEGOS
O progresso técnico, principalmente o industrial, veio criar maiores possibilidades para os cegos. Há trabalhos e fases de trabalhos que não necessitam de um aprendizado, propriamente dito, mas simplesmente de um treinamento.
Neste ponto, caberá, no futuro, uma tarefa bem definida às escolas para ensino de cegos. Dever-se-á ter em vista não só prepará-los para esta ou aquela profissão, mas torná-los aptos para a execução desses pequenos trabalhos, construindo uma ponte entre a vida escolar e a que terá de enfrentar quando necessitar conseguir a sua subsistência.
O industrial americano Henry Ford, que empregava cegos nas suas empresas de Detroit, ao traçar a sua autobiografia, exprime-se do seguinte modo: - “A grande divisão do trabalho industrial, cria ocupações, que por assim dizer, estão ao alcance de qualquer individuo portador de deficiências físicas. Provavelmente há mais empregos para cegos, do que cegos para serem colocados, mais lugares para os deficientes físicos, do que estes para os lugares. Eles não se destinam a esses lugares para receber caridade, cada um deles poderá lutar pela sua subsistência como o mais forte e vigoroso de seus camaradas. É um desperdício colocar homens fisicamente perfeitos para executar tarefas que poderão ser perfeitamente realizadas por deficientes, A indústria organizada em vista do interesse geral, faz desaparecer a filantropia”.
Entre as muitas objeções feitas contra a admissão de cegos na indústria, salientamos principalmente duas que se relacionam com: I - a rapidez de produção; II - riscos de acidentes.
I - No primeiro caso, experiências feitas em países como os Estados Unidos, Alemanha e França, demonstram que uma organização adequada do trabalho vem sanar a dificuldade. No trabalho em serie pela colocação de um, dois ou mais trabalhadores videntes, para cada trabalhador cego, conseguir-se-á o ritmo necessário ao trabalho.
II - Entendemos que a segunda conclusão é precipitada, porquanto o número reduzido de cegos admitidos na indústria não permite ainda conclusões definitivas.
Na verdade, encontramos um grande número de acidentes atribuídos a indivíduos de baixa acuidade visual. Neste caso, porém, temos que distinguir um cego, que domina todo um sistema de adaptação, de um indivíduo portador de deficiência visual, empregado na execução de tarefas que exigem uma vista normal. Naturalmente, que o cego só será colocado em serviços perfeitamente adaptáveis à sua condição física.
Entre os inumeráveis trabalhos de fábrica que podem ser executados com sucesso pelos cegos, podemos citar: operações de classificação, empacotamento, embalagem, rotulagem, trabalhos a prova de medida e som, manobra de pequenas maquinas¬ (estiragem, perfuração, estamparia e polimento), pequenas montagens, principalmente nas oficinas de aparelhos elétricos.
Nos Estados Unidos, tal como hoje se executa o plano de colocação de cegos, o ponto de ligação entre empregados e empregadores, é a agência de empregos. Em geral, os agentes intermediários entre os pretendentes cegos e os emprega¬dores em perspectiva são, de preferência, cegos que hajam perdido a vista em idade adulta e depois de terem adquirido, através de suas próprias experiências, conhecimentos práticos de negócios.
Não concordamos, inteiramente, com esta orientação, embora reconheçamos que um intermediário cego possa conseguir, algumas vezes, vantagens na interpretação das capacidades e possibilidade dos trabalhadores cegos nos diversos setores de atividades profissionais.
Julgamos da mesma forma, que o diretor de um St. Dunstan’s, não precisaria ser necessariamente um cego, para conseguir que os demais sob sua orientação se livrem da autocompaixão e encontrem o seu destino. Pensamos, assim, que o agente de ligação entre trabalhadores cegos e empregadores não precisa ser necessariamente um cego, como também que somente este seja capaz de falar aos empregadores na mesma linguagem de seus clientes.
O imprescindível é que o individuo que se propõe a realizar essa tarefa possua não somente um perfeito conhecimento objetivo do problema como também suas implicações psicológicas e sociais. Além disso, precisa possuir qualidades intelectuais e morais que o capacitem, no primeiro caso, a conduzir seus clientes a uma compreensão objetiva de sua situação, e, no segundo, a comunicar e interpretar aos empregadores, as capacidades de trabalho das pessoas cegas.
O trabalho de reabilitação econômica do cego, iniciado na “Fundação para o Livro do Cego no Brasil”, não foi realizado através de urna agência especializada para colocação de cegos do tipo norte-americano. Foi baseado mais no desejo de demonstrar a possibilidade da concretização da idéia, sem preocupação de ordem científica.
Grande parte de nossos clientes saídos de estabelecimentos para ensino de cegos é possuidora de relativa cultura, de conhecimentos musicais e de certas habilidades manuais restritas, mas não está absolutamente capacitada para enfrentar a vida prática. De modo que ao entrarem em contacto com o mundo objetivo, dentro do qual devem viver e lutar, sentem-se desanimados, com um sentimento de inaptidão para qualquer trabalho, embora sempre demonstrem com certa ansiedade, o desejo de realizar qualquer atividade.
Verificamos também que muitos deles manifestam-se contra a clássica segregação em estabelecimentos fechados, numa ânsia incontida de se entrosarem na vida social, como normalmente o fazem todos os homens.
Não podemos deixar de salientar que para atender às solicitações da vida, as escolas para cegos deviam realizar muito mais do que realizam. Convém não esquecemos que seus alunos deverão viver dentro de um mundo real e que, portanto deve existir una coordenação adequada entre aquelas escolas e a comunidade. Para isso os jovens deveriam sair preparados para enfrentar uma vida profissional e eis porque a orientação vocacional e profissional durante o período escolar é essencial. Não queremos nos referir à fabricação de vassouras e às atividades congêneres, mas à orientação vocacional e profissional em seu sentido amplo para que sejam aproveitadas todas as capacidades e possibilidades do indivíduo cego.
Baseados no princípio de que o indivíduo cego, embora dentro de una condição especial, é uma pessoa humana, conseqüentemente com os mesmos direitos e aspirações que qualquer uma delas, e, contando com a colaboração dos nossos próprios clientes, ensaiamos os nossos primeiros passos no sentido da reabilitação econômica dos indivíduos cegos.
IV - Capacidade dos Cegos para o Trabalho
Considerando o problema objetivamente, concluímos que nem todos os indivíduos cegos apresentam as mesmas possibilidades de aproveitamento em determinadas atividades profissionais.
Cada caso apresenta-se com as suas características e aspectos próprios. Um indivíduo, que na meia idade, perdeu a vista por acidente ou doença, considerado sob os aspectos educacional, vocacional ou emocional, terá seus problemas mui diversamente postos do que o indivíduo, cego de nascença ou aqueles que perderam a vista nos primeiros anos de vida.
Sem que pretendamos estabelecer normas, dado que o grau de cegueira, a época do advento da cegueira e as causas da cegueira são fatores os mais variáveis possíveis, e que as diferenças individuais são irrefutáveis, e também que uma situação nunca representa a mesma coisa para duas pessoas, dividiremos, de acordo com C. A. Bakes, os cegos adultos em três grupos.
a) Capazes para o trabalho
b) Semicapazes
c) Incapazes
Ao primeiro grupo pertencem os que possuem todas as qualidades favoráveis para um bom aproveitamento. Entre estes, porém, os de 45 anos em diante têm suas possibilidades de admissão em indústrias e a sua capacidade de desenvolver habilidades manuais um tanto diminuídas.
No segundo grupo estão incluídos aqueles que apresentam um certo grau de capacidade produtiva, mas que não são suficientemente capazes para assumir as responsabilidades de uma atividade profissional. Desse grupo, alguns devido à idade ou a outras deficiências, estão no limiar do terceiro grupo; enquanto outros, com um melhor ajustamento e maiores oportunidades de experiências, seriam incluídos no primeiro grupo.
Os fatores que atuam para a formação do terceiro grupo são principalmente: doenças, idades, outras deficiências físicas adicionadas à cegueira.
Para estes, seria de grande utilidade o ensino domiciliar e as pensões fornecidas pelo Estado. Infelizmente não contamos com estes recursos. A terapia ocupacional tem também o seu papel salutar, e está ao nosso alcance.
Procuraremos agora, delinear da melhor maneira possível, o processo de que nos servimos para conseguir colocação de indivíduos cegos nas industrias de S. Paulo. Alguns casos vão expostos, sem discriminação dos seus resultados, para comprovar as nossas dificuldades e limitações.
V - Fases do Processo de Colocação de Cegos:
1 - Relações Assistente Social – Empregador
Supõe-se, à primeira vista, que toda entidade que se organizasse para empregar pessoas nos diversos setores das atividades industriais, deveria receber inúmeras solicitações. Este, porém não é o nosso caso, pois, nenhum empregador, por mais amplos que sejam seus horizontes, procura trabalhadores cegos. De modo que o trabalho preliminar a ser realizado é o de atingir os empregadores; que a iniciativa parta daquelas entidades.
Antes de mais nada, queremos ressaltar a responsabilidade social da grande massa dos empregadores. Porque, embora Assistentes Sociais, tecnicamente preparados, muito possam ajudar, sob os aspectos físicos, sociais e psicológicos do reajusta¬mento dos indivíduos cegos, quando se trata da colocação, aqueles dependem dos empregadores e nada poderão fazer sem esta colaboração. Porém, os empregadores são geralmente muito céticos quando consideram as capacidades dos cegos.
Como devem proceder os Assistentes Sociais?
Uma vez conhecidas as indústrias com perspectiva de trabalho para cegos, procuram eles atingir os empregadores, preparando-se para encontrar boa vontade de uns, compreensão de outros e até mesmo absoluta indiferença e má vontade de muitos.
Embora bem equipados para entrarem em contato e argumentarem com os empregadores, julgamos que toda entrevista, nesse sentido, deve obedecer a uma cuidadosa preparação.
Depois de auscultada a opinião do emprega¬dor e fazer com que compreendam os pontos essenciais, procurá-se investigar a qualidade e quantidade de trabalhos e as diversas fases em que eles podem ser realizados por cegos. Para tal as indústrias eleitas deverão ser visitadas para que o Assistente Social observe seu programa de trabalho e produção.
Obtidas essas informações, retorna ele ao empregador. Aqui, entra em jogo toda a habilidade do Assistente Social, porque o empregador, seus imediatos e todos os membros da empresa, como já dissemos, podem estar imbuídos da idéia de que o trabalho dos cegos é impraticável.
Levantam-se questões sobre a locomoção, fora e dentro, áreas com possibilidades maiores dos mais variados riscos de acidente, dificuldade de treinamento e muitos outros óbices. É interessante notar que tais objeções quase sempre poderíamos até dizer, são as mesmas.
A interpretação das possibilidades de seus clientes exige do Assistente Social grande habilidade, e, principalmente, convicção de seus pontos de vista.
C. L. Broun é de opinião que c intermediário entre empregadores e trabalhadores cegos, antes da entrevista, colha todas as informações possíveis sobre os primeiros (gostos. tipo de diversão, ocupações fora dos negócios, etc,). Julgamos, entretanto, que para um Assistente Social, essas medidas não sejam necessárias, pois é bastante que domine com segurança a técnica ¬de entrevistas e seja suficientemente hábil para estabelecer relações pessoais em boas bases.
É preciso também que se considere que os empregadores são, muitas vezes, pessoas de alto nível cultural ou educacional, capazes, portanto, de reconhecerem o valor econômico e social do cego quando se lhes expõe o problema.
É ainda Broun quem diz: - “A cada indivíduo deficiente, deve ser dada a oportunidade de contribuir, na medida de suas possibilidades, para a produção e bem estar social da humanidade. Esta convicção deve estar enraizada no espírito do agente social de tal forma que ele seja capaz de transmiti-la aos empregadores, influindo deste modo para que a indústria se movimente também com esta força”.
Outro aspecto importante é o seguinte: todo indivíduo inativo, que não trabalha e não produz, é puramente receptivo, conseqüentemente, um encargo a mais para a sociedade. Quanto maior for o número de indivíduos ativos, menor será esse encargo.
Uma vez selecionados os trabalhos, estabelecem-se as bases de admissão para um trabalhador cego, isto é, um trabalhador não determinado.
2- Relações: Assistente Social - Cliente
Em contacto com o cliente que deseja colocar-se, deverá o Assistente Social estabelecer relações sólidas com aquele, num ambiente de mútua confiança, compreensão e de cuja atuação o mesmo participe. Através de entrevistas, tantas quantas necessárias para o bom estado do caso, o Assistente Social irá conhecendo o grau de educação, as habilidades práticas obtidas antes ou depois da cegueira, as colocações anteriores, se já trabalhou, e aptidões, procurando, principalmente, obter um conhecimento mais profundo de sua personalidade, inteligência e disposições.
O estudo deverá ainda incluir um exame das condições familiares. A atitude da família em relação ao cego e deste em relação a ela é um ponto que deve ser considerado com muita atenção. Também não são de desprezar as suas condições físicas.
As relações e posição do cliente dentro da comunidade e a atitude que assume diante da sociedade e de cada indivíduo, é um elemento valioso a ser considerado no trabalho de seu reajustamento econômico.
Todos esses conhecimentos obtêm-se através de um cuidadoso estudo individual e pela observação de todos os detalhes do caso, mesmo daqueles aparentemente insignificantes. Para isso são necessárias muita paciência e uma infinita prudência, dentro da mais rigorosa técnica do Serviço Social de Casos Individuais.
3 - Supervisão do Trabalho
No exercício de suas funções, o cliente e também seu empregador devem compreender que o caso deve continuar em andamento, isto é, de una certa torna o Assistente Social continuará a exercer uma supervisão sobre o comportamento do empregado em relação ao seu trabalho a qual deverá perdurar tanto quanto for necessário, a juízo do mesmo Assistente Social.
Esta tarefa é importantíssima e dela depende grande parte do sucesso no reajustamento profissional das pessoas cegas. É ainda através da supervisão que entramos em contato mais direto com as indústrias, com o seu ambiente de trabalho, com o seu pessoal, tais como contra-mestres, chefes de secção, empregados e operários. Também é através dela que temos a oportunidade de encontrar mais vezes o empregador.
Estas ocasiões podem ser aproveitadas para se desenvolver junto ao empregador um pequeno trabalho no senti¬do de despertar-lhe o desejo de colaborar cada vez mais no tratamento do caso.
De forma alguma poder-se-á considerar reajustado um individuo ou sumariamente encerrado um caso, só porque se conseguiu descobrir um trabalho adequado ao cego, obter-se a sua admissão num emprego. Isto seria entrega-lo à sua própria sorte. Para tal, repetimos seria necessário que o público tivesse uma acurada e clarividente compreensão dos problemas do individuo cego, e de que o seu valor como uma unidade econômica fosse geralmente reconhecido.
A supervisão que cabe ao Assistente Social (deve ser considerada como um atencioso prosseguimento do caso e não de uma interferência ou intromissão nos negócios da empresa de um lado ou no cultivo da dependência do cliente, de outro. Ao indivíduo cego serão dadas todas as oportunidades de auto-expressão, de emancipação e de independência. Verdadeiramente, são estes os pontos que se pretende atingir. O Assistente Social, porém, deve estar atento ao desenrolar das atividades de seu cliente para auxilia-lo, anima-lo e orienta-lo nas dificuldades que fatalmente encontrará.
O trabalhador cego, pode, muitas vezes, falhar por deficiências pessoais. Neste caso, a sua exclusão ou substituição deverão ser feitas pelo assistente Social. Com isto livra-se o empregador da tarefa desagradável de dispensar um empregado por aqueles motivos. Acresce a isto que o Assistente Social está mais bem aparelhado para desempenhar essa tarefa, usando com riais tato das subtilezas nela exigidas.
O contacto permanente ou periódico do Assistente Social com os meios de trabalho obrigá-lo-á a estar mais alerta para os novos campos de ação que possam surgir. Quanto maior for a expansão da industria, tanto maiores serão as possibilidades de empregos para seus clientes cegos. Quanto mais amplo for o círculo de re1ações que consiga abranger, maiores serão os resultados que possa alcançar.
A supervisão nunca deverá ser exercida por meio de telefone, nem através de contatos indiretoø. É, outrossim, de toda a conveniência que haja uma relação dinâmica entre a indústria e o Assistente Social.
O caso de I. M., à página 97, evidencia quão importante é para o Assistente Social estar atento à adaptação e desenvolvimento da vida profissional dos seus clientes.
VI – Atitude do Assistente Social
A norma de conduta do Assistente Social deste tipo de trabalho é essencialmente aquela que norteia todo o profissional consciente.
Partindo do ponto em que o cliente se acha, deve encaminhar o caso cautelosamente, até que possa estabelecer um diagnóstico seguro. Permitindo a livre expressão de todos os sentimentos, encorajando e dando a conveniente orientação, alcançará, sutilmente, que o cliente faça por si próprio o máximo que lhe for possível. Com este proceder atingirá o fim desejado que é o reajustamento do paciente.
Como diz R. Sylvester, três atitudes básicas são necessárias para uma boa orientação do caso:
a) profundo respeito à dignidade humana;
b) convicção de que toda pessoa possui forças potenciais;
c) compreensão de que as pessoas se desenvolvem e adquirem maturidade emocional fazendo as coisas por si mesmas e descobrindo o próprio poder.
Esta ultima atitude que deve ser assumida perante todos os seus clientes, em relação aos cegos é de alcance inestimável, visto que, de um modo geral, a sociedade insiste em cultivar sua dependência e lhes negar a oportunidade de auto-afirmação.
Considerando, de um modo geral, a condição especial de seus clientes, o Assistente Social que desenvolve seu trabalho junto de indivíduos portadores de cegueira, tem grande, senão maior, responsabilidade moral.
Ele encontra-se diante de una pessoa que pelas suas limitações, não poderá controlar o ambiente. Este é o pensamento que deve orientar as atitudes do Assistente Social. Cumpre-lhe ainda dispensar toda a atenção que a sua condição exige e prevenir ocorrências outras que poderão surgir, O respeito à personalidade do cliente deverá ser impecável, não se admitindo nenhum deslize para com eles,
Por outro lado, terá o Assistente Social que interpretar para o empregador, as necessidades e possibilidades de seus clientes, de modo a estar sempre vigilante para que se mantenha dentro dos limites do necessário e do respeito à dignidade deles. Daí já termos afirmado que o emprego deve ser conseguido para um cego, e não para um determinado cego.
A interpretação do cliente ao empregador devera ser feita de modo a não despertar neste comiseração ou compaixão. Isto exige do Assistente Social um grande equilíbrio.
Temos notado, através das nossas relações profissionais, quanto é fácil apelar para os sentimentos das pessoas. Mas, o ponto a atingir não é este, o que desejamos, e, isto já afirmamos várias vezes, é a integração do individuo cego na sociedade como um membro útil.
É, pois, com tristeza, que vemos tantos indivíduos incapazes de compreender nossos pontos de vista, que queiram aceitar em suas empresas um trabalhador cego, ao passo que, sem reservas e restrições, assinam um cheque vultoso para uma festa de caridade em benefício dos “pobres ceguinhos”. Nesse ponto o Assistente Social deve ser enérgico e nunca ceder em seus princípios.
