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Preparando o Futuro - Orientação para Pais de Crianças Cegas em Idade Pré-Escolar

AGRADECIMENTO

Para a execução e conclusão de um trabalho recebe-se o concurso de muitos colaboradores, a maioria dos quais anônimos e até mesmo involuntários. Este é o caso desta obra para a qual concorreram cerca de 300 crianças cegas, meninos e meninas colegas de infância, na escola de I grau do Instituto Padre Chico, em São Paulo (SP), os professores que tive durante toda a minha formação, até a pós-graduação universitária.

Tudo começou, quando Maria da Conceição Maciel, minha querida mãe, ao procurar matrícula escolar para mim, deparou-se com um "sonoro não". Após a terceira negativa, não se intimidou, procurou e obteve junto ao Poder Judiciário a defesa do direito de seu filho à educação. Por isto sou eternamente grato. Sou também agradecido à professora Hermínia César Maciel, minha dedicada esposa, por toda a paciência, motivação e sábias sugestões que oportunamente soube colocar no árduo trabalho da revisão. Finalmente, à Pró-Reitoria da Universidade de Alfenas, ao Prof. Dr. Octavio Binvignat pela oportunidade que ensejou deste livro ser publicado, manifesto meus agradecimentos.


SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

I - INTRODUÇÃO

II - DEFICIÊNCIA VISUAL - UMA DESCRIÇÃO
1 - EFEITOS FÍSICOS DA CEGUEIRA
2 - EFEITOS DE DEFICIÊNCIAS ASSOCIADAS À LIMITAÇÃO VISUAL

III - O CHOQUE, UM SENTIMENTO NATURAL

IV- CONSIDERANDO A SITUAÇÃO DA CRIANÇA
1 - ASPECTOS FUNDAMENTAIS
2-ACHANDO SEU LUGAR NA VIDA
4- ATITUDES DOS PAIS
5-EXAME DAS ATITUDES
6- RELAÇÕES COM A CRIANÇA
7- FATOS A CONSIDERAR

V - DESENVOLVIMENTO E NECESSIDADES DA CRIANÇA CEGA
1 -A SAÚDE DA CRIANÇA
2- ORIENTAÇÃO E DISCIPLINA
3 - LEMBRETES ESPECIAIS
4- DESENVOLVIMENTO AFETIVO E SOCIAL
5- DIFICULDADES DA CRIANÇA CEGA
6- NECESSIDADES AFETIVAS E SOCIAIS
7- LUGAR DA CRIANÇA CEGA NA FAMÍLIA
8- DESENVOLVIMENTO COGNITIVO
9- A VIDA ESPIRITUAL DA CRIANÇA

VI - O QUE ESPERAR DE SEU FILHO
1 - PADRÕES DE DESEMPENHO PARA CRIANÇAS NORMAIS CEGAS

VII- MATERIAIS ÚTEIS AO DESENVOLVIMENTO INFANTIL
1 - MATERIAIS EDUCATIVOS PARA CRIANÇAS DEFICIENTES VISUAIS
2 - ESCOLHA DO MATERIAL

VIII- PRONTIDÃO PARA O TRABALHO ESCOLAR

IX- ABUSCADAEDUCAÇÃOF0RMAL

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


APRESENTAÇÃO

A cultura humana, em consonância com a Natureza brinda a vida. Assim, através de cada broto, filhote ou bebê humano que nasce, percebe-se o permanente processo de renovação na face da Terra. Entretanto, esta compreensão não se acha desenvolvida igualmente em todas as pessoas, motivo pelo qual se fazem necessárias leis que garantam a preservação da vida, não apenas a dos seres humanos, mas também a de plantas e animais. Mais recentemente, acha-se igualmente protegido o meio ambiente por ser este entendido como um sistema vivo.

Na reprodução humana se acha envolvida uma enorme gama de valores dentre os quais ressaltam-se os éticos, os estéticos e os econômicos. Assim, é comum haver uma série de conflitos envolvidos na geração e nascimento de uma criança. Se os pais não vêem o bebê como uma bênção de Deus ou um grande tesouro, compete-lhes, pelo menos, a tarefa legal de tomá-lo feliz e digno do fim para o qual foi criado - tomar-se um homem de bem, um cidadão. É preciso, pois, procurar conhecer a criança a fundo e descobrir as riquezas de alma e de inteligência com que foi dotada.

Quando ao nascer, uma criança apresenta uma deficiência física, é necessário basear a sua educação no que lhe resta e não no que lhe falta, como freqüentemente acontece. Neste caso, é preciso educá-la aproveitando os sentidos remanescentes, usando-os na justa medida para que a pequenina inteligência desabroche em sua plenitude, pondo a criança em contato com o mundo objetivo do qual se acha parcialmente distanciada pela cegueira.

É através da visão que a criança, usualmente, adquire os seus conhecimentos e se familiariza com o ambiente que a cerca. A falta da visão limita a criança na percepção do ambiente mais amplo, restringindo-a na quantidade e na variedade dos conhecimentos que deveria adquirir, espontaneamente, nessa fase de sua existência para obter um desenvolvimento físico, intelectual e afetivo adequados, seguindo o ritmo da vida.

Ninguém poderá ampará-la tão bem quanto aqueles que a cercam noite e dia e que a ela se encontram ligados pela mais sublime das afeições. Não é apenas a inteligência da criança deficiente visual que deve merecer atenção, mas também o seu desenvolvimento físico, emocional e social deve constituir um alvo a ser atingido carinhosa e cuidadosamente pelos pais.

A correção das atitudes, das expressões fisionômicas e da postura, terá importância capital para a boa aparência da criança que, embora privada do sentido da visão, pode ser tão graciosa, alegre e encantadora como as demais.

Se por vezes a criança cega apresenta um atraso no desenvolvimento, este é, quase sempre, fruto da falta de orientação nos primeiros anos de vida quando, de maneira mais fácil e intensamente, ela absorve o que lhe é ensinado de modo direto, ou indireto. Por isso, cabe aos pais, a responsabilidade de grande parte dos desajustamentos de seus filhos na vida futura. Nenhum educador poderá substitui-los na missão ímpar de formar uma criança ajustada e feliz, não obstante a sua limitação física. Essa desvantagem será minorada e seus efeitos quase nulos, se a tarefa de educar for cumprida com a perfeição que somente os pais podem alcançar.

Uma criança alegre, sadia e normalmente desenvolvida, tomar-se-á uma pessoa independente no futuro e por essa razão não se sentirá inferiorizada no convívio de seus familiares e amigos, apesar da limitação sensorial. A independência é o fator primordial para que ela tenha confiança em si própria e seja capaz de enfrentar as dificuldades que certamente encontrará no decorrer de sua existência. Desde muito cedo essa independência deve ser cultivada com carinho, a fim de que a mesma se torne um traço preponderante de sua personalidade.

Por certo, não é necessário lembrar aos pais, que a criança carece tanto de amor para sobreviver, como a planta de sol e água para crescer e florir.

O amor, na verdadeira acepção, revela-se na atitude salutar dos pais para com os filhos, revigorando-lhes as virtudes potenciais e procurando educá-los de acordo com as suas tendências naturais, fazendo-os conscientes do seu real valor, não obstante a sua deficiência física. Toda a força e grandeza do amor materno devem ser aproveitadas para que o filho cresça forte de espírito e sadio de corpo, o que em resumo, constitui o homem feliz e ajustado.

Faz-se mister que os pais se observem a si próprios, reconheçam suas falhas e procurem corrigi-las para o bem de seus filhos, evitando transferir para estes os seus recalques e complexos, alimentados pelo egoísmo. O verdadeiro amor constrói, eleva e dignifica; o falso amor, um sinônimo de egoísmo, deturpa e mata.

Compreendendo a difícil tarefa de que estão incumbidos os pais que possuem um filho cego, é que se tomou a decisão de publicar este manual de ORIENTAÇÃO PARA PAIS DE CRIANÇAS CEGAS EM IDADE PRÉ-ESCOLAR. Este é um primeiro trabalho nessa direção e por certo, muitas falhas poderão ser encontradas nele.

Espera-se que esta publicação seja uma fonte benéfica de conhecimentos e um amparo para aqueles que se encontram na difícil contingência de educar um filho que não pode ver, mas que é o objeto de seu amor e que, acima de tudo, deverá ser um homem feliz, o mas possível integrado no meio em que vive.


1- INTRODUÇÃO

Há muito que ficou provado que os alicerces do caráter de uma criança e o seu futuro, são lançados nos anos pré-escolares. A criança molda seus sentimentos, forma de pensamento e compostura, durante esse período e tudo demonstra que essas noções a acompanharão por toda a vida. A espécie de personalidade que ela daí gradualmente desenvolve, será um auxílio ou embaraço para a realização de seus ideais durante a sua existência.

Se você tiver um bebê cego ou com visão seriamente lesada, deve compreender que ele depende mais de seus cuidados inteligentes e de sua devoção do que qualquer outra criança, e que você precisa de alguns conselhos especiais e orientação para poder ajudá-lo a resolver os problemas. A partir do momento em que você descobrir que a visão de seu filho está prejudicada, seu amor por ele a levará a procurar a espécie de conhecimento que lhe indicará tanto suas oportunidades, como suas limitações.

Algumas necessidades da criança cega são de caráter especial e específico e você desejará estar a par das mesmas, o mais cedo possível. Por exemplo, a criança cega, muito cedo, necessita maior estímulo e mudanças de posição mais freqüentes do que uma vidente.

Às vezes, uma criança inteligente, com vontade de vencer, alcança um ajustamento feliz, sem ser guiada por um profissional, mas apenas auxiliada pelos pais que possuem sensibilidade e conhecimento. Isso, no entanto, é bem raro, e a maioria dos pais fica satisfeita em saber que existe alguém com a capacidade necessária em quem possa confiar.

Este manual apresenta os pontos básicos para essa orientação e esboça um programa pelo qual você verificará os progressos de seu filho, visando um desempenho razoável. Foi escrito especialmente para os pais de crianças cegas.

A cegueira, deve-se lembrar, é uma questão de grau de visão. São poucas as pessoas que, embora consideradas tecnicamente cegas, são totalmente privadas de qualquer impressão visual. Por isso, a expressão "crianças cegas” , como empregada aqui, inclui também aquelas que possuem alguma visão.

Quase todas essas crianças, no entanto, provarão que possuem a visão insuficiente para tirarem proveito da educação pelos métodos convencionais,, quando atingirem a idade escolar. Algumas, em vez  de freqüentarem uma escola para cegos, onde se ensina somente pelo método braile, poderão cursar a escola pública, com o apoio da “sala de recursos” onde empregam material escolar especial e os livros são impressos em braile,  ou em caracteres ampliados. Poderão também contar com o apoio pedagógico suplementar de um pedagogo especializado para esclarecimento e orientação a respeito de assuntos e tarefas escolares sobre os quais tenham dúvidas.  Serão, entretanto, alunos da classe regular.


II- DEFICIÊNCIA VISUAL - UMA DESCRIÇÃO

As definições tradicionais de cegueira e de visão subnormal têm sido baseadas em medidas da acuidade e da restrição do campo visual. Essas definições foram estabelecidas, tomando como base o que uma pessoa de visão normal pode ver a uma determinada distância. Na grande maioria, essas definições foram elaboradas para verificar a presença e extensão de deficiência de visão em situações legais e econômicas.

Recentemente, as definições têm se coadunado mais com a situação real de vida. Por exemplo: do ponto de vista educacional, criança cega é aquela que aprende através do Braille e outros meios relacionados com pouca ou nenhuma visão residual. A criança com visão subnormal é aquela que tem visão útil para propósitos educacionais, sendo porém, limitada na medida em que se fazem necessários recursos especializados, ópticos ou pedagógicos.

Abordando-se o assunto de maneira técnica, o grau de eficiência visual nem sempre pode ser aferido de maneira precisa. Os exames médicos podem, tão somente, determinar as deficiências de tecido e de estrutura e, nesses casos, propiciarem uma medida limitada e condicionada da visão.

Quando a criança apresenta um certo grau de habilidade para informar as respostas, os testes de acuidade visual podem ser realizados e seus resultados numericamente descritos em termos tanto de visão para perto, quanto para longe. Todavia, é muito possível que não se obtenha a verdadeira acuidade visual da criança, ou os níveis de funcionamento visual que ela é capaz de atingir.

A avaliação do comportamento visual é muito afetada por fatores tais como: a habilidade da criança permanecer sentada quieta, de prestar atenção, de seguir direções, de entender e usar palavras. Assim, uma medida inexata pode resultar da falha em reconhecer a quantidade de visão em cada olho, como também da habilidade da criança para efetivar a fusão das imagens recebidas pelos dois olhos.

Uma medida incorreta pode também ser o resultado da interferência de elementos periféricos na sala onde está sendo conduzido o teste visual, tais como: presença de pessoas estranhas, ruídos desconhecidos, ambiente inibidor.

A obtenção do resultado correto do teste não é a única dificuldade envolvida. Mesmo quando as medidas de acuidade visual podem ser acuradamente obtidas, é possível que não se consiga o histórico completo dos problemas de visão da criança. Por exemplo: crianças com acuidade visual idêntica para a leitura, apresentarão variações de desempenho consideráveis.

Muitos fatores servem para explicar essa variação. Um deles é o fato de que, pelo menos, algum grau de melhora no uso efetivo da visão subnormal pode ser ensinado. Por outro lado, a motivação adequada para ver, tanto quanto o possível, deve ser encorajada e desenvolvida. Freqüentemente são encontradas muitas crianças definidas legalmente como cegas, capazes de ler letras impressas de diferentes tamanhos.

Finalmente, o funcionamento individual da criança vem sendo sistematicamente estimulado através da crescente tentativa de colocá-la em programas educacionais apropriados à suas necessidades (por exemplo, a estimulação do uso da visão subnormal).

Um problema freqüente e muito inconveniente no diagnóstico da deficiência visual diz respeito ao pronunciamento muito precoce em relação à habilidade de ver da criança. Quando se diz aos pais que seu filho é cego (uma expressão que é lamentável por razões legais ou práticas, e que, freqüentemente é utilizada quando a criança ainda possui uma quantidade substancial de visão), a partir daí, eles podem não mais saber os objetos que a criança é capaz de ver e para o que ela deve ser encorajada a explorar visualmente.

Relativamente, poucas crianças apresentam cegueira total, isto é, incapacidade visual absoluta para distinguir a presença ou ausência de qualquer quantidade e intensidade de luz. Mesmo aquelas com menor quantidade de visão, podem ser auxiliadas a desenvolver este grau através do uso e dessa maneira, aprenderem a utilizar o quanto de visão possuem,.com eficiência sempre crescente. Se tais crianças não receberem alguma estimulação visual e não forem auxiliadas a utilizar a visão residual que possuem, sua habilidade visual deteriorar-se-á.

Um grande acervo de conhecimentos sobre os problemas de percepção visual em crianças, já indica, claramente, a necessidade de cuidados individuais para cada uma delas. Por exemplo: crianças com tais problemas podem experimentar tipos sutis de dificuldades de aprendizagem. Podem evidenciar uma coordenação olho-mão pobre, baixa habilidade para distinguir e organizar detalhes, fraca discriminação figura-fundo e, falha visual em seguir um alvo. A necessidade principal dessas crianças é a educação para o uso eficiente da visão residual. Com essa educação, elas irão reduzir ao mínimo seus defeitos funcionais, quaisquer que sejam as causas.

Muitos dos auxílios essenciais para a criança com pouca ou nenhuma visão, não serão necessários para aquela cujos problemas sejam perceptivos. A visão que ela possui, se treinada adequadamente, permite-lhe observar movimentos largos, posturas e expressões faciais, assim como a perceber, suficientemente, tamanhos, formas e cores distintas.

O conteúdo, qualidade e exatidão da informação visual obtida por uma certa criança podem, naturalmente, ser determinados somente pela aprendizagem da própria criança, enquanto experimenta cada nova situação.

A necessidade de auxílios mais específicos constatada através de perguntas e observações diretas, deve auxiliar a proporcionar atendimento mais adequado à criança. Tal atendimento pode ser mais bem organizado através de pesquisa na literatura existente sobre "crianças com incapacidades perceptivo-visuais", ou em organizações que tratam diretamente desse problema.

Em resumo, uma definição médica formal não é a única, nem o critério final para a determinação da incapacidade visual de uma criança. Em acréscimo à consideração médica, é preciso pensar na criança em termos de seu grau de visão funcional.

Programas educacionais efetivos estão expandindo esses níveis de funcionamento visual. Os resultados de tais programas apontam a necessidade de esforços adicionais nessa direção e contestam a prática de classificação das crianças, somente com base em um diagnóstico médico, ou no resultado do teste de acuidade visual.

As crianças deficientes visuais são normalmente consideradas como aquelas que demonstram através de suas ações e funcionamento geral, que aprendem de maneira mais eficiente por outros meios, que não o visual, ou que é preciso implementar, suplementar, ou substituir sua aprendizagem visual através do tato e audição.