Atingir, porém, a uma perfeição tal, isto é, que todos aceitem e compreendam nossas idéias, mesmo numa sociedade melhor do que a nossa, seria utópico. O problema da cegueira, de um modo geral, apresenta-se em todas as partes do mundo, com as mesmas características. Mesmo nos Estados Unidos e na Inglaterra, onde se tem avançado muito no plano da reabilitação das pessoas cegas, as dificuldades que ainda existem são muitas.
Mas, acreditamos que dentro de uma norma de conduta reta, sincera, baseada em convicções seguras, dominando todas as técnicas de Serviço Social, o Assistente muito poderá fazer no sentido de que as pessoas sejam mais esclarecidas a respeito do problema e passem a encara-lo com maior compreensão.
CAS0 DE GILBERTO C0STA
Gilberto, com 27 anos de idade, solteiro, sem família, é portador de cegueira total, de nascença e de causa ignorada. Possui boa constituição física, instrução razoável. Passou vários anos de sua vida internado num dos estabelecimentos brasileiros para ensino de cegos e é bem ajustado a sua condição de cegueira. Anda sozinho e dispensa auxílio de estranhos para satisfação de suas necessidades pessoais. Gilberto procurou-nos por iniciativa da I. B. Onde trabalhava como revisor, percebendo Cr$ 400,00 mensais, quantia esta insuficiente para sua manutenção.
Apresentou-se-nos em hora previamente marcada e sinceramente expôs sua situação. Verificamos que ela decorria da falta de recursos econômicos que bastassem para viver decentemente.
Pareceu-nos, desde o primeiro contacto, tratar-se de pessoa leal, bem intencionada, demonstrando acima de tudo, uma grande vontade de trabalhar, fosse qual fosse o emprego que se lhe apresentasse.
Procuramos auscultar, através de entrevistas subseqüentes, quais os tipos de serviço que mais lhe poderiam agradar. Não demonstrou predileções. Insistia sempre que o que desejava era obter mediante um trabalha adequado, com suas condições físicas, o necessário para se manter.
Procuramos convencê-lo de que, não obstante o seu conformismo, poderia optar por esta ou aquela atividade. Foi quando nos falou em trabalhos de montagem e estamparia.
.Assim, por ele mesmo orientadas e de posse de uma apresentação, procuramos o engenheiro Carvalho, diretor da C.B.A.M., com a intenção de obter uma colocação para Gilberto.
Fomos bem acolhidas pelo Eng. Carvalho, pessoa inteligente e compreensiva, que‘nos ouviu com interesse, parecendo entender bem nosso objetivo. Encarregou seu secretário de nos acompanhar numa visita pelas várias secções da fábrica, a fim de que pudéssemos observar quais os trabalhos que poderiam ser executados pelos indivíduos portadores de cegueira.
Depois de minuciosa observação, registramos várias atividades, que segundo nosso parecer, poderiam ser perfeitamente ser executadas por cegos. Afastamos, desde logo, a idéia do trabalho de estamparia, porque este é executado por máquinas. Queremos, rio entanto, salientar que esta exclusão não foi feita porque julgássemos os cegos incapazes de manejar tais máquinas, mas por medida de prudência. Estávamos no início de nosso trabalho e não poderíamos expor nosso cliente aos riscos de um acidente, que poderia ocorrer mesmo com operários videntes. A nossa cautela destinava-se a não comprometer os resultados práticos do que pretendíamos. Além disso, visávamos uma finalidade mais ampla que era abrir as portas das diversas empresas às pessoas cegas que nelas quisessem se empregar.
Posteriormente, conversamos com o Eng. Carvalho a respeito dos trabalhos e das fases de trabalho que julgamos suscetíveis de adaptação aos cegos. Mas, como se tratava de Gilberto, que havia demonstrado desejo de trabalhar em serviços de montagem, inclinamo-nos para o trabalho de montagem de pequenos lampiões a querosene.
Surgiu, então mais unia dificuldade. Não possuímos urna escola de aprendizagem ou de treinamento para cegos nos trabalhos de indústria. Como tornar Gilberto apto para desempenhar aquelas funções?
Por gentileza do Eng.. Carvalho conseguimos que fossem enviados para a sede da F. L. C. B, dois lampiões, com o compromisso de que, dentro de pouco tempo, o nosso cliente estaria apto para trabalhar no serviço de montagem dos iam¬piões.
Antes de riais nada procuramos, nós próprias, adquirir o treinamento exigido pela montagem e desmontagem dos lampiõezinhos para, em seguida, iniciarmos o treinamento do nosso cliente. A colaboração e a participação de Gilberto em sua aprendizagem foram extraordinárias. Com muito ânimo, paciência e tenacidade, passava a nosso lado de duas a três horas por dia tentando executar, eficientemente, a tarefa que lhe impúnhamos. As dificuldades iniciais foram vencidas e, no fim de uma semana, já havia desenvolvido sua habilidade a ponto de montar um lampião em três minutos apenas. Nesse ponto julgamo-lo apto para o início do trabalho.
Numa segunda entrevista com o diretor da C. B. A. M. Colocamo-lo a par de nossos resultados, assim como deixamos bem claro qual a colaboração que esperávamos dele. Explicamos-lhe que o nosso fim era proporcionar a Gilberto uma situação que lhe permitisse levar uma vida normal. Por esse —motivo, gostaríamos que ele fosse tratado como qualquer operário, sem nenhum favor especial ou. condescendência, mas cuja personalidade, dignidade e direitos fossem respeitados.
Ficou, então, definitivamente assentada a admissão de Gilberto na Fábrica da C. B. A. M.
Nos primeiros dias, encarregamo-nos pessoalmente de acompanha-lo à fábrica para que se orientasse e futuramente conseguisse dirigir-se sozinho. Talvez tenha sido esta incumbência a parte mais humana do trabalho que executamos neste caso. Observando os bairros operários e assistindo a entrada destes nas fábricas às primeiras horas da manhã, podemos sentir bem de perto o sacrifício, o esforço e a exaustão dessa grande massa que se debate em busca do pão de cada dia. Ao lado de Gilberto, podemos sentir, então, o que há de impressionante e grandioso no esforço para dominar a falta de um senti¬do essencial para o trabalho material. É a vontade sobrepujando a deficiência.
No segundo dia, Gilberto já foi capaz de nos dizer qual o percurso a ser feito para chegar à fábrica. Embora o Eng. Carvalho demonstrasse o desejo de que estivéssemos presentes durante os primeiros dias de trabalho de Gilberto, para que o auxiliássemos na adaptação ao ambiente, achamos desnecessária essa medida por duas razões principais:
a) queríamos infundir no ânimo de Gilberto o sentido de independência;
b) pelo que tínhamos observado, nossa reiterada ida à fábrica já despertava uma certa curiosidade entre operários e funcionários. Acreditávamos que a nossa permanência ali poderia mudar a rotina do ambiente com prejuízo para o nosso trabalho.
Em relação à remuneração, ficou estabelecido o salário-hora, isto até que Gilberto adquirisse suficiente habí1idade e a necessária rapidez no serviço para então, passar a receber por produção.
Temos mantido contato freqüente com Gilberto. Quando não vamos à fábrica, somos procuradas por ele em nosso escritório, geralmente aos sábadoø, dia em que a fábrica não funciona.
Ajustado e bem equilibrado, embora enfrentando algumas situações difíceis, Gilberto consegue adaptar-se perfeitamente ao ambiente de trabalho e está produzindo com a mesma eficiência que qualquer um de seus companheiros videntes.
CASO DE ILKA MOREIRA
Por intermédio da F. L.C. B., Ilka e Alice foram colocadas num laboratório de produtos farmacêuticos e foi este o motivo que as levou a procurar a obra.
Ilka tem 25 anos de idade, é portadora de cegueira total, incurável, desde os 10 de idade Não nos informou com precisão a causa da sua cegueira, dizendo que perdera a vista depois de uma forte dor de cabeça. Recentemente consultou o Dr. B. de M., um dos nossos bons oculistas que, como os anteriores, afirmou que sua cegueira é irremediável. É bem ajustada à sua condição de cega. Sua atitude é sempre calma e segura, o que revela o seu perfeito equilíbrio emocional. Tem instrução razoável, pois se educou no I.P.C. É livre de anopsismos e o seu aspecto é agradável.
Alice é uma encantadora mocinha de 19 anos de idade, dócil, meiga e carinhosa, amiga dedicada de Ilka, que parece, correspondei’ a esta amizade com igual carinho e gratidão. Atualmente, Alice está noiva de um irmão de Ilka e serve de guia à sua futura cunhada.
As famílias de ambas, num total de 12 pessoas, residem juntas numa casa espaçosa de propriedade da família de Ilka. Vivem em verdadeira harmonia e são famílias bem constituídas. A boa formação moral das duas moças evidencia esta afirmativa.
Foram colocadas no mesmo laboratório de produtos farmacêuticos para que Alice pudesse servir de companheira a Ilka, embora a primeira tenha sido prejudicada em quase quatrocentos cruzeiros, em relação ao ordenado que percebia na fábrica onde trabalhava anteriormente.
Pelo que verificamos em nossas entrevistas, tivemos a impressão de que aquele laboratório não foi previamente visitado, antes da colocação de ambas e, muito menos, foi feito um levantamento dos trabalhos que pudessem. ser executados por cegos e da provável adaptação a eles, do mesmo modo que não houve entrevistas com o empregador para que este se inteirasse e aceitasse os pontos de vista daqueles que se interessam pela integração dos cegos no panorama geral da produção econômica, tal como fizemos com relação ao caso de Gilberto. Os entendimentos foram baseados em cartas de recomendação e em relações superficiais. Já vimos, entretanto, que o conhecimento acurado do trabalho e do seu ambiente é imprescindível para a eficiência das atividades do Assistente Social.
Ilka e Alice passaram de um laboratório, onde fizeram uma espécie de treinamento, para outro, onde foram admitidas definitivamente. Alice, na secção de encaixotamento e Ilka para colocar pomadas em latas. Aqui o caso foi sumariamente encerrado.
A supervisão do trabalho neste caso, o que é de capital importância no ajustamento econnômico-profissional do cego, deixou de realizar sua missão.
Durante seis meses, ganhando por produção, sem nunca conseguir mais de Cr$500,00 mensalmente, com horário de trabalho integral, as duas moças permaneceram naquele emprego, O que recebiam não era suficiente para as suas despesas, sendo certo que Alice se via altamente prejudicada, uma vez que precisava condicionar seu modo de vida ao de sua futura cunhada. Tentaram, por isso, obter um aumento de ordenado. Pelos entendimentos que tiveram com chefes do laboratório, inteiraram-se da impossibilidade de alcançar o que pretendiam. Alice, que resolvera sacrificar seus interesses pelo bem estar da amiga, já estava se sentindo constrangida com a. situação. Foi quando resolve¬ram procurar novamente a F.L.C.B., para que esta as auxiliasse a encontrar uma solução para o seu caso. Coube-nos assim, tomar a responsabilidade dele.
Acreditamos que se Ilka não fosse perfeitamente ajustada à sua condição, emocionalmente equilibrada e integrada numa boa vida familiar, estaríamos diante de um grande fracasso. Inicialmente, procuramos anima-las dizendo-lhes que isto pode acontecer a quaisquer pessoas. Uma vez que no laboratório não havia possibilidades para que lograssem aumento de seus salários, tentaríamos outro emprego, onde, ambas pudessem ser colocadas com melhores vantagens.
Por esta época já tínhamos visitado várias vezes a Fábrica Paulista, procurando encontrar possibilidades de colocação para pessoas cegas. Descobríramos três fases de trabalho realizáveis por cegos e, sobre isso, havíamos discutido com os engenheiros tendo afinal chegado a um acordo favorável.
Como de regra, entramos em entendimentos diretos com o gerente geral daquela fábrica e expusemos o caso de Ilka e Alice. Acordamos que as nossas clientes fossem admitidas numa secção de montagem de rádio, cabendo a Ilka colocar uma peça em certa fase de montagem do aparelho. Conversamos detalhadamente com o contra-mestre da secção, depois de estar perfeitamente entendidas com o engenheiro que a orienta. O ambiente era favorável e compreensível. Combinou-se o ordenado inicial de Cr$4,00 a hora, com a vantagem de poderem se utilizar uma condução direta, de casa à fábrica.
Depois de acertados esses pormenores, que evidentemente foram obtidos sem precipitação por meio de uma entrevista por vez, entramos em contato com Ilka e Alice. Estas compareceram à obra e mostraram-se, desde logo, animadas com a idéia. Em encontro que marcamos previamente foram elas recebidas pelo engenheiro gerente geral da fábrica. Este, depois de entrevista-las, resolveu admiti-las, para treinamento. Tal medida foi tomada porque não nos foi possível ensinar Ilka a executar o seu trabalho e isto aconteceu porque desconhecíamos absolutamente este tipo de trabalho.
Depois da primeira semana de treinamento, conversamos pelo telefone com o engenheiro chefe da secção. Fomos informadas, então, que tudo corria normalmente, estando ambas as aprendizes se ajustando perfeitamente ao ambiente da fábrica, bem como se familiarizando com o trabalho propriamente dito. Dias depois, Ilka e Alice nos procuraram para externar a satisfação de que se achavam possuídas.
Todas as vezes que não podemos visitar a fábrica, Ilka e Alice comparecem à obra. Continuam satisfeitas no exercício das suas funções e, de tal forma conseguiram integrar-se no ambiente de trabalho que despertaram o interesse de alguns de seus companheiros pela nossa obra. Algum tempo depois, recebemos a visita de um dos operários da fabrica que nos manifestou o desejo de conhecer a nossa obra e seus métodos de atuação social.
CASO DE JOÃO CARLOS
João Carlos, de 20 anos, cego desde os três anos de idade devido à atrofia dos globos oculares, procurou-nos, espontaneamente, no escritório da F.L.C.B. É loiro, franzino e de aspecto pouco saudável. Estava mal vestido e a sua aparência revelava miséria e falta de asseio.
Ao perguntar-nos se o atenderíamos, mostrou-se nervosa, limpando a garganta repetidas vezes, como se algo a¬marrasse suas palavras. Mais tarde verificamos que este sestro estava ligado a muitos outros anopsismos que apresenta.
Percebendo sua atitude canhestra, psicologicamente de insegurança, tratamo-lo amavelmente, procurando mostrar-lhe que pisava em terreno time e seguro. Poderia, portanto, abrir-se confiantemente, pois ali encontraria compreensão, por mais estranhos que fossem os seus problemas. João Carlos, com efeito, tranqüilizou-se, começando por dizer que nos havia procurado por pretender arranjar um emprego. Queria, pois, que o auxiliássemos.
Disse-nos que levava uma vida difícil, tendo vivido em companhia do pai desde abril (época em que deixou o estabelecimento de ensino em que se encontrava) a setembro daquele ano, ao mesmo tempo em que passara por quatro diferentes instituições que abrigam cegos. Não conseguira, entretanto, ajustar-se em parte alguma.
Na ocasião, estava numa daquelas instituições, mas não se sentia satisfeito porque o seu desejo era trabalhar em outro lugar que não o em que se encontrava abrigado.
Acidentalmente, tínhamos conhecido a vida escolar de João e sabíamos qual o seu comportamento depois que saíra do colégio. Não desconhecíamos também certos pormenores da situação de sua família.
Julgamos de nosso dever inteirá-lo, tanto quanto fosse possível, do que sabíamos nesse 'particular, e, neste sentido, procuramos, com a necessária cautela, orientar a entrevista. João abriu-se francamente. Contou-nos que o pai costumava embriagar-se. De tal forma agravara-se a situação que sua mãe havia dois anos, fora obrigada a abandonar o marido. Com isto a família se desorganizara. O pai trabalha como pedreiro num subúrbio da cidade. Continua a embriagar-se. Vive só, não tendo procurado a companhia de outra mulher, como a sua mãe supõe.
Informou-nos que a mãe é muito boa, honesta. Vive em companhia de uma filha de 14 anos. Ambas trabalham como operárias. Como perguntássemos porque não fora morar com a mãe, respondeu-nos que isto não seria possível, por uma questão econômica. A mãe e a irmã ganham pouco e ele não quer pesar no orçamento da família.
Ao falar sobre sua vida escolar que foi agitada, João não procurou eximir-se de culpas. Atacou, entretanto, a dirigente do estabelecimento. Como não esclarecesse o motivo da sua atitude hostil para com esta pessoa, pedimos-lhe que fosse sincero. João, porém, não apresentou nenhum argumento que pudesse justificar sua atitude.
Perguntamos-lhe se nunca tinha procurado analisar-se. Talvez, por um exame introspectivo, chegasse a descobrir a causa de seus desentendimentos no colégio e dos desajustamentos nos diferentes ambientes por que passou. Quem sabe se sempre agira, em relação ao pessoal do colégio, unicamente em função dos seus próprios pontos de vista a ponto de criar um ambiente de incompreensão e intolerância do qual ele era a principal vitima?
João, que parece ser inteligente e vivo, respondeu-nos que devia ser essa a causa de suas dificuldades. Deu-nos a entender que pela situação que provocara, embora não tivesse sido expulso, de forma alguma seria readmitido no colégio, não obstante ele gostar muito de estudar. Procuramos mostrar-lhe que se fosse ainda seu desejo continuar os estudos, poderíamos encaminhá-lo para outro estabelecimento de ensino de cegos, fora do nosso Estado. João, porém, respondeu-nos negativa mente.
Procuramos dissuadi-lo lembrando-lhe que a vida de quem trabalha, sem a necessária formação profissional, é árdua, pois exige maior capacidade de adaptação, muita força de vontade e estabilidade. .Além disso, existem horários estabelecidos que devem ser rigorosamente obedecidos e os salários nessas condições são em geral muito baixos. João obtemperou-nos já ter pensado em tudo isso e que, assim mesmo, o seu maior desejo era trabalhar.
Dissemos-lhe que tudo faríamos para auxiliá-lo.
Pareceu-nos por este primeiro contacto e pelo que ouvíramos a seu respeito, que João é uma criatura bastante infeliz, oprimida pelas circunstâncias que se lhe deparam na vida. Não encontrando, quem o compreenda e tolere, assume esta atitude de defesa, que se manifesta pala revolta, pela hostilidade e por agressividade contra o meio social ambiente.
O meio escolar não favoreceu o desenvolvimento harmonioso entre as suas capacidades física e mental, desequilibrando-o emocionalmente.
O ambiente que e envolvia, o lar desorganizado por culpa de um pai alcoólatra e os traumas de instituições mal orientadas vieram agravar o seu estado de rancor voltado contra tudo que o cerca é a única defesa que possui para se livrar dos obstáculos e das limitações irremediáveis que a vida lhe apresenta.
Pareceu-nos, felizmente, que João encontrou em nós a colaboração e compreensão de que necessitava. Entusiasmou-se bastante com a idéia de um possível emprego e despediu-se amigavelmente.
Acreditamos que, se conseguir adaptar-se a um emprego (o que evidentemente não é fácil), do qual receba remuneração suficiente para a sua manutenção, e que garanta a sua independência, embora com possíveis recaídas, terá o caminho aberto para seu reajustamento social e emocional.