Tendo em vista as considerações precedentes, este recurso está voltado para a necessidade de auxílios específicos durante a primeira infância, para dois grupos básicos:

- crianças com nenhuma visão;
- crianças com pouca visão (aquelas que vêem luz ou objetos grandes à curta distância, ou objetos pequenos trazidos próximos aos olhos) mas, cuja visão pode ser utilizada e provavelmente educada para uma crescente eficiência funcional.


1 - EFEITOS FÍSICOS DA CEGUEIRA

Ainda que o funcionamento, ou falta de funcionamento dos olhos não pareça ter um efeito patente sobre o crescimento da criança, freqüentemente, alguns efeitos indiretos são notados. Eles não são evidentes nos primeiros três ou quatro meses. Nesse período você deverá apenas falar-lhe, brincar com ela e muda-la de posição. Não precisará fazer mais nada com ela, no que se refere a um treino especial.

Mais tarde, tomar-se-á evidente que a falta da visão dificulta à criança a desenvoltura numa atividade necessária, a qual as outras crianças adquirem espontaneamente, em resposta às necessidades físicas inconscientes, mas definidas. Essa passividade, por sua vez, atrasa o processo de controle efetivo sobre seus músculos.

MENOR ATIVIDADE - Neste setor, a criança ficará um pouco atrasada com relação às outras e precisará, para aprender, de maior paciência e auxílio de sua parte. Especialmente, ao ensiná-la a caminhar, você verá que é mais difícil para ela adquirir e manter o equilíbrio; verá que ela hesita bastante antes de se aventurar e que lhe falta a vantagem que têm as outras crianças de se esquecerem de si mesmas quando desejam obter qualquer objeto de cor berrante.

Você deverá, pois, tentar outros incentivos tais como atrair a atenção da criança para um objeto por meio de ruído agradável, ou utilizando-se de outras coisas de que ela goste, como doces, ou seus brinquedos favoritos.

AUXÍLIO ESPECIAL - Um equipamento especializado do qual tratar-se-á mais adiante (brinquedos próprios) é quase essencial. Alguns desses dispositivos são importantes, mormente porque continuam um movimento iniciado pela criança, dando-lhe assim, o senso de precisão e de maior liberdade do que poderá sentir quando é impelida só pelo corpo. Mover-se ritmicamente ao som da música, do canto, também dá a sensação de liberdade, e portanto é um sistema que deve ser usado.

Sendo a criança pequena e havendo um quintal, poderá ser usado um equipamento simples e feito em casa, como os usados nos parques infantis. Também se pode adotar durante o tempo que a criança permanecer dentro de casa, escadas comuns, uma barra de madeira, uma cadeirinha pendurada no batente da porta, etc.

É para surpreender qualquer um, o controle muscular obtido por algumas dessas crianças, controle esse que freqüentemente as habilita a superar seus companheiros videntes nesses exercícios de ginástica.

O que uma criança mais necessita é: estímulo e confiança em si mesma, o que você poderá auxiliá-la a obter, dominando, ou pelo menos, controlando seus próprios receios com relação a ela. Com efeito, incutindo-lhe confiança e permitindo-lhe que desenvolva seus próprios meios de precaução, a criança aprenderá, no devido tempo, a caminhar muito bem, a subir e descer escadas, a andar por toda a casa e estará mais segura e confiante, dessa maneira, do que se for constantemente vigiada e controlada.

ATITUDE DA CRIANÇA - Entre outras coisas para as quais você deverá ter sua atenção focada, será a tendência que a criança cega tem de adotar uma atitude defeituosa, como o costume de conservar a cabeça baixa. Nas crianças cujos olhos são sensíveis à luz, esse costume é adquirido para evitar a irritação causada pela luminosidade. Em tais casos, é aconselhável consultar um médico para saber se ele aprova o uso de óculos de cor escura.

As crianças totalmente cegas, no entanto, podem ter esse hábito apenas porque não têm um motivo especial para conservar a cabeça levantada, ou porque não possam formar uma idéia sobre o melhor modo de se apresentarem às pessoas. Essa tendência deve ser contrariada por exercícios tais como:
fazer a criança andar carregando livros sobre a cabeça (como se fosse uma brincadeira da qual tomem parte as outras pessoas da família) e fazendo-a "sentir" o que significa saber ficar de pé, colocando-a contra uma parede com os calcanhares e a parte posterior da cabeça encostados na mesma.

Existe ainda a tendência para os pés chatos. Pode explicar-se isto, quem sabe, pelo fato de que a criança cega não enxergando o caminho, quer tateá-lo com os pés, ou ainda porque a visão desempenha um papel muito mais importante do que geralmente se imagina para a aquisição e conservação de uma posição e equilíbrio corretos.

Andar na ponta dos pés é uma das causas conhecidas que originam os pés chatos, pois, essa posição impele o peso do corpo para a parte do pé que oferece menos resistência para suportá-lo, o que causa o enfraquecimento do arco do pé.

Como medida preventiva para os pés chatos, deve-se fazer a criança correr e pular. Andar numa prancha de madeira, o que força a colocação do pé em linha reta, à moda indígena, também será muito bom para corrigir tal defeito.


2 - EFEITOS DE DEFICIÊNCIAS ASSOCIADAS À LIMITAÇÃO VISUAL

De acordo com Halliday (1975), as crianças que nascem com alguma deficiência, freqüentemente, apresentam outras limitações associadas. As estatísticas revelam que isto acontece, no mínimo, a um terço dos casos que nascem com uma limitação grave. Está se tomando menos comum encontrar-se crianças que sejam apenas deficientes visuais. Por exemplo: crianças cujas mães tiveram rubéola durante a gravidez, podem apresentar perda auditiva ou problema cardíaco, juntamente com os problemas visuais.

As crianças com múltiplas deficiências são mais difíceis de serem descritas e categorizadas. Suas potencialidades e limitações são altamente individualizadas. Por isso, o termo "múltiplas deficiências" não é adequado para defini-las.

São essenciais as avaliações periódicas de cada criança, a serem feitas por profissionais. Igual exigência se mantém com relação aos programas seqüenciais de aprendizagem.

Os centros de avaliação infantil e os programas de atendimento direto, vagarosamente estão se desenvolvendo, ainda que estejam longe de corresponder às necessidades que são sempre crescentes. Igualmente, uma literatura que começa a se expandir, demonstra certa compreensão e preocupação com a qualidade de vida e o futuro dessas crianças.

Os primeiros anos de vida que são tão importantes para todas as crianças, são cruciais para aquelas que apresentam deficiências associadas. Para estas, é preciso proporcionar o melhor estudo diagnóstico e orientação, pois, desde o momento em que são identificadas como tal, precisam ser estimuladas, encorajadas e ensinadas, até que seja obtida uma ajuda profissional.

A pessoa que trabalha com essas crianças deve compreendê-las, saber como elas aprendem, o que elas desejam fazer, quais são as suas necessidades, pois, somente assim, poderão encorajar o seu desenvolvimento.

A título de ilustração, Halliday (1975) relata a experiência de uma jovem mãe que, com pouca escolaridade, estava obtendo grande sucesso em educar seu filho de quatro anos, portador de deficiências associadas à visual. Para alguns, o êxito dela era mesmo impressionante. Na realidade, isto era o resultado de sua intuição, O enfoque no seu filho revelava compreensão, o que era essencial para um bom ensino. Ela simplesmente reconhecia que, com seus múltiplos problemas, seu filho, certamente funcionaria como um deficiente mental.

Ela reconhecia também que seu filho podia aprender, se fosse auxiliado para isso, através de etapas seqüenciais, logicamente simples. Esclareceu ela que trabalhava com seu filho em termos de áreas principais de aprendizagem, tais como: uso das mãos, autocuidado, mobilidade. Primeiramente refletia sobre o que ele estava conseguindo realizar e depois pensava no que ele poderia fazer em seguida com o seu auxílio. O resultado foi que seu filho estava progredindo de uma maneira que poucos, até então, haviam sonhado ser possível.

Diversas crianças portadoras de múltiplas deficiências passam muito tempo inútil em hospitais, durante seus primeiros anos de vida. Para qualquer criança, isto pode significar horas de solidão e pouco o que fazer, mesmo com o trabalho de adultos bem intencionados.

A hospitalização também pode significar que a criança ficará mais isolada porque seus meios sensoriais não estão sendo estimulados e sua fala ficará muito limitada. Para essas crianças, o fato de não serem estimuladas por longos períodos de tempo, longe do ambiente familiar, com pouca ou nenhuma compreensão do "porque", causa um prejuízo real a um ser já prejudicado.

As estadas em hospitais deveriam ser consideradas, somente quando absolutamente indispensáveis do ponto de vista médico e, assim mesmo, deveriam ser planejadas previamente e tomadas tão interessantes e agradáveis, quanto possível. Novas situações, pessoas desconhecidas e a relativa negligência em arrumar coisas para fazer, podem ter efeito cumulativo e traumático sobre as crianças portadoras de deficiências associadas.

Outro problema ao qual essas crianças são altamente susceptíveis é o da medicação que, mesmo quando originalmente prescrita de modo apropriado, tende a tomar-se excessiva, ou muito prolongada. Por exemplo: o "enfoque de medicamentos" é menos necessário quando são oferecidos programas orientados educacionalmente (que objetivam a criança como um todo) e que atingem as crianças em seus vários níveis de funcionamento.

As crianças que, por uma ou outra razão, são colocadas sob medicação, precisam ser reexaminadas regularmente, para determinar se as suas prescrições continuam sendo as mais desejáveis e eficientes. O conhecimento crescente de medicações, drogas e tratamentos relacionados, conduz a um contínuo refinamento e uso seletivos.

É animador notar que, para crianças com graves deficiências visuais e auditivas (em geral chamadas "cegas-surdas"), um certo esforço no diagnóstico e educação está sendo desenvolvido. Alguns pólos regionais estão sendo instalados para esse fim em nosso país, com fundos e interesses públicos. Informações pertinentes podem ser obtidas em fontes locais, Secretarias Estaduais de Educação, Conselho Brasileiro para o Bem-Estar dos Cegos, Instituto Benjamin Constant, Instituto Padre Chico e "REINTEGRA - Rede de Informações Integradas sobre Deficiências", da Universidade de São Paulo.

É necessário que haja um permanente esforço para identificar, precocemente, avaliar cuidadosamente e orientar eficientemente todas as crianças com qualquer tipo de necessidade especial.


III - O CHOQUE - UM SENTIMENTO NATURAL

Cada pessoa que sofre perda drástica da visão ou fica cega, no Brasil, reage como se fosse a primeira e única a se deparar com o inusitado. Isto se deve, em parte, à total desinformação a respeito dos recursos e serviços, profissionais ou institucionais, para a educação especial e reabilitação de pessoas nessa nova condição existencial.

Para ilustrar com fidedignidade os embaraços objetivos e subjetivos pelos quais passa uma família que se veja envolvida nessa situação, buscou-se o depoimento de Edda Sá de Albuquerque (1976), em sua obra "Meu filho cego":

"... Olhando para ele, hoje, nos seus dezesseis anos, em plena forma física, desenvolto, alegre e comunicativo, faço um retrospecto e relembro tudo o que aconteceu desde o dia do seu nascimento.

Dia 17 de janeiro de 1953: em Fortaleza nasceu nosso segundo filho, pois já tínhamos uma menina com um ano e sete meses. Alegria dobrada. Criança forte, rosada e sadia, com todos os órgãos sensoriais perfeitos, disse o pediatra da maternidade.

Mas, aos três meses de idade, notava-se que algo de anormal havia em seus olhinhos pretos. Consulta ao oculista. E este nos diz: "Seu filho não enxerga, tem catarata congênita". Ficamos atônitos, estáticos, perplexos, sem nenhuma reação. Meu filho é cego... Por quê? Ainda hoje não sei explicar o que de fato senti naquela hora. Revolta? Medo? Dor? Não sei...

O impacto da notícia atingiu a todos da família e uma tristeza imensa tomou conta de nossos corações. Voltamos às consultas com outros médicos e todos apontavam um caminho: Campinas, Instituto Penido Burnier, considerado um dos maiores centros de oftalmologia da América Latina. Um raio de esperança entre as lágrimas.

Seis meses de idade: rumo a Campinas. Depois de examinado por uma junta médica, ficou decidido que ele seria operado. No dia 22 de julho, primeira operação de um olho. Por ser o dia do meu aniversário, eu pensava: quem sabe, Deus me vai dar de presente a visão do meu filho! Oito dias depois, comprovado o êxito da cirurgia, foi operado o outro olho. Tudo muito bem. Ao tirar-lhe a venda, estaria enxergando. E, pelos testes a que foi submetido ficou provado que ele via. Que maravilha! Quase não acreditávamos, tão grande era a nossa felicidade. Voltamos para a nossa terra, esperançosos e felizes.

Nove meses de idade: é acometido de uma infecção ocular dupla. Voltamos às pressas a Campinas e, desta vez, nada poderia ser feito. Tudo estava perdido: Sérgio novamente sem ver e para sempre. Todos os recursos atuais da Medicina não poderiam devolver-lhe a visão. Ficava ele, assim, privado de um dos órgãos sensoriais mais importantes. Que seria dele? Que seria de nós? Que deveríamos fazer diante de uma situação tão grave? Estávamos completamente desolados e desorientados, incapazes de raciocinar. Sabíamos, tão somente, que nosso filho estava cego e para sempre.

Passado aquele período de choque, entramos na realidade e vimos que o caminho a seguir seria enfrentar, com coragem, o problema, olhar para frente, sem nenhum conflito, sem nenhuma revolta à cegueira do nosso filho. A aceitação das coisas como elas são quando não podemos modificá-las, é uma das grandes dádivas de Deus, mas para aceitar, teríamos que derrubar todos os preconceitos então existentes em nós, acerca da cegueira.

Percebíamos que a maioria das pessoas se enche de sentimento de compaixão e piedade, vendo um cego como um ser humano extremamente dependente, incapaz de enfrentar a vida, de vencer os obstáculos que se lhe apresentam. De um modo geral, ao olharmos principalmente para uma criança cega, quanta dor, quanto constrangimento e, ficamos a perguntar: Como são as crianças cegas? Podem elas divertir-se junto com outras crianças videntes? Correr? Brincar? Podem elas chegar a casar e constituir família? Como vivem entre os adultos? Meu marido e eu, procurando respostas para essas indagações, sentíamos a nossa grande responsabilidade. Estava entregue em nossas mãos o futuro daquela criança diferente. Tínhamos a obrigação de criá-la e educa-la como uma criança normal, de fazê-la feliz, sem complexos, sem inibições, para que chegasse a ser um adulto realizado. Sob a nossa guarda estava aquele menino, nosso filho querido, e nós jamais poderíamos deixá-lo crescer, desenvolver-se física e mentalmente, sem as condições necessárias para aceitar-se a si mesmo e ser aceito, sem reservas, pela família e pela sociedade.

Para nossa resignação, deveríamos crer que defeitos físicos não são castigo de Deus, que eles não nos são dados para pagar dívidas, pecados nossos ou de nossos antepassados. Deveríamos saber que eles são provenientes da natureza humana que tem suas falhas genéticas comprovadas pela própria ciência; que também a hereditariedade, as doenças e diversos fatores externos são responsáveis por grande número de defeitos físicos, inclusive a cegueira. Mesmo rejeitando esses erros da matéria, sentindo-nos inferiorizados por ver uma pessoa da nossa família com um corpo defeituoso, incompleto, teríamos que refletir, fixar o nosso pensamento mais alto, vendo naquele corpo apenas o veículo portador de uma alma, e essa sim, precisa ser completa, intacta, para usufruir os bens terrenos e depois a Eterna Graça: Deus.

Portanto, só depois de bem compreendidas e apreendidas todas essas condições, poderíamos ficar de fato preparados para aceitar Sérgio tal como era, sem reservas.

Meu marido e eu, sempre unidos, procurando forças nas orações e apoiando-nos reciprocamente, esforçávamo-nos por compreender a nós mesmos. Para nos ajustar à cegueira do nosso filho, fomos também sabendo realmente como deveríamos agir com ele. Sem conclusões precipitadas, íamos descobrindo as nossas próprias atitudes negativas com relação à cegueira e, com esforço e coragem, buscamos sobrepujá-las, para darmos a ele e a nossa filha, um verdadeiro amor.

Já completamente seguros de nossos sentimentos, sem mais temor, enfrentamos a situação decididos a vencer, pedindo a Deus luzes e coragem para superar, daí em diante, as dificuldades que se nos apresentassem.

Muitas e muitas vezes eu pensei e cheguei a concluir: Sérgio é nosso "pára-raios", colocado por Deus em nossas vidas. Por seu intermédio, eu acredito, foram atraídas para a nossa família muitas bênçãos do céu; por seu intermédio, conseguimos sempre resolver de maneira positiva os nossos problemas familiares com relação a ele próprio, acertando na sua educação, na sua integração, concorrendo isto tudo para a nossa conformidade com os desígnios de Deus ““.