Assim convencidas, entramos em entendimento com várias pessoas e conseguimos, por intermédio de Dna.D.G.N. uma apresentação à Sra. Barros, proprietária de uma indústria de material elétrico. Muito bem acolhidas por esta senhora, que nos acompanhou pessoalmente à fábrica, tivemos nossa tarefa grandemente facilitada. Fomos apresentadas ao Dr. Castro, gerente da empr8sa, e aos engenheiros dirigentes das diversas secções da fábrica. Aproveitamos, então, a oportunidade para expor nossas idéias, que, ao que nos pareceu, foram bem acolhidas e compreendidas. Um, dentre os presentes, deu-nos a conhecer sua opinião, que era a de superestimação dos valores e das capacidades dos indivíduos cegos. Outros, apesar de apreenderam nossas idéias, mostraram-se meio hesitantes quanto ao aceitar a possibilidade de sucesso no trabalho executado por cegos.
Procuramos objetivar as possibilidades e limitações do individuo cego, as dificuldades de adaptação e ajustamento ao trabalho, bem como o que esperávamos de cada um deles, para a consecução de nossos propósitos.
Ficou combinado, então, que na manhã seguinte, acompanhadas pelo Dr. Prado faríamos uma visita a várias secções da Fábrica, para que pudéssemos examinar os diversos trabalhos executados, bem como suas fases, pelo que poderíamos concluir quais os que poderiam ser realizados por cegos.
Encontramos três funç5es: montagem de “plug”, colocação de uma peça numa fase da montagem de um rádio; e teste auditivo. Estas operaç3ss poderiam ser executadas pelos nossos assistidos. Em seus detalhes, foram elas discutidas pelos encarregados das respectivas secções que concordaram na aceitação experimental de cegos para sua execução.
Uma das atividades foi encontrada na secção de discos. É um teste auditivo. De cinqüenta em cinqüenta discos fabricados, um deve ser ouvido para que se verifique a ausência de defeitos, perceptível pelo som. Este teste foi lembrado pelo Dr. Ramos, dirigente da secção, que demonstrou grande boa vontade em nos atender. Disse-nos que gostaria que o orientássemos em como se conduzir com nossos assistidos e que poderíamos encaminhá-los para a experiência o maia breve possível, dando preferência a homens.
Refletindo, concluímos ser este, dentre os trabalhos encontrado, o de mais agradável execução e que mais convinha a João,
Como nada poderíamos adiantar, sem que João desse sua aquiescência. combinamos com o Dr. Ramos que o consultaríamos encaminhando-o para a experiência se aceitasse.
Comunicamo-nos, com João, por telefone, pedindo-lhe que nos procurasse. Na manhã seguinte, ao chegarmos à portaria do prédio onde funciona a F.L, C.B. encontramo-lo sentado, à nossa espera, desde seis horas da manhã, Apresentava-se, como da primeira vez, mal trajado e tão pouco asseado que a sua presença era desagradável.
Conduzimo-lo ao nosso escritório, onde lhe expusemos os resultados de nossa visita à Fábrica Paulista. João entusiasmou-se grandemente com a perspectiva do emprego e achou excelente a idéia de aproveita-lo nos testes auditivos, pois além de gostar muito de música, possuía boa cultura musical.
Procuramos demonstrar-lhe, da maneira mais clara possível, as dificuldades que deveria enfrentar no período de adaptação ao trabalho.
Salientamos que esperávamos de sua parte uma grande noção de responsabilidade, não só sob o ponto de vista individual, que era a solução de seu próprio problema, como do ponto de vista dos seus semelhantes. Da sua vitória dentro da empraza, dependeria o bem estar de muitos de seus companheiros e o êxito de todo o esforço que a F.L.C,B, vem fazendo no sentido de reabilitar a condição humana dos que se vêm atingidos pela cegueira.
Disse-nos que tudo faria para colaborar com a nossa obra nessa meritória tarefa e para não desmerecer a confiança que nele depositávamos.
Iniciávamos esse segundo contacto com o propósito de atingir três pontos, que reputávamos essenciais para o encaminhamento do caso:
a) mostrar a João a necessidade de se compenetrar das suas responsabilidades diante da vida;
b) escolha de outro lugar onde se alojar, porque, uma vez empregado, não poderia continuar na instituição que o abrigava;
c) melhoria de sua aparência pessoal.
Alcançado o primeiro ponto, esperamos que João se manifestasse. Disse-nos que na instituição onde se acha instalado não lhe é permitido trabalhar em coisa alguma que não seja nos trabalhos tradicionais para cegos, dos quais ela tira benefícios diretamente. Sugerimos que solicitasse do diretor da instituição permissão para permanecer nela, pelo menos, durante os dez dias da experiência a que deverá ser submetido antes de ser admitido ao emprego. Disse-nos João que faria isso e tenta¬ria também falar com um certo senhor que costuma ceder quartos a pessoas cegas, gratuitamente.
Perguntamos-lhe se, para o futuro, não julgaria interessante residir com sua mãe, unia vez que, empregado, não pesaria no orçamento da casa. Ao contrario até, pois, poderia concorrer para um melhor nível de vida da família. Pediu, então, que nos entendêssemos com sua mãe, cujo endereço nos forneceu, ¬ porque lhe é muito difícil procura-la. Ele não sabe andar sozinho pelas ruas centrais.
A nossa tentativa para encaminhar o caso dessa torna, fundamenta-se no seguinte: o pai de João, como vimos, é alcoólatra, portanto, irresponsável; sua mãe, pelo que nos parece, é de bons costumes, trabalha honestamente para ganhar a vida e João não lhe é de todo desafeiçoado. Por intermédio de funcionários da F.L.C.B., sabíamos que, por várias vezes, ela ali estivera na esperança de conseguir notícias do filho quando ele vivia em companhia do pai e este a impedia de vê-lo. Seria mais razoável que João, em vez de andar sem destino, de um lado para outro, residisse em companhia da mãe e da irmã.Talvez, com um pouco de orientação ele encontrasse um ambiente acolhedor e compreensivo.
Com discrição e cautela chegamos ao nosso terceiro ponto. Fizemos-lhe uma observação sobre a importância da aparência pessoal e das medidas de higiene que se deve tomar, em relação aos que convivem ou trabalham conosco, pois, ele iria trabalhar numa secção e ao lado de muitas moças. Não gostaríamos que ele causasse má impressão aos seus companheiros. João aceitou nossas observações sem se mostrar ressentido.
Ficou acertado que ele resolveria a questão de sua hospedagem e se comunicaria conosco para iniciar a sua experiência no trabalho. A entrevista estava terminada. Outras pessoas nos esperavam e João, entretanto, não se resolvia a retirar-se.
Percebemos, então, que se defrontara com vários obstáculos, para realizar a façanha de chegar sozinho até a Obra. Isto, naturalmente, fora-lhe causa de angústia e exigira dele muita força de vontade, intrepidez, provocando-lhe tremendo dispêndio de energia nervosa. Agora, não se atrevia, de novo, a enfrentar a situação, não se animando a confessar seu temor.
Para resolver compreensivelmente a situação, isto é, sem chocá-lo, oferecemos-lhe um livro dizendo-lhe que o lesse enquanto atenderíamos outras pessoas, na sala contígua.
Quando terminamos nosso trabalho, oferecemo-nos para acompanhá-lo até ao andar térreo. João pediu-nos, meio hesitante, que lhe indicássemos um ônibus que passasse pela Avenida do Estado. Dissemos-lhe que nos acompanhasse até o Largo São Bento, onde providenciaríamos um meio de conduzi-lo a sua residência. No trajeto, notamos que João não tinha o menor senso de orientação. Não procura prestar atenção aos estímulos exteriores que podem, de uma certa forma, guia-lo, preferindo confiar inteiramente no guia.
À guisa de estímulo, felicitamo-lo por ter ido da sua instituição até à nossa obra sozinho. Fizemos isso para que ele vá se animando aos poucos e chegue a locomover-se sozinho, O momento, entretanto, não era oportuno para fazê-lo repetir uma experiência que lhe fora difícil. Dissemos-lhe, sem rebuços, que o trouxéramos até ali, para que fizesse, de táxi, o caminho de volta à sua casa. Joio, embora relutasse em aceitar o oferecimento, agradeceu-nos efusivamente.
Posteriormente, entendemo-nos com o diretor da instituição, solicitando sua permissão para que João continuasse ali durante o período experimental de seu emprego. Nada conseguimos.
A mãe de João, a nosso pedido, compareceu logo depois à F.L.C.B. para dizer que, embora este fosse o seu desejo, não podia ter consigo o filho cego porque mora com a filha num quarto pouco espaçoso, não havendo, então possibilidade de conseguir uma habitação maior.
Finalmente, o próprio João conseguiu alojar-se num quarto, em companhia de um dos empregados da instituição X, semicego, de poucos recursos, mas pessoa bondosa e de bons costumes.
Assim, João poude iniciar o seu estágio na Fábrica Paulista. Entretanto, não correspondeu, absolutamente, ao que dele se esperava. Por motivos mais ligados à sua pessoa que propriamente à condição de cegueira, não pôde ele ser empregado. O fracasso foi completo,
Como geralmente acontece nesses casos, as portas dessa secção fecharam-se, definitivamente, à admissão de pessoas cegas. Tentamos por outro em lugar de João, que tosse mais apto, porém, diante das recusas apresentadas pela fábrica, fomos obrigadas a desistir.
Depois disso, João não voltou à instituição X e afastou-se do nosso serviço. Esporadicamente, através de antigos colegas que o encontravam na rua, recebíamos noticias dele e estas eram sempre as mais desoladoras. João estava vivendo em condições deprimentes.
Enviamos-lhe alguns recados, insistindo pa¬ra que comparecesse à obra.
Algum tempo depois, recebemos uma carta dele, escrita em Braille, lastimando-se pelo que havia sucedido. Solicitava-nos uma nova oportunidade de entendimento e que enviássemos alguém para acompanha-lo à F.L.C.B.
Respondemos-lhe que gostaríamos de auxilia-lo, mas que nosso serviço não possui pessoal disponível para acompanhar nossos clientes.
No dia seguinte ele nos visitou. Parece que se sentia humilhado diante do fracasso, mas procurava não demonstrar seus sentimentos. Pediu-nos que conseguíssemos alguma outra firma em que pudesse ser aproveitado, dizendo que, enquanto -isto esperava; venderia bilhetes para conseguir algum dinheiro para manter-se. Não aceitou a sugestão de voltar à Instituição enquanto aguardava outra oportunidade.
Prometemos atende-lo no que estivesse ao nosso alcance.
Depois de alguns dias, João comunicou-nos por telefone, que estava na cidade X, onde vendia bilhetes. Também estava à espera da colocação prometida,
Aida não conseguimos encontrar uma função onde João possa ser aproveitado. Esperamos fazer novas tentativas até que João consiga vencer todos os fatores desfavoráveis que o cercam.
A definição de cegueira refere-se a visão no melhor olho, de modo que o indivíduo privado de um olho, não é considerado cego.
Apresentaremos a seguir, dois casos que chegaram às nossas mãos e, apresentados como causas principais de desajustamento a ausência de um olho; num deles, conseguimos afastar o cliente da mendicância.
CASO DE CELINA SAMPAIO
Por orientação de una das funcionárias da F.L.C.B. que a encontrou esmolando no portão de sua casa, fomos procuradas por Colina.
Colina é parcialmente cega em conseqüências de um acidente. O olho esquerdo foi enucleado, mas o direito conservou-se em perfeito estado. É casada, cota 27 anos de ida¬de. Apresentou-se-nos vestida com decência e revelando asseio. Tem bons dentes, afora o aspecto desagradável que a ausência -de um dos olhos nos oferece, todo seu porte é harmonioso.
Com palavra fácil, expôs suas dificuldades, que se prendem ao fator econômico, pois ela e o marido estão desempregados.
Diz que se casou religiosa e legalmente e possuí cinco filhos, dos quais três meninos e 2 meninas, O mais velho está com 10 anos de idade. Além doa filhos, tem, em sua companhia dois afilhados, respectivamente, de quatro e 6 anos, filhos de uma comadre que faleceu há pouco tempo.
Reside com o marido, Joaquim Silva, de 32 anos, e com os mais da família, num subúrbio distante, atulhados num quarto e cozinha, pelo qual pagam o aluguel de Cr$185,00.
Afirma que sempre trabalhou, mas que há quatro meses, época em que caiu o olho de vidro quando retirava água de um poço, encontrava-se desempregada. Depois disso, não conseguiu dinheiro para colocar um outro olho postiço. Encontrava tais dificuldades em colocar-se, que chegou ao extremo de mendigar. As patroas ficam mal impressionadas com o seu aspecto e por isso não a admitem em casa.
Perguntamos-lhe se não achava que o fato de recorrer à caridade pública, poderia trazer conseqüências desagradáveis na formação de seus filhos. Celina respondeu-nos que compreende isto, e, por compreender, nunca trazia consigo nenhum dos filhos quando saia a esmolar,
Seu marido é cozinheiro de profissão e, na sua expressão, “é um negro bem parecido”. Encontrava-se desempregado havia dez meses. Dissemos-lhe que naturalmente seu esposo procurava fazer pequenos trabalhos para conseguir algum dinheiro para o sustento da família. Calma respondeu-nos negativamente, dizendo que, praticamente, quem vinha sustentando a casa era ela com os resultados que auferia da mendicância. E, como no subúrbio não existia possibilidade de arranjar emprego, Joaquim vinha diariamente a S. Paulo, na esperança de conseguir colocação. Três dias antes, maia ou menos, recebera uma proposta para cozinhar num sanatório. e estava à espera de uma resposta definitiva para começar o trabalho. O ordenado inicial seria de Cr$700,00.
Colina julgava-se bastante hábil para qualquer serviço e dizia que não se preocupava em ser cozinheira, lavadeira ou arrumadeira. O que queria era trabalhar, e, para isso, tinha os seus documentos em ordem e possuía cartas de recomendação. No entanto, vê que todas as suas tentativas neste sentido dão em nada, atribuindo o malogro à falta do olho de vidro. Diz que, mesmo esmolando, tem algumas vezes oportunidade para lavar roupa e fazer outros serviços.
Desde que suas dificuldades pareciam pro¬vir da ausência do olho de vidro, era racional que começássemos por providenciar a sua recolocação. Depois disso, seria possível que, por iniciativa própria, ela conseguisse empregar-se. Propusemos encaminhá-la ao Dr. Macedo, com quem poderíamos conseguir o que pretendia, tendo Celina aceitado a idéia com verdadeiro contentamento.
Dissemos-lhe que gostaríamos de conhecer seu marido. Celina achou que seria difícil trazê-lo à F.L.C.B., pois1 achava que ele poderia sentir-se vexado pensando que pudéssemos julga-lo um vadio.
Indagamos de Celina se a nossa atitude revelara alguma coisa que a autorizasse pensar que existia de nossa parte alguma outra intenção além do nosso interesse em ajuda-los. Celina respondeu-nos negativamente, prometendo voltar na outra semana trazendo consigo o marido,
O interasse em conhecermos o marido de Celina fundava-se em que não nos parecia razoável que um homem forte, sadio, de apenas 32 anos de idade, ficasse quase um ano sem trabalhar, embora, no dizer de Celina, ele empregasse todo seu estorço nesse sentido. Para não incorrer num juízo temerário, achamos melhor tentar uma aproximação.
Um detalhe que nos impressionou desfavoravelmente, foi o encontrarmos várias afirmações falsas quando, com Celina, revimos o questionário do serviço estatístico da F.L.C.B. preenchido pela própria funcionária que a encaminhara. Entre essas afirmações de Celina estava a de que era viúva, com quatro filhos.
Além disso, quando para nosso governo, perguntamos-lhe o nome do seu marido, Celina respondeu-nos imediatamente, João Vasconcelos, corrigindo logo para Joaquim dos Santos, com a desculpa: “vê, as minhas preocupações são tantas, que até chego a trocar o nome de meu marido”. Desviamos a conversa e a interrogamos a respeito das informações falsas que fornecera à Da. Alda, funcionária da F.L.C.B. Mui serenamente ela explicou: “pouco antes de chegar ao portão da casa de Dna. Alda bati à porta da casa de uma senhora, que além de me não dar nada preenchia o questionário. Eu estava tão perturbada que não sabia bem o que dizia”. Daí a atitude de Celina no decorrer da entrevista foi sempre segura, calma, serena. Falava com clareza e respondia, sem hesitação, às perguntas que lhe dirigíamos.
Não achamos razoável que uma mãe, por mais perturbada que esteja, seja capaz de esquecer o número de filhos que possui, assim como uma esposa enganar-se a respeito do nome do seu marido.
Embora tivéssemos oportunidade para isso, não fizemos nenhuma observação. Era possível que Celina estives¬se falando a verdade, e que os motivos de suas contradições fossem realmente os que apresentava. O principal para nós era que Celina voltasse à obra, o que provavelmente faria pelo interesse que parecia ter em colocar o olho de vidro.
Também é possível que Celina, esmolando, tivesse adquirido o hábito de contar diversas histórias à respeito de sua vida para despertar a compaixão alheia. Daí a incrível facilidade em sair-se bem nessas circunstâncias. E se, como afirmava, as suas dificuldades provinham, exclusivamente da ausência do olho, também era certo que pela esmola poderia conseguir o suficiente para colocá-lo ou mesmo encontrar alguma clínica da especialidade que o fizesse, gratuitamente.
Esperávamos, através de contatos posteriores, chegar a resultados objetivos em relação à Celina.
Às primeiras providências que tomamos foram as seguintes:
a) colocação do olho de vidro em Celina;
b) conseguir emprego para e casal.
Naturalmente, estas providências foram tomadas com base nas informações que Celina nos dera.
Ela continuou a nos visitar e verificamos que as informações fornecidas eram verdadeiras. Colocado o olho, Celina conseguiu empregar-se em algumas casas de família, ganhando Cr$60,00 por dia, o que lhe proporciona um bom salário mensal. O seu marido, por ter tomado parte em uma greve de funcionários do hospital em que trabalhava, foi dispensado.
Procuramos colocá-lo, como servente de um estabelecimento de ensino, onde poderá perceber, mensalmente, Cr$1.200,00. Assim, a situação da família tende a melhorar.
CASO DE SÍLVIO MATOS
Encaminhado pelo Serviço Social do Estado, Sílvio procurou a F.L.C.B. Não possui. o olho esquerdo, cuja visão foi perdida aos três meses de idade. A enucleação desse olho foi feita quando Sílvio tinha 19 anos. O olho direito é perfeito e Sílvio não sabe dizer porque ficara cego do olho esquerdo em tão tenra idade.
Atualmente, tem 29 anos, é muito alto, magro e desengonçado. Seu rosto é longo, seus cabelos de um loiro avermelhado caem pelas têmporas. É prognata, restando de sua dentição apenas os caninos superiores e inferiores. Suas mãos são grandes, crestadas, com unhas longas e sujas.
A ausência do olho somada às demais características físicas, dão-lhe um aspecto dos mais desagradáveis e grotescos.
Apresentou-se mal vestido e pouco asseado. Disse-nos que é casado com uma moça portadora de cegueira total, desde os três anos, em conseqüência de meningite. Vivem em harmonia, possuem um filhinho vidente de três anos, estando sua esposa no terceiro mês de gestação do segundo filho.
Procurou-nos porque está desempregado. Esta situação veio desajustar a vida familiar. Acha que a falta do olho dificulta-lhe arranjar empregos, embora não se preocupe com a espécie de trabalho que lhe dêem, já foi consecutivamente, ajudante de pedreiro, de motorista de caminhão, vendedor de jornais e, acidentalmente, desempenhou várias outras funções.
Disse-nos que, atualmente, em conseqüência do racionamento de papel, os jornais e revistas somente são entregues a jornaleiros que possuam banca. Embora tenha Silvio em vista um local para construir sua banca, não possui dinheiro suficiente para isso. Por conseguinte terá que desistir dessa profissão.
Sua situação é desesperadora e diz que se ainda não passou fome com sua família, é porque sua mãe lhe envia alguns mantimentos. As suas necessidades, porém, são inúmeras.
Dissemos-lhe que imediatamente não seria possível resolver o seu caso, mas que iríamos dar-lhe algumas idéias para que tomasse as providências mais urgentes.
Em primeiro lugar, deveria dirigir-se à L.B.A. onde poderia, temporariamente, receber auxílio alimento e solicitar que fosse proporcionado à sua esposa tratamento pré-natal. Poderíamos telefonar ao Serviço Social da L.B.A. solicitando essa colaboração.
Feito isto, dar-lhe-íamos uma apresentação à Assistente Social dó I.P., que talvez, pudesse coloca-lo nesse estabelecimento.
Finalmente, entendíamos ser conveniente ir à Clínica X, para verificar o estado atual de sua vista e colocar um olho de vidro. Talvez esta providência viesse melhorar um pouco sua aparência.
Silvio concordou com as nossas sugestões. Fizemos os encaminhamentos por escrito e explicamos-lhe as finalidades da F.L.C.B., a fim de que compreendesse os motivos por que não recebia um auxílio financeiro.
Silvio, durante a entrevista, nada revelou que pudéssemos admitir fosse ele um anormal.
Pedimos-lhe que voltasse à obra para nos inteirar dos resultados obtidos, e, caso não conseguisse o emprego, como esperávamos, tudo faríamos para auxilia-lo a construir a sua banca de jornais.
Mais tarde, fomos informadas por telefone que Silvio fora atendido na L.B.A. e que a Assistente Social do I.P. ju1gara, impossível coloca-lo naquele estabelecimento. O motivo apresentado fora que os funcionários do I.P. são selecionados também pela aparência e a de Sílvio era muito desagradável.
Encaminhado juntamente com sua esposa para a Clínica de Olhos, iniciou ele o tratamento, estando para colocar um trabalho de prótese. Sua esposa esteve em tratamento pré-natal na Casa Maternal e submeteu-se na Clínica de Olhos a um exame oftalmológico. O médico foi de opinião que não havia perigo de conseqüências mais graves que obrigassem a enucleação visto que a rno1éstia estacionara
IV – ASPECTOS DO REAJUSTAMENTO DO MENOR CEGO
“A educação consiste na formação do homem lhe ensinando o que deve ser e como deve se comportar nessa vida terrena para atingir o fim sublime para o qual foi criado”. (Pio XI)
1 - Atitudes dos pais em relação aos filhos cegos.
Freqüentemente, o comportamento assumido pela criança cega (compensações, reações negativas, mecanismos de defesa, frustrações, etc.) não passam de reação ao ambiente¬ social, no qual não encontra motivação e compreensão que favoreçam o desenvolvimento normal da sua personalidade.
Em condições normais. vida da criança inicia-se no lar e será nele que a crtança cega deverá começar o seu ajustamento. Entretanto, o ambiente que se forma em torno da criança é, em geral, incapaz de assimilar sua deficiência, por isso impróprio para conduzi-la de conformidade com suas necessidades. Disso resulta grande parte dos desequilíbrios de personalidade, dos desajustamento sociais e emocionais.
Thomas D. Cutsforth, deacrevendo a atitude dos pais quando nasce uma criança cega diz: “ Sua chegada causa -lhes grande mágoa. Como a situação é irremediável, assumem em relação a ela uma atitude errada, que é mais nociva do que geralmente se eupõe. Consideram-na: ou como um encargo econômico, ou como objeto de exageraõa indulgência. Com exclusão dos cuidados corporais, o pequeno ser é absolutamente negligenciado ou, o que é pior, excitado por conversas e agrados excessivos. A verdade é que nem mesmo na infância a criança cega é tratada como socialmente igual aos outros irmãos”.
.Muitas mães sentem-se humilhadas por ter gerado um filho cego. Para essas mães, tal fato é urna desgraça irremediável, até mesmo um castigo.
Semelhante atitude dos pais poderá provocar na criança, respostas sociais insólitas, que irão influir, para sempre, em sua vida. Quanto mais deficientes forem as possibilidades econômicas, culturais e morais da família, tanto mais difícil será a solução dos problemas provocados.
A Dra, VIta Stein Sommers resume, em quatro tópicos principais, as reações características dos pais em relação ao filho cego: 1 - cegueira como símbolo de castigo;
2 - receio de que sejam eles portadores de moléstias sociais;
3 - sentimento de culpa devido à transgressão de normas morais;
4 - cegueira na criança, uma desgraça pessoal os pais.
A mesma autora, a seguir, afirma que estas reações geram os comportamentos seguintes:
1 - Rejeição aberta - Estão incluídos neste grupo, os pais que manifestam sua rejeição abertamente por hostilidade ou por negligência.
2 - Rejeição disfarçada – Inclui-se neste grupo a maioria dos pais que não revelam sua atitude abertamente. À primeira vista, parecem até ótimos pais. Uma observação maia profunda demonstra que, intimamente, rejeitam a criança. Entretanto, por causa do sentimento de culpa, superior ao de hostilidade, compensam a rejeição por uma proteção excessiva. Esta forma simulada de rejeição é evidenciada pela maneira ilógica com que tratam a criança. Assim, para se libertarem do com¬plexo de culpa, a maioria desses pais mostra-se extremamente solícitos em tudo aquilo que s refere à criança. Por meio dessa exagerada maneira de passarem como cumpridores de seus deveres, o que esperem é ser considerados bons pais. Por força de tais solicitudes e errôneo sentido de proteção, acabam por suprimir na criança, toda iniciativa e alienam dela todo desejo de independência.
3 - Proteção exagerada - Muitos pais são dominados por um imenso sentimento de piedade que os torna excessivamente indulgentes. Com este procedimento vão prolongando o estado de dependência do filho cego. A ansiedade e as preocupações desses pais prejudicam o desenvolvimento normal da criança.
4 - Reação negativa: - Agrupam-se aqui, os pais que tomam uma atitude negativa em relação à deficiência do filho. Esta deficiência não existe para eles.
Aceitação da criança e da sua deficiência
Á completa aceitação da deficiência da criança por parte dos pais seria o ideal ela. Entretanto é mais difícil de atingir. Geralmente os pais a aceitam de conformidade com a sua capacidade de amar e quere os filhos. Em regra, as pessoas que se desenvolveram num ambiente de completo indiferentismo às necessidades dos outros, não estão capacitados para aceitar, não só a condição de cegueira do filho, como até outras situações difíceis que a vida oferece. A aceitação incondicional da criança e da sua deficiência implica em aceita-la tal como ela é, conformar-se com o que ela pode fazer e com o que realizará no futuro. A este respeito, a responsabilidade do pai da criança cega não é maior que a dos outros pais. Uma criança que tenha tido a infância feliz, completa, seja cega ou vidente, provavelmente terá a vida adulta mais fácil.
Comenta Merry: “não é coisa fácil determinar-se até que ponto a cegueira é responsável pelas diferenças de personalidade entre as crianças cegas. É provável que, na maioria das vezes, os desajustamentos resultem mais das condições sociais acarretadas pela cegueira do que da própria deficiência. Assim, a proteção da personalidade da criança cega é uma das mais importantes tarefas na sua formação”. Este problema, praticamente, tem recebido pouca atenção da parte dos educadores.
II - O Assistente Social junto ao menor portador de cegueira
1 – Relações com o menor
O Assistente Social como o médico e o professor, proporcionará à criança um serviço especial, que terá como objetivo descobrir os fatores dos seus desajustamentos com o fim de cura-los quando não puderem ser prevenidos ao seu tempo.
À criança cega necessita de alguém que a compreenda, que a descubra nos seus pensamentos mais, íntimos, e que a respeite, apesar de sua deficiência. Enfim, espera que uma pessoa competente que lhe assegure a espécie de auxílio de que necessita.
Conhecidas as causas de desajustamento, a criança deverá participar ativamente dos trabalhos empregados para a solução de seus problemas. Os resultados desses trabalhos estão condicionados a vários fatores, tais como: as capacidades do cliente, a natureza do problema e a habilidade do Assistente Social. O caso de Artur Gonçalves, de que adiante vamos tratar, mostra-nos como uma criança de 13 anos, levado a refletir sobre suas necessidades, fez a opção de internamento num estabelecimento para ensino de cegos, levando toda a família a aceitar o acontecimento com naturalidade.
Infelizmente, muitas vazes, a cegueira é acompanhada de outras deficiências, resultantes de doenças, de acidentes ou de defeitos congênitos. O tratamento social, nestes casos, deve ser orientado, tendo-se em consideração todo o complexo deficitário.
Em qualquer situação, o Assistente Social deverá estar atento às reações da criança sobre o mundo que a cerca e as deste em relação a ela. Para uma orientação segura deverá apelar para os recursos do meio e para o auxílio de elementos técnicos, tais como: médicos, professores especializados, estabelecimentos para ensino de cegos, lançando mão de to¬dos os meios ao seu alcance para conduzir com inteligência, os problemas que se lhe apresentam.
A segregação da criança cega, não é, a nosso ver, a melhor solução. Ela é uma parte da família e o nosso esforço deve ser sempre dirigido no sentido de manter a sua integridade. Mas, como verificaremos, através de nossos orientados, muitas vezes, este é o único caminho a seguir.
2 - Ralações com os pais
Qualquer auxílio dado aos filhos envolve, fundamentalmente, o interesse dos pais e repercute nos seus problemas econômicos, nos de sua saúde, nas relações familiares, na própria atitude que devem assumir em relação à criança e em mui¬tos outros.
Os pais devem ser orientados para que estejam atentos ao desenvolvimento da linguagem, da percepção tátil e das relações de espaço, apresentados pela criança. Devem ser sempre lembrados de que tanto os seus problemas como os do filho não são tão diferentes em variedade, intensidade e dificuldade na solução, quanto os de outras pessoas.
Ajudando, através de sugestões sumárias e de entrevistas compreensivas, individualmente, cada membro da família, a trabalhar pela própria salvação e pelo bem estar da sociedade familiar, consegue-se capacita-los a aceitar, sem restrições a criança cega, Só assim, poderão auxilia-la a compreender, assimilar e ajustar-se ao ambiente, tanto da família como da comunidade.
A atitude da família, como vemos, e especialmente dos pais, afeta profundamente a criança cega. Os pais seguros de si mesmos, com situação social definida, com relações matrimoniais normais, terão, sem dúvida, muitas probabilidades para aceitar a criança, compreender suas necessidades e proporcionar-lhe experiências que garantam seu desenvolvimento.
Os desajustados, incapazes de vencer as dificuldades pessoais, onerados por conflitos íntimos, deixar-se-ão arrastar por estas correntes emocionais que explodem em atitudes negativas e privarão a criança cega, objetiva e subjetivamente, dos requisitos essenciais para sua formação harmoniosa.
3 – O Assistente Social e outros técnicos
No reajustamento do indivíduo cego, o Assistente Social trabalha não só com o menor e seus pais, como também com os médicos, professores especializados, dirigentes de estabelecimentos de ensino para aquele tipo de deficientes físicos.
Cata qual auxiliará a criança à sua maneira, mas o trabalho deverá ser realizado harmoniosamente e obedecer a um critério de unidade.
Muitas das necessidades da criança podem ser descobertas pelo professor. Em regra, o cliente deve estar sob cuidados médicos. Isto, porém depende da natureza da cegueira.
De acordo com as exigências de cada caso, o médico e o Assistente Social, ou o professor e o Assistente Social, e até mesmo os três juntos, devem ter conferências periódicas a fim de coordenarem os seus trabalhos para a elaboração de planos que auxiliem a criança, progressivamente.
A colaboração de professores especializados, a compreensão dos médicos sobre o valor da contribuição do Serviço Social, a harmonia de nossas relações com dirigentes, professores e pessoal dos estabelecimentos de ensino especializados, conduziram-nos a resultados bastante animadores no reajustamento do menor cego.
Baseados, finalmente, na compreensão da criança cega, no emprego de meios e manejo de instrumentos que possam ajuda-la no seu desenvolvimento tísico, mental e emocional, estaremos garantindo o ajustamento dessa criança e preparando-a para uma vida adulta produtiva e eficiente.
Apresentaremos, a seguir, alguns casos mediante os quais procuramos focalizar este aspecto do problema da cegueira. O caso de Samuel Stein oferece-nos um trabalho de equipe em que entram as contribuições do médico que encaminhou o caso, do professor especializado e do Assistente Social.
CASO DE SAMUEL STEIN
Matias Steín compareceu à F.L.C.B. solicitando nossa colaboração no sentido de orientar a educação de seu filho Samuel, portador de cegueira total, com idade de 13 anos e que perdera a vista aos quatro anos de idade. Estas foram as informações dadas pelo pai. Podemos afirmar que estamos diante de uma reação negativa desse pai, porque pela leitura do relatório fornecido pelo médico assistente de seu filho, conclui-se que provavelmente Samuel nunca enxergou.
A criança é fruto de matrimônio entre primos e o pai afirma que a cegueira de Samuel teve como causa uma injeção inoportunamente aplicada por um pediatra.
Ao chegar à F.L.C.B. logo após ter recebido do prof.c.g. a notícia da incurabilidade do filho, o Sr. Stein não conseguiu dominar-se por muito tempo, entregando-se a copioso pranto. Esperamos passar a crise de angústia e procuramos coloca-lo à vontade, para nos expor suas dificuldades. Procuramos demonstrar-lhe que o nosso intuito era ajuda-lo em tudo que estivesse ao nosso alcance.
Aos poucos, foi-se acalmando e passou a nos falar de suas dificuldades. Matias Stein é de origem judaica e possui pouca cultura, mas tem algum traquejo social. Reside numa cidade do interior do Estado onde, com trabalho, conseguiu ser feliz, adquirir fortuna e impor-se socialmente, pois, é bastante conhecido e estimado na comunidade em que vive. Aí contraiu matrimônio com uma prima e continuou a viver feliz. Sua felicidade foi aumentada com o nascimento do filho.
Como dissemos atrás, disse-nos o pai que, aos quatro anos, a criança começou a apresentar os primeiros sinais de perda da visão.
Todos os esforços foram empregados para salvar a criança de possível cegueira. Os melhores e mais afamados médicos foram consultados, grandes somas de dinheiro foram despendidas, tudo na esperança de salvar a vista do menino.
Por fim, o médico, julgando que todos os recursos da ciência tinham sido empregados e que a possibilidade de cura era improvável, resolveu aconselhá-lo a orientar a educação da criança de acordo com sua irremediável condição.
Os pais que viveram, até então, aferrados à idéia de uma possível cura de Samuel, encaram a nova situação como inconcebível e sem remédio.
Procuramos mostrar ao Sr. Matias que compreendíamos seus sentimentos e, mais que compreensão, sinceramente compartilhávamos do seu sofrimento. Entretanto, seria necessário, embora soubéssemos o que lhe custaria de esforço, que se dominasse, para que pudéssemos conversar e elaborar juntos um plano de educação para Samuel. Excluída ficou a idéia de internação em estabelecimento de ensino para cegos que se apresentava ao Sr. Stein como monstruosa. Pôr esse motivo, não foi ela sequer abordada ou sugerida.
Esperamos que partissem dele as primeiras sugestões. Disse-nos, então, que em sua cidade, não existia ninguém preparado para o ensino de cegos. Pediu-nos, por isso, que procurássemos uma professora especializada e capaz que se dispusesse a ir dar aulas ao seu filho.
Não lhe importava pagar um ordenado, mesmo elevado. Como entre nós, são poucas as professoras especializadas nesse campo, não nos seria fácil resolver o assunto, imediatamente. Fomos francas com o Sr. Stein. Dissemos-lhe que não tínhamos certeza se conseguiríamos alguém que quisesse se incumbir da tarefa, mesmo que fosse indicada para isso, dadas as circunstâncias especiais do seu caso. Entretanto, iríamos empregar todo o nosso esforço no sentido de encontrar uma solução satisfatória para o seu problema.
Perguntamos-lhe qual o estado emocional de sua esposa e como estava ela encarando a situação. O Sr. Stein respondeu-nos, que o desequilíbrio da esposa era muito maior que o seu. Ele tinha os seus negócios que o distraíam, ao passo que sua mulher vivia sempre em casa, desligada de todo convívio social, mergulhada no desespero e na dor.
Considerando a tensão psíquica do nosso cliente e as informações que nos fornecera a respeito da esposa, julgamos que seria de bom aviso, antes de qualquer outra medida, procurar conhecer a criança, inteirar-nos de seu ambiente familiar e observar como este influía sobre ela. Exposta ao Sr. Stein a idéia de uma visita a Samuel, foi ela aceita com entusiasmo.
Foi o próprio Sr. Stein quem nos informou os horários de trens, dos ônibus e dos automóveis, procurando facilitar a nossa iniciativa.
Dentre as professoras especializadas, Da. G. A., que havia recentemente concluído o Curso de Especialização para Ensino de Cegos, da Escola Caetano de Campos, dadas as suas qualidades morais e intelectuais, era ao nosso ver, a pessoa capaz para bem realizar a tarefa. Solicitamos por isso a sua colaboração e, depois de alguma relutância, ela nos deu uma resposta afirmativa. O primeiro passo estava dado. Mas, Da. G. A. lecionava na Capital, em curso regulamentar.
Elaboramos então, o plano seguinte: Dna. G.A. ao mesmo tempo em que iniciasse o ensino de Samuel, começaria a orientação de uma professora do lugar, que poderia ser escolhida pela própria família. Esta professora substituiria Da. G. A. quando esta fosse obrigada a regressa; a S. Paulo, e, por sua vez, se comprometeria a trabalhar sob nossa supervisão, através de contatos periódicos e organização de relatórios sobre o desenvolvimento de suas atividades educativas.
Uma vez estabelecido este plano, dirigimo-nos à cidade de S. C. para expô-lo aos pais de Samuel e conhecer a opinião deles.
A nossa chegada foi. um tanto abrupta, porque o telegrama que enviamos, embora expedido com antecedência, não havia sido entregue com tempo de preveni-los da nossa viagem.
Como o Sr. Stein não estivesse em casa, a sua esposa mostrou-se espantada com a nossa presença, o que nos deu a impressão de que o esposo não lhe falara sobre o entendimento que tivéramos aqui em São Paulo.
Momentos depois toda a família estava reunida. Este fato deu-nos a oportunidade de observar, com largueza de pormenores, até que ponto vai o desajustamento da família em relação à criança.