IV – CONSIDERANDO A SITUAÇÃO DA CRIANÇA

Deve-se aprender a julgar e a tratar a criança que possui qualquer limitação, com justiça. Fazer-lhe concessões é privá-la de uma reorientação especial a que tem direito. Dela espera-se alguma coisa, como de todas as crianças. Entretanto, esperar demasiadamente, é desanimador. O efeito da idéia errada de que se deve fazer as coisas para ela, que ela não precisa aprender a ter responsabilidade, que as outras crianças devem ceder perante ela - enfim, mimá-la - é sempre desastroso.

Para chegar-se a uma apreciação justa sobre a criança limitada é preciso possuir alguns conhecimentos sobre os efeitos que a cegueira produz, quer nela, quer nas outras pessoas, como também ter alguma compreensão dos padrões para um desenvolvimento normal.

O efeito da cegueira sobre o desenvolvimento geral da criança, será largamente especificado, primeiramente, conforme o grau de cegueira; em segundo lugar, pela sua inteligência, em geral e, finalmente, pelo ambiente em que ela vive, incluindo as pessoas que desempenham um papel preponderante na vida dela.


1 - ASPECTOS FUNDAMENTAIS

Devido à importância dos primeiros anos da infância, como período decisivo e de formação, é necessário preocupar-se com o que a criança encontrará para se ocupar, durante esses primeiros anos.

Crescimento de um indivíduo - O indivíduo cresce através do processo de interação com o ambiente. O sucesso e a felicidade prováveis na vida dependem, em grande parte, da opinião que ele forma de si próprio e do grau que possa atingir na satisfação de suas necessidades e desejos.

Esse crescimento começa na infância e continua através da vida toda. Pela experiência com seu ambiente físico, sob a forma de trabalho e recreação, a criança, gradualmente, adquire conhecimento próprio e aprende a dele fazer uso.

Comparando seu sucesso, com relação àquela experiência, ao das outras crianças, e pelo procedimento das pessoas para com ela, poderá formar uma estimativa do quanto vale como um ser humano.

Se tudo vai bem, toda criança aprende que, embora incapaz de ser bem sucedida em alguns setores, é capaz de vencer em outros e sente-se orgulhosa de si mesma. Todas as pessoas passam por essa fase e dela se apercebem, particularmente, na infância e adolescência.

Em vista de serem mais restritas as oportunidades de uma criança visualmente limitada para o desenvolvimento de seus predicados e também, porque ela é mais influenciada pelas pessoas - quase sempre erradas sobre as noções acerca de suas limitações, - não se torna fácil para ela dar-se o devido valor. Portanto, deve-se reconhecer o seu valor, se ela conseguir estabelecer uma sólida estimativa de si própria e tomar-se uma pessoa bem ajustada.

Não se pode prestar-lhe maior serviço que o de ajudá-la a alcançar este objetivo; e ninguém melhor para isso, senão seus pais ou tutores.


2- ACHANDO SEU LUGAR NA VIDA

Admite-se que essa breve descrição do maravilhoso, porém complexo processo de desenvolvimento humano, esteja ultra-simplificada, mas serve para chamar a atenção para o que é realmente o problema central da criança limitada, o de achar o seu verdadeiro lugar na vida. O desejo que você sente de ajudar seu filho, de agora por diante, convergirá para isto - seu objetivo capital. Você quererá, então, localizar sua atenção para os aspectos psicológicos e humanos do ambiente dele, pois, são eles de suma importância.

São muitas as pessoas que estão cientes da maior significação dos aspectos não materiais sobre os do ambiente. Bem se pode compreender, por exemplo, que uma casa luxuosa possa ser miseravelmente inadequada e infeliz por não possuir recursos espirituais, enquanto que, uma pobre casa despojada de conforto material, possa ser rica em afeição e dons espirituais.

Toda criança deve encontrar os membros de sua família prontos para dar-lhe afeto, chamar-lhe a atenção para a importância das coisas espirituais, aprender o que dela podem e devem esperar, compreender o que e como lhe deve ser ensinado e proporcionar-lhe a oportunidade de aprender escutando.


3 - REQUISITOS PARA AUXILIAR A CRIANÇA

Examinem-se esses requisitos mais minuciosamente:

O amor ou afeição - Muito raramente estão inteiramente ausentes, o que é, em verdade, uma sorte, pois, sem isso a vida humana só tende a perecer. "Rejeitar" seu próprio filho por qualquer que seja o motivo, é sempre um erro trágico.

Dons espirituais - Não são necessariamente aqueles associados com os da religião. Podem ser classificados como experiências diárias, tais como amor, amizade, compreensão, boa vontade e tolerância, o que nos traz felicidade e nos impele a elevar-nos acima da mesquinhez, do egoísmo, das altercações e das baixezas.

O que se espera da criança - Relaciona-se com vários fatores, tais como a idade, sua capacidade aparente, e o esforço que ela despende. Os pais devem verificar ou comparar sua própria estimativa com a de uma outra pessoa que saiba do que é capaz uma criança cega normal, de determinada idade; ou devem tentar aprendê-lo pela leitura do que já existe sobre o assunto. Como o material impresso relativo a este problema é muito escasso, esta publicação foi preparada a fim de preencher esta lacuna, pelo menos em parte.

Saber o que ensinar - Subentende-se a habilidade de julgar qual o melhor jeito e quais explicações convirão mais à criança nesse período do desenvolvimento.

Saber como ensinar - significa, reconhecer que faz diferença o modo pelo qual as coisas são apresentadas.

Dar oportunidade à criança aprender executando - quer dizer: dar liberdade, o que é vital no desenvolvimento da criança. As três modalidades de "liberdade" mais importantes são:
a) Liberdade na manipulação de objetos. É óbvio que a criança cega precisa ter a oportunidade para conhecer as propriedades dos objetos, não só tocando-os, mas manipulando-os de diversos modos. Embora possa parecer inconveniente permitir-lhe que assim proceda, enquanto seus movimentos ainda forem desajeitados e o julgamento imperfeito, não lhe deve ser negado esse direito.
b) Liberdade para movimentar-se, tanto quanto possível. Está provado que a natureza das crianças requer liberdade de movimentos. No entanto, no caso da criança cega, que não pode facilmente prover a essa necessidade, sozinha, a importância desse quesito não é geralmente aceita e, às vezes, até é descuidada.
c) Liberdade para fazer perguntas - Este é um direito bem mais profundo do que os outros dois, pois, requer ainda mais compreensão e maior paciência por parte dos pais. À medida que a criança vai ficando mais velha, as perguntas diminuirão em quantidade, mas aumentarão em significado.

Você pode ficar certo de que o fato de incentivar essas "liberdades", será muito apreciado pelos seus filhos, mesmo que sejam ainda demasiadamente jovens para analisar esses sentimentos. Você acabará por achar que a compreensão criadora que lhe permite conceder diariamente a seu filho tais "liberdades", construirá uma amizade entre você e ele.


4- ATITUDES DOS PAIS

Observando essa lista de pontos capitais, você notará que eles representam fatores comuns que sempre desempenharam um papel relevante nas relações entre pais e filhos, desde tempos imemoráveis, porquanto os pais sempre foram professores, embora nem sempre perfeitos.

Importância da dedicação - Seu filho cego será mais fortemente afetado pela qualidade da sua dedicação do que outras crianças. Faz muita diferença para ele, o fato de sua atitude e atos refletirem considerações pelas suas necessidades vitais, ou serem inspiradas por piedade ou irritação momentânea. É reconfortante saber que o afeto verdadeiro compensará plenamente, quase todos os erros que você possa cometer por falta de jeito ou de conhecimento.

É importante, também, ter-se em mente que os bons professores, quer sejam os pais ou terceiros, consideraram sempre a construção do caráter como sendo mais importante que o ensino de outras habilidades, ou a transmissão de outros conhecimentos. Embora a sabedoria e a destreza sejam importantes, devem ser subordinadas e dirigidas para um único fim - a arte de viver.

Temores nocivos - Certamente você não tem dúvidas sobre a existência de poderes afetivos e espirituais em seu lar. Quem sabe, porém, você seja um desses muitos pais que se sentem incompetentes para ensinar, por acreditar
que uma criança deva aprender e ser ensinada por outros métodos que não aqueles usados para os videntes. Talvez você se julgue também inseguro sobre o modo pelo qual deva dar a necessária liberdade a seu filho sem expô-lo ao perigo, e sobre as maneiras de impedi-lo de formar um complexo de inferioridade.

Alguns pais sentem-se tão impotentes quanto às necessidades de uma criança cega, que acreditam ser melhor entregá-la, desde o começo, a uma instituição, do que "educá-la em casa." Outros há, porém, que acreditando que a criança ficará indefesa e será magoada pelo mundo hostil, preferem conservá-la em casa e protegê-la até o fim de seus dias, mesmo à custa da sua liberdade e educação.

Quase todos os pais que descobrem a cegueira no filho, ficam chocados e confusos. O choque da descoberta causa um conflito de emoções que embaraça seus pensamentos. A confusão resultante ainda se torna pior por falta de conhecimentos.

Freqüentemente, alguma incerteza com respeito à seriedade das condições visuais da criança permanece durante os primeiros anos, quando não dura por todo o período pré-escolar, fazendo com que os pais tenham esperança de que o filho recuperará, pelo menos em parte, alguma visão.

Existem alguns pais que transtornam seriamente a criança, pela expectativa de que um milagre sobrenatural, ou de origem médica, possa restaurar-lhe a visão.

Esse pensamento fixo e desejo ardente da parte de alguns pais, têm sido reforçados nos últimos anos pela má interpretação de reportagens de rádio e de televisão, de artigos de jornais sobre casos bem sucedidos de transplante de córneas e sobre as atividades dos bancos de olhos.

O Banco de Olhos é um depósito de tecido ocular sadio que, em alguns casos, pode ser usado para substituir córneas opacificadas num olho vivo. Uma impressão falsa é acariciada por alguns pais: eles acreditam que haja possibilidade de transplantar um olho normal de uma pessoa para outra. Apenas uma pequena parte do olho é usada, em casos susceptíveis a tal operação e só um número relativamente pequeno pode sofrer esse tipo de intervenção cirúrgica.

Em alguns casos, essas crenças, tornaram impossível à criança o devido interesse em seu trabalho e brinquedos diários e impediram a organização de sua vida íntima, causando-lhe confusão e desequilíbrio.

Esse estado de espírito é encontrado em muitas pessoas. Não representa, portanto, nenhuma experiência isolada ou peculiar. Se você estiver nessa mesma situação ao ler esta publicação, não deverá aborrecer-se por sua atitude. Permita que se fale um pouco sobre essas coisas, antes de começar a analisar as necessidades vitais de seu filho e do modo como você poderá provê-las.


5 - EXAME DAS ATITUDES

É natural e, de fato, quase inevitável que os pais ao descobrirem que têm um filho cego, não só fiquem inconsoláveis, mas também chocados. Na maioria, todos temos a tendência, ao deparar com a desgraça, de nos revoltar, imaginando o porque nos aconteceu isso! À essa pergunta não ocorre nenhuma resposta imediata, a menos que se queira acatar a teoria irracional de que a vida não tem um propósito.

Deve-se acreditar que os problemas de cada pessoa a elas pertencem legitimamente e que a prova de caráter depende da maneira pela qual ela os enfrenta. Deve haver alguma verdade, consolo e mesmo razão de orgulho no pensamento de que essa determinada criança veio até você, para seu lar, isto é, para os pais e para a casa de que ela mais precisava para influenciar no seu destino.

Embora inverossímil, parece incontestável que, a felicidade é conseguida pelo firme propósito de tirar o maior proveito das suas responsabilidades, quaisquer que elas sejam.

Para uma apreciação mais aprofundada a respeito de sentimentos e atitudes referentes à cegueira, transcreve-se, a seguir, uma carta do Reverendo Thomas J. Carrol (1968), dirigida aos pais de crianças cegas:

"... Existem muitas coisas que vocês precisam saber a fim de dar à sua criança a vida normal que almejam para ela. Há coisas que vocês devem saber e com as quais outros pais nunca se preocuparam. Na verdade, vocês devem conhecê-las para não se preocuparem com as mesmas.

Vocês terão um grande auxílio quando se dirigirem às organizações profissionais para receber conselhos - mas, certifiquem-se de que são profissionais. A maioria das pessoas neste serviço não tem outra intenção a não ser fazer o melhor pelo cego, incluindo a sua criança. Recebam os nossos conselhos, mas nunca dependam de nós - e nunca deixem sua criança depender de nós.

Lembrem-se, ela pode traçar o seu caminho sem excessiva dependência se, exceto por sua cegueira, ela for normal. Vocês poderão duvidar desta possibilidade em certas ocasiões - que ela possa realmente ser normal e independente. Mas, talvez lhes ajude lembrarem-se de que o autor desta está completamente convencido desta possibilidade.

Seu caçula poderá crescer com esta deficiência, ajustar-se a ela, viver normalmente numa sociedade de pessoas dotadas de visão e alcançar o objetivo para o qual Deus o colocou aqui.

Vocês quererão, certamente, aprender o mais que puderem sobre a cegueira e seu significado total e sobre todas as possibilidades de sobrepuja-la - as já existentes e aquelas que serão desenvolvidas no futuro. Entretanto, mais importante é o que vocês precisam saber sobre um determinado cego -sua criança - suas reações e sentimentos. Precisarão saber distinguir seus verdadeiros pensamentos e sentimentos daqueles que ela poderá exprimir e também daqueles que vocês possam interpretar como sendo dela e que, na realidade, vêm das suas próprias mentes e dos seus corações.

Isto significa que vocês, mais do que qualquer um de nós, precisa chegar a uma compreensão madura de si próprios - porque seu ajustamento à vida e à cegueira da sua criança é muito importante para o ajustamento dela. Mais do que qualquer outra pessoa, vocês estão envolvidos no desenvolvimento total e no futuro daquela criança; se vocês deixarem de se envolver o suficiente, ela perderá o amparo de que precisa para crescer, se vocês se envolverem demais, sufocarão seu crescimento e a estagnarão.

Vocês precisarão saber qual a sua real atitude para com a sua criança. (Não tirem conclusões precipitadas; certamente vocês a amam, existem outros fatores). E o que é mais importante depois disto e, diretamente ligado a isto, vocês precisam conhecer as suas próprias atitudes para com a cegueira - não apenas as superficiais, mas as mais profundas.

Estas coisas podem ser difíceis para vocês aprenderem por si próprios. Poderão descobrir algumas, possivelmente, por observar suas próprias reações quando se fala sobre  cegueira, quando dizem coisas erradas, quando se compadecem em demasia de sua criança, ou a rejeitam. Mas pode ser que, por mais que tentem descobrir seus sentimentos reais, não possam fazê-lo sozinhos. Se assim for, deverá haver organizações na sua vizinhança, com pessoal treinado para ajudá-los. Lembrem-se disto: vocês amam sua criança, mas seu amor (se vocês forem como nós) é complexo e outras reações são confundidas com ele. Seria surpreendente se algumas das emoções misturadas com seu amor não tivessem relação com a cegueira.

Talvez vocês não admitam isto como um fato, mas provavelmente, poderão, ao menos, admiti-lo como uma possibilidade. Certamente concordam que (ao menos por um momento passageiro e provavelmente mais duradouro) a notícia da cegueira de seu filho foi um choque terrível para vocês. Não houve, talvez, um momento de verdadeira revolta com a idéia desta cegueira. (E vocês não reagiram quando a ouviram pela primeira vez, com a mesma reação que os incomoda tanto quando a vêem em outras pessoas?) Se tiveram tais sentimentos, então, talvez, tenham agora alguns momentos de culpa quando vêem outras pessoas com os mesmos sentimentos a respeito de seu filho. E, possivelmente, vocês ainda têm no íntimo, alguns destes sentimentos. A idéia de tê-los não deve preocupá-los, é apenas humano.

Provavelmente, também existirão ainda outros sentimentos associados ao seu amor pelo seu filho. Vocês poderão reagir a estes sentimentos instintivos de choque e compaixão com os de posse, uma posse que interfere com o mais amplo desenvolvimento do amor. E, possivelmente, alguma coisa naquela criancinha que vocês sentem que todos rejeitam, os relembre de outra criança da qual tinham a mesma impressão - vocês mesmos. Assim sendo, poderão identificar-se quase completamente com ela; e, não obstante, pensar o quanto desejam dar-lhe de independência, sendo assim, passarão grande parte do seu tempo protegendo-a de uma maneira ou de outra, do mundo hostil que nunca deu, a nenhum de vocês, muito amor.

Vocês vêem a possibilidade de existir um certo sentimento confuso em seu amor? Fariam bem em se perguntar como se sentiam em relação às pessoas deficientes antes de seu filho nascer, ou mesmo de ter sido concebido. Poderão perguntar a si mesmos, como se sentiam em relação às crianças alheias deficientes e aos seus pais. Poderão também, perguntar-se que espécie de ambição e expectativa tinham para a criança que desejaram viesse um dia. Tudo isso faz parte do quadro agora, porque são parte da situação global dentro da qual vocês receberam a notícia traumática de que a sua criança era cega.

Parte da situação, também é a espécie de sentimento que vocês possuíam no passado a respeito da hereditariedade e males hereditários. Isto é verdade mesmo que a hereditariedade nada tenha a ver com a cegueira de seu filho (e as chances são, hoje em dia, muito grandes de nada ter). Se vocês alguma vez tiveram vagas idéias sobre "sangue mau" transmitindo-se na família; e se tiveram toda espécie de idéias sobre males; se tiveram vocês mesmos a vaga sensação de não serem bons (quando tinham três, quatro ou dez anos), então, tudo isto poderá ainda ser fator de perturbação, que de algum modo, está incorporado no seu amor pelo seu filho.

Vocês não gostarão de encarar estas possibilidades, mas, se elas existem,
é muito importante reconhecê-las e sobrepujá-las.

Seu esforço total deve ser na direção de um bom ajustamento à cegueira de seu filho, para que ele e os seus outros filhos, possam também ter um ajustamento perfeito. De seu ajustamento deve surgir um amor perfeito e maduro para com ele e para com todos seus filhos, um amor que contribuirá para o crescimento e independência deles - mesmo uma independência de vocês.

É de magna importância que tenham em mente a diferença entre amor maduro e amor possessivo. O primeiro liberta, o segundo luta sempre para aprisionar e, assim sendo, nunca deixa nada crescer e sair. O amor possessivo, nunca é um amor verdadeiro, mas, um substituto neurótico para o amor, encontrado em pessoas que realmente nunca cresceram. Uma parte dele, em algumas pessoas, é o falso martírio com o qual elas parecem sofrer enormemente pelos seus filhos mas, na realidade, estão usando tudo o que podem ou fazem, como um outro meio de mantê-los dependentes.

Agora devem saber, sem nenhuma dúvida, que vocês estão livres desta espécie de amor, ao menos nas suas formas mais exageradas. Estas, entretanto, existem em vários graus e, se estiverem inseguros de seus sentimentos mais íntimos, não hesitem em esclarecê-los. Se estiverem interferindo na sua adaptação a seu filho, então, quanto mais cedo forem corrigidos, melhor.

Se problemas psiquiátricos estão envolvidos, então, provavelmente, precisarão de ajuda psiquiátrica, quer seja diretamente de um especialista, ou de um assistente social psiquiatra de uma das organizações para cegos. Sejam suficientemente prudentes para procurar uma ajuda psiquiátrica para a compreensão também de suas necessidades espirituais. A combinação de uma boa ajuda espiritual com a psiquiátrica, talvez seja necessária para eliminar qualquer sentimento falso que ainda permaneça sobre ser a cegueira de seu filho uma forma de justo castigo divino por algo que vocês fizeram.

Não percam a coragem. Sua criança poderá crescer para uma vida de total ajustamento com seu ambiente, amando a Deus e aos seus semelhantes (quer sejam cegos ou dotados de visão). Sua chance para isto será grandemente realçada se vocês, seus pais, forem ambos capazes de dar-lhe um amor profundo, maduro e não possessivo - um amor para ela como ela é, enquanto tentam ajudá-la a crescer para algo mais forte e mais independente, exceto em sua dependência à Deus.

Como vocês viram, não são os problemas da criança, mas os dos pais que devem ser solucionados, se quisermos dar àquela uma vida normal ““.


6 - RELAÇÕES COM A CRIANÇA

É preciso compreender antes de tudo que a criança representa uma personalidade definida, com uma vida a ser vivida e uma missão a se realizar. Por esse motivo, trate-a, tanto quanto possível, como você o faria a uma criança vidente e não a sobrecarregue com o peso dos seus temores e ansiedades. Felizmente, a criança não partilha desses temores na infância e, provavelmente, isso não ocorrerá nunca.

Lembre-se de que, sua criança como as outras, será uma fonte de alegria como de cuidados para você e, lute corajosamente, para vencer suas decepções. O tempo e as energias gastos nesses sentimentos negativos, enfraquecem os
benefícios que você poderia lhe dar. Ao contrário, esteja sempre pronto para prestar-lhe um apoio encorajador, construindo nela a certeza da sua lealdade e confiança.

Somente nessa atmosfera torna-se possível para a criança corresponder adequadamente às necessidades da vida. Somente assim poderá ela desenvolver harmoniosamente suas aptidões inerentes.


7 - FATOS A CONSIDERAR

Neste ponto, algumas declarações definidas poderão auxiliar para que você pense por si só. Embora você queira desafiá-las, servirão, todavia, para dissipar bastante essa sensação de confusão.

A aceitação do fato é essencial - É imprescindível que a criança limitada, seus pais e os outros membros da família "aceitem", de boa vontade, o fato da cegueira.

O papel dos pais é importante - A função de vocês, como pais, toma-se mais importante do que nunca, ante uma necessidade de separação na infância entre você e seu filho, com a desculpa de ser para o bem da "educação dele".

A desvantagem é grande, mas não desastrosa - Uma criança que nunca tenha visto, não sofre o sentimento de privação. Você sofrerá mais do que ela, mas você a auxiliará muito se aceitar a situação, filosoficamente. A vida, se você quiser aproveitá-la, poderá ainda proporcionar-lhes muita beleza, felicidade e interesse para você e seu filho.

O lar é o melhor ambiente de educação - De um modo geral, o melhor local para todas as crianças, é o próprio lar, principalmente nos primeiros anos e, particularmente, se ela tem que fazer face à vida com qualquer desvantagem física. Um lar, tanto é bom para as crianças normais quanto para as cegas.

A natureza da educação - A educação começa no berço e continua através da vida e é mais ampla, profunda e rica do que qualquer outra adquirida em "Faculdades", tal como o ABC ensinado nas escolas primárias.

A educação da criança cega na idade pré-escolar - É um erro pensar-se que são necessários métodos especializados de educação durante esses primeiros anos. É verdade que à criança em idade escolar, deve ser ensinado o Braille por professores especializados e que, certos materiais de ensino, tais como os usados nas escolas para os cegos, são de grande auxílio.

Durante o período pré-escolar, no entanto, a principal tarefa é lançar uma base sólida para um caráter perfeito e uma personalidade equilibrada. Para isso, é preciso a aplicação de princípios gerais de orientação da criança. Todas as boas mães estão, em parte, familiarizadas com esses princípios, mas devem compreender que, pela razão de uma criança cega necessitar de uma orientação mais "consciente", elas também precisarão de auxílio, de vez em quando, para o esclarecimento e aplicação de suas próprias idéias.

As habilidades a serem adquiridas por uma dessas crianças, antes da idade pré-escolar, podem ser dirigidas através dos métodos de ensino rotineiros, um tanto modificados, para ir de encontro às suas necessidades, e aplicados com maior paciência e perseverança do que são precisos para ensinar às crianças videntes.

Significação do período pré-escolar - O emprego adequado do período pré-escolar, moldará a mente da criança e a tornará ávida de conhecimentos. O uso impróprio desse período, a prejudicará pela negligência e a sufocará pela repressão. Isto, certamente, se aplica a todas as crianças, porém, de um modo mais especial a seu filho cego, porque ele depende mais que as outras, da direção ajuizada que você lhe prestará.


V - DESENVOLVIMENTO E NECESSIDADES DA CRIANÇA CEGA

1 - A SAÚDE DA CRIANÇA

Excetuando-se alguns pontos indicados abaixo, os requisitos de saúde para uma criança cega são os mesmos que os das outras. Quando a deficiência visual é resultante de outras doenças ou anomalias, deve-se dar maior atenção, naturalmente, ao tratamento de tal doença e à melhoria do estado geral da criança. Deve-se ter em mente o seguinte: certificar-se de que a criança é alimentada convenientemente; o médico deverá fazer sugestões sobre uma dieta especial que contribua para melhorar seu estado geral.

Deve-se tentar descobrir um equilíbrio certo entre a atividade e o descanso necessário. Qualquer tendência para a passividade deve ser contrariada; entretanto, você deverá lembrar-se de que a criança cega tem que despender muito mais energia em seus trabalhos e brinquedos que as outras crianças. Portanto, ela precisa descansar mais do que as outras, especialmente se demonstrar alguma tensão nervosa.

Presumindo-se que vocês assimilaram as principais idéias até aqui apresentadas, será proveitoso dirigir agora sua atenção para problemas mais detalhados. Antes de esses problemas serem discutidos, convém examinar brevemente o assunto geral de orientação e disciplina e, em seguida, apresentar uma lista com algumas manifestações indesejáveis, resultantes, às vezes, da cegueira.


2 - ORIENTAÇÃO E DISCIPLINA

Compreendendo-se que as crianças devem ser criadas e ensinadas e que existem sistemas adequados e inadequados para fazer isto, considere-se o assunto da orientação e disciplina. Por disciplina, quer-se dizer ensinar o autodomínio de preferência a um castigo imposto.

Os princípios habituais de orientação de comportamento são adequados, devendo porém ser mais conscientemente aplicados à criança cega.

3 - LEMBRETES ESPECIAIS

Alguns pontos especiais que se deve ter em mente:

Esteja certo de que, ao fazer um pedido à criança, ela entendeu o que dela se espera. Caso você tenha deixado algum detalhe de parte, a criança não se sentirá esclarecida suficientemente e poderá parecer desobediente, quando na realidade está confusa.

Nunca se esqueça de que ela se assustará mais facilmente do que as outras, com palavras e ameaças irrefletidas. Naturalmente, é sabido que não se deve nunca fazer ameaças a qualquer criança. Você deverá, ao contrário, enunciar-lhe as conseqüências inevitáveis de uma má ação, e aplicá-las de maneira segura, quando a ocasião assim o exigir.

Lembre-se de que raramente é preciso repreender ou castigar quando a criança está entretida em coisas que a interessam. Procure pois descobri-las. Faça com que a criança participe, o mais possível, das ocupações rotineiras da casa. A execução de serviços em conjunto, evita atritos.

Mantenha uma atitude mais ou menos indiferente, nunca demonstrando demasiada surpresa, ou excitação, por qualquer coisa que aconteça, seja ela agradável, ou desagradável. Torne desnecessário à criança, precisar ser "ruim" para despertar a atenção. Embora a criança cega precise mais de aprovação do que as outras, deve ela sentir que é amada pelo que realmente é, e não pelo que faz.

Tenha sempre em mente que uma criança limitada experimenta uma frustração inevitável, o que representa um esforço para a sua natureza. O reconhecimento desse fato, não exige indulgência, mas sim, uma orientação hábil.

POSSÍVEIS DEFEITOS
Ainda que uma lista de possíveis defeitos
numa criança cega, nunca seja lida com prazer, ela é muito útil para auxiliar a reconhecer situações que podem causar transtorno e também para ajudar a fazer o possível para corrigi-las. Você deve querer estar sempre alerta contra os efeitos indesejáveis, porém evitáveis, oriundos da cegueira. São eles:

Passividade ou excesso de atividade. Algumas crianças cegas, recebendo menos estímulos do que as videntes, têm uma tendência a tomar-se passivas ou broncas. Outras, devido à natureza das condições da visão, ou ainda, pela ânsia de descobrir como é o mundo, vivem saltitantes, indecisas de um ponto para o outro. Isso retarda o desenvolvimento normal do poder de concentração, do qual depende tanta coisa.

Atitudes perniciosas de terceiros. As crianças cegas, habitualmente, têm que conviver com pessoas que demonstram atitudes perniciosas para com elas. Essas crianças têm que desenvolver a confiança em si próprias, apesar de tais atitudes negativas, como sejam: piedade, excesso de ansiedade pela sua segurança física e a idéia fixa de que permanecerão desamparadas por toda a vida, - convicção que produz, por vezes, um exagerado espanto perante a verdadeira eficiência da criança.

Medo da vida. Algumas crianças cegas são tentadas a recolher-se ao mundo imaginário, como muitos adultos que acham o nosso, agressivo e desinteressante. Se essa tendência não for controlada, induzindo-se a criança
a uma atividade construtiva, suas oportunidades para um adequado ajustamento à vida, ficarão seriamente prejudicadas.

Hábitos. Algumas crianças cegas desenvolvem certas atitudes que lhes são peculiares, designadas pelo nome técnico de "ceguismos" (cacoetes próprios da cegueira). Adquirem, também, certas maneiras e posições defeituosas, especialmente uma, muito costumeira entre cegos, a de conservar a cabeça abaixada. À maioria das crianças deve-se ensinar a olhar de frente para a pessoa com quem está falando.

"Ceguismos". Por algum motivo que ainda não pode ser totalmente explicado, as crianças cegas têm uma certa tendência para desenvolver alguns cacoetes, tais como, sacudir ou girar o corpo; esfregar os olhos ou os ouvidos; sacudir as mãos quando excitadas, ou - se vislumbram um pouco de luz - agitar os dedos na frente dos olhos, para ver a variação de luz e sombra. A única explicação dada até agora, a esses "ceguismos" é que, a criança cuja atenção não está sempre despertada para as coisas exteriores, - situação muito comum entre os cegos - possuem uma tendência para se concentrar em sensações provenientes do interior, o que em condições normais, seriam totalmente ignoradas.

O costume de esfregar os olhos, origina-se, provavelmente, do desejo de intensificar novas sensações, o que deve ser causado pelo estado dos olhos. É um costume bem comum e facilmente corrigido, quando a criança encontra outras atrações. Não deve ser considerado como indicação de dor. Ainda persiste uma dúvida sobre qual o melhor meio para corrigir esses "ceguismos", mas se as mãos da criança permanecerem ocupadas e ela se mantiver ativa e interessada, provavelmente não os adquirirá.

As seguintes sugestões são apresentadas como corretivos: - Tente interromper, silenciosamente, os "ceguismos"; faça-o automaticamente, ou com uma observação ligeira, embora você não possa esperar muita cooperação até que a criança tenha cerca de três anos e meio. Tenha cuidado em não repreendê-la, continuamente, em nenhuma idade, porquanto só despertará teimosia e ressentimento por parte dela, o que poderá resultar numa resistência à autoridade.


4 - DESENVOLVIMENTO AFETIVO E SOCIAL

É sabido que uma mudança significativa se opera na vida afetiva da criança com o passar dos anos. Espera-se de uma criança mais velha, maior aptidão para encarar certas experiências que a transtornavam quando com menos idade. No entanto, a mudança esperada não ocorre na intensidade dos sentimentos da criança, mas na sua compreensão e concepção, o que resulta numa extensão de sua habilidade para participar das vidas de outras pessoas. Estudos psicológicos recentes demonstram a conclusão acertada de que uma criança pequena pode sentir tão intensamente o fato de quebrar uma boneca, quanto um adulto sente a perda de um ente querido.

Quando se fala de uma pessoa como sendo "imatura emocionalmente", quer-se dizer que ela é, ou parece ser, demasiadamente concentrada em si própria - introvertida - para lutar com a vida. Quando uma criança mais velha está confusa por qualquer coisa que o adulto considera insignificante, ouve-se logo a admoestação: - “Não proceda como uma criancinha..."

O mundo do bebê parece ser inteiramente cingido a si mesmo. Mais tarde ele se interessará naqueles que lhe trazem conforto e gradativamente, à medida que passa da infância para a adolescência, até a maturidade, iniciará relações de amizade com estranhos. Eventualmente, se esse desenvolvimento se processar de um modo normal, será capaz mesmo de estender sua simpatia até por pessoa de quem não gosta e de aceitar, filosoficamente, experiências dolorosas, isto é, sem um sentimento demasiado de ofensa pessoal.

Que essa é a direção que segue tal desenvolvimento, está claramente ilustrado pelo fato de que uma criança de dois anos se interessa pouco ou nada por outras crianças. Continuará brincando sozinha no meio delas, conforme se verifica nas creches. Devido ao fato de assim procederem todas as crianças de dois anos, conclui-se que esse é o "nível da maturidade social e emocional" normal para criança dessa idade. Se porém, uma criança de cinco anos proceder dessa maneira, é de se presumir que alguma coisa esteja errada.


5 - DIFICULDADES DA CRIANÇA CEGA

A criança cega encontra muito mais dificuldades nesse desenvolvimento e deve ser compreendida e auxiliada. Como as outras, deve aprender a tomar e compartilhar da responsabilidade. Não lhe é fácil estabelecer relações satisfatórias com outras crianças, por quanto não pode competir com elas em iguais condições. Quando lhe tomam os brinquedos, não pode recuperá-los facilmente. Algumas crianças, por vezes, procuram tirar vantagem disso, e do fato de a criança cega não poder, tão bem quanto elas, se defender fisicamente. Essas são as ocasiões "em que um camarada necessita de um amigo" e não é fácil o desempenho de tal papel.