A Sra. Stein tem urna irmã mais velha do que ela, a Sra. BecK, que é muito apegada a Samuel. Apesar de seus modos espevitados, de sua loquacidade exagerada, dá mostras da ser inteligente, e parece compreender melhor que o resto da família, o problema do menino.
A família Stein fixou-se há muitos anos na cidade e pareceu-nos bem integrada nos nossos costumes.
A excitação, no dia de nossa chegada, foi enorme. Todos falavam ao mesmo tempo e a Sra. Beck, em altas vozes, procurava dar as explicações que julgava necessárias. Falou muito sobre o grande afeto e o carinho que toda a família dispensa a Samuel.
Procuramos dar a todos e a cada um em particular, o máximo de nossa atenção, contornando a situação quando preciso, com habilidade. Não fizemos perguntas. Contentamo-nos com as informações que surgiam, espontarias, sem aprovar ou discordar de nenhuma das opiniões emitidas.
Diante da nossa serenidade, toda aquela explosão emocional, ao que parece, foi se arrefecendo, amainaram-se os ânimos e o ambiente passou a ser desafogado.Tivemos a impressão de que aquela gente esperava de nós uma palavra definitiva, de desesperança ou de salvação, de maneira que achamos maia prudente não adiantar nenhuma opinião.
Demonstramos o desejo de conhecer aquela criança que era objeto de tantas preocupações. Ela nos foi trazida logo depois. Foi necessário que empregássemos muito de nosso esforço, para não nos desviar da atitude de calma que assumíramos.
Samuel é muito branco, de gordura balofa e pele transparente. Suas mãos, orelhas e o seu pescoço estão em desproporção com o desenvolvimento do corpo. Seus dentes não afloraram. A voz é fanhosa e desagradável. Os olhos de um azul desbotados são inexpressivos e parados. A cabeça desprovida de cabelos, que nunca nasceram. Embora muito bem trajado e cuidado, o seu aspecto, no primeiro contato, é medonho. É exatamente a cara de sapo, característica da moléstia de Hons-Christian-Schukler.
Mesmo confiando nas palavras de seu médico, que nos garantira a possibilidade de aprendizagem de Samuel, pareceu-nos estar diante de um débil mental. Talvez, essa nossa impressão esteja ligada ao fato de que até hoje Samuel não tenha recebido ¬nenhuma orientação educacional adequada, apesar de seus 13 anos.
Quando Samuel nos foi apresentado, a Sra. Beck passou a mima-lo e, logo depois, o mandou para sua casa de modo que não tivemos oportunidade para observa-lo melhor.
Quanto a nós, com a Sra. Stein procuramos observa-la. Pareceu-nos que, entre todas as pessoas que cercam Samuel, ela é, emocionalmente, a mais desequilibrada. Apresenta, em relação ao filho, sentimentos contraditórios. Assim, ao mesmo tempo em que procura dar-lhe toda a assistência material, manifestada num requintado desperdício de dinheiro e acompanhada de um exagerado sentimentalismo, parece que o rejeita pela sua deficiência e, sobre tudo, pela sua aparência. Disse-nos que se sente humilhada diante de todos. Não sai de casa e não vai a festas. Detesta qualquer festa infantil, porque cada olhar que pousa sobre seu filho é, para ela, uma punhalada. Por isso, a criança passa a maior parte de seu tempo em casa de sua irmã, a Sra. Beck. A vida íntima do casal, pelo que pudemos observar, está periclitando, pois se acusam mutuamente de ser cada qual o responsável pela moléstia da criança. Além disso, a vinda de outro filho é encarada com horror.
Procuramos animá-la e, como a Sra. Stein parece encarar o problema sob um ponto de vista prevalentemente egoístico, isto é, aquele que a situação representa para ela, tentamos mostrar-lhe o mal que daí pode advir ao próprio filho. Sabendo-se a causa de todos os desentendimentos, esta situação, terá que refletir sobre Samuel como o mais desastroso dos resultados.
Aconselhamo-la, mesmo que isto lhe custasse muito sacrifício, a fazer um esforço no sentido de proporcionar ao filho um outro ambiente que pela sua normalidade, fosse mais favorável ao seu desenvolvimento e formação. Apelamos para os seus sentimentos religiosos. Desde que recebemos de Deus uma missão, esta deve ser cumprida da melhor maneia possível. Normalmente, explicamos-lhe, toda criança deve encontrar, dentro do lar, a oportunidade de se preparar para a vida. Ora, diante das condições especialíssimas reservadas a Samuel, maiores deviam ser as preocupações de seus pais em lhe proporcionar esta oportunidade.
Dominada sempre pela idéia da compensação material de suas desventuras, disse-nos a Sra. Stein: “Temos dinheiro e tudo que temos pode ser despendido em benefício de meu filho. Já temos gastado muito, apesar disso não nos preocupamos com maiores despesas”.
Respondemos-lhe que o essencial, o fundamental era que o ambiente em relação à criança se modificasse. Devíamos compreender que somente uma assistência material não bastava para que se formasse este novo ambiente.
A Sra. Stein possui relativa cultura. é inteligente e, por isso, acreditávamos que, conseguindo assimilar a situação objetivamente, fosse capaz de colaborar com eficiência nesse propósito.
Ao chegar o Sr. Stein, continuamos a falar sobre o mesmo assunto. Ele se nos afigura recalcado pela dor de ter tal filho. A sua atitude parece-nos de extrema humilhação. Por isso permanece sempre calado.
Falamos-lhe a respeito do que combináramos, aqui, e, sobre tudo, sobre a professora para Samuel, explicando-lhe que esta somente poderia permanecer em S. C., durante o período de férias. Explicamos-lhe, então o plano que formuláramos. O Sr. Stein animou-se e aceitou a idéia. Pedimos-lhe, então, que agisse com cautela, com ponderação, a fim de escolher bem a professora local. que deveria ser instruída por Da. G.L. Disto dependia o êxito do nosso plano.
Como percebêssemos, a grande consideração que a família dispensava ao médico assistente de Samuel, julgamos que o seu auxílio seria de muita valia para o bom encaminhamento do caso. Com tal intenção perguntamos-lhes se gostariam que o plano que elaboráramos fosse levado ao seu conhecimento. O Sr. Stein e a esposa acharam isto conveniente, urna vez que fora, por seu intermédio que eles foram levados até nós.
Todas as pessoas da família de Samuel cumularam -nos de gentilezas e foi-nos difícil convence-las de que a nossa colaboração no caso independia de qualquer remuneração. Pareceu-nos que sentiam dificuldade em compreender a nossa atitude. Não alcançavam que esta, em relação aos seus problemas fosse a mesma em relação aos de A. ou B, sem distinção de raça, cor ou religião, e que bastava tratar-se de uma pessoa humana, para merecer a prestação de nossos serviços, uma vez que recorressem a ele. Isto custou-nos algum esforço e tivemos que conjurar algumas situações desagradáveis. Mas, tudo acabou da melhor maneira possível.
Temos a impressão que a idéia de um interesse puramente humano, de solidariedade, colaboração e cooperação, serviu para solidificar as nossas relações com a família Stein.
Antes de tomarmos qualquer medida entendemo-nos com Da. D.G.N, conhecedora abalizada dos assuntos educacionais referentes às pessoas cegas, a quem pedimos que orientasse Da. G.A., tanto no plano de ensino de Samuel, como no de preparo da professora que deveria, futuramente, substituir Da. G.A.
No que concerne à aceitação mais compreensiva da criança e das suas deficiências por parte da família de Samuel, preliminar indispensável para abrir o caminho ao verdadeiro reajustamento deste, acreditávamos que a professora Da. G.A. iria nos prestar a mais valiosa das colaborações.
O Sr. Stein, vindo à São Paulo, em viagem de negócios, compareceu à F.L.C.B.B. Aproveitamos a ocasião para fornecer-lhe o material indispensável ao ensino de cegos e para marcar a data em que deveríamos acompanhar a professora à cidade S. C. Sabíamos, de antemão, o que poderia significar para a família Stein esse material. Em regra, o aprendizado do sistema Braille está ligado à idéia do irremediável.
À nossa suposição concretizou-se quando, dez dias depois, ao chegar em casa do Sr. Stein encontramos o pacote daquele material, tal como nós lho entregáramos aqai, em São Paulo. Ninguém tivera a coragem de abri-lo.
Nesta segunda viagem conseguimos observar melhor a criança. Ficamos verdadeiramente impressionadas com a sua capacidade de discernimento em contraste com sua aparência física.
Durante um passeio pela cidade, notamos que, enquanto o Sr. Stein dirigia o automóvel, Samuel fazia todas as mudanças de marcha, orientando-se pelo simples ruído do câmbio. Conhece todas as regras de futebol e é apaixonado por este esporte.
A indulgência e a solicitude dos pais em relação ao filho são exageradas. Chegam mesmo a pedir-lhe e a aceitarem suas sugestões sobre negócios de vulto. Os seus desejos são lei,
Entretanto, a mãe não tem coragem de apresentar-se em público em sua companhia e, quando o faz, é com relutância e sentimento de humilhação.
Samuel afeiçoou-se, desde logo, à professora, que além de grande capacidade de estabelecer relações de amizade com crianças, possui uma voz de timbre agradável, simpático e cativante, detalhe importantíssimo no caso, pois Samuel, como dissemos atrás, é extraordinariamente sensível ao som.
Posteriormente, fomos convidadas pela família para assistir as comemorações da iniciação religiosa de Samuel. Este convite foi dos mais gratos para nós, porque revelava a aceitação de Samuel como uma criança igual às demais.
Subsiste ainda um problema a ser considerado, mas que no momento não achamos prudente ataca-lo diretamente. Samuel possui urna pajem, Márcia, de mais ou menos 18 anos, de aspecto sadio e agradável. Há muitos anos que vem cuidando dele. A amizade que os liga é forte e até exagerada. Samuel sente e julga as realidades objetivas através das opiniões e descrições de Márcia. Até então, a alimentação lhe era levada à boca por Márcia, embora outros cuidados pessoais, como se banhar, vestir-se, estejam a seu próprio cargo.
A família vê tudo isso com bons olhos tratando Márcia com as mesmas considerações que dispensa aos membros da família. Realmente, Márcia é uma boa moça, afeiçoada e dedica¬da à Samuel.
Entretanto, o nosso ponto de vista é que, embora de uma certa maneira Márcia seja útil, a sua solicitude exagerada poderá influir no cultivo da dependência e acarretar a anulação completa de toda iniciativa de Samuel.
Fizemos algumas alusões sobre a necessidade do se proporcionar oportunidades para Samuel ir se tornando independente, mas não enfrentamos diretamente o problema, esperando que surja uma ocasião oportuna.
De qualquer forma, o osso está tomando um rumo satisfatório e os nossos prognósticos são otimistas.
Samuel possui capacidade intelectual. Está progredindo no seu aprendizado, de modo que poderá ir se desenvolvendo e se livrando da ociosidade em que sempre viveu. À medida que Samuel progrida e os seus pais aceitem a situação mais objetivamente, a vida familiar poderá orientar-se normalmente.
CASO MÁRIO DA SILVA
Por solicitação do oftalmologista Dr. Milton de Barros, dirigimo-nos ao Hospital X para tomarmos contacto com o caso de Mário da Silva.
Fomos encontrar este paciente numa enfermaria do quarto andar daquele hospital, parcialmente destinada a crianças. Mário não estava nesta ala. Ocupava um quarto, com duas camas. -Era seu companheiro um senhor idoso, que perdera completamente a voz, depois de se submeter a uma operação de laringe.
Por intermédio da enfermeira chefe, Da. Ivone, moça compreensiva e disposta a colaborar conosco, fora Mário da Silva avisado de nossa visita. Recebeu-nos com amabilidade, revelando ¬um espírito social bem desenvolvido, o que nos impressionou agradavelmente.
É cego desde os quatro anos de idade. Atualmente tem 15 anos. Nasceu no interior do Estado, onde vivera ate então.
É extremamente simpático, de feições regulares e agradáveis, mesmo bonitas. Possuí bons dentes, é forte e bem desenvolvido, Sua aparência, mesmo vestido com roupas de indigente hospitalizado, agradou sobremaneira.
Fomos informadas por D. Ivone, que Mário fora encaminhado ao hospital pela Policia Central, pois, fora encontrado sozinho numa das nossas estações de estrada de ferro, pedindo pa¬ra ser internado no Hospital X.
Uma vez no hospital, foi examinado por vários oculistas. Todos foram unânimes em afirmar que se tratava de um caso irremediável e que por isso dispensava quaisquer providências médicas.
A sua cegueira resultara de ulceração da córnea, nos dois olhos, não tratada em oportuno tempo.
Mário nos contou toda sua vida, É membro de uma família de trabalhadores rurais, de recursos financeiros deficientes. É o último de uma numerosa prole. Seu pai faleceu, há algum tempo, e todos os seus irmãos são casados.
Morava com um deles, que também dava abrigo à sua mãe, numa fazenda do interior do Estados. Aí ouvia falar que, aqui na Capital, existiam grandes e bons hospitais, de onde os doentes saem completamente curados. Com a idéia de recuperar a visão e de posse de algum dinheiro ajuntado para visitar um irmão na cidade M, resolveu vir para S. Paulo, orientando-se como lhe foi possível.
Embora a sua cegueira seja parcial, pois ainda percebe luz e sombra, distingue cores e imagens, a opinião dos médicos o decepcionou. À vista do diagnóstico, não poderia continuar hospitalizado, pois não se tratava de um verdadeiro doente. Não desejava, entretanto, regressar mais ao interior.
Sabendo pelas irmãs e pela enfermeira-chefe do Hospital X, da existência do Instituto L, disse-nos que gostaria de ir para lá. Pediu-nos que comunicasse seu paradeiro ao seu irmão Antonio, para o que nos forneceu o endereço.
Mário alimenta a idéia, verdadeira obsessão, de ainda poder, um dia, recuperar a sua visão. Assim, falou-nos um dia: "mais tarde, irei à Campinas, porque me disseram aqui, que os melhores oculistas estão lá".
Procuramos mostrar-lhe que ele fora examinado pelos melhores oculistas de São Paulo, e que os de Campinas não discordariam deles. O que era conveniente, era se conformar com o diagnóstico no seu próprio interesse. De acordo com a opinião dos médicos que ele já conhecia, devia aproveitar a oportunidade para ingressar numa escola para ensino de cegos, como era o seu desejo. Deveria, pois, aceitar a situação tal qual, no momento, ela es apresentava.
Fizemo-lo compreender que esta idéia fixa de viver a procurar médicos poderia prejudicar o seu bom ajustamento emocional, e futuramente, a sua necessária integração na sociedade.
Mário animou-se, pedindo que arranjássemos logo sua transferência do Hospital X para o Instituto L. Prometemos auxilia-lo, desde que seus exames de saúde fossem favoráveis.
A Enfa. Ivone incumbiu-se disto. Mário passou por todas as clínicas especializadas do hospital e submeteu-se aos vários exames de laboratório. Os resultados revelavam que o seu estado psíquico e sua saúde eram bons. De modo que foi fácil ser admitido no Instituto L. Enviamos várias cartas à sua família comunicando o ocorrido, mas até agora, não recebemos resposta. Costumamos visitá-lo freqüentemente; está bem ajustado ao colégio, fazendo progressos sob todos os pontos de vista. Nos seus três meses de internato aprendeu a executar diversos trabalhos manuais e está principiando o aprendizado do Braille, com facilidade, É muito querido entre os colegas pela sua bondade e docilidade. Como possui percepção luminosa, acompanha os companheiros menores nos passeios pelo pátio do colégio e isto o tornou muito popular.
Mas, percebemos que Mário tem profunda mágoa pela rejeição da família. Isto se acentuou, no período de férias, quando a maioria dos internadoø foi para suas casas. Procuramos animá-lo sempre. E continuamos a escrever aos seus parentes, insistindo para que nos respondessem alguma coisa que estimule e tranqüilize Mário. Já nos dirigimos às autoridades de sua cidade natal, pedindo-lhes que nos auxiliassem no sentido de despertar o interesse de sua família. Até agora os resultados foram improfícuos, mas continuaremos insistindo.
Conseguimos também arranjar uma voluntária que deverá visitá-lo uma vez por semana, no Internato.
CASO DE PAULA DE SOUZA
Na Instituição X onde fomos em visita a uma criança cega de nove meses, que nos fora encaminhada pelo J, de M., tivemos, através do Diretor da Obra, conhecimento do caso de Paula. Esta menor, cega, achava-se internada ali há quase um ano.
Acompanhadas por uma funcionária do pavilhão hospitalar que foi encarregada de nos acompanhar, fomos encontrá-la de cama como outras menores que se achavam hospitalizadas. Perguntamos por que motivo Paula estava acamada. A funcionária, muito naturalmente, informou nos que esta medida fora tomada por se tratar de uma criança cega, não possuindo a obra pessoal disponível para cuidar dela.
Embora sob os protestos da funcionária, que se desmanchava em amabilidades, sentamo-nos à beira do leito de Paula, tentando entabular com ela uma conversação. Paula, entretanto, fechou-se num mutismo quase que absoluto. Pareceu-nos que não estava habituada a ser tratada com carinho, nem receber uma atenção especial de alguém e, muito menos, a confiar nos outros. Enquanto a acariciávamos e procurávamos mostrar-lhe que ali estávamos para auxiliá-la e compreende-la, Paula, esfregava nervosamente as mãos, enterrando a cabeça entre os ombros e apertando os lábios.
Após uns trinta minutos de esforço de nossa parte, surgiram os primeiros monossílabos e, pouco à pouco, embora timidamente, começou a responder às perguntas que lhe fazíamos. Disse-nos ter onze anos e que perdera a vista aos quatro anos. em conseqüência de sarampo. Depois da morte de sua mãe fora colocada num colégio de freiras, numa cidade do interior. Desse colégio foi transferida para o lugar onde se encontrava. Como perguntássemos pelo seu pai, disse-nos que este a abandonara depois da morte de sua mãe. Apesar disso, tem grande desejo de encontra-lo.
Perguntamos-lhe se não gostara de viver num lugar onde pudesse aprender a ler, escrever, brincar, ao lado de outras crianças de sua idade. Pela primeira vez, Paula esboçou um sorriso, mas não respondeu.
Por este primeiro contato, não nos pareceu tratar-se de uma criatura anormal, não obstante toda a sua apatia e exagerada tendência à introversão. Pelo contrário, a impressão de que as vicissitudes da infância a levaram a esta situação. Naturalmente, sempre deve ter vivido num ambiente que não lhe favoreceu o desenvolvimento normal, isto, incalculavelmente agravado pelo tratamento que, no momento, lhe dispensavam. É coisa inadmissível que um indivíduo em boas condições físicas e psíquicas, possa permanecer num leito de hospital, só pelo fato de ser um porta4or de cegueira, e isto, por quase um ano.