Não se deve interferir constantemente no grupo em que a criança cega está brincando e "dar a impressão de que ela é um bebê", tomando sempre o seu partido. Tão pouco será possível iniciar-se uma "campanha educacional" em seu favor, pela vizinhança. Deve-se porém, discutir alguma ocorrência e interpretar o problema para algumas pessoas, ganhando assim sua compreensão e cooperação.

Na situação exposta como nas outras todas, é preciso ver as coisas como elas são e você pode estar certo de que a sua atitude é contagiante quando justa e sadia, ou vice-versa.

Como o contato com a vida é imprescindível para o desenvolvimento social e afetivo, torna-se óbvio que pela proteção demasiada à criança, se lhe presta um mau serviço.

Respeito próprio, segurança e equilíbrio são necessários para encarar a vida com sucesso. Tudo isso está baseado numa sensação íntima de confiança que consiste em saber-se amado e respeitado, e na sensação do empreendimento pessoal. Deve-se tomar possível à criança adquirir esses sentimentos.


6 - NECESSIDADES AFETIVAS E SOCIAIS

Apresentam-se, a seguir, algumas sugestões referentes a esse tema que poderão ser de grande utilidade para os pais.

Divertimento individual - Desde cedo, incentive a criança para que se ocupe sozinha. Mude-lhe o ambiente, a posição do mobiliário, os brinquedos, quando o seu interesse diminuir. Entretanto, não pense que é obrigatório diverti-la constantemente. Continue exercitando-a para o divertimento individual, dando-lhe nesse meio tempo, a sensação de segurança, deixando-a perceber que você está perto.

Importância da voz - Lembre-se que seu filho sente falta de tudo aquilo que é transmitido pelos gestos, posição do corpo, expressão facial e pantomima. Esteja sempre atento, portanto, para que sua voz, sem você o perceber, não soe de um modo áspero, quer para ele ou para os outros.

Colegas - Procure atraí-los para seu filho encorajando-os, interessando-se por seus assuntos e tanto quanto possível, por seus divertimentos e passeios. Como poucos pais se dão ao trabalho de proceder assim, você estará dando ao seu filho vantagem sobre as outras crianças. Um aparelhamento de brinquedos no jardim, também oferece bons resultados. Verifica-se o quanto as crianças cegas aproveitam, apenas pelo fato de gozarem pequenas distinções como sejam: aprender braile, enquanto que outras não; irem de táxi para as aulas, ou ainda, por poderem tocar e cantar de ouvido.

Escola - Mande a criança a um parque infantil, jardim da infância público, ou outros locais adequados, logo que for possível.

Personalidade - Incentive em seu filho o desenvolvimento de uma personalidade agradável. Deve ficar bem claro para a criança que a boa aparência, a higiene e a cortesia têm muito a ver com a aceitação social. Acredita-se que seu desejo seja que ele lute por esse desenvolvimento íntimo do qual tais atributos possam representar a expressão natural.

Equilíbrio - Você quase nunca deverá fazer as coisas que seu filho já tenha aprendido a fazer sozinho. Esteja sempre atento para dar-lhe coisas para fazer, despertando-lhe assim o sentimento de empreendimento. Mantenha-se calmo enquanto espera que ele as faça. Quando necessário, ocasionalmente, lembre-lhe que ele é habilidoso e isso lhe dará a sensação de equilíbrio e lhe poupará embaraços.

Prepare seu filho - Quando decidir levá-lo para qualquer passeio, quer em casa de amigos, num armazém, ou em qualquer outro lugar, prepare o espírito dele sobre o que vai encontrar. Se vai receber visitas, faça algumas sugestões antes, para que ele se sinta à vontade quando as pessoas chegarem. Por exemplo, você poderá dizer: "Fulano de tal gosta de ver seu velocípede novo e, principalmente, como você sabe andar bem nele"; ou "a cesta que você fez"... ou ainda, "aquelas flores lindas que nós dois achamos"...

Veja por ele - Quando junto com seu filho num lugar desconhecido, com umas poucas palavras, dê-lhe uma idéia das pessoas que ali se encontram, além daquela que está falando com ambos. Faça-o "ver qualquer objeto que possa interessa-lo. De qualquer forma, não o deixe, nem por um minuto, sem algo melhor a fazer do que escutar a conversa dos mais velhos.

A criança pode ser feliz - Ao se conhecer cegos adultos ou ler autobiografias de cegos, fica-se espantado com seus empreendimentos. Não obstante, pondera-se também que uma criança cega deve enfrentar muitas situações que seriam humilhantes para qualquer um, a não ser para aqueles que aprenderam a não se queixar sem motivo, ou a não dar demasiada importância ao que as pessoas pensam.

O acima exposto em parte é verdade no que se refere a uma criança. Não pense, porem, que a experiência íntima de pessoas cegas quando adultas, possa ser comparada à de uma criança que nunca enxergou. Tal não o é e nem pode ser o caso. Em um ambiente adequado, uma criança cega, provavelmente, será feliz, ajustando-se gradativamente à vida, tomando os fatos como se apresentam e não sofrendo assim nenhuma sensação de privação.


7 - LUGAR DA CRIANÇA CEGA NA FAMÍLIA

As relações entre uma criança cega e seus irmãos e primos, depende muito das respectivas idades. Habitualmente, se a criança cega é bem mais velha, poucos problemas surgirão, porquanto as outras menores, provavelmente encararão os fatos como são, sem muitas perguntas. Assim se dará, principalmente se a criança cega estiver bem hábil nas coisas fundamentais, tais como: andar, falar, vestir-se e alimentar-se sozinha, antes que as outras "comecem a notar" alguma coisa diferente.

Se a diferença de idade é muito pequena para que a situação seja essa, durante alguns anos surgirão algumas dificuldades, isto é, quando a menor não puder fazer companhia à mais velha e cada uma delas estiver sempre no caminho da outra, no que se refere à locomoção ou brinquedos. Será aconselhável, neste caso, conservar as crianças um pouco separadas.

Ocorrendo o inverso - a criança cega sendo bem mais nova que as outras - as coisas ocorrerão facilmente, quando as desvantagens da cegueira forem explicadas às outras que as interpretarão de acordo com sua compreensão.

O ponto fundamental é fazer com que as crianças mais velhas compreendam bem que o irmãozinho, ou priminho é perfeitamente igual a elas em tudo, com a única diferença de que não enxerga. Deverão ser ensinadas a deixar o caçula fazer tudo sozinho, ajudando-o apenas quando houver realmente necessidade. As crianças mais velhas devem ser ensinadas a observar que elas também se acham em situação idêntica à outra no que se refere às coisas que não podem fazer, ou não compreendem.

A presença da criança cega obrigando a certa solicitude por parte de todos da casa, servirá de base para a construção de um caráter firme. Alguns professores que tiveram entre seus alunos videntes crianças cegas ou com qualquer outra limitação, chegaram à conclusão de que elas representavam uma vantagem para a educação geral.


8 - DESENVOLVIMENTO COGNITIVO

Conceituando o que pode ser entendido por "vida mental", conclui-se que ela é a capacidade de raciocinar, fazer comparações e tirar conclusões. O ser humano lida com idéias e opiniões estabelecidas em impressões sensitivas e pelo que lhe é transmitido pela palavra escrita ou falada. Delimitando mais precisamente, os pensamentos são, em grande parte, orientados pelos sentidos.

A criança cega, portanto, precisa obter as informações tão necessárias para capacitá-la a viver neste mundo, usando os sentidos remanescentes ao máximo e confiando em grande parte na memória. Lembre-se de que ela deve construir o seu mundo com "fragmentos menores de realidade", pois, não é capaz - como os demais, num relance, - de obter, simultaneamente, uma abundância de informações, tais como: tamanho, forma, cor e posição relativa dos objetos e o espaço intermediário entre eles.

As seguintes sugestões o auxiliarão a estimular a vida mental da criança:
- Dê-lhe, tanto quanto possível, ocasiões para experiência direta.
- Incentive-a a fazer perguntas às quais você responderá parcialmente.
- Faça com que ela obtenha novas opiniões corretamente, pela comparação da coisa nova com o que já conhece.
- Incentive o "emprego" de todos os seus sentidos para obtenção de informações, deixando a criança manipular os objetos, tanto quanto o possível.
- Faça com que ela se familiarize com pequenos animais vivos e dê-lhe alguns empalhados para que aprenda um pouco sobre os mesmos. As pequenas reproduções de objetos e de animais grandes também são de muita utilidade.

a) O emprego de moldes - Há muita controvérsia entre os educadores no que se refere à importância do emprego de moldes, que parece mais prejudicar que auxiliar a criança cega porque, a semelhança com os originais é, freqüentemente, bem insignificante. Quase sempre os moldes representam apenas em parte as características dos originais e deles diferindo em aspectos importantes, como forma, tamanho, cor, textura, cheiro e som.

Conquanto seja isso uma verdade e alguns brinquedos - como silhuetas de animais recortados em madeira - possam ser confusos para a criança cega, os moldes, em geral, são de grande valor como ponto inicial de discussão. Por meio da elaboração de uma idéia, comparando-a com alguma coisa já conhecida e mais alguma descrição suplementar, é que se pode esperar conseguir a obtenção de opiniões corretas.

b) Palavras, dicção e linguagem - Representam os instrumentos do espírito. As palavras indicam os objetos e suas qualidades, sendo, portanto, símbolos. Um símbolo nada significa se não representar alguma coisa já conhecida por experiência. Uma criança cega pode tomar parte na conversa e usar as mesmas palavras que você e no entanto, demonstrar que possui uma concepção totalmente errada sobre o assunto, ou alguns de seus aspectos. Deve-se, pois, estar alerta para auxiliá-la a formar conceitos certos, evitando o "verbalismo".

c) Aprendendo a falar - As crianças cegas têm a tendência de falar mais tarde que as outras e sentem dificuldade em pronunciar corretamente as palavras. Isto é, em grande pane, devido ao fato de terem de imitar o som correto, inteiramente de ouvido, por não verem a posição dos lábios da pessoa que fala.

Para auxiliá-la neste setor, propõem-se as seguintes diretrizes:
- Comece a dar novas modalidades à sua voz, ou use alguma coisa que produza um som agradável para chamar a atenção da criança e deixe que ela o imite.
- Ensine a ela o nome do brinquedo ou objeto com que estiver lidando.
- Use palavras para descrever as sensações que ela estiver experimentando como: "quente", "molhado", etc.
- Fale diretamente com bastante freqüência com seu filho, converse com ele. Isso lhe ensinará as palavras e seus significados.
- Não deixe o rádio funcionando, continuamente, porque dispersa a atenção da criança e ocasiona a inércia do espírito.
- A criança deve ouvir e participar da conversa em família. Ela não deve ser distraída pelos ruídos continuados de uma máquina, especialmente porque, algumas crianças são um pouco atrasadas para aprender o emprego das palavras, exceto quando desejam alguma coisa.
- Ela deve ser incentivada a empregar o seu vocabulário na conversa. Algumas há que são muito atrasadas em tomar parte nas conversas. Parecem não compreender que a resposta é necessária e que as perguntas devem ser respondidas.
- Os versos infantis apresentam uma grande alegria e são de muito valor para elas, como o é a leitura em voz alta dos livros de histórias para crianças.

d) Métodos e planos - Têm uma significação importante sobre a eficiência mental da criança, embora raramente lhes dêem a atenção que merecem. Imagine a si próprio, como é que se arranjaria sem poder tomar notas e com os olhos fechados, ter que encontrar um objeto que tenha sido desviado, ou perdido? Aí então, você constatará que o hábito do método suaviza, em grande parte, a preocupação de uma pessoa cega. Inculcando em seu filho, desde criança, esse costume, você estará prestando-lhe um inestimável serviço. Ele deve ser incentivado a fazer planos sozinho, quando se apresentar a ocasião. É óbvio que uma criança só pode desenvolver o hábito do método e do fazer planos num ambiente equilibrado por uma rotina estável.

Deixe que a criança se orgulhe em colocar os objetos novamente em seus respectivos lugares. Dê um lugar só para ela guardar os brinquedos e as roupas. Coloque no banheiro cabides baixos, para ali pendurar toalha, esfregões e uma prateleira para escovas de dentes. Arranje, só para ela, um armário com gavetas onde possa arrumar, sozinha, suas roupas. Á noite, deixe que organize as roupas pela ordem em que as vestirá na manhã seguinte, colocando o lado direito para fora e do modo que a ela parecer mais fácil para que as vista.


9 - A VIDA ESPIRITUAL DA CRIANÇA

Torna-se evidente, pelo que já ficou dito, que a vida espiritual é de máxima importância. O sentido bem amplo em que o termo é aqui empregado, também foi indicado. A fé religiosa dá à criança um suporte moral que não pode ser adquirido por outros meios. Como a primeira sensação de fé, por parte da criança, é para com os pais, que para ela são sinônimo de sabedoria e poder, é importante que eles se façam dignos dessa confiança e aos poucos, mostrem à criança que também eles necessitam de um auxílio divino superior, para serem guiados.

Destaque da música e da literatura - A música e a literatura podem ter grande influência na vida de seus filhos. Nelas está o poder de saciar na criança a sede de conhecimentos, de expandir sua simpatia e a compreensão das criaturas humanas, de estimular sua imaginação e fazê-la sensível à beleza.

Livros baseados em outros sentidos que não seja o da visão, são recomendáveis por atraírem de maneira especial as crianças cegas.

Você descobrirá que mesmo uma criança totalmente cega gosta de possuir um livro de histórias. Neste caso, você certamente terá grande prazer em ler ou contar-lhe as histórias desse livro. A lembrança dos momentos felizes resultantes dessas leituras, das canções que você ensinou, enfim, de todos os instantes que você soube compartilhar com seu filho, permanecerá por toda a vida e constituirá para ele uma fonte de conforto e fortaleza.

Quanto à música, deixe de lado a noção errada, tão comum ainda na sociedade, de que tanto a música como a literatura são coisas que devem ficar à margem da vida e que só devem ser praticadas por pessoas especializadas e apreciadas, passivamente, pelos leigos.

Afaste também, qualquer sentimento que você possa ter, a respeito de uma suposta nulidade musical, ou de "não ter ouvido". Caso você se sinta fora desses mundos fascinantes, sempre é tempo de recuperar o que perdeu, não pelo empreendimento de algum plano ambicioso, mas sim, descobrindo novamente e de um modo simples, os tesouros que eles contêm, ao abrir suas portas para seu filho. Não se esqueça de ler as introduções dos livros de histórias e de músicas, pois, elas o levarão diretamente ao mundo interior da criança.


VI - O QUE ESPERAR DE SEU FILHO

Esta análise abrangendo em toda a sua extensão a vida de uma criança cega está terminada. No entanto, ainda não foi dada uma idéia bastante clara do que se deve esperar de uma criança normal cega, em determinada idade. Indicam-se abaixo, alguns padrões mínimos de desempenho. Foram selecionados da Tabela Social de Maturidade (Social Maturity Scale) adaptados para as crianças cegas em idade pré-escolar e baseados num estudo sobre cem cegos que se presume fossem crianças normais.

Proporcionam tais padrões uma indicação bastante precisa do que deve ser esperado de uma criança cega. Você não precisa levar isso muito a sério, pois, tais padrões ainda não foram suficientemente experimentados, conquanto possam auxiliar como um esquema de referência.

As habilidades são aqui anotadas de conformidade com a tabela original, na ordem em que se apresentam durante a vida. As mencionadas por último, são aquelas que a criança deverá executar ao final do período em questão. A aquisição dessas habilidades ou talentos, no entanto, depende de exercício e não podemos esperar que uma criança desenvolva uma habilidade sem nunca ter usufruído a oportunidade de praticá-la.

As sugestões que acompanham os itens a seguir, foram feitas devido a sua relação com determinada idade. Não fazem parte da tabela original, o mesmo acontecendo com as sugestões que se referem aos brinquedos.

Quanto ao último aspecto mencionado, deve-se ter em conta que os brinquedos são de grande auxílio para a criança e que tal "equipamento" é essencial porquanto, constitui na verdade, um conjunto de instrumentos cujo uso facilita o desenvolvimento. Assim, se você não pode comprar muitos, deve escolhê-los cuidadosamente.

Com alguma imaginação você, provavelmente, encontrará em sua casa muitas coisas que poderão servir como substitutos, tais como as que serão mencionadas adiante.


1 - PADRÕES DE DESEMPENHO PARA CRIANÇAS NORMAIS CEGAS

O que relacionamos a seguir, é uma lista de desempenhos normais para tais crianças e sugestões para uma educação prática e escolha de brinquedos.

Durante o 1º ano - A criança deverá ser capaz de:
- sentar-se sem apoio durante algum tempo..
- Colocar-se de pé e abaixar-se, até ficar sentada.
- Imitar sons.
- Ajudar a segurar uma xícara ou um copo para nele beber.
- Fazer gestos e algumas gracinhas.
- Entregar um brinquedo quando lhe pedirem.

Sugestões para o 1º ano - Não deixe a criança permanecer, demasiadamente, em uma só posição, quer seja no berço, no carrinho, na cadeira, no quadrado, ou noutro lugar qualquer. Quando ela já engatinhar, deixe-a movimentar-se livremente, enquanto você estiver perto (as crianças cegas, freqüentemente não engatinham).

Um método prático para ensinar a criança a caminhar é colocá-la entre duas pessoas, com um espaço pequeno entre elas. Anime-a a "correr" dos braços de uma para os da outra, alternadamente. As pessoas deverão ir aumentando gradativamente o espaço, sem que ela sinta.

Ensine-a a comer biscoitos ou torradas pela própria mão e quando estiver lhe dando de beber, ponha-lhe a mãozinha, junto ao copo.

Procure fazer ruídos com sua voz para que ela a imite, tentando reproduzir esses sons.

Estimule a criança a cooperar no ato de vesti-la. Para isso, enquanto a estiver trocando, estenda seus bracinhos e perninhas na direção das roupas e mencione o nome das partes do corpo que está vestindo.

Os brinquedos devem incluir: chocalhos, carretéis, sinetas com cabo, ou qualquer coisa que produza um ruído agradável (guizos cobertos), uma cadeira alta, um "andador", um balanço de corda, cavalinho de balanço. Brinquedos de borracha que façam ruídos, que contenham guizos, colher e caneca de metal, toda espécie de latas e caixinhas, com e sem tampas; coisas similares como botões grandes e bacias, sempre interessam a criança.

Durante o 2º ano - As crianças devem:
- Ir buscar objetos que lhes sejam familiares.
- Usar uma cesta ou outro qualquer recipiente para levar pequenos objetos de um lugar para outro.
- Segurar bem a xícara ou o copo, recolocando-os sobre a mesa.
- Comer com uma colher.
- Andar por tudo livremente (algumas já sobem escadas).
- Indicar por gestos, ou uma determinada palavra suas necessidades e desejos.
- Falar o nome dos objetos familiares.
- Falar pequenas frases.
- Ter prazer na companhia de outras crianças, mesmo que não brinque realmente com elas.

Sugestões para o 2º ano
Comer sozinha: - Deixe que ela segure a colher durante parte do tempo da refeição, no começo segurando-lhe delicadamente o braço, ou a mão. No princípio, será bom usar uma colher de criança, com a concha em ângulo reto.

Não espere demasiadamente da criança e nem se importe por ela espalhar a comida ao seu redor. Uma atitude paciente trará a recompensa um dia, pois, nada se ganha e muito se perde com a impaciência.

Compre um prato com bordas altas e repartições, ou então, use uma espécie de tigela. Não permita que a criança brinque com o alimento e talheres e não desvie a atenção do que ela estiver fazendo.

Em geral, é mais aconselhável dar as refeições à criança antes da hora habitual das pessoas da casa. Também é melhor, logo que ela possa sentar-se, tomar as refeições numa mesinha e cadeira pequena, só dela.

Hábitos de higiene - Considere este assunto de uma maneira normal. Se você acha que o hábito de a criança não molhar mais as calcinhas é muito importante e quiser ensiná-la, desde o início, terá que prestar muita atenção, pois, este é um trabalho que requer tempo e principalmente, paciência.

Pelo que foi dito, ficou bem claro que, a aquisição de uma independência total nesse setor é de realização complicada para a criança, pois, encerra o aperfeiçoamento de muitas habilidades suplementares.

Os métodos comuns aconselhados para as crianças videntes, são válidos, mas quando é que se deve iniciá-los, eis o ponto difícil para se determinar.

Em geral, uns quatro meses depois do prazo comum para as outras crianças, pode ser o momento oportuno. Se por esse tempo ela ainda não estiver caminhando sozinha, mas der indicações de estar "pronta" em outros setores, então, será adequado começar um exercício positivo no sentido de ensiná-la a dizer suas necessidades.

O atraso de tal exercício poderá trazer, como conseqüência, um hábito negativo de irresponsabilidade ou negligência com respeito a esse assunto.

A melhor atitude é conservar a criança sempre seca, desde o início. Em alguns casos, isto quer dizer colocá-la no "vaso" a cada meia hora, ou a intervalos de 15 minutos. Se vale ou não a pena todo esse trabalho para obter o resultado desejado, é uma questão que cabe aos pais decidir.

Freqüentemente, é possível, a partir de um estudo das necessidades da criança, conservá-la seca com menos idas ao “vaso”, ao se conseguir a cooperação por parte dela. Deve-se incentivar o seu amor próprio no sentido de se esforçar para cooperar e nunca fazê-la sentir sensação de culpa nos casos de um fracasso.

Para o que se refere à noite, a maioria das crianças precisa ser levantada tarde da noite e, algumas vezes, deve-se evitar que bebam muito líquido antes de se deitarem.

Tudo deve ser feito para facilitar o domínio dessas funções. Por exemplo: usar-se um lugar conveniente e sempre o mesmo, para facilitá-la. Se a criança já puder fazer uso da privada, deve-se ter no banheiro uma escadinha de dois ou três degraus, para que ela possa sentar-se facilmente

No começo, para os meninos, deve-se usar roupas adequadas tais como calças de abaixar e, mais tarde, conjunto de duas peças, sendo a calça com suspensórios, ou elástico na cintura e que tenham braguilha com zíper, botões grandes, ou outro tipo de fecho simples.

Material útil: - Ter os objetos de toalete apropriados para que a criança se habitue a usá-los conveniente e naturalmente.

Brinquedos: - Trem com vagões ligados uns aos outros, uma prancha de madeira com cavilhas, carrinhos, caminhões, bolas grandes, carrinhos de mão, panelas com tampa, carteiras, piano de brinquedo, xilofone, caixinha de música, gaita, tambor, brinquedos para a areia, uma mesinha com uma ou mais cadeirinhas.

Durante o 3º ano - A criança deverá:
- Despir e vestir, com algum auxílio, casaco ou outra peça simples do vestuário.
- Enxugar as mãos.
- Pedir para ir ao banheiro e tirar as calcinhas.
- Colocar as cavilhas na prancha de madeira, sem o auxílio de terceiros.
- Ouvir com atenção uma história simples que tenha repetição e fatos conhecidos.
- Usar os pronomes "eu, me, você", suas formas no plural e o tempo passado dos verbos.

Sugestões para o 3º ano - Este é o tempo ideal para:
- dar-se início a coisas rotineiras. A criança quando nessa idade, gosta que se proceda dessa maneira e de encontrar os objetos nos lugares a que esteja acostumada.
- Deve-se começar a ensinar a ordem, tendo-se o cuidado para não apressar a evolução normal.
- É também a ocasião de deixar a criança ajudar em pequenas tarefas domésticas, como sejam: trazer para dentro os jornais, ou o leite, dar os chinelos ao pai, ou à mãe, ajudar a guardar as compras, dar pequenos recados, tanto para os de casa como para os vizinhos.
- Deverá também ser ensinada a lavar o rosto e as mãos, mostrando-se-lhe os movimentos necessários para isso.
- Contar-lhe histórias sobre o que acontece em casa.
- Contar-lhe histórias sobre a natureza, os animais, as pessoas, tendo o cuidado porém, para que a criança não forme impressões erradas.

Brinquedos: - Argila, blocos de madeira de tamanhos variados, quebra-cabeças simples, desses recortados em madeira, para que junte as peças. Contas de madeira para serem enfiadas em cordão, miniaturas de meios de transporte e de material doméstico, bonecas, mobília de brinquedo e velocípede.

A escadinha ou tamborete que serve para a criança alcançar a privada, também será de grande benefício para que ela utilize a pia.

Deve-se ter no banheiro um cabide com ganchos, instalado numa altura que permita à criança nele pendurar a sua toalha e a bucha, ou esfregão.

Durante o 4º ano: - A criança deverá:
- Pular de um caixote ou degrau, baixo, com os dois pés.
- Subir e descer escadas usando um pé em cada degrau.
- Abotoar e desabotoar botões que não sejam muito pequenos, colocados na frente, ou na lateral das roupas.
- Fazer bolinhos de areia ou terra.

Sugestões para o 4º ano - Se você ainda não se preocupou em arranjar alguns companheiros para o seu filho, este é o momento não só de fazê-lo, como também de levá-lo ao jardim da infância e às atividades da igreja. Arranje brinquedos para o jardim ou quintal, talvez um quadrado grande de madeira, um balanço, algumas pranchas de madeira, caso não possa ter coisas mais caras e complicadas.

A criança já deverá ter aprendido a sair sozinha da casa - mas não atravessar a rua. Já poderá fazer qualquer trabalhinho. Enfiar contas ou botões, recortar figuras, modelagem em barro, construções com grandes blocos, tudo servirá para exercitar suas mãos e dedos.

A criança poderá participar com você dos trabalhos domésticos, usando os brinquedos como vassourinhas, espanador, pá de lixo, martelo, pano de pó, etc. Essa participação será de grande utilidade para o seu desenvolvimento.

Brinquedos: - Ferramentas de jardim, roupas de bonecas com casas e botões grandes e talvez uma lousa com giz, para as crianças que ainda possuem um pouco de visão.

Durante o 5º ano: - A criança deverá:
- Fazer a higiene pessoal sozinha.
- Lavar o rosto sem precisar de ninguém.
- Andar pela vizinhança, sozinha, se para isso não precisar atravessar a rua, aprendendo a ir e voltar.
- Vestir-se, exceto amarrar cordões.
- Dramatizar canções e histórias.
- Escorregar e pular num pe só.

Sugestões para o 5º ano - Incentive a criança para que faça algum trabalho manual, terminando sempre o que começou. O trabalho dá estabilidade emocional, auxilia a distribuir as energias, a manter o equilíbrio e a solidificar o caráter.

A criança cega precisa de estímulo para conservar-se ocupada construtivamente e para sentir satisfação e confiança em si própria, o que só ocorre pelo sucesso que obtenha. Daí a sugestão para proporcionar-lhe a oportunidade de fazer alguma coisa para oferecer de presente e incutir-lhe a noção de responsabilidade por meio de trabalhos domésticos, conforme já mencionado anteriormente.

Não é fácil encontrar-se para uma criança cega dessa idade, material para trabalhos manuais, porquanto ela tem certa tendência para um pouco de retardamento no desenvolvimento do tônus muscular e da coordenação de movimentos necessários para tais trabalhos. Essa é, pois, uma razão muito importante para que se procure interessar a criança por meio de um ensino paciente, sem causar-lhe esforço excessivo.

As possibilidades prováveis, para tais crianças são: enfiar contas grandes ou pipocas, tecelagem rústica como seja: fazer seguradores de panelas com alças e toalhas de cânhamo grosso, papel crepom ou ráfia, cestas com esse mesmo material; modelagem simples, em barro, tais como: vasinhos, bolinhas, etc. Pintura com tinta a dedo ou guache, apenas pelo prazer de com essas pinturas, decorar uma folha de papel que servirá para embrulhos, capa de livros ou quaisquer outras finalidades imagináveis.

Embora os blocos de madeira e de encaixe também representem materiais produtivos, deve-se dizer que, em geral, a criança cega mostra pouco interesse espontâneo pelos mesmos. Presume-se que isto se deva ao fato de não possuírem conceitos de arquitetura e do plano vertical. Por essas mesmas razões, esses materiais são uma grande ajuda para que a criança desenvolva esses conceitos nesta idade, ou mesmo mais tarde.

Nessa época, a criança mostrará desejo de ir para a escola e precisará de experiências mais amplas para se locomover fora de casa.

Brinquedos: - Patins de rodas, livros (para as crianças com alguma visão) e um cavalete com papel para pintura e desenho (com pincel de pelo menos meia polegada de largura) e lousa. Instrumentos musicais simples como:
um piano de brinquedo, xilofone, gaita, flauta doce, viola, campainhas, ocarinas, sanfonina, pandeiro, tamborim, bumbo, chocalhos, triângulo, etc. Alguns desses instrumentos, principalmente os de percussão, também são apropriados para as crianças mais jovens. Se a criança demonstrar interesse e aptidão, um piano ou teclado será bastante útil para sua iniciação formal na música.

Durante o 6º ano - A criança deverá:
- Saber andar de patins.
- Ir para a escola ou outro lugar, sem dificuldade.
- Interessar-se pelos acontecimentos da vida cotidiana.
- Fazer perguntas sobre o sentido das palavras e das coisas.
- Contar pormenorizadamente uma história.
- Ajustar-se aos regulamentos de um jardim da infância moderno.

Sugestões para o 6º ano - Brinquedos muito parecidos com os já indicados para os cinco anos, adicionando-se brinquedos de marceneiro, dominó em alto relevo, bola de couro com guizo, embora poucas crianças estejam preparadas para apreciar essa distração. Nessa idade será útil iniciar a prática de atividades físicas mais fortes. Para tanto, recomenda-se a colaboração de um professor de Educação Física para a orientação adequada às condições peculiares da criança. Se possível, iniciar também o treinamento da locomoção com bengala.


VII - MATERIAIS ÚTEIS AO DESENVOLVIMENTO INFANTIL

Ainda que muito do que se segue já tenha sido mencionado, é conveniente considerar, neste momento, alguns aspectos referentes à utilização de materiais educativos. Tais materiais podem ser encontrados em todos os lares, sob a forma de objetos caseiros. Entre aqueles que conduzem à aprendizagem, temos os potes, panelas e outros utensílios de cozinha. Roupas e lençóis velhos, cobertores, pedaços de madeira, martelo, pregos grandes e outras coisas que são encontradas no quintal, como areia e barro, também são muito úteis para o mesmo fim.

Esses materiais do ambiente são, em grande pane, adequados para todas as crianças durante os primeiros anos de vida. Até que a criança esteja funcionando em um nível de dois anos de idade, não é necessário comprar muitos brinquedos, ou objetos para ela.

A escolha de material para um determinado menino ou menina, deve estar baseada no nível de desenvolvimento da criança, levando-se em consideração o que o seu próprio lar possui, ou pode proporcionar. Enquanto a criança se desenvolve e vai adquirindo um certo número de experiências, ela revela preferências e pode selecionar muitos objetos com os quais já se familiarizou.

Ao comprar materiais para criança com limitação visual, devem ser observados os aspectos que lhe permitam uma experiência completa. Esses materiais devem ser considerados em termos de peso, textura, som, cor, odor, movimento, aparência e possíveis usos. Se a criança possui alguma percepção visual residual, os aspectos visuais do objeto também devem ser considerados, com maior ênfase. Certas qualidades do material, como o brilho, por exemplo, precisam ser evitados.

Existem à venda jogos ou brinquedos que podem ser montados de uma ou várias maneiras e que, por isso, têm um significado maior para a criança com limitações visuais. Por exemplo: uma superfície com textura diferente colada sobre outra, pode tomar-se muito interessante para a percepção tátil.

Como regra geral, uma criança beneficia-se com poucos brinquedos, porem, eles devem ser bem selecionados, de modo que cada um proporcione uma experiência de aprendizagem diferente. Particularmente, uma criança no início, deve estar apta a explorar cada brinquedo ou material recebido e deve ter a oportunidade de usá-los muitas vezes. Ela deve dispor de um lugar para guardar os seus pertences de modo que possa pegá-los sempre que estimulada a fazê-lo, ou quando assim o deseje.

A criança deficiente visual deve aprender, desde cedo, que certos lugares da casa e do quintal são para brincar e trabalhar, enquanto os outros não servem para isto. Deverá também aprender como e onde guardar as coisas, não apenas as suas. O sentimento de ser um membro participante da família pode começar a se desenvolver através dessa maneira simples, porém importante de educar.

Quando se apresentar a uma criança deficiente visual um brinquedo ou objeto, deve-se colocá-lo diretamente em suas mãos e auxiliá-la a conhecer os seus diferentes aspectos. Somente passar a mão pela superfície não é suficiente. Se o objeto é do tamanho da mão, deve ser segurado pela criança para que possa sentir sua leveza ou peso.

Ela também precisa distinguir as características de textura, com a superfície interna da palma das mãos e pontas dos dedos. E importante que o objeto seja examinado mais detalhadamente com o polegar e os dedos de uma ou ambas as mãos. Deve também ser cheirado, examinado nas suas possíveis partes móveis e olhado, se a criança possui alguma visão. A criança bem pequena, irá também explorar o gosto e sentir o material com os lábios, língua e dentes.

Se o objeto a explorar for maior que o tamanho da mão, poderá ser analisado através dos exames acima mencionados. Entretanto, poderá haver a necessidade de mais tempo e contato para verificá-lo por inteiro. Em geral, um exame do objeto em seu todo com as mãos e dedos, seguido de um exame mais detalhado das partes separadas e um outro exame completo, poderá ser um bom início para muitas crianças.