Pareceu-nos, ao percebermos o comportamento de algumas menores que se achavam na enfermaria, que o tratamento que lhes é dispensado não prima pela compreensão e humanidade. Durante uns momentos em que ficamos livres do olhar vigilante da funcionária, que fora chamada para resolver qualquer situação, uma das menores, que se agitava numa cama próxima à de Paula, procurou conversar conosco, Disse-nos ela: “Paula acostumou-se a ficar na cama e agora não tem ânimo para levantar-se. Ontem, Da. Francisca quis leva-la para tomar sol, mas ela resistiu, chegando mesmo a espernear, dizendo que para ela seria a mesma coisa, ir para fora ou continuar deitada”. Nisto, foi advertida por uma companheira ao lado que a fez calar, mostrando que alguém se aproximava vindo pelo corredor que serve à enfermaria. A menor um pouco assustada, perguntou: “é o Sr. Silva?“ Deu, então, o assunto por encerrado.
À saída estivemos com o Sr. Silva, administrador do pavilhão. Tentamos, por seu intermédio1 obter mais algumas referências sobre a vida de Paula. O Sr. Silva, embora falando muito nos problemas de coração que se lhe apresentavam, pouco ou quase nada sabia a respeito da nossa interessada. Disse-nos que a menor era abandonada, tendo sido encaminhada pelo J.M. da cidade P. para o desta Capital e daí para aquela instituição. Acrescentou que, naturalmente, na repartição competente, deveria existir o processo de abandono de Paula, onde poderíamos obter as informações que desejássemos a respeito da criança.
Julgamos que a obra, por ser oficial, deveria possuir, nos seus serviços, médicos especializados. O Sr.Silva apressou-se em confirmar o que supúnhamos. Perguntamos-lhe, então, por¬que Paula, hospitalizada há quase um ano, não fora submetida a um exame clínico geral, e, principalmente, a exames oftalmológicos e psiquiátricos. O referido senhor, não nos deu uma explicação satisfatória, procurando fugir ao assunto.
Ao demonstrarmos o desejo de vê-la submetida a um exame psiquiátrico cuidadoso, o Si. Silva prontificou-se a nos apresentar ao Dr. M. Maciel, psicopatologista da obra.
Quando nos encaminhávamos para a sala do Dr. Maciel, tivemos a oportunidade de encontrar pelos corredores, alguns senhores, que nosso acompanhante nos declarou serem médicos. Estavam todos sem avental e em palestra, não obstante o relógio marcar 10 horas da manhã.
As funcionárias andavam de um lado para outro, sendo que o assunto principal que as preocupava, era o resultado de um comício político, realizado no dia anterior. Este ambiente pareceu-nos incompatível com uma obra destinada ao serviço de -assistência a menores abandonados. Ali tudo deveria ser dedicadamente orientado para o trabalho de dar aos seus indefesos assistidos um ambiente adequado ao desenvolvimento normal, quer físico, quer intelectual, quer normal.
Finamente, chegamos ao Dr. M. Maciel, que nos recebeu atenciosamente. Vestido com certa elegância e cuidado, como os outros, também não parecia em serviço.
Quando explicamos o que pretendíamos dele, demonstrou ignorar o caso de Paula. Prontificou-se, porém, a examina-la e fornecer-nos um relatório dos resultados que obtivesse. Este poderia ser procurado na semana próxima.
Deixamos a obra com a firme intenção de tudo fazer para que Paula fosse colocada num ambiente mais edaqua4o para seu desenvolvimento normal.
Na semana seguinte, por telefone, comunicamo-nos com o Dr. M. Maciel que nos disse ter realizado os exames. Os resultados, como esperávamos, foram satisfatórios, acrescentou, mas o relatório deveria ser procurado alguns dias depois. Adiantou que vários médicos o haviam auxiliado. Todos foram unânimes em afirmar que a inibição de Paula era uma questão do ambiente e falta de tratamento adequado. Porém, não era caso para a psicopatologia.
Em seguida, fomos falar à Imã Superiora do Instituto Santa Maria, a quem expusemos o ocorrido. Ela mostrando, como sempre, verdadeira compreensão, prontificou-se a admitir Paula no Instituto, sob a condição de que o diretor da Instituição X se comprometesse a recebe-la de volta, caso Paula não se adaptas¬se ao ambiente do Instituto ou não possuísse nenhuma capacidade de aprendizagem.
Em dia marcado, entrevistamo-nos com o Dr. Maciel, que nos forneceu a síntese rnédico-psicopedagógica, que vamos transcrever, e, com o sr. diretor da Instituição X, a quem ex¬pusemos as condições de admissão da menina no Instituto Santa Maria. Ficou, então, resolvido que Paula seria encaminhada àquele Instituto, em caráter experimental.
SÍNTESE MÉDICO-PSICOPEDAGÓGICA
Do menor: Paula de Souza, parda, brasileira, de 11 anos de idade, natural de B. neste Esta¬do.
Motivo de internação:
I - Antecedentes hereditários - PAI: João de Souza, pardo, ferroviário, alfabetizado, de boa saúde. MÃE: Maria de Souza, falecida (“causa mortis”, ignorada), era parda, analfabeta, de prendas domesticas.
II - Condições sociais:
a) Família: legalmente unida, organizada, porém desagregada em virtude do falecimento da genitora. Foi por esse motivo internada no Colégio de Jesus, Maria, José, onde ainda se acha uma sua irmã. Por ser cega foi encaminhada a este Serviço para ulterior destino.
b) Ambiente do lar: até o falecimento da genitora, bom.
III - ANTECEDENTES PESSOAIS
a) - evolução e dados clínicos: é a terceira filha de uma prole de cinco. Já teve as moléstias peculiares à infância, tendo sua cegueira aparecido após o sarampo (sic). Ausência de enurese noturna. Esteve internada no Hospital Emílio Ribas (suspeita de varíola).
b) - Instintos: de conservação – normal; sexual – normal; social - normal.
c) - Atitude social: é meiga e dócil. Tímida e, por vezes, inibida. Capaz de disciplina e cooperação.
d) - Temperamento e caráter: humor débil, com tendência a introversão. Emotiva.
IV - ESTADO ATUAL
a) Constituição: parda, brevilínea-hiperestênica. ¬mexocéfalo de massa corporal excedente. Nutrição regular.
b) Índices antropométricos: estatura 1,350 mm; peso: 32 quilos; perímetro torácico médio 695 mm.
c) Sensibilidade sensorial: visão prejudicada totalmente.
d) Dados clínicos: aparelhos e sistemas livres de qualquer dado digno de nota. Amaurose.
e) Dados psicológicos: inteligência - é suficiente intelectual, boa imaginação criadora, vocabulário apreciável, séries ideológicas simples, boa memória, raciocínio íntegro. Respostas adequadas. Boa orientação no tempo e no espaço. A menor identifica os objetos e as pessoas que a cercam. Processo psicomotores: normopsíquico. Temperamento e caráter: é amável e adaptável. “Rapport” – satisfatório -espontânea - Pouco loquaz. Gesticulação e mímica fisionômica relativamente pobre, mas expressivas, voz um tanto restringida, fácil comunicação dos sentimentos, discreta disforia depressiva, atribuível a sua condição especial de cega.
V - ATITUDE SOCIAL
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VI - APTIDÃO E VOCAÇÃO
A menor, nos exames de que foi submetida, revelou-se capaz de aprendizagem, desde que convenientemente ministrada.
VII - ESCOLARIDADE
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VIII - DADOS PSIQUIÁTRICOS
Nada de anormal foi constatado, levando-se em conta sua situação de cega, que até o momento não esteve em ambiente adequado, onde pudesse desenvolver suas aptidões.
IX - DIAGNÓSTICO
Emotiva, temperamento com tendência para a introversão. Suficiente intelectual, abandonada, cega.
X – PERICULOSIDADE
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XI - OBSERVAÇÕES
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XII - INDICAÇÕES
Instrução e educação em institutos para cegos”.
Preenchendo os requisites exigidos pelo Instituto Santa Maria, Paula foi nele admitida. No início, Paula, que fora relegada à indolência e inutilidade por força do ambiente em que estivera colocada, sentiu dificuldades de adaptação. Assim, enquanto as outras crianças brincavam e entretinham-se em conversas, ou estavam em aulas ou nos estudos, Paula refugiava-se no dormitório, renitente em manter o seu comportamento adquirido. Embora o relatório médico afirmasse a não existência de enurese noturna, muitas foram as dificuldades surgidas para combater o seu vicio, naturalmente adquirido como conseqüência do defeituoso tratamento de até então.
Levada ao clínico da instituição, apresentou-se como portadora de verminose, tendo feito o tratamento reclamado pelo caso.
Temos mantido contato com Paula, tanto quanto nos é possível. Ultimamente, tem feito grandes progressos, o seu aspecto físico transformou-se. Está gorda e com boa aparência. Adquiriu hábitos de asseio, trazendo o vestidinho sempre limpo.Também se desenvolveu em sociabilidade. Tem suas amigas e já se integrou a comunidade colegial. Iniciou, com resultado, a aprendizagem do Braille.
Digno de nota é que, apesar da rejeição manifesta de seu pai, Paula sente saudades dele. A primeira pergunta que nos faz, sempre que a encontramos é “A senhora escreveu ao meu pai?”
Para satisfazer a este sadio desejo de Paula, tudo temos feito para descobrir o paradeiro do desejado, mas, ainda nada o conseguimos, Continuaremos a insistir, e, esperamos, em futuro próximo, poder alegra-la com notícias de que o encontramos. Enquanto aguardamos o momento feliz, tudo faremos para que sentindo nosso interesse por ela, Paula capacite-se de que alguém está se preocupando com o seu bem estar e a sua felicidade.
CASO DE ARTUR GONÇALVES
Manuel Gonçalves, pai de um menino cego de 12 anos, tendo conhecimento da existência da F.L.C.B., por intermédio de um dos funcionários do prédio em que ela está instalada, procurou-nos para que o orientássemos na educação do filho.
Manuel Gonçalves é funcionário de uma Companhia de Transportes. Pelo que pudemos apreender de suas palavras, parece-nos tratar-se de um bom homem, mas infelizmente, extremamente ignorante. Disse-nos possuir três filhos dos quais, o mais novo, Artur, atualmente com 12 anos, é cego. Acha que dos três filhos, este é o mais inteligente, mais alegre. Acrescentou que ele possui um dom extraordinário para música. Para reforçar sua afirmação ofereceu-nos uma fotografia, na qual Artur aparece como mestre de harmônica.
Ao perguntarmos sobre as possíveis causas da sua cegueira, disse-nos tratar-se de complicações provenientes de meningite e também de outras moléstias.
Manuel Gonçalves disse-nos que tudo tem feito, dentro de suas possibilidades, para satisfazer os desejos do filho. Com sacrifícios comprou uma rádio-vitrola e adquire todos os discos novos que aparecem. Artur só ouve e, em seguida, reproduz o que ouve em sua harmônica.
Manuel Gonçalves julga seu filho um verdadeiro gênio, pelo fato de ser capaz de tocar, vestir-se, andar sozinho por lugares conhecidos e de tudo o mais que fazem muitas outras pessoas privadas da visão.
Acrescentou, entretanto, que apesar de todas suas qualidades, Artur era ainda. Analfabeto. Desejava aproveitar sua inteligência, mas não queria separar-se dele. É este o motivo pelo qual ainda não procurara os meios para instrui-lo.
Procuramos sondá-lo a respeito do Instituto Santa Luzia. Verificamos que ele desconhecia esta obra e as suas finalidades. Em poucas palavras fizemos-lhe a descrição dela, explicando-lhe que o seu objetivo era o ensino de crianças cegas. Quando soube que as crianças deveriam permanecer internas na instituição, não se entusiasmou com a idéia. Talvez, isto aconteceu porque costuma levar o filho para tocar em casamentos, batizados e em outras festas que se realizam no seu bairro.
Como Manuel Gonçalves, ao relatar-nos a vida que levava seu filho, parecesse comprazer-se com os convites e com o sucesso do filho, achamos mais acertado não emitir qualquer opinião a respeito. Também não julgamos oportuno perguntar-lhe se a criança tirava proveito monetário dessas exibições, embora fosse essa nossa impressão.
Os primeiros contactos foram assim, aproveitados para entabular boas relações com o pai de Artur. Isto iria facilitar a continuação de nosso trabalho. Combinamos uma visita domiciliar. Quando chegamos à casa da família Gonçalves, fomos recebidas por Elza, mãe de Artur, senhora ainda moça, de aspecto agradável. Ao saber de quem se tratava fez-nos calorosa recepção.
Artur encontrava-se, nessa ocasião, em casa de uma tia em Vargem Grande, onde fora passar alguns dias em companhia de priminhos da sua idade.
Elza traz sua casa bem cuidada. Apesar da simplicidade, quase pobreza, seu lar oferece um ambiente acolhedor. Manuel, nesse dia, não estava trabalhando por se achar adoentado há quase uma semana. Quando nos reconheceu, demonstrou satisfação, lastimando que Artur estivesse ausente. Dissemos-lhe que não se preocupasse, porque estávamos satisfeitas em tê-lo encontrado e travado relações com sua esposa, que era muito simpática e gentil. Quanto a Artur, voltaríamos para conhece-lo quando regressasse do passeio. Isto aconteceu na semana seguinte.
Embora, com nossos protestos, Elza deixou a sala para ir fazer um café. A sós com Manuel, este começou a falar sobre os filhos. Diz que o mais velho, com dezesseis anos é muito ajuizado. Trabalha num escritório de advocacia e freqüenta a 2ª série ginasial de um curso noturno. O segundo, com quatorze anos, não é muito inteligente e.aplicado. Atualmente, repete o quarto ano primário e gosta muito das ruas. Para resolver esta situação o irmão mais velho, passou a levá-lo consigo para o trabalho. Assim, depois das aulas, o menino tem o seu tempo ocupado, prestando pequenos serviços no escritório. Elogiamos a atitude de seu filho mais velho e louvamos o interesse que demonstra pelo irmão. Também não podíamos deixar de aplaudir a sua, por procurar desenvolver em seus filhos, o amor ao trabalho e ao estudo porque só assim eles poderiam progredir.
Depois passou a falar sobre Artur, demonstrando muito sentimentalismo. Disse-nos ter pensado muito no seu internamento no colégio. Achava que isso seria melhor para o filho, mas que sentiria muita tristeza em separar-se dele.
Manuel, pelas suas condições econômicas, não podia pagar urna professora especializada que, particularmente oriente a educação de Artur. Procuramos explicar-lhe, mais uma vez, como funcionava o Instituto Santa Luzia. Neste ponto da conversa, Elza já se encontrava na sala, de volta com o café. Disse-nos que, de há muito, ouvira falar nesse estabelecimento. Pensava que o internamento de Artur era o melhor caminho a ser¬ seguido, em seu beneficio. Entretanto, não queria interferir nos planos do marido e no desejo do filho.
Manuel perguntou-nos se não seria possível sugerir que o colégio facilitasse a saída de Artur todos os sábados à tarde para voltar segunda feira, pela manhã. Prontificamo-nos a falar com a Diretora do Colégio, embora adiantássemos que não seria interessante procurar abrir aquela exceção. Todos os colégios possuem os seus regulamentos que devem ser cumpridos pa¬ra bom andamento de seus trabalhos. Manuel pareceu compreender o nosso ponto de vista, mas insistiu sobre aquela sugestão.
Elza serviu-nos um delicioso café, e a conversação desviou-se para os preços de gêneros de primeira necessidade e para as medidas que ela, como boa dona de casa, tomava para fazer economia.
Agradecendo, despedimo-nos e prometemos voltar para avistarmos com Artur.
Ao fazermos a segunda visita, fomos calorosamente recebidas por Elza, que preparava o almoço. Artur já regressara do passeio. Ao perceber nossa presença cumprimentou-nos com muita desenvoltura. É um menino bem desenvolvido para a sua idade. Os dentes irregulares e todo seu aspecto prenuncia o início da puberdade.
Um dos olhos fora enucleado e o outro se apresentava muito saliente, o que dava a seu rosto um aspecto desagradável.
Ao procurarmos nos aproximar de Artur, este se colocou muito a vontade, dizendo que queria nos conhecer. (Este fato deu-nos a impressão que a nossa pessoa já havia sido objeto de conversa de toda família). Dissemos-lhe que este também era o nosso desejo e que nos sentíamos contentes em encontra-lo.
Disse-nos que voltara logo do passeio, porque sentira muitas saudades do “meu pai e da minha me”. Em seguida, indagou de nós se gostaríamos de ouvi-lo tocar harmônica. Como disséssemos que sim, foi para o interior da casa donde voltou com seu instrumento. Sentou-se numa cadeira baixa e posse a executar algumas valsinhas conhecidas. Ao terminar, contou-nos que participara do um concurso. Entendia, porém, que fora injustamente classificado em quarto lugar, pois a sua colocação deveria ser em segundo. Justificou o caso, dizendo que, geralmente, nessas ocasiões, existam protegidos que precisam ser contemplados.
Assumindo uma atitude do quem trata de negócios, disse-nos que não estava com vontade de ir pro Colégio, embora isto fosse necessário, porque precisava aprender alguma coisa. Porém, isto iria depender das "conveniências".
Perguntamos-lhe quais eram essas "conveniências”. Respondeu-nos: "as saídas aos sábados é o preço".
Começando por dizer-lhe que ele era um menino inteligente, capaz de compreender-nos e de expressar sua opinião a respeito das coisas, fomos lhe explicando toda a vida do Instituto Santa Luzia, as condições de admissão e os regulamentos, Procuramos mostrar-lhe que também as Instituições tinham suas exigências para receber alunos. Artur ouviu com atenção. Ao saber que existiam meninas internas, exclamou: "Oba! Então eu vou mesmo”.
Pareceu-nos que Artur, como sou pai, está convencido de que é um prodígio diante do que realiza na rotina de sua vida cotidiana, O nosso juízo decorre do que nos disse: "Não darei nenhum trabalho no colégio, porque sei fazer tudo sozinho”. Procuramos, com jeito, mostrar-lhe que todas as crianças que se acham no colégio, também fazem as coisas sozinhas.
Elza, que estava ao lado e observava o filho, disse-nos: "existe mais uma dificuldade que eu preciso lhe expor. Artur costuma, uma vez por mês, sentir-se mal, sendo necessário passar um dia na cama. Atualmente a sua indisposição tem se repetido mais espaçadamente, graças ao tratamento de um certo senhor”. Como procurássemos colher mais informes a respeito dessa "indisposição", provocamos explicações de Artur que nos disse: “não é nada; apenas fico tomado, por algum tempo e, logo,tudo se normaliza".
Não fizemos comentários, aparentando aceitar a explicação. Suspeitamos, entretanto, tratar-se de crises epiléticas, juízo este que, posteriormente, confirmou-se.
Elza continuou: “A senhora sabe; nós os pobres geralmente, somos ignorantes e nem sempre temos quem nos oriente. Desde o início, o que tínhamos que fazer para bem de Artur era procurar educa-lo convenientemente, mas como somos muito apegados à ele, fomos deixando o tempo passar”. Tudo fizemos para demonstrar a Elza, que a situação não fora criada pela ignorância ou pobreza deles. Ao contrário, a sua atitude e a de seu marido eram muito compreensíveis e naturalmente humanas.