A criança visualmente limitada, especialmente no princípio, precisará ser ensinada a observar as coisas. A medida em que se desenvolve, a criança tornar-se-á cada vez mais apta a realizar isto, por si mesma, de maneira significativa e aprenderá a elaborar certas modificações, de acordo com as suas necessidades.

Quando se mostra um objeto pela primeira vez a um deficiente visual, torna-se imprescindível o uso de palavras adequadas, juntamente com a apresentação física. As palavras escolhidas para dizer o que a criança pode compreender, irão ensiná-la a conhecer o objeto em suas mãos, da mesma forma que contribuirão para o desenvolvimento do vocabulário. Ajudá-la-ão também, a adicionar novas experiências àquelas já adquiridas e fazê-la sentir a participação e a preocupação do adulto com a sua pessoa.

Muitos brinquedos apreciados pelas crianças videntes, podem também ser apreciados por crianças deficientes visuais, ainda que por motivos diferentes. Durante o primeiro ano de vida, esse fato pode ser especialmente reconfortante para os pais de crianças cegas. Comprar brinquedos que seus amigos compram para seus filhos videntes, faz os pais sentirem que seus filhos são, em primeiro lugar, crianças e depois, que têm limitações.

É importante que os pais não se tornem bloqueados pelo medo de que o "tipo errado" de brinquedo vá parar nas mãos de sua criança. Ao contrário, precisam ser auxiliados a compreender "quando" a sua criança usa algo de uma "maneira diferente" e quais são seus objetivos e prazeres em realizar tal coisa.

Não há dúvida de que os materiais educativos devam ser cuidadosamente selecionados e os adultos podem tornar-se habilidosos na escolha de brinquedos. Quando as diretrizes adequadas forem compreendidas e usadas, a responsabilidade parecerá menos aterradora.

Os materiais educativos agrupados na lista que se segue, se encontram mais ou menos em ordem, de acordo com o grau de dificuldade da tarefa envolvida (em termos de atenção desejada, uso muscular, coordenação mão/ ouvido/olho, etc.). Entretanto, deve haver muitas falhas, tanto em termos de interesse quanto de capacidade, quando se considera cada criança individualmente.

Dentro de cada categoria, deve-se pensar em termos de se iniciar pelos materiais mais simples, fáceis e grandes e daí, partir para os mais difíceis e refinados.

E preciso estar bem ciente de que essa lista não representa uma hierarquia progressiva. Por exemplo, "livros", em termos da criança utiliza-los para a leitura, irão exigir um nível mais avançado de realização. Por outro lado, considerando-se o interesse da criança nos livros que são lidos para ela, é óbvio que se requer um nível de realização muito mais elementar.

Alguns materiais, como por exemplo bonecas, podem ser agradáveis e proporcionar entretenimento para uma criança bem jovem, devido a certas qualidades de formas, tamanho, textura, odor, etc., porém, só mais tarde evocarão interesse como representativos de parceiros da vida real.


1 - MATERIAIS EDUCATIVOS PARA CRIANÇAS DEFICIENTES VISUAIS
- brinquedos de berço para serem vistos, tocados, cheirados e ouvidos;
- para encorajar o controle da cabeça e o sentar-se;
- para encorajar o uso das duas mãos juntas na parte central do corpo e o agarrar de maneira gradativamente refinada;
- para morder;
- para sentir através do agarrar;
- para apreciar através do segurar;
- para explorar tatilmente;
- para produzir som, para fazer com que coisas diferentes aconteçam;
- para encorajar o "alcançar" e a mobilidade através do engatinhar, do ficar de pé, do andar;
- para sentar-se, montar, movimentar-se;
- para desenvolver algum trabalho do polegar;
- para carregar, para retirar ou colocar dentro de alguma coisa (objetos de diferentes tamanhos, texturas, sons, pesos e formas);
- para encorajar diferentes formas de seguir direções com movimentos do corpo (exemplo: discos, jogos de ritmo, etc.);
- materiais como barro, areia, lama, tinta a dedo, água, coisas para espalhar, rolar, modelar, cheirar, sentir;
- objetos com partes móveis que se separam e podem ser colocadas juntas novamente, que desenroscam e enroscam, que se encaixam e desencaixam;
- coisas relacionadas com "brinquedos de faz de conta" (por exemplo: vestir e brincar de casinha, mecânico, marceneiro, jardineiro, etc.).
- materiais para serem colocados em ordem por uma dimensão ou outra;
- com partes que devem ser discriminadas, combinadas principalmente pela forma, tamanho, textura, peso, posição, cor;
- julgadas semelhantes ou diferentes;
- contadas;
- para construção (blocos, jogos de construção);
- para que se dê um significado, devido a seu tamanho de miniatura e sua semelhança com objetos reais (bonecas, carros, móveis e equipamentos domésticos);
- materiais como tesouras, pastas, papeis, palitos, cola, giz, tintas;
- materiais como fios, contas e agulhas grandes;
- livros e outros materiais diretamente relacionados à leitura;


2 - ESCOLHA DE MATERIAL

Muitos dos materiais produzidos para as crianças de visão normal podem ser utilizados, eficientemente, pelas crianças deficientes visuais. Não é possível avaliar e indicar produtos, ou relacionar todas as organizações e empresas que fabricam bons materiais.

São muitas as empresas que investem grandes esforços para o atendimento às necessidades das crianças. Seus catálogos, enviados quando solicitados, oferecem uma grande variedade de produtos que podem ser escolhidos com segurança e economia.

Muitas empresas produzem discos para crianças que também são adequados aos deficientes visuais. Um grande número de gravadoras possui uma linha de produção para crianças em idade pré-escolar.

Quando os discos, fitas, televisão e rádio são empregados como meios objetivos e seletivos de educação e não como um recurso para manter as crianças passivas, por longos períodos de tempo, podem ser amplamente utilizados na aprendizagem e para estimular novos interesses e atividades.

Os livros infantis contêm inúmeras variedades em termos de assunto, tamanho, ilustrações, vocabulário, objetivos, etc. A seleção de livros para uma determinada criança, deve ser feita com base em suas necessidades individuais, tal como para as crianças videntes. A criança com visão subnormal aprecia o colorido das páginas, talvez até mesmo as suas gravuras, quando mostradas a ela, à medida que a leitura é feita.

As crianças que vêem um pouco mais, podem apreciar detalhes menores das ilustrações, quando forem solicitadas a participar da leitura. A maioria dos livros para essas crianças deve ser escolhida pelas suas qualidades de motivação na criança. Certamente alguns desses materiais são selecionados principalmente pelos seus significados e aspectos auditivos.

Para as crianças cegas, os livros feitos em casa, também são muito significativos. Entretanto, eles interessarão a todas as crianças. Antes de tudo, é importante que a criança pré-escolar ouça a leitura, sempre mais e mais, para que bem cedo descubra os enormes valores e prazeres advindos dessa atividade.


VIII - PRONTIDÃO PARA O TRABALHO ESCOLAR

O momento exato na vida da criança no qual ela é considerada “pronta” para iniciar o trabalho escolar é geralmente antecipado com prazer. Se os adultos que convivem com a criança demonstram sentimentos positivos sobre seus dias escolares, é bem provável que a criança queira ir, o mais breve possível, para a escola.

O sucesso escolar da criança e de toda a sua vida em função da escola. vai depender de uma série de fatores não relacionados diretamente com a idade em que ela começa a freqüentar a escola e nem ao tipo de programa no qual ela esteja matriculada. Para que isso aconteça, toda criança precisará de certas atitudes, maneiras de trabalhar, capacidades e habilidades. Entre elas, convém serem citadas:
- saber usar bem os grandes músculos;
- escutar atentamente;
- seguir instruções e ordens;
- entender palavras que designam localização e direção;
- movimentar-se por si mesma;
- trabalhar da esquerda para a direita;
- distinguir o que é semelhante e diferente, em relação a sons, formatos e texturas;
- usar significativamente as palavras;
- cuidar de si própria;
- usar bem a musculatura fina.

Também são relevantes as condições do desenvolvimento emocional e social. Entre as habilidades e atitudes adquiridas ressaltam-se:
- sentir-se bem consigo mesma;
- gostar das coisas que está fazendo;
- trabalhar com outras pessoas

*


- trabalhar para os outros
- trabalhar só
- suportar uma tarefa por períodos de tempo cada vez maiores
- tentar coisas novas com boa vontade

As crianças que conseguirem desenvolver essas atitudes, capacidades e habilidades mencionadas acima, se encontram em condições para um bom e completo envolvimento na vida escolar.

Terminam aqui as considerações abrangendo o período pré-escolar. Seu filho, certamente, está pronto para ir para o colégio. Por mais importância que se tenha dado neste manual à preparação para a vida, não deve ela ter obscurecido o fato de que a vida da criança, como a vida do adulto, é importante por si própria, em qualquer de suas fases. A propósito, cita-se um pensamento do Professor Dewey: - "Por ser grande a necessidade de preparação para um desenvolvimento contínuo da vida, é imperativo que cada uma de nossas energias seja dirigida, tanto quanto possível, à experiência do momento a fim de tomá-la rica e significativa. Daí, como o presente se funde insensivelmente no futuro, automaticamente este último está sendo zelado."


IX - A BUSCA DA EDUCAÇÃO FORMAL

É fundamental a consciência da cidadania por parte dos pais de uma criança cega, independentemente do grau de escolaridade que possam ter, a fim de que busquem com afinco e possibilidade de êxito, as oportunidades educacionais garantidas por lei a todos os cidadãos.

Essa consciência aqui referida começa pelo conhecimento dos deveres e direitos do cidadão, enquanto tal e suas responsabilidades enquanto pais, para buscarem com empenho os direitos de seus filhos, sejam ou não portadores de deficiências.

A primeira fonte de informações a se procurar, deve ser a Constituição da República Federativa do Brasil, promulgada em 5 de outubro de 1988. Na Carta Magna vamos encontrar as respostas e as indicações de caminhos a percorrer para o pleno exercício da cidadania.

Com relação à educação, diz o Art. 205 - "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho."

Art. 206 - "O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

1 - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II - liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber;

III - pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino;

IV - gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais;

V - valorização dos profissionais do ensino, garantido, na forma da lei, planos de carreira para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso exclusivamente por concurso público de provas e títulos, assegurado o regime jurídico único para todas as instituições mantidas pela União;

VI - gestão democrática do ensino público, na forma da lei;

VII - garantia de padrão de qualidade."


Art. 208 - "O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de:

1 - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;

II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;

III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferivelmente, na rede regular de ensino;

IV - atendimento em creches e pré-escolas às crianças de zero a seis anos de idade;

V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;

VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do educando;

VII - atendimento ao educando, no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde.

§1º - O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo.

§2º - O não-oferecimento do ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa responsabilidade da autoridade competente.

§3º - Compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis pela freqüência à escola."

Art. 211 §2º - "Os municípios atuarão prioritariamente no ensino fundamental e na educação infantil."

Art. 214- "A lei estabelecerá o plano nacional de educação, de duração plurianual, visando à articulação e ao desenvolvimento do ensino em seus diversos níveis e à integração das ações do Poder Público que conduzam à:

1- erradicação do analfabetismo;

II - universalização do atendimento escolar;

III - melhoria da qualidade do ensino;

IV - formação para o trabalho;

V - promoção humanística, científica e tecnológica do País."


Outra fonte de direitos a explorar e fazer valer se refere ao Estatuto da Criança e do Adolescente, promulgado em 13 de julho de 1990. Em seu Título II, Capítulo IV, DO DIREITO À EDUCAÇÃO, A CULTURA, AO ESPORTE E AO LAZER, vamos encontrar:

Art. 53 - "A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes:

1 - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

II - direito de ser respeitado por seus educadores;

III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores;

IV - direito de organização e participação em entidades estudantis;

V - acesso à escola pública e gratuita próxima de sua residência;

Parágrafo único - É direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais."

Art. 54 - "É dever do Estado assegurar à criança e ao adolescente:

1 - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que a ele não tiveram acesso na idade própria;

II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao ensino médio;

III - atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferentemente na rede regular de ensino;

IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis anos de idade;

V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um;

VI - oferta de ensino noturno regular, adequado às condições do adolescente trabalhador;

VII - atendimento no ensino fundamental, através de programas suplementares de material didático-escolar, transporte, alimentação e assistência a saúde,

§1º - O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito público subjetivo.

§2º - O não oferecimento de ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular importa responsabilidade da autoridade competente.

§3º - Compete ao Poder Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a chamada e zelar, junto aos pais ou responsável, pela freqüência à escola."

Art. 55 - "Os pais ou responsável têm a obrigação de matricular seus filhos ou pupilos na rede regular de ensino."

Art. 56 - "Os dirigentes de estabelecimentos de ensino fundamental comunicarão ao Conselho Tutelar os casos de;

1 - maus-tratos envolvendo seus alunos;

11 - reiteração de faltas injustificadas e de evasão escolar, esgotados os
recursos escolares;

III - elevados níveis de repetência.

Art. 57 - "O Poder Público estimulará pesquisas, experiências e novas propostas relativas a calendário, seriação, currículo, metodologia, didática e avaliação, com vistas à inserção de crianças e adolescentes excluídos do ensino fundamental obrigatório."

Art. 58 - "No processo educacional respeitar-se-ão os valores culturais, artísticos e históricos próprios do contexto social da criança e do adolescente, garantindo-se a estes a liberdade de criação e o aceso às fontes de cultura."

Art. 59 - "Os Municípios, com o apoio dos Estados e da União, estimularão e facilitarão a destinação de recursos e espaços para programações culturais, esportivas e de lazer voltadas para a infância e juventude."

Ainda no Título II, Capítulo V - DO DIREITO À PROFISSiONALIZAÇÃO E À PREPARAÇÃO PARA O TRABALHO - vamos encontrar o seguinte:

Art. 60 - "É proibido qualquer trabalho a menores de catorze anos de idade, salvo na condição de aprendiz."
 
Art. 61 - "A proteção ao trabalho dos adolescentes é regulada por legislação especial, sem prejuízo do disposto nesta Lei."

Art. 62 - "Considera-se aprendizagem a formação técnico-profissional ministrada segundo as diretrizes e bases da legislação de educação em vigor."

Art. 63 - "A formação técnico-profissional obedecerá aos seguintes princípios:

1 - garantia de acesso e freqüência obrigatória ao ensino regular;

II - atividade compatível com o desenvolvimento do adolescente;

III - horário especial para o exercício das atividades."

Art. 64 - "Ao adolescente até catorze anos de idade é assegurada bolsa de aprendizagem."

Art. 65 - "Ao adolescente aprendiz, maior de catorze anos, são assegurados os direitos trabalhistas e previdenciários."

Art. 66- "Ao adolescente portador de deficiência é assegurado o trabalho protegido."

Art. 67 - "Ao adolescente empregado, aprendiz, em regime familiar de trabalho, aluno de escola técnica, assistido em entidade governamental, ou não governamental, é vedado trabalho:

1 - noturno, realizado entre as vinte e duas horas de um dia e as cinco horas do dia seguinte;

II - perigoso, insalubre ou penoso;

III - realizado em locais prejudiciais à sua formação e ao seu desenvolvimento físico, psíquico, moral e social;

IV - realizado em horários e locais que não permitam a freqüência à escola."

Art. 68 - "O programa social que tenha por base o trabalho educativo, sob responsabilidade de entidade governamental ou não-governamental sem fins lucrativos, deverá assegurar ao adolescente que dele participe condições de capacitação para o exercício de atividade regular remunerada.

§1º - Entende-se por trabalho educativo a atividade laboral em que as exigências pedagógicas relativas ao desenvolvimento pessoal e social do educando prevalecem sobre o aspecto produtivo.

§2º - A remuneração que o adolescente recebe pelo trabalho efetuado ou a participação na venda dos produtos do seu trabalho não desfigura o caráter educativo."

Art. 69 - "O adolescente tem direito à profissionalização e à proteção no trabalho, observados os seguintes aspectos, entre outros:

1 - respeito à condição peculiar de pessoa em desenvolvimento;

II - capacitação profissional adequada ao mercado de trabalho."

Tão importante quanto ter conhecimento dos direitos é ter consciência das responsabilidades e obrigações, mesmo porque, perante ao Poder Judiciário, ninguém pode alegar o desconhecimento da lei, ainda que não haja usufruído dos benefícios da educação. Em atenção a esses imperativos, arrolam-se, a seguir, alguns artigos do Código Penal, em seu Titulo VII - DOS CRIMES CONTRA A FAMÍLIA - Capítulos II (dos crimes contra o estado de filiação) e Capítulo III (dos crimes contra a assistência familiar).

Art. 243 - "Deixar em asilo de expostos ou outra instituição de assistência filho próprio ou alheio, ocultando-lhe a filiação ou atribuindo-lhe outra, com o fim de prejudicar direito inerente ao estado civil:

Pena - reclusão de 1 (um) a 5 (cinco) anos, e multa."

Art. 244 - "Deixar, sem justa causa, de prover a subsistência do cônjuge, ou de filho menor de 18 (dezoito) anos ou inapto para o trabalho, ou de ascendente inválido ou valetudinário, não lhes proporcionando os recursos necessários ou faltando ao pagamento de pensão alimentícia judicialmente acordada, fixada ou majorada; deixar, sem justa causa, de socorrer descendente ou ascendente, gravemente enfermo:

Pena - detenção de 1 (um) a 4 (quatro) anos, e multa, de uma a dez vezes o maior salário mínimo vigente no País."

Art. 245 - "Entregar filho menor de 18 (dezoito) anos a pessoa em cuja companhia saiba ou deva saber que o menor fica moral ou materialmente em perigo:

Pena - detenção de 1 (um) a 2 (dois) anos."

Art. 246 - "Deixar, sem justa causa, de prover à instrução primária de filho em idade escolar:

Pena - detenção de 15 (quinze) dias a 1 (um) mês, ou multa."

Art. 247 - "Permitir alguém que menor de 18 (dezoito) anos, sujeito a seu poder ou confiado a sua guarda ou vigilância:
1 - freqüente casa de jogo ou mal-afamada, ou conviva com pessoa viciosa ou de má vida;

II - freqüente espetáculo capaz de pervertê-lo ou de ofender-lhe o pudor, ou participe de representação de igual natureza;

III - resida ou trabalhe em casa de prostituição.

IV - mendigue ou sirva a mendigo para excitar a comiseração pública:

Pena - detenção de 1 (um) a 3 (três) meses, ou multa."


Conscientes de suas atribuições e responsabilidades sociais para com os filhos, deficientes ou não, cabe aos pais buscar as oportunidades educacionais que atendam às necessidades dos mesmos. Assim, quando se trata de crianças cegas, muito provavelmente, serão encontradas limitações várias para a matrícula de tais alunos na rede regular de ensino, pública ou particular.

O empecilho mais freqüente a ser removido, diz respeito à falta de conhecimento dos profissionais da educação quanto às possibilidades educacionais e maneiras de desenvolver um trabalho educativo com alunos deficientes visuais, principalmente quando necessitam da escrita e leitura braile.

Um outro tipo de obstáculo, muito freqüente, se refere à carência de professores especializados em educação de deficientes visuais, assim como a quase raridade da disponibilidade do serviço desses profissionais na rede regular de ensino, no País como um todo e nas diferentes Unidades da Federação, para fazer face ao direito do menor de receber atendimento educacional o mais próximo possível de sua residência.

Assim, é muito forte o imperativo social da criança cega ter que se deslocar para os grandes centros metropolitanos em busca de atendimento educacional, geralmente em regime de internato, porque suas comunidades de origem além de não oferecerem este tipo de serviço, desconhecem sua viabilidade econômico-social.

É importante, pois, que os pais estejam esclarecidos de que "estudar na mesma cidade e o mais próximo de sua residência, não é um sonho, mas um direito extensivo também aos deficientes visuais". Está tecnicamente comprovado que isto é possível e que os benefícios educacionais são maiores que as dificuldades encontradas. A concepção de que os cegos devam ser educados somente em escolas especiais se prende a uma postura intelectual preconceituosa, ou no mínimo saudosista, pois, foi assim que a educação especial teve seu início, mas evoluiu para a integração na rede oficial, em todos os níveis.

Tanto a legislação federal quanto a estadual prevê, em todo o País, o atendimento educacional especializado na rede pública aos portadores de deficiência, inclusive a visual. A não oferta desses serviços, ou a sua irregularidade, constitui responsabilidade da autoridade competente.

É tarefa dos pais reclamarem o direito de seus filhos, para que isto se torne uma realidade. Convém ressaltar que o direito não exercido acaba não sendo reconhecido.

Ao esbarrar com o "não" à matrícula do filho cego na escola mais próxima de sua residência, devem os pais procurar o Promotor de Justiça no Fórum da cidade para que o direito do menor à escolaridade seja garantido. Cabe-lhes igual direito de optar pelo atendimento na rede pública ou em entidades particulares.

Uma vez feita a opção pelo atendimento na rede pública, os pais não devem abrir mão dela devendo organizar-se e lutar para que sejam criados serviços locais para o atendimento de seus filhos.

Se a formalização do atendimento local fôr demorar demasiadamente, certamente, não será sem alguma relutância que você pensará na separação inevitável ocasionada pela ida à escola distante. Igual sentimento terá a criança que, estando feliz e segura em casa, não desejará partir.

Todavia, para o adulto que deseja preparar a criança, o melhor possível para a vida, esse pensamento doloroso da separação se mesclará ao sentimento de gratidão proveniente da boa educação que será dada ao filho. As perspectivas de vida de uma criança cega seriam realmente bem sombrias sem tal oportunidade.

Se você encarar essa nova experiência com espírito empreendedor, a criança também logo cairá em si e, apesar da saudade, aceitará de boa vontade essa separação que lhe trará os resultados benéficos de sua educação.

A maioria das crianças ajusta-se muito bem ao ambiente cultivado nas escolas para os cegos, onde suas necessidades são compreendidas e onde elas nunca serão tratadas, nem com demasiada indulgência, nem tão pouco serão obrigadas a cumprir exigências excessivas.

Seu filho, naturalmente, ainda precisa de você e será de grande utilidade para ele se você, focalizando uma cooperação ativa, procurar manter relações amistosas com os professores e dirigentes da escola.

Será também uma grande ajuda para a criança, se você aprender a escrever o braile para assim manter com ela uma correspondência íntima, o que exclui a intervenção de terceiros. Esse seu interesse estimulará, grandemente, os esforços da criança que procurará aperfeiçoar-se, tanto na escrita, quanto na leitura do braile.

O escrever é mais fácil para uma pessoa vidente. Você usará a escrita em braile apenas para lhe escrever suas cartas mais íntimas e, após alguns anos, seu filho poderá escrever em máquina comum de datilografia.

Enquanto ele permanecer na escola, longe de casa, será o tempo adequado para que você se familiarize com os elementos existentes sobre os cegos, por meio da leitura de livros especializados no assunto. Os pais que residem fora do município em que seu filho estuda, podem se dirigir às delegacias regionais de ensino, bibliotecas públicas e às faculdades de educação, medicina e psicologia das universidades, para obterem esse tipo de informação.

Concomitantemente, devem os pais prosseguir na luta pela criação de serviços locais, a fim de terem, o mais breve possível, seus filhos de volta ao lar, para que não ocorra uma defasagem acentuada na integração social deles.

As crianças são aceitas nos jardins da infância das escolas para cegos, aos cinco anos. Antes dessa idade não é aconselhável. Existem algumas crianças que, primeiramente, entram para um jardim da infância público e, aos seis anos, ingressam numa escola para cegos.

Raramente, o adiar-se a entrada da criança na escolas até que ela esteja mais velha, é de bom alvitre. Esse procedimento, quase sempre, só traz prejuízos. Isto ocorre porque, aos seis anos, as forças intelectuais da criança estão prontas para se expandirem e anseiam por um trabalho positivo.

Como seus companheiros também freqüentam as escolas, é muito melhor para ela poder ter os mesmos assuntos, fazer os mesmos planos, indo portanto, para a escola. A demora poderá, pois, causar na criança cega uma espécie de choque que a deixará deprimida.

Por esse tempo, ela já estará compenetrada do seu estado de cegueira e pode-se, então, explicar-lhe que é preciso que vá para uma escola onde lhe ensinarão a ler com os dedos, uma vez que ela não enxerga o suficiente para ler como as outras crianças. Com a sua atitude natural e confiante, a criança encarará normalmente esta nova experiência.

Agora, a sua criança alcançou uma idade em que, talvez pela primeira vez, terá que enfrentar uma verdadeira concorrência por conta própria. Se como estímulo de seus pais, ela levar consigo para esse mundo mais vasto, uma sensação real de segurança resultante de uma orientação e treinamento sábios e dedicados durante os primeiros anos da infância, você sentirá, com certeza, que a vida realmente recompensa o esforço verdadeiro. A criança, nesse ínterim, encarará a vida com convicção de que "mesmo para ela", existem muitas coisas infinitamente interessantes, belas e preciosas, dignas de serem buscadas por um ser humano.


REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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CARROL, Thomas J. - Cegueira - São Paulo - Campanha Nacional de Educação de Cegos, MEC, 1968

CUTSFORTH, Thomas D. - O CEGO NA ESCOLA E NA SOCIEDADE, UM ESTUDO PSICOLOGICO - São Paulo - Campanha Nacional de Educação de Cegos, MEC, 1969

DROUILLARD, Richard - DEIXE-O TORNAR-SE INDEPENDENTE – Santos - Lar das Moças Cegas - 1988

HALLIDAY, Carol - Crescimento, Aprendizagem e Desenvolvimento da Criança Visualmente Incapacitada – São Paulo - Fundação para o Livro do Cego no Brasil -1975

MACIEL, Sylas F. - O ENSINO DA TÉCNICA DE LOCOMOÇÃO PARA OS CEGOS - in Lente n.o 19 vol. VI - São Paulo - Fundação para o Livro do Cego no Brasil - 1962

MACIEL, Sylas F. - MOBILIDADE E LOCOMOÇÃO in Anais do 1 Congresso Brasileiro de Educação de Deficientes Visuais - São Paulo - Campanha Nacional de Educação de Cegos, MEC - 1964

NEDER, Matilde – TREINAMENTO SENSORIAL, EDUCAÇÃO E REABILITAÇÃO, EM FUNÇÃO DA EXPERIÊNCIA SENSÍVEL, in Anais do 1 Congresso Brasileiro de Educação de Deficientes Visuais - São Paulo - Campanha Nacional de Educação de Cegos, MEC - 1964

POPPOVIC, Ana Maria - PRONTIDÃO PARA A ALFABETIZAÇÃO – São Paulo - Vetor Editora Psico-Pedagógica Ltda - 1966

ROCHA, Hilton - ENSAIO SOBRE A PROBLEMÁTICA DA CEGUEIRA - Belo Horizonte - Fundação Hilton Rocha - 1987

WRIGHT. Beatrice A. - UMA ANÁLISE DE ATITUDES: DINÂMICAS E EFEITOS - in Lente n.o 46 vol. XVI - São Paulo - Fundação para o Livro do Cego no Brasil – 1976


DADOS BIOGRÁFICOS DO AUTOR

SYLAS Fernandes Maciel, brasileiro, casado, Assistente Social e Professor Universitário, é natural de Santos (SP) onde nasceu a 05 de março de 1937. É filho de José Fernandes Samamede (espanhol) e de Maria da Conceição Maciel (Iguape-SP). E portador de visão subnormal desde a infância (primeiro ano de vida) em conseqüência de seqüela de sarampo.

Filho de operários, ao atingir a idade escolar, teve sua matrícula recusada em três unidades da rede de ensino oficial. A família buscou então o amparo da Justiça através do Juizado de Menores para garantir a educação do filho deficiente visual. Descoberta a possibilidade de educação especial, SYLAS foi encaminhado pela a Vara de Menores de sua cidade ao Instituto Padre Chico, em São Paulo (1944) onde cursou o Primeiro Grau pelo sistema braile, em companhia de mais ou menos 300 alunos (meninos e meninas).

O Segundo Grau foi feito em escola pública, no Colégio Roosevelt, já fazendo uso do sistema comum de leitura e escrita. SYLAS pretendia cursar Filosofia na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Todavia, ao conseguir emprego de escriturário numa Entidade Social, para poder pagar seus estudos, interessou-se por Serviço Social e, mesmo já tendo a inscrição para o exame vestibular em Filosofia, pleiteou e conseguiu a transferência da documentação para a Faculdade de Serviço Social na mesma universidade. Graduou-se como Assistente Social (1960), dedicando-se ao trabalho com os portadores de deficiência visual e toda a problemática sócio-cultural que envolve este segmento populacional e seus afins. Especializou-se em Orientação e Mobilidade do Deficiente Visual, com Dr. Joseph Albert Asenjo, da Organização Internacional do Trabalho, sendo o único profissional formado na primeira turma no Brasil que ainda se encontra em atividade. Especializou-se em Educação de Deficientes Visuais portadores de limitações adicionais, na Fundação Hilton Rocha, em convênio com a Universidade Federal de Minas Gerais. Obteve o título de Mestre em Serviço Social pela Faculdade de Serviço Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1987.

Profundamente envolvido com a problemática social dos portadores de deficiência visual, SYLAS, além de nunca haver deixado de prestar serviços diretos à clientela, dedicou-se a passar seus conhecimentos e experiências aos seus alunos, que são numerosos por todo o Brasil, através de cursos regulares de Especialização em Ensino de Cegos, prestando serviços a inúmeras Secretarias de Estado da Educação de várias Unidades da Federação, e também para a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, onde leciona Orientação e Mobilidade. Faz consultoria, presta assessoria a Entidades Públicas e Filantrópicas que desejam atender aos deficientes visuais em suas necessidades específicas decorrentes da condição de cegueira e/ou visão subnormal.

Em busca de melhores oportunidades de inclusão social das pessoas portadoras de deficiência visual, o Prof. SYLAS implantou no Brasil, juntamente com a Profa. Kaete Heymann, na Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Universidade Paulista, Campus de Jaboticabal, com a cooperação internacional da Christoffel Blindenmíssion e o apoio do Conselho Brasileiro para o Bem Estar dos Cegos, do qual é Delegado Estadual por São Paulo, o treinamento de pessoas cegas em atividades agropecuárias pelo "Projeto Jaboticabal -Agricultura para Cegos". Este trabalho expandiu-se para todo o país, sendo mais uma alternativa ocupacional para os portadores de deficiência visual, quer na zona urbana quanto na zona rural.

O Prof. SYLAS Fernandes Maciel realizou pesquisas para o Ministério da Educação sobre as oportunidades educacionais para os deficientes visuais nos Estados do Norte e Nordeste. Pesquisou também no Estado de São Paulo a qualidade e a quantidade do atendimento ao deficiente visual oferecido pelas entidades filantrópicas. Participou igualmente, de levantamentos e análises ocupacionais, entre outras, na Johnson & Johnson, em São José dos Campos (SP), visando o emprego da mão de obra de pessoas cegas.

O Prof. SYLAS Fernandes Maciel é Sócio Fundador da Associação Brasileira de Educadores de Deficientes Visuais, é Presidente da Associação de Parentes, Amigos e Deficientes Visuais de Osasco e Região, é Membro do Conselho Brasileiro para o Bem Estar dos Cegos, ex-presidente do Conselho Estadual para os Assuntos das Pessoas Portadoras de Deficiências, ocupou também o cargo de Membro da Congregação da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Ativo participante de congressos, simpósios e seminários, tem seus trabalhos publicados nos anais desses eventos, inclusive internacionais, todos versando sobre os mais variados enfoques de realização do potencial humano do deficiente visual na sua permanente busca de inclusão social: o direito ao trabalho, à liberdade – “o direito de ir e vir", entre outros.

Visando a socialização da informação, publicou: MANUAL DE ORIENTAÇÃO E MOBILIDADE, Belo Horizonte, SEE/MG, 1989. RECURSOS PROFISSIONAIS E INSTITUCIONAIS PARA ATENDIMENTO AO DEFICIENTE VISUAL NO BRASIL, São Paulo, ATC Comércio de Materiais Técnicos para Cegos, 1992; IMPORTÂNCIA DA LOCOMOÇÃO PARA A SAÚDE DO IDOSO DEFICIENTE VISUAL, in Anais da VI Conferência Internacional de Orientação e Mobilidade, Madri, ONCE, 1991;  PROJETO JABOTICABAL - AGRICULTURA PARA CEGOS, vídeo a cores, 30 minutos, São
Paulo, Conselho Brasileiro para o Bem Estar dos Cegos, 1987.

O Prof. SYLAS Fernandes Maciel tem forte interesse por atividades de pesquisas, aprecia ponderar e escrever sobre assuntos que possam beneficiar as pessoas com necessidades especiais. Gosta da boa leitura, da boa conversa e da boa música. Aprecia atividades físicas como caminhar, dançar, nadar, remar, andar de bicicleta, roçar e carpir. Considera-se uma pessoa bem sucedida. com muita coisa ainda para aprender e realizar.

UNIVERSIDADE DE ALFENAS - ALFENAS – MG - 1997

AUTORIDADES DA UNIVERSIDADE DE ALFENAS

Prof Edson Antônio Velano - Magnífico Reitor

Prof  Fuad Haddad - Pró Reitor de Graduação

Prof. Hudson Carvalho Biachini - Pró-Reitor de Extensão e Graduação

Prof. Vinícius Vieira Vignole - Pró-Reitor de Pesquisa e Produção Científica e Cu1tura~

Prof. Daisy Fabris Singi - Pró-Reitora de Assuntos Acadêmicos

Prof  Sylas Fernandes Maciel - Professor Convidado

 

 
 
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