Perguntamos-lhe se não gostaria de ir em companhia de Artur e Manuel, fazer uma visita ao Instituto. Depois disso, de acordo com as impressões, os três resolveriam sobre o que deveria ser feito, Nós, por nossa vez, desde que eles achassem oportuno, falaríamos com a Diretora do Colégio, sobre o caso,
Elza achou excelente a idéia. Ficou de combinar com o marido o dia da visita e de comunicar-nos o resultado. Falamos com a Diretora do Instituto Santa Luzia, a quem expusemos o caso. Prontificou-se ela a receber Artur, acreditando que ele se adaptaria ao Colégio, uma vez que se tratava de um menino vivo e inteligente. Não seria possível, porém, satisfazer ao desejo de Manuel, quanto ás saídas de Artur porque isto seria contrário ao regulamento.
Achou interessante que tivéssemos proposto aos pais de Artur uma visita à instituição.
Uma semana depois, fomos procuradas por Manuel e, então, transmitimos-lhe os resultados da nossa entrevista com a Diretora.
Seu filho seria recebido no estabelecimento desde que satisfizesse os requisites exigidos. Nesta ocasião, procuramos, objetivamente, mostrar-lhe as desvantagens do internamento, isto porque somos fundamentalmente contra a separação da criança do ambiente familiar. Acentuamos, entretanto, que, no caso de Artur, esta medida ofereceria, entre outras, a possibilidade do aproveitamento dos dotes musicais de Artur, porque a instituição possui bons mestres de música. A situação poderia modificar-se para o futuro, quando Artur pudesse ser encaminhado a uma classe Braille das que iriam funcionar no Instituto Caetano de Campos ou Es¬cola Normal Padre Anchieta. Voltando, então, ao seio da família, poderia fazer seu curso de música no Conservatório Dramático Musical de São Paulo, onde as pessoas cegas são recebidas em seus cursos regulares.Manuel ouviu-nos com atenção, fazendo com a cabeça sinais afirmativos, como quem concorda, ao mesmo tempo em que agradecia o interesse que estávamos tomando pelo seu filho, que era também de sua própria família.
Achou, contudo, que a hipotética freqüência de Artur às Classes Braille e ao Conservatório dependeria de uma companhia de confiança, o que, naturalmente, custaria dinheiro.
Dissemos-lhe, então, que não tomasse uma resolução apressada, pois deveria refletir calmamente sobre o assunto. Quando chegasse a uma conclusão definitiva, que nos procurasse.
Como sempre, estaríamos prontas a auxilia-lo no que fosse necessário.
Continuamos a lhe dizer que a nossa impressão sobre seu lar, sobre a constituição e a vida de sua família, fora das melhores. Manuel declarou-nos que, embora com algumas dificuldades, conseguia viver bem com os seus.
Perguntamos-lhe se costuma, periodicamente, levar Artur a um oculista para cientificar-se do estado de sua vista. Respondeu-nos negativamente, demonstrando, até, um certo ceticismo e má vontade para com os médicos. Acrescentou-nos temer que algum deles resolvesse fazer uma intervenção cirúrgica no olho do menino, e, como conseqüência, perdesse ele a percepção da luz, das imagens, dos vultos que ainda possui.
Procuramos mostrar-lhe que não se tratava de operações, mas, simplesmente de exames sistemáticos destinados a vigiar o estado do olho do menino. Tais exames poderiam evitar surpresas desagradáveis. Explicamos-lhe que, mesmo as pessoas, irremediavelmente cegas, devem ter este cuidado. É uma medida que, muitas vezes, previne complicações de conseqüências desastrosas para essas pessoas.
Dissemos-lhe, ainda que, pela natureza de nosso trabalho, conhecemos o valor inestimável daquela medida, e que é nosso dever chamar a atenção de nossos clientes para uma tal norma de conduta. Como nos impressionara a dilatação do globo ocular de Artur, julgamos necessário talar-lhe sobre isso.
Manuel, finalmente, pareceu compreender. Disse-nos que qualquer dia iria a Campinas, onde se encontram os médicos de sua confiança ou procuraria o Dr. M. Silva da Companhia de Transportes. Contou-nos, em seguida que sua esposa tivera, por causa do filho, uma altercação com este médico e lhe dirigira palavras desagradáveis e até ofensivas. O Dr. M. Silva, porém, ficou impassível. Reforçava-se, cada vez mais, a nossa primeira impressão de que Manuel e sua mulher, embora bondosos e bem intencionados, são bastante ignorantes.
Acreditamos que o êxito de nossos entendimentos com Manuel foi devido ao cuidado que sempre tivemos ao dar-lhe orientação. Evitamos sempre lhe fazer perguntas que parecessem indiscretas, ao mesmo tempo em que demonstrávamos vivo interesse em auxiliá-lo, evitando intrometemo-nos nas suas decisões e na vida de sua família.
Durante esta entrevista, aproveitamos preencher o questionário da F.L.C.B., tendo, previamente, explicado a Manuel a sua finalidade.
Finda a entrevista, Manuel Gonçalves entregou-nos o convite que transcrevemos:
“Convite Familiar”.
Cr$ 10.00
O Clube Atlético Paulista tem o prazer de convidar V.S. e Exma. Família para o festival dançante a realizar-se no dia 23 de setembro de 1950 às 19,30 horas.
O baile será em benefício do "garoto ceguinho da harmônica” que em companhia de seu irmão forma a dupla “Irmãos G”.
Antes de ser realizado o baile haverá um grandioso show com a participação dos irmãos G. e outros em duplas caipiras”.
Este convite confirmou o que, desde o principio suspeitávamos. Artur recebe dinheiro em troca de suas audições. Manuel parece aceitar a situação mui naturalmente e até com certa vaidade. Explicou-nos que o dinheiro é guardado para proveito único do filho. Insistiu para que comparecêssemos ao festival, dizendo que sentir-se-ia muito feliz se estivéssemos presentes. Apresentamos nossas desculpas com muito cuidado, porque não nos seria possível satisfazê-lo.
Manuel dá a impressão de ser bastante emotivo e sentimental. Nesse dia, ao despedir-se de nós, abraçou-nos com os olhos cheios de lágrimas.
Ainda, numa tentativa de resolver o caso de Ar-tur sem o seu internamento dIrIgimo-nos à Da. Marta da B.I., solicitando-lhe a sua colaboração no sentido do dar algumas aulas de Braille a Artur. Nossa iniciativa não foi coroada de êxito. Da. Marta vive muito sobrecarregada de trabalhos e não lhe era possível assumir mais esta responsabilidade.
Depois desse malogrado entendimento, fomos procuradas por Elza, mãe de Artur, que veio combinar conosco a visita ao Instituto Santa Luzia.
Manuel, a esposa, uma sua irmã e Artur compareceram, pontualmente, no lugar marcado para o encontro. Durante, aproximadamente, três horas, acompanhados por nós e por uma das pessoas do estabelecimento, percorreram as suas dependências ao mesmo tempo em que lhes ia explicando, minuciosamente, todos os métodos e processos adotados pela obra.
Todos demonstraram estar bem impressionados com o que tiveram a oportunidade de ver e conhecer.
Uma vez terminada a visita, Manuel foi atendido pela Diretora, quando, então, discutiram miudamente as condições do internamento de Artur. Ficou estabelecido que o menino seria recebido no mês de março de 1951, porque o Instituto estava em férias. Artur mostrou-se muito animado com rumo das coisas.
Como o estabelecimento exige certos exames médicos, aconselhamos a Manuel que solicitasse do Serviço Social da Companhia em que trabalha, a necessária orientação junto ao seu serviço médico, através do qual poderia conseguir os exames exigidos. Como Artur, toda a família parecia muito animada e satisfeita.
Dias depois, por telefone, fomos informadas pela Assistente Social, chefe daquele serviço que Artur se submetera a um exame oftalmológico. O oculista afirmara que Artur, além de ¬cegueira total do olho que lhe restar era portador de dois gravíssimos focos de infecção, sendo necessária a imediata enucleação do olho.
Acrescentou-nos que o Dr. Almeida do Serviço Médico pedia que entrássemos imediatamente em contacto com ele.
O Dr. Almeida desejava ouvir-nos sobre como dar a notícia a Manuel e como conseguir dele o seu consentimento para o internamento do menino, no Hospital das Clinicas, onde deve¬ria realizar-se a operação.
Como conhecíamos muito bem a opinião de Manuel sobre os médicos, principalmente sobre os oculistas, procuramos mostrar ao Dr. Almeida, da melhor maneira possível, a delicadeza da situação, pois, tínhamos certeza que a reação da família seria violenta. Respondeu-nos que pedira nossa opinião justamente por isso, mas que resolvera tomar a seu cargo essa incumbência, porque Elza e o filho estavam no consultório, naquele momento. No caso de surgirem dificuldades, avisar-nos-ia imediata¬mente.
Diante de tal situação, concordamos com o Dr. Almeida para que ficasse a seu cargo dar a notícia aos pais de Artur.
Resolvemos, porém, fazer, logo depois, uma visita a estes para verificar como fora a aceita a situação.
Em casa de Manuel ficamos sabendo, por sua esposa, que a idéia da operação tinha sido um tanto precipitada, por haver partido de um módico jovem e pouco experiente.
Como se disse, Artur tem alguma percepção de luz, sombra e cor, por meio do olho que lhe resta. Quando o Dr. Almeida afirmou que Artur nada enxergava, disse-nos Elza que se estabeleceu uma verdadeira polêmica entre o médico e a família. Aquele, para resolver a situação, chamou outro oculista mais experimentado no intuito de ver confirmada a sua opinião. Entretanto, o médico chamado concordou com a família de Artur que possuía um diagnóstico feito no Instituto Penido Bournier, de Campinas. Embora admitisse a existência dos focos de infecção que podem acarretar conseqüências de extrema gravidade, julgava que o menino deveria ficar em observação médica para que fosse socorrido na primeira manifestação anormal.
Ao nos relatar isto, Elza pareceu compreender bem a situação, ponderando-nos que, enquanto Artur estivesse em casa ela estaria atenta para qualquer modificação que se operasse no olho do menino. Uma vez no colégio, o oculista da instituição poderia tê-lo sob seus cuidados.
Conversamos demoradamente sobre o assunto, apontando-lhe perigos a que o menino estava exposto. Não tocamos, porém, na questão da operação, mesmo porque achamos quase impossível conseguir da família a autorização para enucleação do olho de Artur que não está de todo perdido, ainda.
Artur continuou muito entusiasmado com a idéia de ir para o colégio.
Fizemos-lhe presente de uma reglete, uma cartilha e um modelo do alfabeto Braille para que comece o seu. treinamento, antes da sua ida para o colégio. Manuel entregou-nos os atestados médicos e, como imagináramos nos nossos primeiros contatos com o caso, Artur é portador de perturbações epileptiformes, que, na opinião médica, não são tão graves que possam impedir a sua admissão ao colégio.
Com a reglete e a cartilha que lhe demos, Artur passou a dominar sozinho todo o alfabeto Braille.
Como vemos, a família e a criança, levados a raciocinar sobre as suas próprias necessidades, vão procurando, por si as soluções de seus problemas e, conseqüentemente, aceitando as situações com naturalidade.
Artur foi, afinal, internado. Acompanhamos a mãe e toda a família nos momentos mais difíceis da transferência da criança para o colégio. Como todos estivessem emocionalmente preparados para enfrentar a situação, tudo se processou normalmente, sem lágrimas ou crises nervosas.
Artur está se adaptando perfeitamente ao colégio, e, dada a sua extrema vivacidade, o seu progresso tem sido muito apreciável.
CASO DE MATILDE LOPES
Mauro Lopes nos foi encaminhado pela L.B.A., por ser completamente cego do olho direito, e tendo o esquerdo com visão muito diminuída.
Apresentou-se com muita timidez, pobremente vestido, mas com asseio. É magro, moreno, de estatura média, barba cerrada, por fazer, e, todo seu aspecto revela ausência de saúde e miséria extrema.
Acolhemo-lo cordialmente, procurando colocá-lo à vontade. Mauro Lopes é o tipo clássico de nossos caipiras. Fala pouco e mal. Quase não conhece S, Paulo e por isso sente grande dificuldade em orientar-se. Confunde nomes de ruas como de pessoas. Mesmo com esforço, suas explicações são difíceis de serem compreendidas.
Tem 40 anos de idade. É casado apenas no religioso. Tem seis filhos, sendo dois meninos e quatro meninas. Destas, Matilde, com doze anos de idade, era cega.
Tivemos a impressão que a cegueira de Mauro deve ter sido produzida por úlcera. As explicações que nos deu a respeito da causa da sua como também da cegueira da filha não foram satisfatórias. Além da moléstia dos olhos, Mauro tem uma séria afecção nos rins, motivo pelo qual está em tratamento num dos nossos hospitais. Diz que sua esposa também vive constante¬mente doente.
É trabalhador de roça. Nasceu na Baia e residia numa cidade da Alta Paulista, onde vivia razoavelmente bem, mesmo depois da cegueira. Atraído pelas vantagens da vida urbana veio para S. Paulo, e aqui tem sofrido muito. Não possui outra habilidade senão a de trabalhador da lavoura, por isso muitas são as dificuldades que tem enfrentado.
Morava, então, numa vila distante, nos arredores e da Capital, ocupando com a família, um barracão próximo à chácara em que trabalhava. Pelas indicações que nos forneceu não foi possível localizarmos sua residência. Como era analfabeto, pedimos-lhe que nos desse o seu endereço, por intermédio de alguém que o reportasse, por escrito, para que lhe fizéssemos urna visita.
Pediu-nos, insistentemente, que lhe arranjássemos um emprego, onde pudesse ganhar melhor salário.
A situação que teríamos de enfrentar era difícil, pois vários fatores concorriam para isso. Mauro, como vimos, era analfabeto, extremamente ignorante e sem iniciativa. Acostumara a trabalhos braçais e não tinha outra habilidade além do manejo da enxada. Evadido da zona rural, completamente aturdido com a vida complicada da nossa Capital, que não era, absolutamente, a terra da promissão com que sonhara, Mauro sentia-se inseguro. Obrigado a recorrer às obras de assistência, via escoar o tempo diante de uma burocracia que o confundia e o amedrontava.
Tudo isso era agravado por sua cegueira e pela saúde abalada que tornavam suas possibilidades ainda mais limitadas.
Vendo suas pretensões sempre frustradas, seu moral foi decaindo, a ponto de Mauro aceitar uma atitude de impotência, tornando-se fatalista diante das adversidades. Mesmo que tudo fizéssemos, não nos seria possível arranjar imediatamente um emprego a um individuo naquelas condições.
Explicamos-lhe que existe entre nós uma instituição para ensino de cegos, onde sua filha poderia ser colocada, se ele concordasse. Abordamos este assunto, a vista do estado de indigência de Mauro, que não estava em condições de poder proporcionar a sua filha um ambiente favorável para o seu desenvolvimento normal. Geralmente, as crianças cegas, que vivem num ambiente deficiente e impróprio por falta de estímulos e motivação, atingem tal grau de deficiência física e mental, que parecem aos olhos dos menos avisados verdadeiros débeis ou doentes mentais. Assim, entre um e outro mal, a institucionalização seria, a nosso ver, o menos prejudicial àquela criança.
Entramos nesse assunto, com muito cuidado, para não ferir as suscetibilidades de nosso entrevistado. Falamos-lhe, preliminarmente, nas atividades e nas vantagens do colégio. Mesmo assim, Mauro comoveu-se, e, com lágrimas nos olhos disse-nos “levarei a menina ao oculista e se ele me destruir as esperanças, empregá-la-ei à senhora”.
Apressamo-nos em esclarecê-lo que a criança não seria entregue a nós nem a outra qualquer pessoa. Ele, como pai, se esta fosse a sua vontade, a matricularia num colégio nos moldes daquilo que expusemos. Ali, poderia visitá-la todos os domingos, levá-la uma vez por mês para passar os sábados e domingos em casa e retira-la dali, definitivamente, quando quisesse.
Quanto a nós, o que deveríamos fazer era estar em contacto com a menina todas as vezes que fosse necessário para atender ao seu bem estar.
Perguntamos-lhe, várias vezes, se havíamos falado com clareza e se ele compreendera o que queríamos dizer. Mauro respondeu afirmativamente, dizendo que, desde o princípio, compreendera que estávamos com a razão, mas, se assim ele se manifestava era porque adorava seus filhos.
Ao lhe dizermos que sua atitude era das mais louváveis, Mauro contou-nos que algumas irmãs de Caridade, naturalmente impressionadas pela sua miséria, quiseram levar os seus filhos para um asilo. Compreendemos, então, o motivo da sua reação quando lhe falamos a respeito de sua filha cega.
Depois de algum tempo, Mauro apareceu na F.L.C.B. em companhia da filha, dizendo que ela fora examinada por vários oculistas e todos afirmaram que era irremediável sua cegueira. Acrescentou que resolvera mudar-se para o interior, onde a vida poderia ser mais suave e por isso viera nos procurar para entregar a filha.
Matilde tem o desenvolvimento físico de uma criança de seis anos. Ventre proeminente e a pele coberta de erupções. Sobre a cabeça coberta de feridas, amarraram-lhe um lenço de cores berrantes. O seu aspecto era o de um pequeno monstro. Falava bem e não nos pareceu, mesmo à primeira vista, que fosse uma débil mental.
Acreditamos que o seu estado físico era causado por fome conseqüente à miséria em que vivia a família.
Como o pai de Matilde insistisse para que ficássemos, de qualquer forma, com ela, explicamos-lhe que, no momento, isto não seria possível, mas, que tomaríamos as providências para resolver a situação.
Mauro, como vimos, é muito afeiçoado à Matilde, filha de seu matrimônio anterior. Aceita sua deficiência, com o mesmo fatalismo com que aceita a fome e a vida em que vive. Diz que sua atual esposa também estima a criança, mas agora ambos compreenderam que, somente num lugar adequado, a menina poderia receber a educação de que necessita. Nisto, Mauro mostrou grande compreensão.
Ficou, então, estabelecido, que entraríamos em contato com o Instituto Santa Luzia para garantir uma vaga a Matilde, mesmo porque não seria possível interná-la sem um prévio tratamento médico.
Entramos em entendimento com a Diretoria do Instituto Santa Luzia, que se comprometeu a receber Matilde, depois de examinada e de curada da moléstia de pele ou de outras, que por ventura, estivesse atacada.
Quando fomos, novamente, procuradas por Mauro, conversamos sobre estas medidas e resolvemos interná-la num hospital, onde pudesse ser tratada uma vez que o pai não podia acompanhar a filha a um ambulatório, por serem todos distantes, faltar-lhe recursos para condução e não poder faltar ao trabalho.
Aplaudimos a idéia da volta de Mauro à vida da lavoura no interior do Estado, uma vez que possui visão suficiente para ali exercer as suas atividades.
Como planejáramos, Matilde foi internada num hospital de crianças, onde permanecerá até que esteja em condições de ser transferida para o Instituto Santa Luzia.
V - A CEGUEIRA RECENTE
“A primeira necessidade da pessoa portadora de cegueira recente é a de recobrar a confiança em si mesma”.
I – Considerações
Ao perderem a vista as pessoas são geralmente acometidas de horror e desespero; o choque moral é dos mais violento.
A revolta, a idéia de suicídio, a rejeição da religião e de outros valores espirituais, são algumas das manifestações mais observadas.
Berthold Lowenfeld assim se expressa: -“Como em toda experiência extrema, a personalidade determina as reações do indivíduo à cegueira. Consideramos personalidade, a organização psicofísica do indivíduo modificada pelas experiências da vida. Apesar da gravidade da reação ao advento da cegueira, a natureza humana é na maioria dos casos suficientemente forte para reabilitar-se e começar o reajustamento. Não há um número considerável de suicídios, nem existem muitos indivíduos que somente por causa da cegueira, não readquiriram o desejo de viver”.
Mas, para readquirir confiança em si mesma, reorganizar suas habilidades para o reajustamento emocional e físico, a pessoa cega necessita de assistência especializada, assim como auxílio específico para o aprendizado de certas habilidades.
Partindo do princípio de que as pessoas cegas devem ser consideradas como as demais não cegas, tanto quanto possível, para continuar sua vida dentro da sociedade, toda a habilidade deve ser empregada no processo de reajustamento daqueles que perderam a vista recentemente.
O ideal para o início do trabalho de reajustamento dessas pessoas seria a época da hospitalização ou do aparecimento da moléstia que fatalmente as conduziu à cegueira, para que se possa estabelecer uma ligação entre a vida com vista e a vida sem ela.
Infelizmente, este não é o nosso caso. Os nossos serviços são procurados, quando todos os recursos falharam e, por acaso, descobrem que existe uma "certa pessoa" que trata de negócios de "cegos". Não sabem, ao certo, o que faz essa pessoa, ou o que pretende deles. Quase nunca aparecem naquela época oportuna.
No momento em que a pessoa, apavorada, descobre que a situação é irremediável, deveria ter a seu lado alguém que, comprovadamente, seja capaz de convencê-la que a cegueira não significa a destruição da vida e que possa evitar que ela mergulhe na dor, no desconsolo e na apatia. Para isso, é indispensável que a faça compreender que a cegueira é apenas una deficiência e que pode ser amenizada por muitos e variados meios, dependendo isto da sua atitude para consigo mesmo e para com sua condição de cega.
Tanto o cliente necessita dessa assistência como a sua família, pois geralmente, esta é tão afetada quanto ele.
Contaram-nos que uma senhora, em idade avançada, cegou-se repentinamente em conseqüência de um medicamento mal aplicado (explicação dada por membro da família). Esta mulher viveu ainda treze anos, dominada do maior desespero e revolta, seguida pela família que até hoje não pode ouvir falar no caso sem que seja tomada de crises emocionais.
Imaginamos o que representaram esses treze anos de vida para ela e para os membros de sua família, quando com alguns oportunos esclarecimentos, a maioria dos problemas criados poderiam ser solucionados.
Os indivíduos, em geral, como já dissemos no início deste trabalho, têm, a respeito da cegueira, uma idéia falsa, acompanhada de piedade e comiseração e, desde que se considerem um dentre os cegos, transferem para si mesmos, todos os sentimentos negativos que disso resultam.
As reações individuais, as da família e da sociedade, em geral, tornam a situação extremamente delicada, e esta deve ser enfrentada pelo Assistente Social com clarividência e segurança.
A pessoa cega deverá ser física e emocionalmente preparada para combater e destruir a sentimental e vigilante assistência não só da família como das pessoas amigas. Essa deformada assistência só serve para destruir a independência, o espírito de iniciativa e o respeito próprio que a pessoa cega deve a si mesma.
Através de exemplos e sugestões concretos, o individuo consegue convencer-se de que não necessita mudar as bases de sua existência para continuar a viver, mas que lhe basta ajustara-se às novas circunstancias que lhe foram impostas pela cegueira.
O caso de que, em seguida, vamos tratar, revela como uma simples troca de idéias com o cliente, pode dar novo rumo a uma situação que se apresentava de inicio, muito difícil.
II - CASO DE DONA BERTA
A Sra. Wagner procurou-nos no escritório da F.L.C.B. a fim de que a auxiliássemos a resolver o caso de sua cunhada Da. Berta. Inteligente, culta e compreensiva, expôs-nos, com segurança, os motivos que a lavaram a solicitar nossa colaboração. Sua cunhada está gradativamente, perdendo a vista, em conseqüência de uma degenerescência da retina e, por este e outros mais motivos, acha-se em completo desajustamento emocional.
Narrou-nos a Sra. Wagner o seguinte: Da. Berta, atualmente, conta 52 anos de idade. Austríaca de origem levou urna vida bastante infeliz em companhia do marido, homem pouco escrupuloso, que a dominava completamente. Após o casamento, que se realizou na sua terra natal, passou vários anos num país oriental, regressando mais tarde, sozinha, pois o marido a abandonara.
Veio em seguida para o Brasil, onde já se encontrava parte de sua família. Na mesma ocasião, seu marido também havia regressado à Áustria, ali se unindo a outra mulher, da qual, posteriormente, teve alguns filhos.
Da. Berta não ignorava esta situação. Mas,como dedicava grande afeição ao marido, vivia aferrada à idéia quase mórbida, de que um dia este homem voltaria a interferir na sua vida. Quatro anos depois do advento da Segunda Guerra Mundial, teve notícias da morte do marido. Isto a abalou profundamente. Tomou luto e cultivou sua dor.
Algum tempo depois, começou a sentir-se doente apresentando certos sintomas, que levaram dois de nossos melhores cirurgiões a opera-la. Nas intervenções que levaram a efeito, os médicos não encontraram nenhuma anormalidade, perceberam, então, tratar-se de um caso psicopatológico. Foi por isso encaminhada a um psiquiatra e deste a um psicanalista, sob cujos cuidados ainda se encontra.
Concomitantemente, surgiram perturbações da vista. Como as duas primeiras intervenções cirúrgicas tivessem sido realizadas em virtude de um diagnóstico feito sob bases falsas e com resultados desagradáveis, tanto para os médicos como para a família de Da. Berta, as perturbações visuais, principalmente, a restrição do campo visual, foram tomadas, por um dos nossos melhores oftalmologistas, como sintomas de histeria.
Agravando-se mais tarde a situação, muitos outros oftalmologistas foram consultados. Todos chegaram, então, a uma mesma conclusão, isto é, de que se tratava de uma perturbação visual.
Numa tentativa de salvar os olhos, Da. Berta submeteu-se a duas operações de enxertos, mas os resultados não foram os esperados, por terem sido realizados um pouco tarde. Os médicos proferiram, então, o "veredictum" - "sua vista não melhoraria e todo esforço deveria ser empregado para que a moléstia estacionasse". O que lhe resta de visão, disse-nos a Sra. Wagner, permite que sua cunhada se locomova sozinha, tome bondes, ônibus e tratar de seus cuidados pessoais, sem auxilio estranho.
Da. Berta continuou a Sra. Wagner, que já não estava bem, desequilibrou-se completamente. Embora vivendo com suas irmãs, o ambiente familiar não é dos mais adequados para sua condição. Os diversos membros da família são suficientemente educados e controlados para se respeitarem e socorrerem mutuamente, quando necessário. Mas isto, do ponto de vista material. Mas, no tocante à estima, carinho, afinidade espiritual e tudo quanto possam tornar mais fácil a integração do individuo à vida, nada existe. Toleram-se porque a situação assim o exige.
A situação financeira da família não é má, porém o seu equilíbrio depende do trabalho de todos.
Da. Berta sempre trabalhou. Ocupava o cargo de chefe de secção de uma fábrica, tendo sob sua orientação. cem moças.Conquistou esta posição, porque conseguiu impor-se pela sua capacidade, fazendo-se respeitada dos patrões e dos empregados. O seu ordenado era bom, permitindo-lhe uma vida sem dificuldades financeiras.
Atualmente, como assegurada do I.A.P.I. Está recebendo o auxílio doença, o que lhe tem sido de grande valia, evitando que fique financeiramente dependente das irmãs.
A Sra. Wagner tudo tem feito para auxiliá-la em todas as contingências. As operações e maiores despesas com medicamentos e hospitais, têm sido pagas por ela. Percebendo que o desajustamento de Da. Berta cada vez mais se acentua, principalmente depois que sobreveio a sua cegueira e, sabendo, acidentalmente, do nosso trabalho, resolveu procurar-nos.
Acha que sua cunhada deve procurar um serviço qualquer, a título de terapia ocupacional, pois, ativa e independente como sempre foi, sente-se profundamente infeliz com a inatividade que lhe é imposta pelas circunstâncias, não conseguindo, assim, vencer o sentimento de inutilidade que a assaltou. Esta ocupação deveria ser, de preferência, fora do lar, para que ela se livre algumas horas por dia, do ambiente carregado da casa de suas irmãs.
A Sra. Wagner disse-nos que já lhe falou no aprendizado dos caracteres Braille. Entretanto, o oculista, diante do qual fora feita a sugestão, numa atitude, a nosso ver, bastante desconcertante e reveladora de pouca compreensão dos efeitos psicológicos acarretados pela cegueira, deu a sua opinião: - “Ainda não". Não voltou ao assunto, com receio de que isto pudesse agravar a situação da cunhada.
A Sra. Wagner desejava nossa opinião para poder orientar sua conduta diante de sua cunhada. Entendíamos que ela vinha fazendo o que melhor podia para auxiliá-la, assumindo uma atitude compreensiva e bem intencionada. Se com sua inteligência, cultura e boa vontade pouco tinha conseguido até então, não seríamos nós, através de insuficientes informações que haveríamos de emitir opinião definitiva sobre caso tão complexo e agravado por circunstâncias desfavoráveis, inclusive, por uma tendência neurótica.
Dissemos-lhe que, antes de mais nada, gostaríamos de entrar em contacto com a sua cunhada. Depois disto pensaríamos sobre o que de melhor poderia ser feito por ela, pela família e por nós, tendo em vista o seu reajustamento.
A Sra. Wagner concordou com a sugestão e marcamos uma entrevista para o dia seguinte, em sua residência, da qual Da. Berta também tomasse parte
Fomos cordialmente recebidas na confortável e acolhedora residência da Sra. Wagner.
Logo depois chegou D. Berta. Ela é alta, magra, vestida com simplicidade e certa elegância. Seus cabelos são brancos, repartidos ao meio, presos a nuca, com certa graça; suas feições são simpáticas e agradáveis. Além da acentuada magreza, sua aparência física nada apresenta de desarmoniozo. Começou a conversar num português com carregado sotaque germânico. Através de suas palavras, percebemos que a Sra. Berta é urna pessoa bem educada, culta e inteligente.
Contou parte dos fatos que nos foram revelados pela cunhada. Ao se referir aos seus problemas pessoais, começamos a perceber que, efetivamente, ela atravessa uma fase de grande desequilíbrio emocional. De forma alguma aceitava a perspectiva da cegueira; sob esse aspecto o seu desajuste é completo.
Procuramos, com certa cautela, insinuar-lhe que o grau de visão que lhe resta é ainda um mundo dentro das limitações visuais. Deverá seguir a risca, as prescrições médicas para que a moléstia estacione tal como pensa o seu médico.
Espontaneamente falou sobre o Braille, como um meio de preparar-se para conseguir empregos remunerados. Explicamos-lhe, então, o que é o Braille, seu mecanismo, suas utilidades e também as poucas possibilidades de alcançar, através do Braille, remunerações compensadoras.
Da. Berta pareceu desiludir-se. Acreditamos que, pela sua idade e condições psicológicas e dado o processo de aprendizagem do Braille, ela não conseguirá aprendê-lo. Mas, se ela investir nesse assunto, nada objetaremos. É verdade que a capacidade humana para a aprendizagem varia enormemente de indivíduo para indivíduo, e, muitas vezes a idade não intervem como fator decisivo. Talvez o caso de Da. Berta seja uma exceção.
Da. Berta nos falou do seu grande desejo de trabalhar, Julga, porém, que não se adaptará a trabalhos manuais porque nunca sentiu inclinação para eles, e exclui também a idéia de trabalho não remunerado. Quer uma ocupação com a remuneração mínima de Cr$ 1.000,00.
Procuramos demonstrar-lhe que os trabalhos que não exigem o uso da vista, são geralmente de caráter rotineiro e, de una certa maneira, monótonos e quase que, na sua totalidade são manuais.
Explicamos-lhe ainda que como beneficiária do I.A.P.I., está recebendo auxílio doença. Este ser-lhe-ia suspenso, uma vez que viesse a ocupar-se de qualquer trabalho no comércio ou na indústria, pois, trabalhando para qualquer empresa, teria que ser contribuinte de determinado I.A.P.
Da. Berta conhece bem esta situação, mas quer ser aposentada. Isto deverá acontecer em maio. Ao contrario de que nos dissera sua cunhada, acha que seria interessante algum trabalho que pudesse ser executado em casa. Nessa ocasião, a Sra. Wagner, que assistia a conversa, interveio para mostrar as vantagens do trabalho fora de casa. Da. Berta concordou com a cunhada, mas acrescentou, que certos motivos, obrigavam-na a ter aquela preferência. Não perguntamos quais eram esses motivos, porque isto foi dito à Sra. Wagner, como que atendendo a certa determinação.
Dissemos-lhe que, estando excluída qualquer possibilidade de trabalho manual e não remunerado, ser-nos-ia muito mais difícil auxilia-ia. Entretanto, não nos seria impossível tentar essa via.
Seria necessário, porém, que a sua participação fosse tão intensa quanto o nosso desejo de colaborar. Esperávamos que ela mesma apresentasse as sugestões que lhe ocorressem, sem tomar uma atitude predeterminada de querer ou não querer isto ou aquilo. Convinha que se inclinasse, livremente, a aceitar a situação tal como se lhe apresentava objetivamente, aproveitando, da melhor maneira possível, as oportunidades que se apresentem.
Durante a entrevista, Da. Berta teve varias crises de choro. Não por insensibilidade, mas para auxiliá-la a readquirir o equilíbrio, fingimos não perceber as suas lagrimas, Foi uma boa medida, porque Da. Berta logo se refazia, voltando a conversar com mais calma.
Da. Berta dedica grande afeição e gratidão a Sra. Wagner, que lhe ampara nas horas amargas.
Sugerimos-lhe que nos procurasse no escritório da F.L.C.B., com a idéia de conversarmos a sós. Da. Berta aceitou a idéia, com animação.
No dia seguinte, recebemos um telefonema da Sra. Wagner, que nos agradecia a visita da véspera, ao mesmo tempo em que nos informava que a disposição de Da. Berta para conosco era das melhores.
Evidentemente, as vicissitudes enfrentadas por Da. Berta no decorrer de sua vida estão influindo no seu desajustamento. Mas o clímax da sua situação foi atingido pela perda da visão.
Acostumada a enfrentar seus problemas com firme determinação e força de vontade, revolta-se ao defrontar um empecilho físico e irremediável, que a conduz à inatividade e à dependência, numa idade em que é difícil novas adaptações.
Suas lutas e conflitos, que foram muitos e graves, vêem constantemente à tona e Da. Berta não consegue dominar a nova situação.
No que se refere ao ajustamento à cegueira, o caso de Da. Berta assume as proporções do que os americanos chamam “les ving alone", por isso não insistimos nesse ponto.
Procuraremos não perder contacto com este caso. Tudo faremos para orientá-lo no sentido de que, aos poucos, Da. Berta vá readquirindo o sentido de segurança. Para isso procuraremos, tanto quanto possível, ocupá-la com alguma coisa que não sejam os seus próprios problemas pessoais. Foi esta a colaboração que prometemos a Sra. Wagner.
Acreditamos que o reajustamento de Da. Berta será lento, mas será a terapia ocupacional o único meio de livra-la da neurose.
Posteriormente, recebemos uma carta da Sra.Wagner cujo trecho transcreveremos, a seguir, mostrando a solução satisfatória do caso de Da. Berta:
“De certo a senhora está interessada em saber de minha cunhada. Espertada pela conversação que teve com a senhora e favorecida por um dos imprevistos que a vida apresenta, ela agora tona conta da casa onde mora com a irmã.
Tomar conta, no sentido mais amplo, pois não tem empregada e ela arruma, cozinha e trabalha no jardim, o que ela gosta muito. Nestas circunstâncias, o seu estado psíquico mudou consideravelmente, para melhor. Com uma ocupação certa e com responsabilidades, ela se sente outra vez incluída dentro da vida. Atualmente, está inscrita no Curso de Tecelagem no Museu de Arte que é dirigido por uma amiga minha, a qual afirma que tecer é uma ocupação que poderá ser executada por cegos, naturalmente com certas reservas (os fios das diversas cores devem ser colocados sempre nos mesmos lugares,. etc.). Em resumo, acho que ela está bastante bem”.
CONCLUSÕES
A assistência aos portadores de cegueira deve ter como objetivo, conduzi-los à vida normal e colocá-los, tanto quanto possível, nas condições de vida que teriam se enxergassem. Eles não devem ser considerados como um grupo à parte, mas como indivíduos que perderam a vista, conservando, porém os mesmos gostos, os mesmos desejos, os mesmos interesses que aqueles que a possuem. Ao Serviço Social que na definição de Mile, Baers é "uma forma de ação social (no sentido moderno e técnico da palavra) que, por métodos técnicos apropriados, baseado em dados científicos, quer contribuir para a instauração ou manutenção da ordem social cristã, favorecendo a criação ou o bom funcionamento dos quadros sociais necessários ou úteis ao homem", compete:
1. O estudo do problema da cegueira a fim de que sob a luz de seus princípios, seja ele compreendido pela comunidade. Esta, uma vez esclarecida, deve ser capaz de colaborar, participando, na consecução de seu objetivo específico, que é o melhor ajustamento do indivíduo cego em seu seio. Dessa forma, a própria comunidade será levada a compreender o valor da contribuição do Serviço Social, quando este atende às necessidades do problema e procura as suas soluções mais adequadas;
2. A Mobilização de esforços que permita não só a orientação de recursos necessários para a solução do problema, como também o aperfeiçoamento e a coordenação daqueles que já existem. Em qualquer comissão de planejamento de serviços sociais que se venha a formar, entre os outros elementos especíali-zados deve-se sempre incluir um agente de Serviço Social;
3. A atuação pelos seus agentes especializados nos diversos meios profissionais, onde os indivíduos cegos encontrem oportunidade de participar das suas atividades, preparando, ao mesmo tempo, empregados e empregadores para a aceitação daqueles indivíduos, livres de preconceitos e animados dos propósitos de facilitar-lhes a adaptação ao trabalho;
4. Agir direta e indiretamente no meio em que vive a pessoa cega, com particular atenção à comunidade familiar a fim de que aquela seja atendida de conformidade com as suas necessidades e com a natureza de seu desajustamento;
5. A organização do Serviço Social dos Casos Individuais junto às clínicas de oftalmologia, em geral, para que os portadores de cegueira recente, sejam, oportunamente, atendidos por assistentes sociais especializados ou encaminhados aos serviços adequados, como por exemplo, em São Paulo, a Fundação para o Livro do Cego no Brasil.
Sistematizando estas conclusões, devemos dizer o Servt9o Social, como elemento de ligação entre o indivíduo portador de cegueira e a sociedade, cumpre sua todas as vezes que interpreta, objetiva e realmente, tanto a verdadeira condição do indivíduo cego, como as suas necessidades dentro da comunidade. Do mesmo modo fará com que o indivíduo cego compreenda que ele também tem responsabilidades quando se trata de sua própria integração no meio social em que deve viver.
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